A atmosfera está carregando mais água — e isso significa extremos climáticos ainda mais perigosos

Recorde de vapor d’água registrado em agosto mostra como o aquecimento global e o fortalecimento do El Niño estão criando condições para chuvas mais intensas, tempestades mais energéticas e ondas de calor mais sufocantes

Uma matéria publicada pelo The Guardian traz um dado que ajuda a compreender por que a crise climática não pode ser reduzida simplesmente ao aumento das temperaturas médias. Em agosto de 2026, a atmosfera terrestre apresentou a maior quantidade de vapor d’água já registrada, segundo dados do Copernicus Climate Change Service (C3S). Foram 27,35 kg de água por metro quadrado na coluna atmosférica, superando o recorde anterior, de julho de 2024.

A diferença de apenas 0,04 kg/m² em relação ao recorde anterior parece pequena. Quando projetada para toda a atmosfera do planeta, porém, corresponde a aproximadamente 20 trilhões de litros adicionais de água. O mais importante não é apenas o recorde em si, mas aquilo que ele revela sobre o funcionamento de uma atmosfera progressivamente mais quente.  A relação física é conhecida: para cada grau Celsius de aquecimento, o ar pode conter aproximadamente 7% mais vapor d’água. Oceanos excepcionalmente quentes aumentam a evaporação e fornecem ainda mais umidade à atmosfera. Em agosto, esse mecanismo foi reforçado pelo fortalecimento do atual El Niño, especialmente sobre os oceanos tropicais.

O resultado é uma espécie de carregamento adicional do sistema climático. Quando essa enorme quantidade de água condensa, libera calor e fornece energia às tempestades. Isso cria condições para precipitações mais intensas e pode contribuir para o fortalecimento de ciclones. Não significa que choverá mais em todos os lugares ou permanentemente: significa que, quando determinadas condições atmosféricas produzirem chuva, existe potencial para eventos muito mais intensos.

O vapor d’água também agrava o outro extremo. Em períodos de calor intenso, a elevada umidade dificulta a evaporação do suor e reduz o resfriamento noturno, aumentando o estresse térmico sobre o organismo humano. Assim, a mesma atmosfera mais úmida que potencializa chuvas torrenciais pode tornar ondas de calor ainda mais perigosas, especialmente nas grandes cidades.

Existe ainda um mecanismo de retroalimentação particularmente preocupante. O vapor d’água é um gás de efeito estufa: o aumento de CO₂ e metano aquece o planeta; uma atmosfera mais quente comporta mais umidade; essa umidade adicional reforça o efeito estufa, contribuindo para um aquecimento ainda maior. Como ressaltam os pesquisadores ouvidos pelo Guardian, a causa inicial dessa espiral continua sendo o aumento das concentrações de gases de efeito estufa decorrente principalmente da queima de combustíveis fósseis.

O cenário se torna ainda mais preocupante porque esse recorde coincide com o desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente intenso, capaz de adicionar variabilidade natural a um planeta que já possui uma temperatura média muito mais elevada devido ao aquecimento antropogênico.  É justamente essa combinação que deveria receber atenção especial no Brasil. O dado do vapor d’água não permite prever onde ocorrerá a próxima enchente, seca ou onda de calor. Mas mostra que o sistema climático está acumulando condições capazes de amplificar os extremos.

Por isso, talvez a principal mensagem trazida por esse novo recorde seja bastante simples: não estamos apenas vivendo em um planeta mais quente. Estamos alterando a quantidade de energia e água que circula pela atmosfera. E quando um sistema climático mais quente encontra uma atmosfera carregada com níveis recordes de umidade, as consequências podem aparecer sob a forma de chuvas torrenciais, enchentes, tempestades mais intensas e calor úmido cada vez mais difícil de suportar.

A crise climática está, assim, mudando não apenas a temperatura do planeta, mas também a potência do seu ciclo hidrológico. E os eventos extremos que já estamos observando são um aviso bastante concreto do que isso significa.

Extremos climáticos avançam sobre uma Amazônia que os mapas de risco ainda não enxergavam

Estudo publicado na Communications Earth & Environment mostra que o aquecimento extremo cresce muito mais rapidamente do que as temperaturas médias e identifica uma nova região crítica no centro-norte da Amazônia

Um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, mostra que as mudanças climáticas na Amazônia são mais rápidas e territorialmente complexas do que indicam as médias anuais. O artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia” foi produzido por uma ampla equipe internacional e multidisciplinar. Jos Barlow, Nathália S. Carvalho e Cássio Alencar Nunes contribuíram igualmente e lideraram a redação, com a participação de dezenas de pesquisadores vinculados a instituições como INPE, IPAM, INPA, Embrapa, Museu Paraense Emílio Goeldi, Unicamp, UFAM, UFMT, Oxford, Lancaster, Exeter, Yale e NASA.

O principal mérito do trabalho está em deslocar o olhar das médias climáticas para os extremos, justamente as condições que produzem os efeitos sociais e ecológicos mais graves. A equipe analisou aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, divididos em cerca de 57,9 mil células com resolução de 11 quilômetros, utilizando dados de temperatura, precipitação, déficit de pressão de vapor e déficit hídrico acumulado entre 1981 e 2023. Os pesquisadores também consideraram as variações regionais do ano hidrológico e da duração dos períodos secos e úmidos.

Os resultados são alarmantes. Enquanto a temperatura média anual aumentou cerca de 0,21 °C por década, as temperaturas máximas extremas durante o período mais seco cresceram 0,49 °C por década. Isso representa aproximadamente 2,11 °C em 43 anos e uma velocidade de aquecimento mais de duas vezes superior àquela revelada pela tendência média anual.

O achado mais preocupante é territorial. A Amazônia meridional continua aparecendo como a região que mais aquece quando se observam as médias, sobretudo por causa do desmatamento e da degradação florestal. Entretanto, a análise dos extremos revelou uma extensa área crítica no centro-norte da Amazônia, até agora pouco destacada nos mapas de risco. Mais de 700 mil quilômetros quadrados registraram aumentos iguais ou superiores a 0,75 °C por década nas temperaturas máximas extremas da estação seca, o equivalente a mais de 3,2 °C durante o período analisado.

Essa região abriga florestas conservadas, savanas nativas, unidades de conservação e importantes territórios indígenas, incluindo áreas dos povos Yanomami e Waimiri-Atroari. Os efeitos dos extremos climáticos já aparecem na mortalidade de mamíferos, na redução de populações de aves, nas alterações das comunidades de peixes, na retração das superfícies aquáticas, nos incêndios em Roraima e nas florestas inundáveis do Rio Negro, além do agravamento da poluição atmosférica e das internações hospitalares em Manaus.

Outro resultado relevante é que o aumento do estresse hídrico está associado principalmente à elevação da temperatura, e não a uma redução generalizada das chuvas. Temperaturas maiores ampliam a demanda evaporativa da atmosfera e podem intensificar a perda de água pelo solo e pela vegetação. Assim, a floresta pode enfrentar condições progressivamente mais secas e inflamáveis mesmo sem uma diminuição proporcional da precipitação.

A equipe reconhece incertezas relacionadas às estimativas de evapotranspiração e às diferenças entre os bancos de dados de chuva. Entretanto, a retirada do episódio extremo de 2023-2024 reduziu a magnitude de algumas tendências sem alterar o padrão espacial principal. O centro-norte continuou concentrando os maiores aumentos das temperaturas extremas e do déficit hídrico, indicando uma transformação acumulada ao longo de mais de quatro décadas.

À luz do conceito de violência lenta elaborado por Rob Nixon, o estudo mostra como a crise climática se acumula em alterações graduais da temperatura, da umidade, da disponibilidade de água, da saúde humana e da sobrevivência das espécies. Os seus efeitos tornam-se visíveis em incêndios, secas e mortandades, mas suas causas permanecem dispersas no tempo e frequentemente distantes das populações atingidas.

A separação entre as principais frentes de desmatamento e a nova área de extremos climáticos também impede que a crise seja atribuída apenas a fatores locais. O desmatamento regional agrava o problema, mas as emissões globais têm papel decisivo. Os países ricos e grandes emissores históricos carregam, portanto, responsabilidade direta pela alteração das condições climáticas de territórios amazônicos que pouco contribuíram para produzi-la.

O artigo deixa uma advertência incontornável: olhar apenas para médias climáticas e mapas tradicionais de desmatamento significa enxergar uma parte cada vez menor do problema. Os extremos avançam mais rapidamente, alcançam territórios antes considerados menos ameaçados e produzem uma nova geografia do risco amazônico. Enquanto o debate público espera o desastre se tornar visível, a violência climática lenta continua preparando as condições para que ele aconteça.

A Terra entrou no modo autoforno: aquecimento pode gerar mais 0,4 °C até 2100

Estudo publicado na Environmental Research Letters mostra que o calor provocado pelas emissões humanas está ativando novas liberações de CO₂ e metano pela própria natureza

Um artigo publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Environmental Research Letters, da IOP Publishing, traz um alerta particularmente incômodo: as projeções climáticas podem estar subestimando o aquecimento futuro porque muitos modelos ainda não representam adequadamente as emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo próprio aumento da temperatura. Intitulado “Projected amplification of global warming by warming-induced greenhouse gas emissions”, o estudo foi produzido por Sam Abernethy, Danielle Monteverde, Christina Schädel, Brian Buma, Philip B. Duffy, Robert B. Jackson, Susan M. Natali, Ilissa Ocko, Brendan M. Rogers e Benjamin Poulter.

O mecanismo analisado é uma típica retroalimentação climática positiva. As atividades humanas emitem dióxido de carbono e metano, a concentração desses gases aquece o planeta e o aumento da temperatura, por sua vez, estimula novas emissões provenientes de fontes naturais. Entre elas estão o degelo do permafrost, as áreas úmidas, lagos e rios e os incêndios florestais. O sistema climático deixa, portanto, de funcionar apenas como receptor das emissões humanas e passa a amplificá-las.

Por outro lado, com base em estimativas produzidas por modelos de processos naturais em três cenários socioeconômicos — SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP4-6.0 —, a equipe calculou que as emissões de metano induzidas pelo aquecimento, considerando conjuntamente permafrost, áreas úmidas, águas continentais e incêndios, aumentam cerca de 97 milhões de toneladas por ano para cada grau adicional de aquecimento. No caso do dióxido de carbono liberado pelo permafrost e pelos incêndios, o acréscimo estimado chega a aproximadamente 7 bilhões de toneladas anuais por grau nos cenários intermediários analisados.

Ao incorporar essas emissões ao modelo climático MAGICC, os autores estimaram um acréscimo de 0,2 °C a 0,4 °C na temperatura global até 2100. Pode parecer pouco para quem ainda imagina a temperatura planetária como a regulagem doméstica de um aparelho de ar-condicionado, mas esse aumento representaria uma amplificação de 20% a 30% do aquecimento antropogênico posterior a 2020. Em um planeta que já se aproxima perigosamente dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, algumas frações de grau podem separar impactos graves de transformações potencialmente irreversíveis.

O trabalho também indica que dióxido de carbono e metano contribuiriam em proporções aproximadamente equivalentes para esse aquecimento adicional. Esse resultado reforça a importância de reduzir rapidamente as emissões de metano, cujo tempo de permanência na atmosfera é menor que o do CO₂, mas cujo poder de aquecimento é muito superior no curto prazo. Ao mesmo tempo, mostra que a redução do metano não substitui a necessidade de eliminar as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis.

As estimativas carregam incertezas expressivas: os autores calculam uma margem de aproximadamente 0,2 °C para o aquecimento adicional e uma faixa de 10 a 30 pontos percentuais para sua amplificação relativa. O estudo combina resultados de modelos de processos com um modelo climático simplificado, não constituindo uma previsão exata do que ocorrerá. Ainda assim, a incerteza não oferece conforto, pois funciona nos dois sentidos: o efeito real pode ser menor, mas também pode superar a estimativa central.

A principal mensagem do artigo é que os chamados “orçamentos de carbono” talvez estejam sendo tratados com uma precisão que não possuem. Se parte relevante das emissões naturais induzidas pelo aquecimento continua ausente dos modelos utilizados para estimar quanto ainda poderíamos emitir, então o espaço disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C ou mesmo de 2 °C pode ser menor do que se supõe.

O  artigo publicado na Environmental Research Letters desmonta definitivamente a confortável fantasia de que ainda dispomos de tempo para uma transição climática lenta, subordinada aos calendários eleitorais e às taxas de retorno dos investimentos. Quanto mais o aquecimento avança, maior se torna a possibilidade de que florestas, solos congelados, áreas úmidas e ambientes aquáticos liberem quantidades adicionais de gases de efeito estufa. Nesse processo, a demora não apenas acumula emissões humanas: ela fortalece mecanismos naturais capazes de tornar o controle do aquecimento ainda mais difícil, caro e incerto.

Flávio Bolsonaro e o negacionismo climático tosco em versão eleitoral

Ao tratar o aquecimento global como resultado de supostos ciclos naturais, candidato ignora uma das conclusões mais sólidas da ciência contemporânea

A resposta dada por Flávio Bolsonaro na sua entrevista ao Jornal Nacional sobre o aquecimento global merece atenção não apenas porque revela o que o candidato pensa sobre a crise climática, mas principalmente porque mostra como uma velha estratégia do negacionismo climático continua sendo utilizada no debate político brasileiro. Questionado diretamente sobre o tema, Flávio afirmou que existem eventos climáticos extremos e que há épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, acrescentando que não acredita que o aquecimento global tenha relação direta apenas com a influência humana. O problema é que, apresentada dessa maneira, a afirmação mistura uma verdade elementar com uma conclusão cientificamente equivocada.

É evidente que o clima da Terra possui variabilidade natural e que ao longo da história do planeta ocorreram períodos mais quentes e mais frios. A ciência climática nunca negou isso. Existem oscilações relacionadas à atividade solar, erupções vulcânicas, circulação oceânica e atmosférica e, em escalas muito mais longas, alterações orbitais. O que Flávio Bolsonaro deixa de explicar é justamente o ponto decisivo: esses mecanismos naturais não explicam o rápido aquecimento observado desde a Revolução Industrial, especialmente aquele ocorrido nas últimas décadas.

Sobre isso, o IPCC utiliza uma linguagem incomumente categórica para documentos científicos: é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os continentes. A melhor estimativa do aquecimento provocado pelas atividades humanas entre 1850–1900 e 2010–2019 é de aproximadamente 1,07 °C, enquanto a contribuição estimada dos fatores naturais, como variações solares e vulcanismo, ficou próxima de ±0,1 °C. Em outras palavras, reconhecer que existem ciclos naturais não constitui argumento contra a origem antropogênica do aquecimento atual. Os cientistas conhecem esses ciclos, medem seus efeitos e justamente por isso conseguem demonstrar que eles são insuficientes para explicar o que está acontecendo.

Há ainda outro problema na resposta do candidato. Flávio Bolsonaro reconhece a existência de eventos extremos — calor, chuva e seca —, mas procura separá-los do processo de aquecimento global. Essa separação também não encontra respaldo na literatura científica. O IPCC conclui que a mudança climática provocada pelas atividades humanas já está afetando eventos meteorológicos e climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas na maior parte das áreas continentais desde a década de 1950, enquanto há evidências crescentes da influência humana sobre chuvas extremas e determinados tipos de seca. Isso não significa, evidentemente, que cada enchente, seca ou onda de calor tenha como causa exclusiva o aquecimento global, mas significa que estamos alterando as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos acontecem, modificando sua probabilidade e, em muitos casos, sua intensidade.

Esse detalhe é particularmente importante quando quem oferece esse tipo de resposta pretende ocupar a Presidência da República de um país como o Brasil. Estamos falando de uma nação altamente vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, ao mesmo tempo em que possui cidades pouco preparadas para enfrentar esses fenômenos. Um presidente que parte de um diagnóstico errado sobre as causas da crise climática dificilmente terá condições de formular políticas adequadas de mitigação e adaptação.

Por isso, a resposta de Flávio Bolsonaro não deveria ser tratada simplesmente como uma opinião pessoal sobre um assunto em que cientistas ainda estariam divididos. Essa divisão praticamente não existe sobre a questão fundamental. Podemos e devemos discutir quais políticas adotar, quem deve pagar pela transição energética, como proteger populações vulneráveis, qual deve ser o papel dos combustíveis fósseis e como compatibilizar desenvolvimento econômico e redução das emissões. Mas continuar discutindo em 2026 se a humanidade é ou não responsável pelo atual aquecimento global equivale a deslocar o debate político para uma questão que a ciência já respondeu.

E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante da declaração. Diante de uma crise que exigirá do próximo governo brasileiro investimentos pesados em adaptação climática, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, proteção das florestas e transformação da matriz energética, um candidato à Presidência da República oferece como diagnóstico a velha explicação de que o clima sempre mudou. Sim, sempre mudou. A diferença é que agora sabemos muito bem por que ele está mudando tão rapidamente — e também sabemos quem está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera.

Para quem quiser entender melhor sobre o assunto que o candidato Flávio Bolsonaro preferiu negar de forma tosca, sugiro assistir a live que foi realizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física com os pesquisadores Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Roberto Verdum e que está disponível no canal do Youtube do GENAT/UFPB (Aqui!)

 

A “live” do El Niño para assistir, distribuir e guardar

Posto abaixo o vídeo da live organizada pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), transmitida ontem pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A atividade reuniu os pesquisadores Paulo Artaxo (USP), Luciana Gatti (INPE) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os mecanismos responsáveis pelo El Niño, as possíveis relações desse fenômeno com o aquecimento da atmosfera terrestre e os efeitos diretos dos eventos meteorológicos extremos associados tanto ao El Niño quanto às mudanças climáticas.

As manifestações dos três pesquisadores, todos com sólida produção científica em suas respectivas áreas de atuação, combinaram conhecimento científico com reflexões sobre os impactos do modelo econômico vigente e sobre a maneira como a interação entre esses processos contribui para mudanças profundas no funcionamento dos sistemas naturais do planeta. Uma das consequências mais imediatas dessas transformações aparece nas alterações cada vez mais perceptíveis da dinâmica atmosférica e na intensificação de determinados eventos extremos.

Em conjunto, os três participantes demonstraram especial preocupação com a falta de preparação da sociedade e do poder público para o necessário processo de adaptação aos novos padrões climáticos. Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante do atual ciclo do El Niño, que deverá produzir impactos bastante diversos sobre a dinâmica climática, especialmente no território brasileiro. A ciência já oferece informações suficientes sobre os riscos envolvidos; o problema central passa, portanto, pela capacidade de transformar esse conhecimento em planejamento, prevenção e medidas concretas de adaptação.

 

A crise da água começa na bacia: por que mais barragens não garantirão segurança hídrica

O Rio Paraíba do Sul demonstra que a escassez de água não será superada apenas com novas obras de represamento. A recuperação da cobertura florestal, a proteção das áreas de recarga, a gestão integrada dos recursos hídricos e a adaptação às mudanças climáticas são condições indispensáveis para restabelecer o equilíbrio da bacia e reduzir a vulnerabilidade da zona costeira

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, com múltiplos usos da água, vem apresentando, ao longo de décadas, redução de suas vazões em decorrência da intensificação das captações e dos efeitos das mudanças climáticas. Eu sempre repito que o Rio Paraíba do Sul representa um sistema em desequilíbrio, cuja solução dificilmente será encontrada na construção de novas barragens, e reafirmo que esse é um modelo de pior hipótese para outras bacias. Os reservatórios regulam as vazões e o armazenamento de água durante períodos chuvosos; eles não aumentam a disponibilidade hídrica da bacia, mas apenas redistribuem no tempo um volume de água que já existe. Se a quantidade de água que entra na bacia está diminuindo e a demanda continua aumentando, novas barragens ampliam conflitos entre os diferentes usuários e aumentam as perdas por evaporação, especialmente em regiões de clima quente.

Outro aspecto frequentemente negligenciado nas discussões sobre segurança hídrica é a profunda alteração da cobertura vegetal original da bacia. A supressão de grande parte da Mata Atlântica ao longo dos últimos séculos comprometeu significativamente processos hidrológicos essenciais, como a interceptação da chuva, a infiltração, o tempo de residência da água no solo e a recarga dos aquíferos. A substituição da floresta por áreas agrícolas, pastagens e superfícies urbanizadas favoreceu o aumento do escoamento superficial, reduziu a recarga das águas subterrâneas e tornou as vazões dos rios mais dependentes das chuvas sazonais, que estão substancialmente alteradas. Além disso, observamos o aumento dos períodos de estiagem, que geram outros problemas de ordem sanitária e de desequilíbrio ecológico, como o crescimento de algas.

Um ponto que observamos é que existe uma forte diferença no monitoramento desse recurso hídrico, pois essa bacia está inserida em três estados, e as agências ambientais deveriam ter maior harmonia no monitoramento quanto ao número de parâmetros e à frequência. Assim, qualquer proposta voltada à ampliação da disponibilidade de água na bacia deve necessariamente incorporar ações de restauração florestal, especialmente nas áreas de recarga, nas nascentes e ao longo das matas ciliares. Ignorar esse componente significa desconsiderar um dos principais processos naturais responsáveis pela recuperação hídrica da bacia em longo prazo. E não adianta pensar em reflorestamento econômico com eucaliptos.

Esse cenário torna-se ainda mais preocupante quando chegamos à região costeira. As barragens retêm grande parte dos sedimentos transportados pelos rios, reduzindo o aporte sedimentar aos estuários, deltas e praias. Como consequência, o litoral perde sua principal fonte natural de reposição de sedimentos, tornando-se mais vulnerável à ação das ondas, das correntes e à elevação do nível do mar, fatores que já vêm sendo intensificados pelas mudanças climáticas. Assim, a implantação sucessiva de barragens pode contribuir para agravar a erosão costeira (ex.: região de Atafona), comprometendo ecossistemas, infraestrutura e atividades econômicas dependentes da faixa litorânea.

Nesse contexto, o problema da escassez de água deve ser analisado com cautela e fundamentado em estudos hidrológicos, climáticos e sedimentológicos. É indispensável avaliar se a redução das vazões decorre predominantemente do aumento das demandas, das alterações climáticas ou da combinação desses fatores. Portanto, quantificar os impactos cumulativos dos empreendimentos já existentes e daqueles previstos para a bacia torna-se fundamental, pois precisamos nos adaptar às alterações climáticas impostas pelo Antropoceno, que tem aumentado as incertezas e gerado eventos extremos de precipitação e secas prolongadas.

Assim, a gestão integrada dos recursos hídricos, baseada na redução das perdas, no aumento da eficiência do uso da água, na recuperação das áreas de recarga, na proteção das matas ciliares, no reuso da água e na operação otimizada dos reservatórios existentes, produz resultados mais sustentáveis do que a simples ampliação da infraestrutura de represamento. Em outras palavras, reservatórios são instrumentos de gestão, mas não substituem a necessidade de garantir que a disponibilidade natural de água e de sedimentos seja compatível com as demandas da sociedade e com a manutenção dos processos ecológicos que sustentam a própria bacia e sua zona costeira.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Os agrotóxicos não estão apenas nos deixando doentes, eles estão cozinhando o planeta

Por Lee Evslin para “The New Lede”

Escrevo isto como pediatra que passou mais de uma década documentando como os agrotóxicos afetam direta e negativamente a saúde das crianças. Mas há uma segunda história escondida dentro daquela que costumo contar, e ela raramente entra no debate: o mesmo sistema de agricultura industrial baseado em agrotóxicos sintéticos e fertilizantes nitrogenados também está silenciosamente destruindo o planeta.

O recente aquecimento recorde do Oceano Pacífico, as mortes causadas pelo calor na Europa, os incêndios florestais em todo o mundo e a onda de calor que assola os EUA criam uma necessidade urgente de compreender todos os principais fatores que impulsionam as mudanças climáticas, incluindo aqueles sobre os quais normalmente não falamos.

Descobriu-se que os sistemas alimentares globais produzem  16 bilhões de toneladas métricas  de CO2 equivalente por ano, ou aproximadamente  um terço  de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Dois insumos agrícolas em particular, os agrotóxicos e os fertilizantes nitrogenados sintéticos, merecem muito mais atenção do que geralmente recebem nas discussões sobre saúde ou clima.

Os agrotóxicos e as mudanças climáticas representam um ciclo vicioso .  Pesquisadores descreveram recentemente um padrão com consequências perigosamente abrangentes. 

  1. Os agrotóxicos são produzidos a partir de combustíveis fósseis, e sua produção consome muita energia. A fabricação de um quilograma de ingrediente ativo de  agrotóxico requer, em média, cerca de dez vezes mais energia do que a fabricação de um quilograma de fertilizante nitrogenado.
  2. Os agrotóxicos continuam a emitir substâncias mesmo após a aplicação. Muitos volatilizam-se para o ar como compostos que contribuem para a formação de ozono, e os fumigantes de solo amplamente utilizados  aumentam drasticamente as emissões de óxido nitroso do solo. Os agrotóxicos também perturbam as comunidades microbianas do solo. Isto  degrada um dos sistemas naturais de remoção de carbono mais importantes da agricultura .
  3. O agravamento das mudanças climáticas enfraquece as plantações e pode gerar mais insetos e ervas daninhas mais resistentes. Essa combinação exige ainda mais agrotóxicos e fertilizantes.
  4. Resultado final: mudanças climáticas cada vez piores e um número crescente de substâncias químicas perigosas em nossos alimentos, nossa água e em todos os nossos corpos.

Os fertilizantes nitrogenados atuam como superpoluentes .  Quando o uso intensivo de agrotóxicos degrada o solo, o uso abundante de fertilizantes torna-se vital apenas para manter o crescimento das plantações. O fertilizante nitrogenado sintético é fabricado combinando nitrogênio atmosférico com hidrogênio proveniente do gás natural sob calor e pressão extremos, um processo que, por si só, responde por cerca de  39%  da pegada climática do fertilizante.

Mas, assim como acontece com os agrotóxicos, o problema maior surge depois que o produto chega ao campo. Os micróbios do solo convertem o nitrogênio aplicado em óxido nitroso, um gás com um poder de aquecimento cerca de  273 vezes maior que o do dióxido de carbono. Uma avaliação recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as emissões de óxido nitroso provenientes da agricultura aumentaram 40% entre 1980 e 2020 , e o classificou como um “superpoluente” devido ao seu papel duplo no aquecimento global e na destruição da camada de ozônio.

Além disso, os agricultores aplicam rotineiramente  muito mais nitrogênio do que as culturas conseguem utilizar , chegando a 5,8 milhões de toneladas métricas em excesso somente em 2023 no cinturão do milho e da soja, produzindo emissões equivalentes à circulação de 8 a 14 milhões de carros a gasolina adicionais. O nitrogênio não utilizado não desaparece simplesmente. Ele se infiltra no lençol freático e chega aos cursos d’água, alimentando a  proliferação de algas e a eutrofização  , que geram ainda mais gases de efeito estufa.

O problema do solo :  Um solo saudável é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas a agricultura intensiva em produtos químicos esgota esse reservatório em vez de o aumentar. O contraste na captura de carbono entre a agricultura convencional atual e a agricultura orgânica/regenerativa é dramático. Os sistemas orgânicos  sequestram carbono do solo a uma taxa aproximadamente quatorze vezes maior do  que a agricultura convencional. Práticas regenerativas, quando aplicadas corretamente, poderiam  sequestrar até 23 gigatoneladas de CO2 até 2050 , e  o plantio direto, por si só, já foi associado a reduções de CO2 de até 47% .

As empresas de sementes químicas frequentemente afirmam que as culturas transgênicas Roundup Ready também facilitam e tornam mais comum o plantio direto, permitindo que os agricultores eliminem ervas daninhas com produtos químicos em vez de arar. Mas até mesmo essa solução está se desfazendo. Com a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato,  a intensidade do preparo do solo aumentou novamente desde 2008 , e uma análise amplamente citada constatou que a alegação subjacente de redução de carbono pelo plantio direto com base em produtos químicos pode ser  um artefato de amostragem superficial do solo  , em vez de um ganho líquido real. A solução para o solo pode ser menos duradoura do que a indústria alega e vem acompanhada da própria dependência química que impulsiona a crise de saúde.

E a crise de saúde não é hipotética .  Um  estudo de 2025 do Centro Médico da Universidade de Nebraska  descobriu que um aumento de 10% na exposição a misturas de agrotóxicos estava associado a um aumento de 36% nos casos de câncer cerebral e do sistema nervoso central em crianças e a um aumento de 23% nos casos de leucemia. Um  relatório de Iowa de 2026  relacionou a taxa de câncer do estado, agora a segunda mais alta do país, em parte à exposição a agrotóxicos. Não se trata dos mesmos produtos químicos aparecendo por coincidência em duas notícias ruins diferentes. Trata-se do mesmo modelo de negócios.

A argumentação climática contra esse sistema não é especulativa. Ela se baseia em um crescente corpo de pesquisas sobre o ciclo de vida e emissões em campo, abrangendo fabricação, aplicação e efeitos subsequentes nos ecossistemas. Como essas emissões são difusas, espalhadas por milhões de fazendas em vez de concentradas em algumas chaminés, elas escaparam do escrutínio regulatório que aplicamos a usinas de energia e frotas de veículos. Isso está começando a mudar à medida que os pesquisadores constroem um levantamento mais completo da cadeia de suprimentos de agroquímicos. As políticas públicas, porém, ainda não acompanharam essa mudança.

Não estamos obrigados a escolher entre alimentar as pessoas e manter o planeta e as pessoas que nele habitam saudáveis.

Reduzir a aplicação desnecessária de nitrogênio, intensificar a fiscalização de agrotóxicos e investir em práticas regenerativas nos ajudará a reconstruir o carbono do solo e a reduzir a dependência de agrotóxicos e fertilizantes. As duas lutas, saúde e clima, nunca foram separadas. Já passou da hora de começarmos a tratá-las como tal.

(Os artigos de opinião publicados no The New Lede representam os pontos de vista dos autores e não necessariamente a perspectiva dos editores do TNL.)

Lee A. Evslin, MD, FAAP, é pediatra certificado e ex-CEO de hospital. Foi membro da Força-Tarefa de  Agrotóxicos patrocinada pelo estado do Havaí e recebeu reconhecimento especial da Academia Americana de Pediatria por seu trabalho legislativo, que ajudou a tornar o Havaí o primeiro estado a proibir o clorpirifós. É autor do livro ”  Café da Manhã na Monsanto: O Roundup em nossos alimentos está nos deixando mais doentes, mais gordos e mais tristes?”  e foi palestrante principal na Cúpula de Ciência da Assembleia Geral da ONU de 2022, sobre o tema da toxicidade do glifosato.


Fonte: The New Lede

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino” – recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

Mudanças climáticas atingem as reservas subterrâneas de água do Brasil, mostra estudo da Science

Pesquisa baseada em inteligência artificial e dados de satélite revela que as mudanças climáticas já alteram o armazenamento de águas subterrâneas, colocando em risco a segurança hídrica do país

Embora o Brasil detenha a maior reserva de água doce renovável do planeta, a ideia de abundância hídrica pode estar escondendo uma vulnerabilidade crescente. Um estudo publicado na revista Science Advances demonstra que as mudanças climáticas já estão modificando a quantidade de água armazenada no subsolo brasileiro, criando um cenário de maior instabilidade para o abastecimento humano, a agricultura e a produção de energia.

A pesquisa, assinada por Clyvihk Renna Camacho, Otto Corrêa Rotunno Filho, Maria Antonieta Mourão e colaboradores, utilizou inteligência artificial, dados de satélite da missão GRACE da NASA e modelos hidrológicos para reconstruir a dinâmica do armazenamento de águas subterrâneas em todo o território nacional. O trabalho representa um dos levantamentos mais abrangentes já realizados sobre esse componente invisível, mas estratégico, do ciclo hidrológico brasileiro.

Os resultados mostram que o comportamento das reservas subterrâneas está cada vez mais condicionado pelas alterações climáticas. Em diversas regiões do país, secas prolongadas e mudanças no regime de chuvas estão reduzindo a capacidade natural de recarga dos aquíferos, enquanto outras áreas experimentam oscilações extremas entre períodos de excesso e escassez de água.

Essa constatação é particularmente preocupante porque a água subterrânea funciona como uma espécie de “poupança hídrica”. Em momentos de estiagem, ela mantém rios correndo, sustenta nascentes, abastece cidades e garante a irrigação agrícola. Quando esse estoque começa a diminuir de forma persistente, toda a segurança hídrica do país passa a ficar ameaçada.

O estudo também demonstra o potencial do uso combinado de inteligência artificial e observações por satélite para monitorar recursos naturais em larga escala. Essa capacidade de acompanhar mudanças quase em tempo real pode fornecer informações essenciais para políticas públicas, planejamento territorial e prevenção de crises hídricas.

No entanto, os resultados também sugerem que soluções tecnológicas, por si só, não serão suficientes. A degradação de bacias hidrográficas, o avanço do desmatamento, a expansão desordenada da agricultura intensiva e o aumento das temperaturas reduzem a infiltração da água no solo e aceleram a perda dos estoques subterrâneos. Em outras palavras, a tecnologia pode medir o problema com precisão crescente, mas sua solução depende de decisões políticas e de uma gestão ambiental mais rigorosa.

Para o Brasil, onde a narrativa da abundância hídrica frequentemente serve para justificar o uso predatório dos recursos naturais, o artigo publicado na Science Advances funciona como um importante alerta. A maior reserva de água doce do planeta não é infinita nem está protegida das mudanças climáticas. Pelo contrário: ela já apresenta sinais claros de transformação.

A principal lição do trabalho é que a segurança hídrica do século XXI dependerá cada vez mais da capacidade de conservar ecossistemas, recuperar áreas degradadas e incorporar o monitoramento científico ao planejamento público. Ignorar esses sinais significa colocar em risco não apenas a disponibilidade futura de água, mas também a própria resiliência econômica e social do país diante de um clima em rápida mudança.