O Brasil transformado em pária ambiental planetário já é uma realidade

bolso salles

A “dobradinha” eficiente de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles para desmantelar a estrutura nacional de meio ambiente já transformou o Brasil em uma espécie de pária ambiental global.

Como já informei em uma postagem anterior, estou retornando ao Brasil após participar do “International Symposium on Green Development and Integrated Risk Governanceque ocorreu entre os dias 13 e 14 de outubro em Shenzhen, China. Ali estava reunidos especialistas de todo o mundo, com expressiva maioria de pesquisadores chineses, para tratar das graves consequências da ampliação de desastres associados às mudanças climáticas em curso na Terra.

Como já era de se esperar, o Brasil era pauta de muitas conversas, nenhuma delas por motivos positivos. Como o evento estava centrado no debate acerca das medidas que terão de ser adotadas para minimizar os custos econômicos, ambientais e humanos da agudização de eventos meteorológicos por causa das mudanças no clima,  a simples menção de figuras como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, era suficiente para que os pesquisadores com os quais conversei esboçassem sua incredulidade com o que está acontecendo no Brasil. A simples lembrança de que Ernesto Araújo acredita piamente que as mudanças climáticas não passam de um complô marxista era causa para risos sarcásticos, não apenas pelos anfitriões chineses,  mas por pesquisadores de todas as partes do mundo que lá estavam.

Conversando com um pesquisador que fará parte da delegação de Bangladesh que participará da COP 25 que ocorrerá em Santiago do Chile após a desistência do governo Bolsonaro em sediar o evento, ouvi uma declaração que misturava incredulidade e desapontamento em face da postura negacionista que agora caracteriza a posição brasileira em eventos que buscam estabelecer estratégias mundiais de combate ao caos crescente no sistem climático. É que Bangladesh, por exemplo, é um país que já está enfrentando problemas sérios apenas com a possibilidade de ter de deslocar milhões de pessoas das áreas que deverão ser inundadas pela inevitável elevação do nível do mar em todo o planeta.

Mas como estava em um evento que tratava do estabelecimento de ações para crir mecanismos de governança visando minimizar riscos ambientais, outro assunto que chamou atenção foi o misterioso derrame de petróleo que está causando graves problemas em todo o litoral do nordeste brasileiro (ver vídeo abaixo de uma fração desse material chegando na costa alagoana).

Para meus interlocutores no simpósio de Shenzhen, a informação de que passados quase dois meses o governo Bolsonaro ainda não tomou as medidas mínimas para organizar uma resposta efetiva para esse desastre chega a ser inacreditável em função do tamanho da indústria do petróleo no Brasil.  Segundo o raciocínio de colegas estrangeiros com quem conversei em Shenzhen, se a resposta brasileira está sendo tão insuficiente em um caso residual como esse, o que acontecerá quando houver um grande desastre como o do Exxon Valdez no Alaska ou da Deep Water Horizon no Golfo do México?

O fato é que toda a eficiência demonstrada pelo governo Bolsonaro para desmantelar uma estrutura ambiental que levou décadas para ser construída já criou um clima completamente antagônico ao Brasil não apenas na comunidade científica internacional, mas também entre os chamados “agentes do mercado”. É que em face das evidentes mudanças causadas pelas alterações nos padrões climáticos da Terra,  não há espaço ou tolerância para posturas ideológicas que ignoram os elementos práticos que afetarão a economia mundial nas próximas décadas.

Por tudo isso, é que os alertas para os riscos de que o Brasil poderia se tornar um pária em escala planetária talvez já nem façam mais sentido. É que tudo indica que já chegamos a este ponto. Corrigir esse curso será tão mais difícil quanto for a duração do domínio dos negacionistas das mudanças climáticas nas instituições de estado no Brasil.  Com isso, os custos políticos e econômicos inevitavelmente também serão difíceis de serem resolvidos.

Petróleo, Porto do Açu e Meio Ambiente, a segunda parte da entrevista de Carlos Rezende ao Portal Viu!

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No último dia 27 divulguei a primeira parte de uma esclarecedora entrevista concedida pelo professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf, Carlos Eduardo de Rezende, ao portal de notícias Viu!.

Agora divulgo a segunda parte da entrevista do professor Carlos Rezende ao Viu! onde ele aborda as diferentes facetas envolvendo a exploração do petróleo na bacia de Campos, os danos socioambientais causados pelo Porto do Açu, bem como outras situações de desequilíbrio ambiental ocorrendo na região deltaica do Rio Paraíba do Sul (ver vídeo abaixo).

Considero que, ainda que na primeira parte da sua entrevista ao Viu! Carlos Rezende tenha apresentado aspectos muito interessantes das suas pesquisas no LCA/Uenf, nesta sequência, ele pode explanar com particular maestria questões de alto interesse não apenas para os habitantes do Norte Fluminense, mas de todo o estado.  É que ele foi capaz de explicar de forma didática várias questões que vêm há algum tempo sendo motivos de debates intermináveis.

Espero que esta entrevista com Carlos Rezende seja seguida por outros com pesquisadores de igual perfil no Portal Viu!.  Se isso acontecer, quem sairá ganhando seremos todos nós que vivemos sempre esperando por jornalismo de qualidade que saia do lugar comum das fofocas de colunas sociais que dominam boa parte da mídia corporativa regional. 

Ponto para o Portal Viu!

Lançada cartilha em inglês para desmentir Ricardo Salles

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O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está na Europa para uma série de encontros para minimizar os danos na imagem do Brasil. Cartilha lançada por ONGs pretende apontar as inconsistências nas falas do ministro. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Por Sabrina Rodrigues para ((o))eco

Uma cartilha para rebater as falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi produzida pelas organizações Greenpeace, ClimaInfo e Observatório do Clima. Com o título The Ricardo Salles Fakebook – A Guide to the Falsehoods and Rhetorical Tricks of Brazil’s Environment Minister (O livro de Mentiras de Ricardo Salles – Um Guia para as mentiras e artimanhas retóricas do Ministro do Meio Ambiente do Brasil, em tradução livre), o livreto narra e critica desde as ações, tomadas de decisões do ministro até as suas entrevistas na imprensa.

A cartilha já começa elencando aquilo que os organizadores chamam de “Os 3 melhores fatos que você não sabia sobre Ricardo Salles: 

  1. Disse à mídia brasileira que ele tinha mestrado na Universidade de Yale. É mentira. Ele não tem.
  2. Ele foi condenado por fraude duas semanas antes de assumir o cargo.
  3. Atualmente está sob investigação por enriquecimento ilícito”.

No início da cartilha, os organizadores afirmam “Nosso objetivo era criar um pequeno documento compacto, que exibia algumas das inconsistências de Ricardo Salles. Acontece que precisamos de 35 páginas. Por favor, tenha paciência conosco”.

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Capa da cartilha contra as falas do ministro Ricardo Salles

A divulgação da cartilha se dá no momento em que o ministro realiza uma “tour” no exterior para minimizar o estrago da imagem do país causada pelo aumento de desmatamento na Amazônia e pelas queimadas, crise iniciada pelo próprio governo, que gastou semanas tentando desmentir os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que monitora o desmatamento na Amazônia desde 1988, ao invés de fortalecer a fiscalização. A crise do desmatamento deu espaço, em seguida, para a crise das queimadas. E mais uma vez o governo preferiu investir em retórica, acusando as queimadas de serem causadas pelas ONGs. A resposta para a crise, com a publicação de decreto de Garantia da Lei e da Ordem ambiental, ocorreu só no final de agosto, sob forte pressão internacional. 

Após usar o Exército para fazer a fiscalização e repressão de crimes ambientais, o governo colocou os ministros para amenizar a crise no exterior. O Itamaraty publicou vídeos em inglês sobre a Amazônia e o ministro do Meio Ambiente está em viagem onde se reunirá com governantes, investidores e empresas para evitar um possível boicote econômico.

Na cartilha, Ricardo Salles é descrito assim: “Comunicador talentoso, o ministro é capaz de incríveis truques retóricos. Ele frequentemente controla sua exposição na mídia, então ele raramente é entrevistado por jornalistas que cobrem a área ambiental. Sob pressão, ele pode inventar dados sem nem corar. Ele tem talento para enganar jornalistas e o público”. 

O livreto é um raio-x que traça quase que mês a mês, as medidas, ações do ministro, como a redução do corpo de funcionários do Ibama e ICMBio, corte no orçamento, críticas ao Fundo Amazônia, esvaziamento do Conama, descrédito ao INPE, e a posição do governo em relação às queimadas na Amazônia, que se iniciaram em agosto deste ano.

“Tour da mentira”

Um grupo de ativistas do Greenpeace protestaram, nesta quinta-feira (26), em frente à residência do embaixador brasileiro em Paris. No momento do protesto, o ministro Ricardo Salles participava de uma reunião com empresários e investidores franceses para mitigar o desgaste na imagem do Brasil diante da crise ambiental. 

ricardo 3Grupo de ativistas se reuniram em frente à residência do embaixador do Brasil na França, onde o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles se encontrava com empresários franceses. Foto: Jérémie Jung / Greenpeace.

Com faixas com os dizeres “Bolsonaro – Amazon-Killer” (Bolsonaro – assassino da Amazônia), os ativistas tocaram alarmes no pátio da residência como forma de protesto. A polícia francesa acompanhou de longe a manifestação que terminou sem confusão.

Quem desejar baixar a cartilha lançada para desmentir Ricardo Salles, basta clicar [Aqui!].

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ((o))eco[Aqui!].

Ministério do Meio Ambiente tira da internet mapas de áreas de conservação

Imagens excluídas indicam áreas com ecossistema em extinção ou com espécies endêmicas e que precisam de proteção

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(foto: Registro de áreas de conservação estão indisponíveis no site do MMA. Foto: Reprodução MMA)

O Ministério do Meio Ambiente tirou da página na internet uma série de mapas de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade brasileira. As imagens, que estavam disponíveis na página do Ministério, indicam áreas com ecossistema em extinção ou com espécies endêmicas, isto é, que só existem naqueles locais específicos, e precisam de proteção. Esse zoneamento orienta técnicos da pasta e de autarquias como o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tanto em ações de fiscalização quanto de manejo e uso da terra.

Entre os ecossistemas das áreas prioritárias está a Mata Atlântica. O bioma, que sofreu diversas degradações, atualmente, ocupa menos de 10% do território inicial. A assessoria do Meio Ambiente informou que o hotsite foi retirado do ar,  “pois foi verificada a necessidade de ajustes no mapa das áreas prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios”. Consta no texto que “os ajustes se fizeram necessários, pois havia um sombreamento entre biomas. A decisão de retirar do ar ocorreu para evitar a disseminação de informação equivocada.”

“Área sombreada” equivaleria a uma marcação de um bioma no mapa que, na verdade, pertence a outro tipo de ecossistema. Uma mancha errada sobreposta no desenho final. Questionada se isso havia ocorrido em todos os mapas, porém, a pasta não respondeu. Além disso, as matérias produzidas pela equipe do ministério e postadas no site a respeito dessas áreas também foram excluídas. Sem as imagens, qualquer iniciativa errônea que prejudique uma área de conservação prioritária, será mais difícil de detectar. “Informamos que os ajustes já estão sendo realizados e encontram-se em fase final. Tão logo seja finalizado, as informações serão republicadas”, respondeu o Meio Ambiente.

rsMinistério do Meio Ambiente é comandado por Ricardo Salles(foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADAO CONTEUDO )

O deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), que preside a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, comparou a ação no ministério com o processo que o ministro Ricardo Salles sofreu quando atuava como secretário do Meio Ambiente em São Paulo, por irregularidades na elaboração e aprovação do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental Várzea do Rio Tietê. “Ele tomou uma atitude grave, que se assemelha a que o levou a sofrer um processo em São Paulo. Ele decidiu apagar os arquivos, tirar do sistema os mapas de áreas prioritárias de conservação, que indicam as áreas mais sensíveis do país”, criticou. O ministro pode recorrer e, a uma emissora de TV, disse que a sentença do juiz reconheceu que não houve dano ambiental nem vantagem pessoal.

Presidente da Associação dos Servidores da Carreira Especialistas em Meio Ambiente do Distrito Federal, Alexandre Bahia Gontijo foi cuidadoso ao comentar o caso. “O cuidado com essas regiões é importante e caro até para organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas. Eu não sei o que o ministro quer ao retirar essas informações da rede. Mas, se as informações não são mais públicas, isso é um problema”, avaliou. Para Gontijo, será importante comparar os mapas anteriores com os que serão postados.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Correio Braziliense [Aqui!].

Salles, o ‘mentinistro’ do meio ambiente

Conheça as mentiras frequentes do mentinistro Ricardo Salles e previna-se contra elas.

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Mentira: O agricultor brasileiro é quem mais preserva no mundo e o Brasil é o país que mais protege o meio ambiente.

Fato: O Brasil é o país que mais desmata no mundo em termos absolutos. Somente em 2018, o país perdeu 17 mil quilômetros quadrados de vegetação na Amazônia e no cerrado. Nos últimos 35 anos, a área de florestas em propriedades privadas declinou 20%, contra 0,5% em áreas protegidas. Há 20 países que protegem mais seus ecossistemas que o Brasil.

Mentira: Mudança climática é uma discussão acadêmica.

Fato: O mundo esquentou cerca de 1oC desde 1880. O Brasil esquentou 1oC em apenas 60 anos. Os últimos quatro anos foram os mais quentes já medidos e 18 dos 20 anos mais quentes da história aconteceram neste século. O aquecimento global já foi diretamente implicado em fenômenos extremos como os furacões Harvey e Maria e ondas de calor no hemisfério Norte.

Mentira: Ambientalistas são representantes de interesses comerciais contrários ao agro brasileiro.

Fato: Um documento norte-americano intitulado Farms here, forests there, brandido por ruralistas como prova do conluio, diz apenas que políticas de combate à mudança do clima, ao promoverem a redução do desmatamento tropical, acabariam por beneficiar o agro dos EUA. Não há menção a ONGs no texto.

Mentira: O juiz que me condenou é de esquerda, citou Marx na sentença.

Fato: A citação a que o ministro se refere é do dicionário Houaiss, não de Marx. O juiz rebate na peça a alegação de Salles de que a oposição à sua tentativa de mudar o plano de manejo da APA da Várzea do Tietê foi movida por “ideologia”. Para isso, vai buscar no dicionário a “definição marxista de ideologia”.

Mentira: Os sistemas atuais de monitoramento não conseguem distinguir desmatamento legal do ilegal.

Fato: Os sistemas de monitoramento dos biomas brasileiros são referência mundial em vigilância de florestas e desde 2004 embasam a fiscalização do Ibama. O desmatamento foi reduzido com sucesso no Brasil entre 2005 e 2012 graças ao uso dessas informações pela fiscalização.

Mentira: O Ibama age ideologicamente e aplica multas erradas que são anuladas depois.

Fato: O Ibama não pune infratores por “ideologia”, mas porque esta é a razão de sua existência. O número de multas anuladas por erro nesta década nunca ultrapassou 4% do total aplicado, segundo os relatórios de gestão do próprio órgão, disponíveis no site do Tribunal de Contas da União.

Mentira: O Acordo de Paris tem elementos que violam a soberania do Brasil.

Fato: O Acordo de Paris foi assinado por 196 países voluntariamente. E isso só aconteceu porque o acordo não viola a soberania de país nenhum. As metas de corte de emissão foram determinadas domesticamente por cada país – daí seu nome ser “contribuições nacionalmente determinadas”.

Mentira: O Ibama aplicou R$ 154 bilhões em multas e só arrecadou R$ 60 milhões nos últimos seis anos.

Fato: Desde 2013, o Ibama lavrou R$ 19,1 bilhões em multas e arrecadou R$ 821,3 milhões, segundo dados públicos do próprio órgão.

 

 

 

 

Falso: O principal problema ambiental do Brasil está nas cidades, não no campo.

Fato: A dicotomia é falsa. Mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa do país são geradas pela atividade agropecuária. O mau uso da terra causa assoreamento de rios, que deixa as cidades sem água. A perda de florestas prejudica a qualidade de vida nas áreas urbanas. Ao mesmo tempo, a poluição do ar e dos rios geradas nas cidades prejudicam os ambientes naturais.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ClimaInfo [Aqui!].

 

 

Gongo Soco: estrago pode ser maior que o previsto pela Vale, alertam pesquisadores

Congo Soco - caminho da lama

Por Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil 

O estrago que o rompimento da barragem da Mina de Gongo Soco causará na região de Barão de Cocais (MG) poderá ser ainda maior do que o previsto no relatório dam break, apresentado pela Vale, empresa responsável pela mina.

O alerta é do Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), núcleo composto por pesquisadores e alunos com formações diversas, que se utiliza de conhecimentos econômicos, geográficos, sociológicos e de políticas públicas para analisar e avaliar os impactos que as redes de produção associadas à indústria extrativa mineral geram para a sociedade e para o meio ambiente.

Segundo o engenheiro e integrante do grupo Bruno Milanez, as projeções apresentadas no relatório da Vale subestimaram a capacidade destrutiva da onda, por não levar em consideração o aumento de sua densidade por conta dos objetos de médio e grande porte que seriam arrastados ao longo do percurso.

“O modelo que usaram foi baseado em onda de água, considerando a altura do rejeito e a velocidade. No entanto, o rejeito terá uma densidade maior, porque ao longo do trajeto a onda carregará também os objetos que estiverem pelo caminho”, disse à Agência Brasil o professor do Departamento de Engenharia da Produção da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Bruno Milanez.

O engenheiro alerta que “se essa onda trouxer consigo objetos como troncos ou até mesmo caminhões, ela terá uma densidade ainda maior de rejeitos. Dessa forma, o potencial de destruição nas áreas amarela e verde [áreas que segundo o estudo não seriam atingidas ou seriam parcialmente destruídas] seria ainda maior”.

Vale

Agência Brasil entrou em contato com a Vale, para saber a posição da empresa sobre a crítica apresentada pelo integrante do PoEmas. A vale, no entanto, manifestou apenas seu posicionamento com relação ao prazo de 72 horas, dado pela juíza Fernanda Machado, da Vara de Barão de Cocais (MG), para que apresentasse o estudo dos impactos relacionados ao eventual rompimento das estruturas da Mina de Congo Soco.

“A Vale, no prazo fixado pela determinação judicial, apresentou o relatório mais atualizado de dam break da Barragem Sul Superior, explicando naquela oportunidade a adequação dos critérios técnicos”, diz a nota enviada pela Vale à Agência Brasil.

Movimento

Segundo a coordenadora nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Maria Júlia Andrade, a forma como as informações estão sendo repassadas pela Vale é inadequada, o que tem gerado “pânico e terror” na população local. Maria Júlia diz que há uma preocupação muito grande, nos últimos dias, após ter vindo à tona a informação de que existe um talude da cava da mina prestes a desmoronar.

“Esse problema já existia, mas ele só veio à tona agora. E o maior problema é que esta cava está localizada muito perto, cerca de 300 metros, da barragem que já estava em risco máximo há mais de três meses”, disse a coordenadora.

Na avaliação do MAM, “as informações [sobre os riscos] são dadas a conta-gotas, e o pânico e o terror estão generalizados [na região]. As pessoas não sabem se o risco é real, não sabem se a barragem vai romper ou não. Só sabem que existe um pânico e um medo de uma bomba relógio em cima de suas cabeças”, disse.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Agência Brasil [Aqui!].

Com medo de críticas, Ricardo Salles cancela evento sobre mudanças climáticas na Bahia

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Ricardo Salles posa de valente com servidores do IBAMA e ICMBio, mas foge do embate de ideias como o diabo foge da cruz.

Como figuras importantes do ministério formado pelo presidente Jair Bolsonaro estão no time dos “negacionistas climáticos“, não chega a ser surpreendente que mais uma atividade organizada pela ONU,  um evento regional da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), tenha sido cancelada pelo dublê de ministro e agroboy, Ricardo Salles.  

É que mesmo antes de sua posse, o presidente Bolsonaro Antes pediu ao então presidente de facto, Michel Temer, que cancelasse a Conferência do Clima que estava programada para dezembro no Brasil.  E que por conta disso, a COP25 será realizada no Chile e não mais no nosso país.

O que mais me chama a atenção é a alegação usada por Ricardo Salles para cancelar o evento que estava sendo organizado pelo governo do estado da Bahia e pelo da cidade de Salvador.  É que segundo informa o site “Direto da Ciência”, o cancelamento se deveu pelo temor de que o evento serviria como “um foco gerador de protestos de ambientalistas contra sua gestão“.  E não contente em dar uma de fujão, Salles ainda atacou a validade da reunião afirmando que “não faria evento do clima na BA só para se ‘fazer turismo’ e ‘comer acarajé.

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Ora bolas, se esses são  realmente os motivos (além claro do perfil de negacionistas das mudanças climáticas) para o cancelamento de uma atividade que geraria pouco ou nenhum ônus para o governo federal e ainda atrairia um número significativo de pessoas que ajudariam a movimentar a economia local, Ricardo Salles está consolidando outro aspecto marcante do governo Bolsonaro, qual seja, o de fugir de embates de ideias em questões cruciais, inclusive para as relações comerciais, e ainda tentar dar uma de valente. É que essa não é a primeira “fuga” que se vê por parte de representantes de um governo que utiliza de discursos altamente belicosos para tentar resolver as paradas em que se envolvem. 

O pior é que mais essa saída à la Leão da Montanha do governo Bolsonaro ocorre em um momento em que a questão das mudanças climáticas vem mobilizando movimentos sociais e governos em todas as partes do mundo, sendo que pelo menos dois governos nacionais já declararam “emergências climáticas” (i.e., Reino Unido e Nova Zelândia) e outros tantos ameaçam seguir o mesmo caminho.

Deste modo, o que o governo Bolsonaro e seu antiministro do Meio Ambiente estão fazendo é nos colocar uma posição altamente delicada no tocante à proteção do meio ambiente, pois enquanto a maioria dos governos nacionais se move no sentido de enfrentar as consequências já visíveis das mudanças climáticas, o Brasil insiste em boicotar eventos em que estão sendo discutidas saídas multilaterais para os problemas decorrentes desse processo. Adivinhem que sairá perdendo.