O Porto do Açu e seus mitos: uma narrativa nada heróica

mitos

Pastore (2012) lembra ser a palavra mito originária do termo grego mythos, derivado dos verbos mytheio — contar, narrar — e mytheo — contar, conversar. Na Grécia Antiga (do séc. VIII ao séc. VI a. C.), o sentido primordial de mythos era palavra ou discurso, configurados particularmente como narrativas das desventuras de deuses e heróis. Pois bem, em conversa recente, tive acesso ao que considero alguns dos muitos mitos difundidos pelos gestores do Porto do Açu, e que incrivelmente são assimilados de forma acrítica por quem se esperaria um mínimo de criticidade.

Nesta postagem abordarei 3 desses mitos, até para não me alongar muito: a salinização das águas continentais, o processo de erosão costeira na Praia do Açu, e a situação envolvendo as desapropriações realizadas para dar terra para a criação de um natimorto Distristo Industrial de São João da Barra.

mito ou verdade

1) A salinização causada pelos aterros hidráulicos do Porto do Açu

Diante do fato inegável de que os aterros hidráulicos do Porto do Açu causaram um grande desastre ambiental em dezembro de 2012,  foi construído o mito de que o episódio foi pontual e restrito ao Canal de Quitingute. Dois estudos orientados por mim no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais mostram que não apenas a salinização não se restringiu ao Canal de Quitingute, como ela teve consequências que persistem até hoje nas áreas que foram alagadas por água salinas que foram jogadas dentro do continente por causa na folha ocorrida no sistema de bombas que foi instalado pela LLX de Eike Batista.   

Em suma, mito número 1 não se sustenta à luz do que se tem de dados coletados segundo critérios científicos estritos.

Set of colored stamps.

2) A erosão da face sul da Praia do Açu

Como já mencionado em diversos artigos científicos, a construção de estruturas perpendiculares à costa, como é o caso dos molhes e quebra-mares instalados pelo Porto do Açu é indutora de processos erosivos nas áreas de influência direta como é o caso da Praia do Açu. Mas ainda há quem creia na alegação de que as estruturas portuárias estão isentas também nesse caso. Aliás,  não precisaria ler artigos científicos ou livros especializados para saber que as estruturas portuárias estão afetando não apenas a Praia do Açu, mas também a vida dos moradores da localidade de Barra do Açu.  Para constatar esse processo, basta ir até a praia e conversar com os moradores. Ali há gente que sabe muito bem como era a dinâmica praial antes e sabe como ela mudou drasticamente após a construção do Porto do Açu.

Em suma, mito número 2 também é insustentável.

Set of colored stamps.

3) As desapropriações de terras agrícolas

Certamente a questão das desapropriações é o principal espinho que os donos do Porto do Açu tentam se livrar, enquanto cobram aluguéis milionários das terras que foram tomadas pelo governo de Sérgio Cabral de centenas de famílias pobres.  Um mito que se difunde é que todas as famílias que tiveram suas terras tomadas por Sérgio Cabral e entregues para Eike Batista já foram ressarcidas.

Se olharmos apenas as desapropriações realizadas nas áreas que eram consideradas agrícolas até dezembro de 2008, conversando com dois advogados que juntos representam  120 proprietários rurais, a informação que eu obtive é de que até hoje apenas 1 processo de desapropriação foi concluído (ou seja menos de 1%).  

Enquanto isso, o restante dos processos vivem em um constante cabo de guerra em que o Porto do Açu tenta diminuir os preços das indenizações, enquanto segue cobra seus aluguéis milionários das empresas que decidem se instalar nas terras que foram expropriadas pelo governo de Sérgio Cabral. 

A coisa fica ainda pior, pois todas as semanas falece um dos proprietários das terras tomadas, o que complica o processo judicial de ressarcimento. Isto sem falar no fato de que muitos dos herdeiros não possuem recursos financeiros para se tornarem partes dos processos que se arrastam desde 2010 no Fórum de São João da Barra.

Em suma, o mito de que as famílias desapropriadas já foram ressarcidas pela perda de suas terras tampouco se sustenta.

Set of colored stamps.

Se tudo é mito, por que alguns acreditam tão fácilmente nessa mitologia que justifica e legitima as expulsões?

A principal causa da assimilação da mitologia de que tudo está certo no Porto do Açu tem a ver com uma poderosa estrutura midiática que os donos do empreendimento impulsionam, seja por vias próprias ou alugando espaços na mídia corporativa local, regional e nacional. É a famosa história do “quem paga o baile, escolhe a música”.

Mas eu diria que há um elemento adicional que se relaciona à existência de personagens que. por crença no mito de que o porto trouxe ou trará desenvolvimento ou simplesmente por serem adesistas convictos, se dispõe a darem credibilidade aos mitos que foram criados para isentar o empreendimento de suas responsabilidades locais. É óbvio que possuir faces locais que dão sustentabilidade aos mitos de responsabilidade corporativa propalados pelo porto é algo que seus donos adoram, até porque custa barato. Basta chamar para um tour guiado ou um “coffee break” que a propaganda de empresa socialmente responsável estará garantido. Se rolar um acordo de cooperação institucional, aí nem se fala.

Por outro lado, dá para ver que com o lançamento de documentários como é o caso do “Açu dos Desgostos” fica demonstrado que, por detrás dessa mitologia, o que ocorreu e ocorre no entorno do Porto do Açu é um processo de tomada de terras que ocorreu de forma violenta, e que o funcionamento dessa unidade portuária traz significativos impactos sobre as comunidades e os ambientes locais, especialmente porque antes da invasão e das expulsões, ali existia um notável equilíbrio dinâmico.

Assim, adere aos mitos disseminados pelo Porto do Açu quem quiser. Mas quem aderir a essa mitologia terá que saber que tudo na vida tem consequências. Tal como ter reputações que desmancham no ar.

Leandro Narloch e a (re) produção do mito do uso seguro de agrotóxicos

agrotóxicos

O jornalista (neo) con e blogueiro da Veja, Leandro Narloch, possui um blog onde se titula um “caçador de mitos” e disseminador de “uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia”. Pois bem, na postagem, Narloch, o autodenominado “caçador de mitos” faz uma tentativa (bisonha diria eu) de refutar o perigo que os agrotóxicos representam para a população brasileira (Aqui!) .

Um leitor mais leigo que ler o subtítulo da postagem de Narloch já vai ser levado a uma falsa compreensão da realidade. É que as amplas evidências dos problemas causados por agrotóxicos sobre os sistemas naturais e a saúde humana não são mero jogo estatístico divulgado por “ONGs e ativistas”. Na verdade, em que pese alguns números divulgados de forma mais solta, os problemas associados ao uso intensivo de agrotóxicos já possuem uma ampla literatura científica, que torna iinevitável até para a indústria produtora de venenos agrícolas ter de reconhecer os efeitos colaterais dos agrotóxicos.

Narloch também nos oferece uma visão simplista do processo de contaminação de alimentos por agrotóxicos ao omitir informações cruciais para que se entenda como se dá a assimilação sistêmica de determinadas substâncias, os herbicidas, até o processo de contaminação “cruzada” que é causada pelo fenômeno da deriva de agrotóxicos, processo esse que implica que mesmo culturas que não foram alvo do uso de agrotóxicos também podem ser contaminadas.

O “caçador de mitos” também nos priva de uma análise mais acabada do que acontece aos agrotóxicos após serem lançados no ambiente. É que ao repercutir de forma acrítica a informação dada pelo  agrônomo Alfredo José Barreto Luiz, da Embrapa Meio Ambiente de que um “prazo  é calculado para que as substâncias químicas ativas dos agrotóxicos já tenham se transformado em outras (pela ação da temperatura, luz, umidade etc.), restando em quantidade tão reduzida e diluída que não oferece mais perigo”, Narloch omitiu a informação crucial de que a maioria das substâncias químicas ativas que compõe os agrotóxicos normalmente geram subprodutos, os quais podem ser ainda mais tóxicos para o ambiente e seres vivos.  Aliás, para não errar dessa forma,  o jornalista (neo) con deveria apenas se lembrar da máxima cunhada em 1777 por Lavoisier de que “na natureza nada se cria, tudo se transforma”.  

Outro fato importante que foi omitido na postagem de Leandro Narloch é que o Brasil hoje é um paraíso de substâncias que foram banidas em outras partes do mundo, principalmente na Europa, por causarem graves danos ambientais e a saúde humana. Assim, ainda que o uso por hectares possa ser aqui maior ou menor do que em outras partes do mundo (uma informação que precisa ser constantemente checada porque há um paulatino abandono dos agrotóxicos por determinados países enquanto aumenta no Brasil), o fato é que aqui estamos consumindo legal e ilegalmente produtos que foram banidos em outras partes do mundo, incluindo a China. Aliás, eu e outras colegas da Universidade Estadual do Norte Fluminense mostramos isso num artigo publicado na revista científica Crop Protection em 2012 (Aqui!).

Para coroar sua suposta tentativa de desconstruir o mito de que estamos sendo envenenados por agrotóxicos por meio do consumo de alimentos contaminados, nos fornece a sugestão de que podemos almoçar tranquilos já que não ingerimos “5 litros de agrotóxicos por ano”. Além dessa sugestão ser uma simplificação do uso do quantidade como elemento demonstrativo do problema que é o uso excessivo de agrotóxicos no Brasil, a mesma esconde o fato de que análises feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem consistentemente documentando a presença de resíduos de agrotóxicos em vários alimentos fartamente consumidos pelos brasileiros.  Em outras palavras, não há nenhuma razão objetiva para “almoçarmos tranquilos”. Aliás, a situação é, ou deveria ser, de extrema preocupação já que os efeitos documentados do contato prolongadaos com agrotóxicos incluem câncer, autismo, doenças no sistema nervoso, e por ai vai.

Finalmente, há que se frisar que ao nos oferecer uma visão rósea do problema ao sugerir que há algo parecido com o consumo seguro de agrotóxicos, visto que não há. Ao fazer isto, o (des) construtor de mitos nada mais faz do que propagar o mito de que há um uso seguro para esse grupo de substâncias. A verdade é que não há, e qualquer coisa que sinalize o contrário, não passa de mito. Mito esse, frise-se, cuja manutenção interessa apenas à indústria química e ao latifúndio agroexportador. Simples assim!