Em Davos, rolaram as lágrimas de crocodilo do capital

Fórum Econômico Mundial: líderes ocidentais lamentam o aumento da desigualdade. Continua o curso de exploração e isolamento contra os mais pobres

cercas ueOs líderes da UE consideram a pobreza lamentável, mas fornecer ajuda está fora de questão (fronteira externa da UE na Polônia, 13 de dezembro de 2021)

Por Joerg Kronauer para o JungeWelt

Houve tons sombrios no final da versão online do Fórum Econômico Mundial, que terminou na sexta-feira passada nos espaços virtuais da Internet e não em Davos. Os participantes debateram a pandemia de COVID-19 em andamento, as mudanças climáticas e as tensões políticas perigosamente crescentes entre as potências ocidentais e a Rússia. “Vemos desafios crescentes”, disse Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, de 83 anos, “desde interrupções nas cadeias de suprimentos até mudanças tectônicas nos mercados de trabalho e níveis de inflação que estão levantando preocupações entre políticos e indivíduos. ” Políticos importantes, do presidente da China, Xi Jinping, ao chanceler Olaf Scholz (SPD) e à secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, passaram uma semana comentando sobre o “estado do mundo” com focos diferentes. O resultado, como Schwab deixou bem claro, foi preocupante.

Por um lado, havia a crescente desigualdade entre ricos e pobres, que o secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia lamentado no primeiro dia do Fórum Econômico Mundial. Guterres não apenas apontou que as taxas de vacinação nos países ricos eram “vergonhosamente” muitas vezes maiores do que no continente africano. Ele também mencionou que 80% dos fundos disponibilizados em todo o mundo para a recuperação econômica após a pandemia de COVID-19 estavam disponíveis em países industrializados desenvolvidos: os países mais pobres também estão em enorme desvantagem nesse aspecto; eles estão atualmente experimentando o menor crescimento em décadas e também estão tendo que tentar desesperadamente sair da crise “com orçamentos nacionais lamentavelmente inadequados”. O mundo “não pode pagar

O secretário-geral da ONU também quis dizer a União Europeia (UE), que – como os EUA– está construindo muros, desculpe: cercas de fronteira contra refugiados miseráveis ​​de três continentes. Seja qual for o caso, a UE está a fazer tudo o que pode para se isolar do mundo exterior. Embora ela acumule interminavelmente as vacinas que faltam nos países mais pobres, as aparições online da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e da presidente do BCE, Christine Lagarde, por exemplo, não deram a impressão de que tudo estava indo bem para ela. Lagarde, por exemplo, comentou a forte subida dos preços da energia e da inflação: disse que o BCE “assume que os preços da energia vão estabilizar ao longo de 2022” e que “as taxas de inflação vão diminuir gradualmente”. No entanto, ela reconheceu francamente que tudo isso estava “afligido por muita incerteza”. Von der Leyen, por sua vez, comentou sobre uma área de preocupação para a indústria: a produção de semicondutores, dos quais há uma grave escassez, principalmente na UE. No início de fevereiro, von der Leyen quer apresentar um “European Chips Act” para remediar a situação: “Até 2030, um quinto da produção global de microchips deve ocorrer na Europa”.

Além das crescentes tensões com a Rússia, que foram repetidamente discutidas, as tensões entre o Ocidente e a China também brilharam repetidamente. No primeiro dia do evento, o presidente da China, Xi, promoveu a abertura – não apenas na economia global, mas também na política: é importante abandonar a “mentalidade da Guerra Fria e buscar a coexistência pacífica”, enfatizou. Ironicamente, no último dia do evento, um político que os alimentou como nenhum outro nos últimos anos também lamentou as tensões: o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison. Morrison, que disponibilizou seu país como um aríete para todos os tipos de agressão contra a China desde o início dos ataques de  Donald Trump contra Pequim, lamentou as contramedidas chinesas, A Austrália “manteve nossos valores”, embora isso não tenha ocorrido “sem custo”. Nas disputas que agora surgiram, ninguém provavelmente vencerá. “O mundo não pode se dar ao luxo de marchar nessa direção.” Estranha lamentação: afinal, Morrison teria o poder de se afastar do grande conflito com Pequim.

Surpreendentemente, pelo menos, Chido Munyati, um especialista em África do Fórum Económico Mundial, previu uma perspectiva ligeiramente mais positiva para o continente africano. Embora o fornecimento de vacinas Covid-19 esteja atualmente desolado e a pandemia possa causar sérios danos na África, Munyati estava surpreendentemente otimista com o tempo depois. Não só a economia da África está crescendo atualmente em torno de 3,8%, muito mais rápido do que no sul da Ásia (1,2%) e na América Latina (0,9%). Além disso, a população africana está crescendo mais rapidamente do que a de qualquer outro continente. Enquanto a população trabalhadora está diminuindo em geral – inclusive na Europa – está aumentando na África. Munyati extraiu esperança do crescimento econômico e populacional que ambos poderiam “dar ao continente um papel maior na política global e na economia mundial”. Mesmo se você for cético, há pelo menos esperança.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Campos dos Goytacazes tem plano diretor, mas que é um ilustre desconhecido nas esferas de governo

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A cheia de 2022 do Rio Paraíba do Sul ameaçou uma Campos dos Goytacazes desprovida de estruturas de governança para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais, o que revela paroquialismo e despreparo

A minha postagem sobre o caráter arcaico do sistema municipal de trânsito em Campos dos Goytacazes suscitou uma observação interessante nas redes sociais acerca da completa ausência de menções ao Plano Diretor Municipal (PDM) nos debates que ocorrem na Câmara de Vereadores. Esse observador notou que “precisamos urgentemente discutir Campos como cidade de médio porte, não como uma cidadezinha minúscula, sem estudos de impacto social e ambiental, planejamento e engenharia de tráfego.”  

Como já citei várias vezes neste blog a dissertação de Mestrado defendida pelo cientista social André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos acerca dos obstáculos criados pelas formas tradicionais de governar que perduram em Campos dos Goytacazes, busquei no documento dois elementos que reforçam a necessidade de que o  PDM seja um instrumento que sirva minimamente a gestão urbana em nossa cidade. O primeiro dado é que dos cinco candidatos melhores colocados no primeiro turno das eleições municipais ocorridas em 2020, apenas dois (Wladimir Garotinho e Caio Vianna) mencionaram o PDM em seus planos de governo, ainda que com um olhar restrito sobre as chamadas “áreas verdes urbanas”. Por outro lado, nem Wladimir Garotinho ou Caio Vianna mencionaram a chamada “Agenda 2030” em suas prioridades de governo, o que demonstra um claro afastamento com quaisquer preocupações com os desafios que estão ali postos, a começar pelos objetivos 11 (desenvolvimento de cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (ação contra as mudanças climáticas globais).

A questão é que a ausência de qualquer conexão das práticas de governo com o PDM e com a Agenda 2030 reflete o claro despreparo que temos nas esferas de poder no plano local no tocante à assumir formas mais democráticas e articuladas com os processos de governança que extrapolam os acordos paroquiais que continuam regendo a política municipal. O resultado disso é que passada a ameaça da inundação, tudo parece voltar ao normal (quando este está longe de ser o caso).

O problema é que as chuvas de 2022 mostram que há efetivamente um padrão de agravamento climático que é marcado pela ocorrência de eventos meteorológicos extremos que claramente colocaram em xeque a capacidade de governos estaduais e municipais de responder à ação destrutiva das águas das chuvas.  E está claro que governantes que não entenderem o que está acontecendo poderão até fazer poses para postar nas suas redes sociais, mas isto não ajudará em nada o estabelecimento de políticas de enfrentamento dos efeitos adversos das mudanças climáticas.

Quem quiser ler um artigo muito interessante sobre a necessidade de inserir o tema das mudanças climáticas no interior dos PDMs, basta clicar [Aqui!].

Eventos extremos assolam o Brasil e não há nenhuma normalidade nisso

Maioria dos estados e municípios brasileiros seguem ignorando a emergência climática

unnamed (40)Município de Mário Campos em Minas Gerais – Foto: Gabriele Lanza/TV Globo

São Paulo, 20 de janeiro de 2022 – Desde o mês de novembro de 2021, o Brasil tem presenciado a intensificação de eventos extremos como fortes chuvas, temperaturas altas, estiagens e secas que vêm ocasionando enchentes, deslizamentos de terras, ameaças de rompimento de barragens e dezenas de vidas perdidas. Estados como Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são exemplos de regiões impactadas diretamente pela crise climática.

Dados apresentados pelo Boletim da Defesa Civil Estadual de Minas Gerais registram que, entre outubro de 2021 até o presente mês, as fortes chuvas totalizaram em cerca de 19 mortes, 3.481 desabrigados e 13.756 desalojados, além de 145 municípios em estado de emergência. Só na Bahia, por exemplo, o governo estadual decretou situação de emergência em 136 cidades.

De acordo com um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o impacto da crise climática na América do Sul inclui um significativo aumento da precipitação média no sudeste do continente, o que aumenta a ocorrência de chuvas extremas. Pesquisadores também alertam que temperaturas extremas, como altas ondas de calor, podem ser até nove vezes mais frequentes já na próxima década. Em resumo: não há nada de “normal” no que estamos vivendo.

Diante deste quadro aterrorizante, deve-se ressaltar o papel dos governos estaduais no enfrentamento da crise climática. É urgente que os governantes, de modo geral e em todas as esferas, elaborem estratégias com a finalidade de zelar pela vida das populações de seus estados por meio da elaboração ou execução de planos de adaptação climática, além de mapeamento de áreas de risco e orçamento destinado a perdas e danos materiais para populações vulneráveis. Apesar disso, a maioria dos estados brasileiros não estão preparados para lidar com a crise: atualmente, somente sete unidades da federação (PE, MG, SP, AC,TO, RS e GO) possuem um plano de adaptação climática e, mesmo nesses casos, faltam ações efetivas.

Para o porta-voz do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, cobrar atitudes dos governos estaduais é um passo importante para a prevenção dos impactos da crise climática a nível local, em especial das populações em situação de vulnerabilidade: “Precisamos cobrar uma atuação efetiva dos governos estaduais para criar medidas de adaptação e desenvolver ações estruturais de enfrentamento. A situação de emergência enfrentada por populações de diversos estados atualmente escancara e denuncia o descaso político e a negligência do Brasil com a crise climática”.

As chuvas de 2022 são regra e não exceção em um mundo em câmbio climático

cheias 2022

Com o baixar dos rios é natural que rapidamente as pessoas voltem para a sua rotina buscando um apego a uma normalidade fugidia. Até aparecem pessoas que mostram que o atual ciclo de grandes tempestades já ocorreram antes, o que reforça a aparência de que tudo não passa de uma repetição normal de eventos anormais.

Eu de minha parte não caio nessa arapuca. É que mesmo existindo períodos de chuvas intensas que causaram cheias de rios no passado, um detalhe particular das mudanças climáticas precisa ser entendido: os modelos climáticos estimam que eventos extremos são previstos para ocorrer em períodos cada vez mais curtos. Em outras palavras, o que antes poderia demorar décadas para se repetir, tenderá a ocorrer em períodos mais curtos.

Este novo padrão climático deveria estar sendo visto com alarme pelos ocupantes de cargos eletivos e os forçando a adotar uma visão climaticamente orientada de governança. Mas pelo que vi até agora a postura continua sendo aquela que tradicionalmente adotada, com eventos fotográficos em que promessas que misturam insuficiência com falta de uma visão prospectiva da realidade. O resultado disso será a colocação de um peso desigual da destruição sobre os ombros dos mais pobres. Disso se decorre o fato de que tal destruição tem mais a ver com decisões políticas do que com o clima.

Brasil recebe curso avançado sobre mudanças climáticas no início de 2022

betimEm tempos de mudanças climáticas: depois da Bahia, o estado de Minas Gerais está com centenas de cidades sofrendo com inundações no início de 2022

As cenas de destruição causadas pelas chuvas em diferentes regiões do Brasil podem ser entendidas como uma espécie de curso avançado sobre os efeitos devastadores que irão acompanhar o processo de mudanças climáticas. No nosso caso, o que se vê é uma combinação nefasta de vetores dentro de uma sociedade profundamente desigual, o que gera um componente específico desse curso que é a exposição dos segmentos mais pobres aos piores impactos das chuvas torrenciais, visto que a maioria vive em áreas ecologicamente frágeis que são normalmente relegadas para a ocupação dos que não podem pagar por terrenos em áreas selecionadas pelos incorporadores imobiliários para serem habitadas pelos ricos.

No estado de Minas Gerais, talvez mais do que na Bahia, o atual ciclo de chuvas extremas cria uma módulo especial desse curso, já que há o potencial para a ocorrência de graves incidentes ambientais em função da presença de centenas de barragens de mineração que já se encontram em condição precária em função da opção das mineradoras de priorizar o lucro sobre a segurança das cidades que rodeiam seus empreendimentos minerários.  Aliás, mesmo que as barragens em piores condições suportem o atual ciclo de chuvas, a condição de bombas relógio permanecerá. Como da parte das mineradoras não há qualquer disposição para tratar a situação de risco de suas barragens de forma séria, e em Minas Gerais o aparelho de estado não mostra qualquer disposição para obrigar um comportamento diferentes por parte das empresas. A combinação do descaso de mineradoras e do estado com a ocorrência de novos ciclos de chuvas extremas é uma receita para graves problemas sociais e ambientais.

Um fato que salta aos olhos é que enquanto a ciência brasileira já produziu incontáveis estudos sobre o impacto das mudanças climáticas sobre o comportamento de eventos meteorológicos, o estado brasileiro não tem agido para estabelecer propostas concretas de mitigação para o quadro climático que está posto.  E não falo apenas do governo federal comandado pelo negacionista Jair Bolsonaro e seu dublê de ministro da ciência e astronauta aposentado, Marcos Pontes. No caso do despreparo para enfrentar as mudanças climáticas a situação atinge todos os níveis de governo, incluindo estados e municípios. Nesse caso temos uma espécie de módulo avançado sobre os efeitos políticos e econômicos do negacionismo científico por parte dos governantes cujos compromissos reais estão com os donos do capital ou, ainda, com a sua prosperidade privada.

Mas como escapar desse cenário tão pessimista e com tintas apocalípticas? A saída é ampliar a organização política, especialmente entre os mais pobres. Do contrário, o que teremos de prática será uma sucessão de tragédias que geram situações momentâneas de alarde que são imediatamente sucedida por um modus operandi caracterizado pelo “business as usual” coletivo, onde todos fingem que a vida pode ter um ritmo que possa ser chamado de normal.

Um elemento final deste texto se destina aos leitores que moram no município de Campos dos Goytacazes que hoje acordam esperando pelo quase inevitável transbordamento do Rio Paraíba do Sul. A questão aqui é sobre o papel dos rios como integradores de processos que ocorrem ao longo da sua bacia, incluindo a chegada de água na sua calha.  Como a cidade está posicionada no final do percurso do maior rio da região sudeste do Brasil (e que ainda tem próximo a Campos dos Goytacazes o acréscimo das águas do rio Muriaé), um fato inescapável é que estejamos sobre o impacto direto das grandes chuvas que ocorrem em pontos relativamente distantes dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Esse é um fato mais do que conhecido, mas que continua sendo ignorado por seguidas administrações municipais que há décadas, apesar dos bilhões aportados pelos royalties do petróleo, que optaram por não fazer qualquer tipo de reparo, e menos ainda obras de reforço estrutural, nos diques que protegem a malha urbana campista. 

No caso da atual administração municipal, ainda tivemos a extinção da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, fato esse que demonstra a baixa prioridade que os problemas ambientais ocorrendo no Paraíba do Sul tem para o governo de Wladimir Garotinho (que hoje postou uma “selfie” no cais da Lapa para demonstrar uma preocupação tardia com algo que deveria ter prioridade máxima e efetivamente não tem). Aliás, em vez de postar selfies na beira do Rio Paraíba que ameaça transbordar, sugiro ao prefeito de Campos dos Goytacazes a leitura da dissertação do mestre em Políticas Sociais, André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos, cujo título é “O Desafio da Gestão Urbana em Campos Dos Goytacazes no Contexto das Mudanças Climáticas: Entre a Construção da Resiliência e a Persistência de Fórmulas Tradicionais de Governar. Quem sabe assim tenhamos uma mudança de direção nas prioridades do governo.

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O prefeito Wladimir Garotinho extinguiu a secretaria municipal de Meio Ambiente, e agora posa na beira do Rio Paraíba do Sul que ameaça transbordar e inundar partes da cidade de Campos dos Goytacazes

Finalmente, a minha expectativa é que, pelo menos no âmbito dos leitores deste blog, a questão da urgência de uma mudança de atitude coletiva sobre o fenômeno das mudanças climáticas ganhe prioridade. As chuvas que hoje causam destruição em uma escala que é apenas preâmbulo do que poderá vir se nada for feito para nos preparar para realizar as mudanças necessárias. O fato, meus caros, é que as mudanças climáticas são reais e estamos vendo a ponta de um longo e gigantesco iceberg.

Incêndios florestais fora de controle trazem imagens assustadoras no Uruguai

Fogo atinge áreas de balneários na costa e áreas de florestas de pinus no limite dos departamentos de Paysandú e Río Negro
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Por MetSul Meteorologia

Grandes incêndios florestais atingem o Uruguai no final deste ano, consequência da forte onda de calor que se registra e a seca que assola o país que fez o Ministério da Pecuária uruguaio declarar uma situação de emergência climática. Bombeiros, Ministério do Interior, Força Aérea, Exército e voluntários combatem as chamadas em duas regiões do país.

Os primeiros incêndios ocorrem na região litorânea entre Montevidéu e Punta del Este, área conhecida como Costa de Oro. As chamas se concentram em Fortín e em Parque del Plata. No balneário da Atlântida, uma enorme coluna de fumaça podia ser vista perto da escultura da Águia que é uma das atrações turísticas locais.

No caso do Fortín, de acordo com o jornal El País, as chamas foram relativamente controladas depois de destruir várias árvores e vegetação, mas o vento ontem as reacendeu, e passaram ao Norte da Rodovia Interbalneária, além de também atingir a Villa Argentina. “O incêndio do Fortín ainda está ativo, não foi apagado”, afirmou o porta-voz do Corpo de Bombeiros, Pablo Benítez, ao El País.

@metsulI Impressionante vídeo de @emekavoces dos incêndios fora de controle que atingem a Ruta Interbalneária em pleno período de pico de turismo no Litoral do Uruguai com o fim de ano e a temporada de verão das praias.

Virginia de los Santos @Vikydls Imagens impressionantes do incêndio florestal em Fortín de Santa Rosa, entre Matindia e Atlántida. Várias equipes trabalham na área em meio a uma situação desesperadora e arriscada.

A rota #incendioatlantida, incêndio impressionante do Km44 @ Canal4_UY @Subrayado @TelemundoUY @ObservadorUY

O outro grande incêndio ocorre nas proximidades da cidade de Algorta, no departamento de Río Negro. Conforme o prefeito Omar Lafluf, o fogo “foi reacendido e atingiu mais campo” do que o que já havia afetado em uma área de 5.000 hectares.

Lafluf mostra-se preocupado que a situação tem piorado nas últimas horas, já que a propriedade onde o fogo atingiu tem mais pinheiros e é mais combustível. “A situação é extremamente grave”, resumiu. Sobre a possibilidade de evacuação dos 700 habitantes de Algorta, o prefeito disse que estava a ser analisada e que “a prioridade é a população”.

O enorme incêndio em Algorta ocorre no limite dos departamentos de Paysandú e Río Negro. As chamas que começaram perto de Algorta (Río Negro) agora ameaçam as cidades de Orgoroso e Piedras Coloradas, em Paysandú. Diante da situação crítica, alguns moradores de ambas as localidades decidiram evacuar-se para Guichón, onde foram recebidos por vizinhos. Nesses locais, centros educacionais, bares e até casas de famílias foram abertos para receber os desalojados pelo incêndio.

O Centro da América do Sul enfrenta uma forte onda de calor que ocorre em meio a um quadro de seca forte a severa. A temperatura ontem atingiu no Uruguai 38,5ºC em Mercedes e 38,3ºC em Salto. Na cidade de Montevidéu, a máxima atingiu 35,2ºC no Prado.

No Rio Grande do Sul, a temperatura chegou a 38,9ºC em Porto Xavier, 38,0ºC em Quaraí, 37,8ºC em Uruguaiana e Santa Rosa, 37,7ºC em Alegrete, 37,6ºC em Teutônia, 37,5ºC em Feliz, 37,4ºC em Porto Vera Cruz e Alpestre, e 37,3ºC em Lajeado.

No Paraguai e na Argentina, a temperatura novamente passou dos 40ºC com registros de 42ºC a 43ºC no Norte argentino. Na quarta, o Aeroporto Internacional de Ezeiza, na Grande Buenos Aires, anotou a primeira marca de 40ºC em 22 anos e as máximas em pontos da região patagônica se aproximaram dos 40ºC.

O Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca (MGAP) do Uruguai declarou uma emergência agrícola devido ao déficit hídrico em 19 trechos dos departamentos de Durazno, Florida, Paysandú, Río Negro e Tacuarembó ante a ausência de chuvas. O órgão informou em nota que a área cobre 2.195.380 hectares.

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Este texto foi originalmente publicado pela MetSul Meteorologia [Aqui!]. 

A destruição do cerrado alimenta e potencializa as catástrofes climáticas no Matopiba

Área plantada do Matopiba alcançará 8,9 milhões de hectares até 2030

Um dos principais pontos de expansão do agronegócio exportador é a chamada região do Matopiba que é formada por porções territoriais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. É no Matopiba que grandes grupos empresariais têm aumentado exponencialmente os plantios extensivos da monocultura da soja, normalmente às custas do bioma Cerrado. Com esse avanço desenfreado (que é explicitamente apoiado pelos respectivos governos estaduais sob as benções do governo de Jair Bolsonaro), temos a exposição de grandes áreas outrora ocupados pelo Cerrado que assim tornam mais passíveis de serem impactadas pela erosão de seus solos. Um efeito secundário é o aumento do assoreamento de rios, além da perda da capacidade recarga de aquíferos, coisa que era garantida pela presença do Cerrado.

matopiba destruiçãoA região conhecida como Matopiba engloba áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. (© Marizilda Cruppe / Greenpeace) © Marizilda Cruppe / Greenpeace

Se somarmos a esse avanço da sojicultura em áreas de alto valor ecológico os impactos que acompanham as mudanças climáticas em curso na Terra, que tornam cada vez mais comuns a ocorrência de eventos meteorológicos extremos que causam altos volumes de precipitação em poucos espaços de tempo, veremos que as situações catastróficas que estão ocorrendo na Bahia, Tocantins e Piauí não têm nada de naturais.  O que estamos presenciando é uma combinação particularmente drástica entre eventos climáticos extremos e a consolidação de um modelo agrícola predatório que empurra os mais pobres para áreas periféricas normalmente desprovidas de infraestrutura urbana.

O interessante é que a cobertura dada pela mídia corporativa brasileira sobre a onda de destruição em curso em cidades localizadas sob a influência direta (ou indireta) da sojicultura  do Matopiba passa ao largo dessas conexões, optando pelo oferecimento de uma narrativa catastrofista na qual apenas a questão das mudanças climáticas é vagamente mencionada.

O fato é que a recorrência de situações climáticas extremas será o “novo normal” das próximas décadas, o que deveria estar obrigando a tomada de decisões em prol de políticas de conservação ambiental que protegessem os biomas amazônico e do Cerrado, bem como a adoção de politicas de reorganização das cidades.  Com isso, haveria alguma chance de que pudéssemos alcançar algum nível de preparação para evitar os mesmos tipos de cenas apocalípticas que estamos vendo nesse momento, especialmente na Bahia.

Lamentavelmente, o que tem se visto caminho no sentido ao contrário ao que precisamos. Com o forte controle da agenda político-econômica do governo Bolsonaro pela chamada bancada ruralista, e com a submissão de governos estaduais ditos de esquerda aos interesses do latifúndio agro-exportador, há pouca perspectiva de que tenhamos mudanças significativas em prol da adoção de um modelo agrícola de base agroecológica. 

Chuvas extremas causando destruição e morte na Bahia e na Alemanha, o novo normal (anormal) das mudanças climáticas

Em julho de 2021, partes da Alemanha (primeira economia da Europa) foram arrasadas por eventos meteorológicos extremos que causaram inundações catastróficas que destruíram áreas urbanas e agrícolas, causando prejuízos bilionários e dezenas de mortes. Agora, no estertores de um ano já difícil para os brasileiros, o sul do estado da Bahia está vivenciando problemas altamente parecidos com o que a Alemanha vivenciou há cinco meses, mas com um número de mortos e desabrigados bem maior, ainda que o fenômeno esteja circunscrito em uma região relativamente menor (até agora são 20 mortos e 470 mil desalojados).

Aqui temos o encontro de semelhanças e diferenças, pois as chuvas extremas e concentradas no tempo são algo que já foi associado aos novos padrões climáticos causados pelo aquecimento global do planeta. Mas a diferença nos níveis de organização e agilidade das respostas tem a ver com o desmantelamento e o desfinanciamento da máquina pública, o que vem ocorrendo em nome da sustentação do pagamento de uma dívida pública bilionária, e, obviamente, nunca devidamente auditada.

Para piorar o cenário temos um presidente da república que decidiu tirar férias custeadas pelo tesouro federal, e que se omite (mais uma vez) de agir como o líder de estado que eventos extremos requerem. O mais lamentável é que em vez de se preocupar em liderar a resposta federal á catástrofe em curso na Bahia, o presidente Jair Bolsonaro continua se concentrando em espalhar fake news e se colocar como uma barreira para o processo de vacinação contra a COVID-19.

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Enquanto o presidente Jair Bolsonaro goza férias pescando em Santa Catarina, a população do sul da Bahia tente escapar das inundações causadas por chuvas extremas

O fato inescapável é que as mudanças climáticas estão aqui para ficar e eventos como os vistos na Alemanha e agora na Bahia se tornarão o famoso “novo normal”, o que implica em que nos preparemos para a repetição desse tipo de catástrofe causada por eventos meteorológicos extremos. É que se não houver a devida preparação em diferentes escalas espaciais, o que teremos será uma espécie de “ripple effect” (ou efeito cascata) que ampliará a magnitude dos danos, já que os sistemas naturais são feitos de interligações que tendem a exponencializar os impactos de eventos extremos.

Desta forma, se não houver uma mudança radical nas formas de gerir a cidades e os sistemas naturais onde elas estão inseridas (ou sobrepostas), o mais provável é que tenhamos mais repetições de inundações que causarão mais destruição e morte.  E aproveito para apontar que não se trata de um chute aleatório, mas uma informação baseada em incontáveis estudos realizados sobre o impacto das mudanças climáticas sobre as cidades (aliás, sugiro a leitura da dissertação defendida pelo meu orientando André Vasconcellos que fez um estudo sobre o grau de preparação da cidade de Campos dos Goytacazes para a época de mudanças que estamos vivendo).

À mercê do tempo

Seca, tempestades, calor e frio extremos – as mudanças climáticas estão afetando a economia global

tempestadesTempestades como os tornados devastadores recentemente nos Estados Unidos também estão paralisando partes da vida econômica. Foto: dpa / Lexington Herald-Leader / AP / Ryan C. Hermens

Por Anke Herold para o Neues Deutschland

Nem todos os presentes de Natal estarão debaixo da árvore de Natal a tempo este ano. Problemas de entrega massiva afetam muitos produtos, como laptops, consoles de jogos, dispositivos elétricos, móveis e brinquedos. A pandemia de corona e bloqueios regionais fecharam fábricas, portos ou aeronaves, bloquearam fronteiras e interromperam as cadeias de abastecimento . No entanto, raramente é discutido que a mudança climática também é um grande contribuinte para os gargalos de entrega que todos estamos sentindo agora.

Um exemplo são os chips eletrônicos que estão faltando nos carros ou dispositivos eletrônicos. Em fevereiro de 2021, houve fortes tempestades de neve no Texas e as temperaturas caíram para níveis mais baixos do que nos 40 anos anteriores. O motivo é a corrente de jato, que forma padrões cada vez mais instáveis porque o vórtice polar está se enfraquecendo com mais frequência devido às mudanças climáticas. A grande entrada de ar frio pode então penetrar mais profundamente no sul dos EUA. O fornecimento de energia no Texas caiu por semanas e fabricantes de chips como Samsung e Infineon tiveram que interromper a produção. As fábricas de semicondutores não podiam mais ser fechadas de maneira controlada. Isso não só danificou as instalações de produção, mas também componentes da infraestrutura da obra. A produção de chips em Taiwan também falhou este ano devido às consequências das mudanças climáticas: aqui, no entanto, foi uma seca que fez com que os fabricantes de semicondutores TSMC e UMC ficassem sem água potável para a produção.

Os cenários da consultoria de negócios McKinsey presumem que os furacões em 2040 impedirão a produção de semicondutores na Ásia por meses duas a quatro vezes mais do que hoje. A probabilidade de que chuvas extremas e deslizamentos de terra atrapalhem a produção de terras raras deve dobrar ou triplicar até 2030. A produção de terras raras está concentrada no sudeste da China, onde chuvas extremas estão se tornando mais comuns. Então, outros componentes de produtos eletrônicos – por exemplo, telefones celulares, computadores e baterias – podem ser afetados por gargalos de entrega.

Também a falta de madeira e o aumento drástico dos preços da madeira não estão apenas relacionadas entre si, mas também à crise climática. O besouro do pinheiro da montanha destruiu mais de 180.000 quilômetros quadrados nas florestas do Canadá e da América do Norte. O aumento das temperaturas e, acima de tudo, os invernos amenos proporcionam ao besouro excelentes condições de reprodução. Por causa da praga do besouro, a extração de madeira no Canadá caiu drasticamente; O Canadá normalmente cobre um quarto da demanda de madeira dos Estados Unidos. Também nos EUA, menos madeira foi cortada do que o normal devido ao inverno rigoroso. Ao mesmo tempo, os incêndios nos últimos anos destruíram grandes áreas de floresta nos EUA e Canadá. Como resultado, a madeira está sendo cada vez mais fornecida aos EUA pela Alemanha, os preços estão subindo e de repente a madeira para construção, madeira para móveis e até mesmo papel estão se tornando escassos e caros na Alemanha. E as empresas de construção têm que enviar seus funcionários para trabalhos de curta duração devido à falta de materiais, apesar dos livros de pedidos cheios.

Os exemplos de produção de cavacos e madeira deste ano mostram como a crise climática pode se transformar em uma crise de produção global. A maior frequência e a intensidade cada vez maior de condições climáticas extremas, como tempestades, secas, calor, inundações e chuvas fortes, levam a paradas de produção, interrupções mais frequentes nas cadeias de abastecimento globais e, portanto, ao aumento dos preços. Por um lado, isso afetará mais os alimentos e as matérias-primas naturais, uma vez que sua produção é diretamente influenciada pelas condições climáticas extremas. Por outro lado, também existem cadeias de abastecimento para produtos que são principalmente fabricados em uma determinada região ou em alguns locais e têm rotas de entrega longas. A adaptação às mudanças climáticas será, portanto, uma tarefa fundamental para as empresas, seja na forma de instalações de produção à prova de desastres, seguro ou ações maiores. No futuro, a provisão de longo prazo será mais decisiva para o desenvolvimento das empresas do que conceitos ultrapassados como a produção just-in-time.

Anke Herold é geoecologista Anke Herold e diretora administrativa do Öko-Institut Freiburg.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Carta de Xapuri em defesa dos territórios e do Bem Viver nas Amazônias

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Nós indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras rurais, campesinos e campesinas, reunidos no Encontro Amazônico: Terra, Território e Mudança Climática, em Xapuri, no Acre, nos dias 16, 17 e 18 de dezembro de 2021, com a participação de 200 líderes de organizações sociais e populares do Brasil e da Bolívia, reafirmamos o Legado de Chico Mendes de defesa da Amazônia e a Aliança dos Povos das Florestas.

Manifestamos nossos posicionamentos frente ao contexto de ameaças aos territórios de uso coletivo, que para nós povos da Amazônia é sagrado, são espaços de construção e manutenção das nossas identidades, saberes, fazeres, das raizes de nossa ancestralidade, territórios de luta, por isso, afirmamos:

• Estamos vivenciando ações de retrocessos governamentais no Brasil e em outros países Amazônicos, de pressão à terra, ao território, a biodiversidade e aos modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem nas e das florestas. Os retrocessos atuam para a flexibilização das legislações socioambientais, o desmonte das políticas que garantem o direito e à posse da terra e do território a povos e comunidades indígenas, tradicionais, camponesas e quilombolas, obrigando-as, em muitos casos, a vender ou fugir para as periferias das áreas urbanas. Também estabelecem medidas públicas favoráveis à mineração e ao desmatamento na região amazônica, para o agronegócio e a extração ilegal da madeira, com impactos sociais, ambientais, culturais e a vida de todos, e principalmente de quem vive nas florestas.

• Os efeitos dessas ações governamentais contribuem para a crise climática, afetando diretamente mulheres, juventude, crianças e toda humanidade. Exigimos dos governos políticas e ações mais eficazes, adequadas para combater os efeitos das mudanças climáticas, com medidas de adaptação, mitigação e respeito à ancestralidade de povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas.

• Por isso, defendemos à terra, o território, o fortalecimento de políticas públicas para a agricultura familiar e a produção da sociobiodiversidade na Amazônia, para que povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas possam ter uma vida digna para usufruir o bem-viver na Panamazônia.

• Reafirmamos o Legado de Chico Mendes e nos comprometemos em continuar a cuidar da nossa vida e da vida das florestas e da biodiversidade.

• O protagonismo das mulheres amazonidas, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, mulheres ribeirinhas, mulheres extrativistas, historicamente silenciadas e invisibilizadas, temos um marco no processo de luta e resistência na garantia ao direito a terra e ao território. Nosso proposito é garantir vida justa para todas. Exigimos espaço e o fim da violência e de toda opressão. Lutamos por nossa terra livre para semear, queremos o bem viver.

• A juventude em diálogo com as lideranças do passado que lutaram e garantiram os territórios, segue articuladas na luta pois os direitos conquistados não são garantidos, é necessário seguir alerta. Os jovens não são jovens do futuro, somos jovens do presente e queremos espaço para atuar em defesa das nossa casa maior, nossa mãe Terra.

• Reafirmamos que nossa ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS segue unificada, além da nossa articulação com organizações indígenas, camponesas, ribeirinhas, quilombolas, extrativistas, bem como com as instituições, academia e atores sociais de todos os países amazônicos, para fortalecer a nossa luta em defensas das florestas e das vidas.

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade” (Chico Mendes).

VIVA A AMAZÔNIA E A ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS!!!