Incêndios na Califórnia como vitrinas das mudanças climáticas

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O estado da Califórnia está sendo devorado neste momento por pelo menos três grandes incêndios, e pelo menos 22 milhões de pessoas estão sob alerta apenas na região sul do estado, que compreende a cidade de Los Angeles e sua região metropolitana.

O que está acontecendo é atribuído a uma combinação de uma seca prolongada que acelera os efeitos de ressecamento do material caído dentro de suas florestas e a intrusão de áreas urbanas para o interior de regiões onde elas são mais abundantes.

Um aspecto menos divulgado é que a atuação de fenômenos climáticos regionais tem servido como uma espécie de alimentador dos incêndios, na medida em que prevalecem ventos de até 80 km que funcionam como grandes ventiladores que terminam aumentando a capacidade de propagação e a intensidade das chamas [1]. 

Colocados juntos todos esses fatores demonstram a força das modificações que estão ocorrendo no clima da Terra, condição para a qual a maioria dos países ainda não está nem próxima do nível de preparação que a situação já está demandando para que se evitem grandes catástrofes como a que está ocorrendo na Califórnia, com pesadas perdas materiais e humanas.

Mas se a Califórnia parece distante demais para que se tenha a noção do tamanho da encrenca, imaginemos então o que acontecerá no comportamento climático do centro sul do Brasil se o ritmo de perda das florestas na Amazônia continuar no viés de alto com propensão a aumentar. É que a comunidade científica brasileira já produziu conhecimento suficiente para que saibamos que poderemos enfrentar um processo de ressecamento que colocará em risco o fornecimento de água nas principais regiões metropolitanas brasileiras [2]. O problema é que até agora predomina a postura de ignorar o óbvio.

Para piorar ainda teremos um governo comandando por pessoas que não apenas ignoram as evidências científicas, mas como também estão dispostas a adotar uma postura negacionista do que já está estabelecido de forma robusta pela ciência do clima. O resultado para o Brasil poderá ser, no mínimo, desastroso. Aliás, para quem se interessa pelo tema do negacionismo que ampara as refutações pseudo científicas sobre as mudanças climáticas em curso na Terra, sugiro a leitura do artigo intitulado “Learning from mistakes in climate research” de Benestad et colaboradores [3].

 


[1] https://www.theguardian.com/us-news/2018/nov/12/california-fires-latest-what-is-happening-climate-change-trump-response-explained

[2] https://jornal.usp.br/atualidades/cientistas-alertam-que-o-planeta-ainda-esta-longe-de-resolver-o-problema-do-aquecimento-global/

[3] https://link.springer.com/article/10.1007/s00704-015-1597-5

 

Depois de ter sua casa queimada em incêndio florestal, Neil Young critica Donald Trump por desafiar a ciência

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Má gestão das florestas não é a causa dos incêndios. Neil Young. Foto: Dan Steinberg / Rex/ Shutterstock

Por Laura Snapes [1]

Neil Young criticou Donald Trump por sua relutância em agir sobre as mudanças climáticas depois que incêndios na Califórnia destruíram a sua casa.

Em um tweet postado em 10 de novembro, o presidente dos Estados Unidos culpou a “má gestão das florestas” da Califórnia pelos danos causados pelos incêndios no norte e no sul da Califórnia. Trump sugeriu que o financiamento federal seria retirado se a situação não fosse corrigida.

Em um post em seu site, Young respondeu: “A Califórnia é vulnerável – não por causa do manejo florestal deficiente como a DT (nosso chamado presidente) nos faria pensar. Somos vulneráveis por causa das mudanças climáticas; os eventos climáticos extremos e nossa prolongada seca são parte disso. ”

No domingo, o chefe dos bombeiros de Los Angeles, Daryl Osby, disse ao “The Guardian” que as mudanças climáticas eram inegavelmente uma parte do motivo pelo qual os incêndios foram mais devastadores e destrutivos do que nos anos anteriores. Osby disse que as mudanças ambientais aumentaram a temporada de incêndios em todo a Califórnia, sobrecarregando os recursos. 

Trinta e uma pessoas morreram nos incêndios com mais de 200 pessoas desaparecidas, segundo os números mais recentes. A emergência agora equivale ao desastre de 1933 do Griffith Park, em Los Angeles, como o incêndio florestal mais letal da Califórnia já registrado. Young continuou: “Imagine um líder que desafia a ciência, dizendo que essas soluções não devem fazer parte de sua tomada de decisão em nosso nome. Imagine um líder que se importe mais com sua opção conveniente do que com as pessoas que lidera. Imagine um líder inadequado. Agora imagine um que seja adequado

Young está entre vários músicos conhecidos por terem sido afetados pelos incêndios florestais. O pianista de longa data de David Bowie, Mike Garson, twittou no sábado sobre a perda de sua casa e estúdio. Lady Gaga twittou que ela havia sido evacuada de sua residência. “Estou sentada aqui com muitos de vocês se perguntando se minha casa vai explodir em chamas.” 

Katy Perry e Rod Stewart também criticaram Trump por seus tweets. “Esta é uma resposta absolutamente sem coração”, twittou Perry. Stewart disse: “A Califórnia precisa de palavras de apoio e encorajamento, não ameaças ou acusações e acusações”.

Artigo publicado originalmente em inglês pelo jornal The Guardian [1]

Os graves custos das lições não aprendidas do Morro do Bumba

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Trabalhos de busca por vítimas após deslizamento em Niterói (RJ) — Foto: Reprodução/TV Globo

Há quase 8 anos atrás a tragédia do Morro do Bumba na cidade de Niterói (RJ) chocou o Brasil quando uma mistura de lama e lixo rolou abaixo e resultou na morte de pelo menos 47 pessoas [1]. Naquele incidente ficaram explícitas lições sobre as necessidades de se instalar um modelo mais democrático de uso da terra urbana e de se estabelecer formas de gestão ambiental que impedissem a repetição deste tipo de incidente que normalmente clama a vida das pessoas mais pobres que são empurradas para áreas de difícil ocupação pela especulação imobiliária.

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Pois bem, as lições não aprendidas sempre voltam para assombrar sociedades que teimam em se manter cegas em relação às consequências de seu próprio funcionamento.  Essa verdade ficou agora explícita na destruição de parte da comunidade que habitava o Morro da Boa Esperança, também em Niterói [2]. Agora já se contaram 14 mortos, número que pode aumentar já que as operações de resgate ainda estão ocorrendo.

Interessante notar que ao contrário do que pregam os negacionistas das mudanças climáticas, estamos entrando num período histórico que cada vez mais veremos eventos climáticos extremos, seja para secas ou chuvas extremas. Basta ver o que está acontecendo na Califórnia que está sendo palco de um período de seca extrema que criou focos gigantescos de incêndios que já consumiram cidades inteiras [3], no mesmo momento em que o Rio de Janeiro está sendo afogado por chuvas extremas.  Que ninguém se surpreenda, mas esse é o padrão aparentemente desconexo que exemplifica melhor as mudanças climáticas que estão ocorrendo na Terra em função da contínua emissão de poluentes na sua atmosfera.

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Morador observa fogo próximo de sua residência na Califórnia.

É no meio dessa situação que muitos governos nacionais estão adotando medidas radicais para não se diminuir suas emissões de poluentes mas para, principalmente, ajustar seus protocolos de resposta aos eventos climáticos extremos que se tornarão o normal.  Enquanto isso no Brasil, o que temos é a destruição do Ministério do Meio Ambiente que resultará no desmantelamento das nossas frágeis estruturas de proteção e gestão ambiental. E tudo isso para facilitar a ação de pilhagem em biomas que são fundamentais para manter a regulação climática da Terra.

Depois não venham reclamar ou dizer que tudo é culpa da Natureza. O Morro do Bumba e o da Boa Esperança estão aí para mostrar que sociedades que teimam em não aprender as lições de seus próprios defeitos serão as que pagarão mais caro pelo despreparo pelas mudanças ambientais que estão ocorrendo debaixo de nossos narizes.


[1] https://istoe.com.br/64153_A+MORTE+NO+LIXAO/

[2] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/11/10/bombeiros-fazem-resgate-em-desabamento-em-niteroi-rj.ghtml

[3] https://www.theguardian.com/world/2018/nov/09/california-fires-malibu-evacuations-latest-news-updates-today

Custos sociais e ambientais de usinas hidrelétricas são subestimados, aponta estudo

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Trabalho mostra que desmatamento, perda da biodiversidade e prejuízos econômicos causados às comunidades que vivem no entorno de barragens não têm sido levados em conta nos projetos. Obras também ignoram os cenários de mudanças climáticas (Usina Hidrelétrica de Belo Monte / foto: Laura Castro Diaz)

Por Elton Alisson  para a Agência FAPESP

Enquanto os países mais desenvolvidos têm diminuído nas últimas décadas a construção de grandes hidrelétricas, nações em desenvolvimento começaram a construir no mesmo período barragens ainda maiores. É o caso do Brasil.

Impactos ambientais – como o desmatamento e a perda da biodiversidade – e sociais – como o deslocamento de milhares de pessoas e os prejuízos econômicos causados a elas – não têm sido levados em conta e incluídos no custo total desses projetos. Além disso, esses empreendimentos têm ignorado os cenários de mudanças climáticas, que preveem a diminuição da oferta de água e, consequentemente, da geração de energia hidroelétrica.

O alerta foi feito por pesquisadores da Michigan State University, nos Estados Unidos, em artigo publicado em 5 de novembro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

O primeiro autor do estudo é Emilio Moran, professor visitante da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O pesquisador coordena um projeto, apoiado pela FAPESP na modalidade São Paulo Excellence Chair (SPEC), em que estuda os impactos sociais e ambientais da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, próxima à cidade de Altamira, no Pará.

“Argumentamos que se continuar a construção de grandes hidrelétricas nos países em desenvolvimento, precisaremos fazer uma avaliação do custo real dessas obras que inclua os impactos ambientais e sociais gerados por elas”, disse Moran à Agência FAPESP.

“Quando uma grande barragem é construída, o rio a jusante [direção em que correm as águas de uma corrente fluvial] perde grande parte de espécies de peixes que são importantes para a população ribeirinha. Aquelas comunidades terão que conviver com a diminuição de sua atividade de pesca ao longo de 15 ou 20 anos, por exemplo, e esses prejuízos econômicos e sociais não têm sido incorporados no custo desses projetos”, disse.

De acordo com os autores do estudo, a energia hidrelétrica tem sido a principal fonte de energia renovável em todo o mundo, respondendo por até 71% da oferta da energia proveniente de recursos naturais a partir de 2016.

Essa capacidade de geração de energia hidrelétrica foi iniciada na América do Norte e na Europa entre 1920 e 1970, quando milhares de barragens foram construídas. A partir do fim da década de 1960, contudo, grandes barragens deixaram de ser construídas em nações desenvolvidas. Algumas das razões foram que os melhores locais para construção de represas nessas regiões tinham sido ocupados e as crescentes preocupações ambientais e sociais tornaram esses projetos inviáveis.

O resultado disso foi que, hoje, passado seu tempo de vida útil, mais barragens estão sendo removidas do que construídas na América do Norte e na Europa. Só nos Estados Unidos, 546 represas foram removidas entre 2006 e 2014, exemplificam os pesquisadores.

“O custo para remover uma barragem, passada sua vida útil, é altíssimo, e também deve ser levado em conta na avaliação do custo total de um novo projeto de hidrelétrica”, apontou Moran.

“Se esse custo de remoção fosse incluído, muitas barragens não seriam feitas, porque seria muito mais cara a geração de energia por quilowatt-hora por uma usina elétrica com vida útil estimada entre 30 e 50 anos, como a das que estão sendo construídas no Brasil”, disse.

Impactos locais

Segundo Moran, as primeiras barragens construídas na América do Norte e na Europa tinham o objetivo de prover energia para áreas rurais e possibilitar o funcionamento de sistemas de irrigação. “Esses projetos tinham um objetivo social”, disse.

Já as usinas que estão sendo construídas ao longo dos rios da bacia Amazônica, na América do Sul, do Congo, na África, e Mekong, no Sudeste Asiático, são voltadas, em grande parte, para fornecer energia para empresas siderúrgicas, por exemplo, sem beneficiar as comunidades locais.

O caso mais emblemático é o da megausina de Inga, planejada para ser construída na homônima maior cachoeira do mundo em volume, no rio Congo. A barragem, que poderia aumentar em mais de um terço o total da eletricidade atualmente produzida na África, exportará a energia gerada para a África do Sul para atender às empresas de mineração.

“As pessoas afetadas por esses projetos acabam não se beneficiando do acesso ou da diminuição do custo da energia, por exemplo. No caso da usina de Belo Monte, o linhão de transmissão de energia passa por cima das pessoas afetadas e aquela energia vai para as regiões Sul e Sudeste”, disse Moran.

Segundo o estudo, tanto em Belo Monte como em Santo Antônio e Jirau, na Amazônia brasileira, onde também foram instaladas barragens recentemente, em vez de diminuir, a conta de energia elétrica da população no entorno das obras aumentou. E os empregos prometidos aos moradores no início das obras foram ocupados principalmente por pessoas de fora e desapareceram no prazo de cinco anos.

“Em Altamira, antes do início da construção da usina de Belo Monte, os moradores apoiavam a obra pois pensavam que ela beneficiaria enormemente a cidade. Hoje em dia ninguém apoia mais, porque a usina acabou com a tranquilidade da cidade e, em vez de benefício, só trouxe problemas para a maioria das pessoas”, disse Moran.

“Belo Monte foi tão caótico e afetou tão profundamente a vida dos moradores da região que contribuiu para repensar os projetos de construção de grandes barragens na bacia Amazônica”, disse.

Além dos problemas gerados para as comunidades a jusante, as novas usinas em construção na América do Sul, África e no Sudeste Asiático têm causado graves impactos ambientais.

Na bacia Amazônica, por exemplo, onde está sendo planejada a construção ao longo de seus 6 milhões de quilômetros quadrados (km2) de 147 barragens – das quais 65 no Brasil –, a construção de hidrelétricas tem afetado as populações e a dinâmica das cerca de 2,3 mil espécies de peixes encontradas na região. Após a instalação de barragens no rio Tocantins houve uma redução de 25% no número de peixes nesse curso d’água, que deságua na foz do rio Amazonas.

Na região da barragem de Tucuruí, o pescado diminuiu quase 60% imediatamente após a construção da barragem e mais de 100 mil pessoas que vivem no entorno do rio foram afetadas pela perda da pesca, da agricultura de irrigação por inundações e outros recursos naturais, destacam os autores do estudo.

“A maioria das espécies de peixe na bacia Amazônica são endêmicas [só ocorrem naquela região]. A perda dessas espécies representa um enorme dano para a biodiversidade mundial”, disse Moran.

Impactos das mudanças climáticas

As barragens que têm sido construídas na bacia Amazônica nos últimos anos também deverão ser fortemente impactadas pelas mudanças climáticas globais, projetam os pesquisadores.

Estima-se que as barragens de Jirau e de Santo Antônio, no rio Madeira, concluídas nos últimos cinco anos, produzirão apenas uma fração dos 3 gigawatts (GW) cada que eram projetadas para gerar em razão das mudanças climáticas e da pequena capacidade de armazenamento de seus reservatórios a fio d’água – com menor acúmulo de água.

Já a usina de Belo Monte, no rio Xingu, concluída em 2016, também produzirá 4,46 GW dos 11,23 GW que foi construída para gerar, mesmo em cenários otimistas, devido à variabilidade climática, a um reservatório relativamente pequeno e a níveis insuficientes de água, afirmam os pesquisadores.

Para agravar esse cenário, a maioria dos modelos climáticos prevê maior temperatura e menor precipitação nas bacias do Xingu, Tapajós e do Madeira.

“Depender só da água como fonte de energia em um futuro em que teremos menos esse recurso natural parece ser uma estratégia pouco confiável”, avaliou Moran.

“Para diminuir sua vulnerabilidade energética, em um cenário de mudanças climáticas globais, o Brasil precisa diversificar sua matriz, que ainda é muito dependente do setor hidrelétrico. É preciso que o país aumente os investimentos em outras fontes de energia renovável, como solar, biomassa e eólica”, disse.

Os pesquisadores também ressalvam que, de maneira similar às mudanças climáticas, os projetos de construção de barragens frequentemente não consideram os efeitos da mudança do uso da terra no potencial de geração de energia hidrelétrica por uma represa.

Outro estudo estimou que na bacia do Xingu, onde está localizada a usina de Belo Monte, a energia gerada estimada poderia cair para abaixo da metade da capacidade instalada da barragem com o desmatamento em torno da bacia. Isso porque o desmatamento pode inibir a chuva e a umidade do solo nas regiões tropicais úmidas da floresta.

Estima-se que metade da precipitação na bacia Amazônica seja devido à reciclagem interna de umidade. Dessa forma, o desmatamento pode reduzir as chuvas na região, independentemente do declínio esperado com as mudanças climáticas globais, afirmam os pesquisadores.

“A hidroenergia é uma entre várias soluções para evitar apagões de energia no Brasil. A solução é procurar diversificar as fontes de energia e adotar soluções inovadoras que possam reduzir os impactos ambientais e sociais das barragens”, disse Moran.

Uma das alternativas tecnológicas às usinas hidrelétricas em estudo pelos pesquisadores é a instalação de turbinas em linha, no leito ou submersas nos rios, que dispensam a necessidade de represamento da água.

A tecnologia poderia ser útil para a geração ininterrupta de energia para as comunidades ribeirinhas, a um custo baixo, e manteria a ecologia fluvial e não envolveria o reassentamento de comunidades e outros custos sociais das barragens.

“Essa solução poderia ser aplicada no país inteiro onde há rios pequenos, com água com velocidade de mais de um metro por segundo. Além disso, as turbinas também poderiam ser instaladas próximas de barragens para complementar a produção de energia e eliminar a necessidade de construir outras usinas”, disse o pesquisador.

O artigo Sustainable hydropower in the 21st century (doi: 10.1073/pnas.1809426115), de Emilio F. Moran, Maria Claudia Lopez, Nathan Moore, Norbert Müller e David W. Hyndman, pode ser lido na revista PNAS em www.pnas.org/content/early/2018/11/02/1809426115.

FONTE: http://agencia.fapesp.br/custos-sociais-e-ambientais-de-usinas-hidreletricas-sao-subestimados-aponta-estudo/29147/

As mudanças climáticas estão exacerbando os conflitos mundiais, afirma presidente da Cruz Vermelha

“É óbvio que parte da violência que estamos observando … está diretamente ligada às mudanças climáticas”, diz Peter Maurer.

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O presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Peter Maurer, disse que a migração em massa pode levar a tensões com as comunidades locais. Foto: Florent Vergnes / AFP / Getty Images

Por Helen Davidson para o “The Guardian” [1]

As  mudança climáticas já estão exacerbando conflitos domésticos e internacionais, e os governos devem tomar medidas para garantir que ela não piore, disse o chefe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Peter Maurer disse ao Guardian Australia que as mudanças climáticas já estão causando impacto e que as organizações humanitárias estão tendo que incluir esse aspecto em seu trabalho bem mais cedo do que esperavam.

“Em muitas partes do mundo onde trabalhamos, não é um compromisso distante”, disse ele.

“Quando penso em nosso envolvimento na África subsaariana, na Somália, em outros lugares do mundo, vejo que a mudança climática já teve um enorme impacto no movimento populacional, na fertilidade da terra. Está mudando a fronteira entre pastoral e agricultor.

Maurer, que estava na Austrália para falar sobre a natureza mutável do conflito moderno, disse que a preocupação com o impacto da mudança climática no Pacífico era “enorme”.

Ele disse que a mudança nos padrões de chuvas altera a fertilidade da terra e empurra as populações, que podem ter se estabelecido e subsistido em uma área por séculos, a migrar.

“É muito óbvio que algumas das violências que estamos observando … estão diretamente ligadas ao impacto da mudança climática e à mudança nos padrões de chuvas.”

No início deste mês, o Painel Climático das Nações Unidas, o IPCC, deu ao mundo apenas 12 anos para fazer as mudanças drásticas, mas necessárias.  Neste relatório, o IPCC afirma que as emissões teriam que ser reduzidas em 45% antes de 2030, para o aquecimento ficar restrito a 1,5ºC. A 1,5ºC, 10 milhões de pessoas a menos seriam afetadas pelo aumento do nível do mar, e a proporção da população mundial exposta ao estresse hídrico poderia ser 50% menor. Um estudo de 2016, que examinou três décadas de dados, determinou que um aumento de 1C nas temperaturas em um país dependente da agricultura se correlacionou com um aumento de 5% na migração para outros países.

“Quando [as populações] começam a migrar em grandes números, isso leva a tensões entre as comunidades migrantes e as comunidades locais. Isso é muito visível em contextos como a República Centro-Africana, como o Mali e outros lugares ”, disse Maurer. Ele disse que cabe aos governos, não às organizações humanitários, desenvolver as políticas necessárias para lidar com as “causas profundas” da mudança climática. “Como membro de uma organização humanitária, estou acostumado a decisões políticas… nunca [sendo] tão rápido quanto esperamos, ou tão generoso ou grande, mas é encorajador um número cada vez maior reconhecer a importância da questão e estar tomando medidas para reduzir a impacto da mudança climática em nosso habitat – o Acordo de Paris é um importante passo adiante ”, disse ele.

“Nós esperamos que a comunidade internacional em breve tome as medidas necessárias, de modo que no final do dia elas não terão que pagar aumentando os impactos humanitários que, mais uma vez, já vemos em outros conflitos.” Donald Trump falou pouco sobre o relatório do IPCC, já tendo prometido retirar os EUA do Acordo de Paris.

Isso dificultou as coisas para todos, disse o ministro do Meio Ambiente da Noruega, Ola Elvestuen, no mês passado, mas ainda pediu que os países façam a transição para se afastar dos combustíveis fósseis, abracem os carros elétricos e acabem com o desmatamento.

O governo australiano rejeitou amplamente o relatório do IPCC e suas recomendações – que incluíam a rápida eliminação do carvão – bem como os apelos das nações das ilhas do Pacífico.

A Austrália não tem uma política formal de energia ou mudança climática, e o governo da coalizão chegou a um ponto de partida para sair do Acordo de Paris. Deputados e ministros sustentam que a Austrália está no caminho certo para atingir as metas de redução de emissões, apesar dos números oficiais do governo sobre emissões que sugerem que a Austrália não irá, de acordo com projeções atuais. No domingo, o tesoureiro e ex-ministro da Energia da Austrália, Josh Frydenberg, rejeitou a sugestão de que seu governo repensasse suas políticas. Ele disse que o governo não pretende “reduzir as emissões à custa das contas de energia das pessoas”.

Anote Tong, ex-presidente de Kiribati, esteve na Austrália esta semana defendendo a ação. “Não se trata do aumento marginal no preço ou da redução no preço da energia, é sobre vidas, é sobre o futuro”, disse ele ao Guardian Australia. Maurer disse que agora há mais pessoas deslocadas do que nunca, chegando a 70 milhões em todo o mundo. Dois terços são deslocados internamente, e a maioria daqueles que fugiram iria para um país vizinho. “No final do dia não há uma política única que permita de forma satisfatória uma resposta a estas questões, mas há várias coisas que podem ser feitas”, disse ele.

Artigo publicado originalmente em inglês [Aqui!]

As mudanças climáticas farão com que o próximo colapso econômico global seja o pior

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As nuvens de tempestade estão se acumulando, mas as economias do mundo agora têm muito menos abrigos contra o desastre do que em 1929.

Por Larry Elliott para o “The Guardian” [1]

No final do mês passado, a Indonésia foi atingida por um terremoto e um tsunami devastadores que deixaram milhares de pessoas mortas e desaparecidas. Nesta semana, o Fundo Monetário Internacional chegou ao país para realizar sua reunião anual na ilha de Bali. No dia em que o FMI emitiu um alerta sobre os problemas da economia global, o último relatório do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas disse que o mundo tem apenas uma dúzia de anos para tomar as medidas necessárias para evitar uma catástrofe em função do aquecimento global. A mensagem é clara para aqueles que estão dispostos a ouvi-la: prepare-se para uma época em que o fracasso econômico se combina com o colapso ecológico para criar a tempestade perfeita. Mesmo sem a complicação adicional da mudança climática, o desafio enfrentado pelos ministros das Finanças e pelos governadores dos bancos centrais reunidos em Bali seria significativo o suficiente. O FMI cortou sua previsão de crescimento global, mas as chances são de que o próximo ano seja muito pior do que o previsto atualmente. Os riscos, diz o FMI, são desviados para baixo. E você pode apostar que eles serão.

Aqui está uma breve lista de problemas. Nos últimos 10 anos, a economia mundial tem sobrevivido com uma dieta de baixas taxas de juros e criação de dinheiro pelos bancos centrais, mas esse estímulo está sendo gradualmente retirado. Nos Estados Unidos, o crescimento econômico foi acelerado pelos cortes de impostos de Donald Trump para indivíduos e empresas, mas apenas temporariamente. O impacto começará a desvanecer-se no próximo ano, à medida em que taxas de juros mais altas começarem a castigar os tomadores de empréstimos. Trump já está criticando o Federal Reserve, o banco central dos EUA, por aumentar os custos dos empréstimos.

Na Europa, uma disputa colossal está se formando entre o governo populista da Itália e os defensores das políticas fiscais conservadores da Comissão Européia porque o orçamento proposto por Roma é totalmente contrário às regras fiscais da União Européia. As autoridades em Bruxelas estão mais preocupadas com a Itália do que com o Brexit e com boas razões. Os bancos da Itália estão cheios de dívidas incobráveis ​​e não conseguirão sobreviver ao tipo de crise financeira que parece estar no horizonte. É um país muito maior que a Grécia e grande demais para a Europa resgatar se o pior acontecer.

O impasse entre Roma e Bruxelas está acontecendo enquanto a taxa de crescimento da Europa começa a desacelerar. Uma razão é que suas economias voltadas para a exportação já estão sendo prejudicadas pelas escaramuças iniciais na guerra comercial de Trump. Como o FMI observou esta semana, o protecionismo é um risco fundamental para o crescimento global. A China, a segunda maior economia do mundo, sempre foi a principal meta da Trump, e foi afetada pelas novas tarifas dos EUA, já que a economia doméstica já estava desacelerando. Em outros lugares, nos últimos meses, o FMI foi convocado para ajudar a Argentina, houve uma corrida pela lira turca e a inflação na Venezuela ameaça atingir os níveis do estilo alemão de Weimar. Em tempos melhores, a Venezuela, rica em petróleo, poderia estar bem posicionada para se beneficiar do aumento do preço do petróleo bruto, que está se aproximando de US $ 100 por barril. Toda grande recessão na economia global foi prefigurada por um salto no custo do petróleo bruto, o que torna um tanto curioso que os preços das ações em Wall Street sejam tão altos. Tradicionalmente, os mercados acionários antecipam problemas, mas o humor atualmente é descartar taxas de juros mais altas, o aumento dos preços do petróleo, a Itália e as guerras comerciais como de alguma forma sem importância. Sinistramente, o próximo ano é o 90º aniversário da Wall Street Crash. A Grande Depressão que se seguiu ao colapso do mercado levou a um novo pensamento econômico. Gerou políticas de pleno emprego, aumentou os gastos com assistência social e um novo conjunto de organizações multilaterais.

Adiante o relógio para 2018 e os paralelos são óbvios. A cooperação internacional desmoronou, o fracasso econômico prejudicou os principais partidos políticos e a crença na mão invisível do livre mercado foi abalada. Mas a ameaça representada pelo aquecimento global significa que a atual crise do capitalismo é mais aguda do que a da década de 1930, porque tudo o que era realmente necessário era um impulso ao crescimento, proporcionado pelo New Deal, dinheiro barato, controles mais rígidos sobre finanças e rearmamento.

No contexto de hoje, uma estratégia simples de expansão para o crescimento seria suicida. Mesmo assim, há países que estão preparados para se auto-imolar suas economias em busca do crescimento a todo custo. Os EUA é uma delas. A Austrália parece ser outra. No outro extremo do espectro estão aqueles que dizem que haverá um futuro para o planeta somente se a idéia de crescimento for abandonada por completo. Politicamente, isso sempre foi difícil de vender, e se tornou ainda mais difícil agora que as populações do ocidente vivenciaram uma década inteira de simplificação dos padrões de vida. 

No mundo em desenvolvimento, o problema tem sido pouco crescimento, e não muito. Enfrentar o crescimento da população global é algo óbvio do ponto de vista da mudança climática, e a maior parte do aumento projetado vem de países de baixa renda, principalmente na África. A razão é simples: famílias pobres têm mais filhos. As taxas de natalidade caem à medida que os países se tornam mais ricos.

Entre os dois extremos estão aqueles que pensam que o círculo pode ser quadrado pelo crescimento livre de carbono, possibilitado pela dramática queda no custo das energias renováveis. A tecnologia irá para o resgate, eles insistem. Isso parece uma opção gratuita (ou pelo menos relativamente barata), e é por isso que quase todos os políticos falam francamente sobre o crescimento verde. Mas então eles agem de forma a dificultar o alcance das metas de aquecimento global – construindo novas estradas e expandindo os aeroportos. E sempre pelo mesmo motivo: porque isso será bom para o crescimento. Isso é chamado de abordagem equilibrada, mas não é nada disso. Se o IPCC estiver perto de estar certo sobre o seu cronograma, é vital acelerar a transição de combustíveis fósseis para renováveis. Isso pode ser feito? Um dos ganhadores do prêmio Nobel de Economia deste ano – William Nordhaus – diz que pode, se os formuladores de políticas levarem a sério um imposto de carbono alto o suficiente para precificar o petróleo, o carvão e o gás do mercado. 

Aqui, porém, o colapso da cooperação internacional e da confiança se torna realmente prejudicial. Idealmente, as instituições globais existentes – o FMI, o Banco Mundial, a ONU e a Organização Mundial do Comércio – seriam complementadas por uma nova Organização Mundial do Meio Ambiente, com o poder de cobrar um imposto sobre carbono globalmente. Mesmo na ausência de um novo corpo, eles estariam trabalhando juntos para enfrentar a inevitável oposição à mudança do lobby dos combustíveis fósseis. 

Em vez disso, a resposta às mudanças climáticas parece similar à resposta à crise financeira: não reconhecer que há um problema até que seja tarde demais; pânico; em seguida, atravesse. Essa é uma perspectiva séria.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]

Pesquisadores apontam que a Terra está a caminho de alcançar estado “estufa”

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Enquanto no Brasil vivemos um período pré-eleitoral onde a totalidade dos candidatos, incluindo a “ambientalista” Marina Silva, está evitando a temática ambiental como  o diabo foge da cruz, a mídia corporativa mundial está repercutindo a publicação de um artigo publicado na prestigiosa revista “Proceedings of of the National Academy of Sciences of the United States of America” onde os pesquisadores analisaram os riscos associados aos feedbacks do sistema climático terrestre que pode levar nosso planeta a uma região de não retorno ao bom clima que tivemos no Holoceno [1]. E as manchetes não são nada boas, como pode se observar abaixo.

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É que no artigo, os pesquisadores ute a trajetória para o chamado “Hothouse Earth”, onde o clima é destabilizado de modo critico, a ponto de se transformar numa verdadeira estufa. Os  chamados tipping points (literalmente pontos de transbordamento ou de não retorno) estão na figura abaixo, e os impactos do que está ocorrendo em termos de destruição dos biomas existentes Amazonia foi incluído.

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Um das afirmações mais contudentes no artigo é de que a ultrapassagem de determinado limiar de mudança causaria uma mudança ainda maior na temperatura média da Terra do que o experimentado em qualquer período interglacial nos últimos 1,2 milhões de anos e uma elevação nos níveis dos mares maior do que o experimentado em qualquer momento no Holoceno.

Em outras palavras, a ação requerida para evitar estas mudanças drásticas no funcionamento do sistema climático da Terra é urgentíssima. Resta saber se haverá quem queira seguir o que a ciência está apontando. Me parece que se observarmos a cena política mundial, a hipótese é que a ciência será ignorada.  E que se estrepem as futuras gerações e a biodiversidade do nosso planeta.


[1] http://www.pnas.org/content/early/2018/07/31/1810141115