Mudanças climáticas: estudantes fazem greve em mais de 100 países para forçar governos a agir

protesto londres

Estudantes realizam protesto em frente do Parlamento do Reino Unido para demandar respostas aos efeitos das mudanças climáticas. Fonte: The Guardian

Jovens em mais de 125 do mundo realizaram hoje demonstrações para pressionar governos a adotarem ações mais decisivas para conter a degradação ambiental da Terra e principalmente para responder aos crescentes desafios criados pelas mudanças climáticas que hoje causam grandes transformações no funcionamento dos principais sistemas planetários (ver abaixo vídeo produzido pelo jornal The Guardian mostrando as manifestações ocorridas em diversos países)

Lamentavelmente não tenho notícia de que atos semelhantes tenham ocorrido no Brasil, pois o nosso país tem experimentado efeitos diretos das mudanças climáticas, incluindo chuvas extremamente intensas com a presença de nuvens Funil, típicas de situações pré-tornados (ver vídeo  com imagens da cidade de Araucária que fica localizada na região metropolitana de Curitiba).

Uma das razões para que os estudantes brasileiros estivessem ausentes das mobilizações que ocorreram em diversas partes do mundo é a ação orquestrada pelo governo Bolsonaro e outros tantos governos estaduais (o de São Paulo governado por João Dória, por exemplo) estão promovendo um verdadeiro desmanche das estruturas governamentais de proteção ambiental. 

Além disso, o verdadeiro estado de pânico que vem grassando em amplas camadas da população em função de repetidos episódios de alta violência, onde os jovens têm sido alvos preferenciais, também contribuiu para que as mobilizações não ocorressem no Brasil.

Entretanto, como já foi demonstrado em outros países, é muito provável que a pauta da luta contra os efeitos das mudanças climáticas acaba tendo que se carregada pelos jovens, visto que eles serão os adultos que terão que conviver com as condições drásticas que serão criadas na Terra caso não haja uma ação decisiva para processar os ajustes impostos pela realidade climática que está se estabelecendo.

Aliás, como em tantos outros países, não vai ser surpreendente se forem as questões ambientais que venham a estar no centro das disputas políticas e que os jovens sejam as principais lideranças nos enfrentamentos que deverão ocorrer.

A patifaria dos negacionistas climáticos

Carta enviada ao ministro do Meio Ambiente contém mentiras, erros e distorções da ciência, analisa Alexandre Araújo Costa

ACT Alliance resized_0

Protesto por ação climática na COP24, em Katowice, Polônia.

Por Alexandre Araújo Costa* para o Observatório do Clima

No último dia 9, 20 “cientistas” publicaram uma “carta aberta” ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em que atacam a ciência do clima e fazem ilações sobre as políticas climáticas sob uma óptica negacionista. Como de praxe, o documento é liderado por Luiz Carlos Molion e, dentre as demais assinaturas, aparece a de Ricardo Felício.

Sem pretender entrar em cada detalhe do documento, me proponho aqui a analisar a parte dele que se propõe a tratar a questão sob uma perspectiva científica. Adianto que o que acontece é justamente o contrário: a carta desfia um rosário de afirmações – sem citar fontes ou citando blogs da internet – que não se sustentam em evidências ou que, em sua maioria, vão abertamente contra as evidências disponíveis. Os contrapontos que trarei aqui são todos devidamente baseados na literatura científica com revisão, principalmente a partir de periódicos científicos do mais elevado prestígio, como Nature Science.

NEGACIONISTAS NÃO SABEM FAZER CONTAS

O grupo alega que “não há evidências físicas da influência humana no clima global”, o que destoa abertamente de todo o conhecimento acumulado na área. A comunidade científica examinou à exaustão todas as possíveis influências naturais sobre o clima, da atividade solar ao vulcanismo, passando pelas mudanças na órbita da Terra. A conclusão de todos os estudos é que nenhum desses fatores tem contribuição importante para o aquecimento observado do sistema climático. Ao contrário, a combinação dos efeitos naturais mais provavelmente teria levado o planeta, nas últimas décadas, a um resfriamento sutil.

A questão aqui é de física básica. Só pode haver mudanças consistentes na temperatura média de um sistema se houver alguma diferença entre a energia que entra e a energia que sai. Desde o início do período industrial até hoje, as emissões humanas de gases de efeito estufa produziram um desequilíbrio energético em escala planetária ao aprisionar parte do calor irradiado pela Terra que deveria voltar ao espaço. Hoje em dia, a quantidade de calor que fica preso na nossa atmosfera a cada minuto equivale à energia da explosão de 1.112 bombas de Hiroshima, tornando ridícula a afirmação dos negacionistas de que a influência humana sobre o clima se limitaria “às áreas urbanas e seus entornos”.

SANTA PALEOIGNORÂNCIA, BATMAN!

O texto dos negacionistas também mente sobre o conhecimento estabelecido sobre o clima do passado. A começar pelo sofisma de que “o clima está sempre em mudança”, equivalente a dizer que “pessoas sempre morrem um dia” é um comentário pertinente diante de um assassinato.

Por exemplo, é falsa a afirmação sobre as condições climáticas no chamado Holoceno Médio. Ao contrário do que dizem os negacionistas (“há 6.000-8.000 anos, as temperaturas médias chegaram a ser 2°C a 3°C superiores às atuais, enquanto os níveis do mar atingiram até 3 metros acima dos atuais”), artigos publicados na literatura científica sugerem que as temperaturas médias globais dificilmente estiveram mais do que 1°C acima do período pré-industrial e que mesmo antes da quebra sucessiva de recordes de temperatura entre 2014 e 2016 o planeta já estava mais quente do que em pelo menos 85% do tempo nos 11.700 anos que definem o Holoceno. Mais grave, a literatura científica indica que os oceanos estavam na realidade em níveis mais baixos há 6.000-8.000 anos, justamente o contrário do que foi afirmado.

Também ao contrário do que diz a carta dos negacionistas, períodos recentes, como a Idade Média, não foram mais quentes que o presente. Embora na Europa esse intervalo de tempo tenha sido marcado por temperaturas relativamente mais altas do que em outros momentos históricos, do ponto de vista global a realidade era outra. O planeta estava, em média, mais de 0,2oC mais frio do que a média de 1961 a 1990.

A mentira se completa quando os negacionistas citam os chamados interglaciais, os períodos quentes que se alternaram nas últimas centenas de milhares de anos com os glaciais, popularmente conhecidos como “eras do gelo”. Molion e trupe falam de temperaturas 6oC a 10oC acima das atuais. Tais temperaturas não ocorreram em nenhum momento dos últimos 800 mil anos (na verdade, provavelmente nem nos últimos 55 milhões de anos). A literatura científica identifica 11 interglaciais ocorridos nos últimos 800 mil anos. Destes, dois teriam sido mais intensos (há 125 mil e há 400 mil anos) mas neles a temperatura teria estado somente 1oC a 2°C acima dos valores pré-industriais, ou seja, no máximo 1°C acima dos valores atuais. Há 125 mil anos, essa elevação adicional de 1oC bastou para causar uma subida de 10 metros no nível do mar devido ao derretimento do gelo da Antártida e da Groenlândia. Essa é uma das razões para os cientistas terem fixado o limite de 2oC como o limiar da catástrofe para a humanidade.

CO2 COMO BOTÃO DE CONTROLE DO CLIMA DA TERRA

Outra leviandade é a afirmação de que o aquecimento global causado por atividades humanas seria apenas uma “hipótese” e que “ocorreram temperaturas altas com baixas concentrações de dióxido de carbono (CO2) e vice-versa”.

As evidências científicas mostram que aconteceu justamente o contrário. Isto é, em diferentes escalas de tempo a concentração atmosférica de CO2 e de outros gases de efeito estufa é altamente correlacionada com a temperatura média global. Por exemplo, nos últimos 800 mil anos, período para o qual se tem um excelente registro do clima no passado, gravado no gelo da Antártida, temperatura e concentração de dióxido de carbono sempre aumentaram juntos e diminuíram juntos.

O consenso científico é que os dados obtidos no gelo antártico não apenas demonstram uma influência decisiva do CO2 sobre a temperatura global, como sugerem um importante mecanismo de retroalimentação, ou feedback, em que aquecimento levava à liberação de CO2 e vice-versa. Esse mecanismo de retroalimentação fazia com que pequenas perturbações pudessem levar a uma evolução não-linear do sistema climático terrestre, ao ponto de levá-lo a estados tão distintos quanto os glaciais e os interglaciais. Essa “violenta delicadeza” dos feedbacks climáticos é algo que deveria nos fazer refletir sobre quão grandes podem ser as consequências de uma perturbação no sistema do tamanho da que estamos produzindo, ao injetar uma quantidade de CO2 tão grande na atmosfera que fez sua concentração aumentar quase 50% em apenas dois séculos.

Essa correlação entre CO2 e temperatura também se repete em escalas mais longas, de milhões de anos, ao ponto de alguns dos cientistas mais destacados se referirem literalmente à concentração deste gás como o “principal botão de controle do clima da Terra”.

REDUZIR AS EMISSÕES É IMPERATIVO E URGENTE

Sendo tão abertamente falsas as premissas, as conclusões da carta não poderiam ser menos deslocadas da realidade.

O que os negacionistas propõem nada mais é do que uma irresponsável continuidade do modelo econômico predatório de hoje em dia, intensivo em carbono. Afirmam que “vários países de peso” têm contestado as políticas globais de redução de emissões, o que mais uma mentira: apenas os EUA de Donald Trump manifestaram que sairiam do Acordo de Paris, ratificado por 185 países (inclusive os EUA).

Os últimos 5 anos (de 2014 a 2018) foram os 5 anos mais quentes de todo o registro histórico, iniciado em 1880. Entre os 10 mais quentes, apenas 1998 não pertence ao século 21. E, nesse contexto, os cientistas sérios não têm dúvidas: o planeta está aquecendo, as causas estão relacionadas a atividades humanas, especialmente as que sustentam o modo de vida dos mais ricos, e as consequências são e serão muito graves, sobretudo para os mais pobres.

O consenso sobre o tema, reconhecido no Acordo de Paris de 2015, é que para permanecermos em condições minimamente seguras, precisaríamos manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, sendo que acima de 2°C o risco de catástrofes cresce enormemente. Acima disso, a tendência é que haja uma quantidade muito grande de eventos extremos, quebras de safra agrícola, desabastecimento de água e outras mazelas.

E aí vem a questão mais grave. Um estudo recente do painel de cientistas do clima organizado pela ONU, o IPCC, mostrou que, para termos chances razoáveis de respeitar o limite de 1,5°C, é necessário cortar metade das emissões de gases de efeito estufa até 2030.

Isso significa que necessitamos de uma enorme mudança no modo de vida em nossa sociedade. Vamos precisar de novas fontes de energia, como a energia solar residencial, para abandonar as termelétricas a carvão e gás sem cair em falsas alternativas. Vamos precisar mudar radicalmente o sistema de transportes, apostando na combinação de transporte de massas eletrificado e locomoção ativa para superar o automóvel individual. Vamos precisar inclusive mudar a alimentação, priorizando gêneros de origem vegetal produzidos pela agricultura familiar através da agroecologia. Vamos precisar, sobretudo, colocar um ponto final na farra consumista de uma pequeníssima minoria de muito ricos, cujo modo de vida é insustentável em todos os aspectos e leva a emissões muito maiores do que as das pessoas mais pobres. E não há como fazer essas mudanças apenas no plano das escolhas individuais, sem políticas públicas. Em tais condições, dirigir-se a tomadores de decisão e formuladores de políticas com documentos repletos de mentiras e pseudociência é não apenas irresponsável. É coisa de patifes.

*Alexandre Araújo Costa é físico e professor de Ciências Atmosféricas da Universidade Estadual do Ceará. É integrante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e autor do blog O Que Você Faria se Soubesse o que Eu Sei?


Este artigo foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!]

Mudanças climáticas e seus padrões extremos de precipitação encontram um Brasil despreparado e nas mãos de governantes ineptos

Este slideshow necessita de JavaScript.

As chuvas torrenciais que estão causando inundações e quedas de barreiras na cidade de São Paulo e em toda a sua região metropolitana não surpreendem quem acompanha a evolução das mudanças climáticas e dos chamados eventos atmosféricos extremos que são parte do padrão que as acompanha (ver gráfico abaixo por Marengo e colaboradores, 2013 que mostra a variação das chuvas extremas em São Paulo entre 1930 e 2010).

EVENTOS EXTREMOS

Entretanto, no plano dos governos, esse padrão que combina grandes volumes de precipitação em pequenos períodos de tempo tem sido literalmente ignorado, como mostram os dados do desinvestimento promovido por Bruno Covas e João Dória, ambos do PSDB, como mostra reportagem da Rede Brasil Atual, onde se gastou um terço da verba de combate a enchentes em 2017 e 2018. Esta política de imprevidência frente às mudanças climáticas causou, entre outras coisas, a paralisação das obras de piscinões. O resultado dessa postura negacionista estão sendo vistos por toda a cidade de São Paulo, que acumula 601 pontos de inundação.

Pior ainda tem sido a postura do ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que vem trabalhando de forma decisiva para tornar o Brasil ainda mais despreparado para reagir aos crescentes desafios trazidos pelos novos padrões de precipitação associados às mudanças climáticas. É de Ricardo Salles, a frase pérola de que “a discussão de mudança climática deve ser feita pela academia. Temos questões mais prementes a resolver“.

eventos extremos 1

O problema agora é que não apenas o número de mortos e desabrigados em São Paulo vem aumentando ao minuto, mas como ainda estão previstas chuvas fortes para as próximas 48 horas, o que poderá aumentar ainda mais o rastro de destruição em face da rápida elevação das águas nas áreas já afetadas (ver abaixo vídeo com imagens estarrecedoras com a chegada das águas da chuva em uma residência).

A única forma de não ficarmos assistindo repetidas catástrofes causadas pela combinação de padrões extremos de precipitação e governantes ineptos será uma ampla mobilização social que force o desenvolvimento de novas formas de gestão urbana no Brasil. Ainda que a conjuntura política atual pareça adversa, a comunidade científica e a sociedade civil organizada terão de cumprir um claro papel de organizar as demandas sociais para que o atual modelo calcado num modelo de forte segregação sócio-espacial que isola pobres e ricos dentro de nossas cidades seja superado o quanto antes.  Do contrário, continuaremos contabilizando prejuízos e, pior, contando o número de mortos.

E que ninguém se deixe enganar por Ricardo Salles, não há questão mais premente na atualidade do que as mudanças climáticas. E nos preparar para isso será fundamental, a despeito dos Covas, Dòrias e Salles que lamentavelmente estão em postos chaves do Estado brasileiro.

Campos dos Goytacazes vivenciou o padrão atmosférico extremo das mudanças climáticas e mostrou o seu despreparo

1_whatsapp_image_2019_02_28_at_17_09_13-1297768
Se existe uma certeza no mundo científico nos tempos atuais é que o clima da Terra está passando por um forte padrão de mudança causado pela emissão de gases poluentes, mais popularmente conhecido como mudanças climáticas.
Esse padrão é responsável por alterar o ritmo e a intensidade dos eventos atmosféricos que passarão a ser extremos. Lamentavelmente, pouca atenção tem sido dada à necessidade de serem produzidos ajustes na forma de organização das cidades, de forma a preparar seus habitantes para o que parece inevitável a estas alturas do campeonato.
Esse preâmbulo é apenas para dizer que o que aconteceu ontem em Campos dos Goytacazes com ventos médios de 80 km/h e chuva intensa por algo em torno de 30 minutos, mas que serviu para criar um rastro de destruição por toda a cidade, é apenas um aperitivo do que pode estar por vir nas próximas décadas.


Imagens de destruição na cidade de Campos dos Goytacazes são o prenúncio do que virá com as mudanças climáticas. Fonte: Isaías Fernandes, Folha da Manhã.
Frente a esse cenário é forçoso reconhecer que a atual administração municipal comandada pelo jovem prefeito Rafael Diniz conseguiu piorar uma área que nunca foi, digamos, muito lustrosa que é a do meio ambiente.
Venho falando, por exemplo, dos problemas que temos na área da arborização urbana desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em 1998, mas parece que minha mensagem sempre cai em ouvidos mocos. Entretanto, entre uma administração e outra tivemos alguns lapsos de melhoria e até algumas sinalizações de que teríamos um plano diretor de arborização. Entretanto, passados mais de dois anos da atual gestão, desconhece-se qualquer ação nesse sentido. E, pior, o que venho assistindo é a paulatina destruição do pouco que foi construído.
A queda de árvores no padrão de ventos intensos que predominaram ontem é devido ao fato de terem sido plantadas espécies de rápido crescimento (mormente leguminosas) mas que possuem raízes emergentes. Se houvesse um mínimo de cuidado e atenção com que a ciência climática vem alertando, a cidade de Campos dos Goytacazes não só estaria plantando mais árvores, mas como também estaria optando por espécies que possuam raízes profundas. E há que se lembrar que no mundo das mundaças climáticas, as árvores serão nossas grandes aliadas.
A minha expectativa é que o episódio de ontem sirva de alerta para a chegada do mundo novo das mudanças climáticas onde eventos atmosféricos extremos serão a sua principal marca. E que o jovem prefeito Rafael Diniz saia da seu eterno discurso (de fachada) de que buscará expertise científica nas universidades que atuam em Campos dos Goytacazes para estabelecer mecanismos que nos preparem para a repetição do que atingiu a nossa cidade no dia de ontem. E que ninguém se iluda, o que se viu ontem é apenas o começo deste novo tempo que as mudanças climáticas causarão. A inércia representará a certeza de grandes perdas econômicas e humanas.

Desflorestamento da Amazônia, já em ascensão, pode subir sob Bolsonaro

walker 0

Por Robert T. Walker*

Nos últimos 25 anos em que tenho conduzido pesquisas ambientais na Amazônia, testemunhei a destruição contínua da maior floresta tropical do mundo. Vinte por cento disso já foi desmatado até agora – uma área maior que o Texas.

Por isso, fiquei esperançoso quando as políticas ambientais começaram a entrar em vigor na virada do milênio, e a taxa de desmatamento caiu de quase 17.600 km2 por ano para menos de 3.200 ao longo da década posterior a 2004.

Mas um novo clima político no Brasil, que se instalou antes mesmo de o presidente Jair Bolsonaro tomar posse em janeiro de 2019, levou a um aumento recente no ritmo de derrubada da floresta tropical. E Bolsonaro, um ex-oficial do exército, fez do desenvolvimento da Amazônia uma importante promessa de campanha.

walker 1

O rio Tapajós, a jusante de onde uma represa poderia ser construída. Robert T. Walker, CC BY-SA 

Represando o Tapajós

O que está em jogo é o que acontece com a região ao redor do rio Tapajós, um dos maiores afluentes da Amazônia e que abriga cerca de 14.000 pessoas da tribo Munduruku. Os Munduruku até agora desaceleraram com sucesso e aparentemente pararam muitos esforços para transformar os Tapajós no “Mississippi do Brasil”.

O rio Tapajós é o último afluente de águas claras da Amazônia sem represas. A bacia que a cerca é aproximadamente igual a 15% da Amazônia brasileira e do tamanho da França. Esta área remota tem uma grande biodiversidade e suas árvores armazenam grandes quantidades de carbono.

Como a floresta amazônica absorve grande parte do carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis, os cientistas do clima consideram sua preservação fundamental para evitar um aumento no ritmo do aquecimento global.

walker 2

O Brasil está planejando construir uma série de grandes novas hidrelétricas e redes de hidrovias, ferrovias, portos e estradas que possam superar os obstáculos logísticos que impedem a exportação de commodities e outros bens

O governo suspendeu os planos para construir uma barragem de 8.000 megawatts no centro deste amplo projeto em 2016. Na época, citou a “inviabilidade do projeto dado o componente indígena” e declarou que deixaria de construir grandes barragens em 2018, antes de Bolsanaro tomar posse. 

No entanto, muitos observadores continuam muito preocupados sobre como a presidência de Bolsonaro afetará os Munduruku e a floresta tropical que eles protegem. Grupos como a International Rivers – uma organização sem fins lucrativos dedicada à “proteção dos rios e dos direitos das comunidades que dependem deles” – não estão prestes a declarar vitória. 

O estratagema sul americano 

Os planos de desenvolvimento da Amazônia no Brasil são parte de uma estratégia mais ampla que inclui todas as nações sul-americanas. Concebida pela primeira vez em 2000, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul foi projetada para construir uma economia continental por meio de novas infraestruturas que fornecem eletricidade para a industrialização e facilitam o comércio e o transporte. 

Conhecida amplamente por suas abreviações espanhola e portuguesa como IIRSA, essa iniciativa está transformando a Amazônia, 60% da qual está localizada em território brasileiro, em uma fonte de energia hidrelétrica e um centro de transporte que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. Será mais fácil transportar soja brasileira para os mercados globais, e a produção de manufaturas se expandirá, estimulando o crescimento populacional na Amazônia. 

O projeto para desenvolver a Amazônia, que também inclui partes do Peru, Bolívia e outros seis países, prevê a construção de mais de 600 represas, 19.940 km de cursos d’água, cerca de 1,2 milhões de km de estradas, uma ferrovia transcontinental e um sistema de portos, grande parte no deserto tropical. 

Uma nova onda de desenvolvimento

Bolsonaro ainda não enfrentou os Munduruku ou tomou ações concretas para manter suas promessas sobre o desenvolvimento da Amazônia. Mas ele tomou medidas que apontam nessa direção com os funcionários que ele selecionou para os principais cargos. Ele também transferiu responsabilidades para a demarcação de terras indígenas do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura, que uma lobista do agronegócio está chefiando

walker 3

Um complexo de barragens, estradas e canais comerciais poderia transformar a remota bacia do rio Tapajós em um centro comercial sul-americano no coração da floresta amazônica. Michael P. Waylen / Universidade da Flórida, CC BY-SA

Os planos do novo presidente brasileiro para a Amazônia vêm depois de décadas de desmatamento após a construção de estradas e hidrelétricas durante as décadas de 1960 e 1970. Esta onda inicial de construção abriu a região pouco povoada a um influxo de recém-chegados e contribuiu para a destruição de cerca de um quinto da floresta ao longo de quatro décadas. 

Depois veio uma onda de políticas ambientais mais fortes – como a aplicação mais rigorosa das leis de exploração madeireira, a expansão de áreas protegidas e a decisão voluntária dos produtores de soja de abster-se de derrubar a floresta – que reduziu a taxa de desmatamento da Amazônia brasileira após 2000. Pareceu-me e outros que uma nova era de conservação da Amazônia havia começado

Mas isso foi antes de entender todas as implicações da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul. 

Este plano é muito mais ambicioso do que os projetos anteriores de infraestruturas concluídos no final da década de 1970, e creio que poderia causar ainda mais destruição. 

Caso todos os seus componentes sejam construídos, a nova infraestrutura de transporte e energia provavelmente desencadearia uma nova onda de desmatamento que temo que possa ter impactos desastrosos sobre as comunidades indígenas que vivem na região. Os novos projetos precisam apenas repetir o que os projetos anteriores fizeram. Isso traria o desmatamento total para 40%. 

Cientistas do clima, como Carlos Nobre, temem que essa perda de floresta leve a Amazônia a um “ponto de inflexão” e prejudique o processo de reciclagem de chuvas, que reabastece o suprimento de água da Amazônia. O resultado seria um clima mais seco na Amazônia, que já começou a experimentar secas e a transformação da floresta em savana. Os povos indígenas sofreriam e a biodiversidade da Amazônia desapareceria. 

Um aumento maciço no ritmo do desmatamento na Amazônia poderia provocar mudanças climáticas nas Américas do Sul e do Norte. Os cientistas prevêem que a precipitação diminuiria em muitas áreas das Américas, incluindo a parte sudeste da América do Sul e o Vale do Rio Mississippi. O mundo inteiro sofreria com a redução da produção agrícola nessas duas regiões, que são importantes fornecedores globais de commodities agrícolas como o milho e a soja

walker 4

Atacando a Amazônia

Certamente, parte dessa construção já está em andamento no Brasil, principalmente para hidrelétricas. Até agora, 140 barragens foram construídas ou estão em construção, notavelmente a barragem de Belo Monte no rio Xingu e as barragens de Santo Antônio e Jirau nos rios Madeira. E os antecessores de Bolsonaro haviam reduzido algumas das áreas protegidas da Amazônia para facilitar o desenvolvimento.

Essas áreas protegidas cobrem 43% da Amazônia brasileira e são essenciais para manter a biodiversidade e seqüestrar carbono.

Quando Bolsonaro se dirigiu aos líderes mundiais no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, pela primeira vez, ele prometeu proteger o meio ambiente em seu país – que ele chamou de “um paraíso“.

Eu continuo cético, no entanto, dado que ele parece estar trabalhando em seu governo em preparação para projetos de construção que poderiam devastar a Amazônia, reduzindo sua biodiversidade e destruindo seus tesouros ecológicos e culturais.


*Robert T. Walker é Professor de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo site “The Conversation” [Aqui!]

The Guardian: Jair Bolsonaro alarma ativistas do clima com discurso pró-negócios

Novo presidente brasileiro destaca necessidade de crescer na economia em Davos

Jair Bolsonaro diz que vai “abrir” a economia do Brasil em discurso pró-negócios em Davos – vídeo

Por  in Davos para o “The Guardian” [1]

O novo presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, despertou novo alarme entre ambientalistas depois de salientar que proteger o ecossistema único de seu país tem que ser consistente com o crescimento da economia.

Em comentários que fizeram pouco para amenizar os temores dos riscos que uma estratégia de crescimento representaria para a região amazônica, Bolsonaro usou sua primeira viagem ao exterior desde que assumiu o controle no início do ano para delinear uma agenda fortemente pró-negócios.

O novo discurso do presidente no Brasil, no Fórum Econômico Mundial em Davos, delineou uma agenda de privatização para redução de impostos, projetada para reduzir o tamanho do Estado e encorajar o empreendedorismo.

“Agora é nossa missão avançar na harmonização da preservação ambiental e da biodiversidade com o tão necessário desenvolvimento econômico”, disse ele.

Um dos primeiros atos de Bolsonaro foi transferir o controle da regulamentação e a criação de reservas indígenas para o ministério da agricultura, que é controlado pelo lobby do agronegócio no Brasil. Essa medida foi amplamente criticada por grupos ambientalistas, mas Bolsonaro disse a seu público de líderes empresariais que a proteção da natureza era consistente com o desenvolvimento econômico.

“A agricultura não representa mais do que 9% do nosso território e cresceu graças à tecnologia e ao trabalho árduo dos agricultores”, disse ele. “Nenhum outro país no mundo tem tantas florestas quanto nós.” A economia e o meio ambiente eram interdependentes e inseparáveis, acrescentou o presidente.

José Gregorio Mirabal, coordenador geral do Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia do Rio Amazonas (COICA), disse: “A elite econômica e política mundial em Davos hoje não deve se distrair com os esforços de Bolsonaro para acalmar os investidores interessados ​​em investir no Brasil. O ataque de Bolsonaro aos povos e florestas de seu país ameaça todos os povos e florestas da Amazônia e coloca em risco os esforços globais para enfrentar as mudanças climáticas ”.

Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace International, disse que a atitude de Bolsonaro em relação à Amazônia foi uma das maiores ameaças ao meio ambiente. “Estamos trabalhando com aliados e trabalharemos para defender tudo o que pudermos, porque a Amazônia não é apenas uma floresta incrível, é o pulmão da Terra e desempenha um papel extremamente importante no clima”, disse ela.

Bolsonaro, cujo filho Flavio está sendo investigado por supostas irregularidades financeiras, disse que seus ministros estavam comprometidos em reprimir a corrupção e a lavagem de dinheiro. “Tomei posse em meio a uma grande crise ética, moral e econômica. Estou comprometido em mudar nossa história ”, disse ele.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]

A “Trumpização” das políticas ambientais terá efeitos drásticos para o Brasil, a começar pela sua combalida economia

trump-bolsonaro-628x353

A “Trumpização” da agenda ambiental brasileira trará múltiplos riscvos para a economia nacional. 

Os primeiros dias do governo Bolsonaro evidenciaram uma espécie de “Trumpização” da agenda ambiental no Brasil, a começar pelas questões relacionadas às mudanças climáticas, às ações contra o desmatamento e à proteção das comunidades indígenas. Como bem mostrou o jornalista Maurício Tuffani no site “Direto da Ciência“, várias medidas sinalizaram um enfraquecimento das estruturas de “comando e controle” das estruturas governamentais que haviam sido criadas para tratar desses assuntos estratégicos para o estabelecimento de um mínimo de governança ambiental no país que contém a maior extensão de florestas tropicais do planeta [1].

Por detrás dessa guinada estão interesses econômicos de diferentes atores para os quais a existência de estruturas que permitiram avanços na proteção de biomas florestais e povos originários são um impecilho para o saque das riquezas existentes no território brasileiro. E por isso que se está enfraquecendo o Ministério do Meio Ambiente e se deslocou a FUNAI para o interior do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. 

Antecipo que em breve serão dirigidos ataques aos segmentos da comunidade científica brasileira que têm oferecido valiosas contribuições para o entendimento das mudanças climáticas e do processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Esses cientistas, muitos deles de grande reconhecimento internacional, estarão sob ataque por representarem barreiras objetivas ao pensamento anti-científico que guia o desmanche que está sendo operado nas estruturas de governança ambiental.

Por isso considero importante que se leia  entrevista concedida por Katharine Hayhoe,  cientista atmosférica e diretora do Centro de Ciências Climáticas da Texas Tech Univers A doutora Hayhoe contribui em mais de 125 artigos científicos e ganhou vários prêmios por seu trabalho de comunicação científica. Em 2018, ela contribuiu para a produção do relatório “Avaliação do Clima Nacional dos EUA”, tendo ainda recebido o Prêmio Stephen H Schneider de excelente comunicação sobre ciência climática [2].

climate 1

Os bombeiros observam as chamas subirem a encosta de uma colina em Guinda, Califórnia, em julho de 2018. Foto: Josh Edelson / AFP / Getty Images

Pois bem, em sua entrevista, Katherine Hayhoe ofereceu uma síntese bem prática para os negacionistas das mudanças climáticas quando usou a afirmativa de “um termometro não é nem liberal nem conservador” para criticar os que hoje usam táticas diversionistas para negar as mudanças climáticas em vez de iniciar um debate sério sobre as consequências das mesmas.  

Neste sentido, as ações do governo Bolsonaro para desmantelar as estruturas existentes para a proteção do ambiente trazem ainda o mesmo discurso anti-científico que foi adotado pelo governo Trump para atender os interesses das corporações que lucram com os combustíveis e fazer uma espécie de congelamento das ações que haviam sido estabelecidas pelos EUA para tratar das mudanças climáticas.

Entretanto, há que se lembrar mais uma vez que a pior coisa que o Brasil pode fazer é “Trumpizar” a sua agenda ambiental, retirando-se, por exemplo, do Acordo Climático de Paris. É que, como o boicote convocado em editorial pelo jornal estadunidense “The Washigton Post” certamente será apenas o primeiro caso as tendências surgidas nos primeiros dias do governo Bolsonaro sejam cristalizadas e aprofundadas [3].  Como o Brasil depende hoje diretamente das suas exportações de commodities agrícolas e minerais, a tentação de imitar o governo Trump certamente trará consequências drásticas para a economia brasileira.