Teich, o breve, honra o Juramento de Hipócrates e pede demissão

bolso teichO médico Nelson Teich cansou-se rapidamente das humilhações diárias e interferências descabidas e pediu demissão do cargo de ministro da Saúde do governo Bolsonaro

Antes mesmo de completar um mês na condição de ministro da Saúde do governo Bolsonaro, o médico Nelson Teich tomou a primeira medida honorável que eu tenho lembrança em seu curto mandato no ministério chave para qualquer país que queira seriamente debelar a pandemia da COVID-19.  É que o Ministério da Saúde acaba de informar que Nelson Teich pediu demissão, configurando o que foi uma das mais brevíssimas ocupações de uma cadeira da qual tenho lembrança em meus quase 60 anos de vida.

Surpreendentemente, Nelson Teich teve menos paciência do que Luiz Henrique Mandetta para aturar as humilhações diárias e interferências descabidas do presidente Jair Bolsonaro.

Nelson Teich deve ter calculado que seria melhor passar para a história como um médico que honrou o Juramento de Hipócrates do que um que colaborou para impor uma medicação, no caso a cloroquina, que todos os experimentos científicos sérios mostram ser de alto risco e mormente improdutivo. Em suma, melhor ser breve, do que cúmplice.

E agora sem Teich, em uma toada destrambelhada segue o governo Bolsonaro.

Dá nele, máscara!

nelson-teich

O vídeo abaixo é rápido, mas extremamente revelador sobre o mato sem cachorro em que o Brasil está enfiado neste momento de pandemia letal. É que se o ministro da Saúde, Nelson Teich, tiver a mesma destreza que ele mostra no simples ato de vestir uma máscara na gestão da crise sanitária causada pelo coronavírus, a verdade é que vai faltar caixão no Brasil.

O baile dos 20 sem máscara e de 1 mascarado

Na coletiva da não explicação do presidente Jair Bolsonaro sobre a demissão com direito a tiroteio de Sérgio Moro, marquei dois ministros: o da Saúde não usava máscara, e o da Economia usava (ver imagem abaixo).

no reino do corona

Minha conclusão acerca do baile dos 20 sem máscara e do 1 mascarado: melhor colocar o ministro da Economia, Paulo Guedes, para coordenar o combate à COVID-19 e o da Saúde, Nelson Teich, para conter a galpante evasão de dólares. Talvez dê certo… ou não.

Com ministro da Saúde “Bolsonarista raiz”, Jair Bolsonaro abre as portas para implantar a via equatoriana no Brasil

bolsonaro teichjO presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich

A confirmação da anunciada queda de Luiz Henrique Mandetta e o anúncio de um “Bolsonarista raiz”, o médico oncologista e empresário da área da saúde, Nelson Teich, para dar continuidade aos esforços de controle e combate à pandemia da COVID-19.  Um rápido passeio pela internet já mostra bem o perfil empresarial de Teich, o que explica sua proximidade com o agora ex-Posto Ipiringa, o ministro da Fazenda, Paulo Guedes que o levou para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

As posições públicas de Nelson Teich em relação ao ponto nevrálgico do desentendimento entre Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta é, no mínimo, dúbia, pois, apesar de defender o isolamento social como ferramenta de controle da difusão do coronavírus, em um artigo na rede social Linkedin, o novo ministro da Saúde defendeu isolar apenas as pessoas infectadas e seus contatos mais próximos. Como o nível de testagem do Brasil em relação à infecção pelo coronavírus é um dos piores do mundo, não será surpresa se Teich rapidamente evoluir (ou involuir) para a proposta favorita dentro do governo Bolsonaro que é a do isolamento vertical, concentrando-se nos grupos de idades mais avançada.

Mas esqueçamos de Nelson Teich por um segundo para nos concentrar nas declarações de vários membros do governo Bolsonaro no sentido de que não apenas é aceitável que haja mortos no Brasil por causa da infecção pelo coronavírus, mas que também que isso seria até desejável, como declarou o presidente do Banco Central, o Sr. Roberto Campos Neto, que declarou para um grupo de investidores (ou melhor, especuladores financeiros) que “quanto maior for o número de novos casos e mortes por coronavírus melhor para a economia”.

Entretanto, não pode ser esquecido que o presidente Jair Bolsonaro também já relativizou o impacto das mortes de cidadãos brasileiros em nome de um suposto funcionamento da economia, dizendo que “Alguns vão morrer? Vão morrer, lamento, lamento, mas essa é a realidade…” (ouça  áudio abaixo).

Mas voltando a Nelson Teich, eu não tenho a menor dúvida de que a sua presença à frente do Ministério da Saúde parte do entendimento de Jair Bolsonaro e seus ministros de que a atividade econômica (seja qual for ela) está acima das necessidades de proteção da saúde dos brasileiros.  Com isso, o que me parece estar sendo preparado é a abertura geral das portas, o que inevitavelmente nos levará a um cenário a la Equador, país que hoje está com dificuldade até para recolher seus mortos, com cadáveres sendo incenerados até em vias públicas.

Por isso, que ninguém se engane, o cenário “a la Equador” só será evitado no Brasil se houver a devida reação social, pois, do contrário, é isto que teremos nas próximas semanas.

Finalmente, algumas considerações sobre o agora ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.  Em minha opinião, Mandetta está deixando o ministério da Saúde de mansinho e posando de pessoa responsável, mas ele sabe bem a bomba relógio que deixou para Nelson Teich.  O Brasil não só está entrando em um período de aceleração dos casos de necessidade de internação porque muitas pessoas infectadas vão agora começar a entrar na fase mais crítica da COVID-19, mas como também nos próximos dias serão conhecidos os resultados de milhares de testes que continuam esperando seus laudos.

Aí o Brasil se verá de um cenário muito mais ameaçador e sombrio do que no dia de hoje.  Mas quando isto acontecer, o principal responsabilizado por oferecer respostas ao drama social que se descortinará não será nem Mandetta ou Nelson Teich, mas Jair Bolsonaro. É que ao insistir no fim do isolamento social para conter a difusão do coronavírus, Jair Bolsonaro se tornou o avalista da via equatoriana que, no Brasil, gerar não os 700 mortos que o próprio presidente da república citou para desqualificar as posições adotadas pelo governo paulista, mas um número muito maior de mortes. Quando isto acontecer, a crise política que já vivemos no Brasil subirá muitos degraus. A ver!