O neoliberalismo e suas patologias

neoliberal

Independente dos resultados que emergirão das urnas no final deste domingo, em minha opinião estamos presenciando um momento de profunda anomia na sociedade brasileira, o qual está sendo causado principalmente pela falta de um horizonte positivo para muitos que hoje embarcam na tentação de resolver suas questões pessoais e nossos problemas pessoais via o uso da violência contra os que são vistos como elementos antagônicos aos seus ideais de vida.

E quais são estes ideais? Essencialmente eles são determinados por décadas de hegemonia neoliberal em uma sociedade que já era uma das sociedades mais desiguais do planeta. Esses ideais se ancoram na concorrência extrema entre os indivíduos, a erradicação de quaisquer laços de solidariedade e o estabelecimento de uma concepção de que os prejudicados pelo sistema ou escolheram ser assim ou não se esforçaram o bastante para acumular algum tipo de capital.

Após semanas debatendo em grupos de Facebook, alguns deles compostos majoritariamente por servidores públicos que deverão perder o pouco que ainda detém em termos de direitos, pude presenciar como as pessoas que ousam questionar esses princípios são tratadas. A coisa começa com a acusação de que alguém está doutrinado, mas passa pelas acusações de quem alerta para os riscos postos está com medo da derrota ou simplesmente desesperado. Este tipo de ladainha combina ainda citações a um suposto plano bolivariano de dominar e transformar o Brasil numa sucursal da Venezuela.

Ao serem lembrados que a Argertina que recebeu o receituário que  vai ser aplicado aqui se um determinado candidato vencer, a coisa descamba para as ofensas pessoais e a chacota.  Tampouco falam eles sobre o caso do Chile que foi o primeiro país da América do Sul a privatizar a previdência social e hoje possui um dos maiores índices de suicídio entre idosos no mundo.

Além disso, nesses grupos em que debati com os defensores dessa agenda neoliberal foi comum a demanda para que eu fosse excluído sumariamente por “não pertencer” ao grupo, como esse tipo de fórum tivesse algum tipo de DNA do pertencimento.  Como não caí na tentação de me retirar espontaneamente, as demandas cessaram na mesma medida em que aumentaram os ataques ao meu nível de inteligência. Obviamente para eles uma pessoa que se coloque contra o discurso rasteiro que eles oferecem para oferecer respostas para o Brasil (as quais raramente dizem quais são) necessita ser desqualificada, de modo a esconder a inexistência de propostas que não sejam de retirar direitos e impor uma sociedade guiada por rígidos mecanismos de moral social sobre os mais pobres.

Em suma, o que está aparecendo nestas eleições é muito mais do que milhões de pessoas votando em um candidato que já lhes avisou que irá trabalhar para piorar suas vidas. O que temos se manifestando abertamente são os ovos da serpente neoliberal que chocou uma sociedade com segmentos inteiros que perderam os níveis de solidariedade social e hoje apostam em mecanismos de higienismo social com paralelos históricos conhecidos na Alemanha nazista.  

Por causa disso é que muitos que até agora olharam para essa situação e fingiram que nada estava acontecendo precisam sair do seu comodismo e trabalhar para alcançar os milhões de pobres que estão sendo ludibriados e se colocando no papel de agentes de seus próprios algozes. A hora é de retomar o protagonismo político e mostrar que é possível construir uma sociedade mais solidária que não discrimine seus cidadãos com base na cor da sua pele ou da sua orientação sexual.  Mas aviso logo, o trabalho será duro porque os ovos da serpente neoliberal estão bem espalhados e desabrochando em grande profusão.

Por que Boulos é traço? Perguntem ao PSOL

Resultado de imagem para guilherme boulos psol

Pesquisas eleitorais são, quando muito, retratos de determinados momentos em uma campanha eleitoral.  Além disso, há sempre que se desconfiar de determinados “institutos de pesquisa” que brotam do nada para disparar estatísticas mal explicadas e sem oferecer os fundamentos metodológicos de como as mesmas foram produzidas.

Mas, tendo escrito no dia 10 de março a postagem intitulada “A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL” onde critiquei a forma pela qual o PSOL determinou que o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos seria candidato a presidente pelo partido, quase que imediatamente após ele ter se tornado um filiado [1].

Agora, exatos 5 meses desde aquela postagem, vejo o aguerrido e inteligente Guilherme Boulos estacionado nas pesquisas eleitorais na quantidade conhecida como “traço”. Como Boulos não é um despreparado como muitos outros dos postulantes ao cargo máximo da repúblico e também não é desprovido de base social para apoiá-lo, fica pergunta de porque ele não consegue superar um destino eleitoral que, mantidas as projeções das pesquisas, será o pior desempenho do PSOL em campanhas presidenciais.

Alguns poderiam mencionar o fato de que Boulos tem gasto mais tempo prestando mais solidariedade ao ex-presidente Lula do que divulgando a sua candidatura. Mas eu já acho que apesar da crítica ser parcialmente pertinente, a culpa está mais para a natureza incipiente e fragmentada do PSOL do que para uma culpa pessoal de Guilherme Boulos.  Me arrisco a dizer que  como aconteceu com outros candidatos anteriores do PSOL (Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio e Luciana Genro) é bem provável que Boulos termine saindo maior do que entrou, mas o mesmo não deverá ser dito sobre o partido.

boulos

É que por mais que eu tenha simpatia pelo PSOL e por muitos dos seus parlamentares , o que me parece óbvio é que o crescimento do partido, que nasceu com a obrigação de oferecer uma opção pela esquerda após abandono da maioria do PT das suas bandeiras históricas, está sendo limitado por sua excessiva dependência de agendas identitárias e também pela sua fraca inserção na classe trabalhadora. 

O problema é que se os dirigentes das múltiplas correntes que existem dentro do PSOL continuarem ignorando a necessidade de consolidar a candidatura de Guilherme Boulos, e de quebra o alcance político do partido, o que teremos nos próximos será não apenas a hegemonia do PT nos sindicatos e movimentos sociais, mas também a manutenção de um estado letárgico frente ao avanço avassalador da agenda ultraneoliberal que embala as atuais políticas do governo “de facto” de Michel Temer e dos candidatos que a apoiam. E isso, meus caros leitores, terá consequências trágicas para a maioria dos brasileiros.  É que, com todas as suas limitações e erros, o PSOL é ainda a melhor opção para a construção de uma saída pela esquerda no Brasil. O risco aqui, entretanto, é que o PSOL continue sendo apenas uma espécie de viúva Porcina da esquerda brasileira (aquela que deixou de ser sem nunca ter sido).


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/03/10/a-candidatura-boulos-e-o-ocaso-do-psol/

MBL: neoliberais até quando não dói o calo

FAKE NEWS 1

O autodenominado “Movimento Brasil Livre” (MBL) está desde ontem gritando ao mundo e acionando os seus aliados no aparelho de Estado contra a decisão da rede social Facebook de desativar 196 páginas e 87 contas que estariam sendo utilizadas para disseminar fake news e mensagens propugnando conteúdos que estimulam ódio e violência [1, 2].

Nesse esforço de denúncia do que seria a ação de uma empresa socialista (na verdade uma corporação estadunidense que obtém seus lucros bilionários de forma bem capitalista), o pessoal do MBL está utilizando suas redes de apoio no legislativo e no judiciário para tentar reverter ou, pelo menos, criminalizar a decisão da Facebook [3].

Como se vê, a defesa dos princípios do ultraneoliberalismo de Kim Kataguiri et caterva só servem para quando se trata de cassar direitos sociais e para perseguir partidos e programas alinhados com a esquerda. Quando a coisa é defender seus próprios interesses, o pessoal do MBL gosta mesmo é da proteção do Estado.

Uma pergunta que já foi feita e que carece de resposta: quem financiou a construção de uma rede tão complexa de desinformação? É que construção de páginas não é coisa para amadores e mais ainda a atualização diárias das mesmas.  Tudo indica que se seguirmos a trilha dos financiadores, entenderemos ainda mais a quais interesses realmente serve o MBL.


 

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/25/politica/1532531670_089900.html

[2] https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2018/07/25/facebook-retira-do-ar-rede-de-fake-news-ligada-ao-mbl-antes-das-eleicoes-dizem-fontes.ghtml

[3] https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/132586-deputado-quer-criar-cpi-facebook-exclusao-rede-fake-news.htm

 

Um exame necessário sobre o governo de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais: matriz ideológica e origem de classe

Imagem relacionada

Conversando hoje com uma colega que frequenta conselhos municipais, ouvi fatos horrorosos de como a coisa anda funcionando em alguns deles sob a batuta dos menudos secretários neoliberais do jovem prefeito Rafael Diniz. Pelo que ouvi, a coisa anda tão feia que já há quem sinta saudade do traquejo rústico dos tempos dos secretários da prefeita Rosinha Garotinho.

O que parece prevalecer agora é mesmo alguma cartilha emprestada do Instituto Mises onde reina a supremacia do Deus capital, e inexistem espaços para quaisquer arranjos que não sejam controlados por empresas privadas.  Nas palavras de um destes jovens menudos, mas um com título de doutor, até se ouve os movimentos sociais, mas quem decide é ele, o sábio convertido aos preceitos da eficiência neoliberal (eficiência essa que é apenas um sinônimo para privatização da coisa pública).

Um dos ideólogos do grupo que hoje isola o prefeito Rafael Diniz da ira popular crescente até cunhou uma expressão que epitomiza a ideologia Rafaelista quando se trata de desclassificar a atuação de quem ousa levantar alguma crítica de dentro das universidades para um governo que hoje já matou qualquer esperança de mudança na forma de governar em Campos dos Goytacazes. Falo aqui da figura do “intelectual ideológico”, que aparentemente serve para definir aqueles que criticam práticas por não praticarem.

Pois bem, reconheço que dessa bacia de menudos neoliberais não pode se esperar muita coisa, muito menos que seus membros, mesmos os que saíram de Morro do Coco para o mundo (ou pelo menos para a sede do poder executivo municipal) que conheçam toda a magnitude de definições teóricas para o que vem a ser “ideologia”.  Eu particularmente me sinto contemplado pela definição apresentada por Karl Marx em seu emblemático “Ideologia Alemã”, mas existem várias outras, incluindo a formulada pelo pessoal da Escola de Frankfurt [1 e 2].

Entretanto, suspeito que ao formular a expressão “intelectual ideológico”, o menudo neoliberal em questão estivesse se atendo a usos mais coloquiais de ideologia que se resumem a uma separação chão a chão entre teoria e prática ou em uma separação radical entre capital e trabalho. Desconfio ainda que quando se aplica o jargão de ideológico haja ainda um componente de classe, onde quem recebe é visto como um inimigo sem justa causa do capital e dos capitalistas.

Mas, convenhamos, é difícil saber o que esse pessoal realmente sabe ou sequer se deram a ler algo minimamente denso sobre o conceito de Ideologia (ou mesmo se leram o famoso “O que é Ideologia” que a filósofa Marilena Chauí escreveu para a coleção “Primeiros Passos” da Editora Melhoramentos [3]).  Apesar disso, penso que pode ser útil não apenas levantar a matriz ideológica dos menudos neoliberais e do jovem prefeito Rafael Diniz, bem como a origem de classe de cada um deles.

É que enquanto a matriz ideológica me parece de inspiração neoliberal, a coisa aqui vai além em alguns aspectos, e fica aquém em outros tantos, daquilo que foi formulado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Por isso, seria útil estabelecer linhas mestras do que esse grupo tem dito e feito desde que entrou porta adentro na sede do executivo municipal.

Outro elemento essencial para entendermos algumas nuances dentro deste grupo seria levantar a origem de classe de cada um deles, já que se sabe que  quase todos foram colegas de um mesmo estabelecimento de ensino, onde aparentemente herdaram a preferência pela roupa bem passada e pela barba bem feita, isto no caso dos homens. 

Assim, afinal, qual seria a árvore genealógica capitalista desses jovens governantes que tanto parecem amar o privado, enquanto demonstram clara ojeriza contra os pobres e desvalidos do município? Seriam eles todos descendentes de usineiros e latifundiários, ou temos aí uma amalgama mais complexa, unindo comércio, especulação financeira e serviços? Eu diria que se essa esfinge for decifrada, várias das idas e vindas que já ocorreram até em contratos de licitação anulados pelo Tribunal de Contas do Estado talvez sejam mais bem compreendidas.

A questão é que sempre quando ouço alguém utilizando do conceito de ideologia para desclassificar críticas, sempre tendo a ver que este é um gesto que tende a ocultar práticas e obediências que sempre emergem no trato da coisa pública.  Por isso, para mim, tentar usar o conceito de ideologia como uma ferramenta de combate político é o mais ideológico dos atos. Pena que seja sempre o ato de um covarde ou, quando não, de um grupo de covardes.

E para ninguém dizer que eu não falei das flores, coloco abaixo um vídeo com Cazuza cantando a sua ideologia. Aliás, essa música me parece cada vez mais atual, e Cazuza cada vez mais essencial.

 

 


[1] http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/ideologiaalema.pdf

[2] https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/viewFile/9168/8507

[3]  https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/388158/mod_resource/content/1/Texto%2014%20-%20O%20que%20%C3%A9%20ideologia%20-%20M.%20Chau%C3%AD.pdf

O que realmente querem, mas ainda não dizem, os que pedem um novo golpe militar no Brasil

golpe militar

Recentemente li alguns capítulos do livro “Neoliberalismo”, do geógrafo inglês David Harvey, para uma disciplina que estou dividindo com um colega no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte  Fluminense [1]. Em um desses capítulos, Harvey descreve de forma simples e direta como é que os postulados neoliberais, historicamente marginais na teoria econômica, passaram a ser o principal paradigma de gerência do estado em escala planetária.

Segundo Harvey, a fórmula para o sucesso da ideologia neoliberal resultou de uma captura de setores da classe trabalhadora que passaram a servir como aliados do grande capital, tendo como justificativa a busca do êxito individual e a acumulação de bens, bem como o pleno acesso ao consumo de bens, a maioria deles inúteis.  Para se chegar a essa espécie de Nirvana do capitalismo, os defensores dos ideais neoliberais não hesitaram em abandonar preocupações originais da sociedade capitalista, tais como a solidariedade e a justiça social, enviando-as para uma espécie de cemitério das boas intenções.

Se olharmos o que anda acontecendo neste momento no Brasil, onde minorias ruidosas se reúnem à frente de quartéis do exército para clamar pela realização de um golpe militar, só será possível entender o raciocínio de quem apresenta essa demanda a partir da frustração cada vez maior com a negação do reino dourado prometido por sucessivos governos neoliberais. 

Resultado de imagem para ajoelhados intervenção militar

Manifestantes se ajoelham em posição de rendição em frente do quartel do 33o. Batalhão de Infantaria Mecanizada em Cascavel (PR) para demandar um novo golpe militar no Brasil [2]

Assim, o uso da palavra de ordem de luta contra a corrupção para justificar a volta dos militares ao poder político é apenas uma cobertura tênue para a demanda real que esses grupos realmente desejam apresentar: o extermínio puro e simples de todos aqueles que apareçam como impedindo a realização do corolário neoliberal que os levaria para um plano superior de capacidade de empreender para poder consumir cada vez mais.

Em outros tempos se diria que essa ojeriza ao oposto seria a manifestação da defesa de uma sociedade fascista. Mas estou convencido que é conceitualmente equivocado chamar essas pessoas de fascistas, pelo simples motivos que o nazifascismo de meados do Século XX, apesar se basearem em ideologias de extermínio físico dos diferentes, ainda buscavam garantir a implantação de formas de capitalismo centradas na ação do estado e na consolidação de projetos nacionais.

A diferença é que os que hoje demandam uma intervenção militar no Brasil parecem tomados por uma ideologia neoliberal que ecoa as demandas dos chamados anarco capitalistas, e o que eles querem mesmo, repito, é terem a garantia de que poderão empreender e consumir sem que sejam atrapalhados por aqueles que demandam formas societárias mais justas e solidárias. É por causa dessa diferença fundamental que se vê tanta raiva e ódio sendo disseminados por grupos que, felizmente, ainda são minoritários no Brasil.

Mas apesar de serem minoritários, isto não quer dizer que tais grupos não sejam perigosos, especialmente para todos os que explicitam a impossibilidade de seus sonhos neoliberais. E é por isso que ainda lhes falta ainda a coragem de dizer o que realmente querem que seja feita pelas tropas militares contra todos os que não comungam com seu ideal neoliberal.  E o que eles querem é aprofundamento do estado de sítio informal que já vigora na maioria das regiões pobres das cidades brasileiras, onde prevalece o extermínio dos seus habitantes. 

vladimir-herzog-enforcado

O jornalista Vladimir Herzog assassinado em 25 de outubro de 1975 após se apresentar voluntariamente ao Centro de Operações de Defesa Interna

E não me venham me dizer que esses grupos estão clamando por um golpe militar o fazem por desconhecer a história recente do Brasil. Em minha opinião eles demandam o golpe justamente por saber o que foi cometido durante o regime de exceção que perdurou no nosso país entre 1964 e 1985. O que eles querem é o cometimento rotineiro de tortura e assassinato dos diferentes, especialmente se os diferentes forem pobres e negros. Simples assim.


[1] https://www.estantevirtual.com.br/livros/david-harvey/o-neoliberalismo-historia-e-implicacoes/3737565868

[2] https://cgn.inf.br/noticia/294858/manifestantes-se-ajoelham-em-frente-ao-exercito-e-clamam-por-intervencao-militar

Luta identitária e a perpetuação da exploração, um velho texto para um tema cada vez mais atual

Imagem relacionada

O texto abaixo foi publicado no número 200 da revista Somos Assim que circulou nas bancas em Campos dos Goytacazes no final de outubro de 2011. Passados sete anos, reencontrei este texto vejo que, apesar de algumas mudanças que o mesmo merece após quase 7 anos,  algumas das minhas indagações originais continuam me perturbando todos os dias.

A questão principal para mim é de como a fragmentação identitária, ainda que explicite elementos justíssimos, tem servido para um propósito oposto dos seus defensores que éo de ampliar o controle burguês sobre a sociedade capitalista. E, com isto, aumentando o grau de opressão sobre a classe trabalhadora e a juventude. 

Desta forma, estou republicando o texto com o intuito de explicitar a minha posição de que a identidade essencial dentro do Capitalismo, pelo menos para todos os segmentos oprimidos pelo capital, é o da classe, ainda que não se negue a importância das demais. É que só a classe pode unificar todos os oprimidos na luta por uma sociedade onde não seja mais necessário levantar quaisquer identidades, pois teremos retomado aquela que nos unifica que é a de seres humanos.

As novas múltiplas identidades e o seu papel na perpetuação da exploração

       Em uma das minhas visitas a uma rede social na internet encontrei um adesivo apontando para uma nova utopia “por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”.  Em tese essa é uma utopia positiva, pois ninguém com uma visão democrática de vida iria querer viver ameaçado por alguma destas facetas opressivas. Mas uma coisa que me intriga é por que subitamente fomos tomados por uma consciência tão fracionada da violência cotidiana em que vivemos submetidos dentro do sistema capitalista. Aliás, pior, por que aceitamos tantas identidades para os oprimidos sem que ninguém se questione sobre quem foram seus criadores.

    Uma primeira observação necessária é a de que, pelo menos no âmbito do Brasil, essas identidades foram introduzidas pela Fundação Ford em meados da década de 90 do Século XX.   Em uma visita que fiz à sede da Fundação Ford no Rio de Janeiro, após retornar do meu doutorado nos Estados Unidos, tive uma conversa com tintas de premonição dado que meu interlocutor me adiantou uma agenda de ações que se materializou dentro dos nossos discursos cotidianos na década seguinte.  Não devo ser o único a apontar a gênese norte-americana dessa multiplicidade de identidades que hoje conformam o discurso politicamente correto, usado por governantes e membros de organizações não-governamentais como se fosse um mantra da libertação social de supostas minorias oprimidas. Mas o fato é que esta gênese continua sendo meticulosamente escondida dos seus promotores.

     Mas qual seria a razão da omissão da maternidade para os setores oprimidos pelo funcionamento das engrenagens sociais? A resposta para esta charada precisa ser buscada na utilidade que as mesmas tiveram no contexto da sociedade estadunidense. Se olharmos para o levante dos direitos civis a favor dos negros que ocorreu nos EUA ao longo da década de 60 do Século XX, veremos que a maioria das lideranças não possuía uma visão de questionamento da sociedade capitalista. Pelo contrário, buscava-se incluir os negros nos circuitos de consumo que historicamente estiveram reservados aos brancos. Ainda que num primeiro momento estas lideranças tenham sido perseguidas e algumas assassinadas (como no caso de Martin Luther King), esta agenda de inclusão progressiva acabou servindo para manter a maioria das estruturas sócio-econômicas e políticas basicamente intocadas.  Em suma, um movimento que nasceu com potenciais revolucionários, acabou sendo domesticado e assimilado.

     Ainda que os norte-americanos tenham tentado exportar o seu modelo de inclusão conservadora mesmo antes da queda do Muro de Berlim, foi justamente este evento que ofereceu a oportunidade que precisavam para fazê-lo.  O desmantelamento da URSS e a hegemonia neoliberal que se seguiram também contribuíram para a disseminação das tentativas de fragmentar a identidade dos oprimidos, coisa que acabou ocorrendo na década seguinte. Neste sentido, o aparecimento de múltiplas minorias como resultado do fracionamento das identidades que vigoraram desde quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista em 1848 (isto é burgueses e proletários) só foi possível devido ao desaparecimento de um dos contendores da Guerra Fria. Em outras palavras, estas múltiplas identidades são uma expressão direta do fracasso do socialismo real e da hegemonia, ainda que momentânea, da ideologia neoliberal.

     Por outro lado, o fato de que até partidos e movimentos sociais que se pretendem revolucionários tenham assimilado estas novas identidades expressa a força da ideologia neoliberal. Ainda que alguns desses partidos e movimentos tenham adotado o discurso politicamente correto e as identidades que o acompanham por motivos táticos (e até oportunistas), isto não diminui o fato de que a hegemonia neoliberal impôs uma nova e fragmentada visão dos oprimidos.  Essa fragmentação, aliás, implicou numa falácia muito eficaz que consiste em desviar a gênese da opressão das relações de classe para outros tipos de relação, como as raciais, étnicas, religiosas e de gênero.  É preciso reconhecer que esta é uma estratégia muito eficaz, pois agora chega a ser brega (senão coisa de dinossauros ideológicos) tentar explicar todas essas facetas da opressão como algo intrínseco ao próprio Capitalismo.

Mas em que pesem as dificuldades de se retomar um debate que privilegie a classe como categoria explicativa para as opressões de todos os tipos, a crise sistêmica que o sistema capitalista atravessa auxilia a sua retomada.  A verdade é que determinadas situações, como a que ocorreu recentemente na Praça Porta do Sol em Madri, demonstram de forma cabal que sem um entendimento de classe da realidade pouco adianta galvanizar as energias geradas pelo descontentamento social. E pior, o que começa com um potencial de impor transformações no status quo acaba servindo para alimentar aquelas facetas mais sombrias da sociedade contemporânea, já que em face da despolitização causada pela fragmentação identitária, a tendência sempre será de que o potencial de transformação seja anulado, resultando em frustração e raiva.

Finalmente, retornando ao inicio desta reflexão, eu me pergunto o que aconteceria se repentinamente o mundo acordasse sem racismo, machismo e homofobia. Será que estaria cessada toda a violência e opressão que vemos hoje pelo mundo afora?

Reformas ultraneoliberais e o ressurgimento de epidemias do Século XIX

Assistindo a um desses telejornais que pouco informam assisti a uma matéria dando conta do aumento de mortos no estado de São Paulo por causa do vírus da Febre Amarela que está aparecendo forte em cidades localizadas nos limites da região metropolitana da sua capital [1]. Essa notícia ainda veio acompanhada de imagens de filas imensas de cidadãos preocupados que procuram a rede de saúde pública apenas para descobrir que não inexistem vacinas suficientes para toda a população.

Para começo de conversa, a Febre Amarela é apenas uma das muitas doenças que infestavam o Brasil no Século XIX e que estão dando as caras no Século XXI, As razões para isso não são assim tão difíceis de serem encontradas. Parte do problema está no modelo de desenvolvimento urbano desigual que joga os mais pobres para áreas onde determinados vetores tem maior facilidade de proliferaram em meio à completa falta de saneamento básico. É literalmente juntar a fome com a vontade de comer, pois se oferece não apenas a chance para os vetores proliferaram, mas também um contingente populacional com uma série de deficiências orgânicas que, para culminar, não têm a ele garantido o acesso à saúde pública.

Em meio a todo esse processo que tem uma natureza histórica e social, vivemos ainda um período de completa retração dos investimentos públicos, tanto na área da saúde como no da melhoria da infraestrutura urbana. É que em nome de uma lógica ultraneoliberal houve a redução da capacidade do investimento público em áreas nas quais a iniciativa privada não possui o menor interesse ou disposição de investir.  Aliás, esse quase colapso dos serviços básicos de saúde e de saneamento mostram a falácia de que em se privatizando tudo se resolve.

Não esqueçamos ainda que os seguidos cortes em investimentos em pesquisa para a produção de vacinas e medicamentos estão comprometendo a capacidade de instituições de pesquisa estratégicas como a Fundação Oswaldo Cruz de conduzirem suas atividades [2]. É em meio a esse processo de desinvestimento em ciência que temos então algo que pode se transformar numa tempestade perfeita juntando todos as dimensões de uma situação bastante complexa.

Aliás, recomendo a leitura de uma matéria do jornalista Paulo Luiz Carneiro para o jornal “O GLOBO” onde é narrada a trajetória e a luta de Oswaldo Cruz para debelar as epidemias que infestavam a cidade do Rio de Janeiro no começo do Século XX [3]. Ao se ler a matéria fica ainda mais visível o quão pouco as elites econômicas aprenderam com as complexas condições socioambientais existentes no Brasil e o papel do Estado via suas estruturas na mitigação dos problemas a elas associadas.

E nisso tudo fica ainda mais desnuda a ideia de que ao Estado cabe o papel de mero facilitador do avanço das forças de mercado na sociedade brasileira.


[1] https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2018/01/09/morre-a-quarta-vitima-da-febre-amarela-em-sao-paulo.htm

[2] https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/fiocruz-divulga-oficio-sobre-suspensao-das-bolsas-do-cnpq

[3] http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cientista-medico-sanitarista-oswaldo-cruz-erradicou-febre-amarela-no-rio-20894450