No Brasil da COVID-19, nem tudo são trevas

mst alimentosA ação de movimentos sociais do campo para fazer chegar alimentos nas periferias pobres das cidades brasileiras é prova que nas trevas do Brasil há luz emergindo

Acompanho com atenção as diferentes narrativas em torno da crescente crise social, política e econômica em que o Brasil se encontra neste momento.  O campo daqueles que mais claramente não “passa pano” para o presidente Jair Bolsonaro e seu não-projeto de Nação, que está concentrado na mídia eletrônica, o tom reinante é de uma denúncia aguda, mas que, raramente, aponta saídas.  Aliás, uma rápida passagem pela maioria de blogs e portais independentes permite verificar que, também, não há uma saída à vista.

Além disso, toda a discussão feita na mídia de oposição está concentrada na desconstrução da figura do presidente Jair Bolsonaro e do seus ministros (ou seriam sinistros). E nas últimas semanas a coisa tem girado na discussão sobre a iminência de um auto-golpe militar que colocaria Bolsonaro em uma condição de Bonaparte acima das instituições para que ele possa impor seu modelo de sociedade de forma mais desenvolta.

Ainda que eu não desconheça os riscos políticos colocados em um momento em que o número de mortos pela COVID-19 já ultrapassou 40 mil, e que o desemprego cresce quase tão rapidamente quanto o contágio pelo coronavírus, eu me arrisco a dizer que a narrativa reinante omite acontecimentos importantes do ponto de vista do que é comumente chamado de “resistência popular”,  e que está acontecendo de diferentes formas nas periferias pobres, justamente as mais atingidas pela pandemia.

Um exemplo que considero marcante deste processo de resistência tem sido a ação dos movimentos sociais do campo, a começar pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que estão realizando um esforço notável para entregar alimentos na forma de doação nas periferias de muitas cidades brasileiras (ver vídeo abaixo sobre uma ação específica do MST/PR que beneficiou 4 mil famílias pobres nas cidades de Guarapuava e Pinhão, localizadas no centro sul do Paraná.

Mas não são só o MST e o MPA que se puseram em movimento para doar alimentos para os pobres das cidades. Em Rondônia, indígenas da etnia Gavião distribuíram alimentos produzidos na Terra Indígena Igarapé Lourdes na periferia de Ji-Paraná em uma clara demonstração de solidariedade aos que passam fome nas cidades amazônicas.

Em São Paulo, quilombolas e caiçaras da região sul do estado também se organizaram para fazer chegar 15 toneladas alimentos nas periferias de cidades paulista, incluindo nove municípios do Vale do Ribeiro e até na cidade de São Paulo, onde se concentra até agora o maior número de mortos pela COVID-19 no Brasil. 

Estou usando a questão da doação de alimentos por agricultores, indígenas, quilombolas e caiçaras apenas como um ângulo de um amplo processo de resistência que também se dá a partir da ação de movimentos sociais urbanos, e que hoje trabalham para aliviar a fome que se espalha em grandes regiões metropolitanas como a do Rio de Janeiro, por exemplo. É que, sem dúvida, com fome e sem emprego, ainda mais pessoas estarão facilmente postas no caminho do coronavírus. E como já se viu,  não será do governo Bolsonaro e de um número significativo de governos estaduais que a ajuda virá.

Mas o importante aqui é notar que a partir dessa de solidariedade ativa, que está sendo protagonizada por segmentos que têm sido o alvo preferencial do processo de desconstrução das políticas sociais pelo governo, que deverão emergir forças poderosas de mudança no Brasil. Por isso, quando se achar que tudo são trevas no Brasil,  é bom lembrar  que existe luz emergindo delas. É que não há nada mais iluminador do que a ação solidária que coloca em xeque as noções de ultra individualismo que foram disseminadas pela ideologia Neoliberal.

Em meio à pandemia, movimentos sociais do campo e assentados da reforma agrária doam alimentos

Em meio à cenas que expressam o mais agudo individualismo que são realizadas por pessoas que não ousam sair de seus veículos importados não deixa de ser animador verificar que, em diferentes partes do Brasil, a ação humanitária se desenvolvendo pelas mãos dos assentados de reforma agrária que estão distribuindo gratuitamente toneladas de alimentos nas periferias mais pobres em cidades localizadas e aldeias indígenas em diferentes partes do país (ver imagens abaixo).

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Tal distribuição de alimentos é fruto da ação organizada de movimentos sociais do campo como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), mas também ocorre de forma espontânea a partir de assentamentos de reforma agrária, muitas vezes sob inspiração de lideranças locais.

Ainda que não esteja aparecendo de forma destacada na mídia corporativa que prefere se concentrar nas notícias sobre os supostos embates que estão ocorrendo dentro do governo Bolsonaro,  essas ações deverão abrir uma nova fase no relacionamento político das populações periféricas e os agricultores que hoje lideram essa corrente de solidariedade. É que enquanto grandes redes de supermercados aproveitam-se deste momento de pandemia para aumentar os preços de gêneros básicos, os assentados oferecem comida de graça para os mais pobres.

O fato é que após a passagem do pior da pandemia, o que deverá ocorrer em cerca de um mês, o Brasil e muitos países da América Latina irão se ver diante de uma enorme crise econômica e política. Neste sentido, as ações que os movimentos sociais do campo e os assentados da reforma agrária estão realizando neste momento poderão ter consequências concretas nos enfrentamentos que deverão ocorrer.

De quebra, a ação dos movimentos sociais do campo e dos agricultores assentados demonstra de forma bastante didática como a organização política pode ser usada para gerar dinâmicas que unam de forma objetiva a classe trabalhadora na cidade e no campo.  Em um contexto marcado pela caos político, isto não é, de forma alguma, algo que seja menos importante para o nosso futuro.

Em uma gestão marcada pelo fechamento de escolas rurais, Campos dos Goytacazes realiza 2o. Seminário de Educação do Campo

escola ruralEm um cenário de fechamento de escolas rurais pelo governo Rafael Diniz, realização de seminário municipal sobre educação no campo é estratégica

Um dos aspectos mais negligenciados do caos reinante na educação municipal de Campos dos Goytacazes é o fechamento de escolas rurais pelo governo Rafael Diniz. Como já notei neste blog em 2018, a prometida valorização do ensino para crianças que moram nas extensas áreas rurais de Campos dos Goytacazes nunca levada à sério, e o que se viu foi a continuidade da prática de fechar escolas localizadas em áreas distantes como é o caso do Imbé.

Mas é justamente por causa da situação de grande precariedade que marca a atuação da gestão Rafael Diniz nas escolas localizadas em áreas rurais que ganha relevância a realização do Segundo Seminário Municipal de Educação que deverá ocorrer no dia 20 de Fevereiro no período de 08 às 17 horas nas dependências do campus Centro do Instituto Federal Fluminense (ver programação abaixo).

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Eu espero apenas que tanto o jovem prefeito Rafael Diniz ou o seu secretário municipal de educação, o sociólogo socialista Brand Arenari, não apareçam no evento apenas para prometer fazer nos 10 meses que restam de seu governo o que não fizeram nos 38 anteriores. É que aí já seria, como dizem os espanhóis, cara dura demais.

Mas olhando para a lista de palestrantes tenho a certeza de que a difícil situação das escolas rurais de Campos dos Goytacazes será abordada de forma compreensiva e aguda, pois se a situação das escolas urbanas já é crítica, imaginemos a condição em que estão aquelas localizadas no campo.

Pesquisadores da UENF fazem registro histórico do local onde Fernando Santa Cruz e outros 11 militantes teriam sido incinerados

Um dia após o Ministério Público Federal (MPF) ter reconhecido que o pai do presidente da OAB-Nacional, Filipe Santa Cruz, o militante desaparecido Fernando Santa Cruz foi incinerado nos fornos da Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes, pesquisadores do Núcleo Cidade, Cultura e Conflito (NUC) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) estiveram no local e realizaram um importante registro das ruínas da tinga usina de açúcar e álcool (ver imagens abaixo).

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Essas imagens são fundamentais para que se mantenha a memória histórica dos acontecimentos violentos que marcaram o extermínio dos que se insurgiram contra o regime militar, especialmente em um momento em que a violência cometida naquele período está sendo relativizada e naturalizada desde a presidência da república.

Outro registro igualmente importante dos fatos envolvendo a Usina Cambahyba é o documentário “Forró em Cambaíba“, realizado sob a direção do jornalista Vitor Menezes, que registra a ocupação do MST nas terras da antiga Usina Cambaíba, em Campos dos Goytacazes (RJ), o assassinato do líder sem terra Cícero Guedes dos Santos, e as denúncias do ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra, de que o local foi usado para queimar cadáveres durante a Ditadura Civil-Militar brasileira.

 

17 de abril: as marcas de um massacre

eldorado

Por: Stefany Rocha para o Instituto Humanitas

 

Eldorado dos Carajás, quarta-feira, 17 de abril de 1996: 19 trabalhadores sem-terra são assassinados pela Polícia Militar do Estado do Pará. Esse fato, ocorrido há 23 anos, tornou-se símbolo de luta e representação dos conflitos agrários que ainda hoje acontecem no campo brasileiro.

Meses antes de o massacre ocorrer, em setembro de 1995, cerca de 3.500 famílias montaram acampamento às margens da Rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás, sudeste do Pará. Próximos à Fazenda Macaxeira, os trabalhadores reivindicavam aquelas terras, consideradas pelo grupo como improdutivas.

Em 5 de março de 1996, a decisão foi de ocupar a fazenda. Com isso, começaram novas negociações com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra, que conseguira um laudo, forjado, segundo os Sem-Terra, comprovando a produtividade da terra. O Instituto de Terras do Estado do Pará fazia as mediações entre os trabalhadores rurais e o Incra para acelerar o processo de assentamento das famílias, ficando acordado o envio de alimentos e medicações para os camponeses.

Porém, o combinado não foi cumprido. Com o intuito de protestar contra a quebra da promessa, no dia 10 de abril, aproximadamente 1.500 famílias iniciaram uma marcha até a capital, Belém. Após sete dias de manifestação pedindo pela desapropriação da Fazenda, os trabalhadores e trabalhadoras decidiram bloquear um trecho da estrada conhecido como “curva do S”. O objetivo era negociar alimentação e transporte básicos.

Sem diálogo com o grupo, Almir Gabriel (PSDB), governador do Pará na época, ordenou que a rodovia fosse desobstruída. Uma tropa com 155 policiais militares foi enviada, sob comando do coronel Mário Colares Pantoja e do major José Maria Pereira de Oliveira. Os policiais abriram fogo contra os agricultores, deixando 19 mortos e mais de 60 feridos. Dois trabalhadores morreram dias depois. Entre os policiais, nenhuma vítima com ferimentos graves.

Entre todos os envolvidos e denunciados pelo massacre, apenas o coronel Pantoja e o major Oliveira foram condenados, a 228 e 154 anos de prisão, respectivamente. Todos os outros policiais foram absolvidos, e o ex-governador Almir Gabriel não chegou a ser denunciado.

Charge em homenagem ao massacre de Eldorado dos Carajás | Ilustração: Carlos Latuff

No local onde o massacre ocorreu, hoje está estabelecido o Assentamento 17 de Abril. A maioria dos moradores são sobreviventes da chacina e familiares das vítimas. A data do massacre acabou sendo escolhida pela Via Campesina, organização internacional de camponeses, como o Dia Internacional de Luta pela Terra. Desde então, abril também é marcado como o mês em que são intensificadas as lutas por terras pelo Movimento Sem Terra. É, ainda, uma forma de camponeses e camponesas se unirem para lembrar a data e homenagear as vítimas do massacre.

Caminhos da Reforma Agrária

Este ano, as manifestações do “Abril Vermelho” que reivindicam a Reforma Agrária estão ocorrendo no contexto do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. O presidente chegou a suspender, depois retratar, até voltar a suspender por tempo indeterminado a reforma agrária. Por isso, o foco dos protestos atuais está em torno dessa paralisia.

Com a suspensão das vistorias de imóveis rurais, os processos de assentamentos ficam interrompidos, prejudicando as famílias que estão acampadas. A política nacional da Reforma Agrária, que busca realizar a desapropriação e redistribuição de terras, vem perdendo espaço no cenário econômico brasileiro há alguns anos. Em 2019, a Lei Orçamentária aprovou R$ 762 milhões de gastos para a área, que em 2015 eram de R$ 2,5 bilhões, segundo dados do Ministério do Planejamento.

O Brasil do massacre de Carajás

Em julho de 2018, ainda como pré-candidato à presidência, em visita a Eldorado dos CarajásBolsonaro declarou que “quem tinha que estar preso era o pessoal do MST, gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer”.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra – CPT em um relatório que aponta os conflitos no campo no país em 2018, no ano que passou, 960.630 pessoas estiveram envolvidas em confrontos agrários, sendo que em 2017 o número foi de 708.520 pessoas.

17 de abril de 1996 não foi a única data manchada de sangue na história do campo brasileiro. 23 anos depois, a história segue se repetindo. “Há uma nação de homens sem rosto, soterrado na lama, sem nome, soterrado pelo silêncio”, escreveu Pedro Tierra, poeta e político brasileiro, em seu poema A pedagogia dos Aços, que homenageia os mortos do massacre.

Ele se refere às 21 vítimas de Carajás: Abílio Alves Rabelo, Antônio Alves Rabelo, Altamiro Ricardo da Silva, Amãncio dos Santos Silva, Antônio Alves da Cruz, Antônio Costa Dias,Graciano Olímpio de Souza, João Carneiro da Silva, João Pereira, João Rodrigues Araújo, Joaquim Pereira Veras, José Alves da Silva, José Pereira, José Ribamar Alves de Souza, Leonardo Batista de Almeida, Lourival da Costa Santana, Manoel Gomes de Souza, Oziel Alves Pereira, Raimundo Lopes Pereira, Robson Vitor Sobrinho, Valdemir Ferreira da Silva.

A terra vale um sonho? A terra vale infinitas reservas de crueldade, do lado de dentro da cerca. Hoje, o silêncio pesa como os olhos de uma criança depois da fuzilaria. Candelária, Carandiru, Corumbiara, Eldorado dos Carajás não cabem na frágil vazilha das palavras… Se calarmos, as pedras gritarão…”, conclui Tierra.

As 19 castanheiras queimadas na ‘curva do S’ representam os mortos do massacre. O monumento original, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para homenagear os camponeses assassinados, foi destruído a mando de um fazendeiro local. | Foto: Divulgação

 

Assista aos vídeos sobre o Massacre de Eldorado dos Carajás:

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Esta reportagem sobre o Massacre de Carajás foi inicialmente publicado pelo Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos [Aqui!]

Marketing acadêmico: Revista Tempo publica artigo sobre influência de intelectuais luteranos na criação do MST

Em um contexto tão complicado como o que atravessamos, penso que é extremamente importante que consigamos participar positivamente do processo de reflexão intelectual acerca do difícil processo de formação de instrumentos de luta política e dos diferentes sujeitos nele envolvidos. 

Por isso é que tenho o prazer de divulgar a publicação do artigo intitulado “Atuação de
religiosos luteranos nos movimentos sociais rurais no Brasil (1975-1985)” pela Revista Tempo.  A liderança intelectual da produção deste artigo coube ao professor Fábio Py que atua comigo no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

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O artigo discute de forma central a  atuação de segmentos luteranos na construção e no
desenvolvimento dos movimentos sociais rurais do Sul do Brasil, particularmente no processo de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Com este esforço de reflexão teórica, procuramos demonstrar que os luteranos ajudaram
na construção da relação entre prática e reflexão mediante ações culturais, educativas e organizativas no interior dos movimentos sociais rurais. Para traçar tal atuação, destacamos o papel cumprido por três religiosos luteranos que tiveram função
ativa junto aos camponeses: Gernote Kirinus, Werner Fuchs e Milton Schwantes, que desenvolveram trajetórias individuais dissonantes da ênfase da estrutura religiosa
luterana no Brasil.

Quem desejar ler este artigo na íntegra, basta clicar [Aqui!]

MST ocupa fazenda improdutiva em Rio das Ostras (RJ)

A fazenda ocupada se situa no entorno da Reserva Biológica União que está sendo degradada pelo atual proprietário

Por Mariana Pitasse, Do Brasil de Fato

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Na madrugada deste sábado (21), cerca de 200 familias do MST ocuparam a fazenda Rancho Sagitário, em Rio das Ostras / Pablo Vergara

Na madrugada deste sábado (21), cerca de 200 famílias que compõem o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a fazenda Rancho Sagitário, no município de Rio das Ostras, no interior do Rio de Janeiro.  A ação faz parte da histórica Jornada de Lutas que relembra a impunidade do massacre de Eldorado dos Carajás, que aconteceu em 1996, no Pará, quando 21 sem terras foram assassinados pela Polícia Militar. Além disso, integra os protestos pela democracia e a liberdade do ex-presidente Lula.  

“Essa ocupação faz parte das ações de luta do Abril Vermelho, em memória de Eldorado dos Carajás. Esse ano também estamos relembrando os dois anos de golpe, a prisão arbitrária de Lula, portanto, é uma ação que visa a retomada da democracia no Brasil, que foi violentamente atacada com o golpe, a intervenção militar e a assassinato da vereadora Marielle Franco”, explica Luana Carvalho, da coordenação nacional do MST.

A fazenda ocupada se situa no entorno da Reserva Biológica União. A área, que possui uma grande biodiversidade, está sendo degradada pelo atual proprietário Renato Barbosa Salgado. Por ter despejado dejetos no leito do rio que chegaram a atingir a reserva biológica, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública contra o proprietário em 2007.

As famílias que constroem a ocupação são das periferias de Rio das Ostras e Macaé. Elas exigem que as terras improdutivas da fazenda Rancho Sagitário sejam destinadas à reforma agrária. Após o golpe de estado instalado no país em 2016, a reforma agrária passa por período de desmonte. No último ano, nenhum assentamento foi realizado. Essa realidade se ampliou com a aprovação da lei 13.465/17, conhecida como lei da antirreforma agrária, como lembra Luana.

“Essa lei incentiva a grilagem, a mercantilização dos nossos patrimônios naturais, incluindo a possibilidade de venda para grupos estrangeiros.  Isso aponta para aumento da concentração de terra e, portanto, acirramento dos conflitos no campo. O último ano foi marcado por um número expressivo de assassinatos de lideranças e o retorno das práticas dos massacres que haviam sido reduzidos com políticas de reforma agrária”, explica. 

Além disso, os municípios de Rio das Ostras e Macaé estão localizados em uma região economicamente atrelada à indústria do petróleo, que sofre com um cenário de demissões generalizadas, o que torna mais grave a situação de pobreza e miséria nas suas periferias. A ocupação também se constrói em resposta a essa realidade e a enorme concentração de terras improdutivas da região nas mãos de poucos.

“O desemprego e a precarização impõem a degradação dos trabalhadores na área urbana o que gera uma urgência ainda maior por uma reforma agrária popular na região. Por isso estamos aqui organizados e em luta”, conclui Carvalho.

FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2018/04/21/mst-ocupa-fazenda-improdutiva-em-rio-das-ostras-rj/

Mulheres ocupam Nestlé contra a privatização das águas

Em janeiro de 2018, Michel Temer e o presidente da Nestlé, Paul Bulcke, se reuniram para discutir a exploração do Aquífero Guarani.

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Da Página do MST

A sede da Nestlé em São Lourenço, Sul de Minas Gerais, foi ocupada por 600 mulheres sem terra às 6 horas da manhã desta terça-feira (20). As mulheres, que seguem na Jornada Nacional de Lutas, denunciam a entrega das águas às corporações internacionais, conduzida a passos largos pelo governo golpista de Michel Temer. Elas alertam para as negociatas que ocorrem neste momento no Fórum Mundial das Águas, em Brasília.

“Imagina você ser obrigada a comprar em garrafinhas toda a água para matar a sede durante o dia. Ninguém aguentaria isso. É o que querem as empresas reunidas nesse momento naquele Fórum”, aponta Maria Gomes de Oliveira, da Direção do MST. “É muita petulância fazer um fórum internacional para comercializar nossas reservas de água. Eles não estão lá para debater gestão de nada, estão fazendo um leilão para vender o país a preço de banana”, completa a dirigente.

Em janeiro de 2018, Michel Temer e o presidente da Nestlé, Paul Bulcke, se reuniram para discutir a exploração do Aquífero Guarani. A reserva abrange quatro países. Após as vitórias dos conservadores na Argentina e golpes de Estado no Paraguai e no Brasil, somente o Uruguai poderia colocar empecilhos à privatização. “Quanto mais o golpe se aprofunda, fica mais clara a influência de grandes grupos econômicos sobre a política e seu interesse em explorar as nossas riquezas naturais”, explica Oliveira.

Extração criminosa

A empresa, que controla 10,5% do mercado mundial de água, está instalada na cidade mineira desde 1994, quando comprou as fontes e o Parque das Águas de São Lourenço. Desde 1997, a população local denuncia a exploração das águas minerais que, antes de serem privatizadas, eram amplamente utilizadas para tratamentos medicinais. Além da redução da vazão, nota-se a mudança no sabor da água, ou seja, a exploração está fazendo com que ela perca seus sais minerais.

O processo de envase leva ao mercado duas marcas, a São Lourenço e a Pure Life. Esta última foi comercializada sem licença estadual de 1999 até 2004, quando o governo Aécio Neves (PSDB), presenteou a empresa com a autorização. No entanto, uma ação civil pública contra a Nestlé apurou que além de abrir ilegalmente o Poço Primavera e gerar a seca da fonte magnesiana, a água produzida também era ilegal. A Nestlé fazia a retirada de todo o minério do líquido através de um processo químico, para em seguida adicionar sais minerais de sua própria patente.

“A Nestlé se instaurou aqui há décadas e por décadas faz a exploração predatória e até irregular. A água é um bem comum da humanidade, defendê-la é uma questão de soberania”, explica Maria. Apesar do presidente da Nestlé afirmar que não há superexploração, duas das fontes do parque já secaram. Segundo os dados oficiais da própria empresa, são sacados 19 milhões de litros de água por ano. Como não há uma legislação específica sobre o mercado, resta à União, ao município e ao Estado uma compensação financeira. Em 2016, isso significou para São Lourenço, trágicos 563 mil reais.

Escravocrata

O Sul de Minas Gerais é conhecido pela grande produção de café. A Nestlé controla 22% das marcas de café no mundo, grande parte retirada da região. O plantio convencional, dotado de altos níveis de agrotóxicos, emprega milhares de trabalhadores irregulares anualmente. Faltam fiscais do trabalho para controlar os abusos que ocorrem nas fazendas cafeicultoras. Em 2015 dois adolescentes, um de 14 e outro de 15 anos, foram resgatados de Fazendas da Nestlé.

Marielle vive!

As mulheres Sem Terra reivindicam ainda a memória de Marielle, exigindo justiça e punição aos responsáveis. “Não temos dúvidas de que este Estado antidemocrático é inteiramente responsável pela execução da nossa companheira. Marielle viverá sempre em nossa luta!”, afirma Maria.

As mulheres Sem Terra prometem continuar as lutas durante o ano. Nesse sentido, Maria Gomes de Oliveira é taxativa: “Enquanto a burguesia continuar impondo este rompimento democrático, condenando a população brasileira à perda de direitos, vamos seguir ocupando terras, empresas e propriedades para denunciar todos os articuladores do golpe. O povo precisa saber quem são os responsáveis pela miséria, pela sua exploração e pela destruição do meio ambiente”.

*Editado por Rafael Soriano

FONTE: http://www.mst.org.br/2018/03/20/mulheres-ocupam-nestle-contra-a-privatizacao-das-aguas.html

Começa hoje a IX Feira Estadual da Reforma Agrária

Em meio a uma conjuntura marcada pelos seguidos ataques aos direitos dos trabalhadores começa hoje na cidade do Rio de Janeiro a IX Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes. Essa feira além de mostrar a capacidade de organização dos assentamentos de reforma agrária existentes no Rio de Janeiro é também um testemunho do legado político deixado pelo líder do MST na região Norte Fluminense, Cícero Guedes.

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É que a realização dessa feira e sua difusão em diferentes partes do estado era um dos objetivos mais acalentados por Cícero. 

A minha expectativa é que um dia possamos ter a versão local dessa feira, já que no município de Campos dos Goytacazes existem 9 assentamentos de onde sai uma boa parte da produção que abastece a feira estadual da reforma agrária.

Cícero Guedes vive!

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Conflito agrário no Porto do Açu: agricultores realizam ato e celebração ecumênica

Estive esta amanhã no V Distrito cumprindo uma agenda de pesquisa e aproveitei para visitar o acampamento de reocupação que foi montado pelos agricultores desapropriados pelo (des) governo de Sérgio Cabral para beneficiar os negócios do ex-bilionário Eike Batista no seu megaempreendimento do Porto do Açu.

Encontrei no acampamento velhas caras das lutas promovidas pela ASPRIM desde 2011 quando se deu o auge das expropriações de terras, e também velhos conhecidos de sindicatos e movimentos sociais.

Uma coisa é certa: o ânimo que encontrei era alto e a disposição de ampliar a luta pelo retorno das terras expropriadas aos seus legítimos proprietários também.

Abaixo algumas imagens do acampamento da reocupação.