Testes revelam tratamento desigual da inteligência artificial entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto denúncias de interferência eleitoral chegam ao TSE e a organismos internacionais. Mas a resposta decisiva ao poder das big techs terá de vir das ruas
As denúncias de interferência da Meta nas eleições presidenciais brasileiras ganharam uma dimensão particularmente grave nesta quarta-feira (14). Testes realizados pela Folha de S.Paulo, pela Veja e pelo Brasil de Fato demonstraram que a inteligência artificial da empresa, integrada ao WhatsApp, aceitava produzir peças eleitorais favoráveis a Flávio Bolsonaro, mas recusava solicitações equivalentes envolvendo o presidente Lula. A situação torna ainda mais preocupante o poder concentrado nas mãos da corporação de Mark Zuckerberg, que controla Instagram, Facebook e WhatsApp.
Não estamos mais diante apenas de reclamações sobre redução de alcance, bloqueios de contas ou dificuldades para compartilhar conteúdos políticos. Os testes jornalísticos identificaram uma assimetria concreta no funcionamento da Meta AI, justamente durante o segundo turno de uma eleição presidencial. A empresa reconheceu problemas técnicos e afirmou ter adotado medidas corretivas, mas negou qualquer favorecimento deliberado. A distinção é importante: o tratamento desigual foi documentado, enquanto a existência de uma estratégia intencional de manipulação eleitoral ainda precisa ser demonstrada.
A gravidade da situação já levou o Tribunal Superior Eleitoral a exigir explicações da Meta sobre as restrições denunciadas pela campanha de Lula. Entre os questionamentos estão possíveis limitações à distribuição de publicações, dificuldades no impulsionamento de conteúdos e a existência de centenas de perfis falsos que teriam produzido milhões de visualizações com ataques ao presidente e à primeira-dama. A campanha petista também anunciou que levará suas denúncias à Agência Nacional de Proteção de Dados, à Organização dos Estados Americanos e a observadores internacionais.
Outro elemento que torna esse cenário ainda mais inquietante envolve o argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação no universo da comunicação política da extrema-direita latino-americana e pela disseminação de questionamentos infundados sobre o sistema eleitoral brasileiro. Reportagens recentes trouxeram denúncias de sua ex-companheira, Nadia Beller, sobre supostas atividades políticas transnacionais e sua disposição de atuar em favor de Flávio Bolsonaro. Também surgiram alegações sobre possíveis conexões privilegiadas com integrantes da Meta. Essas últimas acusações, entretanto, ainda carecem de comprovação independente e não permitem afirmar que Cerimedo tenha organizado uma operação interna da empresa para interferir nas eleições brasileiras.
O que já está suficientemente claro, porém, é que a concentração da infraestrutura de comunicação nas mãos de uma única corporação representa um problema estrutural para a democracia. Quando uma empresa estrangeira pode alterar unilateralmente a visibilidade de conteúdos, bloquear canais de comunicação e definir critérios opacos de funcionamento de sua inteligência artificial, a igualdade de condições na disputa eleitoral fica perigosamente dependente de decisões privadas. Não se trata de exigir que as plataformas favoreçam Lula ou qualquer outro candidato. Trata-se de exigir que não favoreçam ninguém, que seus critérios sejam transparentes e que eventuais irregularidades sejam investigadas e corrigidas. A alegação genérica de problemas técnicos não pode funcionar como salvo-conduto permanente para uma empresa cujo poder de interferência na circulação de informações alcança dezenas de milhões de brasileiros.
Mas há uma conclusão política que considero ainda mais importante. A esquerda brasileira não pode continuar depositando nos algoritmos das big techs a esperança de derrotar a extrema-direita. Uma campanha que depende excessivamente de visualizações, curtidas e compartilhamentos entrega parte de sua capacidade de comunicação justamente às corporações cujo poder precisa ser enfrentado. É por isso que venho insistindo na necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. As manifestações populares, a organização sindical, os movimentos sociais, as universidades e o trabalho político nos bairros e locais de trabalho possuem uma capacidade que os algoritmos não conseguem controlar integralmente: produzir encontros reais, debates diretos e vínculos coletivos que ultrapassam as bolhas digitais.
A mobilização nas ruas não elimina a influência das plataformas, tampouco dispensa a exigência de fiscalização rigorosa da Meta e das demais big techs. Mas pode reduzir a dependência política em relação a elas, disputar a narrativa pública fora dos ambientes digitais e transformar indignação em força social organizada. A experiência histórica demonstra que transformações políticas profundas não resultam apenas da circulação de mensagens, mas da capacidade de milhões de pessoas se organizarem e agirem coletivamente. As redes podem potencializar essa organização, mas jamais deveriam substituí-la.
Se Zuckerberg e seus algoritmos possuem o poder de limitar o alcance de uma postagem, não possuem o mesmo poder sobre uma avenida ocupada por milhares de pessoas. É precisamente nessa diferença que reside a possibilidade de conter e até reverter o poder político acumulado pelas big techs.
A democracia brasileira não será defendida apenas com reclamações dirigidas à Meta. Será defendida com investigação, transparência, responsabilização e, sobretudo, mobilização popular. Afinal, os algoritmos podem até controlar as telas. Mas as ruas, quando efetivamente mobilizadas, continuam sendo território da política e da ação coletiva.
