Dossiê reúne uma década de evidências científicas sobre a relação entre agrotóxicos e câncer

Produzido pela Naturaleza de Derechos, documento sistematiza estudos publicados entre 2015 e 2026 e reforça a urgência de rever a regulação dos agrotóxicos diante da exposição ambiental e alimentar das populações 

A organização argentina Naturaleza de Derechos acaba de apresentar o Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer, publicação que reúne e sistematiza as evidências produzidas ao longo da última década sobre a relação entre a exposição a agrotóxicos e diferentes processos carcinogênicos.

O mérito do trabalho está justamente em reunir diferentes linhas de investigação que, consideradas em conjunto, permitem observar a dimensão do problema. O dossiê incorpora estudos epidemiológicos em seres humanos, estudos de coorte e de caso-controle, bioensaios experimentais e pesquisas sobre genotoxicidade, alterações epigenéticas, estresse oxidativo, imunotoxicidade e biomarcadores, além de trabalhos sobre os efeitos da exposição simultânea a diferentes substâncias.

É preciso tratar esse debate sem eufemismos. Quando se fala em câncer, está em questão um dos mais graves problemas de saúde pública. E quando as evidências científicas apontam para substâncias associadas a processos carcinogênicos presentes no ambiente, na água, nos territórios onde as pessoas vivem e nos alimentos que consomem, o problema deixa de ser apenas ambiental ou ocupacional para envolver diretamente a saúde coletiva e a segurança alimentar.

Segundo a sistematização apresentada no dossiê, a literatura científica aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e diferentes tipos de câncer, incluindo neoplasias hematológicas, câncer colorretal, câncer de mama, câncer de tireoide e tumores do sistema nervoso central. Ao mesmo tempo, estudos experimentais e mecanísticos vêm identificando processos biológicos relacionados à carcinogênese, ampliando a compreensão sobre as diferentes maneiras pelas quais essas substâncias podem produzir danos celulares.

Outro aspecto importante destacado pela publicação é que a exposição humana não ocorre de maneira isolada. Na vida real, as pessoas entram em contato com diferentes princípios ativos, formulações comerciais, metabólitos e coformulantes, por múltiplas vias e muitas vezes simultaneamente. Por isso, pesquisas mais recentes têm avançado na avaliação das misturas e de cenários de exposição mais próximos daqueles efetivamente experimentados pelas populações.

A questão ganha ainda maior relevância quando se considera a alimentação. O dossiê dedica um capítulo específico à exposição alimentar, relacionando as evidências científicas sobre câncer aos resultados de El Plato Fumigado 2024, também produzido pela Naturaleza de Derechos a partir de dados oficiais de monitoramento de resíduos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (SENASA).

Os resultados de El Plato Fumigado 2024 tornam o problema bastante concreto: substâncias que despertam preocupação científica por seus possíveis efeitos sobre a saúde também aparecem como resíduos em alimentos comercializados e consumidos pela população argentina. Portanto, não estamos diante apenas de uma discussão abstrata sobre toxicologia, mas de uma questão diretamente relacionada ao funcionamento cotidiano do sistema alimentar.

Nesse contexto, o novo dossiê reforça a necessidade de uma reavaliação regulatória abrangente e periódica dos agrotóxicos pelo SENASA, incorporando as evidências científicas mais recentes. Essa revisão deveria considerar não apenas os princípios ativos isoladamente, mas também as formulações comerciais, metabólitos, coformulantes, misturas e as diferentes vias pelas quais ocorre a exposição humana.

A discussão ultrapassa o caso argentino. Para um país como o Brasil, que possui extensas áreas agrícolas submetidas ao uso intensivo de agrotóxicos, as questões levantadas pela Naturaleza de Derechos deveriam receber atenção especial. Afinal, os possíveis impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, alcançando também populações rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas, recursos hídricos potencialmente contaminados e consumidores expostos por meio dos alimentos.

O Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer oferece, assim, uma contribuição importante para um debate que não pode continuar sendo tratado como secundário. Quando diferentes linhas de investigação acumulam evidências sobre possíveis relações entre determinadas exposições e processos carcinogênicos, a prevenção precisa ocupar posição central nas políticas de saúde pública e nos sistemas regulatórios.

A verdade é que esperar que todas as dúvidas científicas desapareçam antes de adotar medidas preventivas, significa de forma objetiva, transferir para a população os riscos decorrentes da incerteza. Quando a exposição ocorre pelo ambiente, pela água, pelo trabalho e pelos alimentos, cabe aos órgãos reguladores acompanhar o avanço do conhecimento científico e adotar medidas capazes de proteger efetivamente a saúde humana.

A mensagem que emerge do trabalho produzido pela Naturaleza de Derechos é clara: diante do acúmulo de evidências científicas e da exposição cotidiana das populações, a prevenção não pode ser tratada como uma alternativa facultativa. Ela deve constituir uma obrigação sanitária e regulatória, na qual a proteção da saúde humana prevaleça sobre os interesses econômicos associados à manutenção do uso de substâncias sobre as quais pesam evidências relevantes de risco.