A “Trumpização” das políticas ambientais terá efeitos drásticos para o Brasil, a começar pela sua combalida economia

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A “Trumpização” da agenda ambiental brasileira trará múltiplos riscvos para a economia nacional. 

Os primeiros dias do governo Bolsonaro evidenciaram uma espécie de “Trumpização” da agenda ambiental no Brasil, a começar pelas questões relacionadas às mudanças climáticas, às ações contra o desmatamento e à proteção das comunidades indígenas. Como bem mostrou o jornalista Maurício Tuffani no site “Direto da Ciência“, várias medidas sinalizaram um enfraquecimento das estruturas de “comando e controle” das estruturas governamentais que haviam sido criadas para tratar desses assuntos estratégicos para o estabelecimento de um mínimo de governança ambiental no país que contém a maior extensão de florestas tropicais do planeta [1].

Por detrás dessa guinada estão interesses econômicos de diferentes atores para os quais a existência de estruturas que permitiram avanços na proteção de biomas florestais e povos originários são um impecilho para o saque das riquezas existentes no território brasileiro. E por isso que se está enfraquecendo o Ministério do Meio Ambiente e se deslocou a FUNAI para o interior do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. 

Antecipo que em breve serão dirigidos ataques aos segmentos da comunidade científica brasileira que têm oferecido valiosas contribuições para o entendimento das mudanças climáticas e do processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Esses cientistas, muitos deles de grande reconhecimento internacional, estarão sob ataque por representarem barreiras objetivas ao pensamento anti-científico que guia o desmanche que está sendo operado nas estruturas de governança ambiental.

Por isso considero importante que se leia  entrevista concedida por Katharine Hayhoe,  cientista atmosférica e diretora do Centro de Ciências Climáticas da Texas Tech Univers A doutora Hayhoe contribui em mais de 125 artigos científicos e ganhou vários prêmios por seu trabalho de comunicação científica. Em 2018, ela contribuiu para a produção do relatório “Avaliação do Clima Nacional dos EUA”, tendo ainda recebido o Prêmio Stephen H Schneider de excelente comunicação sobre ciência climática [2].

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Os bombeiros observam as chamas subirem a encosta de uma colina em Guinda, Califórnia, em julho de 2018. Foto: Josh Edelson / AFP / Getty Images

Pois bem, em sua entrevista, Katherine Hayhoe ofereceu uma síntese bem prática para os negacionistas das mudanças climáticas quando usou a afirmativa de “um termometro não é nem liberal nem conservador” para criticar os que hoje usam táticas diversionistas para negar as mudanças climáticas em vez de iniciar um debate sério sobre as consequências das mesmas.  

Neste sentido, as ações do governo Bolsonaro para desmantelar as estruturas existentes para a proteção do ambiente trazem ainda o mesmo discurso anti-científico que foi adotado pelo governo Trump para atender os interesses das corporações que lucram com os combustíveis e fazer uma espécie de congelamento das ações que haviam sido estabelecidas pelos EUA para tratar das mudanças climáticas.

Entretanto, há que se lembrar mais uma vez que a pior coisa que o Brasil pode fazer é “Trumpizar” a sua agenda ambiental, retirando-se, por exemplo, do Acordo Climático de Paris. É que, como o boicote convocado em editorial pelo jornal estadunidense “The Washigton Post” certamente será apenas o primeiro caso as tendências surgidas nos primeiros dias do governo Bolsonaro sejam cristalizadas e aprofundadas [3].  Como o Brasil depende hoje diretamente das suas exportações de commodities agrícolas e minerais, a tentação de imitar o governo Trump certamente trará consequências drásticas para a economia brasileira.

 

 

Mudanças climáticas: estudo diz que riscos do ‘efeito dominó’ dos pontos de inflexão são maiores do que tradicionalmente se acredita

Cientistas alertam os políticos para não ignorar os links, e enfatizam que “toda ação conta”

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Quando o gelo ártico derrete, menos luz solar é refletida, o que aumenta a temperatura global e aumenta o risco de incêndios florestais. Foto: Mario Tama /Getty Images

Por Jonathan Watts para o jornal “The Guardian” [1]

Os formuladores de políticas subestimaram severamente os riscos dos pontos de inflexão ecológicos, de acordo com um estudo que mostra que 45% de todos os possíveis colapsos ambientais estão interrelacionados e podem se ampliar mutuamente.

Os autores disseram que seu artigo, publicado na revista Science, destaca como os sistemas naturais sobrecarregados e sobrepostos se combinam para gerar um número crescente de surpresas indesejáveis.

“Os riscos são maiores do que o suposto porque as interações são mais dinâmicas”, disse Juan Rocha, do Centro de Resiliência de Estocolmo. “A mensagem importante é reconhecer a gravidade do problema que a humanidade enfrenta.”

O estudo reuniu pesquisas existentes sobre transições de ecossistemas que podem irreversivelmente virar para outro estado, como o branqueamento de corais e a invasão de algas, as florestas se transformando em savanas e camadas de gelo derretendo nos oceanos. Em seguida, ele cruzou os 30 tipos de mudanças para examinar os impactos que elas poderiam ter um sobre o outro e sobre a sociedade humana.

Apenas 19% das mudanças verificadas foram totalmente isoladas. Outros 36% compartilharam uma causa comum, mas provavelmente não interagiram. Os 45% restantes tinham o potencial de criar um efeito dominó unidirecional ou feedbacks reforçados mutuamente.

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A destruição de recifes de corais pode enfraquecer as defesas costeiras e expor as florestas de mangue a danos. Foto: Greg Torda / Centro de Excelência ARC para Estudos de Recifes de Coral

Entre os últimos casos de combinação entre efeitos das mudanças climáticas estão os lençóis de gelo do Ártico e as florestas boreais. Quando o primeiro derrete, há menos gelo para refletir o calor do sol, de modo que a temperatura do planeta aumenta. Isso aumenta os riscos de incêndios florestais, que descarregam carbono no ar que aumenta o efeito estufa, que derrete mais gelo. Embora geograficamente distantes, cada um amplifica o outro.

Por outro lado, um impacto unidirecional do tipo dominó é aquele entre recifes de corais e florestas de mangue. Quando os primeiros são destruídos, enfraquece as defesas costeiras e expõe mangues a tempestades e ondas oceânicas.

O desmatamento da Amazônia é responsável por múltiplos “efeitos em cascata” – enfraquecendo os sistemas de chuva, as florestas tornando-se savanas e reduzindo o suprimento de água para cidades como São Paulo e culturas no sopé dos Andes. Isso, por sua vez, aumenta a pressão por mais desmatamento.

Até recentemente, o estudo dos pontos de inflexão era controverso, mas é cada vez mais aceito como uma explicação para as mudanças climáticas que estão acontecendo com mais velocidade e ferocidade do que os modelos computacionais anteriores previam. A perda de recifes de corais e o gelo marinho do Ártico já pode estar além do ponto de não retorno. Há sinais de que a Antártica está seguindo o mesmo caminho mais rápido do que se pensava.

O co-autor Garry Peterson disse que o depósito de gelo na Antártica ocidental não estava no radar de muitos cientistas 10 anos atrás, mas agora havia provas contundentes dos riscos – incluindo perdas de pedaços de gelo do tamanho de Nova York – e alguns estudos agora sugerem que o ponto de inflexão já pode ter sido passado pelo manto de gelo do sul, que pode agora liberar carbono na atmosfera.

“Estamos surpresos com a taxa de mudança no sistema da Terra. Tanta coisa está acontecendo ao mesmo tempo e em uma velocidade maior do que poderíamos pensar 20 anos atrás. Isso é uma preocupação real”, disse Peterson. “Estamos indo cada vez mais rápido para a beira de um precipício.”

A quarta pesquisa acadêmica mais baixada de 2018 foi o artigo Hothouse Earth, que considerou como os pontos de inflexão poderiam se combinar para levar o clima global a um estado inabitável [2].

Os autores do novo artigo dizem que seu trabalho vai além dos estudos climáticos, mapeando uma ampla gama de pontos de estresse ecológico, como a perda de biodiversidade, a expansão agrícola, a urbanização e a erosão do solo. Também se concentra mais no que está acontecendo no nível local agora, ao invés de projetar tendências geo-planetárias no futuro.

“Estamos vendo coisas que afetam as pessoas em suas vidas diárias. São coisas que estão acontecendo hoje”, disse Peterson. “Há uma mensagem positiva, pois amplia o leque de opções de ação. Não é apenas a nível internacional. Os prefeitos também podem fazer a diferença, abordando a erosão do solo, ou implementando políticas sociais que causem menos estresse ao meio ambiente ou construindo defesas costeiras naturais”.

Rocha passou 10 anos construindo um banco de dados de pontos de inflexão, ou “mudanças de regime”, como ele os chama. Ele insta os formuladores de políticas a adotarem uma abordagem interdisciplinar semelhante para que possam entender melhor o que está acontecendo.

“Estamos tentando conectar os pontos entre diferentes comunidades de pesquisa”, disse Rocha. “Os governos também precisam olhar mais para as interações. Eles devem parar de compartimentar os ministérios como a agricultura, a pesca e as relações internacionais e tentar administrar os problemas ambientais abraçando a diversidade de causas e mecanismos subjacentes a eles. As políticas precisam corresponder à escala do problema.

“É um pouco deprimente saber que não estamos em uma trajetória para manter nosso ecossistema em um estado funcional, mas essas conexões também são motivo de esperança; uma boa gestão em um só lugar pode prevenir a degradação ambiental grave em outros lugares. Cada ação conta.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]


[2] https://www.pnas.org/content/115/33/8252

Chile substitui Brasil como sede da Conferência Climática da ONU de 2019

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Presidente do Chile, Sebastián Piñera, cujo governo decidiu sediar a Conferência Climática da ONU de 2019, após a desistência do Brasil sob o comando do presidente eleito Jair Bolsonaro.

A agência Reuters divulgou ontem (14/12) que o governo do Chile, liderado por Sebástian Piñera, resolveu assumir a condução da edição da Conferência do Clima da ONU que ocorrerá em 2019 (a chamada COP25), um desdobramento da retirada da oferta do Brasil de sediar o evento, o que prova que em política raramente espaços deixados em aberto fcam muito tempo nessa condição [1]. A Reuters indica ainda que “a retirada do Brasil se deu em função da pressão feita pelo presidente eleito de extrema-direita” (ver imagem abaixo).

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Apesar da matéria da Reuters ser curta, ela é cheia de mensagens que deveriam ser cuidadosamente interpretadas (mas que certamente não serão) pelos membros do futuro governo brasileiro. O primeiro é que fica evidente que o debate em torno da formulação de políticas internacionais em torno da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas vão continuar a despeito dos desejos de determinados governantes.  A razão para isso é simples: as mudanças climáticas estão acontecendo e seus efeitos econômicos e políticos já estão sendo devastadores.  Em função, governos que se alijarem de ocupar papéis centrais neste debate acabarão sendo ignorados na hora de definir metas e punições por não cumprí-las. 

Em segundo lugar, o governo de Piñera que segue uma cartilha neoliberal não hesitou em ocupar o lugar do Brasil porque seus membros já entenderam essa situação básica da geopolítica internacional da governança climática. E, ao contrário de Jair Bolsonaro, Sebastián Piñera optou por participar como jogador ativo do debate em vez de ceder para as ideias descabidas de que as mudanças climáticas não passam de um complô de comunistas para favorecer o governo da China.

Um terceiro elemento que aparece de forma discreta, mas será essencial nas relações comerciais do Brasil nos próximos anos é a caracterização dada pela Reuters ao presidente eleito ao lhe carimbar o rótulo de “extrema direita”.   A questão é que já existe uma extrema má vontade em muitos países que consomem os produtos do agronegócio brasileiro com a figura de Jair Bolsonaro. Ao rotulá-lo de extrema direita, a Reuters oficializa esse pré-julgamento, o que deverá criar ainda mais embaraços para os negociadores brasileiros que irão tentar em vários encontros, a começar pelo encontro anual em Davos, de que a coisa não é bem assim com Jair Bolsonaro, além de tornar corrente a noção de que o Brasil caiu nas mãos de alguém que, por ser de extrema direita, representa um perigo não apenas para os brasileiros, mas para o resto do mundo [2].

De toda forma, o fato é que não basta o desejo de se ignorar grandes temáticas como a das mudanças climáticas para que elas percam a sua relevância.  Uma demonstração disso foi o evento organizado em Londres nesta semana pelo ex-prefeito da cidade de Nova York e bilionário, Michel Bloomberg,  para discutir a importância das mudanças climáticas sobre a sociedade humana, mas também sobre os negócios, com um foco específico sobre a busca de soluções [3].  Este tipo de movimento feitos por um bilionário com grande influência política é uma demonstração de que quem decidir ficar em segundo plano neste debate tenderá a ser ignorado na definição das metas políticas.

E como eu já tenho dito.  Se o governo Bolsonaro mantiver as linhas gerais ditadas por pessoas como os seus ministros de Relações Exteriores e Meio Ambiente, o mais provável é que o Brasil se torne um pária nos debates de cunho ambiental, o que evidentemente atingirá um setor que hoje se tornou estratégico para a balança comercial brasileira. É que certamente haverá pressão contra a compra de commodities agrícolas e minerais cuja produção tenha contribuído para a aceleração das mudanças climáticas e não o contrário.


[1] http://news.trust.org/item/20181214192643-5i5tu

[2]https://news.mongabay.com/2018/12/cop24-will-they-stay-or-will-they-go-brazils-threat-to-leave-paris/

[3] https://www.bloomberg.org/press/releases/bloomberg-philanthropies-vanity-fair-host-first-joint-climate-exchange-highlight-human-impact-climate-change/

 

Ricardo Salles, um ministro à altura da agenda reacionária do governo Bolsonaro

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Ricardo Salles quando era secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo e tentava explicar alterações em mapas que favoreciam interesses privados. Foto: Giovana Girardi/Estadão

O anúncio do que o advogado Ricardo Salles, líder do movimento “Endireita Brasil”, para ser o novo ministro do Meio Ambiente deixou muita gente alarmada, dada a passagem turbulenta (e pela qual responde por ações de improbidade administrativa) que ele teve pela congênere estadual em São Paulo no governo de Geraldo Alckmin, do qual teve de sair pelas portas do fundo por ter comandado uma manipulação de mapas de manejo ambiental do rio Tietê [1&2].

Em minha modesta opinião, essa indicação apenas reforça o caráter reacionário que o governo Bolsonaro terá em várias frentes altamente sensíveis, sendo que a do meio ambiente é apenas uma delas. Além disso, Ricardo Salles parece o homem indicado para fazer o tipo de trabalho que o próximo governo acha que poderá fazer à revelia do resto do planeta. Afinal, que maior credencial para ser ministro de Bolsonaro do que a propaganda eleitoral da fracassada campanha para deputado federal que Salles realizou sugerindo o uso de balas .30 para matar javalis, esquerdistas e membros do MST? (ver imagem abaixo)

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As primeiras declarações de Salles reforçam que ele está disposto a tornar o seu ministério numa espécie de franquia dos interesses dos latifundiários e dos interessados em ampliar o saque aos ecossistemas naturais dos quais o Brasil deveria ser o principal interessado em preservar, mas objetivamente nunca foi.

Primeiro, Ricardo Salles declarou que a questão das mudanças climáticas não serão uma questão prioritária para o próximo governo [3], exatamente quando está sendo realizada a 24a. edição da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 24) em Katowice na Polônia. Além de dizer que as mudanças climáticas não serão prioridade política sob o governo Bolsonaro, ele tampouco disse que essa discussão crucial (inclusive em termos de comércio internacional) terá prioridade alguma.

Segundo, Ricardo Salles disse que os números explosivos do desmatamento no território nacional (e em especial na Amazônia Legal) não dizem “toda a verdade”, seja qual ela for.  Salles ainda experimentou uma justificativa para essa afirmação dizendo que “É preciso ver em que área foi feita e se não corresponde aos 20% que o proprietário tem por lei para desmatar em uma área privada” [4]. Ele apenas omitiu o fato de que parte significativa ocorreu em terras públicas ou devolutas, o que efetivamente faz desmoronar essa tentativa de contemporarizar o grave problema que o crescimento desenfreado do desmatamento representa para o Brasil e, por extensão, para o resto do mundo.

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Em julho deste ano, Salles visitou a cidade de Pratânia, no estado de São Paulo. Lá, participou de um churrasco de chão, no qual vários porcos estavam empalados inteiros, assando. Salles filmou a cena e tirou um sarro dos veganos na legenda da publicação no Instagram: “Churrasco vegano de Pratânia.” – disse o futuro ministro (confira aqui).

Aos que se sentiram alarmados pela escolha de Ricardo Salles, a minha sugestão é que se preparem para se engajar em formas concretas de combater as práticas que ele certamente adotará para desmontar a legislação ambiental e os órgãos que existem para fazê-la valer.  É que seu “tracking record” em São Paulo mostra que ele não hesita em agir como lei e órgãos ambientais fossem estorvos à causa maior da apropriação privada desregulada dos recursos naturais. Por isso, qualquer espaço livre que seja dado à Ricardo Salles representará mais degradação ambiental e mais risco para as populações que dependem diretamente da integridade dos ecossistemas naturais para sua reprodução social.


[1] https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,secretario-alterou-manejo-no-entorno-do-tiete-para-favorecer-industria-aponta-investigacao,70001699671

[2[ https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/09/politica/1544379683_286039.html

[3] https://blogdacidadania.com.br/2018/12/mudancas-climaticas-serao-secundarias-no-novo-governo/

[4] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/12/10/ministro-diz-que-numeros-do-desmatamento-nao-revelam-toda-a-verdade.htm

Mudanças climáticas, uma realidade perigosa

É o que acredita a maioria dos habitantes dos EUA (eleitores republicanos inclusos)

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Uma pesquisa realizada pela Monmouth University mostra que a maioria dos habitantes dos EUA (78% dos entrevistados, ou seja quase 8 em cada 10 estadunidenses) acredita que as mudanças climáticas estão de fato ocorrendo, e 54% delas  pensam que elas representam um problema sério para a Humanidade [1].

A pesquisa mostra ainda que até entre os eleitores do Partido Republicano do presidente Donald Trump, a maioria (54%)  acredita que as mudanças climáticas estão de fato ocorrendo, o que vem a ser uma mudança significativa já que esse segmento é normalmente composto por céticos.

O predomínio entre os estadunidenses de que as mudanças climáticas estão ocorrendo e representam um sério problema para a Humanidade não cria apenas embaraços para Donald Trump, mas também para o futuro chanceler brasileiro, o cético embaixador Ernesto Araújo, que atribui a uma trama comunista a ideia de que a Terra está passando por uma mudança climática [2].  

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Ernesto Araújo, à direita, foi indicado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, à esquerda, para ser o principal diplomata do Brasil. Sua nomeação poderia minar o papel de liderança do Brasil na mudança climática. Foto: Sergio Lima / AFP /

Essa posição cria ainda embaraços sérios para o Brasil que acabou de se desresponsabilizar da realização da 25a. edição da Conferência Climática da ONU em 2019 (a chamada COP25) [3]. É que se até entre o eleitorado dos republicanos há uma maioria que considera as mudanças climáticas um fato da realidade, como justificar que o país que possui a maior extensão de florestas tropicais possa assumir a retórica de que tudo não passa de uma trama comunista como sugere o futuro ministro de Relações Exteriores?

Falando na Conferência Climática da ONU que começou em Katowice, a COP24, é interessante o pessoal do Observatório do Clima que está participando do evento, principalmente em termos das medidas objetivas que o Brasil e seu futuro governo deveriam adotar a partir de 2019 [4].

De toda forma, há que se ver ainda o que acontecerá nos EUA a partir da tomada da Câmara  de Representantes pelo Partido Democrata. É que quando se trata das mudanças climáticas, os democratas são ainda mais firmes em reconhecer que estamos passando por uma importância no clima da Terra.


[1] https://www.monmouth.edu/polling-institute/documents/monmouthpoll_us_112918.pdf/

[2] https://blogdopedlowski.com/2018/11/15/the-guardian-novo-ministro-das-relacoes-exteriores-do-brasil-acredita-que-mudanca-climatica-e-uma-trama-marxista/

[3] https://blogdopedlowski.com/2018/11/28/sob-a-lideranca-de-bolsonaro-brasil-renega-organizar-conferencia-climatica-da-onu/

[4] http://www.observatoriodoclima.eco.br/nossas-expectativas-para-cop24/

 

Decisão do Brasil de não sediar reunião climática causa mal-estar diplomático

Na ONU, anúncio foi interpretado como um sinal da direção do governo Bolsonaro em assuntos ambientais

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ONU procura alternativa após desistência do Brasil Foto: AFP PHOTO / Jewel SAMAD

Por Jamil Chade, Correspondente do “O ESTADO DE SÃO PAULO

GENEBRA – A decisão do Brasil de não mais sediar a COP-25 em 2019 cria um mal-estar diplomático, obrigando a ONU a se apressar para procurar um novo lugar disposto a receber o evento e abrindo uma crise com parceiros que haviam dado seu apoio a Brasília. O presidente eleito Jair Bolsonaro disse que atuou diretamente na retirada da candidatura

Estado apurou que estava tudo planejado para que a entidade internacional chancelasse a conferência no País durante a reunião da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês) que ocorre a partir de segunda-feira, na Polônia e onde estarão 50 chefes-de-estado, chamada de COP-24. Não havia sequer outro candidato, diante de um acordo que foi costurado em diversas capitais. 

Mas, com a retirada da proposta brasileira, a entidade passou a se mobilizar para encontrar uma solução, enquanto governos estrangeiros não disfarçam a irritação com a postura do Brasil. 

Ninguém na entidade acredita, porém, que a decisão de cancelar a COP-25 tenha uma relação com a questão orçamentária, como indicou o governo brasileiro. “Esse é um sinal do que poderá ser a política de meio ambiente do novo governo brasileiro”, indicou um membro de alto escalão da entidade, na condição de anonimato.

“Tradicionalmente, todos sabem que o Brasil mantém uma prática diplomática de manter seus compromissos internacionais”, disse outra fonte. “Essa decisão é uma ruptura na postura do País”, lamentou.

Oficialmente, a candidatura do Brasil não era apenas um projeto nacional. O País, no fundo, representava a América Latina e havia sido escolhido pela região para receber o evento. Agora, os governos latino-americanos estão sendo obrigados a se reunir de forma emergencial para buscar uma solução e um país que possa receber o evento. 

“É uma pena essa decisão do Brasil”, comentou um diplomata latino-americano.

“Passamos meses debatendo o assunto e, justamente para que tivéssemos tempo, já escolhemos o Brasil há meses para que fosse a única candidatura. Agora, de última hora, Brasília cede ao novo governo e nos deixa na mão”, criticou, pedindo para não ser identificado e visivelmente irritado. 

A América Latina terá agora apenas dez dias para convencer algum governo da região a receber o evento, fazer os planos e apresenta-los aos demais países, o que de fato exige uma ampla infra-estrutura, preparações e recursos. Caso nenhum latino-americano se apresente, a ONU então terá de recuperar o evento e organizar a reunião em sua sede para assuntos climáticos, em Bonn. 

Essa eventual decisão, porém, fará com que a América Latina fique sem o encontro por anos, já que ele continuaria a ser sediado ao redor do mundo e respeitando uma rotatividade entre continentes.  

Oficialmente, a UNFCCC adotou um tom técnico ao comentar a decisão. “Sediar a COP é um compromisso logístico e financeiro significativo”, disse o vice-secretário-executivo da entidade, Ovais Sarmad. “A oportunidade de servir de sede respeita uma rotação entre os cinco grupos regionais”, explicou. “É a vez do Grupo da América Latina e Caribe (Grulac) a sediar a conferência em 2019”, disse.

“A secretaria da UNFCCC recebeu uma carta do Grulac apresentando a oferta do Brasil para sediar a conferência no ano que vem. Tal oferta teria sido aceita pelas partes na COP-24 em Katowice. Fomos recentemente informados que o Brasil está retirando a oferta”, afirmou Sarmad.

“O próximo passo será a discussão entre membros do Grulac se outro país na região é capaz de oferecer a ser sede da COP25”, alertou. “Se essa oferta não vier, então a conferência em 2019 será realizada na sede da secretaria da UNFCCC”, completou. 

Em Bonn, o Estado apurou que a decisão foi interpretada como um sinal da política que será adotada durante o governo de Jair Bolsonaro e vista com temor. A lógica é de que se o País que detém a maior floresta tropical do planeta não está disposto a apoiar as metas para combater as mudanças climáticas, o “efeito dominó” pode ser importante. 

“Países que hesitavam poderão usar o Brasil como um escudo conveniente e mudar de posição”, alertou um experiente negociador europeu. Poucos, porém, acreditaram na versão dada pelo governo de que o cancelamento tinha uma lógica de redução de gastos públicos. 

Para um diplomata, receber um evento como esse colocaria sobre o Brasil o foco da imprensa internacional sobre o que está sendo feito em termos de proteção à floresta e como o País enfrenta a questão das mudanças climáticas. “Nesse sentido, não nos foi uma surpresa que o governo Bolsonaro não queira falar do assunto”, disse. 

O encontro no Brasil já estava consolidada na agenda internacional. Em outubro, na ONU em Nova York, mais de 70 países em desenvolvimento tinham acertado o apoio à candidatura do Brasil ao evento.

FONTE: https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,decisao-do-brasil-de-nao-sediar-reuniao-climatica-causa-mal-estar-diplomatico,70002625646

Sistema global de alimentos está quebrado, dizem academias científicas do mundo

Reforma radical na agricultura e no consumo, com menos consumo de carne, é necessária para evitar a fome e a catástrofe climática

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Uma família cozinhando em meio a enchentes em Lalmonirhat, Bangladesh, 2017. Fotografia: Zakir Chowdhury / Barcroft Images

Por Damian Carrington, editor Ambiental do “The Guardian” [1]

O sistema alimentar global está quebrado, deixando bilhões de pessoas subnutridas ou acima do peso e levando o planeta à catástrofe climática, de acordo com 130 academias nacionais de ciência e medicina em todo o mundo.

Fornecer uma dieta saudável, acessível e ambientalmente amigável para todas as pessoas exigirá uma transformação radical do sistema, diz o relatório da InterAcademy Partnership (IAP). Isso dependerá de melhores métodos agrícolas, nações ricas consumindo menos carne e países que valorizem alimentos que sejam mais nutritivos do que baratos.

O relatório, que foi revisado por pares e levou três anos para compilar, define a escala dos problemas, bem como as soluções baseadas em evidências.

O sistema alimentar global é responsável por um terço de todas as emissões de gases com efeito de estufa, o que é mais do que todas as emissões dos transportes, aquecimento, iluminação e ar condicionado combinados. O aquecimento global que isso está causando, agora está prejudicando a produção de alimentos por meio de eventos climáticos extremos, como inundações e secas.  

O sistema alimentar também não nutre corretamente bilhões de pessoas. Mais de 820 milhões de pessoas passaram fome no ano passado, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, enquanto um terço das pessoas não obtinha vitaminas suficientes. Ao mesmo tempo, 600 milhões de pessoas foram classificadas como obesas e 2 bilhões acima do peso, com sérias consequências para sua saúde. Além disso, mais de 1 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada a cada ano, um terço do total produzido. 

“O sistema alimentar global está quebrado”, disse Tim Benton, professor de ecologia populacional da Universidade de Leeds, que é membro de um dos grupos editoriais especialistas que produziu o relatório. Ele disse que o custo dos danos à saúde humana e ao meio ambiente é muito maior do que os lucros obtidos pela indústria agrícola. 

“Se você olhar para isso de uma perspectiva de saúde humana, ambiental ou climática, nosso sistema alimentar é atualmente insustentável e dado os desafios que virão de uma população global em ascensão que é realmente uma coisa séria a dizer”, disse Benton. 

Reduzir o consumo de carne e produtos lácteos é a única maneira de os indivíduos reduzirem seu impacto no planeta, de acordo com uma pesquisa recente. E combater o perigoso aquecimento global é considerado impossível sem reduções maciças no consumo de carne.  

Pesquisas publicadas na revista Climate Policy mostram que, no ritmo atual, o gado e outros animais serão responsáveis por metade das emissões mundiais de gases de efeito estufa até 2030, e que para evitar isso serão necessárias “reduções substanciais, muito além do planejado ou realístico. , de outros setores ”.  “É vital [para um planeta habitável] mudar nossa relação com a carne, especialmente com carne vermelha. Mas nenhum especialista nesta área está dizendo que o mundo deveria ser vegano ou mesmo vegetariano ”, disse Benton.  

Criar gado e outros animais gera as mesmas emissões de carbono que todos os veículos, trens, navios e aviões do mundo juntos. “Passamos de 30 a 40 anos investindo bastante na eficiência de combustível no setor de transporte”, disse Benton. “Precisamos fazer algo similarmente radical no setor agrícola e a possibilidade de fazer isso mudando a maneira como criamos os animais é muito menor do que o escopo que temos ao mudar nossas dietas.”

O relatório do IAP observa que, nos países mais pobres, carne, ovos e laticínios podem ser importantes no fornecimento de nutrientes concentrados, especialmente para crianças. Ele também diz que outras coisas que o gado pode fornecer devem ser levadas em consideração, como couro, lã, esterco, transporte e tração de arados. 

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Jawaida, 12, (esquerda) e sua amiga em Mpati, província de Kivu do Norte, República Democrática do Congo, onde o Conselho Norueguês de Refugiados está ajudando pessoas deslocadas por conflitos. Foto: Christian Jepsen / NRC

A conferência das Mudanças Climáticas da ONU, a COP24, que começa no domingo em Katowice, na Polônia, é uma oportunidade para ação política, disse Joachim von Braun, professor que co-preside o projeto do IAP. “Nossos sistemas alimentares estão falhando conosco. A agricultura e as escolhas do consumidor são os principais fatores que levam a mudanças climáticas desastrosas ”. 

Outro membro do grupo editorial do IAP, Aifric O’Sullivan, da University College Dublin, disse: “Precisamos garantir que os formuladores de políticas informem os consumidores sobre os impactos climáticos de suas escolhas alimentares, forneçam incentivos para que os consumidores mudem suas dietas e reduzam os alimentos. perda e desperdício. ” 

O relatório recomenda muitas ações que poderiam ajudar a fornecer a “transformação de raiz e filiais em grande escala” que é necessária, disse Benton. Estes incluem culturas que são mais resistentes às mudanças climáticas, rotação de culturas mais inteligente, proteção do solo, uso mais preciso de fertilizantes e menor uso de pesticidas. Também apoia a inovação, como carne cultivada em laboratório e alimentos à base de insetos.


Texto originalmente em inglês pelo “The Guardian [1