Físico cobra resposta mais vigorosa da comunidade científica sobre indicação de bispo da IURD para dirigir o MCTI

Por Cláudio Egalon

Um dia, quando nos Estados Unidos, li um manifesto publicado em defesa da Teoria de Evolução, em especial, e em defesa à Ciência, em geral. Este manifesto dizia que existem muitos grupos religiosos que são a favor de ensinar o Criacionismo em nossas escolas públicas havendo, ao mesmo tempo, por parte destes grupos, um ataque à Teoria da Evolução. Afinal de contas, dizem eles, é uma apenas uma “Teoria”, não é?

Este mesmo artigo argumenta que, como cientistas, deveríamos considerar um ataque contra UMA de nossas “Teorias”, um ataque contra **TODAS** as nossas teorias: seja ela a Teoria da Evolução, da Relatividade, da Teoria Quântica, da Teoria da Gravitação Universal.

Por ser, antes de tudo, um cientista e, depois disso, um Físico, considero a indicação de um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, uma pessoa que acredita em Criacionismo, completamente INAPROPRIADA. Além disso, esta indicação beira a uma afronta contra a nossa própria comunidade científica e um ataque a tudo aquilo que apreciamos em Ciência.

Já li os posicionamentos da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Sociedade Brasileira de Física (SBF), e outras sociedades. Porém ,não creio que eles foram longe o suficiente.

Por isso, gostaria de ver uma reação mais VIGOROSA, por parte da comunidade científica brasileira, contra esta indicação!

Não ao Criacionismo de Estado!

 *Cláudio Egalon é físico, com bacharelado pela UFRJ, mestrado pelo College of William and Mary e doutorado pelo College of William and Mary,  e também possui um doutorado em Engenharia Eletrica pela Old Dominion University. Cláudio Egalon atualmente é empresário na área de desenvolvimento de sensores tecnológicos. 

Em defesa de uma política de Estado para a CT&I

Em manifesto, SBPC e ABC ressaltam a importância da manutenção dos investimentos em ciência e da preservação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pedem cautela em programas partidários de governo

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) divulgaram um manifesto nesta sexta-feira, 6 de maio, ressaltando a importância da manutenção dos investimentos em ciência e da preservação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Intitulado “Em defesa de uma política de Estado para a ciência, a tecnologia e a inovação”, o documento demonstra preocupação com os possíveis rumos do setor. 

Segundo a carta, o aumento do impacto da ciência e da tecnologia brasileiras nas últimas décadas, com aplicações relevantes em vários setores da economia nacional, foi possível graças a políticas de longo prazo. “Esse ciclo foi recentemente interrompido por cortes substanciais nos orçamentos do MCTI e do MEC, que paralisam redes de pesquisa, reduzem a oferta de bolsas, precarizam a investigação científica, a inovação e a educação”, explica.

O texto cita exemplos de outros países que, ao invés de cortarem os investimentos na ciência por conta de uma crise econômica, ampliaram a aplicação de recursos nesse setor justamente como uma alternativa para superar a situação. “Em meio à crise global, a China vai investir pesadamente em C&T, projetando um investimento de 2,5% do produto interno bruto para 2020, com a esperança de que a inovação ajude o País a enfrentar a sua desaceleração econômica.”

Os presidentes da SBPC, Helena Nader, e da ABC, Luiz Davidovich, pedem a preservação do MCTI e suas agências no caso de eventuais reformas administrativas. “Consideramos, portanto, preocupante quando programas partidários de governo não vislumbram Ciência, Tecnologia e Inovação como um instrumento imperativo para alavancar o desenvolvimento econômico e social do País.”

Veja aqui a manifestação da SBPC e da ABC. 

Ascom ABC

FONTE: http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=5074

Reclamem com o bispo… Jornalista reflete sobre a entrega do MCTI a um criacionista

ciencia

Reclamem com o bispo

POR REINALDO JOSÉ LOPES,  do blog “Darwin é Deus”*

Desde que a imprensa revelou que Marcos Pereira, presidente do PRB (Partido Republicano Brasileiro) e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está cotado para ser o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação do governo Temer, muita gente andou brincando que estamos de volta à Idade Média, com um bispo exercendo funções de ministro (coisa que de fato era comum no período medieval). Pessoalmente, acho a piada uma baita injustiça com a Idade Média.

Explico: bispos e outros membros da hierarquia da Igreja Católica eram a elite intelectual de seu tempo e foram responsáveis por alguns dos avanços científicos e tecnológicos cruciais da época (que está longe de ter sido uma treva perpétua). Não esqueçam que quem pagava o salário de Nicolau Copérnico, o sujeito que desencadeou a Revolução Científica, era um bispo.

Se os bispos medievais muitas vezes abraçavam a ciência “de ponta” da época, é difícil não ficar desanimado com o raciocínio teológico do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal. Ao falar sobre a teoria da evolução neste artigo da década passada, Macedo diz, por exemplo:

“Podemos continuar refutando Darwin, dizendo que o ‘elo perdido’ continua perdido, ou seja, a teoria da evolução continua sendo apenas uma teoria.”

Eu estava até com saudades da confusão clássica do termo “teoria” com “só uma ideia, só um chute”. A teoria da relatividade também é “só uma teoria”, mas sou capaz de apostar que o prelado usa um smartphone com GPS (que só o ajuda a pegar a estrada graças a correções feitas por causa da teoria da relatividade). A teoria atômica também é “só uma teoria”, mas aposto que ele não fica enfiando a mão em reatores radioativos (que só foram compreendidos com a teoria atômica) por conta disso.

Teoria = explicação conceitual de fenômenos da natureza que está bem fundamentada em fatos e medições. Teoria em ciência é um troço sólido, não uma ideia fraquinha.

“Do ponto de vista bíblico, a Teoria Evolucionista confronta a Palavra de Deus, visto que é pela fé que entendemos que o universo foi formado pela Palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem (Hebreus 11:3).”

Eu não sei exatamente como o bispo gostaria de identificar cientificamente a ação da Palavra de Deus no princípio do Cosmos — a ideia é basicamente não testável, ou seja, não tem como verificá-la por experimentos ou observações. Agora, é óbvio que “o visível veio a existir das coisas que não aparecem” — os átomos do Universo primordial eram invisíveis (pra nós hoje, ao menos), assim como as primeiras células. Não dá pra entender qual é a relação lógica entre esse ponto e a Palavra de Deus.

Quer dizer, se concordarmos com a ideia de que um ser passou a adquirir um pulmão pela necessidade que tinha de respirar, estamos, com isto, limitando o poder de Deus em Sua criação. Como Ele poderia criar algo que precisasse passar por uma modificação após milhares de anos? Isso seria incoerente.

Começo a achar que o problema não é teológico, mas só lógico mesmo. Imagino que o bispo não duvide da ideia da Queda do Homem — ou seja, de que houve uma tragédia primordial que separou a nossa espécie de uma relação próxima com Deus. É o fato fundador da narrativa do Gênese, das cartas de Paulo no Novo Testamento etc. Aqui vai a questão lógica: como Deus criou um ser humano tão falho que esteve sujeito a sofrer uma transformação tão tremenda quanto a Queda? Isso não seria ainda mais incoerente?

(É lógico que, se você postula a existência de um Deus que dota sua criação de um potencial autônomo de desenvolvimento, para o bem e para o mal, essa incoerência some. Talvez a ideia seja complicada demais para a Teologia 101 do prelado.)

Há alguma luz no fim desse túnel? Leia a entrevista com Marcos Pereira no blog do Fernando Rodrigues e tire suas próprias conclusões. Embora se declare criacionista, diz que manterá sua religião apenas na esfera privada e arremata: “Em discussões em que a ciência e religião possam se chocar, respeitaria a linha científica.” Tomara que cumpra a palavra.

Antes que eu parta, meus agradecimentos ao amigo Roberto Takata, que localizou o artigo do bispo Macedo.

*Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

FONTE: http://darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/2016/05/04/reclamem-com-o-bispo/

Maurício Tuffani reflete sobre a escolha do bispo da IURD para dirigir MCTI

temer pereira

Pior que Temer e seu ministro da Ciência foi não duvidarmos que a notícia fosse verdade

Por Maurício Tuffani

Peço desculpas aos leitores deste blog jornalístico de ciência por manter como destaque o mesmo assunto de ontem. Mas não há como deixar de registrar a terrível constatação a que chegou este blogueiro ao final do dia, ao fazer um balanço das reações na internet à escolha do presidente nacional do PRB, o pastor Marcos Pereira — bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus — pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) para ser o titular do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) se a presidente Dilma Rousseff for afastada de seu cargo.

Desta vez não fomos capazes de duvidar ou até mesmo de não levar a sério. Diferentemente das reações a inesperadas e anedóticas escolhas da presidente reeleita Dilma no final de 2014 para seu novo ministério — como a do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para o MCTI e a do então presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para a Petrobras —, desta vez, salvo por raríssimas exceções nas redes sociais, ninguém achou que a notícia sobre Temer e Pereira fosse intriga política ou até mesmo pegadinha. O próprio Sensacionalista demorou muito para publicar a piada da tomada dos três pinos. Pode ser um sinal de que não somos mais os mesmos debochados brasileiros de sempre.

Além de enquadrar e reduzir todos os assuntos e de pulverizar nosso caráter nacional do “homem cordial”, descrito pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda em “Raízes do Brasil” — OK, tudo bem, já é sabido que teóricos posteriores criticaram essa concepção —, a polarização político-ideológica que se intensificou a partir das eleições de 2014 parece já ter roubado definitivamente de nós até mesmo nossa capacidade não aprender depressa a chamar de realidade o que quer que seja.

Em meio a tudo o que está nos deprimindo, estamos ficando cada vez  mais sem graça e, pior, menos irreverentes. Sempre fomos majoritariamente conformistas, nunca tivemos um passado verdadeiramente glorioso. Mas era um conformismo temperado pela irreverência. Se estas reflexões forem corretas, nosso risco maior é partirmos para um conformismo cínico, indiferente e, pior ainda, temperado pela polarização política burra que está obstruindo nossa capacidade de refletir.

FONTE: http://www.diretodaciencia.com/2016/05/04/pior-que-temer-e-seu-ministro-da-ciencia-foi-nao-duvidarmos-que-a-noticia-fosse-verdade/

De volta para a Idade Média: Temer planeja entregar Ministério da Ciência e Tecnologia para bispo da IURD

Muito tem se falado sobre os planos nefastos que estariam sendo engendrados pelo vice-presidente Michel Temer após a tomada do poder presidencial via o impeachment da presidente Dilma Rousseff.  Muitas desses anúncios me parecem ser a repetição da velha estratégia do “bode na sala”: primeiro se anunciam muitas desgraças, e depois se aprova aquela que realmente se quer.

Agora, como professor universitário e pesquisador, um anúncio que me faz pensar que o que está ruim ainda pode piorar muito foi transmitido pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog “Direto da Ciência” (Aqui!). É que segundo Tuffani,  Michel Temer estaria  planejando usar o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI) como moeda de troca ao entegá-lo ao  presidente do partido, Marcos Pereira, que também é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Se confirmando essa indicação, o que teremos é uma regressão histórica no próprio entendimento do que vem a ser ciência e tecnologia, já que não é preciso ser nenhum Einstein para perceber que um bispo neopentecostal no cargo que dirige o ministério responsável por seu desenvolvimento não vai dar em coisa boa para o país.

Mas então por que Michel Temer iria fazer isso? Apenas em nome da acomodação de cargos e partidos no seu ministério? Pessoalmente acredito que não é só isso, pois cargos e ministérios para serem ocupados é o que não falta em Brasília.  O que parece estar se anunciando é uma guerra aberta ao pensamento crítico que apenas a ciência pode gerar. 

Em outras palavras, as trevas inauguradas pela Ampla Energia no dia de ontem na Casa de Cultura Villa Maria da Uenf são apenas o prenúncio do que está por vir no Brasil.