O Centenário de Paulo Freire: celebrado (até) pelo Google e atacado pelo governo Bolsonaro

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Como preâmbulo de uma postagem que visa celebrar os cem anos do nascimento de Paulo Freire, compartilho um episódio ocorrido enquanto eu cursava o meu doutorado na Virginia Tech na primeira metade da década de 1990. Sabedora que eu era brasileiro, uma amiga que era instrutor no curso de Letras resolveu me convidar para dar um testemunho sobre um autor que seus estudantes estavam tendo contato, Paulo Freire. Primeiro, confessei a minha ignorância, mas depois aceitei o desafio de tentar dar um contexto sobre quem era Freire e qual era o significado dos pressupostos enquanto educador. 

Como naquela época ainda não havia Google (aliás, a corporação que homenageia Paulo Freire no dia de hoje em nível mundial, ver imagem abaixo), fiz o que se fazia então: fui até a livraria principal da Virginia Tech para ver quais títulos do pensador pernambucano estavam à venda. Para minha surpresa, o número de livros não era pequeno (incluindo o clássico Pedagogia do Oprimido), mas a maioria era de autores estadunidenses que se debruçaram sobre a obra de Freire, de modo a modificar o processo educacional nos EUA,  visto já naquela época como “ficando para trás” em relação não apenas à China, mas também em relação à Índia.

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Após essa visita, fui até a Biblioteca da Virginia Tech e emprestei o “Pedagogia do Oprimido” que li com curiosidade, pois até então desconhecia completamente o pensamento de Freire, o qual tinha sido duramente ocultado e perseguido durante o Regime Militar de 1964.

Dentre os principais conceitos que tive brevemente contato naquela experiência foi a de que a educação como praticada majoritariamente parte de um pressuposto bancário em que os estudantes são transformados em contas bancárias vazias que serão preenchidas com depósitos de conhecimento feitos pelos professores.  Na verdade, após mais de duas décadas de prática como professor universitário, esse é um dos aspectos que mais me incomodo, pois a maioria do tempo me vejo nesse papel, o que Freire certamente não aprovaria. Outro elemento apresentado por Freire é de que essa mesma prática pedagógica dominante reforça uma “cultura do silêncio” que naturaliza as relações sociais que produzem e perpetuam relações assimétricas de poder. Por isso mesmo é que Paulo Freire gostava de enfatizar que educar é um ato político, e que politizar seria a função da educação. 

Não é à toa que no período recente de completa reação às políticas sociais criadas ou aprofundadas pelos governos do PT, o ódio a Paulo Freire tenha sido um elemento unificador de diversos segmentos políticos que contribuíram para a eleição do presidente Jair Bolsonaro. É que a obra de Freire sintetiza não apenas a busca de uma nova forma de educar, mas, principalmente ( a meu ver), novas formas de preparar os educandos para assumirem o papel de transformar a realidade que os silencia. Por isso é que Freire foi escolhido como um dos “bichos papões” para a extrema-direita, que, nesse caso, demonstrou uma capacidade inaudita de identificar com clareza o objeto da sua  repugnância, qual seja, a construção de uma sociedade sem silenciados.

Mas em uma demonstração de que os ensinamentos de Paulo Freire fincaram raízes não apenas naqueles países que são tidos como os mais pobres, posto abaixo uma imagem publicada na página do Facebook da “Paulo Freire Social Justice Charter School” que foi fundada em 2013 na cidade de Holyoke, estado de Massachusetts para praticar a pedagogia proposta por Freire.

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Em sua homenagem, a direção da Paulo Freire Social Justice Charter School diz o seguinte: “Neste final de semana comemoramos o aniversário póstumo de Paulo Freire (dia 17 de setembro). Vamos refletir sobre suas contribuições para nosso sistema educacional atual e a luta para remover a educação bancária de nossas escolas. Lembremo-nos das contribuições de Paulo Freire enquanto aproveitamos o nosso fim-de-semana!”

Finalmente, há que se enfatizar que neste momento, o governo Bolsonaro realiza uma série de ações para reforçar a mesma educação bancária que Paulo Freire tanto rejeitava. Ao mesmo tempo, as celebrações da vida e obra Paulo Freire (inclusive a que está sendo realizada pela Google) já estão sendo atacadas por membros da família Bolsonaro, como foi o caso da manifestação no Twitter do deputado federal Eduardo Bolsonaro (ver abaixo).

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Se ainda estivesse vivo, imagino que reagiria a essa manifestação com a insistência de que devemos insistir para educar baseados na premissa de que precisamos ouvir a todos, inclusive aqueles que nos atacam. Por isso mesmo é que ele talvez seja tão odiado por aqueles que temem o diálogo e os processos de sociabilidade que ele discortina.

Finalmente, fiz uma rápida busca no Google juntando “Virginia Tech + Paulo Freire” e encontrei de cara um texto escrito por Kim Niewolny, diretora do “Center for Food Systems and Community Transformation” onde ela cita Paulo Freire ao propor em meio à erupção da pandemia da COVID-19 que estaríamos defrontados com uma enorme oportunidade de “por meio de uma práxis compassiva e crítica, para ajudar a conceber e representar um novo imaginário social que nos mova para além do descontentamento com o sistema alimentar atual.” Como se vê, a influência de Paulo Freire é abrangente e muito presente em um contexto histórico em que a Humanidade se defronta com imensos desafios para se educar criticamente para enfrentar os imensos desafios com as quais se defronta.

Feliz aniversário, Paulo Freire!

Educação para manter a desigualdade: Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos

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*Por José Ruy Lozano, publicado originalmente no dia 07 de Dezembro de 2017 pelo LeMonde Diplomatique Brasil

Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros.

Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade.

Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso.

Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência?

Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

Obra de Antony Theobald


 *José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

FONTE: https://diplomatique.org.br/bolsonaro-para-os-pobres-paulo-freire-para-os-ricos/?fbclid=IwAR2MbeVVah0PYIJeGs6lwdA88wLPOGSg5gFiNIprwFBuf8hfz9G7N1XBrYU

Viva Paulo Freire!

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O educador Paulo Freire cujo método pedagógico já livrou milhões do analfabetismo foi um dos pensadores atacados ontem nas manifestações (ou sei lá) que ocorreram no Brasil, como bem mostra a imagem acima, onde a faixa diz “chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”.

Esse tipo de ataque aos ensinamentos de Paulo Freire contraditoriamente ocorre num momento em que a ideologia do mercado é que impulsiona a maioria dos materiais pedagógicos, os quais são regiamente pagos com dinheiro público, como é o caso aqui na cidade de Campos dos Goytacazes.

O peculiar é que Paulo Freire hoje não é apenas celebrado mundialmente, como mostra a citação abaixo, mas também avidamente lido nos países centrais do capitalismo, justamente pela eficácia do seu método que explora elementos mais contundentes da realidade para gerar conhecimento crítico. Por essas e outras é que o Brasil é obrigado a ficar para trás na corrida do conhecimento.  É que enquanto aqui ele é hostilizado pela classe média branca, nos EUA, por exemplo, ele é estudado para melhorar o desempenho escolar das crianças.

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Encontrando Paulo Freire na Estação de Waterloo

Como já aprendi que nos países centrais um bom lugar para encontrar interessantes, e que nem sempre estão nas livrarias das ruas das áreas comerciais, são as livrarias que ficam dentro de estações de trem. Aproveitei o fato de que a estação de Waterloo é umas daqui de Londres onde se faz transferência do metrô para trens urbanos, e fui lá ver o que tinha.

Para minha surpresa, eis que achei o livro antológico de Paulo Freire, o “Pedagogia do Oprimido”, disponível para compra.

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Esse encontro me levou a duas reflexôes na seguinte ordem:

1) por que não estamos pensando mais em como transportar as práticas propostas por Paulo Freire para as nossas escolas e universidades?

2) Como Paulo Freire se sentiria hoje se estivesse vivo para ver no que se transformou o PT que ele ajudou a fundar?