Um estudo recente liderado pelo Instituto Mamirauá para o Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, revelou que os lagos da Amazônia estão aquecendo até 0,8°C por década, ultrapassando a média global. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.
Por Xilena Pinedo para a SciDev
[LIMA, SciDev.Net ] Entre setembro e outubro de 2023, uma onda de calor extrema aqueceu os rios e lagos da Amazônia. No Lago Tefé, no coração da floresta amazônica brasileira, barcos ficaram à deriva, milhares de peixes morreram eimagens de botos mortos circularam pelo mundo.
“Estava muito calor, o sol estava quente, a água estava quente, a lama estava quente, tudo estava quente. Nunca tinha visto nada igual”, recorda Silas Rodrigues, presidente da comunidade Bom Jesus, às margens do Lago Tefé.
Agora, um estudo científico confirma que o lago onde Rodríguez vive há quase quarenta anos atingiu 41°C no auge da seca. A pesquisa, liderada pelo Instituto Mamirauá de Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, e publicada na revista Science Advances , revela também que as águas da Amazônia estão aquecendo a uma taxa sem precedentes: cerca de 0,8°C por década, bem acima da média global.
A morte de peixes e botos no Lago Tefé, na Amazônia brasileira, chamou a atenção para o aumento das temperaturas nos rios e lagos da região. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.
“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos”, disse Ayan Fleischmann, autor do estudo e pesquisador do Instituto Mamirauá, à SciDev.Net .
A pesquisa, que contou com a participação de especialistas internacionais, combinou observações de campo para registrar o que estava acontecendo durante a seca de 2023 com análises de imagens de satélite para compreender as mudanças ocorridas nas últimas três décadas. Além disso, utilizando modelos matemáticos, a equipe identificou as razões pelas quais as águas da Amazônia estão aquecendo tão rapidamente.
Os resultados revelaram que cinco dos dez lagos monitorados na Amazônia central registraram temperaturas diurnas superiores a 37°C. O Lago Tefé registrou o valor mais alto observado até o momento, 41°C, temperatura considerada acima do limite de tolerância para a vida aquática. “Esses valores são muito superiores às temperaturas típicas desses ecossistemas: a temperatura média da água superficial durante o dia em lagos tropicais geralmente varia entre 29°C e 30°C”, indica o estudo.
“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, um processo tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos.”
Ayan Fleischmann, pesquisador do Instituto Mamirauá
Entre outras descobertas, o estudo revela que a área da superfície do Lago Tefé diminuiu 75%, e no Lago Badajós, a redução chegou a 92%. Essa diminuição significativa da área da superfície da água se deveu à queda dos níveis dos rios, e a pouca profundidade coincidiu com um aquecimento excepcional dos corpos d’água.
Além disso,dadosde satélite de 24 lagos brasileiros mostraram que o aquecimento registrado em 2023 não foi um evento isolado. Desde 1990, as temperaturas da água superficial na Amazônia aumentaram em média 0,6°C por década, com tendências que chegam a 0,8°C em alguns lagos, como Tapajós, Amanã e Janauacá.
Fleischmann enfatiza que esses dados demonstram uma tendência contínua de aquecimento nos lagos amazônicos, onde ainda há muito pouco monitoramento. Andrea Encalada, pesquisadora do Painel Científico para a Amazônia, que não participou do estudo, concorda.
O cientista equatoriano especializado em ecologia de rios tropicais disse à SciDev.Net que essas descobertas mostram claramente comoas mudanças climáticasestão alterando os sistemas de água doce na região tropical.
“As descobertas de Fleischmann e seus colegas são profundamente reveladoras e alarmantes. O que está acontecendo nos lagos da Amazônia não é um incidente isolado, mas um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas”, conclui ele.
Um chamado da Amazonia
A seca de 2023 deixou cicatrizes profundas. “Muitos peixes morreram e havia um cheiro horrível. A água estava muito poluída”, conta Rodrigues. Fleischmann, por sua vez, lembra-se de quando, em setembro, os pescadores de Tefé foram ao Instituto Mamirauá para relatar a morte de botos no lago. Esse incidente marcou o início de sua pesquisa.
“Quando um rio ou lago amazônico seca, a vida das pessoas que tanto dependem dele para seutransporte, sua vida e sua cultura também seca”, reflete ele.
Os efeitos nos lagos amazônicos são um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.
Portanto, os especialistas enfatizam a importância de fortalecer a cooperação entre a ciência e as comunidades locais para lidar com os futuros eventos climáticos. Rodrigues insiste que os estudos técnicos devem ser conduzidos “em conjunto com as comunidades ribeirinhas, para evitar danos ao meio ambiente ou às pessoas”.
Fleischmann compartilha dessa visão e a levará consigo para a COP30, que está sendo realizada em Belém, no Brasil. “Precisamos investir em ciência, tecnologia e monitoramento em conjunto com as comunidades locais; não se trata de uma campanha de um ou dois anos, mas de um esforço contínuo”, alerta ele.
Para Encalada, a prioridade é fortalecer as redes de monitoramento. “A Amazônia é um sistema sentinela para o planeta. Se até mesmo seus ecossistemas aquáticos estão atingindo seus limites de resiliência, significa que já estamos perto de pontos de inflexão ecológicos”, enfatiza.
Casa de repouso, centro cultural e econômico – a conferência sobre o clima está chegando à Amazônia
Muitas obras estão sendo realizadas em Belém em preparação para a Cúpula Mundial do Clima. Mas isso ainda é fachada. Foto: AFP/Anderson Coelho
Por Lea Schlude para o “Neues Deutschland”
A Praça Batista Campos é um oásis verde no centro histórico de Belém, no norte do Brasil, um tanto decadente. O amplo complexo de lagoas é inspirado na paisagem amazônica: pavilhões de ferro fundido delicadamente decorados oferecem abrigo contra a chuva tropical da tarde; samaúmas, com seus troncos altos e esguios, projetam-se dos bambus e mangueiras. Centenas de grous-brancos brincam nas copas das árvores à noite.
A praça é um monumento à Belle Époque de Belém — lar de barões da borracha, figuras literárias e passeantes, famosa por suas extensas avenidas de mangueiras. Com o fim do ciclo da borracha, por volta de 1900, e a chegada de grandes ondas de imigração europeia ao sul do Brasil, a cidade gradualmente perdeu sua importância.
Flávia Do Amaral Vieira convida você para um passeio depois do trabalho. A formada em direito ambiental está desenvolvendo estratégias para a justiça climática a partir da perspectiva amazônica com o Comitê da sociedade civil COP 30. A conferência do clima que acontece aqui em novembro evoca nela sentimentos contraditórios: “Temos uma oportunidade única de chamar a atenção do mundo para a emergência em nossa região”, diz a belenense. “Por outro lado, a COP é um evento de lobby para as indústrias de combustíveis fósseis e minerais.” Ela acusa o governador Helder Barbalho de explorar a cúpula “para o turbodesenvolvimento da região sem levar em conta o meio ambiente”.
Segundo Vieira, ONGs estrangeiras têm demonstrado até agora pouca consciência de que a região é densamente povoada e altamente industrializada. “A selva arcádica desapareceu desde o boom da borracha.” Vinte e oito milhões de pessoas vivem na Amazônia brasileira, a maioria em situação de pobreza. Com a associação “Rede Amazônidas pelo Clima”, Vieira defendeo desenvolvimento econômico sustentável com base no modelo de manejo florestal indígena. “Só podemos fazer a diferença se possibilitarmos uma transformação autodeterminada.”
Belém é a capital do Pará. O estado mais pobre do Brasil, com uma área 3,5 vezes maior que a da Alemanha, é também uma das regiões mais ricas em recursos naturais do mundo. As licenças para extração de matérias-primas são detidas por empresas multinacionais da Europa, América do Norte e China. A renda per capita média é equivalente a € 5.500 por ano — metade da renda do sul industrializado do Brasil. O Pará também detém o triste recorde nacional de desmatamento. “Atividades ilegais na floresta tropical são, antes de tudo, um sintoma de injustiça social. As pessoas precisam de meios de subsistência alternativos; só assim a proteção ambiental poderá ser efetivamente aplicada”, afirma Vieira.
Os impactos das mudanças climáticas já são dramáticos: em outubro de 2024, a Amazônia atingiu seu nível de água mais baixo desde o início dos registros. Milhões de pessoas ficaram sem acesso a alimentos, escolas e assistência médica porque os rios — muitas vezes o único meio de transporte — não eram mais navegáveis. Vieira está convencido de que a mudança só pode ser alcançada por meio da cooperação com os países importadores e de investimentos sustentáveis em infraestrutura pública.
A cidade-sede da COP 30 não carece de significado simbólico. Outrora um orgulhoso posto avançado português na luta pela supremacia colonial, Belém é hoje um centro cultural com uma herança indígena afro-brasileira única. A bem preservada fortaleza da cidade foi construída em 1616 para repelir os franceses e holandeses, mas também para esmagar a resistência armada dos habitantes indígenas dos povos Tupinambá e Pacajá. Eles chegaram a ocupar a fortaleza brevemente em 1619. O centro histórico barroco, com suas pinturas coloridas, esconde as atrocidades cometidas contra a população indígena e afro-brasileira. Os vestígios mais antigos de uma civilização avançada, vasos e urnas com delicados padrões geométricos da ilha de Marajó, datam de 400 d.C. e podem ser admirados no museu da fortaleza.
Da muralha da fortaleza, você tem a melhor vista do mercado ribeirinho de Ver-o-Peso, um mercado atacadista e paraíso gourmet ao mesmo tempo. Aqui você encontra todos os tipos de frutas e peixes, licores e óleos feitos de plantas amazônicas, ervas medicinais e banhos purificadores para todos os tipos de doenças, baseados na religião Umbanda, que combina o animismo indígena com o espiritualismo da África Ocidental e o cristianismo.
Amazon e saídas
nd/stephanie Schoell
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começa em 10 de novembro no Brasil – bem no coração de um país onde a floresta amazônica está desaparecendo a um ritmo alarmante. Nossa série mostra a rapidez com que o desmatamento está progredindo – e quais soluções existem para o desenvolvimento econômico sustentável.
Todo primeiro domingo do mês, a cena local se reúne para a tradicional dança do Carimbó, que perpetua a resistência afro-indígena da região. Atrás da banda, estivadores carregam toneladas de açaí fresco. Katia Silene serve peixe frito em sua barraca, acompanhado de uma tigela de purê de açaí com polvilho crocante de mandioca. Ela simplesmente balança a cabeça ao perceber que o açaí, altamente nutritivo, está se tornando um ingrediente de cereal na Europa. Belém foi reconhecida como um polo gastronômico da UNESCO – os ingredientes da culinária regional refletem a biodiversidade única da região: peixe, mandioca, coco, bacurí, tapereba, cupuaçu e, claro, açaí.
Dona Silene espera que a conferência do clima atraia um grande público e boas vendas. “Depois da COP, vou passar alguns dias de férias à beira-mar com meu filho; sonho com isso há anos.” Fora isso, ela trabalha no mercado do amanhecer ao anoitecer, sete dias por semana, desde os oito anos de idade. Com cinco dias de férias por ano.
Como muitos outros na cidade de dois milhões de habitantes, Silene espera que a COP 30 revitalize o centro histórico. Ruas inteiras estão em ruínas, mas oferecem abrigo para pessoas que, de outra forma, não teriam onde morar. O uso de crack é alto. No meio delas, erguem-se prédios altos, para onde a classe média alta se refugiou. O bairro de Nazaré, no centro da cidade, tem os preços imobiliários mais altos e também é a área mais perigosa da cidade. Quem paga aluguel aqui se locomove exclusivamente de Uber ou carro próprio. “Se eu fosse prefeito, teria contratado os muitos jovens nas ruas para trabalhar nas obras da COP e fornecido a eles apartamentos e oficinas. Há muita vaga. Mas nada disso aconteceu”, diz Silene.
Embora o governador Helder Barbalho, do Partido Democrático Brasileiro (PDB), com seu profundo conhecimento em relações públicas, fale muito sobre “desenvolvimento sustentável”, ele se refere principalmente a estradas, pontes e instalações portuárias aceleradas. Com a fórmula mágica “bioeconomia”, ele promove uma economia baseada em matérias-primas com forte crescimento e o mínimo de regulamentações ambientais possível. O plano também inclui o manejo florestal sustentável, mas visa principalmente o agronegócio e a mineração.
Desde a conquista da COP, a cidade tem sido inundada com anúncios de projetos de infraestrutura. Atrás dos outdoors, há canteiros de obras que não serão mais concluídos no prazo. Não há sinal de uma campanha sobre proteção ambiental e metas climáticas concretas. Educar ou envolver a população definitivamente não é um dos objetivos da dinastia Barbalho, que está no poder no Pará há décadas. Seu pai já foi governador, sua mãe é deputada federal e sua esposa ocupa um alto cargo no Tribunal de Contas. Há um ano, houve um escândalo: quando o Ministério Público Federal ameaçou o governo do Pará com estado de emergência em vista do desmatamento recorde, Barbalho demitiu seu ministro do Meio Ambiente. O cargo foi assumido por um jovem protegido que imediatamente desbloqueou dois projetos de construção paralisados: uma barragem e uma estrada na região de Belém, que atravessa uma reserva natural.
Martha Santos abre um dos cocos empilhados em uma cesta ao lado do quiosque que administra com o parceiro há 30 anos. Como muitos vendedores ambulantes e diaristas, ela se desloca diariamente de uma das 42 ilhas da região metropolitana para a cidade. Seu negócio lhe fornece o que precisa para sobreviver. Felizmente, diz ela, sua barraca só foi assaltada uma vez. Ela está cética em relação à COP: além de melhorias estéticas nas principais vias de tráfego e alguns hotéis de luxo em vilas históricas restauradas, ela prevê uma enorme montanha de resíduos plásticos; não há nenhuma unidade de reciclagem na região.
Apenas três prédios públicos foram reformados, incluindo o histórico mercado municipal de São Brás e o antigo cais do porto. Um novo parque de cinco quilômetros de extensão também abrigará o centro de convenções. O sistema de esgoto e a estação de tratamento de águas residuais do distrito central foram inaugurados há duas semanas – em todos os outros lugares, as águas residuais continuam a fluir sem filtragem para o Rio Guamá.
Cinquenta mil convidados são esperados para a cúpula em uma cidade que mal conheceu o turismo internacional. A especulação sobre os preços dos poucos quartos de hotel já está causando indignação na mídia. O governo fretou três navios de cruzeiro para criar mais 15.000 leitos – os danos ecológicos são inevitáveis. As vítimas: moradores dos subúrbios, cujo sustento depende do ecossistema fluvial. Mesmo nas imediações do centro da cidade, a maioria vive da pesca e da silvicultura, individualmente ou em cooperativas que vendem seus produtos a intermediários a preços baixos. Belém fica às margens do Delta do Amazonas, entre a floresta tropical e o maior manguezal costeiro intacto do mundo.
As empresas multinacionais estão satisfeitas com a expansão da infraestrutura às custas do Estado– o plano de investimentos do governo equivale ao equivalente a 743 milhões de euros.Produtores de petróleo e gás, empresas químicas e alimentícias como Nestlé e Coca-Cola, que há algum tempo compram fontes de água na região, têm seus próprios terminais portuários em Belém. Matérias-primas preciosas de todos os tipos e cores saem do porto diariamente – segundo estimativas atuais, isso inclui 40% das vendas globais de cocaína. A rota amazônica ganhou considerável importância desde que a “Guerra às Drogas” dos EUA dificultou a passagem pelo México.
O passeio termina em frente ao marco da cidade, o Teatro da Paz, de cor carmesim . Ele ostenta um sistema de ventilação revolucionário que permitiu aos barões da borracha desfrutar de uma ópera agradável, apesar das temperaturas tropicais. Sua acústica é considerada a melhor de toda a América do Sul. O design de interiores, com sua mistura eclética de artesanato português e indígena, fala das raízes da cidade, mas também de sua utopia não realizada. No elaborado mosaico do foyer, árvores samaúma estilizadas e sapos — símbolos de boa sorte na cultura Tupinambá — entrelaçam a cruz vermelha e branca da coroa portuguesa. Acima dele, pende um imponente lustre de cristal, especialmente criado em Paris com base no modelo de nenúfares da Amazônia. O piso de parquet, feito de madeiras tropicais claras e escuras, é colocado no padrão de um símbolo indígena da paz.
Os requintados chocolates artesanais, que podem ser degustados na cidade e em passeios de barco até a Ilha do Combú, anunciam a transformação que aguarda Belém. Com preços equivalentes a € 5, eles só são acessíveis para visitantes. O salário médio mensal em Belém é de € 500. “Pela primeira vez, discutiremos a importância da Amazônia na Amazônia, e não no Egito, Berlim ou Paris”, disse o presidente Lula na cerimônia. Ainda não se sabe se isso fará diferença.
Uma visão aérea do rio Manicoré, no interior da floresta amazônica, estado do Amazonas, Brasil, em 7 de junho de 2022 (AFP / MAURO PIMENTEL)
Por Gaëlle GEOFFROY , e Manon JACOB , AFP França , AFP EUA
Os céticos do clima estão mirando novas pesquisas sobre a Amazônia para minimizar o impacto do aquecimento global nas florestas tropicais enquanto o Brasil se prepara para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém, em novembro de 2025, mas especialistas — incluindo os autores do artigo — dizem que as alegações são mal interpretadas.
O artigode 25 de setembro de 2025 , intitulado “Aumento do tamanho das árvores na Amazônia”, foi publicado na Nature e abordadoem diversosveículos científicos (arquivado aqui).
Durante um período de 30 anos, pesquisadores de cerca de sessenta universidades ao redor do mundo monitoraram mudanças na floresta amazônica em 188 áreas permanentes e observaram um aumento de 3,3% no tamanho médio dos troncos das árvores por década, juntamente com um aumento notável tanto no número quanto no tamanho das árvores maiores.
Os pesquisadores concluíram que o aumento de CO2 atmosférico é o fator mais provável — embora possivelmente não o único — para explicar esse fenômeno.
Mas três autores do estudo, bem como cientistas independentes que falaram à AFP, disseram que essas alegações interpretam mal os estressores climáticos existentes na região, onde líderes mundiais se reunirão para as negociações climáticas da ONU em novembro.
A autora correspondente Becky Banbury Morgan , pesquisadora associada da Universidade de Bristol, disse à AFP em 1º de outubro que as conclusões da pesquisa sobre árvores e CO2 não refutam os impactos do aquecimento na Amazônia (arquivado aqui).
“Este artigo mostra como essas florestas mudaram nas últimas décadas, mas não sabemos o que acontecerá no futuro ou se esse crescimento continuará”, disse ela, acrescentando que a pesquisa foi observacionale não baseada em testes experimentais (arquivado aqui).
A coautora Adriane Esquivel Muelbert, da Universidade de Birmingham, concordou, dizendo em 1º de outubro que “é extremamente provável que com maior CO2 atmosférico, levando a temperaturas mais altas e condições climáticas extremas, essas florestas sejam grandemente afetadas” (arquivado aqui).
Roel Brienen , outro coautor da Universidade de Leeds, disse à AFP em 9 de outubro que o estudo “certamente não é um apelo para dizer que o CO2 é bom e que ainda precisamos de um ‘pouco mais dele’ simplesmente porque as plantas o usam” (arquivadoaqui).
A floresta continua vulnerável
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Esta vista aérea mostra uma área degradada da floresta amazônica, perto da terra indígena Koatinemo, no estado do Pará, Brasil, em 12 de junho de 2025 (AFP / Carlos FABAL)
Cientistas dizem que há muitas ameaças climáticas atuais e futuras para a Amazônia.
Maiores concentrações de CO2 devido às mudanças climáticasaceleramepisódios de seca na região, o que afetaas árvores (arquivadoaqui).
A Amazônia está enfrentando secas recordes, disse Carlos Nobre , cientista do sistema terrestre do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (arquivado aqui).
“No futuro, esses impactos negativos podem superar qualquer efeito positivo da fertilização com CO2, então temos que continuar monitorando essas florestas para ver como elas responderão”, disse Banbury Morgan à AFP.
Bernardo Flores , cientista da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil, acrescentou que o artigo da Nature deixou espaço para possíveis interpretações errôneas ao omitir “fatores-chave” (arquivadosaqui).
“A conclusão de que a fertilização com CO2 está causando os aumentos observados na abundância de árvores de grande porte na Amazônia é puramente hipotética”, disse ele em 9 de outubro. “Isso exigiria testes experimentais e modelagem.”
“Embora os níveis de CO2 possam de fato fertilizar as florestas tropicais, eles também podem aumentar a mortalidade de árvores e as emissões de carbono”, disse ele.
Brienen, da Universidade de Leeds, concordou, observando que o mesmo período também viu as taxas de mortalidade de árvores na Amazônia “aumentando”.
Ele disse que a fertilização com CO2 também poderia reduzir um processo conhecido como transpiração florestal— pelo qual as árvores transportam água do solo para seus poros, criando vapor que tem um efeito local de nebulização e resfriamento — em toda a Amazônia , “tornando o sistema como um todo menos resiliente” (arquivadoaqui).
Mudanças atuais e projetadas na composição da floresta amazônica devido às emissões de carbono têm sido destacadas por vários estudos, incluindo algunsdos mesmos autores da pesquisa em questão (arquivadosaqui).
Desmatamento e incêndios
A Amazônia também enfrenta a ameaça do desmatamento, impulsionado principalmente pela agricultura e pelo desenvolvimento de infraestrutura.
Usando dados coletados ao longo de 40 anos, de 1985 a 2024, a rede de monitoramento Mapbiomasdeterminou que a Amazônia perdeu uma área aproximadamente do tamanho da Espanha ou do estado do Texas — 49,1 milhões de um total de 420 milhões de hectares.
Alguns cientistas , incluindo Nobre, estimam que os ecossistemasno leste, sul e centro da Amazônia estão se aproximando de um ponto crítico de perda de 20 a 25 por cento da vegetação nativa, além do qual a floresta não seria mais capaz de sobreviver em seu estado atual (arquivado aquie aqui).
O Brasil e os países da Amazônia — incluindo Bolívia, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Guiana — vivenciaram um grande aumento de incêndios em 2024.
A crescente atividade de incêndios florestais e os altos níveis de desmatamento já transformaram partesda Amazônia em fontes líquidas de carbono, o que significa que certas áreas emitem mais do que absorvem (arquivado aqui).
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Infográfico com imagens do satélite Sentinel-2 (Copernicus) mostrando as áreas queimadas no município de São Félix do Xingu, localizado na Amazônia brasileira, de 2020 a 2024 (AFP / Olivia BUGAULT, Julie PEREIRA)
As taxas de desmatamento permanecem teimosamente altas, apesar do compromisso de mais de 140 líderes na cúpula da COP da ONU em 2021 para erradicá-lo.
A COP30 visa colocar a preservação das florestas de volta na agenda global.
A cidade-sede, Belém, é um cenário simbólico, porém tenso, e uma escolha pessoal do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que quer destacaro papel da floresta tropical na absorção de dióxido de carbono.
A pressão está aumentando sobre o evento — apelidado por alguns de “COP da floresta” — para fornecer mais do que apenas um cenário cênico à medida que o mundo se aproxima da meta de aquecimento acordada no acordo climático de Parisem 2015 (arquivadoaqui).
O CO2 no ar atingiu um novo recorde no ano passado, com cientistas preocupados com o enfraquecimento dos sumidouros naturais de carbono em terras e oceanos
O aumento das emissões de CO2 impactará o planeta por centenas de anos devido à longa vida útil do gás na atmosfera. Fotografia: Charlie Riedel/AP
Por Damian Carrington para “The Guardian”
Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera atingiram um nível recorde em 2024 e atingiram outro recorde, mostram dados da ONU, aprofundando a crise climática que já está ceifando vidas e meios de subsistência em todo o mundo.
Cientistas estão preocupados que os “sumidouros” naturais de terra e oceano que removem CO 2 do ar estejam enfraquecendo como resultado do aquecimento global, o que pode formar um círculo vicioso e aumentar as temperaturas ainda mais rápido.
A concentração média global do gás aumentou 3,5 partes por milhão para 424 ppm em 2024, o maior aumento desde que as medições modernas começaram em 1957, de acordo com orelatórioda Organização Meteorológica Mundial.
Vários fatores contribuíram para o aumento do CO2 , incluindo mais um ano dequeima incessante de combustíveis fósseis, apesar do compromisso assumido pelos países do mundo em 2023 de “abandonar” o carvão, o petróleo e o gás. Outro fator foi o aumento de incêndios florestais em condições que se tornaram mais quentes e secas devido ao aquecimento global. As emissões de incêndios florestais nas Américas atingiramníveis históricos em 2024 , o ano mais quente já registrado.
No entanto, os cientistas estão preocupados com um terceiro fator: a possibilidade de os sumidouros de carbono do planeta estarem começando a falhar. Cerca de metade de todas as emissões anuais de CO2 são retiradas da atmosfera por meio da dissolução no oceano ou da absorção por árvores e plantas em crescimento. Mas os oceanos estão ficando mais quentes e, portanto, podem absorver menos CO2, enquanto em terra firme, condições mais quentes e secas e mais incêndios florestais significam menos crescimento vegetal.
Já se sabia que os sumidouros de carbono eram menos eficazes em anos de El Niño, como 2023 e 2024, quando mudanças nos ventos do Pacífico e nas correntes oceânicas levam a temperaturas globais mais altas. Mas o aquecimento global causado pelo homem já elevou as temperaturas médias mundiais em cerca de 1,3°C, e pesquisadores, que registraram uma ” falha sem precedentes no sumidouro terrestre” em 2023 e 2024, temem que isso possa estar enfraquecendo os sumidouros.
A Dra. Oksana Tarasova, autoridade científica sênior da OMM, afirmou: “Há preocupações de que os sumidouros de CO2 terrestres e oceânicos estejam se tornando menos eficazes, o que aumentará a quantidade de CO2 que permanece na atmosfera, acelerando assim o aquecimento global. O monitoramento sustentado e reforçado dos gases de efeito estufa é fundamental para a compreensão desses ciclos.”
O aumento das emissões de CO 2 não só impacta o clima global hoje, mas continuará assim por centenas de anos devido à longa vida útil do gás na atmosfera, diz a OMM.
Ko Barrett, secretário-geral adjunto da OMM, afirmou: “O calor retido pelo CO₂ e outros gases de efeito estufa está turbinando nosso clima e levando a eventos climáticos mais extremos. Reduzir as emissões é, portanto, essencial não apenas para o nosso clima, mas também para a nossa segurança econômica e o bem-estar da comunidade.”
As concentrações atmosféricas de metano e óxido nitroso – o segundo e o terceiro gases de efeito estufa mais importantes relacionados às atividades humanas – também atingiram níveis recordes em 2024.
Cerca de 40% das emissões de metano provêm de fontes naturais. Mas os cientistas estão preocupados com o fato de o aquecimento global estar levando a uma maior produção de metano em áreas úmidas, outro potencial ciclo de retroalimentação. O restante provém daexploração de combustíveis fósseis; da pecuária, como o gado; de resíduos em decomposição em aterros sanitários ; e de arrozais. As emissões de óxido nitroso causadas pelo homem incluem aquelas provenientes do uso excessivo de fertilizantes por agricultores e de alguns processos industriais.
A OMM divulgou seu boletim anual de gases de efeito estufa um mês antes da COP30 , a cúpula climática da ONU em Belém, Brasil, onde representantes de vários países do mundo tentarão intensificar a ação climática. Os dados vêm de uma rede de 500 estações de monitoramentoao redor do mundo.
Os alimentos industrializados envolvem vários ingredientes e processos para serem preparados, o que torna difícil analisar seu verdadeiro custo
Embora os cientistas estejam apenas começando a examinar o impacto ambiental dos AUPs, o que já se sabe sobre eles é preocupante. Fotografia: ULRO/Getty Images
Por Véronique Carignan para “The Guardian”
Se você olhar para um pacote de M&Ms, um dos doces mais populares nos EUA, verá alguns ingredientes familiares: açúcar, leite em pó desnatado, manteiga de cacau. Mas verá muitos outros que não são tão reconhecíveis: goma arábica, dextrina, cera de carnaúba, lecitina de soja e E100.
Os M&Ms têm34 ingredientes e, de acordo com a Mars, empresa que produz os doces, pelo menos 30 países – da Costa do MarfimàNova Zelândia– estão envolvidos no fornecimento. Cada um tem sua própria cadeia de suprimentos que transforma as matérias-primas em ingredientes – cacau em licor de cacau, cana em açúcar, petróleo em corante azul alimentício.
Esses ingredientes então viajam pelo mundo até uma unidade central de processamento, onde são combinados e transformados em pequenas gemas de chocolate azuis, vermelhas, amarelas e verdes.
Está se tornando mais claro que os sistemas alimentares sãoum dos principais impulsionadores da crise climática. Cientistas podem analisar o desmatamento para a agricultura ou as emissões de metano da pecuária. Mas o impacto ambiental de alimentos ultraprocessados – como M&Ms – é menos claro e só agora começa a ganhar destaque. Um dos motivos pelos quais eles têm sido tão difíceis de avaliar é a própria natureza dos AUPs: esses alimentos industrializados incluem um enorme número de ingredientes e processos para sua composição, tornando-os quase impossíveis de rastrear.
Mas isso não significa que não seja importante. À medida que os AUPs tomam conta das prateleiras dos supermercados e das dietas dos EUA – eles agora representam70%dos alimentos vendidos em supermercados emais da metadedas calorias consumidas –, especialistas afirmam que compreender seu impacto ambiental é fundamental para construir um sistema alimentar mais favorável ao clima.
O que sabemos
Embora os cientistas estejam apenas começando a examinar o impacto ambiental dos AUPs, o que já se sabe sobre eles é preocupante.
“Quanto mais processados os alimentos, mais prejudiciais eles são à saúde humana e ao meio ambiente”, disse Anthony Fardet, pesquisador sênior do Instituto Nacional Francês de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente. O principal motivo, explica ele, é que os ingredientes consomem muita energia. Quando combinados, o custo é exorbitante.
Está bem documentado que a agricultura para ingredientes como o cacau impulsiona taxas cada vez maioresde desmatamento em todo o mundo. Desde 1850, a expansão agrícola impulsionou quase 90% do desmatamento global, responsável por 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. A Mars Corporation já foicriticadano passado pelas práticas de cultivo de cacau em sua cadeia de suprimentos e, desde então, criou planos de sustentabilidade , mas estes não abordam o fato de que práticas agrícolas em larga escala, como o cultivo de cacau, são, em sua essência, insustentáveis.
Depois, há o açúcar, os sólidos do leite e a gordura da palma, também grandes emissores de gases de efeito estufa.
Além disso, existem ingredientes industrializados, como corantes alimentícios – talvez a marca registrada do ultraprocessamento – dos quais os M&Ms contêm 13 tipos diferentes. Os M&Ms azuis são coloridos com os corantes E132 e E133; esses corantes são produzidos principalmente em polos de produção de corantes alimentícios como Índia e China,por meio de uma reação química de hidrocarbonetos aromáticos (que são derivados de petróleo) com sal de diazônio, catalisada pelos metais cobre e cromo.
M&Ms à venda em Orlando, Flórida, em 2019. Fotografia: Jeff Greenberg/Universal Images Group via Getty Images
A criação da lecitina de soja, um aditivo feito a partir do óleo de sojausado para alterar a consistência do chocolate, requer etapas como a degomagem em um reator quente, o isolamento químico dos fosfolipídios, a descoloração com peróxido de hidrogênio e a secagem sob pressão a vácuo. E a dextrose , um adoçante, começa como milho, que é embebido em ácido antes de ser moído, separado e seco. A partir daí, é decomposto em moléculas menores usando enzimas e ácidos e, em seguida, recristalizado.
Mars se recusou a comentar esta história.
Embora os produtos de chocolate ultraprocessados sejam alguns dos piores infratores, outros tipos de UPFs também são prejudiciais ao meio ambiente. Tomemos como exemplo o Doritos, que tem 39 ingredientes. O milho é o ingrediente principal e, para cada acre cultivado, 1.000 kgde dióxido de carbono são emitidos para a atmosfera. Assim como a Mars, a Pepsico, que fabrica o Doritos, desenvolveu suas próprias promessas de sustentabilidade , mas muitas dessas promessas são sustentadas por práticas consideradas greenwashing, como a “agricultura regenerativa“. Na realidade, essas promessas de sustentabilidade minam a extrema necessidade de entender melhor como os UPFs afetam o clima global.
Como resultado, alguns especialistas começaram a calcular o impacto ambiental dos UPFs.
A CarbonCloud, uma empresa de software com sede na Suécia que calcula as emissões de produtos alimentícios, analisou as divulgações de carbono da Mars e estimou que os M&Ms geram pelo menos 13,2 kgde equivalentes de carbono por quilo de M&Ms produzidos. A Mars produz mais de 664 milhões de kgde M&Ms nos EUA a cada ano, o que significa que, se os cálculos da CarbonCloud estiverem corretos, os doces emitem pelo menos 3,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono – representando 0,1% das emissões anuais nos EUA. (A Mars não divulga as emissões por produto, mas, de acordo com seu relatório de emissões de 2024, emitiu29 milhões de toneladasde dióxido de carbono em toda a empresa.)
Mas esta é apenas uma estimativa baseada em dados disponíveis publicamente; o custo real é provavelmente muito maior, dizem os especialistas. Existe uma “caixa preta” quando se trata de contabilização de carbono na indústria de alimentos processados, afirma Patrick Callery, professor da Universidade de Vermont que pesquisa como as empresas lidam com a crise climática. “Há muita incerteza à medida que as cadeias de suprimentos se tornam mais complexas.”
O que não sabemos
Obter uma medida exata do impacto ambiental dos AUPs é quase impossível, visto que, por definição, eles consistem em muitos ingredientes e um alto volume de processos opacos. Os ingredientes não são simplesmente misturados como se faria para preparar um ensopado em casa. Em vez disso, esses ingredientes são quimicamente modificados, algumas partes são removidas e aromatizantes, corantes ou texturas são adicionados – e não está claro qual é o custo desses processos, pois há muitos fornecedores e componentes envolvidos.
Outro motivo é que todos os UPFs (novamente, por definição) são criações de empresas alimentícias que têm pouco incentivo para divulgar sua pegada ambiental e podem não entendê-la completamente para começar.
Por exemplo, a própria Mars não cultiva cacau, mas sim centenas de fazendas que nem sempre contam com medidas precisas de contabilização de carbono. Isso significa que as emissões de grandes empresas alimentícias podem ser subnotificadas. David Bryngelsson, cofundador da CarbonCloud, afirmou que as empresas “não têm dados reais, então usam fatores de emissão, que são palpites”.
Callery afirma que as empresas fornecem relatórios sobre questões simples como transporte, que são mais fáceis de calcular, e frequentemente omitem ou distorcem as emissões agrícolas de seus produtos. Afinal, relatar altas emissões vai contra os interesses das grandes corporações alimentícias, de modo que os cálculos complexos necessários para determinar a pegada de carbono da agricultura em larga escala e dos processos químicos industriais de múltiplas etapas usados para produzir ingredientes UPF permanecem sem pesquisa.
“O principal objetivo dos alimentos ultraprocessados é o dinheiro”, disse Fardet, ressaltando que eles são projetados para serem atraentes, fáceis e prazerosos de comer.
“A maioria das pessoas na cadeia de valor [da indústria alimentícia] não se importa com as mudanças climáticas do ponto de vista ideológico, mas sim com o dinheiro”, disse Bryngelsson. Ele explica que, para mudar esses incentivos, o valor dos alimentos e ingredientes precisaria incorporar seu impacto no clima compartilhado. Mas isso exigiria regulamentações governamentais e penalidades financeiras com base no verdadeiro custo ambiental dos AUPs, diz Bryngelsson.
Por que isso importa
Por pouco menos de US$ 2, o preço dos M&Ms no supermercado dificilmente reflete seu verdadeiro custo para o meio ambiente. Mas para resolver esses problemas com alimentos ultraprocessados, são necessários mais do que apenas alguns ajustes na lista de ingredientes.
“Reduzir o sal ou o açúcar de apenas um produto é apenas greenwashing”, disse Fardet. “Precisamos mudar todo o cenário.” Para isso, ele sugeriu consumir mais alimentos integrais de origem local, que muitas vezes exigem muito menos energia e transporte para serem produzidos e, portanto, têm uma pegada de carbono muito menor.
Produtos especiais que não podem ser adquiridos localmente, como chocolate, devem representar uma pequena fração da nossa dieta e vir de cadeias de suprimentos rastreáveis e éticas.
Isso não é fácil para todos os americanos, dado o aumento do custo dos alimentos e a prevalência de desertos alimentares e varejistas de alimentos medíocres nos EUA.
É por isso que não cabe apenas aos indivíduos fazer escolhas conscientes em termos ambientais (e de saúde), afirmam especialistas. Em vez disso, as grandes corporações alimentícias precisam ser responsabilizadas pelo fardo que representam para a sociedade – especialmente no que se refere às mudanças climáticas. Práticas de sustentabilidade, como o plano ” Cacau para Gerações ” delineado pela Mars, ou as iniciativas ” Pep+” da Pepsico, são curativos em ossos quebrados. As grandes corporações alimentícias precisam ser gradualmente eliminadas para tornar os sistemas alimentares globais sustentáveis .
Mas talvez o mais importante seja mudar nossa compreensão dos custos ocultos dos alimentos ultraprocessados, diz Fardet, seja em casa, nas escolas ou por meio da proibição da comercialização de AUPs para crianças. Nossos sistemas alimentares, disse Fardet, “não são absolutamente normais. Toda a indústria deve arcar com os custos ocultos”.
Secas prolongadas são alguns dos impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornar parte do cotidiano na Amazônia Legal. Um levantamento realizado pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive, mostra que cerca de um terço da população da região (32%) afirma já ter sido diretamente afetada. Entre povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, a proporção é ainda maior: 42,2%.
O estudo “Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal” é o primeiro a reunir informações de residentes dos nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), incluindo grupos historicamente sub-representados em pesquisas nacionais. Foram ouvidas 4.037 pessoas entre maio e julho de 2025.
A pesquisa também mostra que a percepção sobre a crise climática é quase unânime na região: 88,4% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas estão ocorrendo no Brasil e no mundo, e 90,6% concordam que já vivemos um aquecimento global. Essa consciência, segundo os autores, reflete a convivência diária com fenômenos climáticos extremos que têm alterado a vida das pessoas e os ecossistemas amazônicos.
Os resultados revelam que o aquecimento global já afeta a vida cotidiana: 83,4% dos entrevistados notaram aumento da conta de luz, 82,4% perceberam temperaturas mais altas e 75% apontaram piora na qualidade do ar. A ocorrência de desastres ambientais, como queimadas e secas prolongadas, foi mencionada por 74,4% dos respondentes, e 73% relataram alta nos preços dos alimentos.
“Enfrentar a crise climática na Amazônia é mais do que uma agenda ambiental — é uma agenda de saúde pública e de redução de desigualdades. Em um momento tão importante, com a chegada da COP30, esse módulo do Mais Dados Mais Saúde tem como intuito trazer dados inéditos, focados nas especificidades locais, para informar políticas públicas que protejam territórios e suas populações, sempre com um olhar para a redução das desigualdades”, afirma Thais Junqueira, superintendente da Umane.
Os efeitos são ainda mais severos entre comunidades tradicionais: 24,1% relataram piora na qualidade da água e 21,4% citaram problemas na produção de alimentos, proporções mais altas que as da população em geral. “Esses grupos estão mais vulneráveis porque vivem em áreas de risco climático e dependem diretamente dos recursos naturais para subsistência”, explica Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora-adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies.
O inquérito também registrou mudanças de comportamento e percepção. Metade dos entrevistados (53,3%) afirmou ter reduzido práticas que considera prejudiciais ao clima, e 38,4% disseram sentir culpa por desperdiçar energia. A separação de lixo é mais comum entre comunidades tradicionais (70,1%) do que entre os demais (59,2%).
Para a Vital Strategies, os resultados reforçam que a crise climática é também uma questão de saúde pública. “Um terço dos moradores da Amazônia Legal já sofreu impactos diretos do clima, e a maioria depende exclusivamente do SUS. É urgente integrar políticas de saúde e clima para proteger os grupos mais vulnerabilizados”, conclui Pedro de Paula, diretor-executivo da organização no Brasil.
A floresta é “notavelmente resiliente às mudanças climáticas”, mas continua ameaçada por incêndios e desmatamento
O estudo mostrou que a vegetação tropical intocada continua a atuar como um sumidouro eficaz de carbono, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas. Fotografia: Jorge Sáenz/AP
Por Jonathan Watts para o “The Guardian”
As maiores árvores da Amazônia estão crescendo e se tornando mais numerosas, de acordo com um novo estudo que mostra como uma floresta tropical intacta pode ajudar a extrair dióxido de carbono da atmosfera e sequestrá-lo na casca, tronco, galho e raiz.
Cientistas disseram que o artigo,publicado na Nature Plantsontem, foi uma confirmação bem-vinda de que as grandes árvores estão se mostrando mais resistentes ao clima do que se acreditava anteriormente, e a vegetação tropical intocada continua a agir como um sumidouro de carbono eficaz, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas.
No entanto, os autores alertaram que essa função vital está cada vez mais em risco devido a incêndios, fragmentação e desmatamento causados pela expansão de estradas e fazendas.
“São boas notícias, mas são boas notícias com reservas”, disse o professor Oliver Phillips, da Universidade de Leeds. “Nossos resultados se aplicam apenas a florestas intactas e maduras, que é onde estamos monitorando de perto. Eles sugerem que a floresta amazônica é notavelmente resiliente às mudanças climáticas. Meu receio é que isso possa ter pouca importância, a menos que consigamos deter o desmatamento em si.”
Essa cautela ocorre em um momento em que o Brasil planeja pavimentar uma importante rodovia – a BR-319 – através da Amazônia central, próxima a uma das últimas regiões que ainda possuem grandes áreas de floresta intocada. A Bolívia também continua a desmatar árvores a um ritmo alarmante para plantações de soja e criação de gado.
O estudo foi conduzido por quase 100 pesquisadores de 60 universidades no Brasil, Reino Unido e outros lugares, que examinaram mudanças na floresta em 188 áreas na Amazônia nos últimos 30 anos.
Eles constataram que a seção transversal média dos troncos engrossou 3,3% por década, com o maior aumento observado em árvores maiores. Essa expansão foi atribuída ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, resultante da queima de gás, petróleo e carvão causada pelo homem.
Árvores grandes como castanheiras , sumaúmas e angelim vermelho podem atingir mais de 30 metros de altura, dominando a copa e liderando a competição entre as plantas pela luz, água e nutrientes necessários para a fotossíntese de CO2 .
Os resultados destacam como as áreas mais bem protegidas da floresta continuam sendo aliadas importantes na luta para estabilizar o clima, embora sozinhas estejam longe de ser suficientes para lidar com todo o dióxido de carbono extra lançado no ar globalmente por carros, fábricas e usinas de energia.
Eles também demonstram a importância de prevenir o desmatamento. As áreas da Amazônia que foram fortemente fragmentadas pelo agronegócio e pela infraestrutura – principalmente no sudeste –já passaram de sumidouros de carbono a fontes de carbono .
Árvores grandes são mais vulneráveis a ventos fortes, incêndios e secas se forem isoladas ou deixadas na borda de uma divisa entre floresta e terras agrícolas ou pastagens.
Durante décadas, presumiu-se que árvores maiores– mesmo em florestas densas – morreriam mais rapidamente com o aumento das temperaturas, pois acreditava-se que tinham raízes relativamente rasas em comparação com seu tamanho. Mas estudos recentes mostram que muitas têm raízes muito finas, capazes de sugar água de profundidades muito maiores.
Ainda não está claro como as tendências de mortalidade podem ter sido afetadas pela seca severa dos últimos anos em grande parte da Amazônia.
Uma das principais autoras do novo artigo, Adriane Esquivel-Muelbert, da Universidade de Cambridge, afirmou que as árvores de grande porte são desproporcionalmente importantes para o funcionamento do bioma. Embora representem apenas 1% das árvores da floresta, são responsáveis por 50% do ciclo e armazenamento de carbono, e provavelmente por uma proporção semelhante do ciclo da água.
“As florestas ficam muito mais secas depois que as árvores grandes morrem. Isso altera a estrutura da floresta e ela demora muito para se recuperar, porque as árvores grandes demoram muito para crescer”, disse Esquivel-Muelbert. “Portanto, é um pouco promissor que as vejamos aumentando em tamanho e número em toda a Amazônia. Há alguma resiliência aí.”
Especialistas climáticos internacionais desmascararam amplamente o recente relatório do DOE, mas a ciência vencerá?
Por Bill McKibben para o “The New Yorker”
Enquanto observo a Casa Branca de Trump e seu campo de destroços orbitando de excêntricos e charlatões, uma única cena de filme do passado continua voltando à minha mente. Em “Annie Hall”, esperando na fila de um cinema, o personagem de Woody Allen se irrita com um sujeito atrás dele, um acadêmico fanfarrão que pontifica para sua namorada sobre a cultura. Quando ele menciona o guru da mídia canadense Marshall McLuhan, Allen explode e então, em um delicioso espetáculo de vingança, apresenta o próprio McLuhan, que diz ao homem: “Eu ouvi o que você estava dizendo. Você não sabe nada do meu trabalho. Como você conseguiu dar um curso sobre qualquer coisa é totalmente incrível.” Allen então diz, para a câmera: “Rapaz, se a vida fosse assim.”
De vez em quando, é. Na terça-feira, oitenta e seis climatologistas entregaram uma resposta de quatrocentas páginas a umrelatóriodo Departamento de Energia de julho, que tentava demonstrar que o aquecimento global não é um grande problema. Esse relatório era o equivalente científico de um terno sob medida. Dado que o presidente Trump havia declarado que as mudanças climáticas eram uma “farsa” e que o secretário de Energia, Christopher Wright, havia declarado anteriormente que eram um “efeito colateral da construção do mundo moderno”, é lógico que o departamento de Wright tenha escolhido para conduzir seu relatório exatamente cinco pesquisadores climáticos, todos notáveis por carreiras nas quais se posicionaram visivelmente à margem do consenso científico esmagador de que o aquecimento global é um perigo grave e imediato. Esses cinco concluíram, devidamente, entre outras coisas, que “o aquecimento induzido pelo CO₂ pode ser menos prejudicial economicamente do que comumente se acredita, e políticas de mitigação excessivamente agressivas podem ser mais prejudiciais do que benéficas”.
O restante do aparato trumpiano então entrou em ação. Lee Zeldin, ex-congressista e candidato fracassado a governador por Nova York, que de alguma forma acabou como administrador da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e que havia declarado que seu objetivo era cravar “um punhal direto no coração da religião das mudanças climáticas”, abraçou as descobertas e rapidamente as utilizou em seu esforço para anular a “constatação de perigo” na qual a EPA havia se baseado anteriormente para regular os gases de efeito estufa.
O relatório do DOE, no entanto, teve que ser aberto para comentários públicos, e assim um cientista climático da Universidade Texas A. & M., Andrew Dessler, usou a plataforma de mídia social Bluesky (que substituiu em grande parte o X para conversas científicas) para começar a montar uma equipe global de oitenta e seis pesquisadores de todas as disciplinas relevantes que, em questão de poucas semanas, submeteram as conclusões do relatório à revisão por pares.Seu “comentário” é duas vezes e meia maior que o relatório, e é quase dolorosamente hilário de ler. Por exemplo, os cinco céticos argumentaram que a “seca meteorológica” não estava aumentando nos Estados Unidos; como os pesquisadores apontam em sua resposta, isso é um absurdo escolhido a dedo. Em primeiro lugar, “seca meteorológica” é apenas uma medida de quanta chuva cai; as temperaturas mais altas associadas às mudanças climáticas têm aumentado a evaporação, o que seca mais dessa chuva. E, de qualquer forma, os opositores usaram todo o território continental dos EUA como base estatística para sua descoberta, o que não faz sentido: à medida que o aquecimento global aumenta a evaporação no oeste árido, também aumenta a precipitação no leste úmido, produzindo as chuvas torrenciais que causaram tantos danos em regiões como os Apalaches. Como o comentário ironicamente aponta, “fazer uma média em todo o território continental dos EUA corre o risco de desconsiderar essas tendências”. De fato, os autores observam, com todas as citações científicas, que “pesquisas indicaram que as secas recentes na região oeste dos EUA foram mais severas do que as secas dos últimos 1.000 anos ou mais: embora megassecas tenham ocorrido no registro paleoclimático, a megasseca no oeste dos EUA de 2000 a 2018 foi a pior desde meados do século XVI (Williams et al., 2020) e a de 2000 a 2021 foi a pior desde 800 (Williams et al., 2022), conforme definido usando anomalias de umidade do solo. Da mesma forma, as mudanças climáticas fizeram do período de 2012 a 2014 na Califórnia o período mais seco em 1.200 anos (Griffin e Anchukaitis, 2014; Williams et al., 2015)”.
O comentário tem seções como esta sobre todos os tópicos levantados pelo relatório do DOE; é uma blitzkrieg de estudos, observações e dados que deixa claro que os autores estavam a quilômetros de distância de sua área de atuação e ainda mais distantes da corrente principal. Mas, é claro, isso não necessariamente conta muito na situação atual, onde a realidade está se tornando uma história de “Escolha Sua Própria Aventura”. Na esteira das renúncias de quatro funcionários dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças na semana passada, alguns comentários do Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., começaram a aparecer novamente nas redes sociais. Ele havia dito a Tucker Carlson que “confiar nos especialistas não é uma característica da ciência. Não é uma característica da democracia. É uma característica da religião e é uma característica do totalitarismo. Nas democracias, temos a obrigação — e é um dos fardos da cidadania — de fazer nossa própria pesquisa e tirar nossas próprias conclusões sobre as coisas”.
Isso claramente não é verdade em relação às vacinas — confiamos nos especialistas há um século, e tem funcionado muito bem, inclusive durante a pandemia de COVID , quando as vacinas salvaram milhões de vidas. E é claramente absurdo dizer isso sobre o aquecimento global: estamos planejando “fazer nossa própria pesquisa”, para escolher um tópico amplamente abordado na resposta de terça-feira dos oitenta e seis pesquisadores, sobre a “simetria hemisférica do albedo planetário”?
O empreendimento científico americano, fonte de tanta riqueza e prestígio nacional, está sendo desfeito diante de nossos olhos — bolsas de pesquisa estão sendo cortadas, satélites desconectados, relatórios inventados para atender às necessidades de indústrias e ideologias específicas. É tão triste quanto qualquer um dos outros efeitos sombrios da eleição passada. Mas o método científico talvez não se apague silenciosamente. Com centenas de anos de trabalho paciente por trás, com algumas instituições de ensino dispostas a proteger seus cientistas e com pesquisadores trabalhando arduamente em nações menos ignorantes, o desejo humano de saber e compreender continuará a produzir resultados. Muitas dessas descobertas serão contrárias aos interesses dos fanfarrões que, pelo menos temporariamente, controlam nossa nação e, portanto, podem ser suprimidas por enquanto. Mas, sejam ou não ouvidas, no final, a verdade virá à tona. Se não for na forma de políticas esclarecidas, será na forma de pandemias e incêndios florestais, de doenças não tratadas e da elevação do nível do mar. Porque a vida realmente é assim. ♦
Projeção desenvolvida no Laboratório de Abelhas da UFPR mostra perda de área adequada para espécies já em 2050. Cenários evidenciam necessidade de mitigação dos efeitos das alterações no clima e da preservação do habitat dos insetos
Dezoito espécies exclusivas do continente tiveram o comportamento projetado por pesquisadores. Na foto, uma Lithurgopsis rufiventris, espécie de abelha solitária. Fotos: Adriana Tiba e Julio Pupim/Acervo Pessoal
Por Luana Lopes para o “Ciência UFPR”
Para onde irão as abelhas com as mudanças climáticas? Esta foi a pergunta que guiou uma pesquisa na Universidade Federal do Paraná (UFPR) que buscou compreender como as alterações nos padrões climáticos poderá afetar a distribuição geográfica destes insetos. Algumas espécies do sudeste da América do Sul podem deixar o Norte, onde em geral é mais calor, e se deslocar para o Sul do continente.
O estudo é fruto da dissertação de mestrado em Entomologia (estudo científico dos insetos) do biólogo Felipe Walter Pereira sob orientação do professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, do Departamento de Zoologia da UFPR. Os pesquisadores selecionaram 18 espécies de abelhas de uma das regiões mais diversas do mundo e usaram projeções climáticas computacionais para o ano de 2050, para identificar os possíveis efeitos das mudanças climáticas na distribuição desses insetos.
De acordo com Pereira, com o aumento das emissões de carbono e das consequentes mudanças de temperatura e precipitação do planeta como um todo, essas espécies tendem a perder a parte mais ao norte do seu limite de distribuição, porque essa região deve ficar mais quente do que é atualmente.
“Esta parte Norte vai deixar de ser adequada, porque vai estar mais quente do que ela pode tolerar. As populações de abelhas devem deixar de ocorrer nesse limite norte, havendo uma região de estabilidade ‘no meio’ e ganhos de colonização ao sul. Isso porque as espécies vão tender a acompanhar seus requerimentos climáticos”, explica.
“Então, hoje é onde o clima é adequado para certa espécie, no futuro, com o aquecimento global, essa região vai estar um pouquinho mais ao Sul. Ou seja, são esperados eventos de colonização e de migração em direção ao sul”.
O professor Rodrigo Gonçalves conta que, para o trabalho, eles fizeram a seleção de espécies que vivem no Sudeste da América do Sul (Argentina, Uruguai e estados do sul do Brasil), por serem adaptadas a climas mais amenos. Também foram escolhidas espécies com modos de vida e comportamentos sociais diferentes para entender como cada uma pode reagir às mudanças climáticas.
“A partir dos registros de ocorrência de cada espécie, identificamos quais variáveis ambientais definem seu nicho, ou seja, as condições ideais para sua sobrevivência hoje. Com base nessas informações, usamos modelos para prever como essas condições vão mudar no futuro e, assim, estimar quais áreas continuarão adequadas e quais serão perdidas. Comparando esses cenários, conseguimos prever deslocamentos ou redução na distribuição das espécies”, afirma.
Embora o estudo necessite trabalhos de campo de longo prazo para a confirmação do deslocamento para o sul, há evidências de algumas espécies que deixaram de aparecer em algumas regiões devido ao clima.
É o caso da Bombus bellicosus, uma abelha das conhecidas popularmente como mamangava que era muito comum na região de Curitiba nos anos 1960. Desde a década de 90, esta espécie não ocorre mais na cidade, e atualmente seu limite norte é na região do município de Palmas, no sul do Paraná. Este fenômeno foi observado pela pesquisadora Aline Cristina Martins e pelo professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, da UFPR.
“Eles constataram que as extinções locais da espécie se deram às recentes mudanças climáticas e à intensa mudança no uso do solo e na paisagem, com a destruição dos campos sulinos para dar lugar às monoculturas e criações de gado”, conta Felipe Pereira.
Além da dissertação de mestrado, o pesquisador tratou do tema no artigo “Abelhas viajando para o sul: mudanças de alcance induzidas pelo clima e perdas de habitat adequado no Sudeste dos neotrópicos”, publicado pela revista Journal of Biogeography, que tem entre os coautores os professores Rodrigo Gonçalves, Gabriel Melo e Maurício Osvaldo Moura, também da Universidade Federal do Paraná.
Como foi feita a seleção das espécies
O sudeste da América do Sul possui uma variedade muito grande de abelhas: são centenas de espécies na região. Mas para a pesquisa sobre o impacto das mudanças climáticas, Felipe Pereira selecionou 18 espécies. Um dos motivos para a seleção é que, para se construir modelos computacionais de predições ecológicas de distribuições de espécies, é necessário que os pesquisadores tenham um conhecimento amplo sobre onde elas estão, ou seja, as abelhas selecionadas precisam ser bem conhecidas. Este não é o caso da maioria dos insetos, que possuem uma variedade muito grande.
“Dessa maneira, a gente escolheu espécies com trabalhos já feitos por especialistas em taxonomia, com uma extensiva coleta na região. Assim tivemos confiança de onde a espécie está e onde ela não está, o que nos permitiu construir modelos preditivos com uma certa força de predição que torne esses modelos confiáveis”, explica Pereira.
Um outro fator para uma amostragem aparentemente baixa para a pesquisa é que o pesquisador buscou representar a fauna de abelhas na região. Como não é possível fazer predições para centenas de espécies, foram escolhidas abelhas com linhagens diferentes, que possuem atributos variados, representando assim as características conhecidas das abelhas e não só apenas um grupo.
“A gente poderia ter feito um estudo só com abelhas-sem-ferrão, por exemplo, que é um grupo evolutivo único que daria uma resposta. Não fizemos isso: tivemos, entre outras, representantes de abelhas-sem-ferrão, representantes de mamangavas, representantes de abelhas solitárias e abelhas sociais”, afirma o pesquisador.
Para a seleção de espécies que representasse essa fauna de abelhas, Felipe Pereira contou com a colaboração do professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, um dos maiores especialistas em taxonomia de abelhas do mundo. Melo fez a consultoria das espécies que seriam interessantes para serem analisadas, fazendo o recorte amostral.
“Tinha uma questão de sabermos se havia uma boa quantidade de distribuição de cada uma dessas espécies. Porque, para fazer essas projeções, precisamos ter material, ou seja, os pontos de ocorrência. Não teríamos respostas sobre uma espécie extremamente rara, onde só a conhecemos de um ou dois locais diferentes”, explica. “Temos que trabalhar com espécies que têm uma quantidade razoável de material que foi coletado, que tem registro”.
O registro de onde esses espécimes se encontram distribuídos consta na Coleção Entomológica Pe. Jesus Santiago Moure (DZUP) da UFPR, em Curitiba, que possui a maior coleção de abelhas da América Latina. Na década de 1940, o entomólogo Padre Moure criou na universidade um grupo de pesquisas em abelhas e, desde então, ao longo das décadas, dezenas de pesquisadores foram acrescentando informações sobre as abelhas da região, incluindo dados sobre as condições climáticas do habitat das espécies. Gabriel Melo explica como ocorre essa coleta de informações:
“Pegamos os pontos de ocorrência de uma espécie, como se fosse uma quadrícula no mapa, e a partir disso buscamos uma série de atributos relacionados ao clima. Então olhamos, por exemplo, a precipitação média dos locais que essa espécie ocorre, a temperatura média anual, a temperatura média do mês mais quente, temperatura média do mês mais frio, precipitação anual… vários atributos climáticos em relação àquela quadrícula onde tem um ponto da espécie. Depois, pegamos o somatório de todas as quadrículas que a espécie foi encontrada e temos algo como uma média”.
A partir desta média, são feitas as projeções climáticas para o futuro:
“Desta forma, por exemplo, a quadrícula que hoje tem uma temperatura média, com o aquecimento essa temperatura vai aumentar. E esse aumento pode fazer com que aquela espécie fuja daquele intervalo que ela vive. Se ficou quente, ela não vai conseguir sobreviver ali, porque ela só sobrevive nas quadrículas cuja temperatura média é tal”, explica o docente.
Abelhas podem perder seu limite de distribuição em 2050
Apesar de cada espécie ter sua própria condição climática adequada para sobreviver em determinado local (chamada nicho climático), de modo geral as abelhas são insetos que preferem climas mais amenos, em ambientes mais secos, e são mais diversas em locais de campos abertos. Além disso, são seres ectotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal é influenciada pela temperatura do ambiente, o que pode fazer com que estes insetos não resistam às temperaturas mais altas.
“Há trabalhos tentando ver como que a temperatura pode influenciar a sobrevivência das abelhas. Registros acima dos 40 graus já começam a afetá-las de forma que pode ter uma mortalidade muito grande. Varia muito de espécie para espécie, mas tem essa relação de que se o planeta aquecer muito, como está acontecendo esse aquecimento global generalizado, pode levar a um aumento na taxa de mortalidade. A parte fisiológica delas fica comprometida e pode ser que elas morram sem conseguir se reproduzir”, explica Felipe Pereira.
Considerando estes fatores, os pesquisadores buscaram testar a hipótese de que, com o aquecimento global, as abelhas devem buscar locais mais adequados e podem desaparecer de áreas que se tornaram menos favoráveis. Para isso, um dos primeiros passos foi construir modelos de nichos ecológicos para encontrar as áreas climaticamente favoráveis para as espécies no presente.
“O nicho ecológico é uma posição no ambiente em que as populações são viáveis, e cada grupo de espécies tem alguns fatores que são importantes. Para as abelhas, por exemplo, a temperatura, a umidade relativa e porcentagem de floresta são relevantes”, afirma Mauricio Moura, docente da UFPR e coautor do trabalho.
Os modelos de nicho ecológico criados foram projetados para 2050, utilizando um cenário definido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em língua inglesa). Estes cenários representam previsões de mudanças climáticas futuras com base em diferentes níveis de emissões de gases de efeito estufa, avaliando o que os governos estão fazendo para combater o problema e apresentando dados sobre temperatura, umidade e eventos extremos. No estudo sobre as abelhas, os pesquisadores selecionaram o cenário pessimista SSP585, que apresenta maiores emissões de carbono e ações nulas ou limitadas para a mitigação das mudanças climáticas.
“Para realizar este trabalho, temos determinadas as posições geográficas das espécies em latitude e longitude. Fazemos várias perguntas com as variáveis climáticas, encontrando as características do ambiente que são importantes para as abelhas. Com isso, temos um recorte de condições favoráveis para aquela abelha de hoje”, afirma Moura. “Então, entramos com o cenário futuro e perguntamos: ‘Onde essas condições vão ocorrer no próximo cenário?’ Os modelos computacionais vão nos dizer, por exemplo, que essas condições vão acontecer 20 graus para baixo. Assim caracterizamos um deslocamento de área de distribuição”.
A pesquisa concluiu que o padrão de deslocamento para o sul foi observado em todas as 18 espécies analisadas, mas também foi identificado que as espécies de abelhas eussociais da região podem ser mais afetadas pela perda de áreas adequadas para a sobrevivência do que as espécies solitárias. O artigo reforça que, além do clima, mudanças no habitat e particularidades comportamentais das abelhas podem também influenciar na vulnerabilidade dos insetos.
Políticas públicas para preservar habitat previnem contra perdas de distribuição
O estudo também destacou a importância da conservação dos habitats das abelhas para garantir a preservação da espécie, além da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Segundo Felipe Pereira, o artigo reforça que devem ser feitas estratégias de conservação na região pesquisada, especialmente em relação aos campos sulinos – ambientes muito vulneráveis e geralmente negligenciados em ações de preservação. Para o pesquisador, as projeções podem auxiliar a delinear as regiões que seriam prioritárias para conservação das abelhas no futuro.
“Essa vegetação de campo muitas vezes é interpretada como sendo apenas ‘um mato’ pelos leigos ou por aqueles que têm o recurso financeiro para modificar a paisagem. É muito mais fácil destruir os campos do que a floresta, por exemplo”, opina. “Então, não adianta o clima em termos de precipitação e temperatura estar adequado, se a gente não tem recursos florais para as abelhas usarem, ou solo exposto e cavidades em madeira para as abelhas construírem ninhos. Se isso não existir, não adianta de nada o clima ser bom”.
Pereira conclui que a ideia desta e outras pesquisas sobre as abelhas é juntar vozes para fortalecer a luta pela mitigação dos problemas acarretados pelas mudanças climáticas.
“Existem cenários futuros, e um deles é nós pararmos ou controlarmos ao máximo a emissão de gás de efeito estufa, mudar nosso padrão de consumo”, afirma. “Nós usamos essas vozes de conservação para pensarmos em cenários futuros adequados para produção de alimentos, para o bem-estar, para simplesmente a gente ter um planeta habitável nas próximas décadas”.
Labe-UFPR busca conscientização sobre a diversidade das abelhas
“As abelhas são essenciais para a polinização de plantas nativas e cultivadas, garantindo tanto a biodiversidade quanto a produção agrícola. Além disso, algumas espécies são criadas para a produção de mel ou por hobby, o que desperta mais interesse no tema. A crescente popularidade das abelhas pode ser uma oportunidade para conscientizar a sociedade sobre a importância da conservação da natureza”, diz o docente.
A equipe identificou 16.862 pontos de início de deslizamento, distribuídos ao longo de cerca de 18 mil quadrados
As fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 ocasionaram o maior evento de deslizamentos de terra já registrado no Brasil. É o que revela estudo publicado na quinta (28) na revista Landslides. A pesquisa teve coordenação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), envolvendo instituições nacionais e internacionais como o Instituto Federal de Goiás (IFG) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), e mapeou a ocorrência de 15.376 deslizamentos. As conclusões podem contribuir para a formulação de políticas e estratégias preventivas, bem como planos de ação para novas ocorrências semelhantes.
Para enfrentar um dos maiores desafios da gestão de deslizamentos no Brasil, a falta de inventários abrangentes e padronizados, a equipe organizou um banco de imagens de satélite de alta resolução registradas no período estudado. Ao todo, 474 imagens, captadas entre 4 de maio e 31 de agosto de 2024, foram analisadas e utilizadas para caracterizar os deslizamentos.
A equipe identificou 16.862 pontos de início de deslizamento, distribuídos ao longo de cerca de 18 mil quilômetros quadrados em 150 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. Isso corresponde a 30% das cidades gaúchas. Além dos deslizamentos, as chuvas de 2024 provocaram inundações, e 96% das cidades gaúchas foram atingidas por pelo menos uma dessas consequências do evento extremo – que afetou quase 2,4 milhões de habitantes, desalojou mais de 600 mil pessoas e resultou em 182 mortes. Clódis de Oliveira Andrades-Filho, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e autor do estudo, explica que a magnitude do acontecimento está relacionada ao extraordinário acumulado de chuvas de abril a maio de 2024, e que a maior parte das encostas íngremes do estado se encontrava na área exposta à precipitação.
De acordo com o levantamento, os pontos de início dos deslizamentos ocorreram principalmente em encostas voltadas para norte, norte-nordeste e noroeste-norte, áreas com cobertura vegetal mais esparsas comparadas às voltadas para o sul. Esses setores também sofrem maior pressão de intervenções humanas, como desmatamento, cortes para estradas e construções residenciais. A combinação desses fatores reduz a estabilidade das encostas e ajuda a explicar a concentração observada de deslizamentos nessa orientação. “Estas características, juntamente com demais características do relevo, como o grau de declividade, permitem indicar quais aspectos do terreno predominam nas áreas com maior ocorrência de deslizamentos”, explica Andrades-Filho. “Isso é essencial para estabelecer novos modelos e mapas que indiquem as áreas dos municípios com maior exposição a deslizamentos em grandes episódios de chuva”, defende.
O autor também destaca a identificação de 2.430 trechos de estradas afetados por deslizamentos, resultando no isolamento de comunidades rurais e cidades, além de mortes, feridos e perdas materiais. Segundo a equipe, considerar as características do terreno e o risco geológico de cada região no planejamento e na adaptação das vias pode ser decisivo para evitar consequências mais severas em eventos extremos.
Além de apoiar a identificação de áreas suscetíveis e embasar planos de gestão de riscos, a publicação pode orientar estratégias de recuperação nas regiões afetadas. “Os resultados ainda oferecem suporte para a formação de profissionais voltados à gestão de riscos de desastres, sobretudo em capacitação geotecnológica, além de contribuir para elaboração e implementação de ações de educação e monitoramento comunitário”, explica Andrades-Filho. O pesquisador destaca que a equipe segue empenhada em apoiar esses objetivos por meio de ações como o uso de novas tecnologias para aprimorar o mapeamento, incluindo inteligência artificial, e esforços para tornar a prevenção mais eficiente. Isso inclui desde a comunicação de risco adaptada às condições de comunidades rurais até o planejamento de rotas de fuga e o monitoramento da estabilidade de terrenos.