A extração ilegal de madeira atinge o núcleo intocado da Amazônia, mostram pesquisas “aterrorizantes”

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  • Imagens de satélite mostram que a atividade madeireira está se espalhando de áreas periféricas da Amazônia em direção ao núcleo da floresta tropical, de acordo com pesquisas inovadoras.
  • O mapeamento por satélite de sete dos nove estados amazônicos do Brasil mostrou um padrão “assustador” de avanço da exploração madeireira que desmatou uma área três vezes o tamanho da cidade de São Paulo entre agosto de 2019 e julho de 2020 sozinho.
  • No nível estadual, a falta de transparência nos dados madeireiros torna impossível calcular quanto da produção de madeira é ilegal, dizem os especialistas.
  • Evidências de corte em reservas indígenas e unidades de conservação – onde a extração de madeira é proibida – deixam claro que a extração ilegal de madeira é responsável por grande parte da atividade, segundo o relatório.
  • Um dos principais temores sobre a Amazônia brasileira está começando a se materializar: a exploração madeireira está começando a se mover da periferia da floresta em direção ao núcleo do bioma, mostram novas pesquisas inovadoras.
Por  Juliana Ennes para o Mongabay News

Rastreando árvores cortadas por meio de dados de mapeamento de satélite, a pesquisa descobriu que as atividades madeireiras desmataram 464.000 hectares (1,15 milhões de acres) da Amazônia brasileira – uma área três vezes o tamanho da cidade de São Paulo – entre agosto de 2019 e julho de 2020. Mais da metade (50,8%) da exploração madeireira estaria concentrada no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas (15,3%) e Rondônia (15%).

“Há cerca de 20 anos, temíamos que a floresta fosse devastada no chamado ‘arco do desmatamento’ e o movimento migrasse das áreas periféricas em direção à região central da Amazônia”, disse Marco Lentini, coordenador sênior do projeto do Imaflora , uma ONG de desenvolvimento sustentável envolvida no projeto de mapeamento. “Nosso mapa mostra que isso está acontecendo agora: a extração de madeira está indo em direção ao núcleo da Amazônia.”

Ele disse que o padrão de extração era de “migração de fronteira”, acrescentando: “Isso é algo que nos apavora. Temos que estabilizar essa fronteira.”


A maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil viu a polícia recuperar 226.000 metros cúbicos (8 milhões de pés cúbicos) de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará em março de 2021. Imagem cortesia da Polícia Federal no estado do Amazonas.

A pesquisa, divulgada na semana passada, foi desenvolvida pela rede Simex formada por quatro organizações ambientais brasileiras sem fins lucrativos: Imazon, Imaflora, Idesam e Instituto Centro de Vida (ICV). As instituições afirmam que formaram a aliança para mapear, pela primeira vez, o desmatamento em quase toda a Amazônia. Eles conseguiram mapear sete dos nove estados que compõem a Amazônia brasileira – Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima – que juntos respondem por quase 100% da produção de madeira da floresta tropical.

Embora o mapeamento não tenha sido capaz de especificar a quantidade exata de árvores extraídas ilegalmente de florestas intocadas, a maior parte das ilegalidades concentrou-se na tríplice fronteira entre Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, onde foi detectada intensa atividade madeireira em uma reserva indígena e uma unidade de conservação. , segundo Vinicius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do ICV, organização sem fins lucrativos com sede em Mato Grosso. “As áreas protegidas nesta região apresentam grande presença de exploração madeireira e baixo nível de fiscalização, com muitos indícios de ilegalidade.”

O mapa do Sismex cobre as áreas onde a Polícia Federal realizou a maior apreensão de madeira ilegal da história do Brasil no início deste ano, recuperando 226 mil metros cúbicos (8 milhões de pés cúbicos) de madeira na fronteira entre os estados do Amazonas e Pará. Essa operação desencadeou a demissão do polêmico ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em junho, após ele ter pedido a liberação da madeira.

Dez municípios responderam por quase 200.000 hectares (494.000 acres) de exploração madeireira, cinco deles em Mato Grosso, dois no Amazonas e os demais em Roraima, Acre e Pará. A maior parte da atividade madeireira, 78%, supostamente ocorreu em propriedades privadas. As autorizações legais são freqüentemente usadas para mascarar a extração de madeira em áreas restritas por meio de um processo conhecido como lavagem de árvores, de acordo com as descobertas.

Um estudo mais detalhado desenvolvido pelo Imazon com foco no Pará mostra que mais da metade da exploração madeireira no estado não recebeu nenhuma autorização governamental. De agosto de 2019 a julho de 2020, 50.139 hectares (123.896 acres) de floresta foram devastados, sendo 55% sem autorização dos órgãos ambientais. Isso representou um crescimento de 20% em relação aos 12 meses anteriores, quando a extração não autorizada era de 38%, segundo o Imazon.

O mapa desenvolvido pela rede Simex mostra as concentrações da atividade madeireira no estado de Mato Grosso, seguido por Amazonas e Pará. Imagem cortesia da Simex. Antes do advento do projeto Simex , apenas Pará e Mato Grosso tinham mapas de satélite identificando áreas onde ocorria a exploração madeireira. O Imazon passou a monitorar o Pará em 2008 e o ICV aderiu à iniciativa em 2013, monitorando Mato Grosso. As instituições afirmam que esses estados foram seu foco inicial para a transparência de dados devido à alta atividade madeireira.

A extração de madeira não limpa a área florestal tão extensivamente quanto o desmatamento, e o crescimento da vegetação sobre os locais de extração pode dificultar a visualização via satélite, de acordo com Vinicius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do ICV.

“Com a exploração madeireira, diferente do desmatamento, ainda existe alguma cobertura vegetal. Podemos identificar cicatrizes na floresta feitas pelas estradas utilizadas para a movimentação das toras, bem como áreas desobstruídas para armazenamento. Existe toda uma infraestrutura em torno da exploração madeireira que nos ajuda a encontrar essas áreas ”, disse Silgueiro à Mongabay em entrevista por telefone.

Na maioria dos estados, no entanto, ele disse que é quase impossível verificar quando a atividade madeireira é ilegal, devido à falta de transparência ou barreiras tecnológicas. Muitas vezes, acrescentou, os certificados das atividades florestais legais são arquivados em papel, dificultando o cruzamento da base de dados de certificados com as imagens. Os únicos dois estados com bancos de dados digitalizados são Pará e Mato Grosso. 

Atividade madeireira no estado de Rondônia, com árvores já marcadas e aguardando transporte. Imagem cortesia de Vicente Sampaio / Imaflora.

Outro desafio é que os certificados que permitem o manejo florestal fornecem as coordenadas de localização, mas não o arquivo de formato – o mapa digital – da área, o que dificulta os esforços para identificar por meio de imagens de satélite onde ocorre a extração ilegal de madeira, segundo Lentini.

Apesar desses desafios, há casos em que fica muito claro que a exploração madeireira é ilegal, disse Lentini: quando acontece em áreas protegidas como reservas indígenas e unidades de conservação. O estudo constatou que 6% da extração madeireira na Amazônia, ou 28.112 hectares (69.466 acres), estava em unidades de conservação durante o período de estudo; 5% estava em reservas indígenas, em 24.866 hectares (61.445 acres). “Essas áreas não têm nenhum tipo de autorização para extração legal”, disse Silgueiro.

Um relatório de 2018 do Greenpeace, intitulado “Árvores imaginárias, destruição real ”, destacou a falta de confiabilidade dos sistemas de licenciamento e controle florestal do Brasil, o que torna mais difícil combater a fraude.

“Uma falha crítica na governança florestal dos estados amazônicos está na fraqueza do processo de licenciamento para planos de manejo florestal sustentável”, disse o relatório. Em sua maioria, não são realizadas inspeções de campo antes da elaboração dos planos de manejo, ou essas inspeções são de baixa qualidade, de acordo com o relatório.

“Isso permite que os engenheiros florestais … superestimem os volumes ou adicionem de forma fraudulenta árvores de alto valor comercial ao inventário florestal da área. Posteriormente, os órgãos estaduais emitem créditos pela colheita e movimentação dessa madeira inexistente ”, que será desmatada de florestas em terras indígenas, áreas protegidas ou públicas, segundo apuração do Greenpeace. 

Autoridades ambientais do estado do Pará apreendem madeira ilegal em operação de fiscalização em 2021. Imagem cortesia da Agência Pará.

Silgueiro, do ICV, disse que a extração legal e ilegal persiste em proporções em torno de 60:40. “Quanto mais documentação legal houver para explorar a floresta, mais madeira ilegal haverá”, disse ele. Ele acrescentou que a fraude madeireira só vai parar quando todo o processo se tornar rastreável por meio de tecnologias que ajudam a estimar o volume real de produção de madeira e rastrear cada árvore individualmente. “A rastreabilidade da produção é fundamental”, disse Silgueiro. “Essa tecnologia já existe, mas os estados produtores demoram a adotá-la”.

O impacto ambiental da extração ilegal de madeira é imenso. Estudos recentes mostram que a Amazônia brasileira é agora uma fonte líquida de CO2 , em vez de ser um sumidouro de dióxido de carbono como seria de se esperar, devido a fatores que incluem a exploração madeireira.

Imagem do banner:  Um caminhão carrega toras cortadas da Floresta Amazônica no estado de Rondônia. Imagem cortesia de Vicente Sampaio / Imaflora.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Mongabay News [Aqui!].

Pesquisadoras aproximam ciência e combate ao fogo em MT

Nos três biomas do estado, grupo acompanha brigadas do Corpo de Bombeiros para aprimorar controle de incêndios e queimadas; previsão é de que fogo seja maior este ano

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Quando: de quinta-feira, 5 de agosto, a sábado, 14 de agosto

Onde: Chapada dos Guimarães (Cerrado), Poconé (Pantanal) e Marcelândia (Amazônia)

Um grupo de pesquisadoras do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, irá integrar, a partir desta quinta-feira, uma expedição para acompanhar o Batalhão de Emergências Ambientais do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso em ações de prevenção e combate ao fogo. A proposta é percorrer os três biomas do estado para colher dados e identificar problemas, a fim de pensar soluções para o controle de incêndios e queimadas, que se agravam com o período da seca no país.

“Vamos investigar quais são os problemas enfrentados pelos bombeiros e que temos potencial de solucionar ao melhorar como utilizamos e combinamos os dados de satélites. Existem quebras na informação, em alguns momentos, entre quem a produz e quem a utiliza, e isso vem prejudicando o planejamento do combate”, explica Manoela Machado, pesquisadora do Woodwell, que coordena a iniciativa. “Pretendemos coletar o máximo possível de informações dessas duas pontas, da ciência e da prática, na intenção de propor um formato automatizado no futuro”.

As brigadas de combate ao fogo ambiental do Corpo de Bombeiros direcionam suas operações a partir de boletins emitidos quase em tempo real por órgãos de pesquisa e monitoramento como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, em português), agência espacial norte-americana. Com a expedição, a ideia das pesquisadoras é estreitar esse diálogo para promover melhoramentos na identificação e prevenção de focos de incêndio.

Fila do osso em açougue de Cuiabá mostra que de pop, o agro só tem a propaganda

fila do ossoAçougue tem fila para doação de ossos em Cuiabá para famílias carentes

O estado do Mato Grosso é um dos líderes nacionais do latifúndio agro-exportador (i.e., também conhecido como agribusiness ou agronegócio) e os feitos dos seus grandes latifundiários capitaneados por Blairo Maggi são cantados em loas pela mídia corporativa nacional.

Mas é desse mesmo Mato Grosso que surgiu uma das cenas mais acachapantes do cenário político nacional nas últimas décadas: a fila do osso. Essa “fila do osso” nada mais é do que a distribuição de restos de carcaças de animais que não puderem ser aproveitadas (ainda) em algum tipo de canal de comercialização pelos pecuaristas mato-grossenses e torna explícita a grande dicotomia econômica e social que jaz solene sob os escombros que o agronegócio deixa para trás ao estabelecer sua hegemonia territorial (ver vídeo abaixo).

A contradição contida neste cenário socialmente devastador é flagrante. Enquanto o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, uma quantidade crescente dos brasileiros está sendo impedida de consumir essa fonte de proteina em função das políticas ultraneoliberais adotadas desde o golpe parlamentar que apeou a presidente Dilma Rousseff do poder em 2016.

Essa é uma prova eloquente que a devastação causada nos biomas florestais brasileiros, principalmente na Amazônia, para viabilizar o avanço da pecuária não possui qualquer conexão com a melhoria de vida da maioria dos brasileiros.  Assim, não bastasse a destruição ambiental, o latifúndio agro-exportador escancara as profundas diferenças de oportunidades que surgem no rastro de sua atuação.

E antes que eu me esqueça: o neoliberal bolsonarista adora mencionar as dificuldades vividas em países sob bloqueio dos EUA, Venezuela e Cuba, para indicar aos descontentes com o governo Bolsonaro que existem possibilidades piores do que a que estamos vivendo.  Depois da publicização da fila do osso em Cuiabá, é bem provável que a capital do latifúndio agro-exportador se torne o destino por eles a quem ousar criticar o “mito”.

Finalmente, a situação aqui abordada mostra que de pop o agro não tem nada. Tem sim muito agrotóxico, trabalho escravo e miséria.

Artigo científico mostra que extração de madeira em florestas ocorre como fenômeno desagregado do desmatamento

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Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Ciência Florestal, que é publicada pela Universidade Federal de Santa Maria, aborda a questão da  extração seletiva de madeiras no estado do Mato Grosso. Nesse estudo, no qual tive a oportunidade de colaborar, é discutida a dinâmica espaço-temporal da extração seletiva de madeiras no estado de Mato Grosso com base em um série temporal  de dados de florestas exploradas seletivamente entre 1992 e 2016, usando dados de sensoriamento remoto.

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Os dados apresentados no artigo foram gerados a partir da interpretação visual e a classificação semiautomática de imagens Landsat que foram utilizadas para detectar a alteração de florestas pelas atividades de extração seletiva de madeiras.

Com base nos resultados obtidos,  foi estimado que 41.926 km2 de florestas nativas foram exploradas ao menos uma vez em Mato Grosso entre 1992 e 2016, com uma área média anual de 1.747 km2 (ver figura abaixo).

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As florestas exploradas seletivamente e detectadas com distúrbios persistentes ou recorrentes foram mais frequentes nos anos mais recentes do período analisado.  Uma constatação importante do estudo foi que a maioria das florestas exploradas seletivamente na área e no período de estudo não foram desmatadas até 2016.  Este fato indica que a extração seletiva de madeiras consiste em um fenômeno desagregado do desmatamento no estado de Mato Grosso (ver figura abaixo).

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Este estudo mostra que a exploração madeireira impacta uma grande extensão de florestas nativas anualmente no estado de Mato Grosso e, por isso, precisa ser devidamente considerada e monitorada pelos órgãos ambientais devido aos seus potenciais impactos nas florestas.

Quem desejar baixar este artigo na íntegra, basta clicar [Aqui!].

Fogo surpreende pescadores no Pantanal

Com recorde histórico de queimadas, região já perdeu 10% de seu território no ano

fogo 1Imagem registrada por grupo de pescadores em Cáceres (MT)

Um grupo que praticava pesca profissional na margem direita do rio Paraguai foi surpreendido por um incêndio de grandes proporções na mata em região próxima à cidade de Cáceres (MT). A queimada registrada em vídeo ainda não está na conta dos 4,2 mil focos de incêndio contabilizados de janeiro a julho deste ano pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Este é o maior número desde 1998, quando a série histórica foi criada. Segundo o instituto, os incêndios na zona pantaneira saltaram 240% este ano, e o bioma já perdeu cerca de 10% de sua área.

“Foi muito triste e desesperador ver tudo isso. Estou sem chão ainda. Só quem está vendo de perto para ter noção”, conta a pescadora Enilza Silva, que estava presente quando o fogo se alastrou no sábado (15/8). “Me trouxeram agora a pouco para cidade porque meu psicológico não está legal. Os bichos desesperados sem saber pra onde ir, outros já mortos. É desesperador.”

O grupo que desenvolvia a atividade na região é experiente e usa uma base de apoio localizada em um rancho nas proximidades. Acampados, eles chegam a pescar durante 5 a 7 dias ou até atingir a cota máxima permitida, que é de 125 kg de peixes por pessoa, por semana. Os pescadores relatam que ultimamente não estão conseguindo atingir essa cota.

“O rio já está quase atingindo a maior baixa dos últimos 50 anos. E no mês de fevereiro ocorreu um fenômeno chamado decoada exatamente porque o rio não encheu o suficiente, o que causa a decomposição de matéria orgânica, como folhas e galhos. Isso tira o oxigênio da água, matando muitos peixes no rio. E ainda tem o assoreamento”, explica Joari Costa de Arruda, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Ele é especialista em biodiversidade e biotecnologia e atua no projeto “Corredor ecológico, econômico e cultural do Rio Paraguai” junto a pescadores e comunidades ribeirinhas da região. “Este ano não está favorável para o rio e para quem depende dele para tirar o sustento da família”, lamenta o pesquisador.

Mensageiro sem verbas

Segundo notícia do jornal Folha de S. Paulo, o INPE, que monitora por satélites os desmatamentos e as queimadas no território brasileiro, ficará sem verba em 2021. Com a decisão, os pesquisadores da instituição serão mantidos, mas não terão condição de desenvolver seus trabalhos.

A medida é mais um desdobramento da crise institucional entre o órgão e o governo federal, desencadeada em 2019, após a divulgação dos números recordes de desmatamento. Na ocasião, a fumaça das queimadas nas regiões amazônica e pantaneira escureceram o céu de cidades localizadas no Sudeste do país, gerando comoção dentro e fora do Brasil. O cientista Ricardo Galvão foi exonerado da diretoria do INPE na sequência das divulgações, e em seu lugar foi efetivado o coronel da Aeronáutica Darcton Damião.

Helicóptero utilizado para realizar desmatamento ilegal (com agrotóxicos) é apreendido em Mato Grosso

Na ação realizada a 63 km do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida

heli1MT apreende helicóptero usado para pulverizar agrotóxico na Floresta Amazônica
Créditos: Sema-MT – Foto por: Sema-MT

Por Juliana Carvalho | Sema-MT

Uma operação integrada da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), polícias Civil e Militar e Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) flagrou a pulverização de agrotóxico em floresta nativa, áreas de regeneração e pasto, ocasionando danos visíveis à flora.

Esta é a primeira vez que Mato Grosso apreende um helicóptero sendo utilizado para realizar desmatamento ilegal. A equipe considerou o crime um atentado contra a saúde pública e o meio ambiente.

Na ação realizada a 63 quilômetros do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida, enquanto os produtos utilizados na pulverização serão periciados no local.

A operação ocorreu nesta segunda-feira (15.06) e foi motivada por denúncia anônima que relatou o uso de agrotóxico por diversas propriedades no entorno da Vila Maguila, distrito de Colniza.

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MT apreende helicóptero usado para pulverizar agrotóxico na Floresta Amazônica
Créditos: Sema-MT

Após um trabalho pelo Núcleo de Inteligência e Operações Integradas (NIOC) da Sema, a área foi identificada e o Ciopaer foi acionado para sobrevoar a área. Os agentes identificaram a vegetação amarelada e localizaram a aeronave com os pulverizadores acoplados.

A equipe também encontrou os tanques utilizados no armazenamento de agrotóxicos, nas margens de um lago que aparenta ser uma nascente hídrica represada. As investigações iniciais apontam para a contaminação da lagoa.

De acordo com o relato de um dos conduzidos, foram pulverizados 83 galões de 20 litros de agrotóxicos em duas propriedades, em uma área aproximada de 850 hectares e estavam preparando para realizar o trabalho na terceira propriedade.

heli2O suspeito relatou ainda que todo material era manipulado às margens da nascente. Demais sanções administrativas estão sendo calculadas e a Polícia Civil conduz o inquérito criminal

Desmatamento ilegal zero

A ação realizada em Nova Bandeirantes integra Operação Amazônia Arco Norte do Governo de Mato Grosso em parceria com a Operação Verde Brasil do Governo Federal, visando zerar o desmatamento ilegal em Mato Grosso.

Desde o início da Operação, em maio, foram aplicados R$ 101 milhões em multas por crimes contra a flora, como desmatamento, exploração florestal e queimadas ilegais, dentre outros. Foram embargados mais de 21 mil hectares e apreendidos 44 tratores.

Desde janeiro, Mato Grosso aplicou R$ 555 milhões por crimes contra a flora e embargados 78 mil hectares. As ações conduzidas resultaram na apreensão de 116 tratores e 27 caminhões.

Atividade essencial

As atividades de fiscalização ambiental, que incluem as ações de monitoramento e controle de crimes ambientais como desmatamento e exploração florestal ilegais, pesca predatória, caça ilegal, poluição causada por empreendimentos, dentre outros, seguem em pleno funcionamento durante a pandemia do Covid-19.

De acordo com artigo 8° do decreto Estadual 432/2020, a fiscalização ambiental é considerada atividade essencial no Estado. Ao se deparar com crimes ambientais, o cidadão pode fazer denúncias pelo 0800 65 3838 ou via aplicativo MT Cidadão (disponível para IOS e Android).

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Este artigo foi publicado originalmente pelo portal oficial do governo do estado do Mato Grosso [Aqui!].

Agrotóxicos, câncer, padrões duplos, e o que a Bayer tem a ver com os incêndios na floresta amazônica

AVIÃOFoto: Rafi Bablan, CC BY 2.5

Por Christian Russau, ativista de Direitos Humanos e membro do conselho da Ethical Shareholders da Alemanha

Como a Bayer se aproveita das novas leis de participação acionária alemãs em tempos de distanciamento social da Corona, para nós, que somos ativistas de direitos humanos, este ano não é possível participar ativamente da AGM da Bayer para criticar a diretoria da Bayer  diretamente como fizemos nas últimas décadas. Mas, no entanto, a nossa crítica é mais importante do que nunca. Então, aqui vamos nós.

A Bayer vende agrotóxicos no Brasil que são proibidos na União Europeia (UE). Fiz duas investigações, uma em 2016 e a segunda em 2019.

A investigação em 2016 mostrou que a Bayer estava vendendo oito substâncias ativas de agrotóxicos no Brasil em 2016 que não são autorizadas a nível da UE, como afirma o Banco de Dados de Agrotóxicos da UE. Em 2016, as substâncias proibidas na UE que eram vendidas no Brasil eram as seguintes:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotom
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número havia aumentado para 12, como uma nova investigação em 2019 mostrou:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazam
  • Propinebe
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Isso significa que, entre 2016 e 2019, houve um aumento de 50% nas vendas de produtos agroquímicos da Bayer no Brasil, proibidas na UE.

Isso me lembrou do ano de 1988, quando o então CEO da Bayer, Hermann J. Strenger, se recusou a admitir que a Bayer estava usando padrões duplos. Strenger disse na época: “Nós fazemos os mesmos requisitos de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha].” Mas ele admitiu: “De fato, no Brasil, por exemplo, não tem leis como na República Federal da Alemanha”.

Então, 32 anos depois, a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Então, como seria possível não falar de padrões duplos?

Por que estamos focando no Brasil?

Por que colocamos nosso foco no Brasil? Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer. O CEO da Bayer, Werner Baumann, disse na Assembleia Geral Anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: vamos analisar mais de perto esse tipo de crescimento da empresa. O tipo de semente da Bayer (e agora também a antiga Monsanto ”) geralmente é geneticamente modificado, e isso acompanha o crescimento de venenos agrícolas. Se juntarmos essas três variáveis ​​- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – juntas, apenas um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa ainda é a triste realidade, e com um governo de extrema direita como o de Jair Bolsonaro está ficando cada vez pior. Somente em 2019, em um ano de governo, o governo de direita em Brasília liberou mais 503 agrotóxicos

Nos EUA, vemos os processos legais em andamento contra a Bayer/Monsanto, na Europa as pessoas estão cada vez mais querendo se livrar da Glyphosate & Co, na Índia, mais e mais estados estão se declarando “livres de agrotóxicos”, e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos. Então: para a Bayer, só resta o Brasil. E há uma razão para isso: “503 novos agrotóxicos, o que significa – como um cientista conhecido  da FIOCRUZ colocou: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”. Já é.

E a Bayer continuará participando, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de agroquímicos altamente tóxicos no Brasil. Pode ser algum tipo de tática de sobrevivência suicida diante da aquisição de vários bilhões de dólares da Monsanto, mas a Bayer buscará crescimento a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra. Vejamos os fatos: o Brasil é o líder mundial no uso de venenos agrícolas. 7,3 litros de veneno agrícola por cidadão brasileiro por ano representam a média nacional. A província transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: no estado brasileiro de Mato Grosso são aplicados 13,3% (140 milhões de litros) de todos os agrotóxicos usados ​​no Brasil.  Apenas no pequeno município de Sapezal, no estado de Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram utilizados.  Em Sapezal, o uso de per capita de agrotóxicos é de 393 litros, 52 vezes superior à média nacional de 7,3 litros.

Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que houve 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (64.746 habitantes de acordo com o último censo de 2015), nos quais foram cultivados soja, milho e algodão entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis ​​(219.801 habitantes de acordo com o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios predominantemente agrícolas, enquanto em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior em um fator de 8.

No ano passado, perguntei ao CEO da Bayer Baumann: quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou ao estado de Mato Grosso em 2016 e 2017? Infelizmente, não recebi uma resposta.

Incêndios florestais da Amazônia na floresta tropical

O mundo teve que testemunhar em 2019 uma temporada de incêndios na floresta amazônica com um enorme aumento ano a ano nos incêndios ocorridos na floresta amazônica. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registrou um aumento de 77% ano a ano. No final de agosto, o céu acima da cidade de São Paulo escureceu durante o dia, apesar de estar a milhares de quilômetros da Amazônia. O governo de Bolsonaro fez sua parte no jogo horrível. Mas e a Bayer?

Em setembro de 2019, a Bayer declarou participar da chamada “Coalizão Brasileira de Clima, Floresta e Agricultura”.  A Bayer declarou então: “Estamos adotando uma posição clara para exigir a aplicação de leis de proteção florestal e impulsionar a intensificação sustentável da agricultura”. A Bayer argumenta que o princípio a ser adotado seria: “Quanto mais bem-sucedidos formos em intensificação sustentável, menor pressão sobre novas extensão do uso da terra”. Traduzindo isso para o discurso do mundo real: mais agrotóxicos da Bayer em terras usadas agrícola e, em seguida, a Amazônia seria salva.

Curiosamente, é preciso lembrar que os municípios da Amazônia brasileira com as maiores taxas de desmatamento ilegal são os mesmos com o maior aumento no uso de venenos agrícolas.

Então, Bayer, pare de espalhar besteiras, como uma empresa de ciências como você deveria saber muito melhor … Ou é mais uma decisão estratégica?

No Paraguai, o movimento anti-agrotóxicos e as comunidades indígenas têm um slogan popular: Ñamosêke Monsanto! – É a língua guarani e traduz para “Fora Monsanto!” O mesmo se aplica naturalmente à Bayer.

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Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pela Association of Ethical Shareholders [Aqui].

Amazon Watch: o que acontece quando a floresta desaparece?

Em um local remoto onde a maior floresta tropical do mundo confina com terras desmatadas para a agricultura, cientistas brasileiros e americanos estão atentos a um ponto crítico – o momento em que a Amazônia deixa de ser um sumidouro de carbono e se transforma em uma fonte de emissões de carbono.

yale 4A fronteira entre a Fazenda Tanguro e a floresta amazônica no Mato Grosso, Brasil. CORTESIA DE CHRIS LINDER

Por Fred Pearce* para o Yale 360

O contraste é impressionante. De um lado de uma trilha estreita, encontra-se a floresta úmida, fresca e úmida, estendendo-se a noroeste por centenas de quilômetros através da quase intacta reserva indígena do Xingu. Do outro lado, está quente, o solo nu sendo preparado para plantar soja em uma fazenda do tamanho de 14 Manhattans. Isso, diz meu guia, o cientista de sistemas terrestres Michael Coe, é a linha de frente do desmatamento na Amazônia – onde a floresta tropical encontra o agronegócio, mas também onde um ecossistema da floresta tropical está sendo degradado em pastagens de savana.

É também “o laboratório perfeito” para explorar como as florestas interagem com o clima e como isso muda quando a floresta desaparece, diz Coe, do Centro de Pesquisa Woods Hole, em Massachusetts. E é aí que os cientistas brasileiros e americanos estão vigiando o ponto de inflexão previsto há muito tempo – o momento em que a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, inicia um processo de degradação descontrolada, quando tantas florestas foram perdidas que a transição para a savana é perdida. irreversível. Esse será o momento em que a Amazônia deixará de ser um sumidouro de carbono que ajudará a proteger o planeta das mudanças climáticas e se transformará em uma fonte global de emissões de carbono.

Estamos na Fazenda Tanguro, no estado brasileiro de Mato Grosso, uma das maiores fazendas de soja do mundo. A 16 horas de ônibus de Brasília, a fazenda fica na bacia do rio Xingu, um dos maiores afluentes do rio Amazonas. Há um século, quando a área ainda era uma selva remota, o excêntrico explorador britânico Percy Fawcett desapareceu aqui enquanto procurava a suposta “Cidade Perdida de Z” e onde cerca de 100 pessoas morreram procurando resgatá-lo.

Talvez nunca tenha havido uma “cidade perdida”. Mas a cidade local de Canarana está repleta de silos de grãos, bares e franquias da John Deere, atendendo às grandes fazendas. Uma dos maiores, a Fazenda Tanguro, foi parcialmente desmatada para o plantio de pastos na década de 1980 e convertida em cultivo a partir de 2003 pela corporação Amaggi, o maior conglomerado agrícola de soja do mundo. Hoje, metade é composta por fragmentos de floresta; o restante consiste em campos gigantes que cultivam soja, milho e, a partir deste ano, algodão.

Graças a um acordo fechado em uma reunião casual entre o pesquisador de Woods Hole, Dan Nepstad, e o CEO da empresa e então governador do estado, Blairo Maggi, pesquisadores e colegas americanos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) monitoram a floresta desde 2004 e pesquisam como o clima está mudando dentro e ao redor dele.

E após os incêndios generalizados estabelecidos este ano nas margens da Amazônia – quebrando uma série de 15 anos durante os quais o desmatamento foi dramaticamente reduzido – lugares como esse estão na linha de frente, pois a Amazônia enfrenta sua crise mais fundamental, com as temperaturas subindo, estações secas se prolongando e árvores da floresta tropical sendo substituídas por espécies de savana.

Mais de um terço da Bacia do Xingu, uma região maior que o Estado de Nova York, está desmatada. Restos de cobertura de árvores são tudo o que permanece fora da reserva indígena do Xingu, ainda densamente florestada, em seu coração. Sou mostrado por Coe e Divino Silvério, filho de um fazendeiro local. cujo trabalho de pesquisa na estação lhe rendeu um doutorado e uma série de artigos científicos conceituados. “Temos mais de uma década de dados aqui. Em nenhum outro lugar nos trópicos há isso ”, diz Coe.

yale 3Tanguro é uma das maiores fazendas do Mato Grosso. No total, mais de um terço da Bacia do Xingu foi desmatado, grande parte para o cultivo de soja. CORTESIA DE MICHAEL COE

O que eles estão vendo é alarmante.

O desmatamento está aumentando drasticamente as temperaturas locais. O ar sobre a fazenda é em média 5 graus Celsius mais quente do que na reserva florestal sobre a cerca: 34 graus C, em vez de 29 graus C. A diferença sobe para impressionantes 10 graus no final da estação seca, diz Coe.

E a estação seca está aumentando. Em toda a bacia do Xingu e na região sul da Amazônia, conhecida como “arco do desmatamento”, dura quase quatro semanas a mais do que meio século atrás.

Por que essas grandes mudanças? As respostas não estão nas mudanças climáticas globais, mas no impacto do desmatamento, diz Coe. Antigamente, as árvores da floresta agiam como bombas de água, reciclando a maior parte da água da chuva, que bombeavam do subsolo e liberavam na atmosfera os poros de suas folhas, um processo conhecido como transpiração.

A transpiração requer grandes quantidades de energia, extraídas da radiação solar. “Todo metro quadrado de floresta remove o equivalente ao calor de cerca de duas lâmpadas de 60 watts que queimam 14 horas por dia”, calculou Coe em um estudo. Então, esfria o ar da floresta intacta. Mas tire a floresta e o ar fica instantaneamente muito mais quente.

A transpiração de uma típica grande árvore amazônica também libera cerca de 500 litros de água por dia na atmosfera. A umidade cria nuvens e chuva que sustentam a floresta. Três quartos da chuva que cai nas partes florestadas da Bacia do Xingu são reciclados de volta ao ar dessa maneira. Mas essa proporção cai para 50% ou menos se as árvores forem substituídas por pastagens ou áreas de cultivo.

Atualmente, a Amazônia ainda gera cerca de metade de suas próprias chuvas, com alguma chuva soprando nos ventos alísios do Oceano Atlântico caindo e transpirando de volta para o ar cinco ou seis vezes enquanto atravessa a vasta bacia. Mas o desmatamento reduziu a reciclagem anual de umidade na Bacia do Xingu em 35 quilômetros cúbicos nas últimas duas décadas, segundo Silvério.

Assim, o desmatamento cria o que Coe chama de “uma mudança gigante no balanço de água e energia. O clima muda. ”A selva permanentemente úmida é substituída por um clima mais quente e seco, com demônios de poeira substituindo árvores transpirantes.

A mudança é especialmente importante no final da estação seca. Tocando a água no subsolo, as árvores continuam transpirando mesmo depois de meses sem chuva. De fato, graças à energia do sol implacável, elas transpiram ainda mais na estação seca do que na estação chuvosa. Pesquisas em Tanguro confirmaram que isso é vital para o término da estação seca, porque fornece a primeira umidade para que as chuvas sejam retomadas, diz Coe.

À medida que o clima muda, o mesmo acontece com a vegetação. O aumento da temperatura e uma estação seca mais longa, ambos causados ​​pela perda de árvores, criam estresse hídrico que inverte os ecossistemas da floresta tropical para a savana.

Uma longa estação seca também torna as florestas mais suscetíveis a incêndios. E os incêndios, por sua vez, aceleram a mudança na vegetação. Como Coe coloca: “O fogo é a maneira da natureza começar de novo”. E agora, quando começa aqui, muda para as espécies de savana.

yale 2Incêndios experimentais na Fazenda Tanguro permitem que os cientistas estudem como a floresta amazônica responde e se recupera após os incêndios. CORTESIA DO WHRC E DO IPAM

A combinação de temperaturas crescentes, estações secas mais longas e mais incêndios está impulsionando a “savanização” das florestas – um processo previsto pela primeira vez em 1991 pelo preeminente cientista climático brasileiro Carlos Nobre. “Quando a estação seca se prolonga por mais de quatro meses, a floresta tropical se transforma em savana”, ele me disse quando nos encontramos em sua cidade natal fora de São Paulo após minha visita a Tanguro.

Por muitos anos, isso foi apenas uma previsão dos modelos climáticos. Mas, afirma Paulo Moutinho, cientista sênior do IPAM e membro do Woods Hole, “nossos estudos sobre incêndio em Tanguro foram os primeiros a testar o modelo de savanização de Nobre em campo. Estamos demonstrando o que Nobre previu – que o fogo transforma a floresta tropical em savana, acelerando a invasão de árvores de cerrado. ”Silvério supervisionou um inventário detalhado de milhares de árvores nas áreas florestadas da Fazenda Tanguro. O segundo censo, atualmente em andamento, encontrou um declínio no número de espécies nos últimos quatro anos. As grandes árvores da floresta tropical, em particular, estão sendo substituídas por espécies pioneiras de rápido crescimento, muitas mais conhecidas nas regiões de savana.

Parcelas experimentais em Tanguro, nas quais pedaços de floresta são submetidos a queimadas, mostram como os incêndios, as savanas e as ervas se movem para substituir a floresta perdida. As gramíneas, em particular, são mais inflamáveis; portanto, o próximo incêndio queima mais ferozmente que o primeiro.

Os gerentes da Fazenda Tanguro tentam seguir o Código Florestal do governo, que exige que plantem espécies nativas de árvores da floresta tropical em terras próximas a rios que foram ilegalmente derrubados pelos pecuaristas que os precederam. Mas o novo clima da savana significa que as mudas da floresta tropical não crescerão, diz Coe. “Provavelmente as espécies de savana cresceriam, mas o código diz que você precisa restaurar o que havia antes.” Então, em vez disso, a empresa deixa essas áreas ribeirinhas cercadas na esperança de que as espécies nativas encontrem uma maneira de retornar. Ninguém está prendendo a respiração.

Nobre argumentou em 2007 que poderia chegar a um ponto em que a savanização é imparável em grandes áreas da Amazônia. Ele disse que o ponto de inflexão pode ocorrer se 40% da floresta for perdida. Mais recentemente, ele alertou que, com o aumento global das temperaturas em segundo plano, esse limite poderia estar muito mais próximo – com perda de 20 a 25%. Com cientistas do governo brasileiro estimando a perda atual em 19,7%, o dia do juízo final pode estar próximo.

Alguns dos principais pesquisadores brasileiros entrevistados para este artigo questionaram se existe um único ponto de inflexão que se aplica a toda a Amazônia. Poderia ser um processo mais gradual. O norte e o oeste mais primitivos poderiam sobreviver. Mas outras regiões do sul e leste, incluindo Mato Grosso, já superaram a perda de 25%. E em Tanguro, a aceleração da savanização parece estar ocorrendo agora.

Isso é importante para o planeta como um todo. Pois, diz Jose Marengo, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Aviso Prévio de Desastres Naturais do Brasil, a mudança da floresta tropical para a savana mudará a Amazônia de sua posição atual como uma pia para cerca de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono atmosférico por ano, em uma fonte de CO2. “Isso significaria adeus a Paris”, diz ele, referindo-se ao acordo de Paris de 2015 que visa manter o aquecimento global abaixo de 2 graus.

Uma pesquisadora me disse que acredita que a troca já aconteceu. Seu estudo ainda não foi concluído, mas pode produzir algumas descobertas interessantes no próximo ano.

Para os cientistas brasileiros que lutam para salvar a Amazônia, a tragédia é que eles estão vendo décadas de trabalho que estabeleceram a importância da floresta para o Brasil e o mundo aparentemente desfeitos nos meses desde que Jair Bolsonaro assumiu o cargo de presidente do Brasil em janeiro. Ele efetivamente deu uma luz verde para o desmatamento. Isso reverteu um declínio no desmatamento de mais de 75% desde 2004, logo após a ativista ambiental Marina Silva se tornar a ministra do Meio Ambiente do país. Ela introduziu uma moratória na venda de carne bovina ou soja de terras recentemente desmatadas e policiou a Amazônia com monitoramento por satélite em tempo real da destruição da floresta.

Bolsonaro diz que o Brasil não pode permitir que seu desenvolvimento econômico seja prejudicado por restrições impostas por estrangeiros à derrubada de florestas para agricultura. Isso é bobagem, diz a maioria dos cientistas de seu país. A maior parte do desmatamento é realizada ilegalmente por especuladores que capturam terras florestais estatais. “Eles cortam e queimam as árvores. Depois, plantam gado e esperam uma anistia para legalizar sua anexação, para depois venderem ”, diz Moutinho.

yale 1A reserva indígena do Xingu, uma das poucas áreas remanescentes em grande parte intactas da floresta. CORTESIA DO WHRC E DO IPAM

Não se trata de desenvolvimento econômico, diz Moutinho. É sobre tolerar a criminalidade. O desenvolvimento econômico genuíno envolveria o uso mais intensivo de terras já desmatadas. De fato, diz Nobre, o país poderia aumentar a produção de carne e soja e ainda devolver a terra para a regeneração natural da floresta. “Se você dobrar a intensidade do gado, o que é totalmente viável, poderá liberar mais de meio milhão de quilômetros quadrados para a restauração da floresta”, ele me disse.

Tais políticas progressistas agora são apoiadas por muitos grandes agronegócios, diz Nobre. Eles temem que o desmatamento continuado possa trazer boicotes ao consumidor internacional de carne bovina, soja e outros produtos. Mas ainda não está claro se o governo continuará apoiando especuladores de terras ou ouvindo uma aliança emergente de ambientalistas e agronegócios.

Com um ponto de inflexão se aproximando, as apostas são imensamente altas para a Amazônia e o planeta. As florestas e grande parte de sua biodiversidade poderiam, com a assistência certa, ainda se recuperar. Mesmo os enormes campos de soja em Tanguro não são tão inanimados quanto se poderia esperar. Altos pássaros que não voam voam por aí à procura de sementes. Faixas e excrementos de anta estão por toda parte. Os tatus escavam nas margens. E até vi uma onça-pintada passeando por uma trilha a apenas 20 metros de um campo esperando para ser plantada com soja.

Mas no caminho de volta a Canarana, a poucos quilômetros do portão da fazenda, Silvério e eu encontramos os restos enegrecidos de uma floresta nativa. Ele havia sido engolido pelas chamas após um incêndio para limpar a vegetação no pasto apenas uma semana antes de se espalhar pela estrada. Foi deliberado ou acidental? Aqui na fronteira selvagem do Brasil, ninguém sabia – ou estava dizendo.

* Fred Pearce é um autor freelancer e jornalista baseado no Reino Unido. Ele é um colaborador do Yale Environment 360 e é autor de vários livros, incluindo The Land Grabbers, Earth Then and Now: imagens surpreendentes do mundo em mudança e The Climate Files : A batalha pela verdade sobre o aquecimento global.

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Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo Yale 360 que é produzido pela Yale School of Forestry and Environmental Studies [Aqui! ].

Exposição ao agrotóxico em Mato Grosso é quase 10 vezes maior do que média nacional

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Pulverização de plantio de soja gera efeito de deriva que transporta nuvens de agrotóxicos para fora das áreas cultivadas.

Por Vilma Reis com informações da Gazeta Digital

Exposição ao agrotóxico em Mato Grosso é quase 10 vezes maior do que média nacional, de 7,3 litros por pessoa. Dados foram repassados em audiência pública na Assembleia Legislativa na tarde da quinta-feira, 4 de abril.

Professor Wanderlei Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso e abrasquiano do Grupo Temático Saúde do Trabalhador, foi o responsável por expor dados com relação aos perigos no uso de defensivos agrícolas para cultivo de grãos, verduras e hortaliças.

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Pignati explicitou que a maioria dos agrotóxicos utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia.

Também participaram da mesa a representante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Francileia Paula de Castro e membros do Ministério Público do Trabalho (MPT) e Ministério Público Estadual (MPE).

Enquanto a média nacional de exposição é de 7,3 litros por habitante, em Mato Grosso pode chegar a 67 litros. Ainda, de acordo com Pignati, o uso de agrotóxicos, além de ser recorrente, é feita de maneira irregular. O produto é pulverizado próxima a áreas de preservação e córregos.

“Eu chamo esse modelo econômico de modelo químico dependente de fertilizante. Isso leva ao risco sanitário, alimentar, ambiental. É claro que Mato Grosso é campeão nacional de produção de soja, de milho, de algodão, mas também é campeão nacional de consumo de agrotóxico”, disse.

Em suas pesquisas de campo nas cidades de Lucas do Rio Verde, Campo Verde, Sapezal, Campo Novo do Parecis e Campos de Julio, o professor constatou que as leis e normas impostas não são cumpridas.

Áreas de amortecimento, por exemplo, que são pontos de distância previstos entre as plantações e as áreas de preservação, estipulada em 90 metros de distância, geralmente não chegam nem a 10 metros na prática.

“A coisa que eu mais ouço é que não tem fiscalização, mas em primeiro lugar, quem desobedeceu as normas e as leis? Eu vou fazer isso porque não tem fiscalização? Como eu vou colocar milhares e milhares de fiscais nas fazendas de Mato Grosso?”, questionou.

Pignati explicitou que a maioria dos agrotóxicos utilizados no Brasil são proibidos, por exemplo, na União Europeia. A justificativa das proibições é o risco eminente de câncer, má- formação e distúrbios neurológicos.

“Em locais que há intoxicação na água ao menos 4 crianças a cada 100 mil nascidos vivos têm má formação. Em algumas cidades de Mato Grosso chega a 37 com má-formação”, finalizou.

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Este artigo foi publicado no site da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) [Aqui!]

Fraude ambiental em Mato Grosso antecipa o que virá com “autolicenciamento” do governo Bolsonaro

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O jornal Folha de São Paulo publicou hoje (26/12) uma reportagem assinada pelo jornalista Rodrigo Vargas mostrando a existência de um amplo processo de fraude na emissão de licenças ambientais para beneficiar grandes proprietários rurais (incluindo Blairo Maggi, atual ministro da Agricultura) [1].

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Segundo a reportagem de Rodrigo Vargas, o esquema  envolvia procedimentos amparados em  informações e documentos falsos, sendo validados por técnicos de fachada da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), permitiu apenas em dois casos o desmatamento de uma área de 5.000 hectares de florestas.

Ainda segundo a reportagem, a justiça de Mato Grosso já determinou o bloqueio de R$ 407 milhões em bens pertencentes a cinco supostos beneficiários do esquema apenas no município de Querência (que está localizado a 959 km ao norte de Cuiabá), sendo o prefeito Fernando Gorgen (PSB) um dos envolvidos nas ilegalidades cometidas para acelerar o processo de desmatamento ilegal.

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Área de floresta próxima uma pastagem em Mato Grosso, um dos campeões do desmatamento na Amazônia Legal.  Lalo de Almeida/Folha Press.

Agora imaginem o que teremos pela frente se for confirmada a proposta “genial” do futuro presidente do Ibama, o procurador federal Eduardo Fortunato Bim, de estabelecer uma forma de “licenciamento a jato” onde o processo ficará a cargo dos próprios proprietários rurais interessados em remover áreas de floresta no interior de seus latifúndios, no que está sendo chamado de “licenciamento automático” [2].

Que ninguém no futuro governo reclame se Brasil passar a sofrer boicotes na compra de produtos saídos da Amazônia Legal por parte de alguns dos principais mercados para as commodities agrícolas brasileiras. É que maior do que a fome por produtos agrícolas baratos como os oferecidos pelo Brasil está a preocupação com o controle que as florestas amazônicas possibilitam das mudanças climáticas globais.

Entretanto, até que esses boicotes ocorram, o que deveremos ter é um avanço da franja de desmatamento para além do tradicional “arco do desmatamento”, com prejuízos incalculáveis para os ecossistemas amazônicos e para as populações que dependem de seu funcionamento para sua reprodução social.

 


[1] https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/12/ministerio-publico-aponta-crimes-de-licenciamento-ambiental-em-mt.shtml

[2] https://www.terra.com.br/economia/futuro-presidente-do-ibama-quer-licenciamento-ambiental-automatico,a8b3d565bc174aeeb35da55ae8653c3c3oxcjdku.html