Enquanto Salles e Araújo negam as mudanças climáticas, o derretimento do Ártico supere os piores cenários

climate-change-sirens-and-solutionsDerretimento acelerado do gelo tem nos Ursos Polares as primeiras vítimas, mas eles não são as únicas.

Enquanto no Brasil se vive o resultado de termos negacionistas das mudanças climáticas em postos chaves de governo (vide os exemplos do ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e Meio Ambiente, Ricardo Salles), os fatos constatados científicamente demonstram que as mudanças climáticas estão acelerando processos que apontam para a subestimação até dos piores cenários estimados pela comunidade científica.

O artigo abaixo produzido pelo site informativo Axios mostra que o derretimento do gelo no polo Norte está ocorrendo de forma muito mais rápida do que o estimado pelos cientistas do clima.  Como a matéria aponta, o derretimento do gelo do Ártico trará consequências drásticas para o clima do hemisfério Norte. 

O problema é que a mesma tendência das calotas de gelo em ritmo de “overdrive” também está sendo detectada na Antártida.  Se isso se confirmar não apenas teremos processos semelhantes ocorrendo no hemisfério Sul, como teremos a provável sinergia entre Norte e Sul, com resultados imprevisíveis para o clima de todo o planeta.

Enquanto isso no Brasil, graças à postura dos negacionistas do clima encrustrados no governo Bolsonaro, dos quais Araújo e Salles são apenas as faces mais visíveis, a destruição das florestas amazônicas e do Cerrado continua também em ritmo de “overdrive”, comprometendo o ciclo de chuvas de todo o Brasil.

 

O derretimento do Ártico entre em ritmo super acelerado

derretimento ártico

Extensão do gelo combinado nos mares de Chukchie Beaufort, 1979 a 2019

Por Andrew Freedman

No início deste ano, vimos o desaparecimento sem precedentes do gelo marinho do Mar de Bering durante uma época do ano em que ele deveria estar ganhando gelo. Essa tendência de queda do gelo marinho no Ártico do Alasca e do Canadá continua, desta vez centrada nos mares de Chukchi e Beaufort.

Por que é importante: a perda de gelo do mar está prejudicando o equilíbrio do calor no Hemisfério Norte, e está repercutindo nos ecossistemas, causando desde florescências de plâncton perto da superfície do Oceano Ártico até  a presença de massas de morsas na Rússia e no Alasca. Também pode estar afetando os padrões climáticos em todo o Hemisfério Norte.

A grande figura: em todo o Ártico, a extensão do gelo marinho está em um recorde de baixa para este ponto no ano, e dependendo das condições climáticas durante o verão, é possível que 2019 possa estabelecer um novo recorde de baixa extensão de gelo.

  • A baixa recorde do gelo do mar de todos os tempos foi estabelecida em 2012, embora os anos subsequentes tenham quase superado essa marca.
  • Até agora, as condições climáticas também favoreceram o início precoce da estação de degelo do gelo da Groenlândia, e o gelo derretido ali, ao contrário do desaparecimento do gelo marinho, contribui para a elevação global do nível do mar.
  • A porção da Groenlândia que está experimentando o derretimento do gelo bateu um recorde para a data de 13 de junho, com a temperatura subindo para quase congelar na Summit Station, no centro do manto de gelo.
  • O Ártico está aquecendo em mais que o dobro da taxa do resto do mundo.

O que eles estão dizendo?

  • “No momento, você pode navegar ininterruptamente do Pacífico Norte para o Ártico Canadense”, diz Zack Labe, cientista do clima e Ph.D. candidato na Universidade da Califórnia, Irvine.
  • “O Ártico é um regulador do clima do Hemisfério Norte, e enquanto o gelo que está derretendo agora não vai afetar se você terá uma tempestade amanhã, no longo prazo, isso terá efeitos profundos no seu clima e no clima.” a estrada que você terá que agir, goste ou não “, diz Rick Thoman, da Universidade do Alasca em Fairbanks.

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Este artigo sobre o derretimento do Ártico foi originalmente publicado em inglês pelo site de notícias Axios [Aqui!].

A proteção climática está sendo corroída na Amazônia brasileira

amazoniaO governo brasileiro está  se esforçando para reduzir as políticas ambiental e agora está visando o Fundo Amazônia – um projeto climático de sucesso que também foi criado com fundos da Alemanha.

Uma contribuição de convidado por Adriana Ramos para o “Frankfurt Allgemeine”

Durante anos, o Brasil conseguiu fortalecer sua política ambiental, graças ao apoio internacional e alemão, reduzindo significativamente o ritmo do desmatamento na floresta amazônica.

Entre 2004 e 2009, a taxa anual de desmatamento foi reduzida em 73%. O reconhecimento desses esforços pelos governos norueguês e alemão levou à criação do Fundo Amazônia em 2008. O princípio básico do fundo: quanto mais dióxido de carbono o Brasil economiza com a conservação da floresta, maiores serão os valores a serem pagos no longo prazo. prazo pelos doadores. O Brasil se comprometeu a realocar esses fundos para a proteção das florestas.

O Fundo Amazônia é uma conquista da sociedade brasileira e se baseia nos esforços empreendidos desde 2004 no Plano de Ação de Desmatamento da Amazônia, que visava reduzir o desmatamento e promover o uso sustentável da floresta tropical. A ideia básica do plano era incluir não apenas autoridades ambientais, mas todas as políticas do setor governamental e a sociedade como um todo no combate às causas do desmatamento.

A participação de instalações de pesquisa e organizações não-governamentais com experiência em sensoriamento remoto e conhecimento no local tem sido importante na calibragem e refino do monitoramento do desmatamento, que é operado pelo Instituto Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Como resultado, a dinâmica do desmatamento poderia ser melhor avaliada e as ações realizadas de maneira mais direcionada. Os resultados são inegáveis: entre 2004 e 2009, a taxa anual de desmatamento diminuiu de 27.800 km2 para 7.500 km2.

Ataques ao fundo

O Fundo Amazônia administrado pelo BNDES financia projetos de estados da Amazônia, autoridades ambientais, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e povos indígenas. Cerca de 60% dos fundos foram investidos em projetos federais e estaduais até o momento.

Nos últimos anos, o fundo foi atacado por setores que se opõem à agenda da sustentabilidade. Em 2017, uma comissão parlamentar de inquérito voltou sua atenção para a demarcação de áreas indígenas e a reforma agrária. Ao fazê-lo, o uso correto dos fundos foi questionado. No entanto, a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União confirmou a implementação satisfatória do Fundo Amazônia.

No entanto, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou uma revisão de todos os projetos do fundo como parte de sua estratégia para reduzir a política ambiental brasileira. Salles agora está atacando as ONGs e o Fundo Amazônia, alegando preocupação com o uso adequado dos recursos. De fato, ele não tem nenhum interesse na luta contra o desmatamento.

Oponentes do desmatamento são enfraquecidos

O ministro solicitou todos os documentos do projeto e simulou um procedimento de auditoria sem envolver os órgãos de supervisão e sem submeter critérios. Com alusões e calúnias, ele atacou organizações da sociedade civil. Em uma conferência de imprensa, no entanto, ele teve que reconhecer que a auditoria era a tarefa das autoridades de supervisão.

Os ataques têm sistema. Isso permitirá que o governo enfraqueça todas as iniciativas para combater o desmatamento. O Ministério do Meio Ambiente, originalmente destinado a ser dissolvido pelo Presidente Bolsonaro, atualmente não tem uma política nem uma estratégia de redução do desmatamento. O plano de sucesso que levou ao estabelecimento do Fundo Amazônia, assim como os Departamentos de Manejo Florestal Sustentável e Mudança Climática, foram retirados do organograma do ministério. No momento, não está claro qual entidade governamental será responsável pelos compromissos do Brasil de reduzir o desmatamento sob o Acordo de Paris.

Governo Bolsonaro desagrada comitê de direção

O ministro Ricardo Salles também não gosta da estrutura de governança do fundo. Uma condição estabelecida pelos doadores nas negociações com o governo brasileiro foi considerar a diversidade dos atores sociais envolvidos na estrutura de governança do Fundo. O objetivo era garantir uma discussão participativa sobre critérios de financiamento, prioridades e diretrizes, e evitar que o Fundo preenchesse os déficits orçamentários públicos. Como resultado, foi criado um Comitê Gestor, liderado pelo Ministério do Meio Ambiente e composto por representantes do governo federal, dos estados, do setor privado, da ciência e da sociedade civil, cada um com um assento para os povos indígenas, pequenos agricultores e ONGs.

Seguindo uma diretriz do governo Bolsonaro para reduzir sua participação nos assuntos sociais, o ministro Salles está atualmente tentando restringir a participação da sociedade civil no comitê gestor do Fundo Amazônia. O objetivo é facilitar o financiamento de projetos que o governo considera prioritários sem ter que negociar com outras partes interessadas.

Isso inclui o pagamento de indenização aos proprietários de terras cujas terras estão localizadas em áreas protegidas, financiamento que é contrário às regras do fundo. Agora, o governo pretende aprovar um decreto que alterará as regras de financiamento e a composição do Comitê Diretor.

Isso torna cada vez mais claro que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que não pode apresentar uma política para combater o desmatamento, ainda quer decidir unilateralmente quais recursos do instrumento financeiro internacional devem ser usados ​​para fortalecer uma política inexistente.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Frankfurt Allgemeine” [Aqui!].

O desmanche da governança ambiental pelo governo Bolsonaro será desastroso para a economia brasileira, mas este é o menor dos problemas

jair bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro e seus ministros agem para desmantelar a governança ambiental e as proteções que foram estabelecidas ao longo de décadas de luta em defesa do meio ambiente. 

A escalada que está sendo empreendida pelo governo Bolsonaro traz tantas más notícias ao mesmo tempo que chega a difícil enumerá-las ou dizer qual das medidas é pior para o Brasil, a começar por sua economia cada vez mais dependente da exportação de commodities agrícolas minerais.

A lista inclui o sucateamento e a perda de autonomia de ação de órgãos vitais para a aplicação das leis ambientais como o IBAMA e o ICMBIO, o desmantelamento do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), a tentativa de utilizar os recursos do Fundo Amazônia para premiar grileiros de terras públicas, a aprovação em massa de agrotóxicos altamente tóxicos e muitos já banidos em outras partes do mundo, e a tentativa de impor a fórceps as crenças negacionistas  em torno das mudanças climáticas que hoje afetam a Terra. Há ainda a tentativa de desfigurar o Código Florestal para beneficiar 4% dos proprietários rurais que se negam a cumprir a lei no tocante à recomposição de áreas desmatadas irregularmente.

Quando postas juntas todas essas medidas aparecem como o que são, ou seja, o cumprimento de promessas eleitorais que foram feitas durante a campanha eleitoral de 2018 pelo agora presidente Jair Bolsonaro aos setores mais retrógrados dos setores que controlam a agricultura brasileira, arriscando inclusive alienar aqueles que dentro do setor querem manter uma aparência de responsabilidade para garantir acessos a mercados onde existem padrões mínimos de preocupação com a manutenção dos ecossistemas naturais da Terra e com a vida dos povos indígenas.

Por isso, se enganam os que dentro ou fora do governo Bolsonaro que o Brasil tem uma espécie de passe livre para desmatar, poluir e descumprir acordos internacionais, sem que isso tenha consequências sobre a nossa economia, especialmente os segmentos envolvidos na exportação de commodities. É que ao contrário de alguns ministros saudosistas de tempos mais plúmbeos, não estamos mais na década de 1970.

Não sou ingênuo em achar que eventuais restrições às commodities brasileiras por causa do desmantelamento da nossa governança ambiental vá se dar porque os governos dos países centrais estejam voluntariamente comprometidos com uma pauta que una crescimento econômico com sustentabilidade ambiental. A verdade é que a maioria não está. O problema é que onde o sistema de controles está minimamente estabelecido, a União Europeia, por exemplo, os governos são obrigados a levar em conta o que a comunidade científica e, especialmente, as populações estão dizendo sobre a necessidade de não se naufragar o planeta em um jogo sem volta na área ambiental.  A demonstração disso foi o avanço significativo dos partidos Verdes nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

E como estamos mais frágeis como atores na cena política mundial a partir da completa subalternização aos interesses do governo de Donald Trump, um dos passos mais prováveis que serão executados contra o Brasil será o boicote aos nossos produtos agrícolas e minerais.

Mas pior que o cerco econômico será o político. É que, ao contrário do que deseja o presidente Donald Trump e seu vassalo que ocupa atualmente o Palácio do Planalto, o mundo hoje está cada vez mais alicerçado em estruturas multilaterais e que possuem fortes impactos sobre a circulação de bens, pessoas e recursos de capitais. Disto decorre a possibilidade de que o Brasil sofra um processo de isolamento político que o país nunca conheceu em sua história.

Mas como alguém me lembrou durante uma palestra que ministrei na Universidade de Helsinki no final do ano passado, a reação principal a esse ataque virulento à governança ambiental que foi construída com muito suor e sangue tem de vir de dentro do Brasil, até para ampliar as pressões que podem vir de fora.  E razões para enfrentar a agenda de desmantelamento  da nossa governança ambiental do governo Bolsonaro que está sendo executada aos trancos e barrancos pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Tereza Cristina (Agricultura) são bem palpáveis e com resultados imediatos.

A tarefa principal que se coloca neste momento é organizar a ação de associações científicas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e sindicatos em prol da defesa das estruturas de proteção ambiental e, principalmente, daqueles que estão na linha de frente de combate às regressões que estão sendo impostas pelo governo Bolsonaro.  Esse será um passo inicial fundamental para que não tenhamos que lamentar a destruição não apenas de estruturas de governança, mas também de nossos rios e florestas e dos povos que nelas vivem.

Por causa do governo Bolsonaro, rede europeia de organizações sociais age para impedir acordo da União Europeia com o Mercosul

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ASeattle to Brussels Network” (S2B), uma rede de organizações de mulheres e agricultores, sindicatos, movimentos sociais e institutos de pesquisa,  foi formada após a Reunião Ministerial de Seattle, em 1999, da Organização Mundial do Comércio (OMC), para desafiar a agenda comercial da União Européia e dos governos europeus. Desde então, a S2B vem se desenvolvendo também como uma resposta à crescente necessidade de coordenação europeia entre organizações da sociedade civil.

Entre as múltiplas atividades realizadas pela S2B está a ação em rede para pressionar os órgãos diretivos da União Europeia para que assumam determinadas posições políticas visando impedir a continuidade de práticas escusas ou mesmo do estabelecimento de acordos de cooperação com outros países e blocos comerciais.

Pois bem, neste momento a S2B está realizando uma campanha de coleta de assinaturas para pressionar a União Europeia a não assinar um acordo com o Mercosul por causa do que seus dirigentes consideram ser um padrão de violações que está sendo cometido pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. Entre outras coisas, a S2B aponta para os seguintes aspectos:

  • A demarcação de terras indígenas foi colocada sob a jurisdição do Ministério da Agricultura, abrindo o caminho para que  grupos agropecuários poderosos ligados à monucultura da soja e à pecuária acelerem sua expansão dentro da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e do Cerrado, a savana mais biodiversa do mundo.
  • Houve um aumento dramático nos ataques a povos indígenas, outras comunidades tradicionais e seus territórios. Em fevereiro, pelo menos 14 territórios indígenas protegidos foram atacados por invasores. Além disso, o governo aboliu mais de 35 conselhos nacionais de participação social. Ataques a pessoas que defendem seus territórios ou recursos naturais estão em ascensão no Brasil rural, resultando no aumento das mortes de líderes comunitários, camponeses e ativistas.
  • A promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro de “acabar com qualquer forma de ativismo” foi implementada em seu primeiro dia no cargo, capacitando o governo a “supervisionar, coordenar, monitorar e observar as atividades e ações de agências internacionais e organizações não-governamentais dentro do território nacional”.
  • Tanto o Ministério do Meio Ambiente quanto o Ministério das Relações Exteriores são agora liderados por negadores do aquecimento global, levando à abolição dos departamentos responsáveis ​​pelas mudanças climáticas. Mesmo que o Brasil continue sendo signatário do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, está se tornando improvável que a administração tome as medidas necessárias para implementar o acordo.
  • A legislação e as políticas socioambientais foram drasticamente enfraquecidas durante os primeiros 100 dias do novo governo. O Código Florestal foi prejudicado com novas medidas que propõem a redução das reservas legais e um prazo mais flexível para a regularização fundiária por proprietários de terras. Em janeiro de 2019, o desmatamento na Amazônia aumentou 54% em relação ao mesmo período de 2018.

Em função das questões todas, a carta que a S2B está circulando para obter adesões de organizações em todo o mundo demanda que a União Europeia deve:

  • Interromper imediatamente as negociações para um acordo de livre comércio UE-Mercosul.
  • Garantir que nenhum produto brasileiro vendido na UE, nem os mercados financeiros que os sustentam, estão levando a aumentos no desmatamento, grilagem de terras nativas ou violações de direitos humanos.
  • Exigir confirmação, com evidências materiais, de que o governo brasileiro cumprirá seus compromissos como parte do Acordo de Paris sobre Mudança do Clima.
  • Aumentar o apoio à sociedade civil brasileira, incluindo o fortalecimento da implementação do Plano de Ação da UE sobre Direitos Humanos e Democracia e consultas pró-ativas com organizações da sociedade civil brasileira que tratam dos direitos humanos e do funcionamento democrático da sociedade civil brasileira.
  • Monitorar e responder às violações dos direitos humanos – incluindo a investigação de casos desde a eleição de Bolsonaro – e fortalecer mecanismos para proteger os defensores dos direitos humanos. Para os que estão em maior risco, incluindo os povos indígenas e os defensores do ambiente, a UE deve prestar apoio direto e urgente sempre que necessário, inclusive através de representações políticas.

Como nas eleições do Parlamento Europeu que terminaram no último domingo (26/05) tiveram como efetivo vencedores uma série de partidos Verdes, principalmente os da Alemanha e os dos países escandinavos, é muito provável que essa campanha da S2B encontra mais eco dentro desse e dos outros órgãos diretivos que são alvos desta carta.

Por isso, se os ministros que estão nas pastas citadas no documento da S2B achavam que a vida está difícil, acho melhor que se preparem para tempos ainda mais tensos, especialmente a ministra Tereza Cristina (Agricultura), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). Já sabendo do “naipe” desses ministros, as chances do governo Bolsonaro fazer frente a mais esse desdobramento político decorrente das políticas que estão sendo aplicadas desde janeiro me parecem, no mínimo, escassas.

Quem desejar ter acesso à integra do documento da S2B, basta clicar [Aqui!]

 

 

Com medo de críticas, Ricardo Salles cancela evento sobre mudanças climáticas na Bahia

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Ricardo Salles posa de valente com servidores do IBAMA e ICMBio, mas foge do embate de ideias como o diabo foge da cruz.

Como figuras importantes do ministério formado pelo presidente Jair Bolsonaro estão no time dos “negacionistas climáticos“, não chega a ser surpreendente que mais uma atividade organizada pela ONU,  um evento regional da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), tenha sido cancelada pelo dublê de ministro e agroboy, Ricardo Salles.  

É que mesmo antes de sua posse, o presidente Bolsonaro Antes pediu ao então presidente de facto, Michel Temer, que cancelasse a Conferência do Clima que estava programada para dezembro no Brasil.  E que por conta disso, a COP25 será realizada no Chile e não mais no nosso país.

O que mais me chama a atenção é a alegação usada por Ricardo Salles para cancelar o evento que estava sendo organizado pelo governo do estado da Bahia e pelo da cidade de Salvador.  É que segundo informa o site “Direto da Ciência”, o cancelamento se deveu pelo temor de que o evento serviria como “um foco gerador de protestos de ambientalistas contra sua gestão“.  E não contente em dar uma de fujão, Salles ainda atacou a validade da reunião afirmando que “não faria evento do clima na BA só para se ‘fazer turismo’ e ‘comer acarajé.

salles acarajé

Ora bolas, se esses são  realmente os motivos (além claro do perfil de negacionistas das mudanças climáticas) para o cancelamento de uma atividade que geraria pouco ou nenhum ônus para o governo federal e ainda atrairia um número significativo de pessoas que ajudariam a movimentar a economia local, Ricardo Salles está consolidando outro aspecto marcante do governo Bolsonaro, qual seja, o de fugir de embates de ideias em questões cruciais, inclusive para as relações comerciais, e ainda tentar dar uma de valente. É que essa não é a primeira “fuga” que se vê por parte de representantes de um governo que utiliza de discursos altamente belicosos para tentar resolver as paradas em que se envolvem. 

O pior é que mais essa saída à la Leão da Montanha do governo Bolsonaro ocorre em um momento em que a questão das mudanças climáticas vem mobilizando movimentos sociais e governos em todas as partes do mundo, sendo que pelo menos dois governos nacionais já declararam “emergências climáticas” (i.e., Reino Unido e Nova Zelândia) e outros tantos ameaçam seguir o mesmo caminho.

Deste modo, o que o governo Bolsonaro e seu antiministro do Meio Ambiente estão fazendo é nos colocar uma posição altamente delicada no tocante à proteção do meio ambiente, pois enquanto a maioria dos governos nacionais se move no sentido de enfrentar as consequências já visíveis das mudanças climáticas, o Brasil insiste em boicotar eventos em que estão sendo discutidas saídas multilaterais para os problemas decorrentes desse processo. Adivinhem que sairá perdendo.

O filho de Bolsonaro (Flávio) entendeu tudo errado em relação às mudanças climáticas

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Por Ignacio Amigo para a ClimaTracker.org

Flávio Bolsonaro, um dos filhos do presidente do Brasil, escreveu um artigo de opinião em que nega as mudanças climáticas. Assinado com um colega senador, Márcio Bittar, o texto é cheio de falsidades e mentiras descaradas. Nos parágrafos seguintes, vamos desmascarar algumas de suas alegações selvagens. Como eles não apóiam suas declarações com qualquer tipo de evidência, será a palavra deles contra a ciência.

“Sabe-se que a ideologia verde tem sido um paraíso para os esquerdistas de todos os tipos. Há um emaranhado complexo de grupos anticapitalistas defendendo a irracionalidade e gerando um falso consenso científico ”

A política verde não é, de modo algum, uma exclusividade da esquerda. O acordo de Paris foi assinado por governos de todos os tipos, da Venezuela à Arábia Saudita. Não há “falso consenso científico” em torno das mudanças climáticas, apenas consenso científico. Organizações científicas em todo o mundo e órgãos intergovernamentais concordam que o aquecimento global é real e está sendo causado pela ação humana. Você pode encontrar mais informações no site da NASA.

“O mais famoso e refutado [discurso apocalíptico] é que o aquecimento global é causado por humanos. Outros existiam: a preservação do mico-leão-dourado [um primata endêmico e ameaçado do Brasil], a destruição da camada de ozônio, o fim da biodiversidade, a superpopulação, a Amazônia como o pulmão do mundo, entre outras mentiras repetidas ”

Uma estratégia comum para espalhar notícias falsas é misturar fatos reais com mentiras. Mas este não é o caso. Aqui os autores simplesmente listam fatos bem estabelecidos e exemplos de sucesso e os chamam de “mentiras”.

O mico-leão-dourado estava quase extinto há 60 anos, devido ao desmatamento na Mata Atlântica do Brasil. Desde então, uma campanha de conservação de sucesso ajudou a espécie a sobreviver e o número de indivíduos aumentou substancialmente. Se você quiser ler mais sobre a história do mico-leão-dourado, você pode ler este estudo da Universidade de Utrecht.

A destruição da camada de ozônio é um fato bem documentado. Foi descrita pela primeira vez nos anos 70 por Payul Crutzen, Mario Molina e Sherwood Roland, que ganhou o Prêmio Nobel em 1995 por essas descobertas. A ciência é a seguinte: compostos presentes em aerossóis e refrigeradores chamados gases de clorofluorocarbonetos, se decompõem na estratosfera gerando cloro. As moléculas de cloro, por sua vez, reagem com as moléculas de ozônio, esgotando-as. Isso tem sérias conseqüências, porque as moléculas de ozônio absorvem radiações ultravioletas do sol que, entre outras coisas, causam câncer. Essas descobertas levaram ao Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio, adotado em 1987 por todos os países da ONU. Desde então, os níveis de ozono aumentaram. Erik Solheim, chefe da ONU para o Meio Ambiente, descreveu o protocolo como “um dos acordos multilaterais de maior sucesso na história”. Você pode aprender mais sobre a destruição do ozônio nesta peça da National Geographic.

A perda de biodiversidade é outra questão premente do nosso tempo. Muitos estudos científicos mostram que as taxas de extinção de espécies são maiores agora do que em estágios pré-humanos. Aqui está um exemplo de um estudo de 2014 publicado na Science: “As taxas atuais de extinção são cerca de 1000 vezes a taxa de fundo de extinção [taxa antes dos humanos]. Estes são mais elevados do que o estimado anteriormente e provavelmente ainda são subestimados ”.

A superpopulação também é real. O número de humanos na Terra aumentou três vezes mais entre 1900 e 2000 do que durante o resto da era humana. Embora os números sugiram que possamos estar perto de alcançar o pico, a população humana continuará a crescer nas próximas décadas. Isto tem várias implicações, especialmente considerando que as mudanças climáticas e a população humana estão inter-relacionadas e que as cidades continuarão a crescer à custa das áreas rurais. Confira este site para mais dados e fatos sobre a população humana.

Pode soar como um clichê, mas a floresta amazônica é o pulmão da Terra. É a maior floresta tropical do mundo. Libera uma parte substancial do oxigênio que respiramos e regula o ciclo da água na região.

“Eles até dizem que as florestas criam chuvas, desafiando o conhecimento bem estabelecido do ciclo da água: evaporação dos oceanos, lagos, rios (calor do sol), condensação (nuvens) e precipitação (chuvas). Há florestas densas porque há chuvas intensas ”

Embora seja verdade que as chuvas afetam as florestas, isso não significa que as florestas não afetam as chuvas. Por exemplo, as árvores são críticas para reter a água no solo. Sem árvores, as chuvas degradam o solo e a água cai. Um estudo publicado na Science em 2016 mostrou que a umidade do solo afeta os padrões de chuva. Outro estudo de 2017 publicado na PNAS mostra que o vapor de água das árvores na Amazônia desencadeia as chuvas que iniciam a estação chuvosa. Você pode ler sobre este estudo nesta peça chamada “Árvores na Amazônia fazem sua própria chuva”.

“Você só precisa pesquisar para saber que humanos podem mudar o clima local, mas não o clima global. Houve momentos em que a produção humana era pequena e o mundo era mais quente. Apesar do aumento nas emissões de CO2, dizem os cientistas, o mundo está passando por um resfriamento global ”

Conforme observado acima, há uma grande quantidade de pesquisas indicando que os seres humanos estão mudando o clima global. Você pode ler mais sobre isso nesta história da National Geographic. Os cinco anos mais quentes registrados são, nesta ordem, 2016, 2015, 2017, 2018 e 2014. Não há evidências que sugiram que o resfriamento global está ocorrendo e os fatos mostram exatamente o contrário.

“Está bem estabelecido que os grandes reguladores climáticos são o sol, os oceanos e os vulcões. Nada disso pode ser alcançado pela ação humana ”.

Os seres humanos estão mudando a atmosfera, que por sua vez tem um impacto sobre a radiação solar que atinge a Terra. Nós também estamos poluindo os oceanos e a mudança climática está piorando ainda mais. Erupções vulcânicas podem afetar o clima, mas os autores provavelmente estão exagerando sua importância.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela ClimateTracker [Aqui!]

O negacionismo climático de Ricardo Salle serve a interesses explícitos

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Ricardo Salles, mostrado ao lado da ministra Tereza Cristina em visita à área indígena onde ocorre cultivo ilegal de soja, associou Alemanha ao nazismo em reação a crítica de jornalista da Voz da Alemanha.

O ainda ministro (ou como diz o jornalista Bernardo Mello Franco, o antiministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vem repetindo uma afirmação que só pode decorrer de uma opção pelo desconhecimento ou, pior ainda, de cinismo frente ao conhecimento existente em relações às mudanças climáticas globais.  É que em uma de suas declarações sobre as mudanças climáticas, Ricardo Salles afirmou a seguinte pérola: ” o clima “deve ser tratado no âmbito da academia, pela … e o poder público, para ser eficienteprecisa “cuidar de problemas tangíveis“. 

O problema é que ao se posicionar de forma que claramente nega a importância das mudanças climáticas, o que Ricardo Salles está fazendo é propositalmente ignorar não apenas o que já estabelecido pela imensa maioria da comunidade científica que estuda o assunto, mas que os tais problemas tangíveis serão fortemente agravados com o estabelecimento de novos padrões climáticos que deverão ser marcados pela frequência de eventos atmosféricos de alta intensidade.  Um exemplo recente de como os mais pobres sofrerão efeitos desproporcionais das mudanças climáticas foi a passagem do ciclone Idai que devastou regiões inteiras de Moçambique, tendo causado centenas de mortes e a destruição de 500 mil hectares de plantações.

ciclone idai

Passagem do ciclone Idai causou forte destruição e grande número de perdas humanas na região central de Moçambique.

Mas a verdade é que para constatar problemas “tangíveis” associados aos novos padrões atmosféricos associados às mudanças climáticas Ricardo Salles não precisaria nem sair de Brasília. É que no dia de ontem (21/04), no dia do aniversário de Brasília, a região do Distrito Federal foi palco de uma tempestade que inundou rapidamente bairros após uma hora de duração. Entre as áreas mais afetadas está o campus da Universidade de Brasília (UNB) que fica bastante próximo da sede do Ministério do Meio Ambiente (ver vídeo abaixo mostrando a inundação de um auditório da UNB).

Assim, que ninguém se engane, o ainda ministro (ou antiministro) do Meio Ambiente não está dando de ombros para as evidências de que as mudanças climáticas são um fato real e que afetarão com mais dureza os mais pobres por falta de conhecimento ou de provas empíricas próximas de seus olhos. 

A questão é muito clara: Ricardo Salles nega a necessidade urgente do Brasil ter políticas que nos preparem para as inevitáveis catástrofes que se abaterão sobre o território nacional em função de novos padrões climáticos, os quais serão marcados por sua forte intensidade. Ricardo Salles opta por um discurso que, como eu já disse, oscila entre o desconhecimento e o cinismo, para garantir os interesses de quem o colocou em um cargo para o qual ele claramente não possui a devida capacitação.  E eu falo aqui das mineradoras e do latifúndio agro-exportador cujos líderes defendem abertamente a liquidação do sistema nacional de proteção ambiental, ainda que isto venha a ser obtido a um custo incalculável seja econômica ou socialmente. 

Como já escrevi várias vezes e já declarei em entrevista ao jornal português Diário de Notícias, estamos sob a égide de governantes  que são caracterizados por suas posturas acientíficas ou anticientíficas.  Mas é importante lembrar que o são assim por terem propósitos que vão de encontro à modelos de exploração econômica que não desprezam o conhecimento científico já estabelecido em torno das mudanças climáticas e seus efeitos. E sse é exatamente o caso de Ricardo Salles, o que torna a sua permanência no MMA um risco continuado ao meio ambiente e as instituições criadas para fazer o oposto do que deseja o ainda ministro do Meio Ambiente.