Pesquisas apontam influência do aquecimento global sobre o ciclone bomba que devastou o Sul do Brasil

ciclone bomba

As chuvas torrenciais e os ventos que varreram o Sul do Brasil em 30/6 se devem à nova dinâmica climática provocada pelo aquecimento global. Essa é a principal conclusão das análises do climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ele, o aumento de 1 °C na temperatura média do Brasil de norte a sul tem fortalecido o contraste trópico-pólo, e agora toda a circulação atmosférica do nosso continente está sob influência desse reordenamento do sistema climático.

A água da tempestade provocada pelo ciclone bomba do dia 30/06 foi coletada pelos estudiosos, e os dados estão sendo processados. Segundo Aquino, uma análise preliminar dessas informações parece fortalecer a seguinte hipótese: as duas importantes fontes de umidade para formação de chuvas na região, que são a Amazônia e o Atlântico Sul, podem estar acompanhadas de uma terceira, que seria o Mar de Wendel, no oceano Antártico (atlântico sul em direção à Antártica). A mudança nas relações entre as massas de ar das regiões amazônica e polar já vinham chamando a atenção dos estudiosos desde a tempestade de 2016 no Rio Grande Sul, classificada como uma microexplosão. Uma análise da água daquela chuva mostrou que o DNA do evento — ou seja, a composição isotópica da chuva — era totalmente antártico.

Segundo o professor, se existe uma região que é excepcionalmente sensível à mudança climática global é exatamente o Sul do Brasil. “Isso já estava descrito na literatura científica muito antes de eu iniciar meu estudos de graduação em geografia. Já se sabia que quando essa região começasse a dar sinais, os eventos saltariam muito rapidamente de intensidade”, diz.

A Bacia do Prata já é uma região ciclogenética [propícia a ciclone] nativa da América do Sul, de acordo com o professor. “O que nós estamos suspeitando é que esses ciclones estão ficando mais bem formados, mais profundos e, por isso, mais perigosos”, explica. “Tanto é que nós tivemos dois ciclones bomba em menos de dez dias, com valor expressivo de precipitação e rompendo com a circulação atmosférica Amazônia-Sul da América do Sul por completo.” O segundo ciclone bomba, mencionado pelo professor, ocorreu no dia 8/7 no oceano e somente os ventos chegaram ao continente.

“Lamentavelmente nós tivemos esses dois ciclones bomba, com altíssimo impacto e mais de 2 mil desabrigados, justo no auge da pior das pandemias da nossa história”, ressalta o professor, que avalia que será necessário sofisticar os mecanismos de alerta para esses eventos em parceria com a defesa civil.

O professor lembra que o Rio Grande do Sul acaba de sair de sua estiagem mais intensa, iniciada em 2019 e que superou muito a de 2012. “Estamos falando de prejuízos de mais de R$ 40 bilhões pela falta de precipitação na Bacia do Prata”, avalia. Ele explica que essa seca tem conexões com eventos meteorológicos regulares, mas que o desmatamento na Amazônia e no Cerrado está diminuindo a umidade do solo e a capacidade da atmosfera de manter os ecossistemas “Isso também atua para a variabilidade extrema das precipitações no Sul.”

Os dados da pesquisa foram apresentados à comunidade científica e ao público em geral em webinar realizado esta semana pelo Instituto ClimaInfo, com apoio da jornalista Silvia Marcuzzo.

A íntegra do webinar pode conferida Aqui! 

Centro Polar e Climático – CPC / UFRGS

Aquino é coordenador do Laboratório de Climatologia do Departamento de Geografia, Diretor do Centro Polar e Climático (CPC) e Coordenador da Divisão de Climatologia Polar e Subtropical da UFRGS.

O CPC congrega pesquisadores nacionais e internacionais dedicados à investigação do papel do ambiente glacial no sistema climático, em especial a Antártica, o clima e paleoclimatologia da América do Sul meridional e as mudanças climáticas.

O Centro é responsável pela execução do programa glaciológico nacional na Antártica e nos Andes e tem liderança científica na pesquisa glaciológica, climática e geográfica no Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). A unidade conta com 55 membros, entre professores, pesquisadores, técnicos, alunos de graduação e pós-graduação.

As áreas de atuação do CPC são: Glacioquímica e Paleoclimatologia, Climatologia Polar e Subtropical, Criopedologia e Geoecologia, Sensoriamento Remoto, Geomorfologia e Sedimentologia Glacial, além do Ensino da geografia sobre as regiões polares no Brasil.

Danone investe € 2 bilhões de euros em todo o mundo no combate às mudanças climáticas

A companhia vai acelerar as prioridades estratégicas com um plano ambicioso, colocando as ações climáticas ainda mais no centro do seu modelo de negócio

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São Paulo, julho de 2020 – Como parte da jornada em direção a neutralidade de carbono, o Grupo Danone investirá € 2 bilhões de euros nos próximos três anos para combater as mudanças climáticas através da agricultura regenerativa, eficiência energética, economia circular das embalagens e tecnologia digital, e ao mesmo tempo impulsionar o crescimento sustentável globalmente.

A Danone foi pioneira na discussão e definição de metas de emissão de carbono em toda a sua cadeia de valor há mais de dez anos. O plano busca intensificar ações globais e incluir ainda mais práticas relacionadas ao meio ambiente no centro do modelo de negócios da companhia.

Em seu segmento de águas, a Danone comprometeu-se a atingir garrafas 100% recicláveis de tereftalato de polietileno na Europa até 2025 e investirá para encontrar alternativas de embalagens aos plásticos. As opções podem incluir vidro, latas e papel. A empresa pretende tornar suas marcas Evian e Volvic na Europa totalmente neutras em carbono em 2020.

Tendo em vista a urgência da ação climática, a Danone está tomando outras medidas para conectar melhor as métricas ambientais, sociais e de governança e desempenho financeiro, começando com carbono. Para a companhia é um progresso integrar a parte social, ambiental e governamental com a performance financeira.

O “custo de carbono” inserido no relatório Financeiro aos acionistas demostra o custo de emissões de CO2 e investimentos em projetos e ações de combate as mudanças climáticas. Essa informação será divulgada no “Carbon Adjusted Earning per share” todo trimestre nos relatórios financeiros.

Danone One Planet. One Health

Para a Danone, a saúde do planeta e das pessoas estão interligadas. Nesse sentido, a empresa quer incentivar uma verdadeira Revolução Alimentar, que proporcione escolhas que façam diferença na vida das pessoas, já que cada uma delas pode construir o mundo no qual quer viver por meio de suas escolhas diárias. Por isso, é fundamental que todos os elos da cadeia produtiva sigam esta premissa e adotem práticas que tragam benefícios ao planeta como um todo. Danone One Planet. One Health.

“Todas essas iniciativas estão no DNA da companhia há décadas. “Desde a década de 70, a Danone tem no seu DNA o que chamamos de “Projeto Duplo”, que estabelece um modelo de negócio que promove o sucesso econômico vinculado ao progresso social. Por isso, contribuir no combate as mudanças climáticas é a nossa prioridade, pois pode trazer consequências sérias para o futuro de todos. Só temos um planeta e uma saúde e devemos cuidar de ambos todos os dias, para uma vida e um planeta saudável”, finaliza Cibele Zanotta, Diretora de Assuntos Corporativos Danone Brasil.

Sobre a Danone

O Grupo Danone é um dos líderes mundiais no setor de alimentos e reúne três divisões: Lácteos e bebidas à base vegetal, Danone Nutricia e Águas. Sempre de forma inovadora e saborosa, a Danone está presente em mais de 140 países nos cinco continentes, conta com mais de 100 mil colaboradores e 190 fábricas. Presente no Brasil há 50 anos, desde o lançamento do primeiro iogurte com polpa de frutas à variedade de opções dos dias de hoje, a Danone revolucionou os hábitos de consumo e conquistou o paladar dos brasileiros, consolidando-se como sinônimo não só de iogurte, mas também de nutrição, saúde, qualidade e inovação. Por meio de projetos e mobilização de parceiros (governo, entidades privadas e públicas), deseja conscientizar sobre a importância de uma dieta balanceada e a prática de atividades físicas. No Brasil o portfólio é composto por marcas de sucesso como Activia, Danoninho, Bonafont, Sustain, Souvenaid, Milnutri, FortiFit e Nutridrink entre outras.

Calor prolongado na Sibéria é quase impossível sem mudanças climáticas

Alteração no clima aumentou em 600 vezes chance de verão intenso na região, diz análise

fogo siberiaDistritos em seis regiões russas, incluindo a república de Sakha, introduziram estados de emergência em conexão com os incêndios.Yevgeny Sofroneyev / TASS

O recente calor prolongado na Sibéria, de janeiro a junho de 2020, seria quase impossível sem a influência das mudanças climáticas causadas pelo homem. É o que indica um estudo do tipo “análise rápida de atribuição” conduzido por alguns dos principais cientistas do clima. As mudanças climáticas aumentaram as chances de calor sustentado na região em pelo menos 600 vezes. Esse é um dos resultados mais contundentes de qualquer estudo de atribuição realizado até o momento.

Participaram da avaliação pesquisadores de universidades e de serviços meteorológicos de diferentes países, incluindo o Instituto P.P.Shirshov de Oceanologia e a Academia Russa de Ciências. Eles descobriram que as temperaturas estão 2°C mais quentes do que ocorreria sem a influência dos gases de efeito estufa provenientes de atividades humanas.

“Este estudo mostra que não só a magnitude da temperatura foi extremamente rara, mas também os padrões climáticos que a causaram”, afirma a professora Olga Zolina, do P.P.Shirshov Institute of Oceanology, em Moscou, e do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Grenoble, na França. “Continuamos a estudar como os incêndios florestais que queimaram milhares de hectares também podem afetar o clima, à medida que as chamas bombeiam fumaça e cinzas na atmosfera”, conclui a pesquisadora, que integra o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

As temperaturas na Sibéria estão bem acima da média desde o início do ano. Uma nova temperatura recorde para o Ártico — 38°C — foi registrada na cidade russa de Verkhoyansk em 20 de junho, enquanto as temperaturas gerais da Sibéria ficaram mais de 5°C acima da média de janeiro a junho.

Para medir o efeito das mudanças climáticas sobre as temperaturas observadas na Sibéria, os cientistas fizeram simulações computacionais e compararam o clima atual, com cerca de 1°C de aquecimento global, com o clima que existiria sem a influência humana. A análise mostrou que o calor prolongado que a região experimentou este ano aconteceria menos de uma vez a cada 80 mil anos se não houvesse interferência antrópica.

Os cientistas observaram que, mesmo no clima atual, o calor prolongado ainda era improvável: condições extremas podem ocorrer menos de uma vez a cada 130 anos. Mas sem cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, esses eventos correm o risco de se tornar frequentes até o final do século.

Consequências

O calor na Sibéria provocou incêndios generalizados, com 1,15 milhão de hectares queimados no final de junho e uma liberação de cerca de 56 milhões de toneladas de dióxido de carbono — mais do que as emissões anuais de alguns países industrializados, como Suíça e Noruega.

Esse cenário também acelerou o derretimento do pergelissolo (ou permafrost, como é chamado em inglês), que é o tipo de solo característico da região do Ártico. Um tanque de óleo construído sobre o pergelissolo entrou em colapso em maio, levando a um dos piores derramamentos de óleo da região.

Os gases liberados pelos incêndios, o derretimento desse solo congelado e a diminuição da refletividade do planeta devido à perda de neve e gelo vão aquecer ainda mais o planeta. O calor também foi associado a um surto de mariposas de seda, cujas larvas comem árvores coníferas.

Sonia Seneviratne, professora do Departamento de Ciência de Sistemas Ambientais da ETH (Swiss Federal Institute of Technology) de Zurich, na Suíça, destaca que esses resultados mostram que o planeta já está vivendo eventos extremos que quase não teriam chance de acontecer sem a pegada humana no sistema climático. “Temos pouco tempo para estabilizar o aquecimento global em níveis em que as mudanças climáticas permaneceriam dentro dos limites do Acordo de Paris. Para uma estabilização a 1,5°C do aquecimento global, o que ainda implicaria mais riscos de eventos extremos de calor, precisamos reduzir nossas emissões de CO2 em pelo menos metade até 2030”, afirma a pesquisadora, que também integra o IPCC.

Sobre análises rápidas de atribuição

Mais de 350 estudos desse tipo, rápidos e revisados ​​por pares, examinaram se as mudanças climáticas tornaram mais prováveis​​eventos climáticos extremos. Pesquisas anteriores do grupo World Weather Attribution descobriram que as mudanças climáticas tornaram mais prováveis os incêndios australianos deste ano e as ondas de calor recorde em junho na França. Outro levantamento desse tipo identificou que a tempestade tropical Imelda, que atingiu o Texas em setembro de 2019, se tornou mais provável ​​e intensa devido às mudanças climáticas.

Brasil perde Alfredo Sirkis, o Descarbonário

Escritor, que acabara de lançar seu 10º livro, morreu em acidente no RJ

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O Brasil perdeu hoje um de seus mais experientes e aguerridos ativistas pela preservação do meio ambiente. Fundador do Partido Verde, o ex-deputado Alfredo Sirkis, 69 anos, não sobreviveu a um acidente no Arco Metropolitano, na altura de Nova Iguaçu. Ele dirigia, sozinho no carro, para a Região Serrana a fim de visitar a mãe e um dos filhos em Petrópolis. No último dia 25 de junho, Sirkis lançou o livro “Descarbonário”, uma obra com características autobiográficas concluída 40 anos depois do clássico “Os Carbonários”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1981.

Jornalista, escritor, roteirista de TV e cinema, gestor ambiental e urbanístico e ex-parlamentar, Sirkis era o diretor executivo do Centro Brasil no Clima (CBC). Entre outubro de 2016 e maio de 2019 foi coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), no qual organizou a campanha Ratifica Já!, que propiciou a ratificação, pelo Brasil, do Acordo de Paris. Quando deputado federal (2011-2015), presidiu a Comissão Mista de Mudança do Clima do Congresso Nacional (CMMC) e foi um dos vice-presidentes da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Sirkis foi vereador em quatro mandatos, secretário municipal de urbanismo, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), entre 2001 e 2006, e secretário municipal de meio ambiente no Rio de Janeiro, entre 1993 e 1996. Foi membro da delegação brasileira nas conferências do Clima de Montreal, Bali, Copenhagen, Durban, Varsóvia, Lima, Paris, Marrakech e Bonn.

Alfredo Sirkis começou a trabalhar como jornalista em Paris, em 1973, no então recém-fundado jornal Liberation, dirigido por Jean Paul Sartre. Foi seu correspondente em Santiago (1973) e Buenos Aires (1974). Em Portugal, colaborou com os semanários Expresso e Gazeta da Semana e os jornais República, Diário Popular, Diário de Lisboa. Foi redator do Jornal Novo, editor internacional de Página Um e redator chefe da edição em português de Cadernos do Terceiro Mundo. Nessa época também colaborou com Le Monde Diplomatique.

Nos anos 1970, passou oito anos e meio no exílio na França, Chile, Argentina e Portugal. Foi líder estudantil em 1967 e 1968. Entre 1969 e 1971, participou da resistência armada contra a ditadura militar no Brasil, atuando em operações armadas. As mais famosas foram os sequestros de embaixadores para exigir a libertação de presos políticos. Foi repórter das revistas Veja (1982) e Istoé (1983) e colaborou com Pasquim, Playboy, Jornal de Domingo e Shalom. Elaborou diversos roteiros para a TV Globo. Foi colaborador dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e Correio Braziliense.

Sirkis era casado há 25 anos com a arquiteta, curadora, cenógrafa e editora Ana Borelli. Ele deixa os filhos Guilherme, Noah e Anna. Não tinha netos.

Descarbonário, a última obra

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Quarenta anos após “Os Carbonários”, um clássico literário ganhador do prêmio Jabuti de 1981 sobre a geração que enfrentou a ditadura de 1967 a 1971, Alfredo Sirkis acabara de lançar outro ambicioso depoimento geracional: “Descarbonário”, seu décimo livro. A obra traz uma narrativa ágil, com muitos relatos do que o autor testemunhou de mais relevante como político e ambientalista. Descarbonário é centrado no tema preferido de Sirkis: a descarbonização da atmosfera como forma de combater as mudanças climáticas. Segundo ele, a transição para baixo carbono será forte dinamizadora da economia e geradora de empregos.

O clima não é o único assunto do livro, que começou a ser escrito em 2016 e traz muitas histórias pessoais, memórias dos anos 80 até os dias atuais, e opiniões sobre variados temas, como a liberação das drogas e as alternativas para a economia pós-pandemia. Faz uma análise crítica e profunda da política brasileira nos últimos 20 anos, além de casos curiosos sobre as vivências de Sirkis no Congresso, e participações de conferências do clima em diversos países do mundo.

A narrativa de Descarbonário termina no dia 26 de dezembro de 2018, quando Sirkis entrega ao então presidente Michel Temer, em fim de mandato, o documento “Mudanças climáticas: riscos e oportunidades para o Brasil”, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC). Nele, constava uma proposta com as medidas necessárias para o Brasil se tornar um país carbono neutro com emissões zero de gases de efeito (GEEs).

Sirkis destaca na apresentação do livro que, com a recessão causada pela pandemia, certamente haverá uma redução entre 6% e 7% das emissões de CO2 por queima de combustível fóssil. “No entanto, aquelas por desmatamento podem não ser afetadas devido ao seu aumento dos últimos meses”, explica. Para reverter esse quadro, ele defendia um mecanismo de financiamento da descarbonização produtiva na qual a redução ou remoção do carbono da atmosfera, o menos-carbono, seria o “novo ouro” e uma fonte de valor econômico.

Relatório voltado a investidores aponta endurecimento de políticas ambientais em todo mundo e faz alerta ao Brasil

Planet Tracker avalia que país tem a segunda pauta exportadora mais dependente de capital natural no G20, atrás apenas da Argentina

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Forte dependência da pauta exportadora do uso de capital natural poderá gerar graves problemas para o Brasil, alerta relatório produzido por think tank  das finanças globais

Um estudo feito pela London School of Economics em parceria com o Planet Tracker avalia que haverá cada vez mais pressão para que títulos soberanos levem em conta questões de meio ambiente e sustentabilidade em suas decisões de investimento. Ao mesmo tempo, o documento ressalta que essa classe de ativos, que inclui fundos de pensão bilionários de países ricos, está se consolidando como um investimento que soma o desempenho macroeconômico de um país ao valor de seus títulos públicos no mercado de capitais — e essas duas sinalizações são sensíveis para o Brasil.

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O relatório avalia que nesse cenário, o país pode tanto se tornar um destino pouco atraente para fundos soberanos devido a riscos de sustentabilidade do seu setor produtivo, como pode ver depreciado seus próprios títulos públicos. Isso ocorreria devido à desestabilização do cenário macroeconômico, afetando suas classificações de crédito e dívida externa. Esse desajuste, segundo o documento, é uma consequência esperada diante da elevada dependência das exportações brasileiras em relação ao seu “capital natural”.

O relatório utiliza um instrumento de pesquisa desenvolvido pela entidade para afirmar que 28% dos títulos soberanos da Argentina e 34% dos títulos soberanos do Brasil estarão expostos a um maior fortalecimento de políticas climáticas e anti-desmatamento nos próximos dez anos. Após 2030, o cenário muda para 44% e 22% dos títulos soberanos desses dois países, respectivamente.

O documento prevê que a próxima década será disruptiva em termos econômicos e recomenda que os títulos públicos desenvolvam mais resiliência para enfrentar essas turbulências. Para isso, o relatório orienta que emissores, investidores e agências de classificação de crédito trabalhem para garantir a incorporação do valor total da natureza na atividade produtiva. E sinaliza que pesquisadores e sociedade civil farão cada vez mais pressão para que haja uma real transparência em compromissos de empresas e governos com a sustentabilidade.

As chamadas “soft commodities”, onde estão classificadas todas commodities agrícolas, dependem fortemente de capital natural e foram quase 40% das exportações do país entre 2008 e 2017 — e representaram US ﹩ 897 bilhões. Entre todos os países do G20, as exportações do Brasil estão em segundo lugar na dependência em relação ao capital natural, atrás apenas da Argentina. A média dos países do bloco é de 10%.

Na avaliação do Planet Tracker, essa dependência é perigosa devido ao cenário político internacional. Uma mudança global para uma economia de desmatamento zero pode colocar em gerar uma desvalorização aguda de ativos do agronegócio, o que teria efeitos negativos para todos os indicadores macroeconômicos — défice de balanço de pagamentos, deterioração das reservas cambiais, aumento do desemprego e diminuição da renda média nacional.

O documento aponta como sinal desse movimento uma tendência mundial de rejeição do biodiesel em favor de alternativas com menor risco de sustentabilidade. O Brasil é o segundo maior produtor desse combustível, atrás dos EUA.

Segundo a publicação, as primeiras ações concretas para políticas ambientais mais duras já podem ser observadas na Nova Zelândia, onde uma alteração da lei deve taxar emissões de carbono de produtos agrícolas em 2025. Outro exemplo citado é o debate em curso na Holanda para criação de um imposto com mesmo recorte.

Sobre o Planet Tracker

O Planet Tracker é um think tank financeiro sem fins lucrativos que alinha o mercado de capitais com os limites planetários. Foi lançado em 2018 pelo Investor Watch Group, cujos fundadores, Mark Campanale e Nick Robins, criaram a Carbon Tracker Initiative.

O Planet Tracker foi criado para investigar falhas de mercado relacionadas a limites ecológicos. O foco das investigações são a comunidade de investidores, para os quais a entidade avalia que os riscos atrelados à crise climática estão mal compreendidos e comunicados de maneira ainda mais falha.

O relatório “The sovereign transition to sustainability Understanding the dependence of sovereign debt on nature” é fruto de um estudo realizado pelo Grantham Research Institute da London School of Economics em parceria com o Planet Tracker. Acesse o relatório completo [Aqui!].

Para mais informações sobre os dados do relatório, entre em contato com Graham Webb:

O Ártico está pegando fogo: onda de calor siberiana alarma cientistas

artico em fogoEsta foto tirada na sexta-feira, 19 de junho de 2020 e fornecida pelo Serviço de Mudança Climática do ECMWF Copernicus mostra a temperatura da superfície da terra na região da Sibéria na Rússia. Uma temperatura recorde de 38 graus Celsius (100,4 graus Fahrenheit) foi registrada na cidade ártica de Verkhoyansk no sábado, 20 de junho, em uma onda de calor prolongada que assustou cientistas de todo o mundo. (Serviço de Mudança Climática do ECMWF Copernicus via AP)

Por Daria Litvinova e Seth Beronsteins para a Associated Press

MOSCOU (AP) – O Ártico está febril e em chamas – pelo menos partes dele. E isso preocupa os cientistas com o que isso significa para o resto do mundo.

O termômetro atingiu um recorde provável de 38 graus Celsius (100,4 graus Fahrenheit) na cidade russa de Verkhoyansk no Ártico no sábado, uma temperatura que seria uma febre para uma pessoa – mas essa é a Sibéria, conhecida por estar congelada. Organização Meteorológica Mundial disse na terça-feira que está olhando para verificar a leitura da temperatura, o que seria sem precedentes para a região ao norte do Círculo Polar Ártico.

“O Ártico está figurativamente e literalmente pegando fogo – está esquentando muito mais rápido do que pensávamos em resposta ao aumento dos níveis de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera, e esse aquecimento está levando a um rápido colapso e aumento de incêndios florestais” O reitor da escola ambiental da Universidade de Michigan, Jonathan Overpeck, um cientista climático, disse em um e-mail.

“O aquecimento recorde na Sibéria é um sinal de alerta de grandes proporções”, escreveu Overpeck.

Grande parte da Sibéria teve altas temperaturas este ano que foram além do tempo fora de época. De janeiro a maio, a temperatura média no centro-norte da Sibéria ficou cerca de 8 graus Celsius (14 graus Fahrenheit) acima da média, de acordo com a organização sem fins lucrativos Berkeley Earth.

“Isso é muito, muito mais quente do que nunca naquela região naquele período de tempo”, disse Zeke Hausfather, cientista climático da Terra de Berkeley.

A Sibéria está no Guinness Book of World Records por suas temperaturas extremas. É um local em que o termômetro oscilou 106 graus Celsius (190 graus Fahrenheit), de um mínimo de 68 graus Celsius (menos 90 Fahrenheit) para agora 38 graus Celsius (100,4 Fahrenheit).

Para os residentes da República Sakha no Ártico russo, uma onda de calor não é necessariamente uma coisa ruim. Vasilisa Ivanova passou todos os dias desta semana com sua família nadando e tomando banho de sol.

“Passamos o dia inteiro na margem do rio Lena”, disse Ivanova, que mora na vila de Zhigansk, a 430 quilômetros de onde o recorde de calor foi estabelecido. “Estamos vindo todos os dias desde segunda-feira.”

Mas, para os cientistas, “os alarmes devem tocar”, escreveu Overpeck.

Esse calor prolongado da Sibéria não é visto há milhares de anos “e é outro sinal de que o Ártico amplia o aquecimento global ainda mais do que pensávamos”, disse Overpeck.

As regiões árticas da Rússia estão entre as áreas de aquecimento mais rápido do mundo.

A temperatura na Terra nas últimas décadas tem aumentado, em média, 0,18 graus Celsius (quase um terço de um grau Fahrenheit) a cada 10 anos. Mas na Rússia aumenta 0,47 graus Celsius (0,85 graus Fahrenheit) – e no Ártico russo, 0,69 graus Celsius (1,24 graus Fahrenheit) a cada década, disse Andrei Kiselyov, o principal cientista do Observatório Geofísico Principal de Voeikov, com sede em Moscou.

“Nesse sentido, estamos à frente de todo o planeta”, disse Kiselyov.

O aumento da temperatura na Sibéria tem sido associado a incêndios florestais prolongados, que se tornam mais severos a cada ano e ao degelo do permafrost – um enorme problema porque edifícios e tubulações são construídos sobre eles. O degelo do permafrost também libera mais gás captador de calor e seca o solo, o que aumenta os incêndios, disse Vladimir Romanovsky, que estuda permafrost no Fairbanks da Universidade do Alasca.

“Nesse caso, é ainda mais grave, porque o inverno anterior era extraordinariamente quente”, disse Romanovsky. O permafrost derrete, o gelo derrete, o solo desaparece e, em seguida, pode desencadear um ciclo de feedback que piora o degelo do permafrost e “os invernos frios não conseguem detê-lo”, disse Romanovsky.

Um vazamento de óleo catastrófico de um tanque de armazenamento desmoronado no mês passado, perto da cidade ártica de Norilsk, foi parcialmente atribuído ao derretimento do permafrost. Em 2011, parte de um edifício residencial em Yakutsk, a maior cidade da República de Sakha, entrou em colapso devido ao degelo e à subsidência do solo.

Em agosto passado, mais de 4 milhões de hectares de florestas na Sibéria estavam em chamas, segundo o Greenpeace. Este ano os incêndios já começaram muito antes do início de julho, disse Vladimir Chuprov, diretor do departamento de projetos do Greenpeace na Rússia.

O clima quente persistentemente, especialmente se combinado com incêndios florestais, faz com que o permafrost derreta mais rapidamente, o que agrava o aquecimento global ao liberar grandes quantidades de metano, um potente gás de efeito estufa 28 vezes mais forte que o dióxido de carbono, disse Katey Walter Anthony, uma Universidade do Alasca Especialista em Fairbanks na liberação de metano do solo ártico congelado.

“O metano que sai dos locais de degelo do permafrost entra na atmosfera e circula pelo mundo”, disse ela. “O metano que se origina no Ártico não fica no Ártico. Tem ramificações globais. ”

E o que acontece no Ártico pode até deformar o clima nos Estados Unidos e na Europa.

No verão, o aquecimento incomum diminui a diferença de temperatura e pressão entre o Ártico e as latitudes mais baixas, onde mais pessoas vivem, disse Judah Cohen, especialista em clima de inverno da Atmospheric Environmental Research, empresa comercial nos arredores de Boston.

Isso parece enfraquecer e às vezes até paralisar a corrente de jato, o que significa que sistemas climáticos como aqueles que trazem calor ou chuva extremos podem ficar estacionados em locais por dias a fio, disse Cohen.

De acordo com meteorologistas da agência meteorológica russa Rosgidrome t, uma combinação de fatores – como um sistema de alta pressão com céu claro e sol muito alto, horas diurnas extremamente longas e noites quentes curtas – contribuiu para o aumento da temperatura na Sibéria.

“A superfície do solo esquenta intensamente. (…) As noites são muito quentes, o ar não tem tempo para esfriar e continua a esquentar por vários dias ”, disse Marina Makarova, meteorologista-chefe da Rosgidromet.

Makarova acrescentou que a temperatura em Verkhoyansk permanece incomumente alta de sexta a segunda-feira.

Os cientistas concordam que o aumento é indicativo de uma tendência muito maior ao aquecimento global.

“O ponto principal é que o clima está mudando e as temperaturas globais estão esquentando”, disse Freja Vamborg, cientista sênior do Serviço de Mudança Climática do Copernicus, no Reino Unido. “Estaremos quebrando recordes cada vez mais.”

“O que está claro é que o aquecimento do Ártico acrescenta combustível ao aquecimento de todo o planeta”, disse Waleed Abdalati, um ex-cientista chefe da NASA que agora está na Universidade do Colorado.

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Borenstein informou de Washington. Os autores da Associated Press Jim Heintz em Moscou, Frank Jordans em Berlim, Jamey Keaten em Genebra e Roman Kutukov em Yakutsk, Rússia, contribuíram para este relatório.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

Em editorial, The Guardian afirma que o mundo não pode desviar os olhos do que está acontecendo na Amazônia

A visão do  “The Guardian” sobre o Brasil e a Amazônia: não desvie o olhar

Uma área desmatada de floresta perto de Porto Velho, estado de Rondônia, Brasil. Forest A floresta tropical pode parecer distante. Mas não podemos dar ao luxo de torcer as mãos e desviar o olhar. ‘Fotografia: Reuters

Editorial

Existe um consenso de que a cooperação internacional é necessária para limitar o perigo do aquecimento global há décadas. O sucesso da ação de retaguarda contra esse conhecimento, liderado por interesses em combustíveis fósseis, é uma catástrofe cuja extensão total ainda está por se desdobrar. Os banqueiros centrais agora estão exigindo que umatransição econômica inteira” siga a pandemia se o mundo quiser evitar as perturbações extremas que o aumento da temperatura de 4 ° C traria.

Indiscutivelmente, o caos desencadeado pelo coronavírus fez com que esse futuro parecesse menos remoto, e ações para evitá-lo mais necessário. O risco é que o vírus tenha o efeito oposto: focar as mentes na ameaça agora e não na que pode ser ignorada por mais alguns anos.

Em nenhum lugar esse perigo é maior do que no Brasil. O país mais populoso da América do Sul é responsável por 2,25% das emissões globais (em comparação, os EUA, com uma população 50% maior, emitem sete vezes mais). Mas a aceleração do desmatamento coloca o Brasil, que tem 60% da floresta amazônica dentro de suas fronteiras, no centro da luta para evitar o aquecimento global descontrolado. Isso ocorre porque a Amazônia é o maior sumidouro de carbono terrestre do planeta e desempenha um papel crucial no ciclo da água, além de fornecer um lar para mais espécies do que qualquer outro lugar em terra.

Vinte e oito anos atrás, em junho de 1992, a convenção-quadro da ONU sobre mudança climática foi aberta para assinatura no Rio de Janeiro. Mas desde que o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, assumiu o cargo há 18 meses, seu governo sabotou anos de trabalho de ambientalistas e ativistas indígenas que visavam proteger a floresta tropical e, em vez disso, atiçou as chamas de sua destruição por madeireiros ilegais, mineiros e pecuaristas. . No ano até julho de 2019, as perdas dispararam para 9.800 km2 e pesquisas prevêem que a floresta tropical está a caminho de um ponto de inflexão que a tornaria um emissor de carbono em meados da década de 2030. Agora, teme-se que a pandemia de coronavírus acelere isso.

Na quinta-feira, o Brasil ultrapassou a Itália e se tornou o país com o terceiro maior número de mortos em Covid-19 (atrás dos EUA e do Reino Unido), depois que um registro diário de 1.743 mortes elevou o total para mais de 34.000. Enquanto Bolsonaro continua atacando medidas de saúde pública, a população indígena da região amazônica parece cada vez mais ameaçada por violência e doenças, com cinco assassinatos no estado do Maranhão em seis meses.

A floresta tropical pode parecer distante. Mas não podemos dar ao luxo de torcer as mãos e desviar o olhar. É preciso puxar todas as alavancas possíveis que possam influenciar o governo e a indústria de carne do Brasil. Nesta semana, o Guardian informou que os bancos do Reino Unido forneceram mais de US$ 2 bilhões em apoio a empresas ligadas ao desmatamento. Essas instituições agora devem estar sob pressão, juntamente com investidores americanos como a BlackRock. Assim como políticos e reguladores.

Será necessário um grande esforço internacional para preservar a floresta amazônica. O agronegócio é responsável por mais de um quinto do PIB do Brasil. Se a indústria de gado deve enfrentar restrições, também deve haver incentivos. Os negociadores internacionais de comércio e clima têm um trabalho duro pela frente. Também há um trabalho a ser feito pela opinião pública.

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Este editorial foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Alemanha, Reino Unido, China e ONU pedem estímulo verde para a recuperação econômica pós-COVID-19

Father and child hiking together in a forest stream

Os pacotes de recuperação econômica pós COVID-19 devem respeitar o meio ambiente e o Acordo de Paris sobre mudança do clima, afirmaram hoje (28/4) a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o secretário geral da ONU Antonio Guterres e o enviado de Xi Jinping, Huang Runqiu, em uma cúpula climática global em Berlim.

Em suas falanDiálogClimáticdPetersberg – realizado on-line pela primeira vez devido à pandemia atual – os líderes pediram aos governos que estão elaborando planos para reiniciar suas economias que eles não resultem em um aumento das emissões dos gases responsáveis pelo aquecimento global.

“O coronavírus nos mostra que a cooperação internacional é crucial e que o bem-estar de uma nação sempre depende do bem-estar de outras. Com o Acordo Verde da Europa, a Comissão da UE mostrou o caminho a seguir. A Europa deve se tornar o primeiro continente neutro em termos de emissões até 2050”, destacou Angela Merkel, chanceler da Alemanha. “Combinaremos a ação climática com novas perspectivas econômicas e novos empregos. Deixe-me esclarecer: haverá um debate difícil sobre a alocação de fundos. Mas é importante que os programas de recuperação estejam sempre de olho no clima, não devemos deixar de lado o clima, mas investir em tecnologias climáticas”, destaca.

De acordo com a AdministraçãNacionaOceânicAtmosférica dos EUA, 2020 está a caminho de ser um dos – se não o – ano mais quente já registrado. Os níveis recorde de gases de efeito estufa na atmosfera estão ligados a uma série de eventos climáticos globais cada vez mais extremos.

“Os eventos climáticos extremos não estão dando um tempo enquanto lidamos com outras prioridades, e algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo continuam sofrendo como resultado, como vimos quando o ciclone Harold atravessou o Pacífico Sul este mês”, lembrou Boris Johnson, primeiro ministro do Reino Unido em discurso lido pelo secretário de Relações Exteriores, Dominc Raab. “As nações começarão a emergir do confinamento e tentarão reavivar suas economias mais uma vez. Quando isso acontecer, será dever de todo governo responsável garantir que nossas economias sejam revividas e reconstruídas de maneira a resistir ao teste do tempo. Isso significa investir em indústrias e infraestrutura que podem mudar a situação das mudanças climáticas. E significa fazer todo o possível para aumentar a resiliência ao moldar economias que possam suportar tudo o que a natureza nos lança. Não há escolha entre corte de emissões e economias em crescimento. Esse é um mito que o Reino Unido ajudou a quebrar na última década”, ressaltou.

Para o Secretário Geral da ONU Antonio Guterres, “alguns países, incluindo o Chile, o atual presidente da COP, já enviaram NDCs aprimorados e outros 114 países anunciaram que o farão. 121 países se comprometeram a alcançar a neutralidade do carbono até 2050. A chave para enfrentar a crise climática são os grandes emissores. Não devemos esquecer que os países do G20 representam coletivamente mais de 80% das emissões globais e mais de 85% da economia global. Eles também devem se comprometer com a neutralidade do carbono em 2050. O Acordo de Paris foi amplamente possível graças ao envolvimento dos Estados Unidos e da China. Sem a contribuição dos grandes emissores, todos os nossos esforços serão condenados”.

O Ministro das Relações Exteriores do Butão, Dr. Tandi Dorji, representando os Países Menos Desenvolvidos, reiteirou a mensagem de Guterres: “Qualquer queda nas emissões globais não será significativa nem duradoura, a menos que seja apoiada por promessas climáticas ambiciosas. Este ano, devemos ver países com altos níveis de emissões enviar NDCs novos e atualizados com a maior ambição possível, o que representará sua parte justa de ação, conforme exigido pelo Acordo de Paris”.

O Ministro da China, Huang Runqiu, reafirmou a posição de colaboração de seu país: “Como firme defensora do multilateralismo, a China se juntará a outros países para promover uma implementação completa, equilibrada e eficaz do Acordo de Paris. Implementaremos nossa estratégia nacional proativa de mudança climática e contribuiremos para os esforços de colaboração para enfrentar as mudanças climáticas globais”.

Michel Moore apresenta “Planet of the Humans”

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O sempre polêmico diretor de cinema estadunidense Michael Moore lançou no “Dia da Terra” (22/04) , o  “Planet of the Humans”, um documentário que parte da premissa de que estamos perdendo a batalha para impedir o processo de mudanças climáticas porque seguimos líderes que nos levaram para um caminho errado  – vender o movimento verde para interesses ricos e empresas americanas. 

Em seus créditos no Youtube, há o alerta para a realidade que temos medo de enfrentar: que, no meio de um evento de extinção causado pela sociedade humana, a resposta do movimento ambientalista tem sido pressionar por soluções de base tecnológicas que não passam de band-aids.  

Removida do debate estaria a única coisa que pode nos salvar: controlar nossa presença e o consumo  que estão fora de controle. Por que essas questões não aparecem claramente?  Segundo Moore,  porque isso seria ruim para os lucros, ruim para os negócios.

O documentário insiste em que os ambientalistas caíram em ilusões, ilusões “verdes”, que são tudo menos verdes, porque temos medo de que isso seja o fim – e depositamos todas as nossas esperanças em biomassa, turbinas eólicas e carros elétricos.  Mas nenhuma quantidade de baterias vai nos salvar, adverte o diretor Jeff Gibbs (ambientalista e co-produtor de “Fahrenheit 9/11” e “Bowling for Columbine”). Este filme urgente e imperdível,  é um ataque frontal total às vacas sagradas do movimento ambientalista têm, segundo Moore, a garantia de gerar raiva, debate e, esperançosamente, disposição para ver nossa sobrevivência de uma nova maneira – antes que seja tarde demais.

O filme conta a história de Al Gore, Bill McKibben, Richard Branson, Robert F. Kennedy Jr., Michael Bloomberg, Van Jones, Vinod Khosla, Koch Brothers, Vandana Shiva, General Motors, 350.org, Arnold Schwarzenegger, Sierra Club, União de Cientistas Interessados, Nature Conservancy, e Elon Musk.

O “Planet of the Humans”  tem uma trilha sonoro com canções de Radiohead, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Blank & Jones, If These Trees Could Talk, Valentina Lisitsa, Culpit 1, Patrick O’Hearn, The Torquays, Nigel Stanford e muito mais.

 

Juventude sul-coreana processa governo do país por falta de ação contra a crise climática

De acordo com organização da juventude da Coreia do Sul, o governo de Seul infringe os direitos constitucionais de seus cidadãos ao falhar em reduzir emissões de gases de efeito estufa para combater a mudança do clima

climate korea

Seul, 13 de março de 2020 – Um grupo da juventude da Coreia do Sul entrou na justiça do país por causa da falta de ação de seu governo contra a mudança do clima, argumentando que isso acaba por infringir os direitos constitucionais de seus cidadãos. Esta é a primeira ação legal desse tipo proposta pela juventude na Ásia.

O grupo Youth 4 Climate Action apresentou uma reclamação constitucional alegando que a meta de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) definida pelo governo da Coreia do Sul é inadequada e, como tal, viola a proteção dos direitos básicos de seus cidadãos consagrados na Constituição sul-coreana.

Os autores da reclamação argumentam que a população da Coreia do Sul já está sofrendo com impactos da mudança do clima, mas o governo do país segue passivo e não atua no sentido de proteger seus cidadãos das consequências mais catastróficas da mudança do clima.

“Os adultos dizem que a juventude tem um futuro brilhante e que pode fazer muitas coisas, mas no ritmo em que estamos, a temperatura global pode superar os 1,5oC acima dos níveis pré-industriais em apenas sete anos. Estou com medo, porque até lá eu terei apenas 23 anos e enfrentarei uma vida de incerteza devido aos impactos catastróficos potenciais da crise climática”, desabafou Do-hyun Kim, representante do Youth 4 Climate Action durante uma coletiva de imprensa realizada antes da apresentação da denúncia.

“Ao apresentar esse processo, quero exigir que o governo assuma a responsabilidade de proteger seu povo da mudança do clima”, acrescentou.

“É meu direito sonhar com meu futuro livre da ameaça da crise climática”, disse Hae-young Yoon, do mesmo grupo. “Espero que nossas exigências possam ser ouvidas pelos decisores para garantir que a minha geração possa viver e desfrutar das coisas que as gerações mais antigas tinham como certas”.

O grupo de jovens planejada inicialmente realizar uma grande “greve escolar” no centro de Seul após a coletiva de imprensa, mas teve de cancelá-la por conta da preocupação com o coronavírus.

Sobre o caso

Na denúncia apresentada pelo grupo Youth 4 Climate Action à justiça sul-coreana, eles argumentam que o artigo 25 do Decreto Presidencial para Ação Base em Baixo Carbono e Desenvolvimento Verde viola diretamente direitos constitucionais fundamentais como o direito à vida, à busca da felicidade, a um meio ambiente limpo, à igualdade, e ao valor dos seres humanos.

A meta atual de redução de emissões de GEE na Coreia do Sul, revisada duas vezes (2016 e 2019), é de 24,4% abaixo dos níveis registrados em 2017 até 2030, muito abaixo do que seria necessário para que o país contribuísse efetivamente para atingir as metas de longo prazo do Acordo de Paris.

O grupo também aponta que a Corte Constitucional, tribunal especializado para litígios relacionados à Constituição do país, deveria considerar inconstitucional que tal ação legislativa não estabeleça qualquer diretriz específica em relação à meta de redução de emissões de GEE e apenas dê ao governo a discricionariedade de estabelecer essa meta, já que a Constitucional impõe à Assembleia Nacional o dever de legislar para proteção dos direitos básicos.

“O fato de termos crianças e adolescentes entrando na justiça contra os adultos no governo para garantir sua sobrevivência e bem-estar é muito significativo”, disse o advogado Byung-Joo Lee, um dos representantes legais do grupo. “A Corte Constitucional da Coreia do Sul é conhecida por estar na vanguarda da defesa dos direitos básicos dos cidadãos comuns. Esse pode ser o julgamento do século para o país”.

O processo apresentado pelos jovens sul-coreanos se insere em um movimento maior de litigância climática observado em diversas partes do mundo nos últimos anos. Por exemplo, a partir de uma denúncia apresentada pela sociedade civil, a Suprema Corte da Holanda determinou em dezembro passado que o governo do país eleve suas metas de redução de emissões.

Para David R. Boyd, relator especial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Direitos Humanos, a juventude sul-coreana pede ao seu governo apenas por duas coisas – escutar o que a ciência diz e obedecer o que a lei determina. “Mais ação para enfrentar a emergência climática que vivemos hoje é vital para proteger os direitos humanos de literalmente bilhões de pessoas, inclusive os jovens que terão que suportar uma parcela desproporcional dos efeitos adversos dessa crise”, disse Boyd.

Já para Marjan Minnesma, diretora da Fundação Urgenda, responsável pelo processo climático na Holanda, a iniciativa da juventude da Coreia do Sul é histórica e mostra que os governos precisam justificar sua falta de ação junto àqueles que pagarão o preço mais alto pela mudança do clima, as gerações mais novas e futuras. “Nosso caso bem-sucedido na Holanda provou que os governos têm obrigações legais de reduzir emissões agora. A decisão da Suprema Corte holandesa foi clara ao nosso governo e também se aplica ao caso da Coreia do Sul: se você fracassa em lidar com a crise climática de forma séria, você será legalmente responsabilizado”.

No caso sul-coreano, o grupo de jovens receberá suporte legal de advogados do escritório S&L Partners e da Solutions for Our Climate na forma de litigância de interesse público, mas a juventude irá liderar a campanha de comunicação para conscientizar a população da Coreia do Sul e pressionar o governo em prol de mais ação climática ao longo deste ano.

* Fotos da coletiva de imprensa podem ser encontradas aqui (Crédito: Youth 4 Climate Action)

Contato para imprensa

Bo-rim Kim, chefe do Youth 4 Climate Action

Lynn Kim, apoio para comunicação (GSCC)

 

Sobre Youth 4 Climate Action

Youth 4 Climate Action é um grupo de jovens sul-coreanos com o propósito de demandar das autoridades e dos adultos mais ação contra a mudança do clima. Baseado em valores como voluntariedade e processo decisório democrático, ele busca formas variadas e criativas para expor mensagens nesse sentido. Desde o ano passado, esses jovens têm liderado “greves escolares” na Coreia do Sul e conversado com autoridades nacionais e locais para fazer valer seus direitos e pressionar por ação climática.