No México, a vitória de um nacionalista revolucionário

No dia em que Brasil e México deverão se enfrentar pela Copa do Mundo da FIFA, a população mexicana celebra a vitória de Andrés Manuel López Obrador, ou simplesmente AMLO, na recém encerrada campanha presidencial.

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A vitória terá de AMLO terá amplas repercussões política na América Latina, na medida em que o México é a segunda economia latino-americana e possui influência direta em boa parte da região dentro de sua periferia imediata.

Apesar de AMLO não ser da esquerda tradicional, o simples fato de que ele se opõe às políticas neoliberais de seus antecessores deverá energizar amplos segmentos da população mexicana que hoje se encontram sofrendo com as piores facetas da privatização desenfreada de bens públicos.

A esquerda mexicana terá que saber trabalhar esse momento, de modo a fazer avançar uma agenda mais ampla do que a que levou AMLO ao poder.  Essa possibilidade deverá ser ainda acompanhada de uma diminuição das forças repressivas do aparelho do estado mexicano que  nas últimadas décadas moveu uma guerra sem trégua aos movimentos de oposição, à classe trabalhadora e à juventude mexicana.

Considero que a vitória de AMLO deverá repercutir em outros países latino-americanos porque servir para apagar uma série de derrotas recentes em que a esquerda foi suplantada por candidatos claramente aliados aos interesses estadunidenses na região. 

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Ah, sim! Agora, vamos ver como fica o muro que Donald Trump quer construir na fronteira com o México. É que Trump sempre disse que seria o México quem iria pagar pela construção. Com a vitória de AMLO, é bem capaz que o congresso estadunidense acabe liberando s US$ 25 bilhões necessários para este mamute da segregação geopolítica dos EUA.  A ver!

Existe fome no mundo, mas não é por falta de comida para acabar com ela

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Provocado a pensar sobre uma das minhas próximas aulas na disciplina de Geografia que ministro para estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), lembrei  de um filme que venceu em 2015 a categoria de “short film” do tradicional Sundance Film Festival que foi criado em 1985 por iniciativa do ator estadunidense Robert Redford (Aqui!)

Este “short film” cujo título em inglês é “Man in the Maze”  (ou em português O homem no Labirinto”) mostra como milhões de toneladas de alimentos em boas condições são simplesmente despejados em lixões no estado do Arizona após serem produzidos no México.  Apesar de ser um filme de apenas 8 minutos, o seu conteúdo acaba de forma inapelável com a falsa noção de que a fome existe no mundo porque não há alimento suficiente para satisfazer as necessidades nutritivas básicas da humanidade.

O que o “Man in the Maze” mostra de forma bastante didática que a fome está diretamente ligada ao processo de transformação dos alimentos em outra commodity envolvida no processo de especulação financeira que hoje controla a economia capitalista. 

Abaixo segue o “Man in the Maze” cuja direção coube a Phil Buccellato e Jesse Ash.

Em tempos de repressão, o humor continua sendo uma arma poderosa

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A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA está sendo acompanhada da implementação das medidas extremas que ele havia prometido fazer, e que muitos estadunidenses achavam que apenas um blefe de campanha.

Da ordem para que sejam iniciados os trabalhos para a construção do muro que separará fisicamente as fronteiras dos EUA e do México ao banimento da entrada de muçulmanos de sete países em estadunidense, as promessas de campanha estão sendo aplicadas.

Esse são medidas que efetivamente aumentarão as tensões no mundo, e deverão aumentar os incidentes de violência contra muçulmanos e latinos que já residem dentro dos EUA.

Mas nesses tempos bicudos, o uso do humor como ferramenta de combate ideológico é certamente bastante eficiente para demonstrar o absurdo de determinadas medidas que supostamente visam aumentar a segurança interna dos países ricos.

Abaixo uma prova de uso do humor para ilustrar os paradoxos que envolvem o uso de medidas para coibir o movimento de pessoas e o uso da xenofobia como política de governo.

Capitalismo em convulsão agita os piores instintos da moral burguesa

Um dos aspectos mais peculiares e contraditórios da chamada “Globalização” foi o reforço das tensões locais e regionais, e a emergência de uma onda de uma forma de nacionalismo que incorpora todos os males da sociedade burguesa, incluindo xenofobia, misoginia e homofobia.  O maior símbolo desse nacionalismo foi a eleição do bilionário Donald Trump nos EUA. 

Mas não é apenas nos EUA que os bilionários resolveram tomar o controle do Estado para tentar aplicar uma forma brutal de quase retorno ao período que Karl Marx chamava de “acumulação primitiva”. É o vale tudo sendo transformado em política de governo, substituindo o discurso globalista que emergiu após a queda do Muro de Berlim e o subsequente desaparecimento da URSS.

Entretanto, como a história só repete como tragédia ou como farsa, essa reviravolta sob o comando de personagens que não hesitam em serem politicamente incorretos nada passa de mais uma tentativa dos capitalistas para estancar o apodrecimento do seu sistema econômico.  

Há que se lembrar de que o uso de estratégias de extrema violência já ocorreu em diferentes momentos de crise do Capitalismo, incluindo as duas grandes guerras mundiais e o surgimento de forças políticas que se fundavam no exercício da força extrema contra os trabalhadores como foi o caso do Nazismo na Alemanha e do Fascismo na Itália. Aliás, se voltarmos ao Século XIX poderemos verificar como as forças imperialistas atuaram na África, sendo o Rei Leopoldo II da Bélgica o maior exemplo do terror que foi aplicado para garantir a submissão das colônias.

O que me parece diferente nessa atual fase de convulsão do Capitalismo é que o uso do novo discurso nacionalista não sente a menor vergonha de pregar a supressão dos chamados direitos democrático que tanto foram usados para mostrar uma suposta superioridade moral contra a URSS. Aliás, depois das barbaridades cometidas pelas forças estadunidenses em Abu Ghraib e Guantánamo, essa superioridade já tinha ido pelo ralo mesmo.  Nessa mesma toada, a construção de um muro para separar os EUA do México nem causa qualquer enrubescimento na face dos falsos moralistas que ontem pregavam a derrubada de muros, e hoje não hesitam em construí-los. 

E o que falar da guerra na Síria e do apoio dado por governos nacionais a grupos ligados Al Qaeda e, por que não, ao Estado Islâmico.  Aliás, na guerra da Síria todos os lados envolvidos não hesitaram de rasgar todos os supostos compromissos com a dignidade humana.

Um aspecto que deveria preocupar aos brasileiros é que, curiosamente para um país de minoria branca, o Brasil também tem se mostrado um terreno fértil para a propagação desse discurso supostamente politicamente correta que tolera a proliferação de discursos de ódio contra os mais pobres, especialmente se estes são negros, mulheres ou homossexuais.  

Entretanto, dada a posição de economia dependente que o Brasil historicamente tem tido, a verdade é que não haveria como essa onda de ódio não chegasse por aqui sob uma cobertura de indignação com o sistema político. O fato é que sempre uma sociedade autoritária e segregada, e o que acontece agora é que setores mais ressentidos das camadas médias e altas não hesitam mais em mostrar o que realmente pensam. Assim, temos uma combinação clara entre a convulsão do sistema e o aumento da intolerância no plano nacional.

Quanto mais cedo os que não toleram a fluxo livre destas tendências autoritárias acordarem para essa ligação mais provável será a possibilidade de que essas forças desagregadoras das relações societárias sejam derrotadas. Mas se demorarmos muito a reagir, não há nenhuma razão para acreditar que não nos vejamos imersos num imenso reino de terror, seja no plano local, nacional ou global. 

Uma revolução acontece no México — mas a mídia “não sabe”

Foto: Reprodução/It’s Going Down

O que começou como uma greve dos professores contra a privatização da Educação no país, se espalhou em manifestações, bloqueios e comunas. O EZLN, histórico grupo revolucionário, notificou o governo que não irá tolerar a violência institucional praticada contra a população.


Em um comunicado divulgado na sexta-feira, 17 de junho, os zapatistas colocaram as seguintes questões relacionadas com a greve em curso dos professores nacionais no México:

“Eles apanharam, jogaram gás neles, os prenderam, os ameaçaram, sofreram disparos, calúnia, com o governo declarando estado de emergência na Cidade do México. Qual é o próximo passo? Irão desaparecer com os professores? Será que vão matá-los? A reforma educacional vai nascer por cima do sangue e cadáveres dos professores?”

No domingo, 19 de junho, o Estado respondeu a estas perguntas com um enfático “Sim”. A resposta veio na forma de fogo de metralhadora da Polícia Federal dirigidas contra professores e moradores que defendem o bloqueio de uma estrada em Nochixtlán, uma cidade no sul do estado de Oaxaca.

Inicialmente, o Ministério de Segurança Pública de Oaxaca afirmou que a Polícia Federal estava desarmada e “nem mesmo carregava bastões”. Após ampla evidência visual e uma contagem de corpos de manifestantes mortos no “confronto”, o Estado admitiu que policiais federais abriram fogo contra o bloqueio, matando seis. Enquanto isso, os médicos em Nochixtlán divulgaram uma lista de oito mortos, 45 feridos e 22 desaparecidos. Na segunda-feira, o Coordenador Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), disse que dez foram mortos no domingo, incluindo nove de Nochixtlán.

Os professores pertencentes à CNTE, uma facção mais radical de cerca de 200 mil dentro dos 1,3 milhões do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educaçãpo (SNTE), o maior sindicato da América Latina, estão em greve por tempo indeterminado desde o dia 15 de maio. Sua demanda principal é a revogação da “Reforma Educacional”, iniciada pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto em 2013.

Um plano neoliberal baseado em um acordo de 2008 entre o México e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a reforma visa padronizar e privatizar o sistema de educação pública do México, bem como enfraquecer o poder do sindicato dos professores. Os professores também estão exigindo mais investimento em educação, liberdade para todos os presos políticos, além da verdade e justiça para os 43 desaparecidos de Ayotzinapa.

 
Protesto contra a reforma educacional na Cidade do México | Foto: Yahoo

Um ataque tarde da noite no dia 11 de junho contra o acampamento dos professores em um bloqueio no Instituto de Educação Pública (IEEPO) concentrou mais de mil policiais, que moveram as barricadas e retiraram rapidamente os professores e moradores do local. Um dia depois, os dois principais líderes da CNTE em Oaxaca e Cidade do México foram presos, além de 24 mandados de prisão emitidos para as outras lideranças.

Dezenas de bloqueios foram feitos pela população até o dia 14 de junho, quando dezenas de milhares saíram às ruas para comemorar o aniversário da rebelião em Oaxaca feita em 2006, com a construção de uma comuna que durou cerca de cinco meses.

A CNTE controla 37 pontos críticos nas rodovias em todo o Estado, bloqueando com 50 caminhões-tanque expropriados. Os bloqueios foram tão eficazes que a ADO, uma grande linha de ônibus de primeira classe, cancelou indefinidamente todas as viagens da Cidade do México para Oaxaca, fazendo a Polícia Federal usar aviões para enviar refroços na cidade de Oaxaca, Huatulco (na costa) e Ciudad Ixtepec.

Domingo à noite, a policia começou a cortar a energia para vários setores da cidade, afetando o transporte público, e aumentando os temores de que as forças federais e estaduais tentassem tomar a cidade e o acampamento dos professores na praça principal (Zócalo).

Já na segunda-feira, pelo menos 40 mil pessoas marcharam em Oaxaca para protestar contra a violência do Estado no domingo. Oitenta grupos da sociedade civil emitiram um “alerta humanitário devido ao ataque do Estado armado contra a população civil”. O governador de Oaxaca, Gabino Cué, afirmou que os professores estão em minoria nos bloqueios — tentando deslegitimar a luta.

Foto: Jorge Luis Plata/Reuters

Na cidade de San Cristóbal de las Casas, integrantes do EZLN alertaram o ofensiva do governo mexicano contra os professores e a população de Oaxaca.

Em um comunicado oficial, o grupo zapatista diz “não tolerar a violência praticada de forma rotineira contra os educadores e os estudantes”, e que a cada vez que o conflito se aproxima de territórios ocupados pelo grupo, “maiores as chances de um eventual confronto para proteger a população civil contra o Estado assassino e policial”.

Oficialmente, o EZLN não pega em armas desde a metade dos anos 90, após uma ofensiva do grupo revolucionário em Chiapas. Desde lá, diversas tentativas de negociar um processo de paz foram esgotadas, por conta da pressão do exército nos arredores das cidades ocupadas pelo grupo.

Mesmo com a possibilidade de uma verdadeira revolução ocorrer no México, ainda mais urgente que a situação e os protestos na Venezuela, o assunto não virou manchete nos meios de comunicação do Brasil.

Para o ativista mexicano Pablo Barba, residente no Brasil desde 2007, isso ocorre pela semelhança entre o plano do governo mexicano para a Educação e os objetivos do atual governo interino. “A privatização em massa, o enfraquecimento dos sindicatos, isso tudo é debatido pelo atual governo de Michel Temer, é um velho sonho do PSDB. No México já estão fazendo isso, e agora chegou a reação. No Brasil não será diferente, principalmente se os educadores e os estudantes se inspirarem na mobilização mexicana contra esse plano absurdo do governo”, diz o ativista.


Reportagem no México por Scott Campbell, tradutor que viveu em Oaxaca por sete anos, para a ROAR Magazine e traduzido para o Democratize

FONTE: https://medium.com/democratize-m%C3%ADdia/uma-revolu%C3%A7%C3%A3o-acontece-no-m%C3%A9xico-mas-a-m%C3%ADdia-n%C3%A3o-sabe-64aaa20f697#.vre5i3ayg

Em São João del Rei para participar de seminário sobre Segurança Alimentar na América Latina

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Estou neste momento em São João del Rei para participar do  “II Seminário: “Desenvolvimento Rural, Trabalho e Segurança Alimentar na América Latina” que está ocorrendo na Universidade Federal de São João del Rei, Hoje tive a chance de participar de uma mesa muito interessante com o professor Bernardo Olmedo Carranza da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). 

A fala do Professor Olmedo foi muito contundente no sentido de demonstrar a profunda crise que foi causada no mundo rural do México a partir da implantação das reformas neoliberais pelo governo de Carlos Salinas de Gortari, especialmente a partir da assinatura do North America Free Trade Agreement (NAFTA). 

De acordo com o que nos foi apresentado, a situação do México é atualmente tão drástica que até o produto símbolo da culinária mexicana, o milho, está sendo importado. Além disso, a contaminação das qualidades criolas pelas variedades transgênicas estão causando o desaparecimento da rica biodiversidade que caracterizava a existência do milho.

Para mim, essa descrição do que está se passando no México é quase uma premonição dos riscos que estamos correndo no Brasil, seja pela dependência dos mercados globais para a venda da produção agrícola gerada pelo latifúndio agro-exportador, seja pela ampliação das culturas afetadas pela transgenia que ameaçam o futuro das variedades nativas.

Para quem quiser saber sobre este evento basta clicar (Aqui!)