Estudo identifica 111 espécies de pequenos crustáceos no plâncton amazônico e revela estratégias alimentares comuns

Fotografia de uma amostra de zooplâncton com diferentes organismos identificados por números. O número 2 corresponde a Temora stylifera, espécie citada no estudo. menico D’Alelio, Maria Grazia Mazzocchi, Marina Montresor, Diana Sarno, LTER-MC team, CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons 

Um levantamento de pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e parceiros mostra diferenças na composição do plâncton entre ambientes costeiros, de transição e mais oceânicos da Plataforma Continental Amazônica. Uma análise dos copépodes, pequenos crustáceos que formam o grupo mais abundante nas amostras estudadas, revela que algumas características ecológicas predominantes são compartilhadas entre os ambientes, como onivoria, alimentação mista e captura de presas por emboscada. A diversidade dessas características, por sua vez, varia entre as comunidades analisadas. As constatações estão em artigo publicado na sexta (16) na revista Brazilian Journal of Biology.

Essenciais para a sustentabilidade da vida aquática, os copépodes vivem à deriva na água e têm a função essencial de levar carbono e energia dos microrganismos e das algas para animais maiores. Esses pequenos animais, que costumam ter de 1 a 5 milímetros de comprimento, servem de alimento para larvas de peixes e ajudam a manter os ciclos de nutrientes do planeta.

O trabalho analisou amostras coletadas em 2001, durante três campanhas oceanográficas, em 51 pontos da Plataforma Continental Amazônica e de águas oceânicas próximas, ao largo de Maranhão, Pará e Amapá. As redes percorreram a coluna de água desde a superfície até profundidades máximas entre 12 e 200 metros, conforme o ponto de coleta. Os pesquisadores identificaram 197 grupos de organismos, incluindo 111 espécies de copépodes. Desses grupos, 64 foram registrados nas três campanhas.

Além da identificação dos organismos, a equipe analisou características ecológicas de 101 espécies de copépodes, para as quais havia informações disponíveis. Foram avaliadas suas estratégias de alimentação e reprodução, os tipos de alimento consumidos, os ambientes que ocupam e sua distribuição na coluna de água, organizando essas informações em 29 categorias.

Os dados foram obtidos há mais de duas décadas no âmbito do programa REVIZEE — Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). A base permanece relevante por fornecer uma linha de base histórica indispensável para a avaliação da biodiversidade em um ecossistema tropical onde registros biológicos contínuos são escassos.

“Estas amostras representam um patrimônio científico que continua produzindo conhecimento. Conhecer a diversidade dos copépodes contribui para compreender as relações alimentares que sustentam a vida marinha e pode orientar pesquisas e ações de acompanhamento ambiental”, explica o professor Nuno Melo, da UFRA, autor líder do artigo, que também conta cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e da Universidade de Aveiro, em Portugal.

Segundo o autor, os resultados do trabalho dialogam diretamente com as recomendações do Plankton Manifesto, iniciativa vinculada ao Pacto Global da ONU criada para conscientizar a sociedade e orientar decisões de conservação sobre a vida planctônica. O manifesto internacional pede investimentos contínuos e redes permanentes de observação dos oceanos para acompanhar as mudanças ecológicas ao longo do tempo. Ao mostrar a importância dos pequenos crustáceos para a cadeia alimentar na costa brasileira, o estudo reforça que a proteção dos oceanos também deve incluir os organismos microscópicos, muitas vezes ignorados.

Dando continuidade às pesquisas, os pesquisadores desenvolvem atualmente o Projeto PLUMA, financiado pela Petrobras e executado pela UFRA com apoio da FADESP. Nesta nova fase, os pesquisadores analisam a composição química da água, acompanham o zooplâncton e os organismos que vivem na superfície e reúnem dados históricos sobre a pesca na Bacia da Foz do Rio Amazonas. As expedições e coletas em alto-mar ampliarão o conhecimento atual da região e poderão apoiar comparações com os registros históricos do REVIZEE, respeitando as diferenças entre os levantamentos, completa Melo.


Fonte: Agência Bori