Alemanha, Reino Unido, China e ONU pedem estímulo verde para a recuperação econômica pós-COVID-19

Father and child hiking together in a forest stream

Os pacotes de recuperação econômica pós COVID-19 devem respeitar o meio ambiente e o Acordo de Paris sobre mudança do clima, afirmaram hoje (28/4) a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o secretário geral da ONU Antonio Guterres e o enviado de Xi Jinping, Huang Runqiu, em uma cúpula climática global em Berlim.

Em suas falanDiálogClimáticdPetersberg – realizado on-line pela primeira vez devido à pandemia atual – os líderes pediram aos governos que estão elaborando planos para reiniciar suas economias que eles não resultem em um aumento das emissões dos gases responsáveis pelo aquecimento global.

“O coronavírus nos mostra que a cooperação internacional é crucial e que o bem-estar de uma nação sempre depende do bem-estar de outras. Com o Acordo Verde da Europa, a Comissão da UE mostrou o caminho a seguir. A Europa deve se tornar o primeiro continente neutro em termos de emissões até 2050”, destacou Angela Merkel, chanceler da Alemanha. “Combinaremos a ação climática com novas perspectivas econômicas e novos empregos. Deixe-me esclarecer: haverá um debate difícil sobre a alocação de fundos. Mas é importante que os programas de recuperação estejam sempre de olho no clima, não devemos deixar de lado o clima, mas investir em tecnologias climáticas”, destaca.

De acordo com a AdministraçãNacionaOceânicAtmosférica dos EUA, 2020 está a caminho de ser um dos – se não o – ano mais quente já registrado. Os níveis recorde de gases de efeito estufa na atmosfera estão ligados a uma série de eventos climáticos globais cada vez mais extremos.

“Os eventos climáticos extremos não estão dando um tempo enquanto lidamos com outras prioridades, e algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo continuam sofrendo como resultado, como vimos quando o ciclone Harold atravessou o Pacífico Sul este mês”, lembrou Boris Johnson, primeiro ministro do Reino Unido em discurso lido pelo secretário de Relações Exteriores, Dominc Raab. “As nações começarão a emergir do confinamento e tentarão reavivar suas economias mais uma vez. Quando isso acontecer, será dever de todo governo responsável garantir que nossas economias sejam revividas e reconstruídas de maneira a resistir ao teste do tempo. Isso significa investir em indústrias e infraestrutura que podem mudar a situação das mudanças climáticas. E significa fazer todo o possível para aumentar a resiliência ao moldar economias que possam suportar tudo o que a natureza nos lança. Não há escolha entre corte de emissões e economias em crescimento. Esse é um mito que o Reino Unido ajudou a quebrar na última década”, ressaltou.

Para o Secretário Geral da ONU Antonio Guterres, “alguns países, incluindo o Chile, o atual presidente da COP, já enviaram NDCs aprimorados e outros 114 países anunciaram que o farão. 121 países se comprometeram a alcançar a neutralidade do carbono até 2050. A chave para enfrentar a crise climática são os grandes emissores. Não devemos esquecer que os países do G20 representam coletivamente mais de 80% das emissões globais e mais de 85% da economia global. Eles também devem se comprometer com a neutralidade do carbono em 2050. O Acordo de Paris foi amplamente possível graças ao envolvimento dos Estados Unidos e da China. Sem a contribuição dos grandes emissores, todos os nossos esforços serão condenados”.

O Ministro das Relações Exteriores do Butão, Dr. Tandi Dorji, representando os Países Menos Desenvolvidos, reiteirou a mensagem de Guterres: “Qualquer queda nas emissões globais não será significativa nem duradoura, a menos que seja apoiada por promessas climáticas ambiciosas. Este ano, devemos ver países com altos níveis de emissões enviar NDCs novos e atualizados com a maior ambição possível, o que representará sua parte justa de ação, conforme exigido pelo Acordo de Paris”.

O Ministro da China, Huang Runqiu, reafirmou a posição de colaboração de seu país: “Como firme defensora do multilateralismo, a China se juntará a outros países para promover uma implementação completa, equilibrada e eficaz do Acordo de Paris. Implementaremos nossa estratégia nacional proativa de mudança climática e contribuiremos para os esforços de colaboração para enfrentar as mudanças climáticas globais”.

Michel Moore apresenta “Planet of the Humans”

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O sempre polêmico diretor de cinema estadunidense Michael Moore lançou no “Dia da Terra” (22/04) , o  “Planet of the Humans”, um documentário que parte da premissa de que estamos perdendo a batalha para impedir o processo de mudanças climáticas porque seguimos líderes que nos levaram para um caminho errado  – vender o movimento verde para interesses ricos e empresas americanas. 

Em seus créditos no Youtube, há o alerta para a realidade que temos medo de enfrentar: que, no meio de um evento de extinção causado pela sociedade humana, a resposta do movimento ambientalista tem sido pressionar por soluções de base tecnológicas que não passam de band-aids.  

Removida do debate estaria a única coisa que pode nos salvar: controlar nossa presença e o consumo  que estão fora de controle. Por que essas questões não aparecem claramente?  Segundo Moore,  porque isso seria ruim para os lucros, ruim para os negócios.

O documentário insiste em que os ambientalistas caíram em ilusões, ilusões “verdes”, que são tudo menos verdes, porque temos medo de que isso seja o fim – e depositamos todas as nossas esperanças em biomassa, turbinas eólicas e carros elétricos.  Mas nenhuma quantidade de baterias vai nos salvar, adverte o diretor Jeff Gibbs (ambientalista e co-produtor de “Fahrenheit 9/11” e “Bowling for Columbine”). Este filme urgente e imperdível,  é um ataque frontal total às vacas sagradas do movimento ambientalista têm, segundo Moore, a garantia de gerar raiva, debate e, esperançosamente, disposição para ver nossa sobrevivência de uma nova maneira – antes que seja tarde demais.

O filme conta a história de Al Gore, Bill McKibben, Richard Branson, Robert F. Kennedy Jr., Michael Bloomberg, Van Jones, Vinod Khosla, Koch Brothers, Vandana Shiva, General Motors, 350.org, Arnold Schwarzenegger, Sierra Club, União de Cientistas Interessados, Nature Conservancy, e Elon Musk.

O “Planet of the Humans”  tem uma trilha sonoro com canções de Radiohead, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Blank & Jones, If These Trees Could Talk, Valentina Lisitsa, Culpit 1, Patrick O’Hearn, The Torquays, Nigel Stanford e muito mais.

 

Juventude sul-coreana processa governo do país por falta de ação contra a crise climática

De acordo com organização da juventude da Coreia do Sul, o governo de Seul infringe os direitos constitucionais de seus cidadãos ao falhar em reduzir emissões de gases de efeito estufa para combater a mudança do clima

climate korea

Seul, 13 de março de 2020 – Um grupo da juventude da Coreia do Sul entrou na justiça do país por causa da falta de ação de seu governo contra a mudança do clima, argumentando que isso acaba por infringir os direitos constitucionais de seus cidadãos. Esta é a primeira ação legal desse tipo proposta pela juventude na Ásia.

O grupo Youth 4 Climate Action apresentou uma reclamação constitucional alegando que a meta de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) definida pelo governo da Coreia do Sul é inadequada e, como tal, viola a proteção dos direitos básicos de seus cidadãos consagrados na Constituição sul-coreana.

Os autores da reclamação argumentam que a população da Coreia do Sul já está sofrendo com impactos da mudança do clima, mas o governo do país segue passivo e não atua no sentido de proteger seus cidadãos das consequências mais catastróficas da mudança do clima.

“Os adultos dizem que a juventude tem um futuro brilhante e que pode fazer muitas coisas, mas no ritmo em que estamos, a temperatura global pode superar os 1,5oC acima dos níveis pré-industriais em apenas sete anos. Estou com medo, porque até lá eu terei apenas 23 anos e enfrentarei uma vida de incerteza devido aos impactos catastróficos potenciais da crise climática”, desabafou Do-hyun Kim, representante do Youth 4 Climate Action durante uma coletiva de imprensa realizada antes da apresentação da denúncia.

“Ao apresentar esse processo, quero exigir que o governo assuma a responsabilidade de proteger seu povo da mudança do clima”, acrescentou.

“É meu direito sonhar com meu futuro livre da ameaça da crise climática”, disse Hae-young Yoon, do mesmo grupo. “Espero que nossas exigências possam ser ouvidas pelos decisores para garantir que a minha geração possa viver e desfrutar das coisas que as gerações mais antigas tinham como certas”.

O grupo de jovens planejada inicialmente realizar uma grande “greve escolar” no centro de Seul após a coletiva de imprensa, mas teve de cancelá-la por conta da preocupação com o coronavírus.

Sobre o caso

Na denúncia apresentada pelo grupo Youth 4 Climate Action à justiça sul-coreana, eles argumentam que o artigo 25 do Decreto Presidencial para Ação Base em Baixo Carbono e Desenvolvimento Verde viola diretamente direitos constitucionais fundamentais como o direito à vida, à busca da felicidade, a um meio ambiente limpo, à igualdade, e ao valor dos seres humanos.

A meta atual de redução de emissões de GEE na Coreia do Sul, revisada duas vezes (2016 e 2019), é de 24,4% abaixo dos níveis registrados em 2017 até 2030, muito abaixo do que seria necessário para que o país contribuísse efetivamente para atingir as metas de longo prazo do Acordo de Paris.

O grupo também aponta que a Corte Constitucional, tribunal especializado para litígios relacionados à Constituição do país, deveria considerar inconstitucional que tal ação legislativa não estabeleça qualquer diretriz específica em relação à meta de redução de emissões de GEE e apenas dê ao governo a discricionariedade de estabelecer essa meta, já que a Constitucional impõe à Assembleia Nacional o dever de legislar para proteção dos direitos básicos.

“O fato de termos crianças e adolescentes entrando na justiça contra os adultos no governo para garantir sua sobrevivência e bem-estar é muito significativo”, disse o advogado Byung-Joo Lee, um dos representantes legais do grupo. “A Corte Constitucional da Coreia do Sul é conhecida por estar na vanguarda da defesa dos direitos básicos dos cidadãos comuns. Esse pode ser o julgamento do século para o país”.

O processo apresentado pelos jovens sul-coreanos se insere em um movimento maior de litigância climática observado em diversas partes do mundo nos últimos anos. Por exemplo, a partir de uma denúncia apresentada pela sociedade civil, a Suprema Corte da Holanda determinou em dezembro passado que o governo do país eleve suas metas de redução de emissões.

Para David R. Boyd, relator especial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Direitos Humanos, a juventude sul-coreana pede ao seu governo apenas por duas coisas – escutar o que a ciência diz e obedecer o que a lei determina. “Mais ação para enfrentar a emergência climática que vivemos hoje é vital para proteger os direitos humanos de literalmente bilhões de pessoas, inclusive os jovens que terão que suportar uma parcela desproporcional dos efeitos adversos dessa crise”, disse Boyd.

Já para Marjan Minnesma, diretora da Fundação Urgenda, responsável pelo processo climático na Holanda, a iniciativa da juventude da Coreia do Sul é histórica e mostra que os governos precisam justificar sua falta de ação junto àqueles que pagarão o preço mais alto pela mudança do clima, as gerações mais novas e futuras. “Nosso caso bem-sucedido na Holanda provou que os governos têm obrigações legais de reduzir emissões agora. A decisão da Suprema Corte holandesa foi clara ao nosso governo e também se aplica ao caso da Coreia do Sul: se você fracassa em lidar com a crise climática de forma séria, você será legalmente responsabilizado”.

No caso sul-coreano, o grupo de jovens receberá suporte legal de advogados do escritório S&L Partners e da Solutions for Our Climate na forma de litigância de interesse público, mas a juventude irá liderar a campanha de comunicação para conscientizar a população da Coreia do Sul e pressionar o governo em prol de mais ação climática ao longo deste ano.

* Fotos da coletiva de imprensa podem ser encontradas aqui (Crédito: Youth 4 Climate Action)

Contato para imprensa

Bo-rim Kim, chefe do Youth 4 Climate Action

Lynn Kim, apoio para comunicação (GSCC)

 

Sobre Youth 4 Climate Action

Youth 4 Climate Action é um grupo de jovens sul-coreanos com o propósito de demandar das autoridades e dos adultos mais ação contra a mudança do clima. Baseado em valores como voluntariedade e processo decisório democrático, ele busca formas variadas e criativas para expor mensagens nesse sentido. Desde o ano passado, esses jovens têm liderado “greves escolares” na Coreia do Sul e conversado com autoridades nacionais e locais para fazer valer seus direitos e pressionar por ação climática.

Emergência climática: ação global está “fora do rumo”, diz chefe da ONU

Ondas de calor mortais, inundações e aumento da fome são uma ameaça muito maior ao mundo do que o coronavírus, dizem os cientistas

5182Bombeiros e pessoal de resgate movem seu caminhão enquanto um incêndio mata perto de uma estrada principal e casas nos arredores da cidade de Bilpin, em Sydney, na Austrália, em dezembro de 2019. Fotografia: David Gray / Getty Images

Damian Carrington, editor para Meio Ambiente do “The Guardian

O mundo está “muito errado” no trato da emergência climática, e o tempo está se esgotando rapidamente, afirmou o secretário-geral da ONU.

António Guterres soou o alarme no lançamento da avaliação da ONU sobre o clima global em 2019. O relatório conclui que foi um ano recorde para o calor, e houve aumento da fome, deslocamento e perda de vidas devido a temperaturas e inundações extremas ao redor. o mundo.

Os cientistas disseram que a ameaça era maior que a do coronavírus, e os líderes mundiais não devem ser desviados da ação climática.

A avaliação climática é liderada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU, com contribuições das agências da ONU para meio ambiente, alimentação, saúde, desastres, migração e refugiados, além de centros científicos.

Em 2019, os oceanos estiveram mais quentes em relação a todos os anos registrados anteriormente, com pelo menos 84% dos mares experimentando uma ou mais ondas de calor marinhas. As temperaturas da superfície do ar em todo o mundo foram as mais quentes já registradas, depois que um evento natural do El Niño aumentou os números em 2016.

O relatório diz que os resultados do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras indicam que 2018-19 foi o 32º ano consecutivo em que mais gelo foi perdido do que ganho. O derretimento do gelo terrestre combinado com a expansão térmica da água elevou o nível do mar à marca mais alta desde o início dos registros.

O declínio a longo prazo do gelo do Ártico também continuou em 2019, com a extensão média de setembro – geralmente a mais baixa do ano – a terceira pior já registrada.

“A mudança climática é o principal desafio do nosso tempo. Atualmente, estamos fora do caminho para cumprir as metas de 1,5 ° C ou 2 ° C que o acordo de Paris exige ”, disse Guterres. O ano de 2019 terminou com uma temperatura média global de 1,1 ° C acima dos níveis pré-industriais. “O tempo está se esgotando rapidamente para evitar os piores impactos da perturbação climática e proteger nossas sociedades”.

Ele acrescentou: “Precisamos de mais ambição em [cortes nas emissões], adaptação e financiamento a tempo da conferência climática Cop26, em Glasgow, Reino Unido, em novembro. Essa é a única maneira de garantir um futuro mais seguro, mais próspero e sustentável para todas as pessoas em um planeta saudável. ”

O professor Brian Hoskins, do Imperial College London, disse: “O relatório é um catálogo de condições meteorológicas em 2019 tornado mais extremo pela mudança climática e pela miséria humana que a acompanha. Isso indica uma ameaça maior para nossa espécie do que qualquer vírus conhecido – não devemos nos desviar da urgência de combatê-lo, reduzindo nossas emissões de gases de efeito estufa a zero o mais rápido possível. ”

A OMM disse que seu relatório fornece informações oficiais aos formuladores de políticas sobre a necessidade de ação climática e mostra os impactos do clima extremo.

Uma onda de calor na Europa tornou-se cinco vezes mais provável pelo aquecimento global, e o verão abrasador levou a 20.000 internações de emergência e 1.462 mortes prematuras somente na França. A Índia e o Japão também aumentaram e a Austrália começou e terminou o ano com forte calor e teve o ano mais seco já registrado. A Austrália teve “uma temporada de incêndios excepcionalmente prolongada e severa”, observou a OMM.

Inundações e tempestades contribuíram mais para desalojar as pessoas de suas casas, particularmente o ciclone Idai em Moçambique e seus vizinhos, o ciclone Fani no sul da Ásia, o furacão Dorian no Caribe e as inundações no Irã, Filipinas e Etiópia. Estima-se que o número de deslocamentos internos de tais desastres esteja perto de 22 milhões de pessoas em 2019, ante 17 milhões em 2018.

Os EUA sofreram fortes chuvas, com o total de julho de 2018 a junho de 2019 sendo o mais alto já registrado. As perdas econômicas totais nos EUA no ano foram estimadas em US $ 20 bilhões, informou a OMM.

O clima imprevisível e o clima extremo foram um fator em 26 das 33 nações afetadas pela crise alimentar em 2019 e foram o principal fator em 12 dos países. “Após uma década de declínio constante, a fome está aumentando novamente – mais de 820 milhões sofreram com a fome em 2018, os últimos dados globais disponíveis”, diz o relatório.

A OMM disse que a precipitação invulgarmente pesada no final de 2019 também foi um fator no grave surto de gafanhoto nos desertos do Chifre da África, que é o pior em décadas e deve se espalhar até junho de 2020, em uma grave ameaça à segurança alimentar.

O professor Dave Reay, da Universidade de Edimburgo, disse: “Essa ladainha anual de impactos das mudanças climáticas e respostas globais inadequadas contribuem para uma leitura instigante. Em grande escala, é o efeito “multiplicador de ameaças” que é a mudança climática nos maiores desafios enfrentados pela humanidade e pelos ecossistemas do mundo no século XXI. “

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].

Mudança do clima aumentou risco de incêndios florestais na Austrália, aponta novo estudo

Bush Fire

De acordo com cientistas, as chances de episódios como os incêndios recentes no sudeste da Austrália acontecer aumentaram ao menos 30% por conta da mudança do clima causada pelas emissões antropogênicas de gases de efeito estufa

A mudança do clima causada pela humanidade contribuiu para criar condições meteorológicas propícias para os incêndios florestais no sudeste da Austrália do final de 2019 e começo de 2020, aponta uma análise feita pelo World Weather Attribution, um grupo internacional que reúne renomados cientistas da área de clima.

Os pesquisadores concluíram que a mudança do clima causada pela elevação da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera da Terra aumentou as chances da Austrália passar por episódios extremos de incêndio florestal em ao menos 30% – mas esse valor pode ser ainda maior, já que a tendência de calor extremo é um dos principais fatores nesse processo e os modelos climáticos ainda subestimam essa tendência na análise.

“As alterações climáticas fazem parte da paisagem atual da Austrália. O calor extremo é claramente influenciado pelas mudanças climáticas causadas pelo Homem, que podem influenciar as condições de fogo”, diz Sophie Lewis, pesquisadora da University of New South Wales, na Austrália. “Temos evidências de que as estações de fogo na Austrália se tornaram mais prolongadas e intensas, e as temperaturas extremas têm desempenhado um papel importante nisso”.

Se as temperaturas globais se elevarem até 2oC, o estudo aponta que as condições para episódios como esse na Austrália se tornarão ao menos quatro vezes mais comuns como resultado da mudança do clima.

O estudo de atribuição observou o Fire Weather Index, que mede as condições meteorológicas relacionadas ao risco de incêndios florestais nas áreas no sudeste da Austrália que foram as mais afetadas pelos incêndios em 2019/2020. Ele comparou as condições atuais, com pouco mais de 1oC de aquecimento global, com o clima observado por volta do ano 1900, usando registros e modelos climáticos.

Os pesquisadores também examinaram o calor extremo e a seca meteorológica (períodos de precipitação extremamente baixa), que são elementos importantes no Fire Weather Index. Uma semana de temperaturas quentes, como aquela vivida no sudeste australiano em dezembro de 2019, tornou-se ao menos duas vezes mais provável por conta da mudança do clima causada pela humanidade. Ondas de calor como aquela observada na Austrália em 2019/2020 são agora mais quentes em cerca de 1-2oC do que as registradas por volta de 1900.

Períodos de precipitação extremamente baixa são mais relevantes para o clima de incêndio do que as tendências de precipitação média, que são um motor da seca agrícola. Os extremos secos anuais tornaram-se um pouco mais comuns no sudeste da Austrália, com 2019 sendo o ano mais seco desde 1900, embora a tendência esteja dentro do intervalo esperado das flutuações climáticas naturais. Os pesquisadores não foram capazes de ligar diretamente o recente recorde de baixa pluviosidade anual nem o mês mais seco da estação de incêndios com a mudança do clima. Outros aspectos da seca não incluídos no estudo, como baixo suprimento de água e solos secos, são influenciados pelas temperaturas altas e, por isso, estão ligados à mudança do clima.

As condições de incêndios descritas pelo Fire Weather Index desde 1979 pioraram mais rapidamente do que as simuladas pelos modelos climáticos. O risco climático do fogo aumenta em grande parte devido a eventos de calor mais intenso. Os modelos climáticos subestimam essa tendência no sudeste da Austrália, como pesquisas anteriores também apontaram em outras partes do mundo. Assim, enquanto os modelos climáticos mostram que a mudança climática causada pela humanidade aumentou em pelo menos 30% as chances da Austrália ter registros extremos do Fire Weather Index, os pesquisadores concluíram que o verdadeiro aumento poderia ser muito maior, com base na sua análise observacional e na subestimação das tendências de calor extremo.

“Descobrimos que os modelos climáticos lutam para reproduzir esses eventos extremos e suas tendências de forma realista. No entanto, eles sempre subestimam o aumento das chances de risco extremo de incêndio, como a Austrália viu nos últimos meses”, aponta Geert Jan van Oldenborgh, do Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos. “Isso significa que sabemos que o efeito é maior que os 30% de aumento observado, o que já é uma influência significativa do aquecimento global”.

Outras ligações entre mudança do clima e o risco de incêndio na Austrália estavam além do escopo do estudo, tais como fontes de ignição e estações de incêndio prolongadas que diminuem a janela para a redução segura do risco de incêndio.

Estudos de atribuição como esse são importantes para analisar o efeito da mudança climática global sobre eventos meteorológicos locais. “Diante de incêndios como estes, a questão não é apenas se o clima em transformação está tendo um efeito sobre o fogo, mas como essas mudanças estão afetando esses eventos e sua probabilidade”, explica Friederike Otto, da University of Oxford no Reino Unido. “Nossa pesquisa apontou que a mudança climática é, de fato, um fator importante nesses episódios em âmbito local. Por isso, precisamos continuar testando nossos modelos climáticos no mundo real, de modo a fornecer informações com maior confiança sobre riscos climáticos no nível local, na escala em que as pessoas vivem e tomam decisões”.

Para Maarten van Aalst, do Centro Climático da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho Internacional, episódios como os incêndios recentes na Austrália reforçam as dificuldades que eventos climáticos extremos impõem às pessoas, especialmente aquelas mais vulneráveis. “As alterações no clima já estão tornando o trabalho humanitário mais difícil. Estamos enfrentando riscos maiores e mais surpresas. Este estudo mostra que esses riscos crescentes também se refletem em perda maciça como a que observamos na Austrália na virada para o ano de 2020. Pessoas e comunidades têm sido duramente atingidas e a recuperação pode levar muitos anos. Os riscos climáticos crescentes significam que a adaptação e a resiliência são críticos, mas por si só não são suficientes – reduzir emissões é crucial”.

Autores do estudo:
• Geert Jan van Oldenborgh, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Folmer Krikken, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Sophie Lewis, University of New South Wales, Canberra, Austrália
• Nicholas J. Leach, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Flavio Lehner, Institute for Atmospheric and Climate Science, ETH Zurich, Zurique, Suíça; Climate and Global Dynamics Laboratory, National Center for Atmospheric Research, Boulder, Estados Unidos
• Kate R. Saunders, Delft Institute of Applied Mathematics, Delft University of Technology, Delft, Países Baixos
• Michiel van Weele, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Karsten Haustein, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Sihan Li, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido; Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• David Wallom, Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Sarah Sparrow, Oxford e-Research Centre, University of Oxford, Oxford, Reino Unido
• Julie Arrighi, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos; Global Disaster Preparedness Center, Washington DC, Estados Unidos
• Roop P. Singh, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos
• Maarten K. van Aalst, Red Cross Red Crescent Climate Centre, Haia, Países Baixos; Faculty of Geo-information Science and Earth Observation, University of Twente, Enschede, Países Baixos; International Research Institute for Climate and Society, Columbia University, Nova York, Estados Unidos
• Sjoukje Y. Philip, Instituto Real Meteorológico dos Países Baixos, De Bilt, Países Baixos
• Robert Vautard, Institut Pierre-Simon Laplace, França
• Friederike E. L. Otto, Environmental Change Institute, University of Oxford, Oxford, Reino Unido

Sobre o World Weather Attribution (WWA)

 

O World Weather Attribution (WWA) é um grupo de colaboração internacional que analisa e comunica a possível influência das mudanças climáticas em eventos climáticos extremos, tais como tempestades, chuvas extremas, ondas de calor, períodos de frio e secas.

Mais de 230 estudos examinaram se as mudanças climáticas tornaram mais prováveis determinados eventos climáticos. Um estudo recente do mesmo grupo descobriu que a mudança climática tornou mais provável a onda de calor recorde de junho na França. Também constatou que a chuva na tempestade tropical Imelda, que atingiu o Texas em setembro, foi tornada mais provável e intensa pelas mudanças climáticas.

Os incêndios florestais em toda a Austrália em 2019-20, particularmente ao longo da costa sudeste, queimaram mais de 11 milhões de hectares (uma área maior que a Irlanda ou Coreia do Sul), destruíram quase 6.000 edifícios e mataram pelo menos 34 pessoas e mais de 1,5 bilhões de animais. Os custos econômicos dos incêndios podem chegar a 100 bilhões de dólares, de acordo com estimativas separadas.

Mais informações em http://www.worldweatherattribution.org/

Cidades capixabas são devastadas novamente por chuvas intensas. O que fará o governador Casagrande?

chuvas intensasDiversas cidades capixabas estão novamente debaixo da água trazida por chuvas extremamente intensas que caíram nas últimas 48 horas, repetindo um cenário de destruição que já havia ocorrido em janeiro de 2020 (ver vídeo produzido ontem na cidade de Alfredo Chaves).

Como moro em um município limítrofe com o estado Espírito Santo e também orientei diversos trabalhos acadêmicos realizados por estudantes capixabas no âmbito de dois programas de pós-graduação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), não posso dizer que estou surpreso com o ritmo da devastação que seguidos eventos climáticos extremos estão ali causando.

O fato é que o Espírito Santo reúne vários elementos que contribuem para que haja uma potencialização da destruição. Desde a configuração do seu relevo, passando pelo intenso desmatamento da Mata Atlantica, até a configuração segregada da maioria das suas cidades, a verdade é que o Espírito Santo é uma espécie de vítima preferencial dos novos padrões meteorológicos que acompanham as mudanças climáticas. É como se o estado governado pelo castelense (i.e.; nascido no município de Castelo) Renato Casagrande tivesse sido alçado a ser um exemplo primário do que as mudanças climáticas podem trazer em termos de devastação humana e ambiental.

es caos

Trânsito caótico na cidade de Cachoeiro do Itapemirim em função das chuvas ocorridas nas últimas 48 horas.

Falando em Renato Casagrande, é interessante notar que sua cidade natal tem sido palco de eventos impressionantes de inundação a partir da elevação das águas do rio Castelo. Mas aparentemente nem a repetida destruição do lugar onde nasceu está fazendo com que o governador capixaba tome as medidas urgentes que a ocorrência repetida de eventos climáticos extremos requer. 

Como sei disso? Para mim bastou olhar o sítio oficial da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Seama) do Espírito Santo para notar a inexistência de projetos ou programas direcionados a planejar e organizar medidas de curto, médio e longo prazo no sentido de promover a adequação da ação do estado em face das mudanças climáticas e das agudas transformações que as mesmas trarão sobre o território capixaba. É como se as chuvas devastadoras não tivessem um padrão que foi previsto pela comunidade científica, e que os habitantes das cidades devastadas tivessem apenas que esperar que o pior não se repita tantas vezes em tão curto espaço de tempo.

O trágico é que o despreparo do Espírito Santo não é exceção, mas sim a regra entre a maioria dos governadores brasileiros. Não há ainda qualquer resposta organizada para aprender o que a ciência já descobrir e transformar as informações científicas em políticas de governo para enfrentar as mudanças climáticas. O pior é que sequer as medidas paliativas estão sendo tomadas, e não é raro que prefeitos como Marcelo Crivella (Rio de Janeiro) ou governadores como João Dória  (São Paulo) retirem verbas destinadas a combater enchentes e deslizamentos para usá-las em propagandas dos (mal)feitos de suas administrações.

Mas ser regra e não exceção não livrará Renato Casagrande de suas responsabilidades em termos de enfrentamento dos múltiplos gatilhos que estão para ser detonados pelos repetidos eventos climáticos que estão infringindo muita dor e devastação no Espírito Santo. A verdade é que, para o bem ou para mal, o território capixaba está se tornando um laboratório a céu aberto para testar a resiliência governamental em face das mudanças climáticas. A palavra está agora com Renato Casagrande.

Mudanças climáticas geram devastação em meio ao negacionismo climático do governo Bolsonaro

Cenas da destruição causada pelas chuvas deste final de semana no município de Mesquita, Baixada Fluminense.

O estado do Rio de Janeiro sofreu nas últimas 24 horas o impacto de chuvas devastadoras que estão trazendo muito sofrimento dentro de muitas cidades, a começar pela sua capital (ver vídeo abaixo mostrando cenas caóticas no bairro de Realengo). 

Esses eventos climáticos extremos estão previstos para serem uma das marcas registradas no comportamento climático que está ocorrendo em todo o planeta como resultado das mudanças climáticas que resultam do aquecimento da atmosfera da Terra.

Essa nova normalidade “anormal” deveria estar sendo motivo de uma forte preparação por parte de todas as esferas de governo no Brasil, visto que temos cidades que evoluíram de forma segregada, produzindo o ambiente perfeito para grandes desastres em face de eventos climáticos extremos que passaremos a enfrentar nas próximas décadas.

Mas o fato é que neste momento o Brasil está entregue a um governo federal dominado pelos chamados “céticos climáticos” para quem as apuradas previsões geradas pela comunidade científica mundial sobre as mudanças climáticas não passam de um complô formulado por marxistas. Com isso, o governo Bolsonaro jogou na lata de lixo o conhecimento científico e abraçou as teses do ceticismo climático.

Um dos céticos climáticos do governo Bolsonaro ocupa a estratégica cadeira de ministro do Meio Ambiente. Desde essa posição é que Ricardo Salles demitiu duas autoridades responsáveis pelas tratativas do combate às mudanças climáticas, deixando basicamente acéfalo uma área estratégica do seu ministério.

E que ninguém se engane com os discursos que jogam nas costas de Deus e de São Pedro toda a dor e sofrimento que os habitantes das áreas mais pobres das cidades brasileiras deverão atravessar em face da inexistência de políticas públicas que permitam o necessário ajuste à realidade que está se estabelecendo onde eventos anormais serão a nova normalidade.  A culpa será dos céticos climáticos que hoje colocam o Brasil na vanguarda do atraso no combate às mudanças climáticas.