Mudanças de temperatura ‘afetam os pobres mais do que os ricos’

  • Mudança repentina na temperatura aumenta o risco de hospitalização entre os mais pobres: estudo
  • Pesquisa abrangeu quase 148 milhões de internações em mais de 1.800 cidades brasileiras
  • Aqueles que sofrem de doenças infecciosas, respiratórias e endócrinas eram os mais vulneráveis

Pôr do solEm ambientes extremamente quentes, um aumento de um grau Celsius na temperatura diária acarreta um risco maior de hospitalização para as pessoas mais pobres.  Peter Ilicciev / Fiocruz , Creative Commons

Por Meghie Rodrigues

Pessoas que moram em cidades mais pobres têm maior risco de serem hospitalizadas se as temperaturas mudarem rapidamente ao longo de um dia ou em um curto período, de acordo com um estudo realizado no Brasil.

Embora se soubesse que as variações de temperatura aumentavam o risco de doenças e mortalidade para pessoas com doenças como diabetes ou asma, os pesquisadores queriam entender o impacto dos indicadores socioeconômicos, como a renda familiar mensal.

Paulo Saldiva, professor sênior da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo e coautor da pesquisapublicada no The Lancet Planetary Health, disse à SciDev.Net : “Essas disparidades são para tudo que você pode imaginar, do COVID-19 a problemas cardíacos. ”

Ao analisar dados de cerca de 148 milhões de hospitalizações em 1.814 cidades brasileiras de janeiro de 2000 a dezembro de 2015, os pesquisadores descobriram que um aumento de um grau Celsius em um determinado dia, em relação ao dia anterior, aumentou o risco de hospitalização em 0,52 por cento em média .

Embora os números possam parecer baixos, os riscos reais podem ser muito maiores porque “a variabilidade da temperatura pode mudar em vários graus de dia para dia”, diz Ben Armstrong, professor de estatística epidemiológica da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que fez não participar do estudo.

“Essas disparidades são para tudo em que você pode pensar, de Covid-19 a problemas cardíacos.”  Paulo Saldiva, Universidade de São Paulo

Os pesquisadores encontraram disparidades entre os municípios. Pessoas com menos de 19 anos ou mais de 60 anos e portadores de doenças infecciosas, respiratórias e endócrinas de cidades de menor renda apresentaram maior risco de internação por mudanças de temperatura do que as de cidades ricas.

A análise baseou-se em estatísticas socioeconômicas municipais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, dados de hospitalização do Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde e relatórios meteorológicos diários de um conjunto de dados meteorológicos brasileiros revisados ​​por pares.

A equipe descobriu que pessoas com doenças endócrinas, como diabetes, em cidades de baixa renda tinham quase quatro vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas do que aqueles com condições semelhantes que moravam em cidades de alta renda.

Pessoas com doenças infecciosas em cidades pobres tinham quase três vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas por causa de mudanças bruscas de temperatura do que suas contrapartes em cidades ricas, e era um quadro semelhante para doenças respiratórias.

Diabetes e doenças respiratórias não são causadas pela variabilidade da temperatura, mas podem ser adversamente afetadas por ela. A capacidade de nossos vasos sanguíneos de inchar quando está quente ou contrair quando está frio é uma proteção importante contra mudanças bruscas de temperatura, explicou Saldiva.

“Com hipertensão não controlada ou diabetes, as pessoas podem ter aterosclerose, que enrijece os vasos sanguíneos. Isso torna mais difícil para eles lidar com a variação de temperatura porque suas funções de regulação térmica não funcionam mais tão bem ”, acrescentou.

Armstrong disse à SciDev.Net : “Esses resultados são bastante impressionantes, pois a associação entre status socioeconômico e vulnerabilidade fica muito clara aqui.”

Onda de calorAs ondas de calor têm um efeito prejudicial à saúde e os mais pobres são os mais vulneráveis. Crédito: Raúl Santana / Fiocruz ( Creative Commons)

Pessoas de cidades de baixa renda muitas vezes carecem de boa estrutura de habitação e ar condicionado, “e muitas pessoas em áreas rurais trabalham ao ar livre, sendo expostas diretamente ao calor e às variações diárias de temperatura”, disse Sonja Ayeb-Karlsson, professora da Universidade das Nações Unidas Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana, que não participou do estudo.

“Além disso, dietas pobres e estresse financeiro aumentam o impacto mental que pode tornar as pessoas que vivem em regiões mais pobres ainda mais vulneráveis”, acrescentou ela.

Saldiva acredita que essa vulnerabilidade pode ser verdadeira em outras partes do mundo. “O Brasil pode ser, infelizmente, um bom laboratório para esse tipo de estudo: o país é desigual e temos variabilidade climática além de bons dados de saúde”, disse.

Armstrong concorda, mas recomenda cautela: “A extrapolação é sempre arriscada porque há muitos recursos que devemos levar em consideração. Faz sentido extrapolar esses resultados para a América Latina, por exemplo, mas talvez não para o mundo todo. ”

A migração em massa e as mudanças climáticas podem causar estragos evolutivos para os humanos, alerta Saldiva.

“As respostas vasculares ao clima são diferentes em cada parte do mundo e levou milênios para cada pessoa desenvolver sua vantagem adaptativa. As bactérias, ao contrário de nós, evoluem em questão de horas. Com a mudança climática, entraremos em um descompasso evolutivo ”, diz ele.

A pesquisa teve apoio da FAPESP, doadora SciDev.Net.

fecho

Este artigo foi inicialmente  escrito em inglês e publicado no site SciDev [Aqui!].

Segundo edital do ‘Conexão Mata Atlântica’ para organizações beneficiará centenas de produtores rurais em São Paulo

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Na sessão pública que ocorreu em 24 de novembro (edital 001/2020) O projeto Conexão Mata Atlântica selecionou quatro Associações de Produtores Rurais de São Paulo.Serão disponibilizados até R﹩ 200.000,00 por organização que tenha entre seus associados beneficiários do projeto, para aquisição de bens e serviços, incentivando deste modo a adoção de ações de conservação e restauração do solo e da água, bem como práticas produtivas mais sustentáveis, com o propósito de proteger o bioma Mata Atlântica. O edital tem o objetivo de apoiar a consolidação das Cadeias de Valor Sustentável nos territórios em que atua e fortalecer essas organizações, e assim viabilizar melhores condições de apoiar os produtores associados.

As associações paulistas contempladas neste edital são: AMOVALE – Associação de Moradores e Amigos do Vale da Bocaina, de Bananal; ACBVGA – Associação Comunitária do Bairro da Vargem Grande e Adjacentes, de Natividade da Serra ; Associação dos Produtores de São Francisco Xavier, em São José dos Campos; e Associação dos Meliponicultores e Apicultores de Peruíbe, Pedro de Toledo, Miracatu e Itariri.

Suzana Vaz e Dora Lima, produtoras rurais e consultoras da AMOVALE, destacam as principais ações estimuladas pelo projeto Conexão: saneamento rural, regeneração florestal, compostagem, rotação de pastagem, análise de solo e adubação orgânica. “Esperamos que as propriedades adquiram conhecimento e adotem técnicas e ferramentas de manejo agroecológico na produção e se tornem mais autossustentáveis, dependendo menos de insumos externos. Com os recursos do edital de organizações, faremos também a implantação coletiva de um viveiro de mudas florestais e frutíferas; e um entreposto de produtos agroecológicos”.

A proteção à Mata Atlântica e a implantação de práticas sustentáveis também são objetivos da Associação dos Meliponicultores e Apicultores de Peruíbe, Pedro de Toledo, Miracatu e Itariri. O presidente, Márcio Piedade, acredita que o Conexão Mata Atlântica dará maior visão de sustentabilidade aos associados na produção de enxames, mel e seus derivados. Ele enfatiza que “O projeto incentiva para que os produtores protejam ainda mais suas matas e invistam em plantio e pasto apícola, permitindo assim o aumento das populações de abelhas sem ferrão”. E anunciou uma iniciativa que vai fortalecer a cadeia do mel. “Com a construção da Casa do Mel, nossos produtos vão ganhar mercado, com a possibilidade até de exportação. Cada produtor vai poder agregar valor, beneficiando o seu produto na Casa do Mel e envasando com o selo da Associação”.

O Conexão Mata Atlântica também oferece muitos ganhos aos produtores da ACBVGA. De acordo com seu presidente, Jhonata Santana, os produtores já receberam apoio do projeto para o cercamento das áreas de mata e beiras de rios; a construção de fossas ecológicas para dejetos humanos; tratamento de ‘água cinza’; construção de piquetes e de melhores estruturas de curral para manejo de bovinos; e para o plantio de pomares consorciados. “Com acompanhamento técnico, esperamos melhorar as condições ambientais das propriedades e, com isso, melhorar os sistemas de produção.” Com os recursos desse edital, “Serão inúmeros benefícios, como segurança e qualidade na oferta e no processamento do leite na Mini Usina da Associação; e destino certo da produção, com a regularização para venda do leite no comércio e Merenda Escolar, com o Serviço de Inspeção do Estado de São Paulo – SISPE. O resultado é a melhoria na renda das famílias”.

Já o diretor da Associação de São Francisco Xavier, em São José dos Campos, informa que os recursos do edital serão destinados ao fortalecimento da entidade, que disponibilizará o acesso às ferramentas de uso comum aos produtores associados. “Esperamos alavancar ainda mais a sustentabilidade entre os produtores rurais. Nossos associados já são atendidos pelo projeto Conexão, por meio dos componentes PSA, CVS e Certificação”, conclui Leonardo Jusho Abe.

Sobre o projeto

O projeto Recuperação de Serviços de Clima e Biodiversidade no Corredor Sudeste da Mata Atlântica Brasileira – Conexão Mata Atlântica – é uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que utiliza recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (Global Environmental Facility – GEF), oriundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A gestão do projeto está a cargo da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos – Finatec. No estado de São Paulo, o projeto é conduzido pela Coordenadoria de Fiscalização e Biodiversidade, da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente; e a Fundação Florestal.

O objetivo do Conexão Mata Atlântica é o de aumentar a proteção da biodiversidade e da água e combater mudanças climáticas. Para isso, usa instrumentos como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), Certificação e apoio à Cadeias de Valor Sustentável para incentivar proprietários rurais à execução de ações mais sustentáveis na gestão do imóvel rural, por meio de atividades de conservação da vegetação nativa e a adoção de sistemas mais produtivos e sustentáveis.

Mais informações:

Assessoria de imprensa da Finatec – Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos

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Brasília: Luciana Sendyk (61) 3033-6088 / (61) 99226-3156 – luciana@libris.com.br

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Análise inédita identifica as lacunas entre gêneros nas políticas climáticas

Realizado pelo Imaflora em Piracicaba, estudo aponta barreiras para a participação feminina nas discussões climáticas a nível local

respirar-1Manifestante, em Paris, protesta contra o aquecimento global: “Feminismo e ecologia, um mesmo combate”. Foto Valentin Belleville / Hans Lucas

São Paulo, 17 de dezembro de 2020 – Uma análise inédita no Brasil investigou as formas de abordagem da questão de gênero nos planos climáticos municipais, tendo como estudo de caso uma iniciativa em Piracicaba, cidade do estado de São Paulo. Por meio do desenvolvimento do Plano Participativo de Adaptação e Mitigação do Clima, organizado pelo projeto do Imaflora “Pira no Clima“, o estudo encontrou, como principal resultado, que os diagnósticos e o mapeamento das zonas climáticas convencionais ainda não incorporam as percepções e necessidades diferenciadas das mulheres. Além disso, problemas estruturais afetam a maneira como mulheres e outros grupos marginalizados, como pessoas transexuais e negras, acessam os espaços de discussão.

A partir de uma revisão dos métodos utilizados para estimular a participação de mulheres no conteúdo do Plano e da observação de reuniões e interações específicas desse tema, o estudo apurou que existe uma dificuldade em mapear e inserir ações de planejamento que contemplem as diferentes necessidades de acordo com gênero e sua amplitude. Um dos motivos identificados pelo estudo é que o tempo de palavra dado às mulheres ainda é pequeno e prevalecem as visões do problema climático do ponto de vista dos homens. Além disso, apesar da presença de mulheres em espaços participativos ser de mais de 75%, há um monopólio predominantemente masculino das falas.

Foi observado, ainda, que é comum haver uma falta de homens para a discussão de temas relacionados à população vulnerável à mudança climática, como “gênero” ou “desigualdades sociais”, o que demonstra uma segregação de pautas e dificulta a queda de obstáculos que afetam ambos os gêneros, mas de forma diferenciada nos dois campos.

A Coordenadora de Projetos em Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora e uma das autoras do estudo, Isabel Garcia-Drigo, explica que o comportamento e expectativas em relação aos diferentes papéis que homens e mulheres exercem na sociedade influenciam na forma como ambos os grupos lidam com as questões ambientais. “Cada gênero é afetado pelas consequências das mudanças climáticas de uma maneira diferente. O grupo feminino seria o mais afetado por já ter de lidar com atribulações decorrentes de padrões preestabelecidos para mulheres. Mesmo sofrendo mais o impacto das mudanças climáticas, as mulheres ainda são vistas como ‘incapazes’ e alcançam menos papéis de liderança em ações de mitigação das mudanças climáticas”, afirma.

Como mudar esse cenário

Uma das principais lições que pode ser tirada da experiência em Piracicaba é a necessidade da ampliação de processos que permitam a disseminação de metodologias e a criação de ambientes seguros que trabalhem com participação e equidade na elaboração de Planos Climáticos nos municípios brasileiros. Segundo o estudo, a escuta da perspectiva feminina e de outros grupos vulneráveis em geral ainda é defasada em relação ao protagonismo que deveriam ter na agenda climática do Brasil.

Além disso, é essencial criar um ambiente onde haja a identificação de vulnerabilidades e ameaças relacionadas a gêneros e, para isso, é preciso valorizar conhecimentos específicos que estejam preparados para captar essas particularidades. Como exemplo, um risco socioclimático importante relacionado às mulheres é o desenvolvimento de doenças na gravidez, geralmente potencializadas em altas temperaturas, como a pré-eclâmpsia. Também existem as casas chefiadas por mulheres em áreas de ameaça climática, como enchentes, que podem indicar múltiplas jornadas de trabalho e, portanto, e impactos amplificados na família. Esses conhecimentos estão atrelados à importância de ter um mapeamento de riscos socioclimáticos por meio de uma coleta de dados in loco para entender riscos, considerando as diferenças de gênero.

Isabel faz uma análise sobre quais deveriam ser os próximos passos. “É preciso aumentar e ampliar a pesquisa sobre os processos de construção dos planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas no nível local e, dessa maneira, formar um corpo de conhecimento empírico que seja útil para informar melhores políticas públicas de clima. O Pira no Clima se propõe a fazer esse processo e reflexão, mas isso precisa ser ainda mais estimulado tanto nos meios acadêmicos quanto no âmbito das organizações não governamentais que lidam com o tema”, finaliza.

Para ler a análise na íntegra, acesse aqui.

Sobre “Pira no Clima”

O projeto “Pira no Clima” é uma iniciativa do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Atua para que Piracicaba construa e implemente um Plano Municipal Participativo de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, através de princípios metodológicos e objetivos finais que buscam ampliar a participação e combater as desigualdades de gênero, ao mesmo tempo em que geram e difundem dados sobre o município. Para mais informações: https://www.imaflora.org/o-que-fazemos/politicas-interesse-publico/pira-no-clima

Sobre o Imaflora
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora busca influenciar as cadeias produtivas dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país. Mais informações: www.imaflora.org

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Participação de pessoas comuns em reunião internacional do clima deve elevar pressão sobre governos

“Maior experiência em democracia global” reunirá representantes de todo o planeta para discutir crise ambiental

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A ONU está apoiando a criação de uma Assembleia Global de Cidadãos (Global Citizens Assembly COP26), a primeira iniciativa para a participação em massa de pessoas não especialistas no debate internacional sobre Clima. A ação, que já vem sendo classificada como uma “experiência democrática revolucionária”, será um dos eventos preparatórios para a próxima Cúpula Climática (COP26), que acontecerá na Escócia no próximo ano.

A assembleia consistirá de duas partes. A primeira é a assembleia principal on-line e será composta por 1000 pessoas que representam um retrato demográfico preciso da população mundial. Os convidados serão selecionados por uma loteria em processo semelhante aos sorteios para formação de júris populares que existem em muitos países. A segunda parte será composta por eventos locais, realizados em nível nacional, regional ou hiperlocal / setorial, que serão totalmente integrados à assembleia principal e permitirão que cada pessoa tenha a oportunidade de dar sua opinião sobre as recomendações finais. Ao todo, a iniciativa pretende envolver milhões de pessoas em todo o mundo. 

As assembleias de cidadãos estão surgindo como uma ferramenta cada vez mais eficaz e popular para ajudar os governos a responder a crises diversas. São fóruns formados por um grupo demograficamente diversificado de leigos que por um longo período de tempo se reúne para deliberar sobre uma questão política. Isto lhes permite aprender mais sobre a questão, examinar informações de especialistas, engajar-se com os argumentos de defensores que representam diferentes lados e decidir com seus colegas participantes sobre possíveis caminhos a seguir.

“Este será o maior processo desse tipo, construindo novas relações entre pessoas de todo o mundo, mas também entre cidadãos e seus governantes”, afirma Nigel Topping, uma liderança de alto nível (High Level Action Champion) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

“A Assembleia Global de Cidadãos não é um projeto, é uma nova peça de infraestrutura de governança para garantir que nossos líderes compreendam as mudanças e compromissos que as pessoas estão prontas a fazer, além de reconhecer o papel de liderança que todos na Terra agora precisam desempenhar”, afirma Rich Wilson, fundador da Involve, organização que dirigiu uma experiência semelhante no Reino Unido: a Assembleia de Cidadãos do Clima do Parlamento Britânico.

“Por muito tempo, o debate internacional sobre Clima tem sido dominado por minorias poderosas. Está na hora de acabar com isso”, avalia Wilson. “A Assembleia Global dos Cidadãos é a maior experiência em democracia global jamais tentada. Um esforço ambicioso, equivalente à crise que enfrentamos”, defende.

Para Nicole Curato, uma das organizadoras do evento, esta é uma chance de injetar criatividade, ambição e legitimidade aos sistemas de governança climática. “A assembleia foi projetada com base nas melhores evidências disponíveis do que funciona e representa um mecanismo prático para qualificar radicalmente o processo decisório internacional sobre o clima”, afirma Curato, que é e pesquisadora do Centro para a Democracia Deliberativa e Governança Global da Universidade de Camberra, na Austrália.

Além de Curato, lideram a organização Assembleia Simon Niemeyer, também da Universidade de Camberra; Bjørn Bedsted, diretor adjunto do Conselho de Tecnologia Dinamarquês; e Brett Hennig, co-diretor da Fundação Sortition.

Legitimidade

As recomendações e decisões políticas que emergem de processos como este tendem a ser mais aceitas pelo público e mais ambiciosas em termos climáticos. No ano passado, o presidente francês Emmanuel Macron convidou 150 cidadãos selecionados por sorteio para considerar formas de reduzir as emissões de carbono do país em pelo menos 40% até 2030. Durante nove meses, a assembleia ouviu mais de 130 especialistas que estiveram à disposição para ajudar a responder perguntas técnicas, e ao final apresentou 149 medidas, muitas das quais reconhecidas como sendo muito mais avançadas do que as propostas oriundas do quadro político francês. Entre elas, a obrigatoriedade de renovação energética completa de todos os edifícios do país até 2040.

Nas pesquisas de opinião que se seguiram à assembleia francesa, 62% dos entrevistados que tinham ouvido falar da Assembleia apoiaram suas recomendações, e 60% acharam que as medidas seriam eficazes. Segundo os analistas, esse tipo de ação também pode fazer contrapeso à crescente prevalência de conversas públicas moldadas por desinformação, polarização, hiperpartidarismo e desconfiança em relação aos especialistas.

Uma iniciativa como esta depende de fundos que possam ajudar a pagar os muitos desafios logísticos e técnicos, incluindo tradutores para os participantes, equipamentos e cuidados infantis para pessoas que de outra forma não poderiam participar. Por isso, o ator vencedor do Oscar, Mark Rylance, narrou um vídeo para promover uma vaquinha online . As doações buscam assegurar que a Assembleia Global de Cidadãos seja financiada pelas pessoas a quem pretende servir e não por grandes corporações.

A inspiração para as assembleias de cidadãos pelo clima está vindo também de outras iniciativas recentes de democracia direta que não envolvem questões ambientais. A província canadense de British Columbia criou uma Assembleia dos Cidadãos sobre a Reforma Eleitoral, o que abriu o caminho para um referendo sobre o tema. E a Assembleia de Cidadãos Irlandesa que deliberou sobre aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou resultando em um amplo debate nacional sobre a reforma da atual Constituição. E um projeto dessa natureza está em curso para ouvir o que pessoas comuns pensam de um intrincado tema científico: a edição genética.

“Os jovens não estão apenas frustrados com o aumento da temperatura e o declínio dos ecossistemas, mas também com a constante reciclagem de soluções políticas ultrapassadas”, explica a estudante sul-coreana Susan Nakyung Lee, que aos 19 anos integra a equipe central de organização da Global Citizens Assembly COP26. “Quando aprendi sobre as assembleias globais pela primeira vez, não podia acreditar que um órgão como este ainda não havia sido criado para debater Clima. Uma assembleia global para a COP26 não é apenas necessária, é senso comum.”

O antiambientalismo sob pressão

Por  Helena Margarido Moreira*

 
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São Paulo, 14 de dezembro de 2020 – A cada novo mês, nos deparamos com quebras de recordes nos desmatamentos e queimadas de nossa vegetação nativa. Até o dia 22 de outubro, o número de queimadas na Amazônia já havia superado os registros do ano de 2019, quando a média mensal de áreas que receberam alertas de desmatamentos pelo Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) foi de 1.189 Km2, enquanto que entre 2015 e 2018 foi de 576 Km2.

Os focos de calor no mês de outubro de 2020 já foram 73% superiores ao do mês de setembro e também é superior a anos anteriores. Esta espiral do fogo e do desmatamento, porque os dois estão diretamente relacionados, vem consumindo a biodiversidade brasileira e ameaçando a sobrevivência das comunidades indígenas. Também, mudanças no uso do solo e o agronegócio são os principais vetores de emissão dos gases de efeito estufa (GEE), que intensificam o aquecimento global, o que coloca o Brasil como o sétimo maior emissor do mundo.  

Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já apontavam que riscos associados ao clima para os sistemas natural e humano são maiores para o aquecimento global de 1,5°C que para o atual (que já está em torno de 1℃), mas ainda menores que para 2°C. Esses riscos dependem da magnitude e ritmo do aquecimento, localização geográfica, níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, de escolhas e da implementação de políticas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de GEE. A cada aumento de temperatura, aumentam também os riscos associados ao clima para a saúde, para os meios de subsistência, para a manutenção da biodiversidade, para a segurança alimentar, o abastecimento de água e para o crescimento econômico. Estes efeitos são sentidos de forma ainda mais severa pela população de baixa renda, intensificando as desigualdades socioeconômicas entre os indivíduos.

A este cenário desafiador, se soma uma pressão cada vez maior da comunidade internacional, que será liderada a partir de janeiro de 2020 pelo presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e sua agenda prioritária de combate à crise climática. A pressão, portanto, para que o Brasil garanta o cumprimento de nosso aparato de proteção ambiental e se empenhe não só a cumprir as metas do Acordo de Paris, mas renová-las com mais ousadia, aumenta bastante com o início do governo Biden-Harris nos EUA. Neste contexto, o Brasil deve, junto aos demais países signatários do Acordo de Paris, submeter até o final deste ano metas e planos de ação mais ousados que permitam que o aumento da temperatura global da Terra se limite à 2℃ (o que já traz consequências bastante graves).

Naomi Klein afirma que o negacionismo climático não será mais voltado à negação da ciência do clima, mas sim às políticas de proteção às populações mais vulneráveis que necessariamente deverão ser tomadas pelos governantes no combate à crise climática que vem se intensificando, e que traz impactos desiguais nas diferentes regiões do planeta. E as respostas passam necessariamente, portanto, por pensar em desigualdade e crise climática. É preciso garantir a proteção dos biomas, zerar o desmatamento ilegal, proteger as populações indígenas e as populações mais vulneráveis.

*Helena Margarido Moreira é doutora em Geografia pela USP e Professora de Relações Internacionais. 

Metas do Acordo de Paris podem estabilizar a temperatura global já nos próximos 20 anos, diz estudo

Pela primeira vez cientistas conseguem identificar chance de desacelerar o aumento da temperatura antes de 2050

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Se o mundo reduzir as emissões de acordo com as metas do Acordo de Paris, haverá uma mitigação significativa no aquecimento global dentro de cerca de 20 anos. Esta é uma boa notícia – até agora, pensava-se que não veríamos este benefício até muito depois de 2050. A nova informação consta de um estudo aceito para publicação em outubro e divulgado hoje (7/12) pela revista Nature Climate Change.

Pesquisas anteriores sempre sugeriram que a redução das emissões significaria que a desaceleração das temperaturas só começaria a ser sentida na segunda metade do século. Ao utilizar uma nova abordagem que combina grandes quantidades de dados de diferentes fontes, um estudo da Universidade de Leeds conseguiu desembaraçar o aquecimento induzido pelo homem da variabilidade natural em escalas de tempo.  O artigo divulgado hoje destaca que uma ação imediata sobre a mudança climática pode trazer benefícios dentro de nossa vida útil, e não apenas décadas ou séculos no futuro.

O estudo é liderado por Christine McKenna, pesquisadora do projeto CONSTRAIN, financiado pela União Europeia, e pós-doutoranda da Universidade de Leeds, no Reino Unido. “Nossos resultados mostram que não apenas as gerações futuras sentirão os benefícios de cortes rápidos e profundos nas emissões”, afirma. Para ela, tomar medidas agora permitirá, ao mesmo tempo, evitar que o aquecimento global se acelere nas próximas décadas e cumprir o objetivo de limitar o aquecimento a longo prazo.

“Estas descobertas são mais uma motivação para que tanto governos quanto atores não estatais estabeleçam metas rigorosas de mitigação de gases de efeito estufa, combinando uma recuperação verde dos impactos econômicos do coronavírus com o alcance de emissões líquidas zero o mais rápido possível”, defende McKenna.

A pesquisa utilizou milhares de simulações de diferentes modelos climáticos junto com múltiplas estimativas da variabilidade climática natural observada para investigar como vários níveis de cortes de emissões poderiam afetar a velocidade do aquecimento global durante as próximas duas décadas. A conclusão dos pesquisadores foi possível porque eles tiveram acesso a dados mais recentes e ampliaram um pouco sua linha do tempo futuro – de 15 anos (que é o que os trabalhos anteriores já observaram), para 20 anos. Com isso, descobriram que os benefícios começam a fazer efeito logo no final desta linha de tempo de 20 anos.

Os resultados mostram que a redução das emissões em conformidade com o Acordo de Paris, e em particular com seu objetivo de prosseguir os esforços para estabilizar o aquecimento global em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, tem um efeito substancial nas taxas de aquecimento nos próximos 20 anos, mesmo depois que a variabilidade natural é levada em conta.

De fato, o risco de experimentar taxas de aquecimento mais fortes do que qualquer outra coisa vista anteriormente seria 13 vezes menor com cortes rápidos e profundos nas emissões, em comparação com um futuro “médio” que continua a depender fortemente dos combustíveis fósseis. Já em um cenário futuro com uso intensivo de combustíveis fósseis poderá ter temperaturas subindo até 1-1,5°C nos próximos 20 anos – o que significa que os limites de temperatura do Acordo de Paris seriam ultrapassados muito antes de 2050.

“A gestão da COVID-19 lembra a do aquecimento global: a mesma procrastinação do poder diante da certeza do desastre”

Ignorar sinais fracos, deixar o desastre acontecer, tentar curar em vez de prevenir: esta é a abordagem da maioria dos governos na crise relacionada à COVID-19, na França e em outros lugares

AQUECIMENTOEm uma convocação para um dia mundial da ação climática, em Berlim, 25 de setembro de 2020. HANNIBAL HANSCHKE / REUTERS

Por  Stephane Foucart para o Le Monde

A informação mais perturbadora dos últimos dias não é sobre a COVID-19, mas sobre o clima, e deveria aterrorizar a todos nós. Na quarta-feira, 2 de dezembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou seu relatório preliminar sobre o final do ano e indica que se classificará nos três anos mais quentes já registrados, sendo a maior probabilidade que ela é colocada no segundo degrau do pódio. Nada, até agora, tão esperado. Como a acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera não cessou, não é incomum que cada ano seja provavelmente mais quente do que o anterior.

O que é notavelmente novo e preocupante aqui é que o ano de 2020 foi marcado por um fenômeno conhecido como “La Niña” – durante o período frio do famoso Niño – que tem um forte efeito de resfriamento na temperatura média global. Para dar apenas um exemplo, o ano de 2000 (La Niña) foi quase 0,25°C mais frio que o ano de 1998 (El Niño). Duas décadas depois, a mesma onda de frio não impediu, mesmo que apenas temporariamente, a rápida progressão do aquecimento. Apostemos aqui que este novo aviso enviado pela máquina climática não seja levado em consideração: é chegado o momento de relançar, e qualquer outra consideração é, na melhor das hipóteses, secundária.

Ignorar sinais fracos, deixar o desastre acontecer, tentar tratar em vez de prevenir: este é um modus vivendi comum à maioria dos governos, na França e em outros lugares. Para estar convencido disso, basta observar a forma como se gere a crise ligada à COVID-19: enquanto os sinais de alarme parecerem tênues e se limitarem a curvas e gráficos, nada se faz. E quando o que está previsto acontece, o poder político é geralmente reduzido a fingir espanto e tomar medidas drásticas.

Ressentimento e raiva

Assim, no dia 28 de outubro, Emmanuel Macron anunciou a contenção, especificando que na Europa todos estavam “surpresos com a evolução do vírus” . Um olhar retrospectivo sobre os números das internações, entretanto, indica que a curva começou a inflar em meados de julho. E que dez dias depois, em seu oitavo parecer, o conselho científico do Palácio do Eliseu considerou “altamente provável que uma segunda onda epidêmica apareça no outono/inverno próximos”. “A maioria dos políticos não entende que, nesse tipo de dinâmica, é quando passamos de 2 casos para 4 casos que temos que reagir” , comenta um bioestatístico.

Do contrário, medidas radicais de confinamento e privação de liberdade acabam tendo que ser tomadas, muito rapidamente, sem o tempo necessário para discussão e deliberação. E uma vez que tudo é decidido com mais ou menos urgência, as injustiças, os excessos ou as decisões vividas como abuso de poder são inevitáveis. Eles alimentam ressentimento e raiva, o sentimento de uma erosão dos princípios de justiça e democracia.

De muitas maneiras, o gerenciamento da pandemia COVID-19 está reproduzindo, embora em um período de tempo muito curto, o aquecimento global. A mesma imprudência diante da emergência do perigo, a princípio distante: as terras aráveis ​​de Bangladesh submersas pela elevação do oceano não nos convenceram da realidade do perigo climático mais do que os sacos de cadáveres que se amontoaram na província chinesa de Hubei, nas primeiras semanas da epidemia, não nos preocupou com os perigos da nova doença. A mesma procissão de pseudo-especialistas chegando para fraudar a conversa pública, instigando dúvidas com sucesso: o povo da garantia de ambição substituiu os céticos do clima e, por sua vez, povoou os aparelhos de televisão. A mesma procrastinação do poder, enfim, diante da certeza do desastre.

Desestabilizar toda a sociedade

Isso não é tudo. Diante do novo coronavírus como do aquecimento global, nossas sociedades individualistas não estão equipadas com uma grade de análise adaptada à percepção de certos perigos. Sofremos da incapacidade de compreender totalmente os fenômenos que produzem riscos individuais baixos, mas riscos sistêmicos elevados. A probabilidade de morrer de Covid permanece baixa para grande parte da população, assim como morrer por causa das mudanças climáticas parece ser um evento muito improvável.

aquecimento global já começou a desestabilizar a produção de alimentos, a acentuar a migração, a degradar certos ativos imobiliários

Mas, assim como a doença coloca uma pressão insuportável no sistema de saúde e tende, com isso, a desestabilizar toda a sociedade, o aquecimento global já começou a desestabilizar a produção de alimentos, a acentuar a migração, a degradar certos ativos imobiliários. . Tudo isso, cujos efeitos não são diretamente perceptíveis nem facilmente atribuíveis, passa – pelo menos no início – como sem importância.

A analogia entre gerenciar doenças e controlar o aquecimento tem seus limites. Primeiro, nunca haverá uma vacina contra o aquecimento global. Em segundo lugar, não é certo que os governos algum dia tomarão medidas de emergência na frente climática semelhantes às que têm tomado em face das ondas epidêmicas nos dias de hoje. Mas é difícil ver como poderia ser de outra forma, no horizonte de algumas décadas. Essas medidas seriam, então, muito mais restritivas do que aquelas, temporárias, decididas em todo o planeta para conter o coronavírus.

Assim, aqueles que hoje denunciam uma “ditadura verde” à menor medida de inspiração ecológica podem não estar errados em ter medo. A administração da COVID-19 é uma ilustração disso: ao encorajar a paralisia e a procrastinação, eles são, sem dúvida, os melhores arquitetos do que afirmam temer.

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui! ].

The Lancet: nenhum sistema de saúde do mundo está preparado para as mudanças do clima

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Todos os países – ricos ou pobres – têm sistemas de saúde precários frente aos desafios que as mudanças climáticas já começam a impor. Esta é a principal mensagem da edição 2020 do relatório Contagem Regressiva Lancet (Lancet Countdown), um estudo sobre a relação entre mudança climática e saúde. O levantamento acompanha 40 indicadores nesse tema, e a edição lançada hoje (2/12) apresenta as perspectivas mais preocupantes até o momento.

Os novos dados mostram que apenas metade dos países pesquisados elaboraram planos nacionais de saúde e clima, com apenas quatro informando financiamento nacional adequado, e menos da metade dos países realizou avaliações de vulnerabilidade e adaptação para a saúde. Enquanto isso, dois terços das cidades globais pesquisadas esperam que a mudança climática comprometa seriamente a infraestrutura de saúde pública.

Segundo o relatório, nas últimas duas décadas houve um aumento de 54% de mortes relacionadas ao calor entre idosos, com um recorde de 2,9 bilhões de dias adicionais de exposição a ondas de calor afetando quem tem mais de 65 anos em 2019 – quase o dobro da alta anterior. Nesse mesmo período, o Brasil experimentou 39 milhões de dias a mais de exposição às ondas de calor afetando sua população idosa em comparação com o início dos anos 2000. O cálculo da exposição de populações vulneráveis a ondas de calor é expresso em dias/pessoa, ou seja, o número de dias de ondas de calor em relação ao número de pessoas afetadas.

O documento ainda destaca que o calor e a seca provocaram aumento acentuado de exposição a incêndios, causando danos ao coração e ao pulmão devido à fumaça, além de queimaduras e deslocamentos de comunidades. Esse cenário foi especialmente devastador no Brasil em 2019, que devido às queimadas na Amazônia viu saltar em 28% o número de dias em que sua população esteve exposta a um risco de incêndio de muito alto a extremo desde o início do século.

“A pandemia nos mostrou que quando a saúde é ameaçada em escala global, nossas economias e modos de vida podem chegar a um impasse”, diz Ian Hamilton, diretor executivo da Lancet Countdown. “Os incêndios devastadores dos EUA e as tempestades tropicais deste ano no Caribe e no Pacífico, coincidindo com a pandemia, ilustraram tragicamente que o mundo não tem o luxo de lidar com uma crise de cada vez”.

“A pandemia da COVID-19 lançou um holofote sobre a capacidade atual dos sistemas de saúde para lidar com choques futuros que a mudança climática já começa a gerar”, afirma Hugh Montgomery, co-presidente da Lancet Countdown e doutor em terapia intensiva na University College London. Para ele a mudança climática amplia as desigualdades existentes na saúde entre os países e dentro deles. “Nosso relatório mostra que, assim como na Covid-19, os idosos são particularmente vulneráveis, e aqueles com uma gama de condições pré-existentes, incluindo asma e diabetes, correm um risco ainda maior”.

O relatório – uma colaboração entre especialistas de mais de 35 instituições, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Banco Mundial e liderado pelo University College London – vem a público às vésperas do 5º aniversário do Acordo de Paris, quando o mundo se comprometeu a limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2ºC.

“Chegamos ao 5º aniversário do Acordo de Paris enfrentando as piores perspectivas para a saúde pública que nossa geração já viu”, lamenta Wenjia Cai, diretora do recém-lançado Centro Regional Lancet Countdown para a Ásia, sediado na Universidade de Tsinghua, em Pequim. “O não cumprimento de nossos compromissos climáticos pode tirar alguns objetivos-chave de desenvolvimento sustentável do alcance, assim como nossa capacidade de limitar o aquecimento.”

Riscos no Brasil

Um destaque que diz respeito ao Brasil são as mortes relacionadas à dieta alimentar: no Brasil são muito significativas – quase 248 mil por ano, dos quais quase 38 mil estão ligadas ao consumo excessivo de carne vermelha.

A poluição que causa milhares de mortes prematuras por inalação partículas finas (PM2,5) também é apontado no relatório com um problema crítico no país, sendo o transporte movido a combustíveis fósseis o principal responsável.

O relatório aponta ainda que houve um aumento das horas de trabalho perdidas devido ao calor extremo na América Latina – foram mais de 4 bilhões de horas perdidas em 2019 no Brasil, e as perdas médias nos últimos quatro anos são 36% maiores do que no início da década de 90. Enquanto isso, a dengue avança no continente, com o mosquito Aedes aegypti se adaptando cada vez mais aos ambientes urbanos de Brasil e Peru, ajudado, segundo o relatório, pelo armazenamento improvisado de água em resposta às estiagens e cortes de abastecimento.

Retomada Verde

Um editorial da Lancet publicado junto com o novo relatório destaca que a mudança climática e o risco de pandemia zoonótica compartilham os mesmos fatores, tornando-os inextricavelmente entrelaçados, de modo que devem ser tratados em conjunto.

Os 120 acadêmicos e médicos por trás do novo relatório dizem que se forem tomadas medidas urgentes para enfrentar a mudança climática – implementando planos para cumprir os compromissos de limitar os aumentos de temperatura global a bem abaixo de 2ºC – será possível mitigar esses choques e obter benefícios econômicos e de saúde. Ao mesmo tempo, estas ações poderiam reduzir o risco de futuras pandemias, porque os motores da mudança climática também podem impulsionar o risco de pandemia zoonótica (doenças infecciosas causadas por microorganismos que saltam de animais não humanos para humanos).

“Se quisermos reduzir o risco de futuras pandemias, devemos priorizar a ação sobre a crise climática – uma das forças mais poderosas que impulsionam as zoonoses hoje”, declara Richard Horton, editor-chefe da The Lancet. Para ele, este é o momento de proteger a biodiversidade e fortalecer os sistemas naturais dos quais depende nossa civilização. “Assim como vimos com a COVID-19, uma ação retardada causará mortes evitáveis.”

Os 7 milhões de mortes anuais por poluição do ar associadas à queima de combustíveis fósseis em todo mundo dão um exemplo desse potencial. Na Europa, modestos passos para promover setores de energia e transporte mais limpos viram as mortes por poluição atmosférica PM2,5 cair de 62 por 100 mil em 2015 para 59 por 100 mil em 2018. Globalmente, as mortes por PM2,5 ambientais associadas ao carvão caíram em 50 mil no mesmo ano.

Os ganhos de saúde, por sua vez, poderiam gerar muitos bilhões em benefícios econômicos. Por exemplo, a melhoria marginal da qualidade do ar da União Européia nos cinco anos até 2019 poderia valer cerca de US$ 8,8 bilhões por ano, se mantida constante.

Como a produção de alimentos é a fonte de um quarto das emissões mundiais de gases de efeito estufa, o relatório sugere que existe uma oportunidade semelhante para tratar de algumas das 9 milhões de mortes anuais ligadas à má alimentação. Com a pecuária sendo particularmente intensiva em emissões, o relatório examinou as mortes causadas pelo excesso de consumo de carne vermelha e constatou que a mortalidade aumentou 70% nos últimos 30 anos. Uma dieta com menos carne bovina teria portanto benefícios de saúde diretos e também indiretos, pela diminuição das emissões.

“Há uma oportunidade genuína de alinhar as respostas à pandemia e à mudança climática para proporcionar uma tripla vitória: melhorar a saúde pública, criar uma economia sustentável e proteger o meio ambiente”, afirma Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da Organização Mundial da Saúde. “Mas o tempo é curto. A incapacidade de enfrentar essas crises convergentes de modo simultâneo pode elevar a produção de combustíveis fósseis, colocando a meta mundial de 1,5ºC fora do alcance e condenando o mundo a um futuro de choques de saúde induzidos pelo clima.”

Quem desejar acessar o relatório publicado pela “The Lancet”, basta clicar [Aqui! ].  Já para baixar o editorial do “The Lancet” sobre a relação entre a COVID-19 e a crise climátic, basta clicar [Aqui!].

Especialistas militares alertam que Brasil enfrentará grandes ameaças à segurança com o aumento dos impactos climáticos

A perda contínua da floresta amazônica e os impactos climáticos podem levar à crescente escassez de água e energia hidrelétrica, dizem especialistas militares

tropasSoldados do Exército Brasileiro são vistos antes de patrulharem a fronteira com a Guiana Francesa, durante uma operação denominada “Agata” em Oiapoque, no estado do Amapá, Brasil, em 31 de outubro de 2020. REUTERS / Adriano Machado

Por Fabio Teixeira | @ffctt | Fundação Thomson Reuters

RIO DE JANEIRO, 30 de novembro (Fundação Thomson Reuters) – A mudança climática aumentará o fardo das Forças Armadas do Brasil e colocará em risco a segurança energética e hídrica do país, previram especialistas militares na segunda-feira.

Um grupo de líderes militares disse que o desmatamento na região amazônica pode alterar os padrões de chuvas no Brasil, atingindo  usinas hidrelétricas – a principal fonte de energia do país – e abastecimento de água para grandes centros urbanos.

As Forças Armadas do Brasil também podem ser esticadas para responder a um aumento nas crises humanitárias causadas pelas mudanças climáticas no país, disseram as autoridades em  um relatório do Conselho Militar Internacional sobre Clima e Segurança (IMCCS).

climate security

“Os líderes brasileiros deveriam fazer da mudança climática e do contra-desmatamento uma prioridade de segurança”, disse Oliver-Leighton Barrett, o representante do conselho para as Américas, durante uma apresentação online do relatório.

O Brasil é altamente dependente de energia hidrelétrica, com cerca de 63% da eletricidade do país proveniente de fontes relacionadas com a água, de acordo com dados do governo de 2019.

Também já está lutando para lidar com o agravamento da seca, que ajudou a impulsionar os incêndios que arrasaram 30% de seu vasto pantanal ocidental  este ano.

Entre 2014 e 2016, o estado mais populoso do Brasil, São Paulo, enfrentou  uma escassez de água sem precedentes que levou a protestos de rua.

“Se tivesse durado muito mais tempo, teria sido uma grande crise humanitária”, disse Barrett sobre a seca em São Paulo.

Segurança em primeiro lugar

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um crítico ferrenho dos esforços para conter a mudança climática e também disse que quer desenvolver a região amazônica para tirá-la da pobreza.

O presidente, um ex-capitão do Exército, tem contado com os militares brasileiros para aliviar as crises humanitárias no país e monitorar a Amazônia, onde o desmatamento aumentou novamente após anos de avanços na redução de perdas.

O relatório disse que na América Latina como um todo, forças militares são regularmente convocadas para ajudar em crises humanitárias e “isso continuará à medida que as mudanças climáticas geram mais desastres”.

A floresta amazônica – a maior floresta tropical do mundo – é um grande absorvedor de dióxido de carbono que aquece o planeta.

Sua perda contínua ameaça acelerar desastres relacionados ao clima – desde o agravamento de secas, inundações e tempestades a temperaturas elevadas e aumento do nível do mar – globalmente.

Para preservar a floresta e proteger o abastecimento de água do Brasil, o país precisa desenvolver a Amazônia, mas de forma sustentável, disse Raul Jungmann, ministro da Defesa do Brasil de 2016 a 2018.

As Forças Armadas do Brasil são conservacionistas, disse ele – mas consideram a proteção da segurança nacional, inclusive de interferências estrangeiras, uma prioridade.

“As Forças Armadas têm as ações ambientais como subsidiárias. Esse não é o foco principal”, disse Jungmann. “As forças armadas estão preocupadas principalmente com a soberania nacional.”

Ele disse acreditar que o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, que lidera o governo do Conselho da Amazônia, se dedica a conter o desmatamento, mas não tem apoio do governo.

 (Reportagem de Fabio Teixeira @ffctt; Edição de Laurie Goering. Dê os créditos à Thomson Reuters Foundation, o braço de caridade da Thomson Reuters, que cobre a vida de pessoas em todo o mundo que lutam para viver de forma livre ou justa. Visite http: // news .trust.org)

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Thomson Reuters Foundation [Aqui!].

The Guardian: desmatamento na Amazônia atinge o máximo de 12 anos sob Bolsonaro

Uma área sete vezes maior que a Grande Londres foi perdida no que um ativista chamou de destruição ‘humilhante e vergonhosa’

1200Mais de 11.000 quilômetros quadrados de floresta tropical foram destruídos no Brasil entre agosto de 2019 e julho de 2020, mostram os números oficiais. Fotografia: Christian Braga / Greenpeace

Por Tom Phillips no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

Uma vasta extensão da floresta tropical amazônica sete vezes maior do que a Grande Londres foi destruída no ano passado quando o desmatamento atingiu seu pico em 12 anos sob o presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro.

Números divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram nesta segunda-feira que pelo menos 11.088 km2 de floresta tropical foram arrasados ​​entre agosto de 2019 e julho de 2020 – o maior número desde 2008.

Carlos Rittl, ambientalista brasileiro que trabalha no Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha, disse que os números foram “humilhantes, vergonhosos e ultrajantes” – e um claro sinal dos danos ao meio ambiente desde que Bolsonaro assumiu o cargo em janeiro de 2019.

“Esta é uma área com um terço do tamanho da Bélgica – áreas gigantescas de floresta que estão sendo perdidas simplesmente porque sob o governo de Bolsonaro aqueles que estão destruindo não sentem medo de serem punidos”, disse Rittl.

“A grande conquista de Bolsonaro no que diz respeito ao meio ambiente foi essa trágica destruição de florestas que tornou o Brasil talvez um dos maiores inimigos do meio ambiente global e também um pária internacional.”

O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, tentou dar um toque positivo aos números desanimadores ao visitar a sede do Inpe na cidade de São José dos Campos na segunda-feira. Mourão afirmou que o aumento anual de 9,5% foi menos da metade do valor previsto de cerca de 20%.

“Não estamos aqui para comemorar nada disso, porque não é nada para comemorar. Mas significa que os esforços que estão sendo lançados [contra o desmatamento da Amazônia] estão começando a dar frutos ”, afirmou Mourão.

Ambientalistas, que culpam o enfraquecimento deliberado de Bolsonaro dos esforços de fiscalização pelo aumento, zombaram dessa leitura. “Este número é um ultraje – não nos diz nada de positivo sobre o governo Bolsonaro. Pelo contrário, mostra que, apesar da quarentena  imposta pela COVID-19, o crime ambiental aumentou ”, disse Rittl.

O comentário de Mourão sobre o aumento menor do que o esperado foi “como dizer que esperávamos 300.000 mortes causadas pela COVID-19 e  tivemos ‘apenas’  200.000”, acrescentou Rittl.

Cristiane Mazzetti, porta-voz do Greenpeace para a Amazônia, disse: “Este é um número ainda pior do que 2019 e um reflexo direto das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro que enfraqueceram os órgãos de monitoramento e usaram estratégias equivocadas de combate ao desmatamento, como o desmatamento as forças armadas ao invés de agentes de proteção ambiental. ”

“Esses números nos mostram que continuamos a caminhar na direção errada do que a necessária para lidar com a emergência climática e a crise da biodiversidade.”

O grupo Observatório do Clima disse que a destruição crescente não foi uma surpresa para aqueles “após o desmantelamento da política ambiental que está em andamento no Brasil desde janeiro de 2019”.

“Os números mostram simplesmente que o plano de Jair Bolsonaro funcionou. Eles são o resultado de um projeto bem-sucedido de aniquilar a capacidade do Estado brasileiro e de seus órgãos de monitoramento de cuidar de nossas florestas e combater o crime na Amazônia ”, afirmou em nota.

Mourão disse que os números, produzidos com informações do sistema de satélite do Prodes, mostram que a maior parte da devastação está ocorrendo em quatro regiões: Estado do Pará, norte do Mato Grosso, sul do Amazonas e Rondônia.

O Pará, um antigo hotspot de desmatamento, foi de longe o estado mais afetado, respondendo por quase 47% do desmatamento total.

“Graças ao trabalho do Inpe, agora temos uma noção perfeita de onde devemos focar nossas ações para evitar a ocorrência de atividades ilegais”, disse Mourão aos jornalistas, elogiando seus “brilhantes cientistas” por seus esforços.

Mas, apesar da crescente campanha de propaganda do governo “verde” – que recentemente viu Mourão levar embaixadores estrangeiros para um passeio pela região amazônica – ambientalistas e investidores estrangeiros estão céticos sobre seus esforços para proteger a maior floresta tropical do mundo.

Durante a excursão de três dias, embaixadores não foram levados a nenhum dos focos de desmatamento detalhados por Mourão na segunda-feira – e os ativistas consideraram a visita uma “farsa”.

Em maio, milhares de soldados brasileiros foram enviados à Amazônia, supostamente para combater crimes ambientais, embora alguns acreditem que eles estão apenas piorando as coisas .

Rittl disse que um raio de luz foi a recente derrota do principal aliado internacional do Bolsonaro, Donald Trump. “Sem o apoio de Trump nos EUA, a pressão internacional [no Bolsonaro sobre o meio ambiente] vai aumentar e vai aumentar muito”, previu.

Bolsonaro é membro de um de um pequeno grupo de líderes mundiais que ainda não reconheceu a vitória de Joe Biden e no domingo afirmou , sem provas, que “fontes” não identificadas o convenceram de que as eleições nos EUA foram infestadas de fraudes.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].