Níveis globais de CO2 continuaram a aumentar apesar da pandemia

As emissões aumentaram para 419 partes por milhão em maio, a maior medida em 63 anos em que os dados foram registrados

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Uma usina termelétrica a carvão emite uma nuvem de fumaça em Independence, Missouri. Fotografia: Charlie Riedel / AP

Por Katharine Gammon para o “The Guardian”

Os dados são os seguintes: os níveis de dióxido de carbono na atmosfera atingiram 419 partes por milhão em maio. Os níveis atingiram agora a perigosa marca de serem 50% mais altos do que quando a era industrial começou – e a taxa média de aumento é mais rápida do que nunca.

O número é a medição mais alta do gás de efeito estufa crucial nos 63 anos que os dados foram registrados no Observatório de Linha de Base Atmosférica de Mauna Loa no Havaí – apesar da desaceleração nas viagens aéreas e na indústria durante uma pandemia global no ano passado.

A taxa média de aumento de 10 anos também estabeleceu um recorde, agora para 2,4 partes por milhão por ano.

Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), o motivo é complexo. As emissões globais caíram 6,4% em 2020, mas dada a variabilidade sazonal e natural, reduções modestas não teriam um grande impacto na contagem global de emissões de carbono. E mesmo com a queda das emissões, incêndios florestais queimando árvores liberaram dióxido de carbono – talvez até em uma taxa semelhante à redução modesta das emissões do impacto da pandemia na economia global.

“O botão de controle final sobre CO atmosférico 2 são as emissões de combustíveis fósseis”, geoquímico Ralph Keeling, cujo pai começou a coleta de dados no local do Mauna Loa, disse a NOAA . “Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para conter o aumento, pois a cada ano mais CO 2 se acumula na atmosfera. No final das contas, precisamos de cortes que são muito maiores e sustentados por mais tempo do que as paralisações relacionadas à Covid em 2020 ”.

Para cumprir as metas dos acordos climáticos de Paris – manter o aumento da temperatura em 1,5 ° C – o relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas conclui que os países precisam cortar suas emissões globais em 7,6% a cada ano durante a próxima década.

“Alcançar 50% mais dióxido de carbono do que o pré-industrial é realmente estabelecer um novo padrão, e não de uma maneira positiva”, disse a cientista climática da Universidade Cornell, Natalie Mahowald, que não fez parte da pesquisa.

“Se quisermos evitar as piores consequências das mudanças climáticas, precisamos trabalhar muito mais para reduzir as emissões de dióxido de carbono e imediatamente.”

O laboratório de Mauna Loa, que fica em um vulcão no meio do Oceano Pacífico, combina duas observações complementares para chegar ao valor importantíssimo do dióxido de carbono. O nível atual não existia na Terra desde o Plioceno, entre 4,1 milhões e 4,5 milhões de anos atrás – e os mares globais estavam 78 pés acima dos níveis atuais.

O aumento anual de 1,8 partes por milhão em maio foi ligeiramente menor do que nos anos anteriores, embora as medições mensais de 2021 mostrem que este ano pode estar mais próximo do aumento médio de 2,3 partes por milhão.

Os cientistas se concentram em maio como o mês com os maiores níveis de dióxido de carbono do ano, porque vem antes que as plantas e árvores no hemisfério norte comecem a sugar dióxido de carbono durante a estação de crescimento do verão. Então, no outono e inverno, as plantas e o solo liberam dióxido de carbono de volta para a atmosfera.

A Associated Press contribuiu para este relatório

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP confirma a existência de uma estratégia federal de disseminação da COVID-19 no Brasil

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Um estudo realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo em parceria com a Organização Não-Governamental Conectas Direitos Humanos até janeiro de 2021 e, desde então, com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, coletou as normas federais e estaduais relativas ao enfrentamento da pandemia da COVID-19 para avaliar o seu impacto sobre os direitos humanos no Brasil. A linha do tempo revela que foi implantada no âmbito do governo Bolsonaro uma estratégia de disseminação da  COVID-19 no Brasil.

O documento é composto de duas partes principais: o relatório, que apresenta a metodologia e a síntese dos resultados do estudo; e a linha do tempo, que apresenta a sistematização dos dados coletados.  O estudo teve por objetivo aferir a hipótese de que está em curso no Brasil uma estratégia de disseminação da Covid-19, promovida de forma sistemática em âmbito federal.  O estudo se baseia em pesquisa documental com dados de caráter público, realizada por equipe interdisciplinar com competências nas áreas de  Saúde Pública, Direito, Ciência Política e Epidemiologia, tendo como fontes normas federais, jurisprudência, discursos oficiais, manifestações públicas de autoridades federais e busca em plataformas digitais. A coleta de dados para fins específicos deste estudo compreendeu o período de 03/02/20 a 28/05/21, e buscou informações correspondentes a eventos (ações e omissões) que demonstram a presença de intencionalidade, aqui compreendida simplesmente como a confluência entre a consciência dos atos e omissões praticados, e a vontade de praticá-los.

A coleta resultou na identificação de três tipos de evidências:  a) atos normativos adotados na esfera da União, incluindo vetos presidenciais; b) atos de governo, que compreendem ações de obstrução de medidas de contenção da doença adotadas por governos estaduais e municipais, omissões relativas à gestão da pandemia no âmbito federal, e outros elementos que permitam compreender e contextualizar atos e omissões governamentais; e c) propaganda contra a saúde pública, aqui definida como o discurso político que mobiliza argumentos econômicos, ideológicos e morais, além de notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o propósito de desacreditar as autoridades sanitárias, enfraquecer a adesão popular a recomendações de saúde baseadas em evidências científicas, e promover o ativismo político contra as medidas de saúde pública necessárias para conter o avanço da COVID-19.

Os resultados do estudo apontam para uma confluência entre esferas normativa, de gestão e discursiva da resposta federal à pandemia, havendo coerência entre o que se diz e o que se faz. Os autores da pesquisa apontam que procede, portanto, a hipótese da existência de estratégia de disseminação da doença, por meio, em suma, dos seguintes atos e omissões:  

1) Defesa da tese da imunidade de rebanho (ou coletiva) por contágio (ou transmissão) como forma de resposta à Covid-19, disseminando a crença de que a “imunidade natural” decorrente da infecção pelo vírus protegeria os indivíduos e levaria ao controle da pandemia, além de estimativas infundadas do número de óbitos e da data de término da pandemia;

2) Incitação constante à exposição da população ao vírus e ao descumprimento de medidas sanitárias preventivas, baseada na negação da gravidade da doença, na apologia à coragem e na suposta existência de um “tratamento precoce” para a COVID-19, convertido em política pública;

3) Banalização das mortes e das sequelas causadas pela doença, omitindo-se em relação à proteção de familiares de vítimas e de sobreviventes, propalando a ideia de que faleceriam apenas pessoas idosas ou com comorbidades, ou pessoas que não tivessem acesso ao “tratamento precoce”

4)  Obstrução sistemática às medidas de contenção promovidas por governadores e prefeitos, justificada pela suposta oposição entre a proteção da saúde e a proteção da economia, que inclui a difusão da ideia de que medidas quarentenárias causam mais danos do que o vírus, e que elas é que causariam a fome e o desemprego, e não a pandemia;

5) Foco em medidas de assistência e abstenção de medidas de prevenção da doença, amiúde adotando medidas apenas quando provocadas por outras instituições, em especial o Congresso Nacional e o Poder Judiciário;

6) Ataques a críticos da resposta federal, à imprensa e ao jornalismo profissional, questionando sobretudo a dimensão da doença no país; e

7) Consciência da irregularidade de determinadas condutas.

Irresponsável e negacionista, Bolsonaro é contaminado pela Covid-19 |  Partido dos Trabalhadores

Os responsáveis pelo estudo apontam ainda que, embora não exaustiva, a linha do tempo seria suficiente para oferecer uma visão de conjunto de um processo vivido de forma fragmentada. Segundo eles, os resultados da pesquisa afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência da parte do governo federal na gestão da pandemia. Ao contrário, a sistematização de dados revela o empenho e a eficiência em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível, o que segundo o Tribunal de Contas da União, configura a  opção política do governo Bolsonaro de priorizar a proteção econômica..

Finalmente, os pesquisadores chamam a atenção a persistência do comportamento de autoridades federais brasileiras diante da vasta disseminação da doença no território nacional e do aumento vertiginoso do número de óbitos, embora instituições como o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal tenham apontado, inúmeras vezes, a inconformidade à ordem jurídica brasileira de condutas e de omissões conscientes e voluntárias de gestores federais, assim como o fizeram, incansavelmente, entidades científicas e do setor da saúde.

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

pesticide_viapixabay

Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Documento lançado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) aponta a relação dos agrotóxicos com o agravamento da COVID-19. Maior mercado consumidor mundial desses produtos, que tende a aumentar, o Brasil avança para chegar a meio milhão de mortos.

Trata-se do relatório Agronegócio e pandemia – uma sindemia está agravando a pandemia de covid-19?.

“Segundo os pesquisadores, os agrotóxicos têm efeitos no sistema imunológico e neurológico. E a covid-19 é uma doença sistêmica, o que pode agravar os quadros de infecção”, disse à repórter Girrana Rodrigues, da TVT, a médica Lia Giraldo, professora da pós-gradução em Saúde Pública no Instituto Aggeu Magalhães, em Pernambuco.

Sindemia dos agrotóxicos

Essa relação dos agrotóxicos com a covid-19, aliás, tem um nome ainda pouco conhecido: sindemia. É a interação sinérgica entre duas ou mais doenças que se desenvolvem simultaneamente em indivíduos de um dado grupo populacional marcado por condições socioeconômicas desfavoráveis, como populações indígenas, negras e de trabalhadores rurais pobres, afetando negativamente a evolução de cada uma dessas doenças.

“Quando relatórios nos mostram que a saúde da população está sendo prejudicada, que o sistema imunológico da população está sendo enfraquecido, que diversas dessas comorbidades agravam ainda mais os efeitos da covid-19 são causadas pelos agrotóxicos, a gente consegue reforçar e ter muito mais clareza de que a luta contra os agrotóxicos é necessária”, disse o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel.

 O estudo aponta ainda que o desflorestamento e a exploração de recursos naturais, acentuados nos dias atuais, podem causar outras pandemias tão graves como a COVID-19. “Desflorestar, que é o que o agronegócio faz, cria um ambiente propício a novos episódios dessas pandemias zoonóticas”, disse Lia Giraldo.

A saída é a agroecologia

Para reverter esse quadro, segundo os especialistas, a única saída é uma política pública que incentive a expansão da agroecologia.

“Nós temos por um lado o agronegócio, que desde os anos 1960 recebem incentivos estatais e até de fora do país para se estabelecer. E por outro lado o modelo da agroecologia, que vive lutando por parcos recursos aqui e ali. Quando a gente tiver, de fato, investimentos em política pública séria e focada na produção de alimentos agroecológicos, as barreiras técnicas deixam de existir”, disse Tygel.

Participaram do estudo do Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Abrasco a Rede Internacional para Eliminação dos Poluentes (International Pollutants Elimination Network – IPEN).

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

A farsa da cloroquina é desmontada na CPI da Covid-19

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Afora os eventuais excessos de retórica que se comete pela presença das câmeras de TV, a passagem da médica Nise Yamaguchi pela CPI da COVID-19 no Senador foi reveladora dos métodos pseudo-científicos que têm sido usados para desinformar a população brasileira acerca dos possíveis tratamentos e da própria natureza do agente causado da doença.

Abaixo posto um vídeo com parte da arguição realizada pelo senador Otto Alencar (PSD/BA) que demonstra que Nise Yamaguchi tem dificuldade de explicar as diferenças básicas entre a estrutura de um vírus e de um protozoário, quanto mais apontar medidas básicas para a indicação de remédios que possam curar doenças causadas por um e outro.

Toda a gritaria que está sendo feita hoje nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro sobre o tratamento recebido por Nise Yamaguchi na sua arguição apenas é uma tática para esconder que a defesa do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina que ela fez não possui qualquer base científica.  Aliás, é preciso dizer que se a arguição de ontem fosse de uma banca acadêmica, Nise Yamaguchi teria sido reprovada, tal a falta de conhecimento que ela demonstrou sobre a matéria que estava sendo examinada.

Finalmente, há que se lembrar que Nise Yamaguchi não está sozinha na defesa de remédios ineficazes contra a COVID-19, pois o Conselho Federal de Medicina (CFM) tem sido um dos fiadores do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no susposto e inviável tratamento precoce da COVID-19.

The Guardian noticia o #29 de Maio e informa que dezenas de milhares foram às ruas pedir o impeachment de Jair Bolsonaro

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Manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro no sábado. Quase 500.000 brasileiros morreram com coronavírus. Fotografia: Bruna Prado / AP

Por Tom Phillips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas das maiores cidades do Brasil para exigir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por sua resposta catastrófica a uma pandemia de coronavírus que ceifou quase meio milhão de vidas de brasileiros.

Os manifestantes compareceram em mais de 200 cidades e vilas para aquela que é a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início do surto de COVID-19 no Brasil

“Hoje é um marco decisivo na batalha para derrotar a administração genocida de Bolsonaro”, disse Silvia de Mendonça, 55, uma ativista de direitos civis do Movimento Negro Unificado do Brasil, enquanto liderava uma coluna de manifestantes pelo dilapidado centro da cidade do Rio.

Osvaldo Bazani da Silva, um cabeleireiro de 48 anos que perdeu o irmão mais novo para a COVID-19 , disse: “Não podemos perder mais vidas de brasileiros. Precisamos ir às ruas todos os dias até que este governo caia. ” 

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado.

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

No Rio, muitos manifestantes carregavam cartazes caseiros lembrando seus entes queridos que perderam em uma epidemia que matou quase 460.000 brasileiros, o segundo maior número oficial de mortos depois dos Estados Unidos. “Estou aqui em sua memória”, disse Luiz Dantas, 18, segurando uma fotografia do avô, Sebastião, falecido em fevereiro aos 75 anos.

“O culpado tem um primeiro e um segundo nome”, afirmou Dantas, referindo-se ao presidente de extrema direita de seu país, que repetidamente banalizou o coronavírus como uma “pequena gripe” e sabotou esforços de contenção, como distanciamento social ou bloqueio.

“Eu quero justiça”, acrescentou o adolescente, derramando lágrimas enquanto falava.

Irene Grether, uma psicanalista de 69 anos que também estava na manifestação, disse que dois parentes morreram como resultado da inação de seu governo. “Este governo é mais perigoso do que o vírus”, disse ela, enquanto milhares de manifestantes se reuniam perto de uma estátua em memória do líder da resistência antiescravista Zumbi dos Palmares.

Manifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi no Rio de JaneiroManifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi, no Rio de Janeiro, no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

A sobrinha de Grether, uma economista de 46 anos chamada Ana Paula Carvalho, disse acreditar que Bolsonaro deveria ser levado ao tribunal penal internacional de Haia “por crimes contra o povo brasileiro”. “Ele promove a morte e a destruição”, disse ela. “O Bolsonaro é uma tragédia brasileira.”

Bolsonaro defendeu sua resposta à pandemia, alegando que sua oposição obstinada ao bloqueio visa projetar a subsistência e empregos brasileiros. Mas Carvalho disse que ao permitir a propagação descontrolada do vírus – e ao não adquirir vacinas suficientes – Bolsonaro destruiu a economia, assim como vidas. “Hoje o povo brasileiro pode escolher entre morrer de vírus ou de fome”, disse ela.

As manifestações de sábado – que também ocorreram nas principais cidades, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Recife e a capital Brasília, bem como em dezenas de cidades menores – vêm com Bolsonaro em sua pior fase desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019.

As pesquisas sugerem uma raiva crescente com a forma como o populista de direita está lidando com Covid, com 57% da população agora apoiando seu impeachment . Um inquérito do Congresso está atualmente dissecando a calamitosa resposta de Bolsonaro à crise de saúde pública, com revelações prejudiciais sobre a conduta de seu governo sendo transmitidas todas as noites no noticiário.

Bolsonaro parece particularmente abalado com o ressurgimento de seu rival político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente de esquerda que parece prestes a desafiá-lo à presidência na eleição do próximo ano. Em entrevista recente ao “The Guardian”, Lula , cujos direitos políticos foram recentemente restaurados, disse que não tinha dúvidas de que o povo brasileiro se “libertaria” de Bolsonaro em 2022. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, disse Lula sobre a reação de Bolsonaro para a COVID-19.

Roberto Anderson, professor universitário e ambientalista de 67 anos que estava na marcha de sábado, disse que se sentiu encorajado pela grande participação que sugeria que a maré finalmente estava se voltando contra o líder de direita radical do Brasil.

“As pessoas estão acordando. Muitas pessoas que votaram em Bolsonaro estão vacilando … e os políticos que o apóiam ainda são oportunistas – no momento em que virem as pessoas se organizando, também mudarão de lado ”, afirmou Anderson.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Capital e corpo

A pandemia da COVID-19 joga o trabalho humano para trás na competição com as máquinas

mother babyA compatibilidade da vida e do trabalho no escritório doméstico. Foto: pixabay.com

Por Stephan Kaufmann para o “Neues Deutschland”

As pessoas “, escreveu Kurt Tucholsky 90 anos atrás,” têm duas paixões além do desejo de se reproduzir e de comer e beber: fazer barulho e não ouvir “- em resumo: irritar os outros. Por mais verdadeiro que isso seja, também é verdade que as pessoas não podem viver sem as outras. A proximidade física é importante, até o toque, o que o “Dia Mundial do Carinho” anual em 21 de janeiro deve nos lembrar. O capitalismo também precisa de contato entre as pessoas em sua função de trabalhadores, como compradores e vendedores. Se você separá-los, ficará caro: De acordo com o instituto IW, que é próximo ao empregador, o “bloqueio”, ou seja, a separação do corpo humano para proteção contra a COVID-19, tem custado caro para a economia alemã até agora.

A história do capital é a história de suas tentativas de usar a natureza e ao mesmo tempo de se libertar de seus imponderáveis. Isso nunca dá muito certo – as mudanças climáticas e a pandemia são um doloroso lembrete ao capitalismo financeiro digitalizado de como ele é dependente de condições arcaicas como a concentração de CO2 e os corpos humanos. Este último, em particular, incomoda o sistema: as pessoas nascem pequenas e desamparadas, têm que crescer em paz, adoecer, precisam de pausas e recuperação até que finalmente apodreçam e morram. Não se encaixa em uma economia que não tem começo nem fim e odeia quebras.

A funcionalidade limitada do corpo humano traz enormes custos para a economia capitalista, mesmo em tempos livres de pandemia. Os bebês querem nascer e as crianças querem ser criadas. A vida e o trabalho adoecem as pessoas, o que significa um triplo golpe para as pessoas sem seguro afetadas: têm maiores custos com o tratamento, sofrem fisicamente e perdem a renda com o trabalho – o capital não paga as pessoas, mas apenas os trabalhadores. Por esse motivo, os países mais ricos introduziram fundos de seguridade social nos quais a classe de assalariados economiza compulsoriamente para os períodos de desemprego, ou seja, trabalha com antecedência.

Mesmo os corpos antigos não podem mais servir ao crescimento econômico, mas ainda querem sobreviver, que o seguro de pensão paga a 325 bilhões de euros anuais. Muitas vezes, isso não é suficiente, e é por isso que a previdência privada tem de intervir – as seguradoras ficam felizes em assumir o “risco de longevidade” individual. Além dos gastos sociais do Estado, há quase 300 bilhões de euros em seguros de saúde e de longa permanência. Todas essas somas representam custos salariais para o capital que atrapalham sua competitividade. Um corpo competitivo está sempre pronto para a ação e resiliente, o que estabelece a base econômica para a tendência de auto-otimização e para a mania juvenil prevalecente.

Não apenas os idosos e doentes, mas também o corpo funcional devem ser protegidos – em tempos normais, não de pandemias, mas das demandas das empresas. As fases de trabalho e recuperação são, portanto, estritamente prescritas. “O trabalho deve ser interrompido por um período de descanso predeterminado de pelo menos 30 minutos para horas de trabalho de mais de seis a nove horas e 45 minutos para horas de trabalho de mais de nove horas”, a Lei de Horas de Trabalho exige antes de regulamentar as exceções . Os regulamentos do local de trabalho estipulam a quanto espaço o corpo de um trabalhador de escritório plano aberto tem direito (12 a 15 metros quadrados), como ele pode ficar de pé, andar, sentar, quanto ar fresco, luz e calor ele pode usar e quanto ruído ele tem que suportar. Tudo isso é constantemente discutido, porque a luz,

O corpo humano não termina na superfície da pele, vai além disso: Há alguns meses, uma distância de 1,5 metro é a distância necessária que as pessoas têm que manter e que torna a pandemia da COVID-19 cara. Formulações como “Lockdown custou à economia 250 bilhões de euros até agora” mostram, portanto, que a proteção e o cuidado com o corpo no sistema vigente não fazem parte da economia, mas se opõem a ela, porque ela custa. E os custos são ruins, você sabe disso. A reprodução do capital e a do corpo não formam uma unidade, nem a reprodução do capital está subordinada à do corpo. Ambos se opõem, como interesses com igualdade de direitos, daí a questão permanente: Quanto vale um ano saudável? Quanto pode custar uma pessoa?

O capital precisa de pessoas para ter lucro, ao mesmo tempo que eles trazem custos dos quais ele quer se livrar. A saída para essa contradição é conhecida como “racionalização”. Quanto mais cara a manutenção da carroceria, mais atraente se torna para as empresas substituí-la por uma máquina que funcione ininterruptamente, não faça greve e faça exigências muito previsíveis nos cálculos do negócio. Nessa competição com as máquinas, a pandemia da COVID-19 joga os trabalhadores humanos para trás, porque eles perdem uma vantagem de custo em relação às máquinas. A racionalização permanente da produção de bens de capital funciona na mesma direção, tornando as máquinas mais baratas e eficientes.

O resultado da pandemia, prevê o think tank norte-americano Brookings Institute, será, portanto, um salto na “digitalização”. Em vista do aumento dos riscos à saúde, as empresas estão cada vez mais substituindo os trabalhadores por robôs. “Milhões de empregos estão ameaçados.” Em 2020, uma em cada cinco empresas na Alemanha com mais de dez funcionários no setor de manufatura usava robôs industriais ou de serviço.
Uma empresa de investimentos dos Estados Unidos comparou recentemente os preços das ações de empresas que têm um número relativamente grande de funcionários em relação às suas vendas com aquelas que trabalham relativamente poucos. Aqueles com pequeno número de funcionários tiveram um desempenho significativamente melhor. A conclusão do estudo: “Parece que teremos tempos ruins para as pessoas”.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui! ]. 

O passo descompassado de Wladimir Garotinho na relação com os servidores municipais

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Há algo de muito estranho acontecendo no interior do governo do jovem prefeito Wladimir Garotinho quando se trata de definir as relações com os servidores públicos municipais, com base no que se gasta para fazer a máquina pública funcionar. É que bastou que bastou uma notificação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) no sentido de que teria  sido ultrapassado o limite de gastos com pessoal que Wladimir já se serviu de suas redes sociais para lançar a semente de que terá de cortar na carne (dos servidores, é claro) para que haja um suposto retorno aos limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

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A menção de que irá se reunir com os sindicatos para buscar “caminhos possíveis e soluções práticas” parece, em superfície, uma sinalização de que, na iminência de baixar o porrete nos mais fracos, Wladimir decidiu que é preciso conversar para que a cabeça dos que irão ser sacrificados esteja na posição certa. 

O fato é que se houvesse realmente interesse em estancar pontos indevidos de sangria, um primeiro lugar que deveria ser avaliado é a Câmara de Vereadores onde, segundo reportagens publicadas pelo Portal Viu, a gastança anda desenfreada, e com um número de cargos comissionados que não deixa de fora nem familiares (ainda que por laços de casamento) do próprio prefeito.

Assim, se é para começar baixar os gastos com a folha de pessoal que se examine primeiro situações em que as indicações políticas para cargos comissionados que nada contribuem para o funcionamento da máquina municipal. É que sinalizar que vai a prioridade é mexer com o pessoal da saúde, em meio à antessala de uma terceira onda ainda mais mortal da COVID-19, é, antes de qualquer coisa, de péssimo gosto em termos da desmoralização de profissionais que passaram quatro anos comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais.

Apesar do foco deste blog não ser o governo municipal, tenho que lamentar que as mesmas fórmulas de encurtamento de direitos que são ensejadas pelas políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro pareçam ser as preferidas pelo governo Wladimir. É que mais do que nunca, haveria que se prestigiar quem efetivamente trabalha em vez de se ameaçar com a retirada de direitos.

Finalmente, que os sindicatos que representam os servidores municipais façam o que se espera deles em termos de defender de forma obstinada os direitos que estão agora sob ameaça.

População não vacinada registra aumento no número de óbitos em Campos dos Goytacazes

Óbitos de pessoas mais jovens e que ainda não receberam imunização foram as únicas faixas etárias que registraram crescimento absoluto e percentual superior a 30% no número de mortes no mês de abril em relação à média no período da pandemia

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O aumento percentual de mais de 30% no número de óbitos por COVID-19 de pessoas mais jovens, na faixa etária entre 30 e 69 anos e, queda, na faixa dos 70 aos 79 anos, contabilizados pelos Cartórios de Registro Civil de Campos dos Goytacazes no mês de abril, o pior desde o início da pandemia na cidade, são claros em apontar que a vacinação em massa de sua população é o melhor caminho para a crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus.

Ainda aguardando o cronograma de vacinação para suas idades em Campos dos Goytacazes, a população mais jovem viu crescer os números absolutos e percentuais de óbitos no último mês, mesmo quando comparados a março deste ano, o mês que registrou o maior número de mortes causadas pelo novo coronavírus no País, e também em relação à média de mortes de sua faixa etária desde o início da pandemia.

Os dados constam no Portal da Transparência do Registro Civil (http://transparencia.registrocivil.org.br/inicio), base de dados abastecida em tempo real pelos atos de nascimentos, casamentos e óbitos praticados pelos Cartórios de Registro Civil do País, administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), cruzados com os dados históricos do estudo Estatísticas do Registro Civil, promovido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos dados dos próprios cartórios brasileiros.

Na cidade de Campos dos Goytacazes, a faixa etária que registrou o maior percentual de aumento em relação à média desde o início da pandemia foi a da população entre 50 e 59 anos, com crescimento de 34% no número de óbitos em abril na comparação com o período que vai de março de 2020 a março de 2021. Os números absolutos de falecimentos desta faixa etária também aumentaram em abril, passando de 19 em março para 57 no último mês. Na sequência, a população com faixa etária entre 40 e 49 anos e 60 e 69 anos registrou aumento percentual de 28% nos óbitos por COVID-19, vendo os números absolutos saírem de 11 para 22 e 28 para 82 respectivamente.

Já a faixa etária que vai dos 30 aos 39 anos viu o aumento do número de óbitos crescer 19% em relação à média para esta faixa etária desde o início da pandemia. O crescimento também se deu nos números absolutos em relação a março, passando de 4 para 10.

Nas demais faixas etárias, já vacinadas, o número de óbitos caiu em relação à média desde o início da pandemia, reduzindo 13% na faixa entre 70 e 79 anos, 33% entre 80 e 89 anos, anos e 35% na faixa entre 90 e 99 anos.

Ranking Estadual

Os números do Estado do Rio de Janeiro estão à frente da média nacional em quase todas as faixas etárias. Entre a população da faixa etária de 20 a 29 anos, o crescimento percentual fluminense foi de 69%, enquanto no País foi de 38%. Na faixa que vai dos 30 aos 39, o Rio de Janeiro viu os óbitos crescerem 59%, enquanto o Brasil registrou aumento de 56%, cenário que se repetiu na faixa de 40 a 49 anos, 66% x 57%. Já na faixa etária de 50 a 59 anos, o Estado teve o mesmo crescimento percentual nacional, de 54%, estando abaixo do patamar do Brasil na população com idade de 60 a 69 anos, 21% a 22%.

Sobre a Arpen/RJ

A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado do Rio de Janeiro (Arpen/RJ) representa os 179 cartórios de registro civil, que atendem a população em todos os 92 municípios do Estado, além de estarem presentes em todos os distritos e subdistritos, realizando os principais atos da vida civil de uma pessoa: o registro de nascimento, casamento e óbito.

Fonte: Assessoria de Imprensa da Arpen Rio de Janeiro

Por que líderes autoritários estão perdendo a luta contra a COVID-19

Uma grande lição da crise de Covid: mentir torna tudo pior

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Por Robert Reich para a Nation of Change

Um hospital em Uttar Pradesh, o estado mais populoso da Índia, está sendo acusado de acordo com a Lei de Segurança Nacional do país por soar o alarme sobre a falta de oxigênio que resultou na morte por COVID-19. O proprietário e gerente do hospital disse que  a polícia o acusou de “falsa disseminação do medo”,  depois que ele declarou publicamente que quatro de seus pacientes morreram em um único dia quando o oxigênio acabou.

Desde que a COVID-19 explodiu na Índia, o primeiro-ministro, Narendra Modi, parece mais decidido a controlar as notícias do que o surto. Na quarta-feira, a Índia registrou quase 363.000 casos de COVID-19 e 4.120 mortes, cerca de 30%o das mortes em todo o mundo naquele dia. Mas os especialistas dizem que a Índia está subestimando o número verdadeiro. Ashish Jha, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, estima que pelo menos  25.000 índiANOS morrem de COVID-19 a cada dia.

O horror foi agravado pela falta de oxigênio e leitos hospitalares. No entanto, Modi e seu governo não querem que o público saiba a história verdadeira.

Uma grande lição da crise de COVID-19: mentir torna tudo pior.

Vladimir Putin nega ativamente a verdade sobre a COVID-19 na Rússia. O demógrafo Alexei Raksha, que trabalhava na agência estatística oficial da Rússia, Rosstat, mas diz que foi forçado a sair no verão passado por contar a verdade sobre aCOVID-19, afirma que  os dados diários na Rússia foram “suavizados, arredondados, reduzidos” para parecerem melhores.  Como muitos especialistas, ele usa o excesso de mortalidade – o número de mortes durante a pandemia sobre o número típico de mortes – como o melhor indicador.

“Se a Rússia parar com 500.000 mortes a mais, esse será um bom cenário”, calcula ele  .

A Rússia foi a primeira a lançar a vacina contra a COVID-19, mas ficou terrivelmente para trás nas vacinações. Pesquisas recentes indicam que a proporção de russos que não querem ser vacinados é de  60% a 70% . Isso porque Putin e outros funcionários se concentraram menos em vacinar o público do que em reivindicar o sucesso em conter a COVID-19.

Os EUA estão sofrendo de um problema semelhante – o legado de outro homem forte, Donald Trump. Embora mais da metade dos adultos norte-americanos tenham recebido pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, mais de 40% dos republicanos   disseram sistematicamente aos pesquisadores que não seriam vacinados. Sua recalcitrância está  ameaçando os esforços para alcançar a “imunidade de rebanho”  e prevenir a disseminação do vírus.

Como Modi e Putin, Trump minimizou a gravidade da pandemia e espalhou desinformação sobre ela. Funcionários de Trump ordenaram que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças  minimizassem sua gravidade . Ele se recusou a ser vacinado publicamente e estava visivelmente ausente de um  anúncio de serviço público  sobre a vacinação que apresentava todos os outros ex-presidentes vivos.

Os aliados de Trump na mídia realizaram uma campanha de terror sobre as vacinas. Em dezembro,  Laura Ingraham postou uma história do Daily Mail no Facebook com o   objetivo de mostrar evidências de que os partidários do partido comunista chinês trabalhavam em empresas farmacêuticas que desenvolveram a vacina contra o coronavírus.

Em meados de abril, o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, opinou que, se a vacina fosse realmente eficaz, não haveria razão para as pessoas que a receberam usarem máscaras ou evitarem o contato físico.

“Então  talvez não funcione, e eles simplesmente não estão lhe dizendo isso. ”

Por que então alguém deveria se surpreender com a relutância dos republicanos de Trump em se vacinar? Uma análise recente do  New York Times  mostrou que as taxas de vacinação são mais baixas em condados onde a maioria votou em Trump em 2020. Os estados que votaram mais fortemente em Trump também são  estados onde percentagens mais baixas  da população foram vacinadas.

O pesquisador republicano Frank Luntz afirma que   Trump é responsável  pela hesitação dos eleitores republicanos em serem vacinados.

“Ele quer receber o crédito pelo desenvolvimento da vacina. Então ele também recebe a culpa por tão poucos de seus eleitores aceitarem. ”

O Partido Republicano de Trump está começando a se assemelhar a regimes autoritários ao redor do mundo em outros aspectos também – expurgando contadores da verdade e transportando mentiras, desinformação e propaganda prejudicial ao público.

Na semana passada, o Partido Republicano despojou a deputada Liz Cheney de sua posição de liderança por dizer a verdade sobre as eleições de 2020. Na audiência do Congresso da semana passada sobre o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, um congressista republicano, Andrew Clyde, até negou que tenha acontecido.

“Não houve insurreição”, disse ele. “Chamar isso de insurreição é uma mentira ousada … você realmente pensaria que foi uma visita de turista normal.”

Biden diz que planeja convocar uma cúpula de governos democráticos para conter o aumento do autoritarismo em todo o mundo. Espero que ele fale sobre sua ascensão nos Estados Unidos também – e o enorme preço que já cobrou dos americanos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Nation of Change [Aqui!].

Yanomami são assolados por violentas invasões de terras, fome e doenças no Brasil

Povos indígenas  estão submersos em uma crise humanitária enquanto Bolsonaro incentiva mineiros selvagens com projetos em seus territórios na floresta tropical

child 0Os Yanomami usam máscara facial enquanto participam de uma brigada de saúde do exército brasileiro no município de Alto Alegre, estado de Roraima, em junho passado. Fotografia: Joédson Alves / EPA

Por Flávia Milhorance para o “The Guardian”

Uma fotografia de uma garota Yanomami emaciada, aninhada apática em uma rede ao lado de uma panela vazia sobre o fogo apagado. Imagens trêmulas de indígenas gritando enquanto fogem em pânico ao som de tiros.

Imagens chocantes compartilhadas nas redes sociais brasileiras nesta semana destacaram uma espiral de violência, desnutrição e doenças que ameaçam devastar o povo Yanomami e seu território ancestral no estado amazônico de Roraima.

“Os Yanomami estão enfrentando uma crise humanitária, tão crítica quanto no final dos anos 1980, quando o território foi invadido por 40 mil garimpeiros ilegais”, disse a antropóloga Ana Maria Machado, integrante da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana .

Cerca de 27.000 Yanomami vivem na reserva, que tem o tamanho de Portugal. Mas, nos últimos anos, o território sofreu uma nova invasão por cerca de 20.000 garimpeiros – conhecidos como garimpeiros. No ano passado, o afluxo causou um aumento de 30% na mineração ilegal dentro do território, além de trazer doenças infecciosas.

Nos últimos cinco anos, houve um aumento de quase 500% nos casos de malária na reserva, enquanto nos primeiros oito meses de 2020, quase 14.000 novos casos e nove mortes pela doença foram relatados .

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Uma menina Yanomami emaciada na aldeia Maimasi, estado de Roraima, libertada por um missionário católico. Fotografia: Folhapress

A pandemia de coronavírus só piorou a situação: dados do governo dizem que mais de 1.640 Yanomami contraíram COVID-19 e 13 pessoas morreram, embora os líderes indígenas digam que o número real é maior. Até o momento, 60% dos Yanomami já foram vacinados, segundo um conselho indígena.

“A mineração ilegal descontrolada, o descaso com a saúde indígena e as epidemias de malária e coronavírus criaram tensões que crescem como uma panela de pressão prestes a explodir”, disse Machado.

“Estamos enfrentando muitas dificuldades: faltam profissionais, medicamentos como a cloroquina para tratar a malária e equipamentos”, disse Júnior Hekurari Yanomami, chefe do Condisi-YY, conselho indígena de saúde.

Hekurari disse que os líderes tribais apelaram repetidamente às autoridades federais sobre as invasões de terras e a crise de saúde.

“Não temos apoio do governo federal”, disse ele. “Mas o governo tem feito de tudo para atrapalhar a saúde indígena desde 2019.”

Foi nesse ano que Jair Bolsonaro assumiu o cargo e as tensões entre grileiros, garimpeiros e indígenas aumentaram constantemente desde o início de seu governo.

Bolsonaro apoiou a legislação para abrir áreas indígenas protegidas à mineração e isso transferiria a propriedade de grandes extensões de terra para posseiros ilegais. Ele também encorajou mineiros, madeireiros e grileiros ao enfraquecer a Funai, o órgão federal encarregado de proteger a população indígena do Brasil, e alegar repetidamente que os territórios indígenas são “grandes demais”.

“O Bolsonaro dá luz verde a todos os tipos de ilegalidade nas reservas”, disse Machado.

O recente surto de violência aconteceu depois que indígenas impediram que mineiros usassem o rio Uraricoera para chegar a um de seus acampamentos. Em retaliação, os garimpeiros realizaram uma série de ataques a aldeias isoladas, onde trocaram tiros com os Yanomami.

Três garimpeiros morreram e cinco pessoas, incluindo um indígena, ficaram feridas no ataque de 24 de abril à aldeia de Palimiú, disse Hekurari, que visitou o território logo em seguida.

Em uma segunda visita à aldeia, Hekurari foi acompanhado pela Polícia Federal, que também trocou tiros com homens fortemente armados vestidos de preto. Não houve vítimas dessa vez, mas os sinais de violência estavam por toda parte, disse ele. “Vimos buracos de bala em todos os lugares, na escola, nas casas. Foi muito sério. ”

child 2Integrantes da etnia Yanomami aguardam testes do Covid-19 na terra indígena Surucucu, em Alto Alegre, no estado de Roraima, em julho passado. Fotografia: Nelson Almeida / AFP / Getty Images

A Polícia Federal de Roraima não respondeu a um pedido de comentários e a Funai disse que ainda está investigando os incidentes.

Na quinta-feira, tropas e policiais foram enviados a Palimiú para evitar novos confrontos, mas a violência já obrigou uma equipe do ministério da saúde a deixar a aldeia.

A pandemia agravou a insegurança alimentar em todo o Brasil, mas principalmente nas comunidades indígenas, onde a desnutrição já era um problema sério. Oito em cada 10 crianças Yanomami estão desnutridas, de acordo com um estudo do Unicef .

Depois que a imagem da garota Yanomami faminta se tornou viral, ela foi internada em um hospital público em Boa Vista, onde foi tratada de malária e desnutrição.

Mas, Carlo Zacquini, um missionário católico que divulgou a foto, disse que a região onde mora carece de cuidados básicos de saúde. “Existem aldeias longe das unidades de saúde que estão sem cuidados há meses, às vezes anos”, disse ele.

Zacquini, que trabalha com os Yanomami desde os anos 1960, não revelou o autor da foto, por temer represálias das autoridades.

“Liberar a foto traz riscos, mas era mais do que hora de fazer algo”, disse o homem de 84 anos.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].