Brasil perde Alfredo Sirkis, o Descarbonário

Escritor, que acabara de lançar seu 10º livro, morreu em acidente no RJ

sirkis

O Brasil perdeu hoje um de seus mais experientes e aguerridos ativistas pela preservação do meio ambiente. Fundador do Partido Verde, o ex-deputado Alfredo Sirkis, 69 anos, não sobreviveu a um acidente no Arco Metropolitano, na altura de Nova Iguaçu. Ele dirigia, sozinho no carro, para a Região Serrana a fim de visitar a mãe e um dos filhos em Petrópolis. No último dia 25 de junho, Sirkis lançou o livro “Descarbonário”, uma obra com características autobiográficas concluída 40 anos depois do clássico “Os Carbonários”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1981.

Jornalista, escritor, roteirista de TV e cinema, gestor ambiental e urbanístico e ex-parlamentar, Sirkis era o diretor executivo do Centro Brasil no Clima (CBC). Entre outubro de 2016 e maio de 2019 foi coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), no qual organizou a campanha Ratifica Já!, que propiciou a ratificação, pelo Brasil, do Acordo de Paris. Quando deputado federal (2011-2015), presidiu a Comissão Mista de Mudança do Clima do Congresso Nacional (CMMC) e foi um dos vice-presidentes da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Sirkis foi vereador em quatro mandatos, secretário municipal de urbanismo, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), entre 2001 e 2006, e secretário municipal de meio ambiente no Rio de Janeiro, entre 1993 e 1996. Foi membro da delegação brasileira nas conferências do Clima de Montreal, Bali, Copenhagen, Durban, Varsóvia, Lima, Paris, Marrakech e Bonn.

Alfredo Sirkis começou a trabalhar como jornalista em Paris, em 1973, no então recém-fundado jornal Liberation, dirigido por Jean Paul Sartre. Foi seu correspondente em Santiago (1973) e Buenos Aires (1974). Em Portugal, colaborou com os semanários Expresso e Gazeta da Semana e os jornais República, Diário Popular, Diário de Lisboa. Foi redator do Jornal Novo, editor internacional de Página Um e redator chefe da edição em português de Cadernos do Terceiro Mundo. Nessa época também colaborou com Le Monde Diplomatique.

Nos anos 1970, passou oito anos e meio no exílio na França, Chile, Argentina e Portugal. Foi líder estudantil em 1967 e 1968. Entre 1969 e 1971, participou da resistência armada contra a ditadura militar no Brasil, atuando em operações armadas. As mais famosas foram os sequestros de embaixadores para exigir a libertação de presos políticos. Foi repórter das revistas Veja (1982) e Istoé (1983) e colaborou com Pasquim, Playboy, Jornal de Domingo e Shalom. Elaborou diversos roteiros para a TV Globo. Foi colaborador dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e Correio Braziliense.

Sirkis era casado há 25 anos com a arquiteta, curadora, cenógrafa e editora Ana Borelli. Ele deixa os filhos Guilherme, Noah e Anna. Não tinha netos.

Descarbonário, a última obra

sirkis 2

Quarenta anos após “Os Carbonários”, um clássico literário ganhador do prêmio Jabuti de 1981 sobre a geração que enfrentou a ditadura de 1967 a 1971, Alfredo Sirkis acabara de lançar outro ambicioso depoimento geracional: “Descarbonário”, seu décimo livro. A obra traz uma narrativa ágil, com muitos relatos do que o autor testemunhou de mais relevante como político e ambientalista. Descarbonário é centrado no tema preferido de Sirkis: a descarbonização da atmosfera como forma de combater as mudanças climáticas. Segundo ele, a transição para baixo carbono será forte dinamizadora da economia e geradora de empregos.

O clima não é o único assunto do livro, que começou a ser escrito em 2016 e traz muitas histórias pessoais, memórias dos anos 80 até os dias atuais, e opiniões sobre variados temas, como a liberação das drogas e as alternativas para a economia pós-pandemia. Faz uma análise crítica e profunda da política brasileira nos últimos 20 anos, além de casos curiosos sobre as vivências de Sirkis no Congresso, e participações de conferências do clima em diversos países do mundo.

A narrativa de Descarbonário termina no dia 26 de dezembro de 2018, quando Sirkis entrega ao então presidente Michel Temer, em fim de mandato, o documento “Mudanças climáticas: riscos e oportunidades para o Brasil”, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC). Nele, constava uma proposta com as medidas necessárias para o Brasil se tornar um país carbono neutro com emissões zero de gases de efeito (GEEs).

Sirkis destaca na apresentação do livro que, com a recessão causada pela pandemia, certamente haverá uma redução entre 6% e 7% das emissões de CO2 por queima de combustível fóssil. “No entanto, aquelas por desmatamento podem não ser afetadas devido ao seu aumento dos últimos meses”, explica. Para reverter esse quadro, ele defendia um mecanismo de financiamento da descarbonização produtiva na qual a redução ou remoção do carbono da atmosfera, o menos-carbono, seria o “novo ouro” e uma fonte de valor econômico.

Mais problemas para o Brasil: Partido Verde alemão pede renegociação substantiva no acordo UE-Mercosul

O Brasil, o coração do bloco do Mercosul,  desmatam a Amazônia e viola os direitos humanos. Os Verdes acusam o governo alemão de fracassar na política comercial

mercosulOs Verdes alemães estão pedindo que as negociações com o grupo de representantes da América do Sul sejam interrompidas. Imagem:  Reuters

Por Moritz Koch e Silke Kersting

Os Verdes alemães estão pedindo ao governo federal da Alemanha que trabalhe no Conselho Europeu para congelar a ratificação do acordo Mercosul . “O capítulo de sustentabilidade do acordo é completamente inadequado”, diz uma solicitação dos verdes no grupo parlamentar do Bundestag, que foi submetida ao Handelsblatt e está programada para ser levada ao parlamento na sexta-feira. A cláusula de direitos humanos também deve ser reforçada.

O governo federal deve “advogar um novo mandato de negociação no Conselho da União Europeia (UE) que forneça regras para a proteção e conservação do meio ambiente, biodiversidade e clima, bem como normas trabalhistas e sociais para todos os capítulos relevantes para o comércio”, continua. Também precisava de um capítulo de sustentabilidade sancionável, acordos para preservar a floresta amazônica em seu tamanho atual e um mecanismo de reclamação eficaz por violações de direitos humanos.

“Vários governos europeus expressaram críticas claras ao acordo de livre comércio UE-Mercosul; a Áustria agora se comprometeu com um não ” , disse Katharina Dröge, porta-voz da facção Greens Bundestag, o Handelsblatt. “É incompreensível que o governo alemão cumpra obstinadamente um contrato que continua a alimentar o desmatamento da floresta amazônica.” Dada a situação devastadora no Brasil e o desmatamento progressivo da floresta tropical, o acordo do Mercosul deve ser interrompido e renegociado.

Os Verdes acusam a grande coalizão de fracassar na política comercial. Uma política comercial responsável reconcilia interesses econômicos, proteção climática e ambiental, desenvolvimento sustentável e proteção dos direitos humanos.

O governo federal da chanceler Angela Merkel não cumpre essa reivindicação há anos. Berlim deveria se unir à Finlândia e defender “que geralmente não entram mais na UE produtos que contribuam para a destruição de áreas florestais ecologicamente importantes”, disse Dröge.

Nova estratégia de matérias-primas é pedida

As organizações de direitos humanos Germanwatch e Misereor também estão pedindo que o acordo comercial seja interrompido. “A oportunidade de ancorar regras efetivas para a proteção dos direitos humanos e da floresta tropical no acordo foi perdida”, reclamam em comunicado conjunto.

Ministério Federal da Economia , por outro lado, argumenta que o acordo comercial oferece vantagens geoestratégicas além da política de crescimento. Por exemplo, é importante vincular os países mais importantes da América Latina à Europa – principalmente com vistas às atividades dos chineses, que também estão expandindo sua esfera de influência nessa região.

A competição geoeconômica se intensificará ainda mais no futuro, o fornecimento de matéria-prima também entrará em foco. Portanto, o Gabinete Federal decidiu uma nova estratégia de matérias-primas na quarta-feira. Os Verdes elogiam abordagens, mas pedem uma abordagem mais determinada.

Por esse motivo, o grupo parlamentar verde desenvolveu seu próprio conceito que, além da devida diligência em direitos humanos, também enfatiza a reciclagem. “O requisito deve ser que o consumo de recursos diminua e não continue aumentando”, disse o político econômico verde Dieter Janecek.

______________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente em alemão pelo jornal da área financeira Handelsblatt que é impresso na cidade de Dusseldorf [Aqui!].