Ricardo Salles comete sincericídio e sugere uso da COVID-19 para enfraquecer as leis ambientais no Brasil

ricardosalles-abreNa reunião de 22 de abril, Ricardo Salles pediu que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada”.  

Um dos momentos mais interessantes e reveladores do que já foi mostrado na divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril veio na fala do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles (ver sequência de imagens abaixo).

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Dentre as pérolas oferecidas por Ricardo Salles está o pedido para que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada“.  

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Além disso, Salles afirmou que “então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Salles ainda sugeriu que o governo fizesse mudanças relacionadas ao meio ambiente sem o aval do Congresso Nacional.  Para que isso seja possível, Salles ressaltou que a  Advocacia Geral da União (AGU) precisaria ficar de prontidão para eventuais contestações do governo na Justiça.  Nesse sentido, Salles afirmou que “então pra isso nós temos que tá com a artilharia da AGU preparada para cada linha que a gente avança ter uma coi … mas tem uma lista enorme, em todos os ministérios que têm papel regulatório aqui, pra simplificar“.

Em suma: para Ricardo Salles, a pandemia da COVID-19 seria proveitosa no sentido de avançar o processo de desmanche da governança e da legislação ambiental, evitando que tais mudanças tivessem que passar pelo Congresso Nacional. Se isso não for o suprassumo do oportunismo político, sinceramente não sei o que seria.

Em minha modesta opinião, será essa fala de Ricardo Salles que criará mais embaraço para o Brasil nas relações econômicas e políticas, pois fica explícito o processo de desmanche que ele comanda à frente do Ministério do Meio Ambiente. É que, ao contrário do que parecem acreditar os membros do governo Bolsonaro, o período pós-pandemia não será tão tolerante com a destruição ambiental em curso no Brasil.

Mas mais do que nunca, Salles tem carimbado na testa o rótulo de “Exterminador do meio ambiente”.  Nada mais justo para quem se aproveita de uma pandemia mortal para destruir a governança ambiental duramente construída no Brasil.

No vídeo abaixo é possível ver o momento exato da fala “passa a boiada” de Ricardo Salles.

Como o isolamento social tem impactado no meio ambiente?

Em um mês de quarentena, uma única pessoa pode deixar de emitir cerca de meia tonelada de CO2

Pandemia-reduz-poluição-do-arSatélite mostra a redução de CO2 no planeta.  Foto: Reprodução/Web

Por Rafael Castelo*

A pandemia de coronavírus fez com que o mundo enfrentasse uma realidade totalmente inesperada. A cidade de São Paulo, por exemplo, que possui algumas das ruas e avenidas mais movimentadas do planeta, chegou a registrar 0 km de trânsito durante vários dias após o início da quarentena decretada no dia 24 de março. Os dados são da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Não coincidentemente, os números oficiais divulgados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) apontam que o índice de poluentes liberados diretamente no ar apresentou diminuições sensíveis, perto de 50%, neste período de isolamento.

Segundo o Relatório de Emissões Veiculares da CETESB, o Estado de São Paulo detém cerca de 40% da frota automotiva do país e chega a emitir, em um ano, mais de 400 toneladas de CO2. Um cálculo simples pode nos ajudar a entender o impacto de um único veículo a menos nas ruas.

Imagine que uma pessoa vá trabalhar usando seu veículo próprio todos os dias, e que a distância média entre o trabalho e sua casa é de 10 Km, portanto em ida e volta, serão 20 Km por dia. Considerando que esta pessoa trabalhe 22 dias uteis por mês, utilizando um veículo básico, flex 1.0, ela emitira 0,43 toneladas de CO2 (dióxido de carbono) por mês. Para compensar esta emissão seriam necessárias aproximadamente 3 árvores.

Ilhas de calor

Por sua vez, a queda na taxa de poluição, além de melhorar a qualidade do ar, também diminui a formação de ilhas de calor, fenômenos climáticos que ocorrem principalmente nas cidades com elevado grau de urbanização e se caracterizam por apresentar uma temperatura média mais elevada do que nas regiões rurais próximas.

A formação e presença de ilhas de calor no mundo são negativas para o meio ambiente, pois favorecem a intensificação do aquecimento global, e faz com que a umidade relativa do ar fique baixa nestas áreas.

A cidade de São Paulo também costuma sofrer muito com esse fenômeno, por sua grande concentração de asfalto (ruas, avenidas) e concreto (prédios, casas e outras construções), além do alto nível de poluição já comentado.

O que a quarentena nos deixa de lição?

Nesse período, percebemos que muito paradigmas e pré-conceitos quanto ao trabalho remoto foram desmistificados. As pessoas, e as empresas, perceberam que o que antes parecia improvável, e talvez impossível, tornou-se, por obrigação, possível e viável. Talvez esse seja um caminho sem volta.

Manter o trabalho remoto para as atividades que se mostraram viáveis durante o isolamento pode gerar ganhos mútuos para as empresas e colaboradores.

Podendo dispor de menos espaços físicos para alocar pessoas, horários mais flexíveis e uma infraestrutura mais simples e econômica, a empresa conseguirá gerar ganhos de produtividade e redução de custos e despesas. Para o indivíduo, passar um tempo muito menor no deslocamento, organizando melhor sua rotina de trabalho, é uma vantagem significativa.

E também há ganhos para as cidades: com uma ampliação desta modalidade de trabalho, as vias ficam mais liberadas (gerando redução de emissões de poluentes e economia no consumo de combustíveis) e a demanda pelo transporte público é reduzida (gerando uma oferta mais eficiente e racional). Ou seja, pontos importantes que não podem ser negligenciados.

* Rafael Castelo é professor do departamento de Engenharia Civil do Centro Universitário FEI.

Para conhecer mais sobre as iniciativas do Centro Universitário FEI no combate ao COVID-19 acesse www.fei.edu.br /coronavirus ou siga a Instituição nas redes sociais em fei.edu.br/redes.

Em um ano, Bolsonaro destruiu a imagem do Brasil de respeito ao meio ambiente

Investidores estrangeiros, consumidores ao redor do mundo dos produtos brasileiros e organizações de defesa do meio ambiente vem avisando o governo do Bolsonaro que o bicho vai pegar se nada for feito em defesa da Floresta Amazônica

fogo(Foto: Getty Images – Carl de Souza)

Por Carlos Wagner

O prejuízo é incalculável. Nos últimos quarenta anos, os brasileiros gastaram muito dinheiro e tempo, enfrentando dificuldades, para provar aos consumidores dos nossos produtos ao redor do mundo que o país respeitava o meio ambiente, em especial a Floresta Amazônica. A tal ponto que as leis ambientais brasileiras estão entre as mais perfeitas da Terra. Muita gente pagou com a vida. Conheci e trabalhei no caso de uma dessas vidas perdidas nos conflitos pelo meio ambiente: Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes. Às vésperas do Natal de 1988, ele foi alvejado e morto a tiros no pátio da sua casa, um modesto chalé em Xapuri (AC), por Darci Alves, que agiu a mando do pai, o fazendeiro Darly Alves e Silva. Chico Mendes chamou a atenção do mundo para a devastação da Floresta Amazônica. Assim como o agrônomo, pesquisador e ecologista José Lutzenberger (falecido em 2002) alertou sobre o uso indiscriminado de venenos agrícolas no Brasil, em especial nas lavouras de soja do Rio Grande do Sul.

O legado de Chico Mendes e Lutzenberger lançou as bases sobre as quais foram construídas as leis ambientais do Brasil. Nas viagens que fiz pelos confins do Mato Grosso, Pará, Amazonas, Rondônia e Roraima, realizando reportagens sobre conflitos de índios, garimpeiros e madeireiros, encontrei gente de vários cantos do mundo trabalhando ombro a ombro com os brasileiros na preservação do meio ambiente. Certa vez, conheci um jovem casal de ingleses no interior do Acre, na fronteira com o Peru. Lembro-me que era uma noite muito quente e que ficamos bebendo cerveja e conversando sobre a visão deles a respeito do que estavam vivendo. Eu assisti e documentei em reportagens o nascimento do agronegócio no Brasil. Ao contrário da ideia geral de que consistem apenas de plantadores de grãos – soja e milho -, os pequenos e médios agricultores brasileiros produzem suínos, frangos, leite e muitos outros produtos. Por que? Porque eles são os principais fornecedores de uma vasta rede de agroindústrias que geram alguns milhões de empregos pelo interior do país.

Todos os mercados consumidores de produtos de origem animal e vegetal que o Brasil tem hoje ao redor do mundo foram duramente conquistados. O grande diferencial dos nossos produtos era a grife que o país tinha de respeitar o meio ambiente. Já escrevi sobre isso. Em 31 de agosto do ano passado, fiz o post “É conversa para boi dormir o decreto de Bolsonaro que proibiu queimadas por 60 dias?” Por que volto a escrever sobre isso? Em 24 de janeiro, em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente do Banco Itaú Unibanco, Candido Bracher, falando sobre o que tinha visto e conversado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, disse que a imagem do país perante seus colegas é a de que “o Brasil não é um país ambientalmente correto”.

Isso é mais do que um recado. É a confirmação que segue a deterioração da imagem do Brasil que começou com o incêndio criminoso da Floresta Amazônica no ano passado. Na ocasião, grandes fundos de pensão alertaram o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido-RJ) sobre a intenção de não associar seus investimentos ao que acontecia na Amazônia. Como se noticiou, em Davos a questão ambiental foi um dos assuntos principais entre os grandes investidores do mundo. Foi uma demonstração de ignorância sobre as questões ambientais a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a pobreza é a responsável pela depredação do meio ambiente. De uma maneira educada, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos (1993 a 2001), Al Gore, explicou que Guedes simplificou exageradamente a sua manifestação. Ecologista, jornalista e político, Gore é autor do documentário Uma verdade inconveniente.

O governo Bolsonaro está brincando de roleta-russa com as questões ambientais do Brasil. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não é só desinformado sobre sua pasta: é arrogante. Aqui, quero conversar com meus colegas em início de profissão. Os empresários que apoiaram a eleição de Bolsonaro sabem que o “bicho vai pegar” e vão perder mercados internacionais se não for feito nada para melhorar a imagem do Brasil em questões do meio ambiente. Tanto que o governo anunciou, em 21 de janeiro, o Conselho da Amazônia, que será dirigido pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Li, ouvi e vi tudo que se falou sobre o assunto, inclusive entrevistas de Mourão. Tem de esperar para ver no que vai dar. Mas de uma coisa eu tenho certeza: o avanço dos madeireiros clandestinos e dos grileiros sobre a Floresta Amazônica vai continuar, porque eles se sentiram autorizados a fazer isso pelo conteúdo dos discursos e pronunciamentos do presidente. É só revisar o que Bolsonaro disse durante a campanha eleitoral e nos primeiros meses de mandato. Está tudo lá: eles levaram a sério. É simples assim.

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Este artigo foi originalmente publicado no blog “Histórias Mal Contadas” [Aqui! ].

 

Em Davos, Paulo Guedes finge mirar na pobreza para culpar os pobres pela miséria

guedesEm Davos, Paulo Guedes jogou nas costas dos pobres as responsabilidades pela destruição do meio ambiente que seu governa facilita.

O presidente Jair Bolsonaro não foi mesmo a Davos, mas enviou para lá o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, o Sr. Paulo Guedes, que não demorou muito já colocou todo o seu receituário ultraneoliberal para fora.  E obviamente, sacando de seu baú uma série de declarações que não resistem a um exame mínimo da realidade. Os pobres, obviamente, foram escolhidos como vilões, coisa que está longe de surpreender quando se trata de Paulo Guedes.

Segundo, a jornalista Célia Froufe, enviada especial do jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” nesta edição do Fórum Econômico de Davos, Guedes teria dito durante o o painel “Shaping the Future of Advanced Manufacturing”,  que “o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza.Destroem porque estão com fome, teria justificado ele. Aqui é como se alguém estivesse culpando a Ciclovia Tim Maia por não resistir às fortes ondas do mar, mas com uma pitada acentuada de mentira.

A questão é que os principais mecanismos de destruição do meio ambiente não advém da ação de pobres esfomeados que destroem porque estão com fome. `Pelo contrário, as grandes matrizes de destruição da natureza estão sempre ligadas à ação das grandes corporações multinacionais e os padrões de alto consumo que os ultrarricos impõe para atender suas necessidades artificiais.

Culpar a pobreza para explicar, por exemplo, o avanço do desmatamento na Amazônia oculta toda a rede de interesses que envolve desde as elites locais até as grandes corporações financeiras que hoje operam para acelerar a transformação da paisagem, passando de uma floresta luxuriante a um mosaico dominado pela mineração e pelas monoculturas de exportação.

Explicitando uma enorme coerência interna anti-pobre e anti-ambiente que caracteriza as ações do governo Bolsonaro, Paulo Guedes defendeu ainda o modelo de agricultura envenenada que vem sendo aprofundado com a aprovação expedita de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.  Nesse sentido, Guedes teria dito que “o mundo precisa de mais comida e salientou que é preciso usar defensivos (i.e., agrotóxicos) para que seja possível produzir mais“.    Essa alegação é uma grande falácia, pois a literatura científica mostra que a fome disseminada no mundo não é causada pela falta de comida, mas a concentração de riqueza gerada por um modelo de produção que produz excessos (inclusive de comida) às custas da poluição ambiental e  da degradação da vida dos trabalhadores.

Outra alegação interessante de Paulo Guedes, e que se coaduna com o negacionismo climático que permeia o governo Bolsonaro, é que “somos animais que escapamos da natureza“.  A consequência disso é ignorar, por exemplo, os avassaladores incêndios seguidos por tempestades de areia e chuvas de granizo que estão transformando a vida na Austrália em um cenário quasi apocalíptico. 

A ideia da superação da relação dialética entre os humanos e a natureza atende bem aos interesses daqueles que tratam os sistemas naturais da Terra como meios infinitos de exploração.  Entretanto, essa postura revela grave alienação não apenas em relação ao fato de que, apesar de todos avanços tecnológicos, vivemos em uma relação tensa com os sistemas naturais, mas como estamos em um período de profundas transformações no sistema climático, as quais trarão desafios cada vez maiores para a vida na Terra.  E, obviamente, serão os mais pobres, pseudo culpados pela destruição do meio ambiente na visão de Paulo Guedes, que irão arcar com os piores aspectos das mudanças climáticas.

Por fim, fico curioso sobre qual foi a reação da plateia às declarações de Paulo Guedes, as quais vão de encontro ao tema geral da edição deste ano do Fórum Econômico de Davos que está centrado no respeito ao meio ambiente, ação responsável (seja isso o que for) das corporações e o respeito aos direitos humanos.  É que sem me iludir com os desígnios dos participantes, não deixo de pensar que eles souberam identificar rapidamente que estavam diante de um embusteiro. 

 

O Brasil transformado em pária ambiental planetário já é uma realidade

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A “dobradinha” eficiente de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles para desmantelar a estrutura nacional de meio ambiente já transformou o Brasil em uma espécie de pária ambiental global.

Como já informei em uma postagem anterior, estou retornando ao Brasil após participar do “International Symposium on Green Development and Integrated Risk Governanceque ocorreu entre os dias 13 e 14 de outubro em Shenzhen, China. Ali estava reunidos especialistas de todo o mundo, com expressiva maioria de pesquisadores chineses, para tratar das graves consequências da ampliação de desastres associados às mudanças climáticas em curso na Terra.

Como já era de se esperar, o Brasil era pauta de muitas conversas, nenhuma delas por motivos positivos. Como o evento estava centrado no debate acerca das medidas que terão de ser adotadas para minimizar os custos econômicos, ambientais e humanos da agudização de eventos meteorológicos por causa das mudanças no clima,  a simples menção de figuras como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, era suficiente para que os pesquisadores com os quais conversei esboçassem sua incredulidade com o que está acontecendo no Brasil. A simples lembrança de que Ernesto Araújo acredita piamente que as mudanças climáticas não passam de um complô marxista era causa para risos sarcásticos, não apenas pelos anfitriões chineses,  mas por pesquisadores de todas as partes do mundo que lá estavam.

Conversando com um pesquisador que fará parte da delegação de Bangladesh que participará da COP 25 que ocorrerá em Santiago do Chile após a desistência do governo Bolsonaro em sediar o evento, ouvi uma declaração que misturava incredulidade e desapontamento em face da postura negacionista que agora caracteriza a posição brasileira em eventos que buscam estabelecer estratégias mundiais de combate ao caos crescente no sistem climático. É que Bangladesh, por exemplo, é um país que já está enfrentando problemas sérios apenas com a possibilidade de ter de deslocar milhões de pessoas das áreas que deverão ser inundadas pela inevitável elevação do nível do mar em todo o planeta.

Mas como estava em um evento que tratava do estabelecimento de ações para crir mecanismos de governança visando minimizar riscos ambientais, outro assunto que chamou atenção foi o misterioso derrame de petróleo que está causando graves problemas em todo o litoral do nordeste brasileiro (ver vídeo abaixo de uma fração desse material chegando na costa alagoana).

Para meus interlocutores no simpósio de Shenzhen, a informação de que passados quase dois meses o governo Bolsonaro ainda não tomou as medidas mínimas para organizar uma resposta efetiva para esse desastre chega a ser inacreditável em função do tamanho da indústria do petróleo no Brasil.  Segundo o raciocínio de colegas estrangeiros com quem conversei em Shenzhen, se a resposta brasileira está sendo tão insuficiente em um caso residual como esse, o que acontecerá quando houver um grande desastre como o do Exxon Valdez no Alaska ou da Deep Water Horizon no Golfo do México?

O fato é que toda a eficiência demonstrada pelo governo Bolsonaro para desmantelar uma estrutura ambiental que levou décadas para ser construída já criou um clima completamente antagônico ao Brasil não apenas na comunidade científica internacional, mas também entre os chamados “agentes do mercado”. É que em face das evidentes mudanças causadas pelas alterações nos padrões climáticos da Terra,  não há espaço ou tolerância para posturas ideológicas que ignoram os elementos práticos que afetarão a economia mundial nas próximas décadas.

Por tudo isso, é que os alertas para os riscos de que o Brasil poderia se tornar um pária em escala planetária talvez já nem façam mais sentido. É que tudo indica que já chegamos a este ponto. Corrigir esse curso será tão mais difícil quanto for a duração do domínio dos negacionistas das mudanças climáticas nas instituições de estado no Brasil.  Com isso, os custos políticos e econômicos inevitavelmente também serão difíceis de serem resolvidos.

Petróleo, Porto do Açu e Meio Ambiente, a segunda parte da entrevista de Carlos Rezende ao Portal Viu!

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No último dia 27 divulguei a primeira parte de uma esclarecedora entrevista concedida pelo professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf, Carlos Eduardo de Rezende, ao portal de notícias Viu!.

Agora divulgo a segunda parte da entrevista do professor Carlos Rezende ao Viu! onde ele aborda as diferentes facetas envolvendo a exploração do petróleo na bacia de Campos, os danos socioambientais causados pelo Porto do Açu, bem como outras situações de desequilíbrio ambiental ocorrendo na região deltaica do Rio Paraíba do Sul (ver vídeo abaixo).

Considero que, ainda que na primeira parte da sua entrevista ao Viu! Carlos Rezende tenha apresentado aspectos muito interessantes das suas pesquisas no LCA/Uenf, nesta sequência, ele pode explanar com particular maestria questões de alto interesse não apenas para os habitantes do Norte Fluminense, mas de todo o estado.  É que ele foi capaz de explicar de forma didática várias questões que vêm há algum tempo sendo motivos de debates intermináveis.

Espero que esta entrevista com Carlos Rezende seja seguida por outros com pesquisadores de igual perfil no Portal Viu!.  Se isso acontecer, quem sairá ganhando seremos todos nós que vivemos sempre esperando por jornalismo de qualidade que saia do lugar comum das fofocas de colunas sociais que dominam boa parte da mídia corporativa regional. 

Ponto para o Portal Viu!

Lançada cartilha em inglês para desmentir Ricardo Salles

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O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está na Europa para uma série de encontros para minimizar os danos na imagem do Brasil. Cartilha lançada por ONGs pretende apontar as inconsistências nas falas do ministro. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Por Sabrina Rodrigues para ((o))eco

Uma cartilha para rebater as falas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi produzida pelas organizações Greenpeace, ClimaInfo e Observatório do Clima. Com o título The Ricardo Salles Fakebook – A Guide to the Falsehoods and Rhetorical Tricks of Brazil’s Environment Minister (O livro de Mentiras de Ricardo Salles – Um Guia para as mentiras e artimanhas retóricas do Ministro do Meio Ambiente do Brasil, em tradução livre), o livreto narra e critica desde as ações, tomadas de decisões do ministro até as suas entrevistas na imprensa.

A cartilha já começa elencando aquilo que os organizadores chamam de “Os 3 melhores fatos que você não sabia sobre Ricardo Salles: 

  1. Disse à mídia brasileira que ele tinha mestrado na Universidade de Yale. É mentira. Ele não tem.
  2. Ele foi condenado por fraude duas semanas antes de assumir o cargo.
  3. Atualmente está sob investigação por enriquecimento ilícito”.

No início da cartilha, os organizadores afirmam “Nosso objetivo era criar um pequeno documento compacto, que exibia algumas das inconsistências de Ricardo Salles. Acontece que precisamos de 35 páginas. Por favor, tenha paciência conosco”.

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Capa da cartilha contra as falas do ministro Ricardo Salles

A divulgação da cartilha se dá no momento em que o ministro realiza uma “tour” no exterior para minimizar o estrago da imagem do país causada pelo aumento de desmatamento na Amazônia e pelas queimadas, crise iniciada pelo próprio governo, que gastou semanas tentando desmentir os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que monitora o desmatamento na Amazônia desde 1988, ao invés de fortalecer a fiscalização. A crise do desmatamento deu espaço, em seguida, para a crise das queimadas. E mais uma vez o governo preferiu investir em retórica, acusando as queimadas de serem causadas pelas ONGs. A resposta para a crise, com a publicação de decreto de Garantia da Lei e da Ordem ambiental, ocorreu só no final de agosto, sob forte pressão internacional. 

Após usar o Exército para fazer a fiscalização e repressão de crimes ambientais, o governo colocou os ministros para amenizar a crise no exterior. O Itamaraty publicou vídeos em inglês sobre a Amazônia e o ministro do Meio Ambiente está em viagem onde se reunirá com governantes, investidores e empresas para evitar um possível boicote econômico.

Na cartilha, Ricardo Salles é descrito assim: “Comunicador talentoso, o ministro é capaz de incríveis truques retóricos. Ele frequentemente controla sua exposição na mídia, então ele raramente é entrevistado por jornalistas que cobrem a área ambiental. Sob pressão, ele pode inventar dados sem nem corar. Ele tem talento para enganar jornalistas e o público”. 

O livreto é um raio-x que traça quase que mês a mês, as medidas, ações do ministro, como a redução do corpo de funcionários do Ibama e ICMBio, corte no orçamento, críticas ao Fundo Amazônia, esvaziamento do Conama, descrédito ao INPE, e a posição do governo em relação às queimadas na Amazônia, que se iniciaram em agosto deste ano.

“Tour da mentira”

Um grupo de ativistas do Greenpeace protestaram, nesta quinta-feira (26), em frente à residência do embaixador brasileiro em Paris. No momento do protesto, o ministro Ricardo Salles participava de uma reunião com empresários e investidores franceses para mitigar o desgaste na imagem do Brasil diante da crise ambiental. 

ricardo 3Grupo de ativistas se reuniram em frente à residência do embaixador do Brasil na França, onde o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles se encontrava com empresários franceses. Foto: Jérémie Jung / Greenpeace.

Com faixas com os dizeres “Bolsonaro – Amazon-Killer” (Bolsonaro – assassino da Amazônia), os ativistas tocaram alarmes no pátio da residência como forma de protesto. A polícia francesa acompanhou de longe a manifestação que terminou sem confusão.

Quem desejar baixar a cartilha lançada para desmentir Ricardo Salles, basta clicar [Aqui!].

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ((o))eco[Aqui!].