Ciência: um crescente mal-estar e a necessidade das mudanças, por Peter Schulz

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Por Peter Schulz para o “Jornal da Unicamp”

O mal-estar, para deixar claro de início, é em relação ao desmesurado universo da produção científica, bem como às práticas medir esta produção por meio do número de artigos publicados e de citações – que, ao serem adotadas, desmesuram ainda mais esse universo. Já escrevi vários textos neste espaço relacionados, direta ou indiretamente, a este tema. Mesmo instigado por novas fontes e acontecimentos, também sinto um mal-estar em retomar o assunto, afinal, já não falei sobre isso? Porém, pensando melhor e com essa advertência de possível autoplágio, a partir do que eu tenho observado, considero necessário retomar dois textos anteriores: o primeiro que também traz a palavra mal-estar no título[I] e o segundo sobre algumas reações a esse mal-estar e a percepção de que mudanças são necessárias[II]. O que mudou nos poucos anos entre esses textos e o que escrevo agora é que há tanto sinais de mudanças como de preservação da situação (ou seja, reações contra as mudanças). Então, no balanço, talvez valha mesmo a pena retomar a questão.

O adágio “publique ou pereça”, vulgo “publish or perish” é amplamente conhecido no mundo acadêmico e, aos poucos, fora dele. A expressão é antiga: já em 1951, Marshall MacLuhan teria escrito a Ezra Pound que “publicar ou perecer é o lema da espelunca”, sendo que o poeta chamara anteriormente as universidades de espeluncas. Ou seja, o lema é longevo, sobrevivendo e ganhando importância com o passar do tempo no mundo da pesquisa científica. Como exemplo, recolho das buscas um artigo de 1986, de uma médica, Marcia Angel: “Publish or perish: a proposal”[III]. O resumo do artigo, sintetiza a percepção da autora há 35 anos:

“Devido ao fato de que promoções e financiamento de médicos na medicina acadêmica estão estreitamente ligados ao número de publicações, pesquisadores sentem-se impelidos a publicar tão frequentemente quanto possível. Essa pressão leva a um número de práticas desafortunadas na publicação médica, incluindo realizar estudos triviais porque estes rendem resultados rápidos, o desnecessário relato do mesmo estudo em diferentes apresentações, relatar o estudo mais de uma vez e listar como autores pessoas com envolvimento marginal no trabalho. E pode ser também motivação para fraude. Uma maneira efetiva de reduzir essas ofensas e afirmar a supremacia do essencial sobre o volume […] é colocar um teto no número de publicações a serem consideras para fins de promoção ou financiamento. Cada publicação [considerada mais relevante] receberia assim mais atenção…”.

É exatamente a mesma discussão de hoje, passadas essas três décadas e meia! No meio tempo surgiram os rankings globais de universidades (começo do século XXI) que, como um vírus e suas variantes, infectaram o mundo acadêmico. Não é preciso dizer que os rankings são fortemente ligados aos indicadores. Assim, apesar dos diagnósticos bem anteriores à propagação desses novos vírus, até agora poucas medidas de distanciamento à ilusão e ao delírio foram tomadas. Essa frase remete a um artigo recente do jornalista Carlos Orsi: “Medo e delírio na comunicação da ciência”[IV]. O jornalista é atento e arguto observador do mundo da ciência e, 35 anos depois da médica norte-americana, dispara algo similar sobre uma plausível grande parcela dos trabalhos e o cenário em que se inserem:

“São trabalhos que existem porque é preciso cumprir alguma meta burocrática de publicações para conquistar este ou aquele índice neste ou naquele ranking, não porque havia uma questão legítima a ser respondida, um aspecto relevante da natureza a ser explorado, uma hipótese viável a ser testada; e que são conduzidos no limite inferior da qualidade metodológica, às vezes representando pouco mais do que pobres arremedos”.

E causticamente, sem o compromisso da médica com alguma solução, afinal, cabe à academia mesmo cuidar disso, finaliza: “esperamos que os cientistas se resolvam com suas ilusões (aparecer nas listas de mais influentes, por exemplo) e as universidades despertem de seus delírios de grandeza (querer subir nos rankings para emparelhar com Oxford, outro exemplo).

Mas isso tudo pode parecer apenas ressentimento de alguns muitos, afinal o tal “publique ou pereça” tem lá seus méritos e, de fato, em um estudo de caso (economia nas universidades holandesas), Henrik van Dalen aponta para uma comunidade acadêmica dividida[V]: “professores titulares enxergam, mais do que outros membros do corpo docente, lados positivos do princípio “publish or perish” e virtualmente nenhuma desvantagem”. Esse artigo acadêmico de 2021 mostra que nos últimos anos, publicar ou perecer, deixou os espaços de ensaio e opinião para virar objeto de pesquisa científica. É que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionada em artigos no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos em diferentes áreas sobre este tema vêm crescendo notavelmente nos últimos anos. Voltando à percepção dos professores titulares na Holanda, o recado dado aos pesquisadores mais jovens neste ano (2021) é claro no sítio de assessoria à publicação voltada e esse público (Proof-Reading-Service.com): “Como publicar 50 papers por ano”[VI]. Ao ler o texto, notei que as dicas já são seguidas como um mantra por alguns colegas, segundo confissões ou profissões de fé. A isso somam-se as fábricas de artigos, por meio das quais seu nome pode ser incluído como autor em um artigo pronto, frente a uma “módica” contribuição. Sobre isso, também há um texto na revista Questão de Ciência[VII].

Novamente, a minha história de pesquisador, que sempre valorizou a publicação de artigos em periódicos de seletiva política editorial, etc., etc., (sempre obedecendo ao princípio atribuído a César Lattes: “é muito bom publicar um artigo, desde que se tenha algo a dizer primeiro”), pede que vieses (no caso contra o produtivismo burro para atender às métricas, ainda que muitos dos seus praticantes acreditem que tudo isso é pelo bem da ciência) sejam considerados com cuidado. Assim, nada melhor do que um estudo quantitativo cuidadoso para guiar um pouco a discussão. Um extenso levantamento bibliográfico de artigos e citações de várias décadas e uma acurada análise, realizados por Johan Chu e James Evans[VIII], publicado em outubro de 2021, sugere uma crescente desigualdade nas citações de artigos: cada vez mais são sempre os mesmos citados ao passo que possíveis contribuições importantes passam despercebidas no “dilúvio de artigos” (o corolário é que cresce diluvianamente o número de artigos sem relevância, cumpridores de metas e que também não são citados). Apresento pequenos excertos do texto sobre o cenário delineado (os aspectos metodológicos, dados e resultados podem ser apreciados no link logo acima):

“O dilúvio de novos artigos pode privar revisores e leitores da abertura cognitiva necessária para reconhecer e entender novas ideias […] A atual natureza do empreendimento científico, calcada na métrica de ‘mais é melhor’ pode retardar, ironicamente, o progresso nos campos científicos maiores”.

E atenção para uma das conclusões!

“Sistemas de promoção e reconhecimento que evitem medidas quantitativas e valorizem um número menor de contribuições, mais robustas e inovadoras, poderiam reduzir o dilúvio de artigos competindo por atenção em seu campo”. Chegamos em 2021 a uma proposta já enunciada em 1986, caso alguém se lembre da citação no começo desse texto.

Se “publicar ou perecer” está virando um campo quantitativo de pesquisa, as reações às maneiras automatizadas de avaliação começam a ser qualitativamente revistas mundo afora. Três cientometristas conhecidos e influentes escreveram uma carta, também publicada agora em 2021: “Um apelo por uma mudança radical na avaliação de pesquisa na Espanha”[IX]. O cenário espanhol descrito é muito parecido com o brasileiro: o fetiche em relação ao uso das métricas e suas consequências negativas, enumerando movimentos iniciados na década passada, cujos princípios deveriam ser considerados nas mudanças radicais pedidas. E novos movimentos e mudanças, ainda que não tão radicais, são implementadas. Enumero apenas três delas. A iniciativa é mais antiga, mas segue: é o movimento pela “des-execelência”, iniciado por um grupo de pesquisadores da Universidade Livre de Bruxelas[X]. O site todo é em francês, mas o slogan é autoexplicativo, ainda que misturando francês e inglês: “esqueça seu fator de impacto (que é uma dessas métricas, a mais fajuta delas, na verdade, ainda que amplamente utilizada), aqui temos a des-excelência”.

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De novo aquele muro entre um possível ressentimento(?) e um diagnóstico preciso? Pois a carta do movimento é um diagnóstico acurado. E, como anunciei, mudanças acontecem. Em meados de 2021, saiu o anúncio de que a Universidade de Utrecht na Holanda deixará de lado, pelo menos parcialmente, as métricas[XI]. O autor do projeto da mudança de avaliação declarou para a revista Nature: “fatores de impacto – bem como métricas relacionadas, como o índice H – contribuem para a ‘produtificação’ da ciência, que valoriza volume em vez de boa pesquisa […] Isso se tornou um modelo muito doentio, que vai além do que é realmente relevante na ciência”.

Nas últimas semanas, uma pequena nota no jornal francês, Le Monde[XII], trouxe comentários sobre estas mudanças em vários países, inclusive na França, com avaliações se distanciando das métricas: ‘se não é uma revolução, é uma mudança cultural, de paradigma’. Por que a mudança? Segundo comentário de Chérifa Boukacem, professora da Universidade Claude Bernard-I em Lyon, “passamos a pensar em ‘publicação’ e não mais em ‘pesquisa’. Não tentamos mais produzir conhecimento, mas nos perguntamos que tipo de artigo seria interessante fazer”. Fica no ar a pergunta: interessante para que ou para quem? Resposta possível: um fim em si mesmo.

É hora de discutirmos mais detidamente intramuros acadêmicos o que estamos fazendo por aqui, com os medos, ilusões e delírios. As ideias e ações surgem em vários lugares! Precisamos de novas cenouras e novos rumos.

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Observação: Os artigos publicados não traduzem a opinião do Jornal da Unicamp. Sua publicação tem como objetivo estimular o debate de ideias no âmbito científico, cultural e social.


[I]https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/malaises-da-ciencia

[II]https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/artigos/peter-schulz/um-manifesto-pela-universidade-publica

[III]https://www.acpjournals.org/doi/pdf/10.7326/0003-4819-104-2-261

[IV]https://revistaquestaodeciencia.com.br/apocalipse-now/2021/11/21/medo-e-delirio-na-comunicacao-da-ciencia

[V]https://www.researchgate.net/publication/344025747_How_the_Publish-or-Perish_Principle_Divides_a_Science_The_Case_of_Academic_Economists

[VI]https://www.proof-reading-service.com/en/blog/publish-50-papers-year/

[VII]https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2021/11/23/fabricas-de-artigos-falsos-expoem-fragilidade-da-publicacao-academica

[VIII]https://www.pnas.org/content/118/41/e2021636118

[IX]https://revista.profesionaldelainformacion.com/index.php/EPI/article/view/86526/62971

[X]https://lac.ulb.ac.be/LAC/home.html

[XI]https://www.nature.com/articles/d41586-021-01759-5

[XII]https://www.lemonde.fr/sciences/article/2021/11/23/chambardements-dans-l-evaluation-des-scientifiques_6103279_1650684.html

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da Unicamp” [Aqui! ].

De volta para o futuro: o ensino híbrido sempre existiu, o nosso problema é outro

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Na metade do ano dois da pandemia, agita-se o movimento de volta para o futuro no ensino superior. Às vésperas do fim da maioria das medidas de restrição devidas à COVID-19 no Reino Unido, apesar da volta de um preocupante aumento no número diário de infecções por lá, uma matéria publicada no The Guardian, traz a manchete de que a “COVID-19 tem sido um grande catalisador” de mudanças para as universidades no mundo pós-pandêmico[I]. O mote é o anúncio recente de que a Universidade de Manchester manterá permanente as aulas no formato remoto e que outras instituições tendem a seguir esse caminho. O bom jornalismo do portal inglês aprofunda as opiniões dos concordantes e dos discordantes, muitas das quais, ambos os lados, são vistas por aqui.

Os líderes de muitas universidades na terra da rainha declaram que o mundo digital “aumenta a experiência dos estudantes”. Os investimentos futuros serão em propriedades digitais e não mais em instalações físicas e juram que o custo disso é alto, enquanto os céticos alfinetam dizendo que essa mudança é, ao contrário, justamente para diminuir os custos. Outros se entusiasmam, dizendo que a situação em que vivemos é o tal grande catalisador de boas e grandes mudanças proporcionadas pelas realidades virtual e aumentada oferecidas pela tecnologia. Sorriem também para as vastas possibilidades no mercado internacional de estudantes, já que, “em vez de ter que viajar por meio mundo até uma universidade no Reino Unido, eles [os estudantes] poderão estudar de seus países natais, uma opção mais barata e acessível para a maioria dos jovens.” Por outro lado, muitos consideram isso um engodo. De fato, parece uma burla desse novo e querido anseio das universidades, a internacionalização -, pois o diploma da universidade X pode ser obtido remotamente, mas isso não tem nada a ver com a experiência real da convivência presencial em outro lugar. E levar essa experiência de volta ao país de origem. As autoridades universitárias alardearão o aumento dos indicadores de internacionalização ao mesmo tempo que diminuem o valor e o número das bolsas de estudo, reservando a experiência real para uma elite ainda menor.

Os docentes e administradores discordantes advertem que é preciso pensar um pouco mais: devagar com o andor. A percepção é de que os estudantes estão ansiosos pela volta do “cara-a-cara” na sua formação. Movimentos estudantis pedem reembolso, pois se sentem logrados pagando o mesmo pelo ensino remoto, lembrando que no Reino Unido o ensino superior público também é pago. Na matéria do The Guardian, um dos entrevistados lembra que obviamente seminários e laboratórios são melhores em grupos presenciais pequenos, mas mesmo as grandes aulas presenciais são melhores, pois percebe-se se a aula está sendo boa ou não pela reação corporal dos estudantes, permitindo ajustes. De um modo geral, aulas expositivas em grandes turmas são vistas – lá e cá – como pouco efetivas, que dirá quando são remotas. E uma citação direta de um dos entrevistados:

“Enquanto você disser que as aulas são online, isso perpetua a noção de que toda a experiência do estudante é online. Quando estudantes dizem que querem aulas [presenciais], não que dizer que querem aulas, eles querem ir aos cafés com os colegas após as aulas e conversar sobre elas[II]. Eles querem se engajar. Portanto, o que você realmente deve fazer é se perguntar: como o seu campus deve ser usado para estimular o engajamento?”

O entrevistado acrescenta que baniu a expressão “ensino híbrido”, pois considera-a totalmente inútil para discutir a situação presente. Concordo com o colega além-mar, pois, como anunciado no título acima, ensino híbrido já existia há muito tempo. Vejamos: o “híbrido” se refere a essa mistura entre presencia e virtual. Nos idos dos anos 1980 o ensino híbrido era possibilitado aos estudantes, pelo menos no curso de física na Unicamp. Não era obrigatório assistir as aulas, pelo menos para boa parte dos professores. Você poderia, se quisesse, estudar na biblioteca – equipamento da época para o ensino remoto – e só apresentar-se nas avaliações. E tirar dúvidas com os professores fora da sala de aula, que não se ofendiam pelas faltas. Muitos colegas se formaram com esse “ensino híbrido”. Eu ia na maioria das aulas, mesmo porque não eram muitas, mas ficava imaginando os colegas de alguns outros cursos que ficavam de manhã e de tarde, se segunda a sexta, sentados olhando os professores de olhos abertos ou fechados. E a biblioteca era tão interativa quanto as plataformas digitais de hoje, embora não oferecessem tanta diversidade e variedade de fontes. Aqui dou a mão à palmatoria, hoje podemos dar acesso, via essa “biblioteca aumentada” a muito mais informações e materiais aos estudantes. No entanto, com o passar do tempo e o avanço do gerencialismo nas universidades o controle de frequência passou a ser cada vez mais valorizado, na minha opinião tendo mais a ver exatamente com controle do que ensino. E assim, enquanto debatemos que o número de aulas precisa diminuir em favor de outras práticas de ensino, colocamos novamente as aulas na centralidade da experiência universitária. Com a possibilidade das aulas remotas “catalizadoras” de um “brilhante” futuro corremos o risco de um retrocesso mediado pela tecnologia. O problema não é o “híbrido” que já existia, mas sim o de escamotear a questão do que de fato será considerado a experiência universitária no futuro. Argumentos econômicos já surgem onde não é necessário, como a junção de turmas nas aulas online. Para que dar a mesma aula duas ou três vezes se é possível juntar numa turma só? Porque nenhuma aula é igual, as construções de significado são diferentes em momentos e turmas diferentes e o docente pode melhorar a mesma aula a cada vez que é dada e, se necessário, retomar as mudanças para a primeira turma na semana seguinte.

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Ensino híbrido, portanto, não é coisa recente em seu conceito, e a aprendizagem remota, graças à tecnologia, povoa o imaginário ainda há mais tempo. Vejamos o trabalho do ilustrador Arthur Radebaugh (1906-1974), “engenheiro da imaginação” nos anos 1950 e da década seguinte, que influenciou a visão de progresso e de futuro de mais de uma geração nos EUA[III]. Suas tiras de quadrinhos eram publicadas aos domingos e destaco a que ilustra a coluna: “educação aperta botão”. O quadrinho se refere provavelmente a todos os níveis de ensino, mas a legenda exalta a possibilidade de que as “escolas de amanhã” terão mais alunos e menos professores. O ensino será por meio de aulas e avaliações remotas. Nota-se que essa visão é pré-internet: apenas a professora é remota, os alunos são presenciais socializando com máquinas. A internet de hoje, imprevisível na época, possibilita agora que todos estejam remotos.

Na discussão do que será nosso futuro é importante não se deixar seduzir apenas pelas possibilidades do enxoval tecnológico e sim lembrar o que significa a universidade e que presencial e virtual não são a mesma coisa. Caso contrário, preservaremos os anéis no lugar dos dedos. A coluna é cheia de opiniões, que não refletem necessariamente a opinião da universidade onde estou, mas precisamos é de evidências para discutir o futuro e as que temos são ainda poucas e enviesadas pela emergência que nos aflige.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.


[I]https://www.theguardian.com/education/2021/jul/13/covid-has-been-a-big-catalyst-universities-plan-for-post-pandemic-life

[II] Importante no ensino superior e nas ciências: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/comunicacao-da-universidade-e-cantinas

[III] O link traz várias dessas ilustrações: https://designyoutrust.com/2018/12/closer-than-we-think-40-visions-of-the-future-world-according-to-arthur-radebaugh/

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da Unicamp [Aqui! ].

Fim do ensino superior público pago no Chile, por que o silêncio?

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

Governo chileno aprova reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal
Foto: Alex Ibañez/ Presidencia do Chile

*Por Peter Schulz

Há pouco mais de dois meses um fato banal em si transformou-se em grande notícia. O fato era a entrega de um relatório encomendado pelo governo federal, um ”ajuste justo” proposto pelo Banco Mundial. Entre outros, um ajuste bastante divulgado pelos grandes meios de comunicação era o fim da gratuidade no ensino superior público no Brasil[I]. A repercussão foi enorme, lançando-se mão de exemplos bem sucedidos nesse sentido, como o da Inglaterra. A ampla divulgação não trazia junto o “outro lado”, o contraditório. As críticas a essa proposta apareceram em veículos de menor penetração e, em parte, por meio das redes sociais. Uma vez formados esses polos, não ocorreu propriamente um debate público, não apareceram tréplicas para provocar reposicionamentos ou aprofundar as argumentações. Polarizações sem o necessário embate qualificado são comuns e um caso específico foi analisado de forma bastante clara e será útil para entender a pergunta do título: a (des)informação sobre um ataque com mísseis à Faixa de Gaza em 2014. A análise, tanto da cobertura de imprensa de um lado e a omissão de outro, quanto da repercussão nas redes sociais, é de Gilat Lotan da New York University[II]. Vale a pena olhar a imagem da rede de respostas pelo Twitter sobre esse fato a partir de um Twit do Haaretz.com. É possível ver que as comunidades de Twitters “pró-Israel” e as “pró-Palestina” praticamente não se conectam: polarizam-se, mas cada um não se interessa pelo outro lado da história. Um dos “olhos” – como são chamadas as frases em destaque de um artigo – no texto de Lotan é digno candidato a epígrafe: “nós não estamos vendo pontos de vista diferentes e sim mais do mesmo”. Um subtítulo também é sugestivo: “a Mídia constrói a realidade”.

Quanto aos grandes meios de comunicação, Lotan notou que portais de um dos polos anunciaram claramente o incidente, enquanto que os do outro polo pouca menção faziam a isso. Isso lembra bem o caso de poucos dias atrás. Nos desdobramentos do debate (que acabou não existindo) a partir do relatório do Banco Mundial, seria importante uma análise mais aprofundada da realidade nos países onde o ensino superior público é pago, como Estados Unidos ou Inglaterra[III] e, mais perto daqui, o Chile. Nesse contexto, foi quase só por acaso que ficamos sabendo que “O congresso do Chile aprovou lei de gratuidade da educação superior” no dia 24 de janeiro (manchete do eldiario.es[IV]). Para chegar pelo Google a essa matéria, passei primeiro por uma pequena nota Jornal da Ciência da SBPC e pelo blog do Freitas[V], que exibe o link para matéria na Carta Educação, o único veículo de comunicação que parece ter divulgado a noticia por aqui. Assim temos um relatório que propõe uma coisa (ensino superior público pago) amplamente divulgada e um fato importante, mas no sentido contrário (fim do ensino público pago em um país vizinho), que foi obliterado. Lembrando o texto de Lotan: a mídia constrói a realidade?

Voltando ao fato principal, qual é a notícia? A Câmara dos Deputados aprovou com 102 votos e duas abstenções a lei de ensino superior, que universaliza sua gratuidade e introduz outras reformas em um sistema vigente desde a ditadura de Pinochet. O plano já vem de certo tempo e começou a ser posto em marcha em 2016[VI] debaixo de críticas vindo de diferentes pontos do espectro político. O que é comum em várias das narrativas é o alto custo do sistema que agora tem finalmente o marco legal para sua mudança: as mensalidades das universidades chilenas estão entre as mais caras do mundo em termos de paridade de poder aquisitivo[VII]. Esse modelo, que agora é reformado, se correlacionou como uma enorme expansão do ensino superior, mas desonerando o Estado à custa de onerar as famílias e os estudantes. De forma não sustentável. São conhecidos os protestos estudantis no Chile em 2006 e 2011, esses últimos tendo motivado a reforma em questão.

Entender um sistema de ensino em outro país não é tarefa rápida e simples, mas é imprescindível para uma discussão qualificada. Tomar apenas um ou outro aspecto de forma isolada é simplesmente um exemplo do que já foi batizado como sincericídio[VIII]. O que deve ser oferecido, portanto, é acesso a diferentes narrativas. Aqui eu apresentei algumas e acrescento ainda a de J. Salvador Peralta, publicada no portal Times Higher Education[IX] (clique abaixo) em julho do ano passado, ou seja, em pleno debate da lei que foi aprovada praticamente por unanimidade meses depois.

Ao considerarmos exemplos de qualquer lugar que seja, precisamos nos debruçar sobre essas experiências ao longo do tempo como um todo, pois só assim podemos perceber que o que é apresentado por alguns como uma solução ‘mágica’ (e trágica) acabou em farsa e precisou ser substituída. Convido a todos a acompanhar o desenvolvimento do ensino público e gratuito no Chile. Torço por ele, pois Peralta adverte que a reforma estaria condenada por ser boa demais. Espero também que tenhamos mais acesso às informações sobre isso, sem as manipulações de dados, como as confessadas recentemente pelo Banco Mundial[X].

 [I] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/11/27/o-banco-mundial-contra-ataca

[II] https://medium.com/i-data/israel-gaza-war-data-a54969aeb23e

[III] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/universidades-publicas-ameacadas-em-outros-lugares

[IV] http://www.eldiario.es/sociedad/Congreso-Chile-gratuidad-educacion-superior_0_733176683.html

[V] https://avaliacaoeducacional.com/2018/01/28/chile-aprova-gratuidade-no-ensino-superior/

[VI] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/01/1728059-chile-passa-a-ofertar-ensino-superior-gratis.shtml

[VII] https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/reportagens/reforma-do-ensino-superior-chileno-entra-em-pauta

[VIII] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/roberto-romano/sobre-o-sincericidio

[IX] https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/latin-america-university-rankings-2017-unwelcomed-advance-chile

[X] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/14/economia/1515899491_574904.html

*Peter Schulz foi  foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

FONTE: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/fim-do-ensino-superior-publico-pago-no-chile-por-que-o-silencio