Charlatães do clima e o preço do silêncio científico

Diante de uma crise climática fartamente documentada, combater a fabricação interessada da dúvida deixou de ser apenas uma disputa científica: tornou-se uma obrigação ética e social da comunidade científica

A crise climática, que hoje nos aproxima perigosamente de situações de colapso, está fartamente documentada pela ciência, que se ampara tanto em dados empíricos — isto é, em medidas verificáveis — quanto em modelagens e outras formas de simulação teórica. Além disso, o próprio senso comum nos mostra que algo dramático está acontecendo com o comportamento do clima em diferentes pontos do planeta. Entretanto, apesar do consenso amplamente majoritário sobre as causas e as consequências do aquecimento da atmosfera terrestre, ainda há espaço para que negacionistas climáticos operem livremente e encontrem audiência, apesar de negarem, basicamente, aquilo que as evidências tornam cada vez mais óbvio.

Recentemente assisti a um vídeo produzido com a participação de um dos mais conhecidos negacionistas climáticos brasileiros, um professor aposentado com uma carreira científica relativamente medíocre e que só alcançou alguma notoriedade em determinados meios porque nega, com argumentos  questionáveis, o consenso científico sobre as mudanças climáticas. Há que se dizer que esse charlatanismo encontra terreno especialmente fértil em círculos que precisam negar o óbvio para continuar praticando atividades econômicas que contribuem para a aceleração do aquecimento global, particularmente naquele setor que se convencionou chamar de agronegócio.

Podemos concluir, portanto, que o charlatão a quem me refiro opera em um meio de cultura previamente preparado para acreditar em suas asneiras e que, muito provavelmente, ainda paga regiamente para que ele continue negando aquilo que a ciência demonstra. Em outras palavras, o charlatão prega para os convertidos, oferecendo uma aparência de legitimidade científica a interesses econômicos que precisam transformar evidências incômodas em supostas controvérsias.

Mas penso que existe outra explicação para que esse e outros charlatães climáticos ainda encontrem público e sejam pagos para disseminar suas mentiras sinistras. Ela decorre, paradoxalmente, de uma característica fundamental do próprio método científico: a ciência trabalha com incertezas, probabilidades e margens de erro. Isso não representa uma fraqueza, mas uma de suas maiores forças, pois significa reconhecer explicitamente os limites do conhecimento disponível. O problema é que os negacionistas exploram justamente essa honestidade epistemológica para fabricar dúvidas onde o conjunto das evidências já permite conclusões extremamente robustas. Transformam margem de erro em ignorância, incerteza quantitativa em controvérsia e debate sobre magnitude em dúvida sobre a própria existência do fenômeno.

Há ainda o problema de que praticamente inexistem mecanismos institucionais eficazes para expor publicamente esse tipo de charlatanismo, especialmente em um país como o Brasil, onde o confronto sistemático de ideias científicas ainda ocorre de maneira bastante periférica. Com isso, conhecimentos sustentados por décadas de pesquisa podem acabar recebendo o mesmo espaço — ou até menos — do que falsificações apresentadas sob uma aparência científica. Desperdiça-se, então, uma quantidade enorme de tempo tentando demonstrar repetidamente aquilo que já se encontra solidamente estabelecido pela ciência. Para os charlatães e seus financiadores, pouco importa quantas evidências sejam apresentadas, pois seu objetivo não é participar de uma controvérsia científica genuína, mas impedir que o conhecimento científico produza consequências políticas, econômicas e sociais.

O problema é que, enquanto o conhecimento charlatanesco não for enfrentado, ocorrerá uma erosão da confiança coletiva naquilo que a ciência efetivamente consegue demonstrar. E isso terá consequências nefastas para nossa capacidade de preparação diante das profundas transformações que a sociedade humana terá de enfrentar nos próximos anos e décadas para continuar vivendo em um planeta cada vez mais quente. O negacionismo, portanto, não constitui apenas uma disputa abstrata no campo das ideias. Ele desarma sociedades diante de riscos concretos, atrasa decisões, protege interesses responsáveis pelo agravamento da crise e aumenta o preço humano, social e ambiental que será cobrado pela continuidade da inação.

Por isso, a comunidade científica não pode adotar uma atitude blasé diante dos negacionistas da ciência. O papel que eles cumprem é profundamente nefasto, pois a difusão sistemática de mentiras travestidas de argumentos científicos ainda causará muito sofrimento, destruição, degradação dos sistemas naturais e perda de vidas humanas. Enfrentar e derrotar o negacionismo científico, nos estudos climáticos e para além deles, deve ser entendido como parte das próprias obrigações da comunidade científica, sob pena de uma perigosa cumplicidade pelo silêncio. Produzir conhecimento rigoroso não basta se permitirmos que ele seja soterrado por falsificações produzidas e financiadas precisamente para neutralizá-lo. A ciência possui a obrigação de investigar, testar, duvidar, corrigir seus próprios erros e reconhecer seus limites, mas possui também a responsabilidade de defender publicamente aquilo que suas melhores evidências permitem afirmar.

Em uma época histórica na qual decisões tomadas hoje determinarão as condições de existência de gerações inteiras, defender o conhecimento científico contra sua falsificação deliberada deixa de ser apenas uma questão acadêmica. Torna-se uma responsabilidade ética e social. Afinal, se a ciência se cala diante daqueles que transformam a mentira em mercadoria e a dúvida fabricada em instrumento de poder, ela corre o risco de abandonar justamente a sociedade que tornou possível a sua existência. E poucas traições à própria razão de ser da ciência poderiam ser maiores do que produzir conhecimento capaz de advertir a humanidade sobre uma catástrofe e, diante daqueles que trabalham para desacreditá-lo, permanecer confortavelmente em silêncio.

Jornal da USP: Teses valorizam mais referências que argumentação, diz professor

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Professor traz informações sobre método científico e faz alerta às ciências humanas, que exigem muitas referências bibliográficas

Por Thainan Honorato

O professor Víctor Gabriel de Oliveira Rodríguez, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, acaba de lançar o vídeo experimental Erro no Método das Ciências Humanas: Ensaio como Tese. O vídeo, voltado especialmente para orientadores, traz informações sobre métodos científicos e, nele, o professor  alega ser  “preocupante o caminho que as teses estão tomando, principalmente na área das Ciências Humanas”. Ele discute o caminho equivocado que as ciências humanas trilham na elaboração de trabalhos científicos,  ao exigirem muitas referências bibliográficas, em detrimento da narração e da qualidade do percurso argumentativo.

O vídeo traz temas como criatividade, autoria, visão de mundo ou libertação de método a partir da obra O Ensaio como Tese: Estética Narrativa na Composição do Texto Científico, de autoria do professor Rodríguez.  Ele está disponível no YouTube e pode ser conferido abaixo:

Rodríguez é mestre e doutor em Direito Penal pela USP, especialista em Direito Penal pela Universidade de Coimbra, pesquisador da Universidade de Valhadolide, na Espanha, e ex-assessor de ministro no Supremo Tribunal Federal. Atualmente, é professor associado da FDRP.

Mais informações: e-mail victorgabriel@usp.br 

FONTE: http://jornal.usp.br/universidade/teses-privilegiam-referencias-bibliograficas-em-detrimento-da-narracao/