Ausente da abertura da COP26, Jair Bolsonaro consolida condição de pária internacional do Brasil

principe charlesO Príncipe Charles, herdeiro do trono do Reino Unido, falando na abertura da COP26 em Glasgow, capital da Escócia

Começou hoje em Glasgow a 26a. edição da Conferência para Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) com os discursos iniciais dos líderes de governo ali presentes enfatizando a situação crítica em que se encontra o planeta em função das chamadas “mudanças climáticas” (ver vídeo abaixo).

Uma voz que não foi ouvida nessa cerimônia de abertura foi a do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que resolveu fugir das suas responsabilidades sob a alegação pífia de que somente críticas o esperariam na capital escocesa.

Ainda que isto seja verdade, o que além de tudo seria merecido visto o papel desastroso do governo Bolsonaro no agravamento das emissões de gases estufa pelo Brasil, fugir dessa conferência não é, nem de perto, uma opção que um líder minimamente preocupado com o seu país deveria ou poderia adotar. Aliás, dentre os governantes que não estão incapacitados, pelas razões que sejam de estarem em Glasgow para participar da COP26, Jair Bolsonaro é provavelmente o único que optou por não estar lá por vontade própria..

Essa fuga de Glasgow é apenas o corolário de uma trajetória para colocar o Brasil em uma posição de destaque como pária nos debates sobre os esforços para providenciar respostas articuladas para os desafios criados pela crise climática. Essa posição pode até agradar aos frequentadores do “cercadinho” do presidente Bolsonaro em Brasília, mas certamente trará graves dificuldades para os interesses estratégicos do Brasil, inclusive na área comercial.

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Protestos antes do início da COP26, em Glasgow, na Escócia / Foto: Ian Forsyth/Getty Images (30.out.2021)

Sobre todos os ângulos, a decisão de fugir da COP26 é um verdadeiro tiro no pé que está sendo dado por Jair Bolsonaro e seu grupo de ministros negacionistas. Deixar os interesses do Brasil a uma delegação composta por verdadeiros desconhecidos (alguém sabe o nome do atual ministro do Meio Ambiente) e por um vice-presidente general que é completamente ignorado pelo presidente capitão trará consequências desastrosas. E isso deverá ficar evidente mais cedo do que tarde. Isso virá porque Jair Bolsonaro conseguiu efetivamente transformar o Brasil em um pária. Simples assim!

No “Dia da Terra”, um Brasil mais pária do que nunca

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O presidente Jair Bolsonaro e o ex-chanceler Ernesto Araújo, dois dos grandes artífices do “Brasil pária”. Sergio LIMA / AFP)

No dia em que se teoricamente é celebrado o “Dia da Terra”, o Brasil se encontra em uma condição que provavelmente será celebrada efusivamente pelo ex-chanceler olavo-bolsonarista Ernesto Araújo que dava de ombros para as crescentes evidências de que o nosso país estava se transformando em uma espécie de pária internacional, um leproso da comunidade das Nações. Araújo considerava esse situação uma espécie de sinalização da volta triunfal de São Sebastião que Antonio Conselheiro, barbudo como ele, sonhava seria a redenção dos brasileiros.
A condição de pária se espalhou e o Brasil é visto hoje como um país que realiza um dos piores, senão o pior, enfrentamentos da pandemia da COVID-19, deixando seu povo à mercê de um vírus letal que rapidamente torna as filas dos cemitérios em graves congestionamentos. Mas não no Brasil de Bolsonaro não tem bastado deixar morrer, pois também existem evidências de que os doentes estão sendo deixadas em condições dramáticas sem sequer existirem os medicamentos necessários para anestesiá-los para enfrentar o doloroso procedimento da intubação.
Entretanto, a pandemia da COVID-19 é apenas uma gota nesse oceano de iniquidades em que o Brasil está afogado que reforça a nossa condição de pária. A destruição dos mecanismos de comando e controle e o aumento desenfreado da destruição ambiental e dos ataques aos povos indígenas servem como um poderoso argumento de que em negociações estratégicas acerca do futuro da economia global, o governo brasileiro é colocado nos últimos postos de prioridade sobre os que têm algo a dizer.
As recentes tentativas do governo Bolsonaro de chantagear o presidente dos EUA, o democrata Joe Biden, a liberar bilhões para que o Brasil cumpra suas obrigações em termos da proteção da Amazônia e dos povos indígenas serviu apenas para estraçalhar o pouco de reputação diplomática que ainda se tinha após a desastrosa passagem de Ernesto Araújo pela chancelaria brasileira. O resultado disso é que na Cúpula Climática organizada pelo governo dos EUA, não estaremos entre os primeiros, sequer os principais, palestrantes do evento.

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O presidente Jair Bolsonaro falando hoje (22/04) na Cúpula Climática organizada pelo governo dos EUA, com o assento do presidente Biden vazio já que ele se ausentou minutos antes da manifesta~çao do líder brasileiro
Mas também não nos esqueçamos dos últimos alertas dados por Rússia e China sobre o excesso de agrotóxicos na soja e da persistente presença de coronavírus nas exportações de carne. É muito provável que estejamos diante da certeza da impunidade e de uma suposta condição de insubstituibilidade brasileira na oferta dessas commodities agrícolas. Esse é apenas mais um erro grotesco de um grupo de governantes, que além de se guiar por formas estreitas de entender o mundo também não possuem o menor entendimento de como as relações internacionais realmente operam.
As recentes sinalizações de impaciência por parte dos capitalistas brasileiros que pedem um mínimo de sentido nas ações do governo Bolsonaro são outra sinalização de que a condição de pária já assombra até quem investiu pesado na eleição do atual presidente. Entretanto, essa impaciência só levará a fatos concretos se da crescente condição de pária internacional desfrutada pelo país resultarem perdas econômicas. Enquanto isso, na ausência de uma oposição política substancial, o Brasil continuará afundando no pântano que essas mesmas elites nos colocaram.