Pietismo secular

 A esquerda joga a compulsão de se auto-otimizar contra si mesma

end of groundsVocê está pronto para atuar? As contorções políticas da esquerda de hoje – neste caso, o movimento “Fim dos caminhos” – às vezes levam mais para o sistema do que para fora dele.  Foto: dpa / Andreas Arnold

Por  Michael Ramminger e Julia Lis para o Neues Deutschland

Brancura crítica, reflexão sobre o comportamento de fala, conceitos de consciência que regulam meticulosamente o comportamento em festas e ações, acusações constantes de anti-semitismo: qualquer pessoa que observe discursos de esquerda e o habitus de muitos no ativismo de esquerda perceberá rapidamente que o comportamento e fala “corretos” , Portanto, a moral desempenha um papel muito central. Esse fato se baseia em uma subjetivação que reproduz os mecanismos do capitalismo neoliberal pelo avesso, ao invés de questioná-los radicalmente.

O capitalismo neoliberal assenta em três pilares centrais: Em primeiro lugar, o mercado livre, que – segundo o seu principal apologista FA Hayek – “pode fazer amigos dos inimigos” e deve garantir a maior prosperidade possível e a máxima liberdade. Em segundo lugar, existe o entendimento do Estado de garantir a propriedade e prevenir a interferência no mercado. O terceiro ponto, entretanto, é uma forma específica de subjetivação e individualização que estamos apenas compreendendo lentamente. Desenvolveu-se na transição do fordismo para o pós-fordismo ou »toyotismo«: a força de trabalho autossuficiente, exigida em toda a sua subjetividade e criatividade – seja na linha de montagem da Toyota, na agência de web design ou no hospital – sempre pronta dar tudo e estar presente à crítica dos outros da equipa ou do grupo: eu, uma empresa minha,

Outrora, por exemplo com Rosa Luxemburgo, a individualidade era a liberdade do indivíduo, uma demanda emancipatória. Hoje, porém, é um imperativo das condições prevalecentes que exige tudo de você. É a última instância de uma vida bem-sucedida: se você falhar, a culpa é sua. Somos institutos experimentais para nossas próprias personalidades, extraímos nossa liberdade e autoridade de nós mesmos. Esse auto-fortalecimento no capitalismo neoliberal é, como Ulrich Beck delirou em 1997 antes da transição para o capitalismo vermelho-verde, a reinvenção republicana da Europa dos indivíduos , portanto, o »novo filósofo” no sentido de Friedrich Nietzsche.

Graças a Deus, não demorou muito para que esse trágico otimismo se esgotasse na individualização capitalista. Além dos movimentos de direita, que se opuseram a essa demanda excessiva por meio de uma nova homogeneização étnica e racismo, o movimento de esquerda também se posicionou na República Federal: crítica patriarcal, anti-racismo e movimentos de refugiados, bem como o “Fim dos Caminhos”, são de tentar neutralizar essas condições. A esquerda do movimento luta desesperadamente contra as consequências catastróficas deste capitalismo. Ao fazer isso, no entanto, ela negligencia como, em sua luta, em suas formas organizacionais e máximas, internalizou de forma não dialética o pressuposto básico do sujeito capitalista neoliberal, a compulsão para a auto-otimização criativa e individualização.

O sujeito toyotista da auto-otimização experimenta sua reencarnação como figura de uma espécie de ativista político comprometido com a própria perfeição moral na luta contra a destruição, exploração e injustiça ambiental: na obrigação de auto-otimização no sentido de um trabalho permanente sobre sua própria integridade moral. A política de esquerda está cada vez mais reduzida a intervenções discursivas e mudanças de hábito. Teorias que querem penetrar nas estruturas sociais como parte da socialização capitalista – como a teoria crítica – dificilmente desempenham um papel nas universidades hoje em dia. Eles foram substituídos por uma recepção abreviada do construtivismo pós-estruturalista, que normalmente é conhecido pelo nome de “desconstrutivismo”.

Isso pode ser visto principalmente nas formas populares de discurso de gênero – muitas vezes vagamente baseadas em Judith Butler -, no exagero sobre a brancura crítica e a recepção comum dos estudos pós-coloniais. A radicalidade com relação à crítica à dominação deve, portanto, ser mostrada em um comportamento de discussão politicamente correto, na crítica do “salvadorismo branco”, nos próprios privilégios e assim por diante. É uma vingança que a subjetivação pessoal em condições capitalistas não seja naturalmente analisada também como um processo histórico de socialização. Isso culmina no fato de que, por exemplo, grupos locais do “Fim dos caminhos” paralisam-se em sua prática ao descobrir, tristemente, que têm muito poucos »PoC« (pessoas de cor) em suas próprias fileiras.

Política como expiação

Portanto, trata-se cada vez menos de superar as condições e compreender essa luta como a do imperfeito. Por outro lado, a política de esquerda degenera em uma crítica às próprias inadequações, alheias e sociais, cujo horizonte último é expiar por meio da auto-otimização moral da esquerda. Essa figura é conhecida desde a história da religião, especialmente a história das igrejas protestantes. A referência aqui é o pietismo do século XVII. A internalização religiosa – »pesquisa da alma« – e a perfeição moral, também realizada externamente, estavam no centro desse sistema de crenças. Devem ser garantidos pela forte orientação interna da comunidade espiritual, a “ecclesiola”. Encontramos isso novamente em uma forma secularizada à esquerda, quando páginas de folhas de reflexão são criadas sobre as próprias estruturas racistas internalizadas, quando em tempos de pandemia corona são denunciados impiedosamente aqueles que não assumem responsabilidade suficiente por sua própria saúde e pela saúde de seus vizinhos ou quando grupos críticos de masculinidade referem-se a confissões de culpa por seu falso comportamento masculino dominante em torno de si como melhor, porque os homens feministas apresentam. Você pode chamar isso de pietismo secularizado. para se apresentarem como melhores, porque homens feministas. Você pode chamar isso de pietismo secularizado. para se apresentarem como melhores, porque homens feministas. Você pode chamar isso de pietismo secularizado.

 Fadiga exercida

Essas formas de política e de vida são cada vez menos capazes de criticar toda a sociedade. As ações continuam focadas nas demandas certas que se faz da sociedade e também da “política”, ou seja, das instituições do Estado. Nesse ínterim, há uma grande pressão interna, uma denúncia implacável de todos os comportamentos e formas de expressão contraditórios até a exclusão e denúncia. Um clima de autocontrole temeroso se desenvolve, o que inibe a criatividade, a alegria da experimentação e o desejo de discutir. O manejo individual e coletivo dos conflitos que surgem da tensão entre a reivindicação de auto-realização individual ilimitada e a compulsão de atender às próprias exigências morais coletivas ocupa muito espaço.

O resultado é um tipo de homem de esquerda que sempre parece cansado e tenso, precisamente porque sempre tenta se comunicar de forma amigável e reservada e fazer cumprir as regras auto-impostas internamente, construindo pressão moral. Muito do que Nietzsche uma vez formulou como uma crítica à moralidade do meio protestante-burguês se aplica a este tipo: “Eles teriam que cantar para mim melhores canções para que eu pudesse aprender a acreditar em seu Redentor: seus discípulos deveriam parecer mais redimidos para mim !?”

A crítica de Nietzsche a uma “moralidade escrava” que busca compensar sua própria fraqueza e inferioridade com reivindicações morais de superioridade e, assim, eleva-a a uma virtude, deve ser escrita atrás das orelhas da esquerda de hoje. Só então ela seria capaz de se libertar do cativeiro de tal pietismo secularizado. Você faria um pouco mais de bem a Nietzsche. Se apenas para levantar a questão de como podemos coletivamente e alegremente nos libertar para uma vida, um desejo que nos permite finalmente lutar e superar os relacionamentos errados e alienados, não nós mesmos. Isso seria, então, talvez realmente uma reversão bem-sucedida e esquerda dessa figura do “novo filósofo” que Ulrich Beck convocou em defesa do estrangeiro neoliberal e da auto-exploração com Nietzsche.

*Dr.  em Teologia Michael Ramminger , nascido em 1960, é um dos co-fundadores do Instituto de Teologia e Política de Münster. Dra em Teologia Julia Lis , nascida em 1980. Ambos se interessam por questões de teologia libertadora e estão envolvidos em movimentos políticos.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Parece revolução, mas é só neoliberalismo

O professor universitário em meio às cruzadas autoritárias da direita e da esquerda

escarnio

Escárnio, trabalho de Hirotoshi Ito, e os universitários: usando camuflagens progressistas, a esquerda está transformando os alunos em consumidores e os servidores públicos em serviçais  

Por  Benamê Kamu Almudras

Um amigo que leciona na área de humanas em uma grande universidade pública paulista, ao chegar para a sua aula em um curso de pós-graduação, percebeu um burburinho inusual entre os alunos. Perguntou-lhes se estava tudo bem, e um deles disse: “Não. Estamos fazendo um motim.” Outros expuseram o motivo da rebelião: a excessiva carga de leitura da disciplina. Meu amigo ficou surpreso, pois a carga de leitura era pequena. Os alunos tinham que ler e debater semanalmente apenas dois ou três projetos de colegas, cada um com vinte páginas no máximo.

O professor perguntou se os alunos teriam alguma sugestão para resolver o problema. Eles propuseram que cada um escolhesse por conta própria os projetos que quisesse ler e os colegas com quem discutir, formando pequenos grupos auto-organizados. Dessa forma, terminariam o semestre mais cedo. Atordoado, o professor disse que pensaria no assunto, para então negociar uma solução satisfatória para todos. Mas um aluno retrucou: “Não, professor. Você sempre quer negociar. O que nós queremos é romper hierarquias e questionar o seu poder.” O professor respirou fundo, disse que lhes escreveria a respeito mais tarde e continuou sua aula.

Depois de consultar colegas e enfrentar uma noite mal dormida, o professor respondeu aos alunos, dizendo que manteria a dinâmica inicial do curso. Vários alunos lhe enviaram longos e-mails de protesto, qualificando sua decisão como autoritária e reivindicando que a vontade deles fosse respeitada. Tomados por um misto de revolta e euforia, diziam estar lutando pela democratização da universidade e contra as estruturas de poder.

Na aula seguinte, o professor apontou aos alunos a pouca razoabilidade das demandas que faziam e explicou a importância da leitura e do diálogo intelectual para a formação de cada um. Resolveu tornar opcional a participação no resto do semestre. Para sua surpresa, ninguém deixou o curso. Os participantes do motim – um terço da turma – lhe pediram desculpas e agradeceram a preleção. Final feliz.

Só que não. Narro esse episódio (sem citar nomes para não expor as pessoas) porque, a meu ver, ele exemplifica um fenômeno mais geral que tem ganhado força e se tornado mais frequente nas universidades brasileiras e do exterior. Para descrevê-lo, tomo emprestada do mesmo amigo uma expressão usada por ele em sua preleção aos revoltosos. Adaptando uma famosa frase de Renato Russo (“Parece cocaína, mas é só tristeza”), esse professor disse aos alunos sobre o motim: “Parece revolução, mas é só neoliberalismo.” A primeira metade dessa analogia é, claro, puramente metafórica: refere-se à agitação política dos alunos. A segunda é metonímica, pois o neoliberalismo é fonte de tristeza e angústia para qualquer pessoa que tenha apreço pela educação pública e por ideias progressistas.

A rebelião contra esse professor é um exemplo de atitude neoliberal da parte dos estudantes. Não me refiro ao neoliberalismo como ideologia político-econômica, mas como forma cultural, em que o mercado, a ética individualizante e o espírito do consumismo são erigidos como o modelo cognitivo e normativo da vida social. Apesar de os alunos apresentarem sua pauta como democrática ou mesmo subversiva, o que eles estavam de fato exigindo era que a universidade fosse como um supermercado ou um restaurante, onde quem decide o que consome (que textos ler), quanto consome (quantos textos ler), por quanto tempo consome (quantas aulas ter) e como consome (como as aulas devem ser) são os consumidores. Subjacente à revolta estava a ideia de que o professor tem função parecida à de um gerente de hotel ou um alfaiate: servir ao cliente e satisfazer seus desejos. E o cliente, sabemos, tem sempre razão!

O episódio que narrei pode ter sido particularmente teatral e pedagógico, mas abundam casos semelhantes nas universidades. Em uma instituição pública fluminense da área de saúde, um aluno exigiu que o programa de pós-graduação desse aos estudantes garantias (termo tipicamente mercantil) de que todos terminariam seu doutorado com êxito. Levando ao extremo a mesma suposição de que o título (note bem, o título, e não o acesso à educação) é um direito de todos, uma aluna de história de uma universidade pública europeia que não escreveu sua tese de doutorado processou o departamento onde estudou, exigindo o diploma ou uma indenização pelo tempo investido (um termo-fetiche do neoliberalismo).

Outra professora de uma universidade pública localizada no Planalto Central recebeu de um aluno um e-mail em que ele declarava ter decidido que o melhor para ele seria não escrever o trabalho final da disciplina – e solicitava ser aprovado mesmo assim. Uma amiga que leciona ciências exatas em uma universidade mineira recebeu de seus alunos uma lista de temas que eles queriam ver tratados na palestra a ser dada por uma pesquisadora visitante. No meio da pandemia, um pós-graduando – bolsista com dedicação exclusiva – enviou uma mensagem de última hora a seu orientador, dizendo que não participaria de uma reunião online de seu grupo de pesquisas porque estava cansado.

Outra colega, da área de comunicação social e residente em uma grande cidade do Nordeste, se assustou quando um aluno de graduação criticou duramente em aula um importante texto que ele não tinha lido nem queria ler, pois tinha ouvido falar mal do autor em um documentário (outro fetiche neoliberal: o consumo doméstico de informação midiática). Quando a professora retrucou, dizendo que o aluno não poderia atacar o texto sem tê-lo lido, ela foi acusada de autoritarismo.

Parece, entretanto, que, aos olhos de tão exigentes consumidores, os professores também podem errar ao propor mais diálogo. Um estudante de ciência política questionou em público o método didático de um colega (baseado em discussões e debates) e solicitou que o professor desse mais aulas expositivas. Alegou que era muito disperso e se perdia ao ouvir os colegas. A mim um aluno sugeriu que eu modificasse o programa de um curso porque ele achava parte da bibliografia “maçante”. É também corriqueira a impolidez de pós-graduandos brasileiros, que não agradecem a seus orientadores por esforços que foram muito além de suas obrigações, não pedem desculpas por falhas que cometem e exigem reuniões, atestados e assinaturas, amiúde com prazos impraticáveis, em vez de pedi-los com boa antecedência e de forma cortês, como se espera em interações com professores, colegas, amigos e… prestadores de serviços.

Não uso estes últimos termos por acaso. A privatização do público denunciada por Hannah Arendt é hoje uma realidade tão abrangente e onipresente que, como o ar que respiramos ou como o diabo que vive nos detalhes, já nem a percebemos mais. Quando a coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores competindo no mercado, perde-se a ideia de que o professor é um servidor público dedicado a formar cidadãos instruídos e qualificados. Mesmo na educação pública, e entre aqueles que falam em seu nome, cresce o desejo de que ela passe a servir, de modo neoliberal, a esse consumidor autocentrado e oportunista que busca minimizar custos e maximizar benefícios. Assim, o professor universitário é tratado cada vez menos como um servidor público e cada vez mais como um prestador de serviços a indivíduos – um serviçal privado.

A força do neoliberalismo como fenômeno cultural se revela até nos ambientes mais progressistas, entre pessoas identificadas (por elas mesmas e por outros) como sendo de esquerda e que dizem estar lutando contra injustiças sociais. Mais assustador é que tais pessoas apresentam sua fantasia neoliberal como se fosse um projeto emancipador. Com isso, expande-se a suposição devastadora de que o professor, caso não aceite o papel de um serviçal privado, só pode ser um opressor.

Suspeito que isso se deva, em parte, à maneira distorcida como alguns alunos veem a assimetria inerente à educação, imaginando que os corpos docente e discente são como classes sociais – de um lado, a classe exploradora; de outro, a explorada. Eles supõem que o professor detenha uma superioridade essencial e que a posição de aluno seja involuntária e permanente. Esquecem que ninguém nasce professor e que a assimetria da sala de aula é contextual e temporária. O professor é apenas alguém com mais experiência e conhecimento em determinada área, e não um sujeito social dotado de um poder inerente ou de mais conhecimentos genéricos que os alunos. Aliás, muitos alunos de universidades públicas com atitudes como as que descrevi têm eles próprios a intenção de seguir a carreira docente, o que torna ainda mais absurda a identificação que fazem do professor com o opressor.

Essa identificação enganosa provavelmente se deve também ao perfil demográfico do corpo docente. A despeito de variações que possam ocorrer nas diferentes instituições e áreas de conhecimento, há em geral, entre professores universitários, uma sub-representação de grupos discriminados e oprimidos por razões raciais, étnicas, religiosas, de gênero, de sexualidade ou de classe. Como muitos alunos são afetados por essas discriminações, não é de estranhar que alguns vejam seus professores como sujeitos privilegiados e dotados de grande poder.

Se isso ajuda a explicar a visão de que o professor é um opressor, é certo que não a justifica, pois há vários problemas nessa concepção. Primeiramente, ela ignora a desigualdade de posições sociais e institucionais entre professores, pois pressupõe que todos somos oriundos de setores sociais dominantes ou privilegiados, ou associados a eles. Embora algumas formas de hierarquização e discriminação sejam facilmente visíveis e identificáveis, outras não são. Há, por exemplo, muitos professores de universidades conceituadas que passaram por grandes dificuldades econômicas em sua juventude, sofreram preconceito e opressão ao longo da vida e, por terem estudado em universidades de menor prestígio (ou até de mais prestígio, mas estrangeiras), nunca são plenamente aceitos como pares por seus colegas, que julgam ter melhor pedigree social e acadêmico. E, dadas as desigualdades de ordem salarial, origem geográfica e classe entre professores, muitos enfrentamos dificuldades materiais reais, além do desprestígio social que marca toda a categoria.

Fora isso, a identificação do professor com o opressor e as revoltas contra docentes fazem com que se gaste tempo e energia atacando pessoas que, na maior parte das vezes, são aliadas dos alunos e lutam pelas mesmas bandeiras que eles, a começar pela defesa de uma universidade pública mais justa, inclusiva e democrática. O motim que descrevi no início deste texto, por exemplo, aconteceu em 2017, quando a democracia se deteriorava e o autoritarismo crescia aceleradamente no Brasil. Tenho certeza de que os revoltosos viam a situação nacional com a mesma preocupação que seu professor, mas preferiram usar seu tempo e energia lutando por “causas” miúdas como os supostos direitos de estudar menos e de decidir o que ler. Há algo de muito errado e perigoso quando estudantes tentam transformar em pauta política a redução do rigor e da qualidade da educação.

Grave é também o desvio feito pela ofensiva política progressista quando ela passa a atacar seus aliados. A expressão mais atroz dessa deturpação é a proliferação de acusações infundadas de racismo, sexismo, classismo, homofobia e transfobia feitas contra professores. Todas as denúncias desse tipo devem ser levadas a sério e investigadas, pois disso depende a luta por uma universidade mais justa e inclusiva. Sabendo que preconceitos e assédios são uma realidade cotidiana da academia, como de tantas outras áreas, defendo veementemente a importância política dessas denúncias e o direito de todas as pessoas de fazê-las.

O fato de que o racismo, o sexismo, o classismo, a homofobia e a transfobia sejam frequentes nas escolas não significa, porém, que todas as denúncias sejam verdadeiras. Pode-se dizer o mesmo, imagino, de outros ambientes profissionais, mas esse fenômeno ganha contornos específicos no caso da universidade. Embora raramente tenhamos a coragem ou o interesse de falar disso em público, não é segredo para acadêmicos brasileiros e estrangeiros que parte dessas acusações são atos oportunistas de pessoas movidas por objetivos mais imediatos e pouco louváveis, como obter uma aprovação não merecida, diminuir a carga de estudo e conseguir facilidades na concessão de um diploma. A manipulação de injustiças, violências e exclusões para benefício individual é talvez a expressão mais feroz e perversa da neoliberalização cultural da educação pública.

A refinada perversidade dessa manipulação interesseira se dá em diferentes níveis. Para começar, os professores mais comumente acusados são os que estão em situações profissionais mais frágeis, em estágios iniciais da carreira, sem grandes vantagens imediatas a oferecer a seus alunos e cuja destruição moral não traz prejuízo a seus difamadores. Outro alvo comum de acusações infundadas são professores oriundos de grupos sociais discriminados e fragilizados. O preconceito de alguns indivíduos contra o próprio grupo oprimido é uma triste realidade, mas o que quero salientar é que muitas vezes os professores mais atacados e desrespeitados – por calúnia e difamação, assim como por outros atos cotidianos e discretos – são os mais desprovidos de poder, tanto dentro quanto fora da universidade.

Outras vítimas preferenciais são professores altamente mobilizados por questões políticas. Um professor de filosofia pós-colonial ou de história contemporânea tem muito mais probabilidade de ser atacado por uma afirmação que algum aluno considere inapropriada do que um professor de filosofia medieval ou de história antiga. Abundam os casos de professores feministas e ativistas de direitos LGBTQIA+ acusados de sexismo, homofobia e transfobia por darem aula sobre textos tidos como politicamente inapropriados ou por cometerem eventuais deslizes de linguagem passíveis de punição pela impiedosa e infatigável milícia do vocabulário.

Recentemente um professor de uma respeitada universidade pública do Sudeste, especializado em pensamento afro-atlântico, foi chamado de racista por uma mestranda. Ela havia sido reprovada em sua disciplina por não frequentar as aulas, não apresentar um seminário obrigatório, não escrever o trabalho final e não responder a repetidas tentativas de contato. O oportunismo da calúnia fica evidente ao sabermos que a aluna só fez a denúncia seis meses depois de sua reprovação, e no momento que estouraram os recentes protestos antirracistas nos Estados Unidos. Mordendo a isca, os defensores dela não se furtaram a equiparar a reprovação ao brutal assassinato de George Floyd! Quando foi demonstrado que a denúncia era falsa, outro aluno de “pós” – de pós-graduação e de pós-verdade – defendeu os ataques dizendo que, sendo o professor um homem branco (aliás, abertamente gay e em estágio probatório na universidade), não importava se as acusações eram verdadeiras ou não. Se o professor fosse menos forte e decidido, talvez tivesse deixado de dedicar seu ensino e pesquisa a questões raciais, e a luta antirracista teria perdido, graças ao neoliberalismo de esquerda, um aliado em uma instituição de grande visibilidade.

O uso oportunista e individualista de questões sociais seríssimas prejudica a luta política não apenas por alimentar as conhecidas reações conservadoras e preconceituosas, mas também por silenciar vozes aliadas e privatizar bandeiras coletivas fundamentais. Muitas vezes as acusações são tão egocêntricas que supõem que, caso um indivíduo não seja beneficiado da maneira que exige, isso demonstra que toda sua categoria está sendo prejudicada. Há casos em que um candidato a pós-graduação, ao não ser admitido em processos seletivos com cotas para grupos discriminados (como todos os programas devem incluir), afirma que sua não admissão é sintoma de preconceito – mesmo que, obviamente, a vaga que ele não obteve seja destinada a outra pessoa da mesma categoria (vemos aqui o problema do fogo amigo: programas que não praticam ações afirmativas não correm o risco desse tipo de acusação e seu racismo passa incólume). É mais uma vez o “eu” autocentrado exigindo direitos de consumidor, sequestrando e usando como disfarce o “nós” coletivo que reivindica direitos sociais justos e corretos.

Essa privatização é mais uma expressão do poder do neoliberalismo cultural no ensino público. Ao contrário do que afirmam alguns, tal privatização não defende a educação: nega a própria ideia de educação. Não é à toa que muitos estudantes (mas não apenas eles) julgam que o incontestável direito à educação equivale a um suposto direito universal a um título, o bem maior almejado pelos consumidores da universidade. Tive a oportunidade de ler várias cartas de alunos, endereçadas a professores e a instituições, que defendiam não tanto o direito de estudar, mas sobretudo o de receber um diploma acadêmico, independentemente do mérito do estudante. Reivindicações desse tipo, fantasiadas de luta democrática e igualitária, negam o pressuposto de que algumas pessoas têm certos conhecimentos específicos que podem ensinar a outras, em geral mais jovens, que ainda não os têm – e que para adquiri-los é preciso estudar. Tais reivindicações impedem a formação de cidadãos esclarecidos e transformam o direito à educação em direito a boas notas, aprovações e títulos.

Mas a força do neoliberalismo cultural na educação não para por aí. Como observou o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, apenas a lógica competitiva de mercado permite entender a proliferação de cruéis, rasos e injustos ataques militantes a intelectuais politicamente engajados. Em suas palavras, “para os atacantes, são chances de melhor se posicionarem no mercado epistêmico: quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital” (Folha de S.Paulo, 11/08/2020).

O artigo não se refere unicamente a agressões a docentes, mas não é coincidência que tenha sido escrito por um professor universitário a respeito de ataques sofridos por uma colega de profissão. Entre os vários supostos erros de que esta professora – a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz – foi acusada, estava o de, apesar de ser branca (judia, vale lembrar), ter dedicado décadas de pesquisa e atuação pública ao combate ao racismo. Afinal, como bem argumentou Gomes, a lógica do mercado raras vezes recompensa e estimula ataques a pessoas retrógradas e conservadoras. Racistas, sexistas, homofóbicos, transfóbicos, antissemitas e semelhantes seguem ilesos em suas reputações e fortalecidos em suas posições de poder, voz e visibilidade. Punindo e calando intelectuais progressistas, o neoliberalismo de esquerda dá mais espaço, mais vigor e mais protagonismo ao neoliberalismo stricto sensu que, pelo lado direito, ataca o ensino público e seus professores de forma igualmente atroz.

Infelizmente, contudo, a esse problema nós, os professores, temos também reagido de maneira tipicamente neoliberal. Por um lado, tendemos a atribuir a particularidades de certas situações e de indivíduos cada caso de abuso, desrespeito, privatização, calúnia ou difamação. Por outro, seguimos com o pacto não declarado de silêncio sobre essas questões por temermos, com razão, punições no mercado acadêmico. E muitas vezes cedemos na concessão das benesses exigidas pelos sujeitos neoliberais, seja por medo de eventual repercussão, seja por autoengano político. Com isso, acabamos por contribuir para a privatização da educação, no sentido amplo e cultural, e, claro, para a deterioração do ensino. Enquanto não entendermos que estamos diante de um fenômeno coletivo – o individualismo é um fenômeno coletivo – e enquanto não agirmos politicamente, ou seja, debatendo publicamente um problema político, a educação pública seguirá sendo atacada não apenas de forma espetacular, mas também rotineira e capilar; não apenas por governos e ideólogos de direita, mas também nos campi, nas ruas e nas mal denominadas redes sociais.

Assim, os professores universitários, sobretudo os de instituições públicas brasileiras, sofremos hoje duas virulentas ofensivas neoliberais. A direita nos ataca de modo neoliberal, combatendo em nome do mercado tudo que nossa educação pública conquistou a duras penas nas últimas décadas: inclusão social, expansão do ensino, ações afirmativas, financiamento à pesquisa, reflexões sofisticadas sobre a sociedade. A esquerda, usando camuflagens progressistas para disfarçar seu neoliberalismo, transforma alunos em consumidores, a educação em distribuição de diplomas, o rigor acadêmico em forma de opressão, os servidores públicos em serviçais privados.

Um lado defende abertamente o neoliberalismo, o outro pensa ser revolucionário. Mas ambos agem de forma mercantil e compartilham o ataque à educação pública e ao pensamento crítico. Ao castigarem os professores por ensinar, pensar e escrever, uns encontram nos outros os melhores aliados de suas cruzadas neoliberais autoritárias contra a liberdade de pensamento e de expressão. Assim como, em 1815, europeus católicos, protestantes e ortodoxos juntaram suas forças retrógradas em uma Santa Aliança contra os ideais republicanos, hoje em dia fanáticos à direita e à esquerda se unem religiosamente em uma aliança, desta vez não declarada, para combater a educação pública e os professores.

Quase todos os docentes de universidades públicas concordamos sobre os graves e evidentes perigos do neoliberalismo autoritário da direita, e fazemos o possível para combatê-lo. Mas para continuar e fortalecer essa luta devemos também romper nosso pacto de silêncio e reconhecer os perigos igualmente autoritários, igualmente violentos e igualmente neoliberais que vêm do outro lado – inclusive de nossos alunos.

É como um passo em direção a esse reconhecimento e a um debate amplo e democrático que escrevo este artigo. Apenas lamento que tenha de assiná-lo com um pseudônimo. O motivo disso está evidente. Nestes tempos de cruzadas autoritárias moralistas e de narcisismo midiático neoliberal, uma crítica como a que fiz aqui tem de lançar mão da privacidade autoral como escudo e refúgio.

* Benamê Kamu Almudras, sob pseudônimo, é docente de graduação e de pós-graduação em uma universidade pública de São Paulo

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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista Piauí [Aqui!].

O significado amplo da derrubada da Constituição de Augusto Pinochet no Chile

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O Chile é para muitos defensores das políticas ultraneoliberais (caso do dublê de ministro e banqueiro Paulo Guedes, o “Posto Ipiringa” do presidente Jair Bolsonaro, uma espécie de Nirvana onde repousariam todos os méritos de um estado que funciona para privilegiar os detentores dos meios de produção, enquanto deixa de cumprir funções básicas nas áreas de saúde, educação e previdência social.

A atual Constituição chilena foi promulgada em 1980 em meio ao terror imposto pelo regime de Augusto Pinochet, era até ontem uma espécie de carta magna dos ultraneoliberais e uma espécie de roteiro para a destruição do Estado do bem estar social, ou dos seus resquícios, em países da periferia do capitalismo.

Pois bem, a partir de um plebiscito arrancado pela mobilização social em 2019, o povo chileno decretou ontem por esmagadora maioria que o Chile terá uma nova constituição e que deverá reorientar o funcionamento do estado chileno (ver resultado do plebiscito logo abaixo).

plebiscito chile

Além de enterrar a Constituição pinochetista, o plebiscito também decidiu que a próxima constituição chilena será escrita por uma assembleia nacional constituinte elevada apenas para essa finalidade, cuja composição de constituintes terá de ser igualmente dividida entre homens e mulheres. A combinação de resultados aponta para a forte possibilidade de que a constituição que emergirá no Chile será muito mais progressista e voltada para tornar o estado mais antenado com as necessidades da maioria da população chilena. Por isso os festejos que se viram ontem nas praças das cidades chilenas não são sem razão, pois essa é a demanda que impulsionou as manifestações massivas que sacudiram o país andino em 2019 (ver vídeo das celebrações ocorridas na noite de ontem em Santiago ao som da canção “El derecho de vivir en paz” de Victor Jara, um dos muitos que foram assassinados no Estádio Nacional de Santiago nos momentos iniciais do golpe militar comandado por Pinochet).

O fato é que a derrubada da constituição deixada pelo regime de Augusto Pinochet deverá enviar um forte sinal de que as mobilizações de rua, por mais reprimidas que sejam pelas forças policiais, são capazes de arrancar concessões que até algum tempo pareciam impossíveis. Esse tipo de precedente é que torna as consequências da aprovação da confecção de uma constituição algo com um valor político incalculável. Afinal, se os chilenos conseguiram a partir das manifestações nas ruas, a população de outros países latino-americanos se sentirão inclinados a usar o mesmo tipo de medicina.

Paulo Guedes, o primata neoliberal

Monkey Uncle Sam with pointing finger at viewer. Vintage engraving

Seguindo uma prática política, Bolsonaro fez acordos espúrios para se eleger presidente do país. Dentre esses acordos, o mais notório é com o mercado financeiro – materializado na figura de Paulo Guedes. O Ministro da Economia ostenta o apelido de primata neoliberal, atribuído em razão de sua total incapacidade de pensar num Estado-Nação. Ainda assim, a incompetência e o fracasso de sua equipe frente à pasta não parecem intimidar nem abalar a convicção que o ainda ministro nutre por encaminhar o país ao colapso social.

Estamos diante de um comportamento que pode ser desvendado ao lançar um olhar atento aos fatos: o que move e estimula nosso ministro são as bananas jogadas pelos famosos “investidores internacionais”, que o fazem como recompensa a cada truque bem executado pelo primata. De fato, talvez seja uma cena pitoresca, já que não é sempre que nos deparamos com um primata de terno e gravata ostentando títulos da Escola de Chicago. A cartilha de Guedes é óbvia e previsível. Todos sabem quais serão suas reações e opiniões – mesmo assim, parecem não conseguir conter o impulso suicida de colocarem uma granada em suas mãos, mais interessados pelo espetáculo do que se importando com o desastre.

Da mesma maneira, há pouco presenciamos o flagrante episódio em que o ministro da economia deste país esteve usando seu Terminal Bloomberg – uma espécie de teclado utilizado para operar em tempo real nas Bolsas de Valores. Não bastasse estar operando no mercado de ações durante o expediente como chefe da economia brasileira, torna-se inequívoco criminoso conflito de interesses e, principalmente, seu total descompromisso com a nação, bem como sua tara – única e exclusiva – pelas bananas do mercado financeiro.

É válido o lembrete de que a absurda “Secretaria de Desinvestimento” tenha sido chefiada por um picareta comerciante de automóveis – quem imaginava em suas alucinações que um Estado-Nação funcionaria igual e conforme os mandos e desmandos em sua loja de automóveis, onde seus subordinados simplesmente dizem amém a todos os seus sermões em troca de um salário de fome. Mais do que expor a fragilidade da equipe montada pelo “primata neoliberal” à frente da pasta econômica deste país, revela-se que um profundo desconhecimento sobre a República e uma dose extra de incompetencia são requisitos para ocupar secretarias. Afinal, o primata parece ser desleal inclusive na competição interna: não aceita de bom grado dividir as bananas, preferindo cercar-se de personagens decorativos.

Eis que na névoa escura da pandemia e durante o profundo colapso da economia, surgem alguns ministros com espírito republicano, bem mais evoluídos e conhecedores do país que governam. Exalando competência, apresentam um plano de reformas estruturantes, um programa gerador de empregos e renda, e um arrojado projeto de escoamento de produção. Sem surpresas, tal pacote foi obviamente estercado por Guedes, o primata que encena conduzir a economia nacional. Mesmo diante dos alertas do capitão à tripulação de que o barco está afundando, Guedes continuou fazendo suas macaquices, preferindo as bananas dos “investidores estrangeiros” à labuta de construção de um estado nação.

Para a sorte do Brasil, Paulo Guedes – O Primata – murchou muito desde o início do mandato. Sua autoconfiança foi se esvaindo conforme a realidade pública batia forte em seu estômago. Ele, que já havia se acostumado com as bananas jogadas a cada novo truque duramente ensaiado, viu suas bananas diminuírem conforme o repertório ia se repetindo. Nisso, tomou consciência de sua limitação e mediocridade: não trouxe solução para coisa alguma. Num momento em que o país exige criatividade incomum de seus ministros, Guedes continua tentando repetir o que aprendeu em Chicago na década de 1970 – num gesto repetitivo e desesperado, implorando por aplausos e bananas. O espetáculo não é novo, mas ainda assim, não é sempre que se vê um primata neoliberal engravatado fazendo malabarismos.

Então, o que poderia ser pior do que ter um incapacitado à frente do ministério mais importante de um país? A resposta é mais que simples: aceitar ser refém nas mãos desse incapaz. É o dilema enfrentado pelo presidente Jair Bolsonaro, que parece estar cada vez mais certo de sua decisão a respeito de demitir ou não essa atração circense que faz papel de ministro da economia.

por Vicentino

fecho

Este texto foi originalmente pelo Jornal Puro Sangue

Adolph Reed explica como a disparidade racial não ajuda a compreender os padrões de violência policial nos EUA

À luz dos eventos recentes, pensamos em republicar o ensaio de 2016 de Adolph Reed sobre disparidade racial e violência policial. Incluímos uma nova introdução à peça de Cedric Johnson, “ The Triumph of Black Lives Matter and Neoliberal Redemption ”, que considera o ensaio em vista da situação contemporânea.  

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*Por Adolph Reed, Jr. para o “Nonsite.org”

Alguns leitores saberão que afirmei que, apesar das afirmações de seus proponentes, o anti-racismo não é um tipo diferente de alternativa igualitária para uma política de classe, mas é uma política de classe em si: a política de uma linhagem da classe profissional-gerencial cuja visão de mundo e interesses materiais estão enraizados em uma economia política de raça e relações de identidade-grupo atribuídas. Além disso, embora muitas vezes venha com uma guarnição de referências depreciativas, mas vazias ao neoliberalismo como um sinal genérico de coisas ruins, a política anti-racista é de fato a ala esquerda do neoliberalismo em que sua única métrica de justiça social é a oposição à disparidade na distribuição de bens e males na sociedade, um ideal que naturaliza os resultados das forças do mercado capitalista, desde que sejam equitativos ao longo de linhas raciais (e outras identitárias). Como eu e meu colega Walter Benn Michaels insistimos repetidamente na última década,

Pretendemos fazer uma exposição mais longa e elaborada desse argumento e de suas implicações, que os ideólogos anti-racistas têm consistentemente ignorado ou tentado descartar por meio da descaracterização do argumento ou do ataque ad hominem. 1 Por enquanto, porém, quero simplesmente chamar a atenção para como a insistência em reduzir a discussão sobre assassinatos de civis pela polícia a uma questão de racismo obscurece a compreensão e as possibilidades de uma resposta eficaz às origens profundas do fenômeno.

Dados disponíveis (consulte Aqui!) indicam, para surpresa de ninguém que não esteja em uma negação deliberada, que neste país os negros representam uma porcentagem dos mortos pela polícia que é quase o dobro de sua parcela na população americana em geral. Os latinos são mortos pela polícia, aparentemente, a uma taxa aproximadamente equivalente à sua incidência na população em geral. Os brancos são mortos pela polícia a uma taxa entre pouco menos de três quartos (até o primeiro semestre de 2016) e pouco menos de quatro quintos (2015) de sua parcela da população em geral. Essa imagem é um pouco ambígua porque sete por cento dos mortos em 2015 e quatorze por cento dos mortos até junho de 2016 foram classificados racialmente como outros ou desconhecidos. No entanto, a evidência da grande disparidade racial é clara: entre as vítimas de homicídio cometido por policiais, os negros são representados pelo dobro da população; os brancos são mortos em uma taxa um pouco inferior à deles na população total. Essa disparidade é o fundamento lógico para o exercício de branding2 chamada #Black Lives Matter e contendas sem fim de que o perigo iminente de morte nas mãos de autoridade arbitrária branca tem sido uma condição fundamental e definitiva do status dos negros nos Estados Unidos desde a escravidão ou, para aqueles que, como Kai Wright da Nação , preferem seu padrão derivado atado com o aparente peso de datas obscuras, desde 1793. Na avaliação de Wright “Desde a aprovação da Lei do Escravo Fugitivo de 1793, os oficiais de segurança pública foram autorizados a assediar corpos negros [sic] na defesa do capital privado e a busca de receitas públicas. ” 3

Esta linha de argumento e reclamação, bem como a demanda por declarações rituais de que “vidas negras são importantes”, repousam na insistência de que o “racismo” – estrutural, sistêmico, institucional, pós-racial ou modificado – deve ser entendido como a causa e nome da injustiça manifestada nessa disparidade, que é, portanto, por implicação, a injustiça singular ou suprema do padrão de homicídios policiais.

Mas, quando nos afastamos do foco nas desproporções raciais, o fato gritante é que os brancos são cerca de metade ou quase metade de todos os mortos anualmente pela polícia. E a exigência de que nos concentremos na disparidade racial é simultaneamente uma exigência de que não atendamos a outras disparidades possivelmente causais. Zaid Jilani descobriu, por exemplo, que noventa e cinco por cento dos homicídios cometidos por policiais ocorreram em bairros com renda familiar média inferior a US$ 100,00 e que a renda familiar média nos bairros onde a polícia matou foi de US $ 52.907. 4 E, de acordo com os dados do Washington Post, os estados com as taxas mais altas de homicídio policial por milhão de habitantes estão entre os mais brancos do país: o Novo México tem uma média de 6,71 homicídios policiais por milhão; Alasca 5,3 por milhão; Dakota do Sul 4,69; Arizona e Wyoming 4.2 e Colorado 3.36. É possível que as altas taxas de homicídios cometidos por policiais nesses estados estejam concentradas entre suas muito pequenas populações negras – Novo México 2,5%; Alasca 3,9%; Dakota do Sul 1,9%; Arizona 4,6%, Wyoming 1,7% e Colorado 4,5%. No entanto, com exceção do Colorado – onde os negros foram 17% das 29 pessoas mortas pela polícia – esse não parece ser o caso. É verdade que em vários desses estados o número total de pessoas mortas pela polícia foi muito pequeno, na casa dos poucos dígitos. Ainda assim, nenhum negro estava entre os mortos pela polícia em Dakota do Sul, Wyoming ou Alasca. No Novo México, não havia negros entre as 20 pessoas mortas pela polícia em 2015, e no Arizona os negros representaram pouco mais de 2% das 42 vítimas de homicídios cometidos pela polícia.

O que está claro nesses estados, entretanto, é que a grande desproporção dos mortos pela polícia são latinos, nativos americanos e brancos pobres. Portanto, alguém deveria dizer a Kai Wright et al para encontrar outra data icônica sobre a qual pontificar; essa história de 1793 não tem nada a ver com nada, exceto alimentar a narrativa de sofrimento racial coletivo sem fim e superação individual triunfalista – “resiliência” – popular entre os estratos gerenciais profissionais negros e seus amigos brancos (ou eles são apenas aliados?) atualmente. O que o padrão nos estados com altas taxas de homicídios policiais sugere é o que pode ter sido o ponto focal da discussão crítica da violência policial o tempo todo, que é o produto de uma abordagem do policiamento que emerge de um imperativo de conter e suprimir os bolsões de populações economicamente marginais e subempregadas da classe trabalhadora, produzidos pelo capitalismo revanchista. Não há necessidade aqui de entrar na evolução deste perigoso regime de policiamento – de falsas “janelas quebradas” e teorias de “tolerância zero” do tipo que os acadêmicos sempre parecem ter prontos para racionalizar a aplicação intensificada do poder de classe burguesa, à histeria antiterrorismo e, finalmente, à afirmação de um entendimento de senso comum de que qualquer policial tem autoridade inatacável para anular proteções constitucionais e transformar um adesivo de inspeção expirado ou uma recusa em responder a uma ordem arbitrária ou busca sem justificativa em um crime capital.não prestar atenção às raízes mais profundas do padrão de violência policial na aplicação do regime neoliberal de redistribuição ascendente agudamente regressiva e suas implicações sociais. É também uma exigência de que, ao insistir que, para todos os efeitos e propósitos, a violência policial deve ser vista como principalmente, senão exclusivamente, uma coisa negra, nos isolemos da única base para forjar uma aliança política que possa efetivamente contestá-la. Tudo o que poderia ser possível como intervenção política, portanto, é mexer com a administração do policiamento de estresse neoliberal no interesse de buscar a paridade racial na vitimização e fornecer consultoria para especialistas no quanto a vida dos negros é importante. 5

Outro dado revelador a respeito das imagens de uma história ininterrupta de difamação racista de “corpos” negros que remonta pelo menos a 1619 como explicação da atual disparidade racial nos assassinatos policiais é que, como Mike Males mostrou, assassinatos policiais de homens negros com menos de 25 anos anos de idade diminuíram 79% entre 1968 e 2011, e 61% para homens com mais de 25 anos durante o mesmo período. 6 Isso também não é surpreendente. As vitórias conquistadas pelo movimento pelos direitos civis foram reais, assim como as implicações da Lei do Direito ao Voto. Em geral, as coisas estavam piores com respeito ao terror policial cotidiano nos bairros negros do centro da cidade do que agora. Um dos poucos slogans dos Panteras Negras que não era simplesmente uma hipérbole vazia foi a caracterização do papel da polícia como um “exército de ocupação” nas comunidades negras. (Quando vi A batalha de Argel pela primeira vez no final dos anos 1960, senti um choque instantâneo de reconhecimento, uma sensação de que vivi parte do filme.) Transição racial no governo local e aprofundamento da incorporação de interesses políticos minoritários no governo local as coalizões tiveram um efeito moderador sobre a brutalidade policial nas comunidades negras. 7

Meu objetivo não é de forma alguma diminuir a gravidade da injustiça ou diminuir a indignação com a violência policial. (Eu percebo, no entanto, que alguns irão atribuir essa intenção a mim; para eles e todos os que levariam a carga a sério, veja a nota 1 abaixo.) No entanto, observando um declínio – ou mudança substancial em qualquer direção nesse caso – no A taxa de homicídios cometidos por policiais ressalta a inadequação de abstrações trans-históricas reificadas como “racismo” ou “supremacia branca” para dar sentido à natureza e às fontes de abuso policial dos negros americanos. Racismo e supremacia branca não explicam realmente como tudo acontece. Na melhor das hipóteses, são caracterizações abreviadas de ações mais complexas, ou pelo menos discretas, realizadas por pessoas em contextos sociais; na pior das hipóteses, e, infelizmente, mais frequentemente em nosso momento político, eles são invocados como alternativas à explicação. Nesse sentido, eles funcionam, como a história do Yacub da Nação do Islã, como uma teoria do diabo: o racismo e a supremacia branca são representados como capazes de fazer as coisas acontecerem no mundo de forma independente, ou seja, magicamente. Essa é a fantasia expressa em formulações como o racismo é a “doença nacional” ou “Pecado Original” da América – que, aliás, são elementos da ideologia das relações raciais liberais que tomaram forma no discurso político americano do pós-guerra precisamente como articulações de uma noção de igualdade racial que foi separada da economia política e ancorada na psicologia e noções individualistas de preconceito e intolerância. 8

No entanto, deixando de lado por um momento as formas em que as invocações causais do racismo e da supremacia branca são equivocadas e inadequadas e aceitando, por uma questão de argumento, que as forças reificadas podem fazer coisas no mundo, se seu poder manifesto pode variar significativamente com o contexto social, político e histórico, o objetivo de combater a injustiça não seria melhor atendido dando-se prioridade ao exame dos contextos mutáveis ​​e evolutivos em que o racismo e a supremacia branca são mais ou menos poderosos ou condicionam as formas em que eles parecem em vez de demonstrar que aquelas forças que supostamente causam desigualdade devem ser chamadas de racismo ou supremacia branca em particular? Um problema com o último objetivo é que ele é, em última análise, irrealizável. Não existe um padrão definitivo do que se qualifica como racismo; como o terrorismo ou qualquer outra abstração, está nos olhos de quem vê. Na verdade, uma ilustração da grande vitória cultural da luta pelos direitos civis do pós-guerra é que o “racismo” é sancionado negativamente na sociedade americana. Ninguém com qualquer esperança de reivindicação de respeitabilidade política – nem mesmo o governador do Maine, Paul LePage, que deixa alguém lutando para imaginar o que ele presume que seria, portanto, qualificado como racista, (Aqui!) . Além disso, os defensores da política anti-racista argumentam que o debate sobre o nome que deve ser atribuído à injustiça é importante porque reconhecer a existência do racismo / supremacia branca como agente causal é um primeiro passo necessário para superar seu poder. Mas essa afirmação se baseia em terreno político instável. É, no fundo, um apelo à expiação e reabilitação moral como ação política. Nesse sentido, Black Lives Matter é como seu avô retórico, Black Power; é um slogan que condensou ressonâncias afetivas significativas, mas não tem conteúdo programático ou estratégico. Também como o Black Power, em resposta às críticas sobre sua falta de conteúdo concreto, os ativistas do BLM geraram um Plano de 10 Pontos (Aqui!), em parte claramente para responder às críticas de que eles não tinham uma agenda afirmativa, além de exigir que o slogan fosse validado e os nomes de vítimas selecionadas de homicídios policiais fossem invocados. Isso foi seguido mais recentemente por um documento expandido com cerca de sessenta itens chamado “Uma Visão para Vidas Negras: Demandas de Política para Poder Negro, Liberdade e Justiça”  (Aqui!).

Alguns, talvez muitos, dos itens propostos no Plano de 10 Pontos inicial são adequados como uma declaração de reformas que poderiam melhorar as coisas na área da política e prática de justiça criminal. Muitos, senão a maioria, daqueles reunidos sob a rubrica “Visão para Vidas Negras” são slogans vazios e politicamente equivocados e / ou inatingíveis e contraproducentes. No entanto, o problema não é a falta de reformas potencialmente eficazes que poderiam ser implementadas. O problema é muito mais político e estratégico. E o foco na disparidade racial obscurece a natureza e a extensão dos desafios políticos e estratégicos que enfrentamos e, de duas maneiras, prejudica nossa capacidade de montar um desafio potencialmente eficaz: 1) Como minha colega, Marie Gottschalk, demonstrou em seu livro mais importante “Caught: The Prison State and the Lockdown of American Politics” (Princeton e Londres: Princeton University Press, 2016), 9 o aparato carcerário em suas muitas manifestações, incluindo o policiamento do estresse, bem como os muitos nós discretos que constituem o regime de encarceramento em massa, emergiu e é reproduzido por complexos de interesses bastante diversos, bipartidários e em evolução, alguns dos quais se formam apenas em resposta aos arranjos gerados e institucionalizados por outros interesses. Os constituintes para os diferentes elementos do estado carcerário não se sobrepõem necessariamente, e seus interesses em mantê-lo, ou seus componentes favorecidos, podem ser materiais, ideológicos, políticos ou combinações alternadas ou simultâneas dos três. Desafiar essa estrutura institucional e industrial imensamente fortificada e auto-reprodutiva exigirá uma estratégia política profunda, um que deve eventualmente enfrentar o desafio das premissas fundamentais do regime de políticas públicas voltadas para o mercado e direcionamento crescente das funções do estado em todos os níveis para apoiar a transferência regressiva acelerada e administrar suas consequências sociais por meio do policiamento. 2) Deve estar claro agora que o foco na disparidade racial aceita a premissa da justiça social neoliberal de que o problema da desigualdade não é sua magnitude ou intensidade em geral, mas se ela está ou não distribuída de forma racialmente equitativa. Na medida em que esse é o princípio animador de uma política de esquerda, é uma política que está inteiramente dentro da lógica do neoliberalismo. 

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1. Não sou muito dado à escrita autobiográfica, muito menos como um mecanismo para estabelecer autoridade interpretativa, embora reconheça que esse estratagema pré-iluminista se tornou moeda do reino para o estrato “intelectual público” e bloviator da blogosfera. Observei ao longo de décadas a maneira barata desse elemento de evitar o envolvimento com meus argumentos: recorrer a acusações, geralmente acompanhadas de insinuações pessoais, de que subestimo as profundezas do racismo ou nego sua existência; particularmente irônico é que muitas vezes a acusação desdenhosa vem de anti-racistas brancos fervorosos. Um exemplo especialmente descarado e absurdo foi quando o falecido Manning Marable – “Race, Class and the Katrina Crisis”, Working USA 9 (junho de 2006) – e o historiador anti-racista branco David Roediger – “The Retreat from Class”, Revisão Mensal58 (julho / agosto de 2006) —insinuou que eu não entendia o poder do racismo branco em Nova Orleans — uma cidade que eles visitaram como turistas desastrosos com uma narrativa simplista e onde cresci principalmente na era Jim Crow e a mais intensa período da insurgência dos direitos civis do pós-guerra, e onde a maior parte da minha família viveu antes, durante e depois do Katrina. Ainda não vou tagarelar sobre minha boa fé racial; Vou deixar esse domínio para pessoas como Mychal Denzel Smith e Ta-Nehisi Coates, para quem cada olhar de soslaio de uma pessoa branca aleatória enquanto espera na fila por um café com leite se torna uma ocasião para lamentar o umbigo e outro cheque de pagamento. (Um amigo historiador indicou sua determinação, quando colegas brancos se entusiasmaram com ele sobre a sabedoria e a verdade de Coates. 

2. Consulte, por  exemplo, http://blacklivesmatter.com/herstory/ e http://madamenoire.com/528287/the-three-women-behind-the-black-lives-matter-movement/ . 

3. Kai Wright, “Why Alton Sterling and Philando Castile Are Dead”, The Nation, 7 de julho de 2016.

4. Zaid Jilani, “95% das mortes por policiais em 2015 ocorreram em bairros com rendimentos abaixo de $ 100.000.” AlterNet.org disponível em http://www.alternet.org/civil-liberties/95-police-killings-2015-occurred-neighborhoods-incomes-under-100000?sc=fb 

5. Ver, por exemplo, Dave Huber, “Black Lives Matter’s Deray McKesson Now a U. Chicago Institute of Politics Fellow,” The College Fix, 20 de agosto de 2016 disponível em http://www.thecollegefix.com/post/28558/ e Brook Kelly-Green e Luna Yasui, “Why Black Lives Matter to Philanthropy,” Ford Foundation Equals Change blog, 19 de julho de 2016 disponível em https://www.fordfoundation.org/ideas/equals-change-blog/posts/ porque-as-vidas-negras-importam-para-a-filantropia / . 

6. Mike Males, “Who Are Police Killing?” Center on Juvenile and Criminal Justice , agosto de 2014, disponível em http://www.cjcj.org/news/8113 . 

7. Discuto o impacto do surgimento da governança urbana negra na década de 1970 a esse respeito em Adolph Reed, Jr., Stirrings in the Jug: Black Politics in the Post-Segregation Era (Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 1999 ), 97ff. 

8. Ver Risa Goluboff, The Lost Promise of Civil Rights (Cambridge e Londres: Harvard University Press, 2010); Leah N. Gordon, From Power to Prejudice: The Rise of Racial Individualism in Midcentury America (Chicago e Londres: University of Chicago Press, 2015), e John P. Jackson, Jr., Social Scientists for Social Justice (Nova York: NYU Press, 2005). 

9. Veja também sua entrevista com Jacobin em 2015, “Não é apenas a guerra às drogas”, em https://www.jacobinmag.com/2015/03/mass-incarceration-war-on-drugs/ 

*Adolph Reed, Jr. é professor de Ciência Política na Universidade da Pensilvânia, com especialização em raça e política americana.
fecho
Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “Nonsite.org” [  ].

No meio da pandemia, Governo Bolsonaro emplaca carteira “verde e amarela”

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Diga o que se disser do governo Bolsonaro, mas uma coisa é certa: a sua agenda de retrocessos em direitos sociais e trabalhistas continua indo tal qual uma faca quente em margarina dormida fora do refrigerador. O último grande “gol” da agenda ultraneoliberal do presidente Jair Bolsonaro foi a aprovação pela Câmara de Deputados, sob a liderança de Rodrigo Maia (DEM/RJ) da Medida Provisória 905 que altera para pior a já esfrangalhada Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). que é propagandeada sob a esperta fachada da “Carteira Verde e Amarela”.

Entre outras regressões impostas a quem adotar a “Verde e Amarela” está a perda do 13o. salário e do proporcional de férias, bem como acabou com o pagamento do adicional de periculosidade aos trabalhadores que realizam funções que colocam suas vidas em risco. Mas os ataques são ainda mais amplos, envolvendo ainda a diminuição das multas por demissão. Já os patrões ganham uma série de benefícios que incluem a ampliação da desoneração fiscal.

O fato é que sob o véu protetor da pandemia da COVID-19, o congresso nacional está impondo não apenas a piora das condições de trabalho, mas uma uma brutal diminuição da massa salarial, impondo um empobrecimento ainda maior aos trabalhadores brasileiros. Tudo isso sob a desculpa de criar novos empregos, esquecendo-se apenas de mencionar que os mesmos são ainda mais precarizados, e contribuirão para o aumento da rotatividade de trabalhadores, na medida em que pelo menos 25% da força de trabalho poderá ser contratada com esse novo padrão degradado em termos salariais e de direitos trabalhistas.

Algo que precisa ser destacado é a completa ausência das centrais sindicais de qualquer ação objetiva para pressionar a Câmara de Deputados contra a aprovação de mais essa dilapidação de direitos trabalhistas. Como já ocorreu em outras “reformas”, as principais sindicais brasileiras se mantiveram omissas, facilitando a vida da base do governo Bolsonaro dentro da Câmara Federal. Essa omissão das centrais sindicais é especialmente grave, pois, neste exato momento, milhões de trabalhadores brasileiros estão sendo forçados a trabalhar enquanto grassa no país uma pandemia letal.

A minha avaliação é que na ânsia de atacar os direitos dos trabalhadores, as elites brasileiras ainda não se aperceberam que o mundo será outro após a passagem do pico da pandemia da COVID-19. Basta ver as medidas que uma série de governos das economias centrais já está adotando para verificar que o modelo neoliberal está fadado ao abandono em favor de políticas econômicas que favoreçam o mercado interno. Enquanto isso, aqui no Brasil o que se está operando é uma diminuição ainda maior dos que poderão consumir até no mínimo das suas necessidades. Em outras palavras, ao enxugar ainda mais salarial, os capitalistas brasileiros estão gerando uma população incapaz de consumir. Não é preciso ser um gênio da economia para dizer que todo este ataque não apenas não gerará empregos, como ampliará gravemente a recessão em que a economia já estava imersa antes da eclosão da pandemia da COVID-19.

Mas, enfim, a escolha que está sendo feita pelas elites é por mais arrocho e degradação das condições de vida dos trabalhadores. Resta saber como se comportará a classe trabalhadora em face desses ataques impiedosos em tempos de pandemia.

A crise do coronavírus e o futuro do neoliberalismo

pulso latino

Com Alfredo Saad-Filho e Danilo Enrico Martuscell

Mediação de Cris Cavalcante

A pandemia escancara as contradições entre vida e capital. Vemos como os diferentes países têm tomado suas próprias medidas – alguns deles jogando com a vida em nome da economia -, mas também presenciamos um momento fértil para análises sobre nossos modelos de sociedade. Para alguns pensadores, como o filósofo Slavoj Žižek, estaríamos vivenciando um golpe mortal ao capitalismo e seria tempo de reinventar o comunismo. Para outros, como o filósofo Byung-Chul Han, a saída da crise do COVID-19 poderia levar-nos a um maior autoritarismo, com a exportação do modelo chinês de controle social ao ocidente.

Neste episódio, convidamos o doutor em economia Alfredo Saad-Filho e do doutor em ciências políticas Danilo Martuscelli para pensar a crise do coronavírus e os rumos que a política, a economia e a humanidade vão tomar daqui pra frente.

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Acabou a revolta no Chile? Não, ela está apenas sendo escondida de nós

protestos chile

Desde que explodiram as manifestações no segundo semestre de 2019, o caso chileno está causando muita apreensão entre as elites brasileiras. É que o Chile fora apresentado como o modelo de sociedade ideal, sem conflitos e com progresso econômico fincado no modelo neoliberal. A explosão da revolta social causou assombro até na esquerda institucional brasileira que resume seu simulacro de resistência aos limites do congresso e do judiciário.

Subitamente a revolta chilena pareceu contaminar outras países como Equador e Colombia, e arriscava se alastrar também para o Peru. Foi o que bastou para que não mais do que repente, o caso chileno sumisse das telas de TV e dos discursos de todo o espectro político que paulatinamente vai aprovando a imposição de um modelo ultraneoliberal no Brasil.

A mídia corporativa também se uniu a esforço de fazer parecer que as coisas no Chile tinham voltado ao normal, fazendo desaparecer quaisquer menções à continuação dos enfrentamentos nas principais cidades chilenas, incluindo a capital Santiago e a importante cidade portuária de Antofagasta. Mas há também  intensa em outras como Valparaíso ( ver imagens abaixo).

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Mas que pelo menos os leitores deste blog saibam que a situação chilena está longe da normalidade que os defensores do ultraneoliberalismo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes tentam fazer transparecer.  A verdade é que o Chile não entrou em um processo de conflagração generalizada apenas pela ausência de um estopim final, pois as condições sociais e econômicas criadas por mais de quatro décadas de neoliberalismo são propícias para que isso ocorra (ver vídeo postado no canal do Youtube da Opal Prensa mostrando a primeira manifestação de 2020).

A pergunta que deveria estar na cabeça de todos que percebem a rápida deterioração das condições da maioria dos trabalhadores brasileiros é a seguinte: por que querem esconder a revolta dos trabalhadores e da juventude do Chile?

A minha primeira resposta é: extremo medo de contágio. E não estamos falando do coronavírus.

Campos dos Goytacazes sofre com as agruras de um ocaso precoce de seu prefeito neoliberal

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A gestão do prefeito de Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz (Cidadania), chega a um ocaso precoce em meio a uma enorme crise política, econômica e institucional

As últimas cenas da conjuntura política de Campos dos Goytacazes dão conta de um ocaso precoce da administração neoliberal do jovem prefeito Rafael Diniz.  Os ingredientes desse ocaso são muitos, incluindo a debandada de boa parte de sua base de apoio na Câmara Municipal, o pagamento forçado judicialmente de 50% do 13o. salário dos servidores municipais, e a cereja no bolo que foi a demissão de um punhado de cargos comissionados indicados por vereadores que decidiram impor duras derrotas no cair do pano de 2019.

A reação de Rafael Diniz e de seus principais porta-vozes (a começar pelo agora deputado federal Marcão Gomes) tem sido da mais pura forma de ressentimento político, inclusive com ameaças de judicialização da decisão do legislativo municipal sobre o orçamento municipal que incluiu o teto de 10% nas chamadas “reordenações de despesas” com as quais os prefeitos transformam o orçamento municipal em uma mera peça de ornamentação.

Como ressentimento e medidas retaliatórias raramente resultam em reviravoltas positivas, o prefeito Rafael Diniz e sua trupe de menudos neoliberais devem estar coçando a cabeça para reverter uma conjuntura política que lhes é completamente adversa. Mas como passados praticamente três anos de governo está claro que a única receita que possuem é a aprofundar a forma especialmente perniciosa de neoliberalismo paroquial com a qual destruíram as políticas sociais herdadas de governos anteriores, não vejo muita esperança para quem se elegeu vendendo as formas mais esperançosas de gestão.

O problema para quem vive em Campos dos Goytacazes é que Rafael Diniz ainda tem um longo ano de governo pela frente. E ao longo desses próximos meses é possível que Diniz e seus menudos ensaiem o que no futebol americano é chamado de “Hail Mary” (no futebol americano a expressão é usada para caracterizar um passo muito longo feito em condições de desespero, com chances muito pequenas de sucesso).  Ao fazer isso, é possível que assistamos situações muito inusitadas que apenas servirão para garantir um final inglório a uma administração que conseguiu executar um dos maiores estelionatos eleitorais da história política do principal município do Norte Fluminense.

O mais trágico é que  além de negar todas as esperanças que gerou em uma campanha eleitoral glamourosa, Rafael Diniz está deixando um município em condição de terra arrasada e sem perspectivas imediatas de recuperação econômica.  Essa sim é uma herança maldita que o futuro chefe do executivo municipal terá que lidar.

Mas que esse governo desastroso sirva, pelo menos, para que se saiba que a adoção de políticas ultraneoliberais que removem os pobres do orçamento só servem para alimentar crises sociais e atraso econômico em nome de um equilíbrio fiscal que servem apenas para enriquecer os que já estão ricos em primeiro lugar. Simples assim.

Saque em caminhão transportando carne: as portas do caos estão sendo abertas no Brasil

carne

Voltei ao Brasil em 1997 e em 1998 e orientei um estudo sobre a forma como a mídia corporativa cobria os saques que ocorriam em todo o Brasil por causa da crise criada por FHC e suas políticas neoliberais.

21 anos depois acabo de encontrar via redes sociais um vídeo mostrando saque de um caminhão, justamente um carregando carne bovino, supostamente no bairro de Acari no município do Rio de Janeiro. Esse é o resultado de pelo menos 5 anos de medidas ultraneoliberais impulsionadas por Michel Temer e Jair Bolsonaro (se contarmos o primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff serão 6).

Em 2020 deveremos ter mais dessas cenas em todo o território nacional. A razão é simples: quando não se levam em conta as necessidades básicas dos pobres e se acha que tudo se resolve com repressão e violência, a ação direta deles é inevitável.