Nada mais emblemático: enquanto o Rio Paraopeba está morto, minério segue saindo de Brumadinho

Uma das principais, e talvez mais significativas, lições do que aconteceu em Mariana em 2015 quando eclodiu o Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP) foi a necessidade de que pesquisadores e ativistas de movimentos sociais saíssem do seu isolamento relativo em relação a cada um e partissem para construir uma rede de cooperção que pudesse documentar o que estava lá acontecendo.

Aquele processo de cooperação inicial causado pelo Tsulama da Samarco gerou um processo de rápida documentação do que está se passando agora na região de Brumadinho. A verdade é que há um esforço gigantesco para furar o bloqueio imposto pela Vale, com apoio dos governos do estado e federal, para impedir que se documente o que está acontecendo na área que já foi atingida pelos rejeitos que vazaram do complexo de barragens da Mina do Córrego do Feijão. E o bom é que este esforço está gerando uma vasta documentação visual, bem como de coleta de material (água e sedimentos) que servirão como importantes ferramentas para exigir da Vale que cumpra com suas obrigações civis e criminais que sua ganância corporativa causou em Mariana e Brumadinho.

Um dos vídeos mais reveladores a que tive acesso até agora mostra não só como o Rio Paraopeba e seus afluentes estão sendo duramente impactados pelo rejeito tóxico da Vale, mas como, apesar disso, o processo de circulação do minério de ferro extraído naquela região continua ocorrendo, como se nada de anormal estivesse ocorrendo. Este vídeo produzido por uma pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é a síntese de como os interesses das corporações estão apartados das populações e do ambiente que são impactados pelas atividades de mineração.

A boa nova é que há uma clara mobilização em curso em Minas Gerais no sentido de não deixar mais esse Tsulama causado pela Vale passar em brancas nuvens.  Essa mobilização está envolvendo não apenas ativistas ambientais e pesquisadores, mas também (e principalmente) a população em geral que, justificadamente, se sente na condição de ser a “próxima vítima” das mineradoras.

Apoiar essa mobilização será fundamental para que finalmente se faça um levantamento sério da condição das centenas de barragens que as mineradoras possuem no território de Minas Gerais e, mais importante ainda, que se estabeleça um plano estadual para desativar as várias mega represas que possuem capacidade de destruir regiões inteiras, levando junto uma parte importante da história colonial brasileira e a população que vive nas cidades que correm hoje um risco claro e iminente.