O movimento de ocupação de escolas quebra a letargia em relação ao golpe

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Tenho acompanhado o movimento de ocupação de escolas em diferentes partes do Brasil com alguma inquietação, pois vejo jovens dando o tipo de resposta que se esperaria de movimentos sociais, centrais sindicais e partidos políticos. É como se os quem tem mais poder, dinheiro e capacidade de enfrentamento estivessem deixando para a juventude resolver os problemas que sua omissão ajudaram a criar.

Mas vá lá, mesmo as respostas imperfeitas servem para dar conta de tarefas complexas, aind que por um tempo limitado. E isso já parece ter sido entendido pelo governo “de facto” e seus vassalos que se cuidam de controlar as respostas ao processo de arrocho no plano estadual. Além disso, a transformação do tal “Movimento Brasil Livre” (MBL) em uma espécie de ariete contra a organização da juventude é revelador do fato que as forças que hegemonizam o estado brasileiro neste momento também já entenderam o risco que o movimento de ocupação de escolas representa no seu esforço de hegemonia completa, e convocaram suas forças para tentar dispersar a revolta que se levanta no horizonte pelas mãos da juventude.

Interessante notar que a melhor matéria jornalística que eu já li sobre o processo de ocupação de escolas no Brasil veio da revista Forbes, que todos devem saber é especializada em falar para os donos do capital o que andam acontecendo no mercado e nas sociedades que são afetadas por seus jogos de poder.  Sob o título de “A juventude brasileira vê o seu futuro e o nome dela é Ana Júlia” (Aqui!), a jornalista Shannon Sims utiliza a fala da secundarista paranaense na Assembleia Legislativa do Paraná como um mote para analisar não apenas para refletir sobre o que está acontecendo na ocupação de escolas, mas principalmente como este movimento coloca em xeque as políticas ultraneoliberais do governo “de facto” de Michel Temer.

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E, mais uma vez ,a mídia internacional nos oferece uma análise sobre a realidade brasileira atual que deveria deixar envergonhados todos os nosso principais veículos da mídia corporativa que, ao invés de nos oferecer informações e análises aprofundadas sobre o movimento de ocupação de escolas, esconde o quanto pode até a sua existência e extensão territorial.

E falando em Ana Júlia Ribeiro, quem ainda não teve a chance de ouvir o seu depoimento no plneário da Alep, o mesmo vai abaixo. 

UOL e a infindável desgraça de Eike Batista

Era para ser um hotel 5 estrelas de Eike; virou ocupação de sem-teto no Rio

Gustavo Maia, Do UOL, no Rio

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A piscina, no térreo, está vazia há anos. A pintura das paredes, descascada. Muitas das janelas e portas estão quebradas. A fachada exibe pichações. O abandono evidente contrasta com a beleza arquitetônica do edifício Hilton Gonçalves dos Santos, localizado no Flamengo, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro.

Inaugurado em 1953 para ser sede do Clube de Regatas do Flamengo, o prédio de 24 andares e 148 apartamentos foi arrendado em 2012 pelo clube à Rex Hotel, imobiliária do grupo EBX, do empresário Eike Batista. O plano era transformá-lo num moderno hotel de cinco estrelas com 454 quartos, em um investimento de R$ 100 milhões. Com a crise que desfigurou o império do empresário, o projeto nunca saiu do papel.

Na madrugada da última terça-feira (7), a história do edifício ganhou um novo capítulo com a chegada de cerca de 100 sem-teto, que ocuparam o local. O cenário dos dois primeiros andares se transformou radicalmente. Nos amplos corredores e salões do prédio, os novos moradores se instalaram em colchões encontrados nos apartamentos vagos e degradados dos andares superiores. Adultos e crianças, veteranos de ocupações, estão mobilizados para se adaptar ao novo e temporário lar.

A estada do grupo no prédio, situado no número 170 da avenida Rui Barbosa, vai durar pouco. Na última quinta (9), a Justiça do Rio determinou a reintegração de posse do edifício, que pode acontecer a qualquer momento. Ontem pela manhã, um oficial de Justiça foi até o local e informou os invasores sobre a decisão. A Polícia Militar, que auxiliará na ação, informou, à noite, que não divulgaria a data e a hora da reintegração.

A ocupação é feita majoritariamente por removidos em 26 de março de um terreno da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) na zona portuária. Entre a última remoção e a nova ocupação, muitos dormiram na rua, inclusive mães com bebês. De acordo com os ocupantes, cerca de 250 pessoas se revezam no edifício desde a terça. Alguns deles moraram, no ano passado, no antigo prédio da Oi, no Engenho Novo, na zona norte do Rio. A desocupação do imóvel completa um ano neste sábado (11).

Um dos representantes do grupo, Alexandre Silva, 37, criticou a decisão judicial e disse esperar que os defensores públicos que os representam revertam as liminares. “A decisão saiu em menos de um dia, o que é isso?”, questionou. “O prédio estava abandonado há muito tempo. Sempre ouvia isso e pensava: vou trazer o povo para cá”, conta Silva, que disse estar engajado na luta por moradia há 15 anos.

Ex-ocupante do edifício da Oi, Elizabeth da Silva, 37, se espantou com o tamanho do prédio e lamentou: “como é que pode? Um lugar tão grande desses, com tanta coisa se estragando, e tanta gente precisando de lar”.

Faxina, apreensão e fome

Viver em uma ocupação, em comunidade, exige disciplina. É o que ensina Cassiane Serafim, 42, que fez parte do grupo expulso do terreno da Cedae. “A gente lava e arruma tudo direitinho. Nos revezamos para lavar banheiro, varrer o chão. Agora estamos morando na frente do mar, né?”, comenta a mulher, que, desempregada, vivia de aluguel na Mangueira, zona norte, quando se integrou à ocupação na zona portuária.

“Quando a gente chegou aqui, só tinha entulho. A gente ajeitou tudo”, conta Alessandra de Souza, 45. Além da limpeza, os atuais moradores do edifício Hilton Santos têm que se preocupar diariamente com o que vão comer. “Estamos sobrevivendo de doações”, diz a mulher, enquanto cozinha macarrão instantâneo. “As crianças são prioridades. A gente às vezes passa fome o dia todo”.

Na tarde desta sexta, a reportagem presenciou o momento em que uma mulher parou o carro e entregou um saco com comida. Segundo os moradores, foi a segunda doação do dia. Água também está sempre no topo da lista de necessidades.

A presença de pelo menos uma viatura da PM na frente do prédio e de um segurança contratado pela Rex Hotel dentro do edifício durante todo o dia às vezes atrapalha a entrada de mantimentos e o trânsito dos ocupantes. Alguns deles disseram se sentir presos, já que podem ser impedidos de voltar caso deixem o imóvel. Um guarda ouvido sob anonimato pela reportagem, no entanto, disse que “dança conforme a música”.

Por serem os únicos com energia elétrica disponível, apenas os dois primeiros andares do prédio estão ocupados. Os ocupantes utilizam quatro banheiros no espaço e tomam banho de balde, com a água “amarelada” da cisterna do local.

“Distrair a mente”

Enquanto espera a definição da situação do grupo, José Ricardo, 31, tenta distrair a mente como pode. Nesta sexta, ele desenhou um tabuleiro de damas no verso de um quadro achado em meio ao entulho, recolheu tampas de garrafas para usar como peças e começou a jogar com a cunhada.

Na área externa do prédio, um grupo jogava bola. Quatro televisões, de variados tamanhos e estados de conservação, ficam ligadas durante a maior parte do dia. Mães e pais tentam entreter as crianças, muitas delas de colo.

O menino Carlos Silva, que tem um ano e dois meses de idade, corria pela piscina vazia atrás da mãe. “Ele está adorando brincar aqui”, disse a mulher.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/11/era-para-ser-um-hotel-5-estrelas-de-eike-virou-ocupacao-de-sem-teto-no-rio.htm

Movimento estudantil responde nota do reitor da UENF

Carta Aberta sobre a Ocupação Estudantil na UENF

Uma Resposta à Nota Assinada pelo Reitor

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Primeiramente, gostaríamos de esclarecer que foi instituído um Coletivo de Ocupação que é representativo do Movimento de Ocupação Estudantil pelo qual a Universidade vem passando.

É importante lembrar que a Greve Estudantil se iniciou em 17 de março, tendo a Reitoria da UENF conhecimento desta situação e das demandas estudantis. As manifestações de descontentamento dos estudantes em relação ao tratamento dado pela Reitoria e Governo às demandas estudantis foram iniciadas desde então. No entanto, foram necessárias 76 horas de greve de fome (feita independentemente por dois estudantes) para que a Reitoria nos recebesse, estabelecendo-se um diálogo com o coletivo de ocupação a partir de 10 de abril (quase um mês após o início da greve).

Nessa primeira reunião, a reitoria fez a promessa de atendimento de duas das demandas estudantis (Funcionamento do Restaurante Universitário a partir do segundo semestre letivo de 2014 e Aumento das Bolsas de Assistência Estudantil, equiparando-as ao valor hoje praticado pela UERJ e UEZO – R$400,00 – a partir do fim da greve), ignorando a demanda por Moradia Estudantil.

Apenas em 28 de abril (após o crescimento do movimento de ocupação), o canal de diálogo foi retomado diante da apresentação de uma proposta feita pelo coletivo de ocupação. Na reunião, foi criado um Grupo de Trabalho que deveria desenvolver um projeto de Programa de Auxílio Moradia para ser enviado ao Governo do Estado com o objetivo de instituir o programa. Nesse GT, os estudantes cumpriram integralmente a sua função, apresentando um projeto à Reitoria nos moldes discutidos pelo coletivo de ocupação. A Reitoria, por sua vez, foi quem, verdadeiramente, descumpriu o acordo, não tendo finalizado o projeto e tampouco enviado qualquer informação ao Governo do Estado.

Diante dessa inércia, os estudantes decidiram ocupar outros espaços da Universidade. A Reitoria precisa entender que esse Processo de Ocupação é absolutamente natural e legítimo, fazendo parte de uma conquista de espaçoe fortalecimento do Movimento Estudantil de qualquer Universidade. Vale ressaltar que os espaços ocupados pelos estudantes eram ociosos e não cumpriam devidamente a sua função.

O primeiro espaço (ocioso há quase dois anos) ocupado pelos estudantes foi a Área de Convivência 1 (um dos metros quadrados mais caros já construídos no espaço público universitário – R$4100,00 / m²), onde funcionava anteriormente uma lanchonete administrada por uma empresa privada. O movimento decidiu ocupar tal espaço diante da necessidade de se estabelecer em um local menos precário, uma vez que estávamos acampados no pátio do Prédio da Reitoria, há 37 dias, expostos a condições insalubres. Entretanto, este espaço ainda não tem estrutura suficiente para proporcionar o estabelecimento de uma moradia estudantil.

Diante disso, usando o mesmo critério (não-utilização do espaço), o movimento decidiu pela ocupação de um Pavilhão de Salas de Aula (prédio P10), cuja obra foi finalizada há oito meses, sem perspectiva de início de sua utilização efetiva, funcionando apenas como depósito de material. Alguns estudantes observaram que o prédio necessita apenas de poucas adaptações para servir como alojamento para aproximadamente 90 estudantes.

Enquanto estes estudantes analisavam o novo espaço a ser ocupado, foram abordados por vigilantes e representantes da Administração universitária, tendo sido inclusive ameaçados com processos de sindicância interna e reintegração de posse que poderiam gerar penalidades aos estudantes, chegando até à expulsão da Universidade.

Diante das ameaças recebidas, os estudantes procuraram auxílio jurídico a respeito da situação enfrentada. Eles receberam informações de que o processo de Reintegração de Posse seria inefetivo, já que as atitudes fazem parte de manifestações legítimas inerentes ao processo de reivindicação de direitos estudantis que deveriam ser garantidos pela Universidade.

Coletivo de Ocupação Estudantil – Movimento Estudantil da UENF

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
 

UNIVERSIDADE PÚBLICA, GRATUITA, DEMOCRÁTICA, POPULAR E DE QUALIDADE

DIREITO DO CIDADÃO, DEVER DO ESTADO

Estudantes trocam nome do prédio da reitoria da UENF

Para quem achava que o longo feriado havia acalmado os ânimos dos estudantes que se encontram acampados no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) para exigir, entre outras coisas, a criação de um auxílio-moradia, se enganou redondamente. Para quem passa pelo acampamento estudantil nesta manhã de 5a. feira o que fica evidente é que a disposição de luta continua firme, o que fica ainda mais evidente pelo número de barracas que continua crescendo.

De quebra, os estudantes rebatizaram o prédio da reitoria da UENF para “ocupação estudantil” como mostra a imagem abaixo. Pensando bem, nada mais justo. Agora vamos ver o que faz a reitoria, sempre tão ausente e omissa quando se trata de atacar os problemas reais que existem no campus Leonel Brizola.

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A “ocupação” da Maré

Por Cândido Grzybowski

O Complexo da Maré é um denso território onde vivem mais de 130 mil pessoas, auto-organizadas em dezesseis favelas. Estas existem porque seus moradores resistem à exclusão da cidadania e lutam pelo direito de ser parte da cidade do Rio de Janeiro. Mas será que a nossa cidade é republicana e democrática o suficiente para se estruturar segundo os direitos civis de liberdade e igualdade de todas e todos, sem discriminações, respeitando e valorizando a genial diversidade que nos caracteriza? Afirmo aqui o que muita gente do “asfalto” sente e pensa sobre o Complexo da Maré: um lugar perigoso, mas de passagem obrigatória, pois artérias fundamentais de mobilidade urbana – Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela – cruzam ou circundam o território. É simbólico que o Complexo da Maré seja também conhecido como “Faixa de Gaza”.

O fato é que a população do Complexo da Maré sempre dependeu mais de si mesma do que da atenção de políticas públicas, como é seu direito cidadão. Virou, por isto mesmo, presa fácil de milícias privadas e facções de traficantes, que estabeleceram a sua lei armada como norma para o conjunto e base para seu negócio. A Polícia, quando não conivente com o crime e dele tirando vantagens, sempre viu o território das favelas como espaço inimigo a ser simplesmente contido. A exclusão e segregação social e territorial das favelas com o asfalto erigiu muralhas simbólicas, mas fortemente armadas na nossa cidade. Parece que a política de segurança vigente é mais para proteger a cidade das favelas e seus habitantes do que garantir direitos iguais de segurança, de ir e vir, de não sofrer violência para todas e todos que compartimos a cidade do Rio de Janeiro.

Agora se anuncia a “ocupação” do Complexo da Maré com apoio da Forças Armadas. É bem simbólico ser “ocupação” o que poder público escolheu fazer nestas estratégicas favelas. Trata-se de “ocupação” real, com blindados, armamento pesado, helicópteros e todo o arsenal de guerra. Palavras são palavras, mas carregam intencionalidades, sentidos, transmitem concepções e são parte de modos de ver a realidade. No caso é “ocupação militar” de parte favelada da cidade, aquele lugar de nossa passagem obrigatória, e não “libertação” de território urbano de traficantes e milicianos para promover a cidadania. Trata-se de ocupar militarmente um território de 130 mil habitantes – que clamam por dignidade e justiça, por direitos de ser cidade também – para proteger outros, de fora das favelas. Aliás, não se esconde o tempo de duração da “ocupação” militar da Maré… até depois da Copa do Mundo de Futebol. É evidente que a lógica excludente e segregadora vigente em nada vai mudar neste curto período.

Digo e repito se for necessário: a decisão política de ocupar a Maré, acordada nos três níveis de poder do Brasil – governos municipal, estadual e federal – não visa libertar e promover a plena cidadania de 130 mil moradores do Rio vivendo no Complexo da Maré. Pode até significar um alívio e ser saudado por moradoras e moradores o fato de não ter que conviver no cotidiano imediato com traficantes e milicianos. Sorte que são as Forças Armadas a ocupar o território e não só a Polícia Militar do Rio. Mas que acontecerá após, quando a força de ocupação se recolher aos quartéis?

Mas tudo isto ainda pode ser mudado. A ideia de “pacificação” – melhor seria libertação – é uma grande proposta. Precisamos que nosso bem comum, a cidade do Rio de Janeiro e toda a Região Metropolitana, seja de fato um bem comum, de todas e todos, território de vivência plena da cidadania na nossa diversidade, sem discriminações e segregações, com dignidade e paz. Juntemo-nos para cobrar isto de nossos governantes. Esta é uma tarefa de todos que aqui vivemos. Devemos afirmar em alto e bom som que as favelas são cidade, são territórios de cidadania, que devem ser integrados à cidade e potencializados enquanto tais, naquilo que são e que seus moradores e moradoras reivindicam como legítimo direito. É pouco, muito pouco, simplesmente mudar de forças armadas para a ocupação dos territórios.

O clamor é por liberdade, participação, livre circulação, direitos por educação de qualidade, de saúde, de moradia, de lixo e esgoto recolhidos, de poder ter um endereço e anunciá-lo sem ser discriminado na rua, no trabalho, no órgão público. Ser favelado é ser uma pecha, mas sim ter uma identidade de quem sabe resistir e lutar por direitos. Acolhamos as favelas como força cidadã de transformação de nossa cidade em um território de convivência, compartilhamento e cuidado, bom de se viver para todas e todos. Temos importantes eleições neste ano para dizer que não queremos ocupações e sim libertações de privações, violências e negações de direitos, de privilégios de ricos e poderosos. Segurança sim, como direito de todo mundo, das favelas e do asfalto.

* Cândido Grzybowski é  Sociólogo e diretor do Ibase