Sem qualquer perspectiva de novo PCV e recheada de penduricalhos, Uenf enfrenta cenário desafiador

Acabo de completar 27 anos de serviços na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mas informo que não há motivos para festa. É que olhando em retrospectiva, nunca vi a universidade de Darcy Ribeiro tão mal parada das pernas.  Para começo de conversa, continuamos sem qualquer perspectiva de que o novo (rapidamente envelhecido) Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) aprovado pelo Conselho Universitário no final de 2020 finalmente saia da gaveta onde acumula pó no Palácio Guanabara e siga para análise da Assembleia Legislativa. Somando-se a isso, a quebra do compromisso assumido pelo governador Cláudio Castro de, pelo menos, repor as perdas inflacionárias, transforma a espera em uma espera de tortura medieval já que o ritmo da inflação (principalmente a dos alimentos) está claramente em ritmo acelerado. 

A reitoria da Uenf, comandada pela professora Rosana Rodrigues, vem mostrando duas faces em relação à crise salarial que assola a instituição. A primeira é de não fazer absolutamente nada de prático para descongelar o processo de tramitação do PCV dentro do governo. Afora, alguns momentos em que a situação do PCV é trazida à tona, geralmente por alguma ação dos sindicatos de professores e servidores técnicos, o que predomina é o que se pode chamar de imobilismo praticante. Em outras palavras, nada é feito. A outra face da postura institucional é a criação de uma série de auxílios que têm o efeito de amenizar mais as consciências do que o déficit salarial. Para piorar, há casos, como o descrito pelo professor Carlos Eduardo Rezende aqui mesmo neste blog, no qual a distribuição dos benefícios é feita de forma desigual, e sem qualquer garantia de sustentabilidade até para quem é aquinhoado com a concessão.

O resultado disso é que depois de que quase 3 décadas dentro da Uenf, nunca percebi um ambiente de tamanho desencanto com o estar na e viver na Uenf.  Me arrisco a dizer que sequer na crise salarial de 2017, o ambiente esteve tão desanimado. Para uma instituição universitária, esse é o pior dos mundos, pois a adesão à causa, por assim dizer, é um elemento fundamental para o exercício da criatividade que impulsiona a produção de pesquisas de impacto.

Uma consequência objetiva da corrosão salarial é que se torna mais difícil realizar o processo de interiorização de quadros altamente preparados. É que a Uenf só foi capaz de se instalar em Campos dos Goytacazes com um corpo docente formado exclusivamente por doutores em regime de dedicação exclusiva porque pagava excelentes salários.  É que apesar das transformações ocorridas no município nos ultimos 31 anos, a ideia de sair de grandes centros para atuar em uma instituição com salários defasados não é muito atrativa se não houver o tipo de incentivo que só bons salários podem dar. Com isso, a Uenf só vem conseguindo atrair seus próprios egressos para os poucos concursos que consegue realizar, fato que contribui para que não haja a devida renovação de ideias e práticas. Como em ciência, a renovação de ideias e práticas é fundamental, o resultado acaba sendo uma combinação de perda de dinamismo e engessamento que gera a perpetuação de atos rotineiros em vez de inovação.

Para piorar o que já é ruim, vivemos um contexto de financiamento é particularmente ruim, visto que o governo federal fez uma opção por uma forma de controle fiscal em que tudo, inclusive investimento em ciência. é visto não como oportunidade, mas como custo.  Com isso, o próprio lugar das universidades, a Uenf incluída, fica secundarizado em face dessa orientação, com uma perda de visão de futuro acerca do papel que o desenvolvimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia pode significar para a posição do Brasil no cenário econômico global.

Alguém poderia me perguntar se existe alguma saída para um enrosco desse tamanho. Eu diria que vivemos uma situação complexa e que exige atitudes corajosas e firmes em defesa da existência das universidades públicas. Mas primeiro é preciso reconhecer que não será com meros jogos de cena que vamos dar as respostas necessárias a uma situação tão desafiadora.  Tampouco será com medidas paliativas que criam mais desigualdade do que oportunidades. Desta forma, como sou brasileiro e não desisto nunca, me parece que é preciso adotar a concepção que não existem momentos difíceis que não possam ser transformados em oportunidades. E que siga o périplo, mas sem ilusões de que penduricalhos oferecem algum tipo de solução.

Refletindo sobre a Bolsa Pró-UENF: Ética, critérios e responsabilidade institucional

Por Carlos Eduardo de Rezende*

Em uma instituição de ensino superior, onde o livre pensamento é um de seus pilares fundamentais, há quem defenda que divergências, de qualquer nível, devam ser tratadas internamente. A princípio, isso pode parecer razoável dentro da liturgia acadêmica, que valoriza o debate estruturado e a deliberação criteriosa. No entanto, quando princípios essenciais, de uma instituição, são impactados, torna-se imprescindível ampliar o debate, garantindo que as decisões sejam tomadas com reflexão e responsabilidade.

A adoção de ações imediatistas, sem uma análise aprofundada dos impactos em longo prazo, pode comprometer o futuro de uma instituição de ensino e pesquisa, enfraquecendo sua missão acadêmica e científica. Ainda assim, alguns dos pontos abordados nesta reflexão podem ser considerados inoportunos por parte da comunidade, seja por resistência à mudança ou por diferentes perspectivas sobre os rumos institucionais.

Recentemente, foi instituído o Programa de Aprimoramento e Otimização da Gestão Pública da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ProUENF). No âmbito desse programa, os integrantes da comunidade acadêmica que se inscreveram e atenderam ao que foi estabelecido na Resolução do Conselho Universitário da Uenf passaram a receber a Bolsa Pró-UENF, que pode durar 36 meses.

A comunidade acadêmica da Uenf é composta por docentes e técnicos (laboratório e administrativos), cujos níveis de formação variam entre Fundamental, Médio e Superior, incluindo servidores com titulação de mestrado e doutorado. É importante destacar que as atividades desempenhadas por essas categorias são essencialmente distintas. Diante disso, um programa que não estabelece critérios específicos e diferenciados para cada categoria parece, no mínimo, inadequado e demanda uma reflexão criteriosa.

Nesse sentido, a criação e a implementação desse programa deveriam fomentar debates mais amplos sobre a condução das políticas institucionais e seus impactos na integridade acadêmica e profissional da comunidade universitária. Embora iniciativas que incentivem a participação dos servidores sejam, em princípio, bem-vindas, os critérios que orientam a concessão dessas bolsas têm suscitado questionamentos legítimos e deveriam considerar as especificidades inerentes aos diferentes cargos ocupados.

A fragilidade na definição de parâmetros claros e objetivos abre margem para interpretações dúbias e, em alguns casos, favorecimentos que comprometem a transparência. Como assegurar a equidade se os critérios parecem desconectados de um processo robusto de avaliação? A ausência de rigor, acadêmico vamos dizer assim, pode transformar uma ação que deveria ser estratégica em um mecanismo questionável, que alimenta desigualdades e desmotiva aqueles que esperam justiça institucional.

Outro ponto preocupante é a percepção de que algumas pessoas estejam recebendo recursos para executar atividades que já deveriam ser parte de suas atribuições e outros que recebem sem mudar minimamente seu comportamento diante da responsabilidade institucional. Isso levanta uma questão ética fundamental em relação ao dever de cada integrante da universidade e suas responsabilidades institucionais.Os estímulos adicionais deveriam ser instrumentos de fomento a novas iniciativas ou de apoio a demandas extraordinárias e deveriam refletir a qualidade do servidor no que tange a sua atividade fim.

Nesse contexto, cabe perguntar: onde está a ética profissional e institucional? O fortalecimento de uma universidade pública de excelência, como a Uenf, exige não apenas infraestrutura e financiamento, mas também um compromisso inabalável com princípios éticos. Transparência, meritocracia e responsabilidade devem ser os alicerces de qualquer ação que envolva recursos públicos.

Se queremos uma Uenf mais forte e coesa, é imprescindível rever práticas que, ainda que sob a aparência de progresso, corroem a confiança na instituição. Um processo de reflexão coletiva é urgente, pautado pela busca de critérios claros, avaliação independente e um verdadeiro compromisso com o bem coletivo. Apenas assim poderemos garantir que ações como a Bolsa Pró-UENF estejam alinhadas ao propósito maior de promover a justiça, a inclusão e a excelência acadêmica.

Concluindo, tenho consciência de que partes isoladas deste texto poderão ser utilizadas para sugerir, de forma equivocada, que sou contrário a este programa. No entanto, isso não corresponde à realidade. Minha discordância reside na ausência de critérios claros e na implementação precipitada de um programa institucional sem a devida participação de um comitê externo, essencial para garantir sua integridade. Assim, minha maior preocupação é que programas dessa natureza têm caráter temporário, enquanto o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da Uenf permanece defasado. Nossa capacidade de atrair e reter jovens docentes tem sido progressivamente reduzida em comparação com outras instituições de ensino superior.

Reafirmo a necessidade urgente de uma política que viabilize a imediata recomposição do PCV, pois medidas paliativas acabam gerando confusão na comunidade ao envolver valores que podem ser revogados a qualquer momento, além de consumirem recursos que deveriam ser direcionados à recomposição salarial de maneira estrutural e definitiva, inclusive para nosso quadro de inativos que possui paridade com o quadro ativo.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Estudo do DIEESE mostra que perdas salariais dos professores da UENF foi de 42% entre 2014 e 2023

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Um estudo encomendado pela diretoria do sindicato dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a Aduenf, junto ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelou que entre julho de 2014 e dezembro de 2023, as perdas salariais acumuladas pela categoria foram de 42% (ver estudo aqui!).

Eu já andava sentindo essa depreciação salarial nas minhas idas aos supermercados e hortifrutis da vida, mas agora com os números nas mãos, ficou mais claro que a política de destruição do serviço público estadual encaminhada pelo governo do dublê de cantor e político Cláudio Castro está atingindo em cheio o processo instrumento de desenvolvimento econômico e social implantado no interior do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos, a Uenf.

Para piorar a situação, a extinção dos triênios para os docentes que ingressaram na universidade desde que a Alerj decidiu seguir as ordens do Ministério da Fazenda, piora em muita a condição de atração de novos quadros para a Uenf, em um momento em que muitos que ingressaram no concurso de 1999 já se encaminham para a aposentadoria.

A verdade é que com esse quadro de depreciação salarial que não possui sequer o incentivo do tempo de serviço, muitos jovens doutores que poderiam querer vir para Campos dos Goytacazes ou Macaé para trabalhar na Uenf vão preferir seguir outros caminhos, especialmente porque aqui a dedicação é exclusiva.

Um dos maiores riscos que a Uenf corre neste momento de salários pouco atrativos é de que apenas seus próprios formandos queiram trabalhar na instituição, o que certamente diminuiria o grau de inovação das pesquisas que são realizadas, na medida em que se consolidarão apenas pesquisas que já estão em curso. Essa endogenia do quadro docente já não é pequena, e tenderá a aumentará caso não haja uma reversão nos salários pagos na Uenf.

Uma coisa curiosa que está acontecendo neste momento é que dada a presença de doutorandos que já estão empregados e aproveitam a qualidade da Uenf para alcançarem melhores titulações acadêmicas é o fato de que já tem aluno ganhando mais do que o seu orientador.  Aliás, eu mesmo tenho ex-alunos que estão em instituições federais que se penalizam com o meu salário quando comparam os contracheques.

No meio disso tudo, muitos podem se perguntar o que irá acontecer se a Uenf, a começar pela sua reitoria, não começar a se mexer para pelo menos começar a tramitação do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) que se encontra trancado em alguma gaveta empoeirada no Palácio Guanabara. Eu diria que nada de bom. 

Há que se lembrar que já se avança pelo mês de abril de 2024, e a carestia, especialmente a dos preços dos alimentos, continue avançando de forma inclemente.

Finalmente, como diria o meu falecido pai, há que se lembrar aos professores da Uenf que “jacaré parado vira bolsa”.

Reitora dobra aposta na “Melô do Marinheiro” e se filia ao sindicato dos servidores técnicos da Uenf

Observei recentemente neste espaço a minha estranheza em relação a uma visita da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense, professora Rosana Rodrigues, ao gabinete do deputado federal Lindbergh Farias em Brasília. É que diante do papel de dirigente de uma universidade estadual, a reitora da Uenf deveria saber que visitar um dos principais adversários políticos do governador Claúdio Castro não resultará na boa vontade deste com as muitas demandas que ela tem para apresentar, a começar pela aprovação do Plano de Cargo de Vencimentos (PCV) da Uenf.

Eis que hoje, um dos dirigentes do sindicato que representa os interesses dos servidores técnico-admnistrativos da Uenf divulgou imagens do que seria a cerimônia de filiação da reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

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Essa filiação é inusitada, na medida em que os professores da Uenf possuem sindicato próprio, a Aduenf, e a reitora, ao que me consta, é filiada. Assim, ao se filiar a outro sindicato que representa outra categoria dentro da Uenf, a reitora cria uma situação sui generis  de possu ir uma dupla filiação sindical. Isso até segunda ordem não está previsto na legislação trabalhista, até porque é uma situação tão bizarra que nem os mais visionário dos legisladores poderia ter previsto este caso.  Até aqui, resta saber o que vai pensar o Andes-SN, sindicato nacional que representa os interesses dos professores universitários em nível nacional.

Mas essa repentina volúpia de adesão sindical da reitora da Uenf me surpreenda pela trajetória  dela dentro desde a formalização da Aduenf em 1999. É que tendo sido presidente e vice-presidente da Aduenf por duas vezes em cada posto, eu raramente vi a reitora presente em nossas assembleias. Aliás, nas poucas vezes que a professora Rosana Rodrigues se fez notar em assembleias, ela apenas apareceu para votar pelo fim de greves que eram mais do que justas, as quais foram responsáveis pelos principais avanços que conseguimos em nossos direitos trabalhistas a partir de 1999.

Uma peculiariedade relacionada ao Sintuperj/Uenf é um dos seus principais diretores é, ao que me consta, pré-candidato a vereador pelo PT, o mesmo do deputado Lindbergh Farias. Com isso, a reitora estaria dobrando a sua aposta na “Melô do Marinheiro”, pois comete a pouco sábia atitude de se vincular novamente a um partido de oposição em uma situação política muito complexa que o estado do Rio de Janeiro atravessa neste momento.

A verdade é que ao dobrar essa aposta, a reitora da Uenf mostra um grau de incompreensão formidável em relação ao seu papel de reitora de uma universidade pública localizada no interior do estado.  Com essa adesão ela pode ter complicado não apenas a situação do trâmite do novo PCV, mas fechado outras portas importantes no governo estadual. Ou será que Cláudio Castro já adiantou a ela que está se mudando de mala e cuia para o PT? Se for isso, tiro o chapéu para a professora Rosana Rodrigues. Se não for, me parece urgente que ela nomeie uma versão uenfiana do “ministro do vai dar merda” que foi criado e eternizado por Chico Buarque.

E antes que eu me esqueça, uma história de bastidores. Na última vez em que fui presidente da Aduenf, o governo estadual estava com uma ideia maluca de unificar os salários da Uenf e da Uerj. O mentor da ideia era o vice-reitor da Uerj, João Regazzi Gerki que, na época, ocupava um cargo importante na Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Em um final de reunião com a diretoria da Aduenf na Secti, João Regazzi me confabulou a ideia e propôs a realização de uma reunião apenas com os sindicatos das universidades.  Intrigado com o convite, perguntei a Regazzi se ele não iria falar primeiro com os reitores. Ele rapidamente retrucou que não porque reitores, segundo Regazzi, eram patrões que não mandavam e ele queria falar direto com quem mandava, os sindicatos.  O fato é que mandando ou não, os reitores exercem o papel semelhante a de um patrão dentro das universidades.  Assim,  levando em conta o que me disse João Regazzi, o que dizer de uma reitora que se filia a um sindicato no início de um mandato que vai até 2027?

A UENF em transe: Dos bons tempos às dificuldades estruturais

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Os bons tempos: Oscar Niemeyer,  Leonel Brizola e Darcy Ribeiro em frente da maquete da Uenf, a quem Darcy preferia chamar de “Universidade do Terceiro Milênio”

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf, foi criada com base no desafio em que pesquisa, o ensino e a experimentação se integrem no estudo de temas e problemas atuais relevantes para o desenvolvimento do Brasil. Ainda sobre isto, cita no Plano Diretor da Uenf, o sucesso dos modelos institucionais promovidos nas universidades estaduais paulistas, entre outras, onde se ressalta que o sucesso está diretamente atrelado a competência de seus pesquisadores, principalmente em nível de pós-graduação. E por este motivo, a Uenf foi criada com um corpo docente composto por 100% de doutores e iniciamos graduação e pós-graduação simultaneamente. Não precisaria, mas reafirmo que foi devido a estas características que obtivemos inúmeros resultados de destaque na Iniciação Científica e nos rankings que avaliam as universidades.

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Carlos Eduardo de Rezende junto ao ex-governador Leonel Brizola e a deputada Cidinha Campos durante visita realizada ao campus da Uenf durante a greve pela autonomia em relação à Fenorte.

Um primeiro ponto a ser abordado neste texto é a forma como estão sendo tratadas internamente suas próprias regras. O Estatuto da  Uenf foi publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro (DOERJ) em 19 de fevereiro de 2002 através do Decreto número 30.672; enquanto o regimento da instituição foi aprovado, e publicado, em reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) em 6 de julho de 2006. Desde então, nenhum ex-reitor implantou o Conselho Consultivo que tem funções que consideramos fundamentais para o desempenho da instituição e norteador de uma política institucional que visa de certa forma, a manutenção de um modelo basilar que define os parâmetros de desempenho para universidade, envolvendo o corpo docente e técnico.

Esse conselho também pode sugerir a criação de novos cursos e áreas de atuação, assim como gerar as condições necessárias para ampliar a interação com a comunidade local, regional e nacional. É chegada a hora, portanto, do atual reitor e diretores demonstrem o compromisso com o estatuto da instituição, porque depois de 18 anos de estabelecimento destas normas não me parece minimamente razoável que este Conselho Consultivo não tenha sido instituído. Este descaso me parece muito grave para o desempenho institucional.

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Como disse o nosso eterno Patrono e responsável pelo projeto inicial da Uenf, o Prof. Darcy Ribeiro, “O futuro é imprevisível, mas o que aconteceu até agora podemos avaliar com base em dados concretos”. Assim, passo a considerar o que temos feito, e, também não temos feito adequadamente, ao longo de 27 anos de enf e este exercício deveria ser estendido a cada gestão – seja de Reitoria, Diretoria e Coordenações (Pós-Graduação, Graduação e Extensão) – que se inicia e termina, obviamente com os devidos indicadores.

A Ciência e seus critérios de avaliação

As instituições de ensino e pesquisa, assim como as agências, avaliam o progresso e desenvolvimento institucional a partir das notas das avaliações do MEC, da inserção no mercado, isto é, para onde estão as/os profissionais que formamos e o impactado das pesquisas como uma das formas de aferir o desempenho acadêmico individual e institucional. Esta prática tem sido usada e não devemos fugir destas métricas, indicadores e ferramentas analíticas, mas sim aperfeiçoá-los de forma que possamos atender, de fato, aos melhores critérios da função acadêmica.

A publicação dos artigos em revistas que estejam indexadas a alguma base de dados é de importância fundamental. A partir destas bases que são calculados os índices h, que indica quantas vezes os artigos foram citados por outro artigo e de certa forma integra a carreira do pesquisador. Outro cuidado a ser ressaltado é não publicar em revistas consideradas predatórias, são revistas que não possuem um sistema de avaliação das publicações. Portanto, o pior resultado para um cientista é saber que seus estudos são simplesmente invisíveis e escolher boas revistas é fundamental, mas também não garante a visibilidade das suas pesquisas (Marques, F. 2020; O Medo da Indiferença na Revista da FAPESP).

As revistas de acessos aberto tem possibilitado outro tipo de avaliação, pois a ideia de não citação de um artigo pode ser substituída, por exemplo, pelo número de vezes que um artigo científico foi arquivado ou carregado para leitura “download” em ferramentas acadêmicas. Outra importante informação que pode ser trazida a discussão é que muitos destes artigos, não citados, muitas vezes trazem elementos para plataformas das mídias sociais (Marques, F. 2020; O Medo da Indiferença na Revista da FAPESP). Assim, “blogs”, sites de divulgação ou entrevistas que tratam com seriedade assuntos acadêmicos podem promover excelentes resultados que podem ser facilmente quantificáveis dentro de um processo de avaliação de desempenho acadêmico.

Entendemos que existem várias e sérias críticas ao uso das métricas nas publicações científicas, mas não podemos deixar de considerar que apontar caminhos alternativos me parece uma das contribuições que devemos fazer o invés de simplesmente rejeitar o processo de avaliação por si só. Eu considero que outros fatores, como apontados acima, possam ser considerados, mas em geral existe uma boa correlação entre as métricas das publicações e o envolvimento institucional como coordenação de projetos de pesquisa e extensão aprovado em agências de fomento nacional e internacional, orientações e supervisões (graduação, pós-graduação e pós-doutorado; extensão). Não posso deixar de considerar obviamente a atuação em sala de aula como um elemento balizador e fundamental em uma universidade, assim como o estabelecimento de um processo de avaliação dos docentes.

O novo PCV será um estímulo ao ócio?

Em 2017 fui indicado pelos membros do Conselho Universitário (CONSUNI) para presidir uma Comissão que tinha por finalidade atualizar o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da Uenf. Lembro a todos que naquele momento estávamos com nossos salários atrasados e muitas pessoas tinham dificuldades em participar de reuniões e, portanto, nossas reuniões tiveram um início um pouco tardio, mas em fevereiro de 2019 apresentamos o resultado da comissão ao CONSUNI.

Primeiro, devo ressaltar que entendemos que a progressão vertical dos docentes é positiva e uma conquista que trará muitas vantagens para o corpo docente, principalmente em um país que sistematicamente tem alterado o regime previdenciário e com este mecanismo, evitariamos que os profissionais perdessem os seus direitos adquiridos ao longo do tempo. No entanto, também entendemos que deve ser mantida uma liturgia no processo de progressão e traçar o perfil orientador para o Professor Titular da nossa instituição assim como os mecanismos de progressão. Então, qual seria o Professor Titular da Uenf? Atendendo ainda ao chamado da administração, que muitas vezes tem dificuldades em formar comissões e conselhos, consideramos como experiência acadêmica as atuações profissionais em diferentes níveis internos (ex.: participação em conselhos, colegiados, chefias, coordenações, comissões) e externos (ex.: revisores e membros de corpo editorial, assessorias) para docentes e técnicos.

Por outro lado, foram realizados levantamentos nos indicadores acadêmicos de todos os Professores Titulares, não são muitos na Uenf, para se estabelecer os critérios balizadores. Inclusive, a ideia seria de manter a liturgia de avaliação para progressão para Professor Titular com a presença de uma banca composta por membros internos e externos, o ritual de defesa do memorial e projeto de pesquisa para instituição. Afinal, se espera de um Professor Titular que ele represente uma liderança acadêmica na sua área de conhecimento e que atenda a vários requisitos. Na ocasião foram propostos os seguintes critérios, a saber: 8 mestrados, 5 doutorados; uma taxa de publicação de 3 artigos nos últimos 6 anos; e aprovação de 8 projetos como coordenador. Estes números poderiam ser negociados, mas não poderiam jamais ser ignorados ou desqualificados, pois surgiram a partir da média dos currículos dos Professores Titulares da Uenf. Ao invés de iniciarmos uma discussão, houve uma clara obstrução, com total falta de liderança do presidente do CONSUNI e o resultado foi à criação de outra comissão.

Neste momento, uma terceira comissão apresentou uma proposta, mas os pleiteantes ao cargo de Professor Titular precisam atender apenas a dois dos critérios apresentados, sendo eles: 1) Iniciação Científica em vigência ou concluído nos dois últimos anos, mestrado ou doutorado concluídos, mestrado ou doutorado vigente ou concluído nos dois últimos anos; 2) 25 artigos publicados sendo 5 nos últimos 5 anos (1,6 artigos por ano sendo, 1 artigo por ano nos últimos 5 anos); 3) 5 projetos de pesquisa ou extensão sendo 1 aprovado nos 2 últimos anos.

Esta proposta coloca como experiência acadêmica apenas o número de anos e não considera qualquer tipo de atividade acadêmica propriamente dita; importante deixar registrado que a média e mediana do total de publicações dos docentes até a data de apresentação da primeira proposta era de 47 e 42, respectivamente, com uma taxa de 3 artigos por ano até a concurso para Professor Titular. A falta de um número absoluto nos critérios de orientação e a não exigência atuar como coordenador de projetos financiados por agências de fomento representam um retrocesso muito sério. Não podem usar o argumento da falta de financiamento atual, pois um profissional com uma atuação de 15 anos teve oportunidades para aprovar, como coordenador de projeto, propostas em agências nacionais e internacionais.

Encaminhando para o fechamento desta reflexão, por mais de uma vez afirmei que o problema na Uenf tem sido a omissão institucional de profissionais qualificados. Esta omissão se inicia nos laboratórios e se refletem consequentemente nos conselhos e colegiados. A minha afirmativa se baseia em um artigo do nosso estatuto que prevê que um laboratório é chefiado por um docente com as características explicitadas no Artigo 39 e muitas vezes, por omissão destas lideranças, jovens pesquisadores, alguns até recém-doutores em regime probatórios, que muitas vezes não preenchem estes requisitos, são colocados na chefia gerando um efeito cascata nos diferentes conselhos e colegiados onde as chefias possuem representação. Inclusive, este tipo de atitude prejudica o próprio jovem pesquisador e tem criado algumas deformidades na carreira destes profissionais.

artigo 39

 O mesmo se aplicaria aos cargos de diretor, reitor e vice-reitor da Uenf conforme os artigos abaixo. Algum desavisado poderia questionar o que seria notória experiência acadêmica, mas afirmo que todas as características foram supracitadas e mais uma vez, a chegada de profissionais a cargos sem a observância do estatuto gera o que poderíamos identificar como inadequação ao cargo. Não é possível que os artigos 19, 35 e 39 sejam negligenciados pela comunidade universitária, seus conselhos e colegiados, pois parte daí o comprometimento com a instituição e as suas representações acadêmicas. 

artigo 19 e 35

Assim, fazendo uma rápida apresentação dos representantes máximos da instituição das gestões eleitas até o momento me parece satisfatória para exemplificar a situação imposta pela falta de posicionamento dos conselhos (Figura 1). As informações básicas foram retiradas dos Curriculum Vitae da Plataforma Lattes e refletem a atuação acadêmica de cada ex-reitor do período que entrou como docente na Uenf até suas escolhas como reitores pela comunidade universitária (Docentes, Técnicos e Alunos; com seus respectivos percentuais conforme a LDB). O total de publicação (Intervalo de 246 até 5) mostra uma diferença marcante entre os 4 primeiros reitores eleitos e os dois últimos. A escala do eixo primário está logaritmizada para suavizar a apresentação gráfica. No entanto, alguns podem dizer que a diferença poderia ser um reflexo do momento de cada profissional e estes números criariam uma discrepância. Desta forma, fizemos uma normalização do total de publicação a partir do doutorado pelo número de anos até chegada à reitoria. Esta normalização foi necessária, pois existe o caso de um profissional que não publicou nada desde que entrou na UENF. O resultado desta normalização, mostra o mesmo padrão de comportamento com os dois últimos reitores onde suas taxas de publicação são inferiores a 1 artigo por ano.

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Primeiro ano do mandato do reitor

Figura 1: Indicadores de desempenho dos nossos ex-reitores e do atual reitor. O círculo fechado representa do total de publicações normalizado pelos anos do doutorado até chegar a reitoria; o quadrado vazado representa o total de publicações até chegar a reitoria.

Finalizando, reconheço a legitimidade de todos os docentes desejarem a Progressão Vertical até Professor Titular assim como ocupar todos os cargos da instituição, mas existe uma clara necessidade que os critérios acadêmicos sejam observados pelos conselhos e colegiados evitando as situações deste tipo sejam evitadas. E mais, de um tempo para cá tenho observado uma forte tendência ao fisiologismo e carreirismo administrativo na Uenf. No meu entendimento este processo está íntima e diretamente associado à omissão das lideranças acadêmicas da instituição e, por fim, nossa instituição está se perdendo dentro da simples disputa pelo poder. Não é possível que uma instituição esteja discutindo um PCV que retrocede aos critérios que vêm sendo praticados há anos e ignore solenemente aspectos quantitativos do desempenho tais como orientações na pós-graduação, as publicações e as coordenações de projeto.

Já participei de mais de um PCV, reuniões sobre o tema com representantes do governo e não é possível que os membros do Egrégio Conselho Universitário acreditem que o afrouxamento da progressão vertical e aumento de salário passará dentro do governo. E digo mais, a atual administração possui várias profissionais que já ocuparam cargos de coordenação de pós-graduação, de graduação, possuem bolsas de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, e aceitarem transformar ao atual PCV em uma “prova de vida” é totalmente inaceitável. Desta forma, infelizmente considero que esta administração está estimulando definitivamente o ócio nesta instituição e comprometendo o futuro de todos os programas de pós-graduação e cursos de graduação.

*Carlos Eduardo de Rezende é um dos fundadores da Uenf, atuando desde 1993 no Laboratório de Ciências Ambientais, onde atua como professor titular. 

Proposta do (des) governo Pezão é especialmente danosa para os servidores técnicos-administrativos da UENF

Se os professores já têm motivos para não gostar da proposta enviada pelo (des) governo Pezão para corrigir seus salários, os servidores técnico-administrativos são ainda mais golpeados em suas necessidades de reparação salarial. Como mostra a tabela abaixo, além de terem uma reposição menor (girando entre 9% e 20% dependendo da função e da condição de enquadramento), os servidores ainda amargarão uma reposição também parcelada em duas vezes!

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A situação fica ainda mais complicada quando se verifica que no caso dos professores, os níveis de reposição vai variar entre 35% e 39%. O problema é que na UENF, diferente da UERJ, há apenas uma tabela única como anexo do Plano de Cargos e Vencimentos que está em vigor, o que torna a concessão de índices diferenciados ainda mais problemático. E eu pessoalmente não entendo porque parcelar índices tão pequenos de reposição. Parece até gozação de quem sabe que vai perder as próximas eleições. 

Ministério Público realizará audiência pública para apurar suposto desrespeito ao PCV da UENF

Nos dias de hoje, a reitoria da UENF deve ser um local cheio de pessoas esperando que o pior já tenha passado. Um dia são denúncias de uso indevido de dinheiro público para pagamento de diárias, noutro aparecem problemas relativos ao uso de recursos oriundos da Petrobras para pagar multas aplicadas pela Receita Federal. Mas a cota de novidades negativas parece ainda estar longe de ser encerrada. Aliás, a reitoria da UENF parece estar envolta na chamada “Primeira lei de Murphy” que diz que “se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível“.

Mas como cheguei a essa conclusão? Muito simples! Basta olhar o ofício abaixo do Ministério Público Estadual convocando uma audiência pública para o dia 14 de Maio para discutir “um suposto desrespeito da UENF Darcy Ribeiro ao Plano de Cargos e Vencimentos estabelecido pela Lei 4800/2006…

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O problema maior aqui é que nessa audiência pública poderão aparecer outras denúncias, e não apenas os elementos que deram base para a abertura do Inquérito Civil Público No. 208/2013 (Processo MPRJ 2013. 01011146).  E é ai que mora o perigo para a reitoria da UENF, pois nessas ocasiões a Primeira Lei de Murphy não costuma perdoar, se materializando de forma ampla, geral e irrestrita.