Com as mudanças climáticas, chuvas anormais são o novo normal

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As chuvas que castigaram a região Sudeste nos últimos dias trouxeram novos recordes diários em termos não apenas de pluviometria, mas também para a rápida elevação de corpos aquáticos que tomaram rapidamente as áreas urbanas em dezenas de municípios.   Não custa lembrar que cientistas estudiosos das mudanças do clima já tinham previsto que essas chuvas “anormais” seriam o novo normal e que, por causa disso, haveria que se adotar uma série de ajustes na forma pelas quais as cidades estão organizadas em todo o planeta.

Nesse sentido, o Painel Brasileiro das Mudanças Climáticas publicou em 2016, um relatório abordando os impactos das mudanças climáticas sobre as cidades, e quais seriam as mudanças que precisariam ser feitas para promover um ajuste à nova situação que se firma no horizonte.  Até aqui, esse relatório foi literalmente ignorado pelas autoridades competentes que continuam tratando a gestão das nossas cidades no modus operandi do “business as usual“.

Para piorar a nossa situação, o governo Bolsonaro está repleto de figuras que negam até que estejamos passando por um ajuste drástico no funcionamento do clima da Terra.  Para um dos mais notórios deles, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, as mudanças climáticas não passariam de uma conspiração de marxistas mal intencionados que querem frear a economia mundial.

Assim, não chega a ser surpreendente que as situações críticas que se seguiram às fortes chuvas que varreram comunidades e causaram até agora um número desconhecido de mortes estejam sendo tratadas como algo sobrenatural e incontrolável. Uma prova disso foi a declaração do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que atribuiu às chuvas o papel equivalente de um furacão ou terremoto para, é claro, isentar sua administração de qualquer responsabilidade nas perdas humanas e materiais que ocorreram em sua cidade.

Mas Kalil não foi o único gestor a fugir das responsabilidades e de ignorar a nova realidade que as mudanças climáticas impõem sobre os que estão hoje responsáveis por governar cidades que estarão cada vez mais impactadas e, ainda, sem planos para promover a necessária adequação em uma infraestrutura urbana que não suporta o novo regime pluviométrico.

A questão objetiva é que ou nos preparamos para rever completamente os modelos de cidades que temos nas mãos ou continuaremos a sermos expectadores de novos momentos de destruição e morte.   As mudanças climáticas, queiram os negacionistas ou não, estão aí e ignorá-las só nos empurrará para mais catástrofes.

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Assim, fico curioso para ver como essa situação será tratada nas próximas eleições municipais, a começar aqui mesmo por Campos dos Goytacazes.  A minha expectativa é que, lamentavelmente, a situação dramática que se descortina sobre nossas cidades, especialmente em suas áreas mais pobres, continuará sendo literalmente ignorada pelos candidatos a ocupantes das cadeiras de prefeito. O mais provável é que a “atitude a la Alexandre Kalil” continue sendo a mais comum. 

 

 

Governo Bolsonaro finge mudança de curso na Amazônia para escapar de crescente isolamento global

bolsonaro amazoniaPressionado em várias frentes, o governo Bolsonaro finge, apenas finge, que vai mudar de curso na Amazônia

As notícias que estão vindo de fontes independentes em Davos dão conta do profundo isolamento em que o Brasil foi colocado pelas políticas “anti tudo o que está aí” do governo Bolsonaro. O resultado prático disso é que, apesar das tentativas da mídia corporativa de mais uma vez “passar o pano” para Jair Bolsonaro e seus ministros maluquinhos, a imagem do Brasil está mais queimada do que as floresta da Amazônia, e até os grandes fundos de investimento internacionais estão dizendo que não colocarão seu dinheiro especulativo no mercado brasileiro se não houver uma mudança urgente e profunda de curso. A coisa ficou ainda pior com  a publicação do relatório  da “Human Rights Watch”, respeitada organização não-governamental,  acerca dos resultados nefastos do desmanche promovido pelo governo Bolsonaro na governança ambiental na Amazônia.

Como mudar de curso não é o forte da turma comandada pelo presidente Jair Bolsonaro, a saída adotada até agora é fingir que se está mudando de curso para continuar a torrar as florestas amazônicas.  A principal prova disso é o anúncio da criação do “Conselho da Amazônia” e de uma “Força Nacional Ambiental” que, em tese, serviriam para aplacar a ira de celebridades internacionais, governos e investidores contra a postura anti-ambiental do governo brasileiro.

Essa sinalização certamente será recebida com suspeição por todos os que têm se manifestado contra a postura objetiva do governo Bolsonaro que, ao longo de 2019, permitiu uma escalada do desmatamento, invasão de terras indígenas, assassinatos de ativistas ambientais, e um aumento significativo no número de queimadas. É que, ao contrário do que imaginam o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas e terraplanistas, há uma pressão global para que sejam feitos avanços objetivos na contenção dos efeitos das mudanças climáticas, motivo pelo qual há uma considerável preocupação com o descontrole do processo de remoção de florestas tropicais, principalmente na Amazônia brasileira.

Para complicar ainda mais o enredo, o governo Bolsonaro conseguiu desarticular algo que sempre funcionou bem, a despeito do governo de plantão. Falo aqui da diplomacia brasileira que, até a chegada de Ernesto Araújo ao posto de ministro de Relações Exteriores, era tida como profissionalmente pragmática. Agora o que se vê é um ministro fortemente decidido a nos submeter aos interesses do governo dos EUA, e que vem assumidamente atuando para remover o pragmatismo da diplomacia brasileira para substituí-la por uma ação fortemente ideológica. 

O resultado disso tudo é que o descrédito em relação ao Brasil nunca foi tão alto, o que coloca em risco os interesses econômicos até do latifúndio agro-exportador cuja maioria de seus membros apoiou Jair Bolsonaro desde o seu início da sua corrida presidencial.  

Como não acredito em mudança real na forma de gerir a questão ambiental por parte de Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, não ficarei surpreso se o cenário de evasão de investidores se aprofundar, e boicotes de parceiros econômicos importantes se materializarem ao longo de 2020. Quem sabe aí os verdadeiros comandantes da economia e da política brasileira ajam para conter o estrago que já se desenha em um horizonte bastante próximo.

E antes que eu me esqueça: o relógio está correndo junto com as motosserras e correntões em diferentes partes da Amazônia brasileira. Se nada for feito para impedir o que já está acontecendo, 2020 será outro ano de números explosivos de desmatamento e queimadas. Aí, provavelmente, começaremos a ver as consequências da perda de paciência do resto do mundo com o governo Bolsonaro e sua atitude piromaníaca com as nossas florestas. Tic-tic-tac-tic-tac……

 

Ricardo Salles e seu churrasco celebratório fora de lugar

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Estive fora de combate nos últimos dias e não pude comentar antes o papel jogado pela delegação brasileira no fracasso das negociações no interior da chamada COP25  para que um acordo multilateral em torno dos ajustes necessários para se fazer frente às inevitáveis consequências das mudanças climáticas que estão ocorrendo na Terra, Lá, sob liderança do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o Brasil chegou a negar duas coisas que a ciência já demonstrou faz tempo: o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global!

Pelo que li a presença de Ricardo Salles na COP25 se dividiu em duas ações básicas: 1) implorar por dinheiro para “proteger” o meio ambiente e 2) impedir qualquer evolução positiva nas negociações para um conjunto de regras para um ajuste global na produção econômica de forma a manter o clima da Terra dentro um limiar capaz de impedir grandes e trágicas transformações ao longo do planeta.  Essa postura não passou despercebida, e foi classificada por representates de outros governos como “chantagem imatura“.

Essa postura é coerente com quem Ricardo Salles e com o governo que ele representa. Ambos são céticos das mudanças climáticas e negam que os que está sendo visto e medido cientificamente sejam resultado do funcionamento da economia global. Aliás, a coerência entre o ministro e governo é tanta que, logo após impor um acordo extremamente minimalista à COP25, Ricardo Salles resolveu fazer uma piada de mau gosto e postou uma imagem de um churrasco (pago com o dinheiro público com certeza) em algum restaurante de Madri (ver imagem abaixo).

Ricardo Salles veggie

Mas esquecendo um pouco da coerência e pensando mais nos efeitos desastrosos que a presença de Ricardo Salles teve para o lugar ocupado pelo Brasil na discussão das mudanças climáticas, eu diria que outros representantes de governos nacionais toleram o negociador mais duro, mas definitivamente possuem pouco apetite para molecagens. Assim, ao se comportar com um colegial indisciplinado e metido a engraçadinho, Ricardo Salles chamou para o Brasil, as piores consequências dos seus atos.  Ainda que isso não se manifeste prontamente, não há dúvida de que consequências ocorrerão. Mas o fato é que o Brasil saiu isoladíssimo da COP25, e esta posição isolada terá custos.

 

 

Brasil: sem liderança e nem protagonismo na COP25

Estreia de governo Bolsonaro na Conferência do Clima, em Madrid, será marcada por cobrança sobre o desmatamento e pressão para incrementar as ambições

SPAIN-CLIMATE-ENVIRONMENT-COP25Começa hoje em Madrid a COP25, que seria no Chile, depois da desistência do Brasil. Foto de Gabriel Bouys/ AFP

Por Liana Melo para o Projeto Colabora

Onze meses foram suficientes para o Brasil perder seu protagonismo nas discussões climáticas. É na condição de coadjuvante, e não mais como uma liderança globalmente reconhecida, e respeitada, que o governo Bolsonaro fará sua estreia na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP25, que começa hoje em Madri. Não será novidade para as delegações do mundo inteiro que vão transitar pelo FIEMA Feria de Madrid, um dos oito maiores centros de convenção da Europa, até o próximo dia 13, o desprezo do presidente pela agenda ambiental – ele anunciou que não tinha interesse em ser anfitrião do encontro, antes mesmo de tomar posse. Em menos de um ano, o governo jogou no lixo um trabalho de décadas, que transformou o meio ambiente na melhor tradução do estilo soft power da diplomacia brasileira.

Sob o lema “Tempo de agir”, o secretário-geral da ONU, António Guterrez, tem dito que quer uma conferência com “ambição, ambição, ambição”. Não é para menos. Às vésperas da COP25 — penúltima antes do início da implementação das metas do Acordo de Paris –, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou, em Genebra, seu último relatório: Emissions Gap. Para atingir a meta do Acordo de Paris e manter a temperatura da planeta em 1,5°C será necessário triplicar o corte de emissões de gases de efeito estufa (GEE), pulando de uma redução de 2,7% ao ano para 7,6% anualmente. O Brasil chegou a ameaçar sair  do Acordo de Paris, mas não cumpriu a promessa. Já os Estados Unidos saíram do tratado internacional no início de novembro.

“Do Acordo de Paris, só restou mesmo a assinatura do Brasil”, chama a atenção Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. Desde que assumiu, o governo Bolsonaro vem tripudiando sobre o meio ambiente. “O atual governo acabou com a governança do clima”, complementa, acrescentando que o Comitê Interministerial de Mudança Climática foi extinto – o órgão havia sido criado em 2007 e era subordinado à Casa Civil.

A representante do Brasil na parte de mitigação do setor de transporte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), Suzana Kahn, está convencida de que, nesta COP, “teremos que ficar nos explicando sem parar, diante do que vem acontecendo, especialmente sobre os dados de desmatamento”. A imagem do Brasil está bastante arranhada e cresce um certo ceticismo quanto ao compromisso do governo com regras pré-estabelecidas: “Com esse discurso negacionista do aquecimento global, estamos virando palha”, conclui Suzana.

Os apelos da ONU não têm surtido efeito no país. “Não existe nenhuma estratégia em curso para implementar a INDC brasileira”, diz Rittl. A INDC, que na tradução para o português significa “Contribuições Pretendidas, Determinadas em Nível Nacional”, seriam justamente as tais metas mais ambiciosas de que tanto se fala na comunidade internacional.

Gado-4Imagem aérea de uma queimada no Mato Grosso, dentro de um território indígena. Foto Marizilda Cruppe/Anistia Internacional

A Comunidade Europeia saiu na frente – ainda que apenas simbolicamente. Recém eleita, a nova Comissão Europeia vem pressionando o parlamento europeu para declarar “emergência climática” na União Europeia – o termo entrou para o Dicionário Oxford, um dos principais de língua inglesa no mundo, como a sua palavra do ano de 2019. Divergências internas à parte, a pressão é aumentar as ambições para reduzir os gases de efeito estufa (GEE) de 40% para, pelo menos, 50%.

Mesmo sabendo que a COP25 tem uma agenda pré-estabelecida, o chefe da delação brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já avisou que vai à Madrid pedir dinheiro para combater o desmatamento. A agenda é clara: fechar o Livro de Regras do Acordo de Paris, a bíblia do tratado internacional assinado em 2015 e que não foi concluído em 2018 na COP24, em Katowice, Polônia, e definir o artigo 6 que trata dos mecanismos do mercado de carbono. “Esperamos que a racionalidade prevaleça e o governo brasileiro avance nas negociações para fechar as agenda da COP25”, torce Bruno Toledo, do Instituto ClimaInfo.

Justificando que o Brasil é um modelo em conservação ambiental, Salles vai cobrar pelo menos US$ 10 bilhões dos US$ 100 bilhões ao ano prometidos por países desenvolvidos a nações em desenvolvimento pelo Acordo de Paris. O pleito vem depois de o país ter esnobado o Fundo Amazônia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrar um desmatamento recorde, com crescimento de 29,5% em 12 meses. Foram destruídos 9.762 quilômetros quadrados de floresta – duas vezes e meia a mais do que se comprometeu, em 2010, quando o Congresso Nacional aprovou uma lei que limita o desmatamento do país, em 2020, a uma área de 3.900 quilômetros quadrados.

Mesmo que venha a usar de frases de efeito e tente aparar as críticas à política ambiental do governo Bolsonaro, a expectativa é de que Salles exponha o Brasil a constrangimentos na COP25. Na Cúpula do Clima, que antecedeu a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova Iorque, por exemplo, o Brasil sequer pode discursar. Só subiram ao palco os países que haviam, de antemão, apresentado planos para aumentar as metas climáticas – além do Brasil, ficaram de fora os Estados Unidos, Austrália e Japão.

O desmatamento não passará despercebida pelos 25 mil delegados internacionais na Feria de Madrid, assim como outras novidades que vão marcar a estreia do governo Bolsonaro na Cop25. Será a primeira vez que o Brasil não terá um estande oficial, onde, costumeiramente,  apresenta os projetos e programas de combate às mudanças climáticas. Oficialmente, a justificativa foi a falta de tempo hábil para montar o estande, depois que a conferência foi transferida do Chile para Madrid – dado o histórico do governo na área ambiental, a explicação não tem convencido. Sem estante oficial, fica no ar a pergunta: onde Salles e sua equipe de negociadores ficarão e onde receberão representantes de outros governos para conversar? Restará a alternativa, por exemplo, de outros países, talvez a Espanha, anfitriã do encontro, fazerem a gentileza de oferecer um sala para o governo brasileiro.

Será no Brazil Climate Action Hub, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que a sociedade vai promover encontros e debates com organizações não-governamentais (ONGs), academia, governos estaduais e prefeituras, e até representantes do setor privado e financeiro.

Outra novidade adotada pelo governo Bolsonaro foi tirar  do alto escalão do Itamaraty a agenda climática – o que mostra total coerência com a decisão de convocar um negacionista climático para o cargo de chanceler, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O chefe da delegação brasileira na COP25,  Leonardo Cleaver de Athayde, é o primeiro-secretário. A estratégia de esvaziar o tema chegou, inclusive, à distribuição de credenciais. Se, no passado, a delegação brasileira já chegou a ser uma das mais expressivas na história das COPs, chegando a estar representada por 800 pessoas, entre representantes do governo e da sociedade civil; este ano, pela primeira vez em mais de 12 anos, a chancelaria brasileira não deu credenciais a ONGs, academia e setor privado.

Salles e a equipe de negociadores terão que se esforçar muito para voltar ao Brasil com alguma verba anti-desmate. Simplesmente porque o tema não está na pauta da COP25. Um ponto-chave da conferência é a discussão sobre os mercados de carbono e as suas regulações. Ou seja, como transformar emissões de carbono em créditos que possam ser comprados e vendidos – um sistema que só vai funcionar se todos os países concordarem em manter suas emissões de carbono abaixo de determinados preços. Chegar a este cálculo é uma tarefa hercúlea. As viagens de avião, por exemplo, estão entre os vilões da emissão de gás carbônico. Conhecido no  jargão da ONU como Artigo 6, esse é um assunto que vem desafiando muitos negociadores, de diferentes países. Sem falar no fato de ser uma discussão que vem se prolongando há vários anos, mas que precisa ser colocado um ponto final em Madrid.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

ONU aponta que países precisam fazer reduções imediatas de emissões de carbono para viabilizar metas do Acordo de Paris

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Os compromissos atuais dos países sob o Acordo de Paris são insuficientes para conter o aquecimento global em 1,5°C, aponta novo relatório da ONU; para que isso aconteça, o mundo precisaria reduzir suas emissões em 7,6% anuais ao longo da próxima década

Genebra, 26 de novembro de 2019 – Na véspera de um ano em que as nações deverão reforçar seus compromissos climáticos sob o Acordo de Paris, um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) adverte que, se as emissões globais de gases de efeito estufa não caírem 7,6% ao ano entre 2020 e 2030, o mundo perderá a oportunidade de limitar o aquecimento global neste século em, no máximo, 1,5°C.

De acordo com Emissions Gap Report 2019 do PNUMA, mesmo se os compromissos atuais forem implementados, a temperatura média global deverá crescer até 3,2°C com relação aos níveis pré-industriais, o que acarretará em impactos climáticos ainda mais destrutivos nas próximas décadas. A ambição coletiva dos países precisa quintuplicar em comparação com os níveis atuais para viabilizar os cortes de emissões ao longo da próxima década necessários para limitar o aquecimento em 1,5°C.

O ano de 2020 será crítico para a ação climática, com a Conferência da ONU sobre Clima de Glasgow (COP 26) buscando determinar o curso futuro das ações para evitar a crise climática. Nela, espera-se que os países elevem o grau de ambição de seus compromissos e anunciem novas ações de redução de emissão.

“Nosso fracasso coletivo em agir antes e de maneira efetiva contra a mudança do clima significa agora que precisamos fazer cortes profundos em nossas emissões – mais de 7% por ano ao longo da próxima década”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA. “Isto mostra que os países não podem simplesmente esperar até o final de 2020, quando os novos compromissos climáticos são esperados, para intensificar a ação. Eles – e cada cidade, região, empresa e indivíduo – precisam agir agora”.

“Precisamos de ganhos rápidos para reduzir emissões tanto quanto possível em 2020, e depois, de contribuições nacionais mais fortes para impulsionar transformações importantes nas economias e nas sociedades. Temos que recuperar o tempo que desperdiçamos no passado”, acrescentou. “Se não o fizermos, a meta de 1,5°C estará fora de alcance antes de 2030”.

O Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (IPCC, sigla em inglês) advertiu que, se a temperatura média do planeta crescer acima de 1,5°C neste século, a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos aumentará, como as ondas de calor e tempestades observados em todo o mundo nos últimos anos.

As nações do G20 respondem coletivamente por 78% de todas as emissões, mas apenas cinco membros desse grupo se comprometeram até agora com uma meta de longo prazo de emissões zero.

No curto prazo, os países desenvolvidos terão que reduzir suas emissões mais rapidamente do que os países em desenvolvimento, por razões de justiça e equidade. No entanto, todos os países terão que contribuir mais para os efeitos coletivos. Os países em desenvolvimento podem aprender com os esforços bem-sucedidos dos países desenvolvidos; podem até mesmo ultrapassá-los e adotar tecnologias mais limpas a um ritmo mais rápido.

De modo crucial, o relatório aponta que todas as nações devem aumentar substancialmente a ambição de suas contribuições nacionalmente determinadas (NDC) para o Acordo de Paris em 2020 e acompanhá-la com políticas e estratégias para sua implementação. As soluções estão disponíveis para tornar possível o cumprimento dos objetivos do Acordo, mas não estão sendo implementadas com rapidez suficiente ou em uma escala suficientemente grande.

Todos os anos, o Emissions Gap Report avalia a diferença entre as emissões previstas para 2030 e os níveis compatíveis com as metas de 1,5°C e 2°C do Acordo de Paris. O relatório conclui que as emissões de gases de efeito estufa aumentaram 1,5% ao ano na última década. As emissões em 2018, incluindo as resultantes de mudança no uso do solo (como desmatamento), atingiram um novo pico de 55,3 gigatoneladas de CO2 equivalente.

Para limitar o crescimento da temperatura média em 2°C, as emissões anuais em 2030 têm que ser 15 gigatoneladas de CO2 equivalente menores que às que teríamos se as atuais NDC fossem implementadas; para a meta de 1,5°C, as emissões precisam ser 32 gigatoneladas menores que as estimadas pelos compromissos atuais. Numa base anual, isso significa cortes de emissões de 7,6% ao ano de 2020 a 2030 para atingir a meta de 1,5°C e de 2,7% ao ano para a de 2°C.

Para concretizar esses cortes, os níveis de ambição das NDC devem aumentar pelo menos cinco vezes para a meta de 1,5°C e três vezes para a de 2°C.

O relatório ressalta que a mudança do clima ainda pode ser limitada a 1,5°C. Há uma maior compreensão dos benefícios adicionais da ação climática – como ar mais limpo e incentivo para a concretização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Governos, cidades, empresas e investidores estão se empenhando cada vez mais em elevar a ambição da ação global contra a crise climática. Existe soluções, pressão e vontade abundantes. Falta ação.

Tal como acontece todos os anos, o relatório centra-se no potencial dos setores selecionados para reduzir as emissões. Este ano, ele analisa a transição energética e o potencial de eficiência na utilização de materiais, que pode contribuir significativamente para fechar a lacuna das emissões.

O relatório está disponível no link abaixo:

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal voz mundial em matéria de meio ambiente. Ele proporciona liderança e incentiva parcerias no cuidado com a natureza, inspirando, informando e permitindo que nações e povos melhorem sua qualidade de vida sem comprometer a das gerações futuras.

Para mais informações, favor contate:

• Keishamaza Rukikaire, chefe de imprensa & mídia, PNUMA – rukikaire@un.org

• Alejandro Laguna Lopez, oficial de informação, PNUMA – laguna@un.org

Não é porque é úmida que a Amazônia não pega fogo…

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O vídeo abaixo é mais uma daquelas demonstrações que dentro do atual governo há a clara expectativa de que ninguém que ouça que é dito entende do que está sendo falado. Nele o presidente Jair Bolsonaro nega de cara limpa o fato de que em 2019 a Amazônia brasileira literalmente ardeu em chamas por causa do desmanche dos mecanismos de comando e controle que existiam até dezembro de 2018.

A coisa é que flagrantemente inverídica que apenas um exame rápido de uma imagem do satélite MODIS para o período de 15 a 22 de Agosto de 2019 já indica o tamanho do fogaréu que tomou conta da Amazônia brasileira, em especial na região conhecida como “Arco do Desmatamento” [ver imagem abaixo].

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E mais, os incêndios florestais diminuíram porque houve o início do período chuvoso, o que torna inviável a combustão do material seco. Entretanto, isso já torna possível prever que em 2020 o número de focos de incêndio e a intensidade dos mesmos será ainda maior do que em 2019.

Mas há algo ainda mais básico sobre a declaração do presidente Jair Bolsonaro indicando que a floresta amazônica “não pega fogo porque é úmida”. O fato é que o bioma Amazônia é muito mais diverso do que se possa imaginar, incluindo desde formações mais densas e fechadas até as mais abertas. Essa diferenciação estrutural invalida a noção de que as florestas amazônicas são todas úmidas a ponto de impedir a ocorrência de fogo em seu interior. Aliás, bastaria uma olhada rápida nos documentos gerados pelo projeto RADAM BRASIL para se saber disso. 

A verdade é que o atual governo tem pouco ou nenhum interesse em proteger a biodiversidade amazônica. Mas como o resto do mundo se interessa, há então a necessidade de oferecer explicações que não param em pé. Cedo ou tarde, essa disposição para tentar ocultar o inocultável vai criar problemas intransponíveis para o acesso das commodities brasileiras aos mercados globais.

 

Chile desiste da COP25

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O governo chileno anunciou ontem pela manhã o cancelamento da realização da COP25 no país. Também foi cancelada a reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC). O motivo é a sequência de manifestações envolvendo parte significativa da população em todo o país. Segundo o canal Futuro, o governo diz que priorizará “as soluções às demandas sociais que surgiram no país neste últimos dias.”  A primeira declaração de Patricia Espinosa, da UNFCCC, foi: “Hoje cedo fui informada da decisão do governo do Chile de não acolher a COP25, tendo em conta a difícil situação que o país atravessa. Estamos atualmente explorando opções alternativas de acolhimento.”

O chileno La Tercera deu destaque para as matérias que saíram nos The GuardianLe MondeEl País e o porteño La Nación. O Washington Post deu destaque para o cancelamento da reunião da APEC, onde Trump pretendia conversar com o líder chinês Xi Jinping. Por aqui, os GloboValorEstadão e a Folha também deram a notícia.

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Este informe foi publicado originalmente pelo Clima Info [Aqui!].