Jornal Nacional mostra a ciência sob ataque no Brasil

ciencia sob ataque

As situações de assédio e coação contra cientistas brasileiros que têm sido relatadas aqui  e aqui neste blog finalmente chegaram na mídia corporativa brasileira, ocupando o chamado “prime time”, no caso uma matéria de cerca de 3 minutos que foi veiculada pelo Jornal Nacional da Rede Globo (ver vídeo abaixo).

É importante que se diga que esses ataques contra determinados pesquisadores são apenas uma faceta de um ataque frontal que está sendo realizado pelo governo Bolsonaro contra produção do conhecimento científico e contra a ciência nacional como um todo.

Esses ataques contra a ciência brasileira, como bem lembrou a professora Mercedes Bustamante da Universidade Nacional de Brasília (UNB), também estão se dando na forma de cortes drásticos no financiamento das pesquisas realizadas, principalmente, nas instituições de ensino superior públicas, sejam elas federais ou estaduais. E como Mercedes Bustamante tão bem colocou, sem conhecimento científico não haverá um futuro para o Brasil.

Assim, defender não apenas a liberdade dos cientistas brasileiras, mas a obrigatoriedade do correto financiamento das pesquisas é algo que extrapola a comunidade científica, e deveria ser objeto de uma decisão decisiva de todas as instituições que se pretendem democráticas no Brasil. Aceitar tanto os ataques aos cientistas, como o corte de recursos para as pesquisas que eles realizam, implicará em um atraso substancial no desenvolvimento econômico do nosso país.

Um Comando de Caça aos Cientistas (CCC) age no Brasil para impedir que a comunidade científica exerça o seu papel

Os visitantes estão diante da citação de Martin Niemöller que está em exibição na Exposição Permanente dos Estados Unidos ... [LCID: img4857]

No dia 11 de janeiro, no limiar do governo Bolsonaro, concedi uma entrevista ao jornal português “Diário de Notícias” que recebeu a manchete “A ciência no Brasil está sob ataque do governo Bolsonaro” onde pude tecer uma série de considerações sobre o que aconteceria com a ciência brasileira e, mais especificamente, sobre pesquisadores envolvidos com temas de pesquisa que fossem julgados prejudiciais aos interesses dos novos ocupantes dos palácios em Brasília, e mais principalmente os seus apoiadores. Dentre as minhas previsões inclui o escasseamento dos recursos para a pesquisa e a perseguição política aos pesquisadores que fossem identificados como “trouble makers” (causadores de problemas).

Pedro Hallal, Larissa Bombardi e Lucas Ferrante: três pesquisadores perseguidos por revelaram “verdades inconvenientes” sobre o Brasil sob Bolsonaro e seus aliados preferenciais

Pois bem, passados 26 meses desde aquela entrevista, a comunidade científica brasileira não apenas está completamente asfixiada financeiramente, com seus principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes) virtualmente paralisados, mas também com uma crescente onda de ataques judiciais e extra-legais contra pesquisadores que têm se destacado em suas áreas específicas por documentar todos os malefícios que têm decorrido de uma política de “passa boiada” em áreas extremamente sensíveis como a questão da pandemia da COVID-19, o desmatamento acelerado nos biomas da Amazônia e do Cerrado, e o crescimento exponencial na liberação de agrotóxicos altamente perigosos para uso nos grandes monocultivos de commodities voltadas para a exportação.

Dentre todos os casos que emergiram recentemente destaco os do ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador do projeto EPICOVID19, que foi alvo de um processo judicial movido pelo deputado federal bolsonarista Bilbo Nunes (PSL/RS) em função de críticas realizadas contra a condução dada pelo presidente Jair Bolsonaro ao combate da pandemia da COVID-19.  Essa tentativa de silenciamento de um dos principais pesquisadores das repercussões sanitárias e sociais da COVID-19 acabou resultando em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que, em tese, deve sustar o andamento do processo. Entretanto, a mensagem a Hallal já foi dada e ela é no sentido de que ele não se calar, poderá acabar perdendo o seu emprego. Quero aqui frisar se o professor Pedro Hallal vier a ser demitido no futuro, a grande perdedora será a ciência brasileira, pois certamente alguma instituição estrangeira rapidamente dará emprego e guarida a ele.

Um segundo caso que veio recentemente à tona, não por causa de pressão judicial, mas pelo fato do pesquisador ter sido sequestrado e fisicamente agredido é o do biólogo e pós-doutorando do Instituto de Pesquisas da Amazônia, Lucas Ferrante, que têm se destacado por publicações importantes sobre o avanço do desmatamento na Amazônia, inclusive sobre terras indígenas, e pela situação desastrosa em que se encontra o Amazonas em função do descontrole da pandemia da COVID-19.  Segundo informe pelo site “The Intercept”, Lucas Ferrante foi vítima até uma espécie de sequestro relâmpago seguido de agressões cujo objetivo não era levar seus pertences pessoais, mas obrigá-lo a se calar.

Já no caso da geógrafa Larissa Bombardi, professora do Departamento de Geografia da USP, o motivador de ataques e ameaças foi a exitosa publicação do livro “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que ganhou grande repercussão dentro e fora do Brasil em função da meticulosa documentação da forma pela qual venenos agrícolas altamente tóxicos estão sendo amplamente utilizados no Brasil, o que implica na disseminação de graves riscos à saúde humana e aos ecossistemas naturais.  Após uma série de ataques em redes sociais e até ameaças contra a sua integridade física, Larissa Bombardi decidiu abandonar o país e continuar suas pesquisas na  Universidade Livre Bruxelas. 

Quando colocados em perspectiva, esses casos revelam que ao contrário do período da ditadura militar de 1964 quando agia livre e impunemente o famigerado “Comando de Caça aos Comunistas” (CCC), no momento temos um outro CCC em ação, o Comando de Caça aos Cientistas. E o interessante notar que as faces de alguns membros desse novo CCC são públicas e agem até com a benção de quem deveria defender os cientistas ameaçados.  O mais curioso é que ao forçar o auto-exílio de pesquisadores, fato que já ocorreu no período da ditadura de 1964, os novos “caçadores” podem estar piorando a sua própria situação por vários motivos. O principal deles é que Larissa Bombardi não apenas terá mais recursos para continuar seus estudos enquanto estiver em Bruxelas, mas também, graças à internet, poderá disseminar o conhecimento adquirido com liberdade e mais capacidade de difusão. 

Mas como nem todos poderão ou quererão se auto-exilar, estas perseguições a cientistas engajados em transmitir o conhecimento científico ao principal interessado, o povo brasileiro, não irão cessar com notas de protesto. As associações e sociedades científicas vão ter que agir firmemente para impedir qualquer tentativa de coerção dos membros da comunidade científica. Uma primeira oportunidade seria o engajamento na anulação da Portaria nº 151, de 10 de março de 2021, do ICMBio (Diário Oficial da União de 12/03/2021) que objetivamente criou um sistema de censura dentro do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Essa portaria é para mim é a pedra angular de um sistema que oficializa a perseguição à liberdade de cátedra e autonomia dos cientistas brasileiros e, por isso, deveria ser exemplarmente repudiada até que ela seja anulada.

Aos membros da comunidade científica brasileira que acharem que os problemas de Hallal, Ferrante e Bombardi nunca serão os seus, dedico a citação do pastor luterano alemão Martin Niemöller que testemunhou o holocausto nazista:

“Primeiro, eles vieram atrás dos socialistas e eu não falei abertamente – porque não era socialista.

Aí eles vieram atrás dos sindicalistas e eu não falei – porque não era sindicalista.

Então eles vieram atrás dos judeus, e eu não falei – porque não era judeu.

Então eles vieram atrás de mim – e não havia mais ninguém para falar por mim.”

“Má condução da pandemia está passando de todos os limites”

 O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro

Por Edison Veiga para a Deutsche Welle

Em entrevista, epidemiologista brasileiro fala sobre carta que publicou na “The Lancet” para chamar atenção da comunidade científica internacional para a maneira “vergonhosa” como o governo Bolsonaro conduz a pandemia.

Coordenador do Epicovid-19, primeiro estudo brasileiro a avaliar a magnitude da pandemia do coronavírus, o epidemiologista e educador físico Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), publicou na revista médica britânica The Lancet, na última sexta-feira (22/01), uma dura crítica à maneira como o governo brasileiro está conduzindo a crise sanitária.

Intitulada SOS Brasil: ciência sob ataque, a carta, endereçada à comunidade científica, inclui números da pandemia do Brasil e relembra momentos em que o presidente da República, Jair Bolsonaro, agiu minimizando ou desacreditando a gravidade da situação.

“A falta de ação [do governo federal, quanto ao coronavírus, motivou a carta]. A má condução da pandemia pelo governo brasileiro está passando de todos os limites e, agora, com essa questão da vacinação, a situação ficou insustentável. Achei que a comunidade científica internacional deveria saber do que está acontecendo”, disse Hallal em entrevista à DW Brasil.

Em trecho do documento, ele afirma que “a resposta trágica do Brasil à covid-19 tem um preço”. “A população brasileira representa 2,7% da população mundial. Se o Brasil também representasse 2,7% das mortes por covid-19 (isto é, tivesse uma performance no enfrentamento da covid-19 igual à média mundial), 56.311 pessoas teriam morrido. Contudo, até o dia 21 de janeiro de 2021, 212.893 pessoas haviam falecido devido à covid-19 no país”, prossegue.

“Em outras palavras, 156.582 vidas foram perdidas por causa do mau desempenho brasileiro no enfrentamento da pandemia. Atacar pesquisadores definitivamente não vai ajudar a resolver o problema”, critica.

The Lancet, fundada em 1823, é considerada uma das mais prestigiadas publicações médicas internacionais.

A divulgação da carta aumentou a perseguição, sobretudo nas redes sociais, que já vinha sendo sofrida por Hallal desde que começou o trabalho à frente do Epicovid-19 e passou a se posicionar publicamente com orientações para a contenção da disseminação do vírus.

No recorte gaúcho da pesquisa, o Epicovid entrevistou e testou, até o momento, 4,5 mil pessoas desde o início da pandemia. Na abordagem nacional, foram analisadas 33.250 pessoas de todos os estados da federação.

No último dia 11, Hallal participou de um programa veiculado pela Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Ele foi questionado como se infectou pelo coronavírus e recusou-se a responder. Com o epidemiologista já fora do ar, o deputado federal Bibo Nunes (PSL) e o jornalista Júlio Ribeiro passaram a criticá-lo. Um trecho da gravação foi compartilhado no perfil de Bolsonaro no Twitter, insuflando críticas ao acadêmico.

DW Brasil: O que motivou o senhor a escrever essa carta publicada pela revista The Lancet?

Pedro Hallal: Em primeiro lugar, a falta de ação [do governo federal, quanto ao coronavírus]. A má condução da pandemia pelo governo brasileiro está passando de todos os limites e, agora, com essa questão da vacinação, a situação ficou insustentável.

Achei que a comunidade científica internacional deveria saber do que está acontecendo. E também houve os ataques diretamente a mim. Na verdade, o que me motivou a escrever a carta especificamente foi o Twitter do presidente da República ter publicado aquele trecho da entrevista, quando o deputado e o jornalista me atacaram.

O senhor se refere aos comentários veiculados, no último dia 11 de janeiro, pela Rádio Guaíba, quando o deputado federal Bibo Nunes (PSL) e o jornalista Júlio Ribeiro davam a entender que o senhor, por ter contraído a covid-19, seria um exemplo de que o isolamento social não funciona – ou que o senhor não segue o que recomenda. Podemos dizer que esse episódio, com o posterior compartilhamento do trecho pelo Twitter de Bolsonaro, incitou os ânimos dos críticos?

Precipitou muitos dos ataques que foram feitos a mim. O vídeo original, de 12 minutos, é um ataque absurdo [do deputado], totalmente descontrolado, numa posição incompatível com o cargo que ocupa. Obviamente as devidas providências, se necessárias, serão tomadas.

Tem uma série de absurdos que estamos tratando com o devido cuidado. Estou estudando, mas é realmente um ataque muito direto à minha pessoa. Tem injúria ali, tem uma série de coisas. Talvez sobre o caso eu vá tomar uma providência.

Sobre a carta publicada pela revista The Lancet, como foi a reação de seus colegas? Como tem sido a repercussão no meio acadêmico?

Muito positiva e impressionante. Recebi milhares [de mensagens], e digo milhares com a maior tranquilidade, acho que já dá para dizer dezenas de milhares. Tem um abaixo-assinado circulando de alguns cientistas brasileiros em defesa da minha situação. A reação foi positiva. O pessoal está indignado com o ataque que eu estou sofrendo e com a má condução da pandemia.

O assunto principal não é o ataque a mim. O assunto principal não é se o deputado federal Alcibio [nome de Bibo Nunes] é um bom ou um mau deputado, se coloca outdoor com dinheiro público e todos os casos de corrupção atribuídos a ele.

Na verdade o que importa é como o governo brasileiro vem conduzindo a pandemia. E a carta escancara para o mundo a vergonha que tem sido o desempenho brasileiro no enfrentamento à pandemia.

E críticas? A carta também está motivando esse tipo de resposta?

Chegaram a mim umas cinco ou seis. Uma, de um médico do Rio de Janeiro, tentando usar argumentos científicos, falando de cloroquina, aquela coisa de sempre.

Bem agressiva, usando argumento de autoridade pelo fato da formação dele, em medicina. Recebi ainda dois e-mails com conotação religiosa, dizendo que Deus vai proteger o presidente das forças do mal e que talvez eu seja uma das forças do mal.

Em algum momento essas críticas passaram ou têm passado do aceitável para um debate?

As eventuais ameaças que recebi durante a pandemia [pelo trabalho à frente do Epicovid-19], e não foram poucas, essas foram encaminhadas para investigação à Polícia Federal e tramitam em sigilo. São ameaças, sim, de apoiadores do presidente.

PS do Blog da Saúde:  A carta do epidemiologista Pedro Hallal publicada na na Lancet, em inglêsA versão em português da mensagem faz parte do apêndice. Nós a reproduzimos, na íntegra, abaixo.

   


fecho
Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui! ].