Covaxin: vacina indiana cercada de suspeitas até na Índia

Brasil de Bolsonaro topou pagar US$ 15 por dose, sete vezes mais do que o governo da Índia, onde vacina do laboratório Bharat é alvo de polêmicas

covaxin 1Enfermeira indiana mostra frascos da Covaxin: vacina mais cara comprada pelo governo Bolsonaro é alvo de suspeitas até na Índia (Foto: Debajyoti Chakraborty / NurPhoto / AFP – 13/05/2021)

Por Florência Costa* para o Projeto Colabora

Em agosto do ano passado, o presidente do laboratório indiano Bharat Biotech, Krishna Ella, durante uma entrevista coletiva realizada na cidade de Hyderabad, onde está situada a sede da empresa, apontou para uma garrafa de água mineral que estava na sua frente e disse: “Essa garrafa de água custa cinco vezes mais do que a nossa vacina”. Ele se referia à Covaxin. Realmente, a Bharat Biotech cobrou pela sua vacina menos de US$ 2 do governo indiano. Mas a iniciativa privada e outros clientes, como o governo brasileiro, pagaram sete vezes mais caro, cerca de US$ 15.

A trajetória do desenvolvimento e fabricação da vacina Covaxin por parte da Bharat Biotech, que começou em maio de 2020, foi cercada de polêmicas em seu país de origem. A vacina indiana transformou-se em um dos principais alvos das investigações da CPI da COVID-19 no Senado brasileiro. Na Índia, a Bharat Biotech recebeu muitas críticas devido à disparidade dos preços oferecidos ao governo indiano e à inciativa privada. Mas o governo de Jair Bolsonaro aceitou de bom grado pagar caro pela vacina indiana.

A Covaxin foi desenvolvida pela Bharat Biotech em associação com o Indian Council of Medical Research, um órgão governamental. Na Índia, os imunizantes são administrados gratuitamente na rede pública, mas são cobrados nos hospitais privados. A Covaxin, no entanto, é a mais cara de todas as vacinas à disposição dos indianos e isso provocou muito debate no país.

Se o preço da Covaxin pode chegar até US$ 16 na rede de saúde privada da Índia, a vacina Covishield – da Oxford-AstraZenaca, produzida no Instituto Serum, o maior laboratório da Índia, que chegou a fornecer dois milhões de doses ao Brasil – custa cerca de US$ 10 por dose. Já a russa Sputnik V, algo em torno de US$ 12.

Diante da controvérsia, a Bharat Biotech afirmou que necessita recobrar o que gastou para o desenvolvimento e a fabricação do produto. Mas especialistas rebateram afirmando que o preço salgado na iniciativa privada é injustificável, já que a farmacêutica recebeu fartos investimentos do governo indiano para a produção e desenvolvimento da vacina.

Há uma semana, a Bharat Biotech comunicou que o preço de US$ 2 acertado com o governo indiano não era “sustentável” a longo prazo, devido aos custos com a produção. Em um comunicado à imprensa, o laboratório afirmou que é por isso que há necessidade manter preços altos para o mercado privado.

covaxin 2Profissional de saúde aplica Covaxin em Bangalore, na Índia: imunização no país começou antes mesmo de testes terem sido aprovados (Foto: Manjunath Kiran / AFP – 09/06/2021)

Covaxin suspeita desde a fase de testes

Outra polêmica que ronda a Covaxin refere-se aos testes. Quando a vacina obteve a aprovação para uso estritamente emergencial pelo Controlador Geral de Drogas da Índia (a Anvisa do país), em janeiro deste ano, os testes da fase 3 ainda não haviam finalizado e revelado a sua eficácia: isso provocou uma avalanche de críticas.

Resultados parciais de testes da fase 3, envolvendo 25,800 participantes, foram anunciados em abril, com indicação de eficácia de 78% contra COVID-19 moderada ou leve e 100% em casos severos. Os dados finais dos testes da fase 3 só foram enviados ao órgão controlador da Índia na segunda-feira, 21 de junho, quando a vacina já estava sendo aplicada em todas as regiões do país.

Em meio ao debate, a Bharat Biotech afirmou que os padrões científicos são transparentes. A empresa lembrou ainda que que publicou, no período de um ano, nove estudos de pesquisa sobre sua segurança e eficácia em cinco publicações de reputação científica. Mas, apenas há 10 dias, a Bharat Biotech informou que os dados completes das fases 1 e 2 e dados parciais dos testes da fase 3 haviam sido verificados por órgãos reguladores da Índia.

Um dos grandes revezes sofridos pela empresa indiana veio do Brasil. Em março, a Anvisa negou autorização para importação excepcional da Covaxin, solicitada pelo Ministério da Saúde. Foi uma decisão por unanimidade: os diretores consideraram que o laboratório indiano não conseguiu apresentar documentação que comprovasse a eficácia e a segurança do imunizante.

Somente agora, em junho, a Anvisa concedeu uma autorização, mas apenas para quatro milhões de doses _ e não 20 milhões de doses do contrato assinado com o Ministério da Saúde do Brasil – e sob contrições restritas. Em uma entrevista a uma TV indiana, Krishna Ella, fundador e presidente da Bharat, reagiu alegando que a Anvisa havia agido movida por um “nacionalismo” brasileiro e pelo desejo de evitar a vacina indiana. “Isso é devido ao nacionalismo. Alguns países querem estrategicamente atrasar a indiana e difamar outros países, afirmou Ella, em resposta às dúvidas levantadas pela Anvisa.

A Bharat Biotech – um laboratório de menor porte na grande disputa global do mercado de vacinas contra COVID-19 – tinha a intenção de aumentar o seu cacife internacionalmente e contava com o Brasil para isso. Até agora, o laboratório indiano exportou seu produto apenas para países como República Maurício, Irã, Mianmar, Paraguai e Zimbábue.

Para completar o cenário de controvérsias, a mídia indiana publicou em janeiro matérias sobre pessoas que participaram de testes sem saber, achando que estavam tomando vacinas já aprovadas. Vários casos foram reportados na cidade de Bhopal (estado de Madhya Pradesh), que ficou famosa no mundo todo em 1984 devido a um vazamento de gás em dezembro daquele ano na fábrica de pesticidas Union Carbide India Limited. Entrevistados afirmaram que receberam a vacina em troca de dinheiro (cerca de US$ 10) e outros disseram que não sabiam que se tratava de teste. A Bharat Biotech negou qualquer transgressão à época e afirmou que as pessoas haviam sido informadas de que estavam sendo submetidas a testes da vacina contra Covid 19.

Isso tudo aconteceu ainda no começo de 2021 quando o governo indiano anunciava que iria imunizar, até agosto, 300 milhões de seus 1.3 bilhão de habitantes. A segunda onda de covid-19 devastou a Índia pouco tempo depois, a partir de abril, provocando uma grande mortandade e cenas chocantes corpos incinerados na ruas ou jogados em rios. Até agora cerca de 389 mil pessoas morreram, oficialmente, na Índia por covid-19. Mas estimativas não oficiais apontam que esse número pode ser quatro vezes maior.

covaxin 3Levantamento do TCU mostra que Covaxin custou quatro vezes mais que AstraZeneca: interesse do governo Bolsonaro na vacina indiana investigado pelo MPF e pela CPI (Reprodução: TV Globo)

Na mira da CPI e do MPF

No Brasil, o Ministério Público Federal está investigando o contrato do Ministério da Saúde com a Precisa Medicamentos para compra da vacina Covaxin, produzida na Índia, único contrato do governo Bolsonaro que teve um intermediário sem vínculo com a indústria de vacinas. O próprio presidente intercedeu pessoalmente para agilizar a compra e enviou uma carta ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em janeiro.

Em fevereiro, o governo assinou contrato para compra de 20 milhões de doses da Covaxin, antes mesmo do aval da Anvisa e apesar do alerta da agência sobre a falta de certificado de boas práticas na fabricação da vacina. Pelo contrato, as primeiras doses chegariam ao Brasil em maio, 70 dias após o fechamento da compra, mas até agora nenhuma dose foi entregue.

De acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União, a Covaxin foi a vacina mais cara negociada pelo governo Bolsonaro até agora: R$ 80,70 a unidade, valor quatro vezes maior que a AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. Em depoimento ao Ministério Público Federal, o funcionário do Ministério da Saúde responsável pela importação, Luís Ricardo Fernandes Miranda, afirmou que houve pressão superior para a compra rápida da Covaxin.

A CPI da covid-19 também está investigando o interesse do governo na compra da vacina indiana, cara e sem aval da Anvisa. Os senadores querem saber o motivo de o contrato para a compra da Covaxin ter sido intermediado pela Precisa Medicamentos, alvo do Ministério Público do Distrito Federal em investigação de fraude na venda de testes rápidos para COVID-19. Sócio da empresa, Francisco Maximiano, que teve seu sigilo bancário e telefônico quebrado pela CPI, tinha depoimento marcado na CPI para esta quarta, 22 de junho. O depoimento foi adiado já que o empresário alegou estar em quarentena, por ter viajado à Índia.

*Florência Costa é Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo projeto “Colabora” [Aqui!].

Campos dos Goytacazes registra mais de 100% de aumento nos óbitos por COVID-19 frente à média da pandemia em no mês de maio

Dados dos Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil revelam que mesmo com queda nos óbitos em comparação com o mês passado, números ainda estão acima da média

campos sepultamento

Com o segundo pior número de mortes desde o início da pandemia da Covid-19 em Campos dos Goytacazes, o mês de maio mostrou queda nos números da doença e com isso, um indício de que a vacinação na cidade começa a surtir efeito. Mas se comparados com a média de óbitos causados pelo novo coronavírus desde a chegada da doença na cidade, o mês que se encerrou registrou aumento de 114% no número de falecimentos, registrando 224 mortes, frente a uma média de 87 óbitos.

Os números de maio só são melhores quando comparados com os números de óbitos registrados em abril deste ano. Na comparação com março, maio aponta aumento de 88% no número de óbitos, enquanto na comparação com abril houve queda de 23,3%. Em números absolutos, maio registrou 224 óbitos causados pelo novo coronavírus, março 119, e abril 292.

Os dados constam no Portal da Transparência do Registro Civil (https://transparencia.registrocivil.org.br/inicio), base de dados abastecida em tempo real pelos atos de nascimentos, casamentos e óbitos praticados pelos Cartórios de Registro Civil do País, administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), e podem ainda sofrer mudanças, uma vez que o prazo legal para envio de óbitos à plataforma nacional pode chegar a até 12 dias do falecimento. 

“É possível acompanhar mês a mês a variação dos dados de óbitos pelo Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil e o que ela nos mostra é que mesmo com a diminuição de óbitos na faixa etária que já foi vacinada, os números ainda são muito expressivos e estão muito acima da média historicamente registrada do Estado. Portanto, nos mostra o quanto a vacinação tem sido eficaz e por este mesmo motivo, o quanto ela deve ser acelerada para que mais vidas sejam poupadas”, explica Humberto Costa, presidente da Arpen RJ.

Maio/20 x Maio/21

Um ano depois, maio de 2021 registrou aumento de 322% dos óbitos em Campos dos Goytacazes em comparação com o mesmo mês de 2020. Em números absolutos foram 224 mortes no mês passado frente a 53 em maio do ano passado. Na mesma comparação, 18 Estados apresentam números maiores este ano, enquanto nove apresentam redução quando comparados ao mesmo período do ano passado.

Já no Brasil, maio de 2021 registrou um aumento de 71,9% dos óbitos no Brasil em comparação com o mesmo mês de 2020. Em números absolutos foram 49.282 mortes no mês passado frente a 28.667 em maio do ano passado. Na mesma comparação, 18 Estados apresentam números maiores este ano, enquanto nove apresentam redução quando comparados ao mesmo período do ano passado.

Sobre a Arpen/RJ

A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado do Rio de Janeiro (Arpen/RJ) representa os 179 cartórios de registro civil, que atendem a população em todos os 92 municípios do Estado, além de estarem presentes em todos os distritos e subdistritos, realizando os principais atos da vida civil de uma pessoa: o registro de nascimento, casamento e óbito.

FONTE: Assessoria de Imprensa da Arpen Rio de Janeiro

Campos dos Goytacazes entra em uma incrível “Fase verde” com 1.400 mortos por COVID-19

fase verde
Com o município de Campos dos Goytacazes contabilizando 1.400 mortes oficiais por COVID-19, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) anunciou que entramos na chamada “Fase Verde” do chamado “Plano de Retomada das Atividades Econômicas e Sociais”. As razões para isso seria, entre outras coisas, o fato de que o município chegou a 160 mil pessoas vacinadas com a primeira dose, o que significa 31% da população, e segunda dose com quase 70 mil vacinados”, ou o equivalente a 14% da população.

Quem se pergunta sobre qual seria o limiar de segurança para uma abertura mínima de atividades comerciais não essenciais, tenho a dizer que 14% de imunização total é um valor irrisório em face da presença de variantes altamente contagiosas como a “Delta” que surgiu inicialmente na Índia, mas que já está instalada por aqui.

Em outras palavras, permitir a abertura quase total de atividades não essenciais é irresponsável do ponto de vista do controle da pandemia, pois o que deveria estar vigindo por aqui é a Fase Vermelha, dada o andamento em ritmo de tartaruga de pata quebrada do processo de vacinação. Para quem ainda não sabe, no dia de hoje estão vacinadas mulheres na idade 49 anos, o que indica a lerdeza em que a vacinação está ocorrendo.

Eu só posso concluir que o prefeito Wladimir Garotinho está tentando uma forma de “make up kisss” com o tal setor produtivo que se levantou contra ele por causa da derrama fiscal que ele pretendia aprofundar, seguindo aí sim os passos lépidos de Rafael Diniz.

A informação que eu disponho é que no interior do município os casos de COVID-19 estão em fase explosiva, com famílias inteiras sendo gravemente contaminadas. Eu mesmo tive hoje a triste informação de que perdi mais um conhecido por causa da COVID-19. Mas como ele era um trabalhador pobre, a sua morte não deve ter sido incluída nos cálculos políticos que nos colocaram na “Fase Verde”.

O curioso é que na manhã desta 3a. feira (22/06), a agência do Banco Santander localizado no Boulevard Francisco de Paula Carneiro amanheceu fechada, sem qualquer surpresa para mim, porque um surto de COVID-19 se instalou entre os bancários que ali trabalham (ver imagem abaixo).

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Em Campos dos Goytacazes, ensino híbrido em meio ao ascenso das contaminações é uma certeza de desastre sanitário

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As razões que guiam a Secretaria Municipal de Educação de forçar os profissionais da educação a aplicar um nebuloso modelo híbrido de ensino, em meio ao que tudo indica seja uma terceira onda aguda e letal da pandemia da COVID-19, não tem outro nome que não seja “convite para o desastre”. É que conhecendo a precariedade que cerca a aplicação dos tais padrões de segurança sanitária que supostamente deveriam reger o convívio aglomerado no Brasil, a única coisa certa é que teremos mais contaminações e provavelmente mortes não apenas entre os profissionais da educação, mas também entre crianças e familiares. E tudo isso para quê? Atender as pressões dos donos das escolas particulares que querem retomar uma normalidade impossível? 

Não há como ficar assistindo esse absurdo de forma passiva, pois já temos um alto número de mortes entre profissionais de educação no município de Campos dos Goytacazes. Cabe ao SEPE e ao SIPROSEP defender os profissionais da educação municipal dessa decisão absurda. A nós que vivemos nessa cidade cabe denunciar esse despropósito, pois senão nos tornaremos cúmplices do que irá acontecer.  

O que será preciso para sensibilizar o prefeito Wladimir Garotinho e seus secretários para que ajam com um mínimo de racionalidade e não imponham esse modelo híbrido que resultará em mais mortes em um município que já perdeu 1.392 vidas para a COVID-19? Que o Brasil chegue a 1 milhão de mortos na pandemia?

Finalmente, uma curiosidade: o press release da Secretaria Municipal de Educação diz que “as condições sanitárias atuais do município, que estão controladas”.  Esse controlada é por quem? Só se for pelo SARS-COV-2 e pela COVID-19. E isso tudo em meio à ampla circulação da variante indiana.  A COVID-19 e os donos de casas funerárias agradecem!

500 mil mortos é o limite da paciência nacional?

As capas dos principais veículos da mídia corporativa brasileira trazem hoje menções aos 500 mil mortos causados pela pandemia da COVID-19 no Brasil dando referências diretas sobre a parcela de culpa do governo Bolsonaro para que tenhamos chegado a um número tão assombroso (ver imagem abaixo).

capas

O problema é que apenas capas não vão mudar as políticas do governo Bolsonaro que bloqueiam uma ação mais efetiva do Ministério da Saúde para ampliar o alcance e a velocidade do processo de vacinação, única garantia de que a pandemia será controlada no Brasil.

A mudança de posição dos proprietários da mídia brasileira em relação às capas deste domingo pode ser o prenúncio de que até a paciência deles com um governo anti-ciência e anti-pobres está chegando ao limite. É que os barões da mídia vem ganhando com as políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Paulo Guedes e uma mudança de postura só ocorrerá se o ambiente político for mudado nas ruas pela classe trabalhadora e pela juventude.

O simples fato de que as mobilizações que ocorreram ontem não foram ocultadas como as que tinham acontecido no dia 29 de maio já é positivo, e certamente acrescentará mais pressão sobre os partidos que sustentam o governo Bolsonaro no congresso nacional.

Assim, lamentavelmente dado o risco sanitário que todos correm ao se aglomerarem, o caminho é o das ruas. Afinal, são as ruas cheias que garantem mudanças políticas que precisamos neste momento, e que começam por exigir vacina para todos os brasileiros. Do contrário, em breve iremos ultrapassar o número de mortos pela pandemia nos EUA, que lembro possuem cerca de 110 milhões de habitantes a mais do que o Brasil.

‘A próxima pandemia’: a seca é uma crise global oculta, diz a ONU

Países instados a tomar medidas urgentes para gerenciar a água e a terra e enfrentar a emergência climática

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Recipientes são expostos quando as águas do lago Sun Moon em Nantou, Taiwan, recuam durante uma seca nacional, Fotografia: Annabelle Chih/Reuters

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

A seca é uma crise global oculta que corre o risco de se tornar “a próxima pandemia” se os países não tomarem medidas urgentes na gestão da água e da terra e no enfrentamento da emergência climática, afirmou a ONU.

Pelo menos 1,5 bilhão de pessoas foram afetadas diretamente pela seca neste século, e o custo econômico ao longo desse período foi estimado em US $ 124 bilhões (£ 89 bilhões). O verdadeiro custo provavelmente será muitas vezes maior porque essas estimativas não incluem muito do impacto nos países em desenvolvimento, de acordo com um relatório publicado na quinta-feira .

Mami Mizutori, representante especial do secretário-geral da ONU para redução do risco de desastres, disse: “A seca está prestes a se tornar a próxima pandemia e não há vacina para curá-la. A maior parte do mundo viverá com estresse hídrico nos próximos anos. A demanda superará a oferta durante certos períodos. A seca é um fator importante na degradação da terra e no declínio da produção das principais safras ”.

Ela disse que muitas pessoas imaginam que a seca está afetando as regiões desérticas da África, mas esse não é o caso. A seca agora é generalizada e, no final do século, todos, exceto um punhado de países, sofrerão de alguma forma, de acordo com o relatório.

“As pessoas vivem com a seca há 5.000 anos, mas o que estamos vendo agora é muito diferente”, disse Mizutori. “As atividades humanas estão exacerbando a seca e aumentando o impacto”, ameaçando inviabilizar o progresso na retirada das pessoas da pobreza.

Os países desenvolvidos não ficaram imunes . Os Estados Unidos, a Austrália e o sul da Europa sofreram secas nos últimos anos. A seca custa mais de US $ 6 bilhões por ano em impactos diretos nos Estados Unidos e cerca de € 9 bilhões (£ 7,7 bilhões) na UE, mas também é provável que sejam graves subestimações.

O crescimento populacional também está expondo mais pessoas em muitas regiões aos impactos da seca, diz o relatório.

A seca também vai além da agricultura, disse Roger Pulwarty, cientista sênior da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos e co-autor do relatório.

Ele citou o Danúbio na Europa, onde secas recorrentes nos últimos anos afetaram os transportes, o turismo, a indústria e a geração de energia. “Precisamos ter uma visão modernizada da seca”, disse ele. “Precisamos ver como gerenciar recursos como rios e grandes bacias hidrográficas.”

Mudar os padrões de chuva como resultado da desagregação do clima é um fator-chave para a seca, mas o relatório também identifica o uso ineficiente dos recursos hídricos e a degradação da terra sob a agricultura intensiva e práticas agrícolas inadequadas. O desmatamento, o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas, o sobrepastoreio e a extração excessiva de água para a agricultura também são grandes problemas, diz o relatório.

Mizutori pediu aos governos que tomem medidas para ajudar a prevenir a seca, reformando e regulamentando como a água é extraída, armazenada e usada, e como a terra é administrada. Ela disse que os sistemas de alerta precoce podem fazer muito para ajudar as pessoas em perigo, e que técnicas avançadas de previsão do tempo estão agora disponíveis.

Ela disse que trabalhar com a população local é essencial, porque o conhecimento local e indígena pode ajudar a informar onde e como armazenar água e como prever os impactos dos períodos de seca.

O relatório, intitulado Relatório de Avaliação Global sobre Redução de Risco de Desastres: Relatório Especial sobre a Seca 2021 , foi publicado na quinta-feira e alimentará as discussões em uma importante conferência climática da ONU conhecida como Cop26, que está programada para acontecer em Glasgow em novembro.

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Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui].

Corrida contra o vírus: Atualização do estudo da DHL revela os aprendizados em logística após um ano de COVID-19

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• Com a participação de mais de 350 de suas instalações em todo o mundo, DHL já distribuiu mais de 200 milhões de doses de vacinas, para mais de 120 países e territórios

• Estima-se que a partir de 2022, serão necessárias entre 7 e 9 bilhões de doses adicionais ao ano para manter as taxas de reinfecção baixas e reduzir o ritmo de mutação do vírus

• Adaptação local do last mile, modelos de distribuição e manutenção de um estoque consistente de vacinas seguirão sendo fatores essenciais pós-2021

São Paulo, junho de 2021: Já passou mais de um ano desde que o mundo se deparou pela primeira vez com a notícia do novo vírus SARS-COV-2. O que vimos na sequência foi a maior crise de saúde mundial em 100 anos. A logística e as cadeias de suprimento têm desempenhado um papel vital na gestão da pandemia desde o início, garantindo a disponibilidade e a distribuição dos principais dispositivos usados no combate à pandemia, como medicamentos e suprimentos médicos, vacinas, kits, testes, suprimentos auxiliares, tratamentos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

A DHL tem feito parte da estratégia global de resposta à pandemia desde o início e já foi responsável pelo transporte de mais de 200 milhões de doses de todas as vacinas aprovadas, para mais de 120 países e territórios, por meio de 9 mil voos operados pela DHL, tendo envolvido mais de 350 de suas instalações em todo o mundo. Mais de 50 colaborações bilaterais e multilaterais foram criadas com parceiros da indústria farmacêutica e do setor público, incluindo diversos novos serviços especializados nesta área. O estudo da DHL “Aprendizados sobre a resiliência diante da pandemia” avalia o desempenho global no enfrentamento da crise e destaca o que o setor de logística aprendeu durante a corrida contra a COVID-19, identificando as principais ações de preparação para melhor gerenciar emergências de saúde pública no futuro.

“Uma vez que as vacinas contra a COVID-19 ficaram prontas, era crucial que a logística e a gestão de supply chain fossem eficientes o bastante para atender a todos os continentes com a urgência necessária”, disse Claudia Roa, Vice-Presidente do Setor Farmacêutico e de Equipamentos Médicos da DHL nas Américas. “Na DHL, desenvolvemos e implantamos soluções especializadas para a distribuição de vacinas, que possibilitaram a movimentação de volumes inéditos até então, sempre levando em conta a urgência com que as vacinas precisam chegar a cada país. A logística e o gerenciamento da supply chain desempenharam um papel fundamental durante a pandemia e, no decorrer dessa batalha, aprendemos lições valiosas”.

Foram registradas importantes conquistas em pesquisa e desenvolvimento, produção e gestão da supply chain, bem como políticas que ajudarão a superar a crise como uma comunidade global. As bases para isso foram construídas por meio de pesquisa e desenvolvimento, que possibilitou a criação de uma vacina com uma agilidade cinco vezes maior do que qualquer outra vacina da história, e também pelo aumento da produção de vacinas em tempo recorde, quadruplicando a capacidade de produção verificada antes da pandemia de COVID-19. Por meio da logística e supply chain, as vacinas que salvam vidas estão sendo entregues a pacientes de todo o planeta. Embora tenha sido necessário cumprir requisitos sem precedentes na cadeia fria de distribuição – até -70°C de temperatura para transporte e armazenamento – a logística possibilitou a distribuição em uma velocidade três vezes mais rápida do que a de costume. Além disso, as ações multilaterais realizadas por diferentes atores da saúde pública e do governo possibilitaram a criação de uma estrutura propícia para acelerar o desenvolvimento e a implementação das vacinas.

“Todos os setores, indústrias e nações devem trabalhar em conjunto para vencer com sucesso a fase aguda desta pandemia”, acrescentou Roa. “Firmar parcerias sólidas e alavancar a análise de dados será fundamental para combater com sucesso essa e qualquer outra pandemia no futuro”.

Colaboração é essencial para a distribuição global de vacinas

Para atingir níveis elevados de imunização, estima-se que será necessário cerca de 10 bilhões de doses até o final de 2021. Até o momento, apenas quatro países alcançam taxas de vacinação superiores a 50% de suas respectivas populações – e muitos dos países e territórios restantes têm infraestruturas menos desenvolvidas, o que torna a implementação ainda mais desafiadora nesses locais. Para acelerar a entrega de vacinas, os seguintes aspectos precisam ser levados em conta:

• Os diferentes setores da economia e os governos devem promover a colaboração, com foco específico no estabelecimento de parcerias sólidas e na criação de uma infraestrutura de dados de apoio.

• Para garantir os fluxos de abastecimento, é necessário realizar uma gestão proativa das capacidades de transporte e dos fluxos sustentáveis de devolução de embalagens. Isso é de extrema importância, uma vez que mais de 95% das doses da vacina para a COVID-19 no mundo são fabricadas em apenas oito países, a partir dos quais devem ser distribuídas para o resto do mundo.

• Também devem ser implementados modelos de distribuição terrestres no trecho final da entrega (last mile delivery) com base nas necessidades locais específicas, priorizando a localização estratégica dos armazéns, a sincronização dos fluxos de vacinas e produtos auxiliares, bem como a quantidade e a localização dos pontos de vacinação existentes em cada local.

A infraestrutura logística e as capacidades estabelecidas deverão ser mantidas nesse nível nos próximos anos, uma vez que serão necessárias entre 7 e 9 bilhões de doses adicionais de vacinas todos os anos para manter as taxas de reinfecção baixas e reduzir o ritmo de mutação do vírus – isso sem contar com as flutuações sazonais.

“Embora tenhamos sido ágeis durante esta pandemia, devemos nos manter preparados para grandes fluxos de pacientes e volumes de vacinas, preservar a infraestrutura e a capacidade logística instaladas e nos planejar para as flutuações sazonais, fornecendo uma plataforma estável e bem equipada ao longo dos próximos anos”, explicou Roa.

Planejamento futuro

De acordo com o estudo, o planejamento futuro é algo essencial para identificar e prevenir crises de saúde por meio de cooperação ativa, ampliação dos sistemas globais de alerta, agenda integrada de prevenção de epidemias e investimentos específicos em P&D. Também é recomendado expandir e institucionalizar medidas de contenção e combate ao vírus (por exemplo, rastreamento digital de contatos e criação de reservas nacionais) a fim de garantir a preparação estratégica e tempos de resposta mais eficientes. Para facilitar a rápida distribuição de insumos e medicamentos – incluindo produtos para diagnóstico, tratamento e vacinação – os governos e a indústria precisarão manter as capacidades de produção permanentemente disponíveis, com pesquisas sobre modelos, sistemas de produção e planos de provisionamento, além de expandir as capacidades locais de implementação.

Para ler o estudo na íntegra, clique no seguinte link: https://www.dhl.com/pandemic-resilience.

Maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 apresenta sintomas prolongados da doença

pós covidEm seminário on-line organizado pela FAPESP, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos divulgaram resultados preliminares de estudos sobre a saúde mental e a qualidade de vida desses sobreviventes seis meses após alta hospitalar (foto: Engin Akyurt/Pixabay)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

A maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 tende a apresentar sintomas prolongados ou sequelas da doença, condição que tem sido chamada de COVID longa ou subaguda. É o que apontam dados preliminares de estudos que estão monitorando fatores como saúde mental, qualidade de vida, reabilitação física, financeira e cognitiva dessas pessoas.

“Há mais de um ano sofremos as consequências da pandemia de COVID-19 e, com o tempo, fomos percebendo que, para além de problemas relacionados à transmissão, infecção e mortes, a COVID-19 pode trazer também consequências de longo prazo para pacientes. Como essas implicações ainda não estão completamente entendidas pelos cientistas, é muito importante estimular a troca de conhecimento e de experiências entre pesquisadores de todo o mundo”, disse Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, na abertura do seminário on-line “Long and post-acute COVID-19”, realizado no início de junho. O evento integra a série FAPESP COVID-19 Research Webinars, organizada com apoio do Global Research Council (GRC).

No evento, cientistas do Brasil e dos Estados Unidos apresentaram resultados preliminares de estudos que estão desenvolvendo a respeito do impacto prolongado da COVID-19.

No Brasil, 882 pacientes que estiveram internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) estão tendo aspectos da vida pós-COVID monitorados por pesquisadores a fim de aprofundar o entendimento sobre a presença de sintomas da doença seis meses após a alta hospitalar. Todos os participantes do estudo tiveram a forma grave da doença, sendo que dois terços precisaram de atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Com seis meses de análise, os pesquisadores observaram que é alta a ocorrência de sintomas após a alta hospitalar. Do total de pesquisados, 89,3% apresentaram sintomas persistentes, como cansaço, dores pelo corpo e dispneia. Além disso, 58,7% relataram pelo menos um sintoma emocional ou cognitivo, como perda de memória (42%), insônia (33%), concentração prejudicada (31%), ansiedade (28%) e depressão (22%).

“Esses sintomas estão todos inter-relacionados. Em outras palavras, o que verificamos é que uma pessoa que reclama de perda de memória também relata insônia, ansiedade e depressão. É importante destacar que esses resultados foram ajustados em relação aos sintomas apresentados antes de as pessoas terem COVID-19”, afirmou Geraldo Busatto, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM21) do HC-FM-USP e coordenador do estudo.

Busatto explica que, durante o estudo, foram realizadas entrevistas estruturadas com os pacientes, o que permitiu aos pesquisadores categorizar diagnósticos de transtornos psiquiátricos. “Há uma variedade de transtornos entre esses pacientes e um índice similar de estresse pós-traumático (13,65%) em relação aos dados disponíveis sobre a população em geral. No entanto, encontramos índices altos de alucinações (8,71%) e delírios (6,35%)”, ressaltou.

Também foi pedido que os participantes realizassem tarefas cognitivas. “Em comparação com a média brasileira, esses pacientes tiveram um resultado pior, isso especialmente entre os que tinham entre 60 e 75 anos. Já nos testes que analisaram fluência verbal, não houve diferença entre os pacientes e a população brasileira em geral. Isso mostra que, provavelmente, o déficit causado pela COVID-19 não é uniforme, algumas áreas da cognição devem apresentar mais déficits que outras”, disse Busatto.

Qualidade de vida pós-COVID

Outro estudo que também está sendo realizado no Brasil e que envolve mais de 55 centros de pesquisa pretende investigar as consequências de longo prazo da COVID-19 na qualidade de vida de cerca de mil indivíduos adultos que foram hospitalizados.

“Os dados preliminares mostram que seis meses após a alta hospitalar a mortalidade é alta (6,9%), e a re-hospitalização, comum (16%). Entre os pacientes que fizeram uso de ventilação mecânica, esses dados são maiores: 24% morreram seis meses depois da alta hospitalar, contra 2% dos que não precisaram de ventilação mecânica. Em relação à re-hospitalização, ela foi de 40% contra 10% em relação à ventilação mecânica. São diferenças estatísticas significativas, mesmo após o ajuste de covariantes como idade e comorbidades”, contou Regis Goulart Rosa, médico intensivista do Hospital Moinho de Vento em Porto Alegre (RS) e um dos coordenadores do estudo.

Foi observada ainda perda de funções físicas importantes para a realização de atividades do dia a dia. “Houve piora acentuada nos primeiros três meses, apresentando relativa melhora até o sexto. No entanto, entre os pacientes que utilizaram ventilação mecânica, mesmo após seis meses de alta, eles ainda não tinham atingido os mesmos patamares de antes da COVID-19”, afirmou Rosa.

Um estudo semelhante, realizado com pacientes norte-americanos, vai monitorar por seis meses 1.500 sobreviventes da COVID-19. O intuito é acompanhar variações na saúde cardiopulmonar e mental, bem como questões socioeconômicas.

Os dados de 253 pacientes coletados um mês após a alta hospitalar mostram que 54,9% apresentavam algum sintoma cardiopulmonar. Entre os pesquisados, 15,9% continuavam a precisar de suplementação de oxigênio em suas residências. Ainda de acordo com a pesquisa, os pacientes também apresentavam sintomas como tosse (23%), falta de ar antes de dormir (13,4%), batimentos cardíacos irregulares ou acelerados (19,1%) e dor no peito, cansaço ou angina (11,3%).

“Uma descoberta preocupante está no fato de que muitos dos pacientes que apresentam alguma dessas dificuldades retornam para suas casas sem nenhum auxílio para lidar com esses novos problemas. Isso se soma ao aspecto destacado na pesquisa de que 53% dos respondentes tiveram suas finanças drenadas após a hospitalização. Além disso, 38% tiveram que pedir ajuda para que parentes cuidassem deles e 20% tiveram que mudar de trabalho. Há um impacto socioeconômico da COVID-19 e também da COVID longa”, disse Catherine Hough, que coordena o estudo realizado na Oregon Health & Science University.

A recuperação da COVID-19 pode ser lenta para muitos pacientes. O estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que 85% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente um mês depois da alta hospitalar. Do total, 65% apresentavam alguma incapacidade e 63% tinham algum problema cognitivo significativo. “Ao analisar os mesmos dados três meses após a alta dos pacientes, observamos pouca mudança em relação a esses sintomas: 75% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente, 60% apresentavam alguma incapacidade e 54% apresentavam algum problema cognitivo significativo.”

Hough ressaltou que os estudos sobre a COVID longa precisam considerar doenças e outros problemas de saúde que já estavam presentes antes da infecção pelo SARS-CoV-2. O vírus, segundo a pesquisadora, “pode ser um amplificador de problemas anteriores”.

Quebra-cabeça

Os mecanismos imunológicos que levam a essa variação de sintomas e sequelas pós-COVID também estão sendo pesquisados. “Há uma variação grande na forma como o sistema imunológico humano monta uma defesa contra o coronavírus, por isso temos essa multiplicidade de prognósticos: assintomático, leve, moderada, ou COVID-19 severa. Da mesma forma, sabemos que, enquanto algumas pessoas vão apresentar apenas a versão aguda da doença, outras terão uma versão mais prolongada, com sintomas e sequelas que poderão perdurar por meses”, explicou Carolina Lucas, pesquisadora do laboratório Akiko Iwasaki, na Yale School of Medicine nos Estados Unidos.

Em um estudo publicado na revista Nature, Lucas identificou quatro assinaturas imunológicas preditoras, que seriam capazes de distinguir e prever a trajetória da doença em cada paciente ao investigar parâmetros imunológicos e clínicos de 113 pacientes, entre casos moderados (fora da UTI) e casos graves (na UTI), ao longo de até 53 dias após o aparecimento de sintomas.

O grupo de pesquisadores observou que, entre os pacientes com doença moderada que se recuperaram, havia ainda uma maior abundância das proteínas envolvidas na cura e no reparo do tecido. No entanto, naqueles com a forma agravada da doença, as citocinas eram mais misturadas, aparecendo em combinações que são incomuns para infecção viral. Mais pessoas morreram nesse grupo.

Há ainda uma questão de timing. Os resultados das análises indicaram que os pacientes em estado grave não conseguiram controlar a carga viral ao longo do tempo e apresentavam níveis mais elevados de interferon, uma classe de proteínas produzidas por células de defesa para combater patógenos.

Outro aspecto identificado pelos pesquisadores está na correlação entre a carga viral e as quantidades de citocinas envolvidas nas funções antivirais, independentemente da gravidade da doença.

A íntegra do webinário pode ser acessada em: https://covid19.fapesp.br/covid-19-longa-e-sub-aguda/545.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui! ].

Estratégia de vacinação contra Covid-19 foi dificultada por conflitos políticos e falta de coordenação

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Diante da pandemia de COVID-19, o mundo precisou parar para rever as estratégias não só de preparação para lidar com uma epidemia de amplitude global, mas também nos processos de vacinação, capazes de imunizar a população. De acordo com uma pesquisa realizada na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP), os conflitos políticos entre presidente e governadores e a falta de definição de grupos prioritários de vacinação dificultaram a estratégia de vacinação no Brasil, além de outras decisões tomadas durante processo de produção ou aquisição das doses.

Publicada na revistaSocial Science & Medicine, a pesquisa traz três dimensões que influenciaram  a vacinação de países de renda média, como o Brasil: a produção e aquisição de vacinas; a regulação do registro para comercialização das vacinas; e o processo de vacinação propriamente dito.

As análises, feitas a partir de uma pesquisa qualitativa, mostraram que as conexões entre produção, regulação e distribuição de vacinas são decisivas para a eficácia das  estratégias de vacinação contra a COVID-19. É o caso das decisões regulatórias, que têm implicações para a velocidade de disponibilização das vacinas no país. Ainda que a Anvisa tivesse pronta capacidade de se adaptar e responder às demandas regulatórias durante a pandemia, a agência ficou à mercê de conflitos políticos que prejudicaram a reputação organizacional, além de semear dúvidas e desconfianças sobre as vacinas.

Outro ponto abordado pela pesquisa foram os processos de transferência de tecnologia para a produção do ingrediente farmacêutico ativo (IFA), que costumam ser uma alternativa para países de renda média obterem maior acesso às vacinas. No entanto, o caso brasileiro ilustra que a teoria é bastante diferente da prática, já que a transferência de tecnologia é um processo que exige adaptação das plantas fabris e acordo legal (inclusive sobre o pagamento de royalties), e que levam tempo para acontecer.

“O caso do Brasil demonstra que capacidades estatais não são suficientes para garantir uma preparação para pandemia, sendo necessário considerar as implicações das contestações políticas ao longo da cadeia de produção, regulação e distribuição de vacinas”, pondera Elize Massard da Fonseca, uma das autoras do estudo. Para a pesquisadora, além do investimento em desenvolvimento industrial, é crucial integrar os sistemas de saúde às iniciativas de pesquisa e desenvolvimento de vacinas.

“Essa integração não pode ser construída da noite para o dia, durante uma pandemia, mas precisa ser fruto de investimentos de longo prazo em produtos estratégicos, que possam ser mobilizados em casos de crises de saúde pública”, alerta a pesquisadora. Fonseca destaca que esse tipo de diretriz é importante especialmente para os países que não têm capacidade de fazer reserva de mercado ou grandes investimentos em produtos em fase de pesquisa ou, ainda, que não se classificam para o recebimento de doações de vacinas para países de baixa renda.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Bitcoin se tornou refúgio para investidores em períodos críticos da pandemia

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Investir em Bitcoin deixou de ser algo para os investidores mais ousados. Segundo uma pesquisa da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/ EAESP), a criptomoeda foi considerada um investimento seguro durante o período mais crítico da pandemia, se destacando, junto com o ouro, como um refúgio para investidores protegerem seus ativos. Essas conclusões foram publicadas na revista “Research in International Business and Finance”.

Os pesquisadores Eduardo H. Diniz e Natália Diniz-Maganini, que analisaram o comportamento dos investimentos em Bitcoin durante março e julho de 2020, mostraram que a criptomoeda foi considerada um investimento seguro (conhecido também pela expressão safe-haven), com índices comparáveis aos investimentos em ações ou em dólar.

A pesquisa foi realizada de maneira empírica, por meio de observações dos preços do Bitcoin para testar o seu potencial como investimento seguro durante o período mais crítico da pandemia para o mercado financeiro. “Analisamos as variações de preços do Bitcoin a cada cinco minutos, verificando se a criptomoeda foi um investimento seguro na comparação com o índice internacional Morgan Stanley (MCSI), utilizado no mercado de ações, e o índice dólar, usado para investimentos cambiais”, explica Diniz-Maganini.

Os pesquisadores ressaltam que o fato do Bitcoin se comportar como uma reserva segura para os investidores é uma grande novidade. “Até o início de 2020, ninguém diria com segurança que uma criptomoeda poderia ser um ativo para qual os investidores correriam em caso de uma crise financeira”, destaca Diniz. “Isso não quer dizer que o Bitcoin se tornou um investimento sem riscos de uma hora para outra, mas que o mercado de investidores já o considera como um investimento viável e com a liquidez necessária para momentos de grande incerteza”, complementa o pesquisador.

Um dos grandes diferenciais do Bitcoin na comparação com os outros ativos, segundo os pesquisadores, tem a ver com o fato de que, no mundo das criptomoedas ninguém tem informação privilegiada, porque o seu funcionamento é baseado em códigos que são públicos, conhecidos por todos de maneira igualitária. “Além disso, existem muitas outras criptomoedas que ainda são menos consolidadas que o Bitcoin, o que pode abrir muitas novas frentes de investimentos futuros — estudos neste campo, portanto, se tornam cada vez mais urgentes e necessários”, alertam os pesquisadores.

Os resultados da pesquisa confirmam as expectativas observadas ao longo de 2020 que consideravam a transformação do Bitcoin em um investimento mainstream, que poderá ser buscado por uma variedade maior de investidores. Para os pesquisadores, isso sinaliza que o Bitcoin deixa de ser um ativo procurado apenas por um grupo de especuladores para se tornar uma opção de investimento para uma ampla gama de empresas e investidores do mercado financeiro.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].