Empresa suíça faz projeções econômicas para Brasil e América Latina, e traça panoramas futuros do mercado de seguros

Relatório aborda projeções de recuperação econômica e PIB para Brasil, América Latina e global, além de trazer panoramas do próximo período do mercado de seguros

swiss re 2022

Abaixo são apresentadas algumas informações específicas sobre América Latina, com projeções do PIB e inflação para a América Latina. Logo em seguida, o relatório com dados mais amplos.
• A recuperação econômica está em andamento na América Latina e projetamos um retorno ao nível do PIB pré-pandêmico em 2022. No entanto, esperamos um crescimento econômico mais lento na região em 2022 e 2023 do que em 2021, devido ao aperto da política monetária e persistência estrutural problemas existentes antes da pandemia, como finanças públicas insustentáveis e baixa produtividade. Retrocessos pandêmicos e aumento da inflação são alguns dos principais riscos para a recuperação, enquanto a instabilidade política e social e a incerteza política irão obscurecer ainda mais as perspectivas à medida que entrarmos em outro período eleitoral pesado na região.
• Projeta-se que o PIB real regional cresça 6% em 2021, seguido por um crescimento mais moderado de menos de 3% em 2022 e 2023.
• Para os dois maiores países da região, Brasil e México, projetamos um crescimento da ordem de 5% e 6% neste ano, respectivamente. Para o Brasil, esperamos crescimento de menos de 1% no próximo ano e 2% em 2023. Ao passo que projetamos crescimento de cerca de 3% para o México no próximo ano e 2,2% em 2023.
• O ano do Brasil será fortemente afetado pelo processo eleitoral de outubro próximo. Esperamos muita volatilidade financeira à medida que os investidores avaliam as perspectivas de continuidade ou mudança na direcionalidade das políticas públicas.
• O forte crescimento global, principalmente nos principais parceiros comerciais da região, Estados Unidos e China, e os altos preços das commodities foram fatores importantes para a recuperação da América Latina neste ano. No entanto, o pico do crescimento global ficou para trás, portanto, os formuladores de políticas terão que contar com as condições domésticas para lidar com o malabarismo simultâneo de uma crise de saúde pública e uma recessão econômica.
• Esperamos que a inflação permaneça elevada na América Latina, apesar da redução dos efeitos de base da baixa inflação do ano passado. A inflação segue sendo alimentada pelo impacto da depreciação cambial, da alta dos preços das commodities, da recuperação do consumo, do rompimento das cadeias produtivas e da crise de energia. Maiores rendimentos dos EUA podem pressionar ainda mais o câmbio e causar repasse da inflação de importação.
• Há uma mistura de fatores transitórios e estruturais, como mudanças de preços relativos devido a mudanças induzidas por pandemia no comportamento do consumidor, desalinhamento da demanda e capacidade de produção, tensão da cadeia de abastecimento global e interrupções relacionadas com a pandemia dos mercados de trabalho. .
• A recente piora da dinâmica inflacionária também aumentou os riscos de estagflação (alta inflação, baixo crescimento e alto desemprego) para os próximos anos, especialmente no Brasil. A inflação do Brasil subiu novamente em outubro, 10,7% no comparativo anual contra 10,3% no comparativo anual em setembro. Nossas projeções incluem outro aumento de 150pb em dezembro para uma taxa básica de juros de 9,25% para 2021 e 11,25% para 2022. A taxa começou o ano em 2%.
• Os níveis da dívida em relação ao PIB aumentaram na região no ano passado devido à crise da COVID e não se espera que diminuam no curto prazo. O baixo crescimento econômico para os próximos anos é uma ameaça ao ajuste fiscal necessário somado aos grandes desequilíbrios fiscais existentes antes da pandemia, especialmente no Brasil. Essa situação, então, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida de longo prazo e aumenta os riscos de crédito soberano, podendo levar a rebaixamentos de classificação. A Colômbia perdeu sua classificação de grau de investimento da Fitch e S&P este ano.Tabela: Crescimento real do PIB e inflação na América Latina

Tabela PIB

Forte crescimento previsto para os mercados globais de seguros à medida que aumenta a demanda por proteção contra riscos, diz o Swiss Re Institute

• Espera-se que os prêmios de seguros globais cresçam 3,4% em termos reais em 2021, 3,3% em 2022 e 3,1% em 2023
• O mercado mundial de seguros deverá exceder US$ 7 trilhões em prêmios pela primeira vez em meados de 2022, mais cedo do que o esperado
• Rentabilidade do seguro apoiada por maior conscientização quanto ao risco tanto no segmento de vida quanto não-vida, após a pandemia da COVID-19, e o fortalecimento contínuo do preço de segurosZurique, 17 de novembro de 2021 – O último estudo sigma do Swiss Re Institute prevê que o setor de seguros globais atinja um novo recorde em prêmios globais até meados de 2022, ultrapassando US$ 7 trilhões. Isto vem antes do que a Swiss Re estimou em julho e reflete a crescente conscientização quanto ao risco, aumentando a demanda por proteção e o fortalecimento contínuo do preço de seguros nas linhas comerciais de seguros não-vida. A perspectiva do setor de seguros também é apoiada por uma forte recuperação cíclica do choque da COVID-19, mas espera-se que o crescimento econômico desacelere nos próximos dois anos devido a uma crise de preços de energia em desdobramento, problemas prolongados do lado da oferta e riscos de inflação. Suporte estrutural de longo prazo para o crescimento é necessário, como mostra a análise de resiliência do Swiss Re Institute neste relatório sigma.

A mudança climática e a digitalização são tendências significativas que estão moldando a economia mundial e os mercados de seguros. A rápida descarbonização está se tornando imperativa e a abordagem da sociedade para a transição a uma economia verde determinará as perspectivas econômicas. O setor de seguros pode apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, não apenas absorvendo perdas por desastres, mas também promovendo investimentos sustentáveis de infraestruturas que ajudam a mitigar o impacto de condições climáticas extremas voláteis. A adoção de tecnologias digitais não está apenas desempenhando um papel no aumento do crescimento da produtividade global, mas a pesquisa da Swiss Re também descobriu que a pandemia transformou a receptividade dos consumidores para interagir digitalmente com os seguros, apontando para o potencial de crescimento. Uma terceira tendência significativa é a crescente divergência do crescimento dos países e dos indicadores socioeconômicos, como a desigualdade – um potencial risco adverso.

“A recuperação econômica que estamos vivendo é cíclica e não estrutural, com resiliência macroeconômica mais fraca hoje do que antes da crise da COVID-19. Como tal, devemos ser tudo menos complacentes. Dada sua capacidade e experiência para absorver riscos, a indústriade seguros é crucial para tornar as sociedades e economias mais resilientes. No entanto, para um crescimento inclusivo e sustentável, todos devem estar a bordo. O “crescimento verde” só é sustentável se for também inclusivo. Temos uma oportunidade única de construir um sistema de mercado melhor. Para isso, todas as partes interessadas deverão aceitar e internalizar os custos da mudança climática, e os formuladores de políticas deverão levar em conta os efeitos distributivos de suas políticas econômicas entre suas populações. Isso ajudará a criar a transição que precisamos para um caminho sustentável rumo a uma economia líquida zero até 2050″, disse Jerome Haegeli, Swiss Re Group Chief Economist.

O estudo sigma do Swiss Re Institute prevê que o crescimento do PIB global será forte em 2021, em 5,6%, diminuindo para 4,1% em 2022 e 3,0% em 2023. A inflação é o risco macroeconômico prevalecente a curto prazo, alimentada pela crise energética e por questões prolongadas do lado da oferta. Espera-se que a pressão de preços seja mais aguda entre os mercados emergentes e no Reino Unido e nos EUA.

A recuperação do mercado reflete a resiliência do setor de seguros. O Swiss Re Institute estima que os prêmios globais de seguro não-vida crescerão 3,3% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,3% em 2023. Prevê-se que as taxas de catástrofes de propriedades melhorem em 2022, após um ano de perdas acima da média. Os preços de seguros de responsabilidade civil também devem ser mais fortes no próximo ano devido ao aumento da inflação social, enquanto as linhas pessoais devem se beneficiar dos primeiros sinais de melhoria dos preços do setor de automóveis nos EUA e na Europa. Espera-se que o prêmio do seguro de saúde e médico global aumente, impulsionado pelo crescimento da economia dos EUA e por uma demanda estável do mercado avançado. Espera-se uma forte expansão nos mercados emergentes, com a China projetada para crescer 10% em cada um dos próximos dois anos, em grande parte impulsionada pela forte demanda por seguros médicos, incluindo coberturas de doenças críticas.

Espera-se que os prêmios de vida globais aumentem 3,5% em 2021, 2,9% em 2022 e 2,7% em 2023. Produtos de proteção devem ter uma forte demanda, apoiados por maior conscientização quanto ao risco, recuperação dos seguros em grupo e maior interação digital. Espera-se que os negócios de poupança cresçam moderadamente nos próximos dois anos, refletindo uma leve melhoria nos rendimentos de títulos públicos e uma recuperação no emprego e na renda das famílias. Como a pandemia continua a afetar o setor de seguros de vida, o excesso de mortalidade mostra uma tendência mista.

Ao contrário de muitos países europeus, os EUA experienciaram um contínuo excesso de mortalidade desde o início da pandemia e os benefícios pagos por morte aumentaram no primeiro semestre deste ano. As seguradoras de vida na América Latina têm enfrentado sinistros relacionados à pandemia sem precedentes, já que a região foi atingida de forma particularmente dura pela COVID-19. No Brasil, os sinistros do seguro de vida mais que dobraram em abril de 2021, enquanto a pandemia é o evento mais caro já registrado para a indústria de seguros local no México, totalizando US$ 2,5 bilhões em perdas seguradas em 18 meses até setembro de 2021. Isto supera a perda de US$ 2,4 bilhões do furacão Wilma em 2005.

O aumento da conscientização quanto ao risco está gerando uma demanda mais forte por proteção de seguro. O choque pandêmico destacou o importante papel que o setor de seguros desempenha como um absorvedor de riscos em tempos de crise, fornecendo alívio financeiro às famílias, empresas e governos. Ao mesmo tempo, as disrupções nas cadeias de produção mostram que é necessária uma melhor proteção para melhorar a resiliência da sociedade e o recorde de condições climáticas extremas este ano acrescentam urgência à corrida global para zero emissões líquidas. Os consumidores também estão abertos ao seguro digital e online, e espera-se que cresça rapidamente. Entretanto, o aumento da desigualdade pode exacerbar a inflação social, que é definida como o aumento dos sinistros de seguros impulsionado por grandes custos de litígio.

“As condições de mercado sugerem que a dinâmica positiva de preços continuará em todas as linhas e regiões. O desenvolvimento de sinistros mais elevados, impulsionado pela inflação em todas as linhas de negócios, a inflação social contínua nos EUA e as taxas de juros persistentemente baixas serão os principais fatores para o fortalecimento de preço do mercado”, disse Jerome Haegeli.

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Sobre a Swiss Re

O Grupo Swiss Re é um dos principais fornecedores mundiais de resseguros, seguros e outras formas de transferência de risco baseadas em seguros, trabalhando para tornar o mundo mais resiliente. O grupo antecipa e gerencia riscos, desde catástrofes naturais a alterações climáticas, populações envelhecidas ao crime cibernético. O objetivo do Grupo Swiss Re é fazer com que a sociedade prospere e progrida, criando novas oportunidades e soluções para os seus clientes. Com sede em Zurique, na Suíça, onde foi fundado em 1863, o Grupo Swiss Re opera com uma rede de aproximadamente 80 escritórios a nível mundial.

Os números mostram: agronegócio recebe muitos recursos e contribui pouco para o Brasil

Análise de geógrafos desmistifica a versão de que o agro é a maior força econômica brasileira

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Por Tatiana Merlino para “O Joio e o Trigo”

“Essa é a história do Reino de Agrus. Conta uma lenda que há muitas décadas existia um reino chamado Agrus. Era um lugar com muitas riquezas naturais e que de tão extenso, não dava para ver onde começava e nem onde terminava. O povo do reino de Agrus vivia da agricultura e da pecuária, que eram as mais prósperas de todo o mundo.” 

Assim começa o primeiro episódio do desenho animado “O Reino de Agrus”, que conta a lenda de um povo que tinha a agricultura e a pecuária como suas principais formas de sobrevivência.  “É um poderoso recurso para ensinar as crianças e os jovens sobre a importância que o agronegócio tem em nossas vidas. Ao mesmo tempo em que é uma forma de destacar e valorizar o trabalho no campo, especialmente o dos pequenos e médios produtores”, diz a apresentação sobre o desenho animado. A animação faz parte da campanha “Todos a uma só voz”, projeto de marketing do agronegócio nos meios de comunicação e com foco em crianças e adolescentes . 

A iniciativa é uma das muitas que tentam vender a ideia de que o agronegócio nacional é o salvador da economia brasileira. 

Versão falsa

No artigo “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”, realizado pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) com apoio da fundação Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil e recém publicado, os geógrafos Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb desmascaram a versão de que agronegócio é a maior força econômica do Brasil. 

“O Agro usa diversas estratégias para construir o consenso na sociedade brasileira de que é o setor mais dinâmico, moderno e importante da economia brasileira. No entanto, uma análise detalhada dos números do agro revela outra realidade. A de um setor que recebe muito e contribui pouco com o país”, afirmam Mitidiero Junior, que é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege), e Goldfarb, pesquisadora e vice-presidente da Abra.

Para avaliar o papel do agronegócio na economia do país, os geógrafos analisaram a participação do setor na balança comercial brasileira, no Produto Interno Bruto (PIB),  na distribuição e no recebimento de créditos/financiamento, no ordenamento tributário, na produção de dívidas, na geração de postos de trabalho e renda; na relação com os impactos ambientais e no suprimento da demanda de alimentos. 

“A análise da balança de pagamentos e dos créditos recebidos pelo setor somados aos incentivos fiscais, como é o caso da Lei Kandir, à baixa arrecadação, como no caso do ITR, e à constante renegociação e perdão das dívidas do setor mostra um país atado a uma economia reprimarizada, de uso intensivo de recursos naturais e profundamente dependente”, analisam os autores. 

Domínio da matéria-prima bruta

Em 2019, na balança comercial brasileira, o total das exportações foi de 225 bilhões de dólares, superando o total de importações que chegou a 177 bilhões de dólares. Ou seja, houve um saldo positivo de 48 bilhões de dólares. As exportações estão dominadas pela agropecuária e pela indústria extrativa, pela venda de matérias-primas, enquanto nas importações o domínio marcante está nas compras da indústria de transformação, que correspondem aos produtos manufaturados. 

E a venda de algumas matérias-primas marcam as exportações brasileiras:  a soja (11,57% do valor total das exportações), o petróleo (10,74%), o minério de ferro (8,98%) e o milho (3,20%) são os quatro principais produtos exportados. O café em grão não torrado (2,03%) também se destaca, posicionando-se como o oitavo nas vendas ao exterior. 

A análise aponta para o fato de que a pauta exportadora é dominada pela venda de matérias-primas brutas, sem nenhuma elaboração, com participação tímida dos produtos semielaborados e a pífia importância da venda de produtos de alta elaboração. A soja participa com 11,57%, ao passo que o principal produto da indústria de transformação, que exige alta elaboração, são as plataformas de perfuração, com 1,24% das exportações, praticamente dez vezes menos. 

Já ao se olhar para as importações, há o predomínio dos produtos de média e alta elaboração. 

A partir da análise de determinados dados comerciais, explicam Goldfarb e Mitidiero Junior, a conclusão é que o agronegócio é o salvador da economia nacional. “Seu sucesso estaria expresso nesses números da balança comercial e indicaria que esse é o único caminho de desenvolvimento da economia brasileira. Investir no agro seria a salvação da lavoura”, afirmam os geógrafos. Porém, questionam: “Qual país rico e avançado alcançou esse status produzindo e exportando matéria-prima? Nenhum dos chamados países ricos desenvolveu sua economia sem investimentos pesados no setor industrial e de serviços, acompanhado por investimentos mais pesados ainda em educação, ciência e tecnologia, posicionando-se, a partir dessa estratégia, na divisão internacional do trabalho, da produção e do comércio”.

O gráfico apresenta o saldo da balança comercial do agronegócio e do agregado de outros setores da economia (indústria e serviços). 

Como a análise explica, a forma de exposição dos dados permite a visualização mais concreta, segundo a visão do agro, de que sem a agropecuária a economia brasileira teria ido à falência. Entre 2010 e 2020, os produtos da indústria e serviços dão prejuízo, segundo a ótica da balança comercial, ao passo que a venda dos produtos primários alcança superávits entre as trocas do setor e garante o superávit da balança comercial como um todo.

Retrato do atraso

Em 2019 e 2020, o agro garantiu superávit nas trocas comerciais de matérias-primas de 83,1 e 87,7 bilhões de dólares, respectivamente, enquanto o déficit do agregado dos demais setores chegou a 35 e 36,7 bilhões de dólares. 

Para esses dois anos, o Brasil conseguiu ter superávit geral de 48 e 50,9 bilhões de dólares. “O  argumento é um só, o agro garante a positividade da balança comercial. Contudo, o gráfico é o retrato do atraso. Trata-se da perpetuação histórica de inserção subalterna e dependente do Brasil no comércio e na economia global”, diz o texto dos geógrafos. 

Os autores afirmam que é importante problematizar as informações da balança comercial entre produtos primários, que obteve superávits na média de 82 bilhões de dólares nos últimos cinco anos. O principal produto primário de exportação brasileiro – que é o principal produto de exportação de toda a economia – é a soja. 

A diferença do valor de exportação entre o primeiro e o segundo produto mais vendido pelo agro mostra o peso dessa produção: em 2019, o Brasil exportou 26 bilhões de dólares em soja, sendo que o segundo produto primário mais vendido foi a carne bovina, com 7,6 bilhões de dólares. “O que para alguns pode ser interpretado como o sucesso da sojicultura, para outros mostra-se como uma clara dependência da pauta exportadora basicamente em um produto apenas”, sinalizam.

O terceiro mais vendido, em 2019, foi a celulose (7,4 bi), seguido do milho (7,2 bi) e da carne de frango (6,9 bi). O sexto colocado em vendas merece destaque pelo seu significado para além dos números, o farelo de soja, com 5,8 bilhões de dólares. 

Por que o Brasil precisa comprar produtos de fácil produção nacional?

No caso interno, analisando as exportações de matérias-primas, o Brasil isenta, por meio da Lei Kandir, a exportação da matéria-prima bruta. Pagar imposto não é, em geral, um hábito comum aos ruralistas, lembram os autores, o que conduz a exportações de mercadorias sem nenhuma industrialização. Ou seja, o próprio Estado brasileiro incentiva essa forma de inserção do país nas relações comerciais globais.

Os dados de importações de produtos agropecuários mostram outro aspecto das trocas comerciais brasileiras. Os quatro principais produtos agropecuários que o país comprou, em 2019, foram: trigo (1,4 bi dólares), peixes (1,1 bi dólares), produtos hortícolas, raízes e tubérculos (1 bi), e papel (850 milhões de dólares). Para nenhum desses produtos existem grandes limitações para produção nacional. “Mesmo com imenso superávit comercial entre os produtos do agro, por que o Brasil precisa comprar produtos de fácil produção nacional?”, questionam Yamila Gordfarb e Marco Antonio Mitidiero.

Os geógrafos analisam também a importação de arroz.  Os dados apontam que, entre os dez produtos agropecuários mais comprados do exterior, entre 2018 e 2020, o arroz ocupa a nona posição. As importações de arroz só cresceram nos últimos anos. Em 2018, foram 614 mil toneladas, chegando em 2020 a quase 1 milhão de toneladas compradas, com o detalhe de que a maior parte é de arroz sem casca semielaborado (730 mil toneladas). “O que faz um país com uma das maiores disponibilidades de terra e água para produção agrícola depender do mercado externo para suprir a demanda de um produto que é a base da alimentação de seu povo? A resposta não é difícil: a falta de uma política agrícola que assegure a soberania alimentar e demais interesses da economia nacional tem permitido que produtores rurais priorizem o lucro obtido com exportações, elevando a importação onerosa e descabida para compensar a falta do produto no mercado interno.”

PIB brasileiro X PIB do agro

O texto ainda analisa a participação do agro no Produto Interno Bruto (PIB).  De acordo com a tabela a seguir, a agropecuária compõe a menor fração do PIB brasileiro. Os dados mostram que, em média, o agro contribuiu com apenas 5,4% do PIB, enquanto o setor industrial com 25,5% e o setor de serviços 52,4%.  Ou seja, o setor que mais produz mercadorias para exportação é o que menos contribui na composição dos valores do cálculo geral de produção de riqueza.

A potência do agro resumiu-se, entre os anos de 2010 e 2018, a um pouco mais que 5% do PIB. Na nova classificação de intensidade tecnológica da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dividida entre alta, média-alta, média, média-baixa e baixa, as atividades econômicas da agricultura, pecuária, florestal e pesca são classificadas no menor estrato (“baixa”), com um percentual de intensidade tecnológica e participação no PIB de 0,27%, enquanto, por exemplo, a indústria farmacêutica (que produz vacinas) contribui com 27,98% e produtos de informática/eletrônicos 24%. 

“A pergunta que salta aos olhos é: como é que o Agro que ‘é tech, pop e tudo’ participa tão pouco da composição do PIB?”, questionam os pesquisadores. 

O agronegócio também passou a calcular o próprio PIB, usando uma metodologia particular e pouco clara, critica a análise. “Para sedimentar a narrativa de que o ‘Agro é tudo’, inventaram o ‘Produto Interno Bruto do Agronegócio’”. 

De acordo com tal cálculo, o agro seria responsável por mais de um quarto do PIB nacional, sendo que, em 2019, totalizou 20,5% e, em 2020, alcançou 26,6% do PIB. “Como é possível saltar de uma participação na casa dos 5% ao ano para 26%?”, perguntam os geógrafos. 

O “milagre” da multiplicação

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), é o responsável pelo cálculo do “PIB do Agro”. 

“Em uma operação de multiplicação dos pães e peixes outros setores porteira afora foram aglutinados no cálculo. Nessa metodologia, calcula-se a soma dos valores da produção agropecuária básica/primária, dos insumos para atividade, da agroindústria (processamento) e do que eles chamaram de agrosserviços”, explicam os geógrafos.

Embora o agro seja o setor que menos gera riqueza, recebe muitos créditos. 

Ou seja, os créditos vão para quem não produz alimentos para os brasileiros, mas, sim, commodities para exportação. 

No Brasil, o sistema nacional de créditos é a principal política agropecuária e é realizado pelo Plano Safra. Os créditos são ofertados por instituições públicas e privadas para custeio, investimento, comercialização e industrialização e são distribuídos segundo categorias: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para os pequenos produtores familiares, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) para os médios e para as demais categorias nas quais se encaixam, principalmente, os grandes produtores, o agro. 

No Plano Safra 2019/2020, por exemplo, os valores das contratações chegaram a 225 bilhões de reais, um valor superior ao Plano Safra 2018/2019 de 173,4 bilhões.

Os dados da tabela mostram que  os “demais”, ou seja, o agronegócio, é quem recebe, de longe, a maior fatia do bolo. No Plano Safra 2019/2020, enquanto o Pronaf, que congrega o maior universo de produtores no campo brasileiro, recebeu 29 bilhões de reais, o Pronamp recebeu 27,9 bilhões e o agro 134,8 bilhões. 

A desigualdade na distribuição dos créditos é potencializada ao se olhar para os dados de número de contratos, mostra o estudo. O Pronaf, que respondeu a 1.416.064 milhão de contratos, ficou somente com 12,8% dos recursos; o Pronamp, com 186.363 mil dos contratos e com 12,4% dos créditos; e os demais, que correspondem a apenas 328.066 mil contratos, receberam 59,9% da totalidade dos créditos.

“Isso resulta em uma imensa concentração de recursos nas mãos de um pequeno número de produtores rurais, em sua imensa maioria representantes do agro”, avaliam Goldfarb e Mitidiero.

Na regionalização do total de créditos concedidos para a safra 2019/2020, ao se comparar com o total de estabelecimentos rurais de cada região, segundo os dados do Censo Agropecuário do IBGE 2017, constata-se que o Sul recebe 34% dos créditos e possui 16,8% dos estabelecimentos rurais, o Centro-Oeste com 26% dos créditos e 6,8% dos estabelecimentos, o Sudeste com 24% dos recursos e 19,1% dos estabelecimentos, o Nordeste com 9% dos recursos, mas com 45,7% dos estabelecimentos, e o Norte com 7% do crédito e 11,4% dos estabelecimentos rurais. Relativamente, o Centro-Oeste com o menor número de estabelecimentos rurais é a região que mais recebe créditos. “Os dados não podiam apontar resultado diferente, pois é nessa região que a grande monocultura exportadora de commodities ganha mais força, com destaque para as fazendas de soja.” 

Nas safras de julho de 2016 a junho de 2017 e de julho de 2017 a junho de 2018, segundo dados do Banco Central, a pecuária foi a atividade que recebeu mais créditos, com 74,9 bilhões de reais, seguida pela soja com 61,9 bilhões, pelo milho com 25,9 bilhões, café com 15,4 bilhões e cana-de-açúcar 13,7 bilhões. 

Não paga a conta

Além de ser profundamente privilegiado na distribuição de recursos públicos, o agronegócio deixa pouco para o Brasil, ou seja, é um setor pouco tributado.

Um dado que explica a baixa arrecadação do setor, salienta a análise, é a isenção que recai sobre as exportações. Como exemplo, o artigo cita os valores pagos como Imposto de Exportação pelas Atividades de Agricultura, Pecuária e Serviços Relacionados, entre 2011 e 2019.

Como se vê na tabela, em 2014, ano em que mais impostos foram pagos, as Atividades de Agricultura, Pecuária e Serviços relacionados desembolsaram apenas 85 mil reais com imposto sobre exportações.

Os pesquisadores explicam que a desigualdade do sistema tributário brasileiro não se dá pela quantidade de tributos cobrados, mas, principalmente, por seu caráter regressivo, indireto e focado na taxação sobre o consumo. Por sua vez, a agropecuária de exportação é isenta de vários impostos.

O texto também avalia o Imposto Territorial Rural (ITR). O ITR é, desde 1997, autodeclaratório, assim como o Imposto de Renda, o que aumenta o risco de sonegação, uma vez que a fiscalização é praticamente inexistente. 

As alíquotas do ITR variam segundo o grau de utilização da terra e a dimensão da área total do imóvel rural. As alíquotas são maiores à medida que a dimensão do imóvel rural aumenta e o seu grau de utilização diminui. Embora seja de competência da União, 50% da receita do ITR fica com os municípios, podendo chegar a 100%, no caso dos que assinaram convênio com a Receita Federal para fiscalizar e cobrar o tributo. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cartografia, o Brasil deixa de arrecadar R$ 2 bilhões por ano em impostos na área rural. Há muita divergência quanto às declarações dos proprietários de terras e de órgãos governamentais quanto ao uso da terra. Cerca de 87% dos proprietários de terra declaram alcançar grau de utilização maior que 80% de suas terras, enquanto que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) indica que o grau de utilização média da terra no Brasil é da ordem de 59%. Esses dados mostram a grande evasão (sonegação) existente no caso do ITR. “O ITR representa uma injustiça fiscal não apenas pela baixa arrecadação, mas porque os grandes e médios proprietários passaram, em 2010, a pagar menos por hectare, fazendo cair a média de R$ 1,59 por hectare, em 2003, para R$ 1,52”, afirmam os geógrafos.

Agro é tóxico

O texto de análise também trata do mercado de agrotóxicos, que movimenta no Brasil, em média, 10 bilhões de dólares anualmente. Porém, as indústrias do setor são desoneradas integralmente do IPI (alíquota média estimada em 10%), PIS/Cofins (alíquota cheia estimada em 9,25%) e usufruem de desoneração parcial de ICMS e de Imposto de Importação, sendo que este último é extremamente mutável em decorrência das inúmeras alíquotas e dos volumes importados. 

Como os agrotóxicos são considerados insumos para atividade agrícola, assim como os fertilizantes, sementes, aviões para pulverização e maquinário, o gasto com a sua aquisição é abatido integralmente na apuração dos tributos sobre a renda (Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido)

Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), as isenções e reduções de imposto das empresas produtoras de agrotóxicos somam quase 10 bilhões de reais ao ano. Isso equivale a quase quatro vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente em 2020 (2,7 bilhões). A isso se somam, ainda, investimentos públicos nas transnacionais do setor. Nos últimos 14 anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) emprestou 358,3 milhões a empresas do setor. 

Não gera emprego e renda 

A máxima de que o “Agro é pop” e gera empregos no Brasil também não se sustenta em nenhuma base de dados. Em 2020, durante a pandemia, o setor agropecuário não parou, com crescimento na produção alcançando recordes nas colheitas e na exportação de commodities. Contudo, 185.477 mil trabalhadores perderam seus empregos nessa safra, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE. 

Em 2020, quando o país bateu recordes de produção agrícola e pecuária, os preços dos alimentos também subiram de forma avassaladora e a fome voltou a ser uma realidade. O aumento dos preços dos alimentos, em geral, atingiu 14,09%, enquanto a inflação oficial foi de 6,29%, em 2020.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação teve impacto de 6,22% para os pobres, mais que o dobro do impacto para os ricos, com 2,74%. No aspecto de comprometimento da renda, as famílias pobres comprometeram 37% dos seus orçamentos com gastos alimentares, energia e gás de cozinha, enquanto os ricos comprometeram apenas 15%. 

Com os impactos da pandemia na perda de renda das famílias, aliada ao aumento dos preços dos alimentos devido às escolhas econômicas dos governos federais mais recentes, o ano de 2020 terminou com os seguintes resultados: “do total de 211,7 milhões de brasileiros(as), 116,8 milhões conviviam com algum grau de Insegurança Alimentar e, destes, 43,4 milhões não tinham alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões de brasileiros(as) enfrentavam a fome”, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. 

Insegurança alimentar é um projeto

No “tudo” que o agro invoca para si entra a fome. Com isso, o agro é, também, fome, diz a análise. “O agro molda, defende e planeja uma estrutura político-econômica de produção de alimentos que deságua no aumento da fome. Por isso, a insegurança alimentar no Brasil não é uma consequência inesperada de uma pandemia ou uma falha do sistema econômico, mas, sim, projeto”, concluem.

Os autores finalizam a análise explicando que o texto é muito mais que apenas “uma crítica à falsa ideia de que a economia brasileira é sustentada pelo agro e que, portanto, bastaria aprimorar a forma de atuação deste ou então industrializar (ou reindustrializar) a economia”. Eles dizem que “poderia parecer, em um primeiro momento, que para melhorar as condições de inserção econômica bastaria industrializar essa produção de commodities, já que com isso agregaríamos valor à produção e ganharíamos autonomia tecnoprodutiva”.

No entanto, acreditam que “o buraco é mais embaixo: Não se trata apenas de agregar valor à produção do agro, assim como não basta o agro passar a pagar mais impostos ou a produzir internamente seus insumos tecnológicos e todos os problemas estarão resolvidos. Um outro desenvolvimento, uma outra agropecuária, ou seja, uma outra forma de produzir e distribuir é o que nos move”. 

O que a análise pretendeu mostrar, afirmam, é que “nem do ponto de vista capitalista o país está no rumo certo. Isso porque o agro brasileiro é um tiro no pé do próprio desenvolvimento capitalista brasileiro”.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “O Joio e o Trigo” [Aqui!].

Que venha a nós um mundo novo!

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Por José Armando Nogueira*

Ninguém menos que Karl Marx escreveu em “A ideologia alemã”: (…“O primeiro ato histórico dos homens, pelo qual se distinguem dos animais não é o fato de pensar, mas o de produzir seus meios de vida.” Eu emendo sem a pretensão de discutir, aprovar ou rebater o economista e filósofo alemão, talvez o pensador mais odiado e mais amado do século XIX até hoje. Apenas pego carona no seu raciocínio para perguntar: quem produz seus meios de vida e consegue acumular fortunas, (sem discutir méritos, oportunidades, heranças ou sorte) necessitaria de mais de  US$ 5 bilhões para viver, segundo suas regras de conforto, extravagâncias ou pão-durismo?

De acordo com o Índice Bloomberg, as 500 pessoas mais ricas do planeta nunca ganharam tanto dinheiro como neste início de 2020. Atingiram em 2019, o recorde histórico:  US$1,2 trilhão (equivalente a 60% do PIB do Brasil!). Essas 500 pessoas aumentaram em 25% o patrimônio coletivo (delas), chegando a US$ 5,9 trilhões! Gente: US$ 5,9 trilhões repartidos entre apenas 500 pessoas no mundo! Só vou citar o Jeff Bezos, fundador da Amazon, que continua o dono do maior patrimônio do mundo:  US$ 116,28 bilhões!

Mas a consistência e volatilidade desses números andam de mãos dadas. O efeito covid -19, por exemplo, provocou com a pandemia uma perda a Bezos de 8% no valor do seu patrimônio em duas semanas. (perdeu mais de US$ 8 bilhões– e daí? Continua riquíssimo e todo faceiro). Fora o desmoronamento de Bolsas e mercadinhos de flores ou de batata mundo afora, além das dificuldades de assalariados e aposentados, com o encarecimento geral dos custos de manutenção de tudo. A crise sanitária nascida na esteira da COVID-19 ceifa vidas mundo afora. E também expõe as vísceras da crueldade humana como nunca se viu com tanta clareza. Os vergonhosos extremos agem com a força de cutelos entre o luxo e o lixo.

No Brasil, as desigualdades até então meros números e cálculos estatísticos ganham o mau cheiro de guetos, becos sem esgotos e sem água tratada. Cortiços, casebres e moradias apinhadas de gente. Quando não moradores sem teto e nulos de esperança. Em que pese tamanha dor e o ronco da fome são sobreviventes da indiferença. Sequer recebem o olhar de quem os vê apenas nas telas das TVs ou nas páginas tímidas de noticiários inócuos e acríticos, na maioria das vezes. Salvo raríssimas exceções de solidariedade, geralmente realizadas por remediados, e não pelos podres de rico. Mas a crise serve de alerta para trazer à tona a fragilidade humana, independente de sua posição socioeconômica e ideológica. O vírus não escolhe etnia, poder ou País. Todos são vulneráveis.

Conforme citação de Monteiro Lobato, no livro de aforismos editado pela magnífica, Migalhas Editora, (aforismo 505) – “De século em século opera-se uma revisão nas ideias humanas, e vai para o refugo muita coisa tida antes como verdade absoluta –.”

Minha utopia secular: nada a ver com subtrair dinheiro de nenhum afortunado. Pelo contrário. Apenas imaginar que toda fortuna pessoal acima de US$ 5 bilhões poderia/deveria ser investida para “produzir meios de vida.”

Em outras palavras: desentocar fortunas estagnadas, como se guardadas nas sacolas do Pato Donald. Fortunas que poderiam gerar mais fortunas para os donos dos capitais investidos, e criariam, ao mesmo tempo, uma roda-viva ecumênica de desenvolvimento. Com mais qualidade de vida. Menos pobreza. Mais oportunidades. Mais conforto. Mais saúde. Quem sabe, muito menos violência. Não por acaso o Papa Francisco disse nessa Sexta-Feira Santa, para quem possa compreender seja Cristão ou incréu: “Precisamos de pão não de rifles.”

Afinal, continuo me perguntando: se alguém precisa desesperadamente acumular mais de 5 bilhões de dólares para si mesmo, julgando que essa fortuna pode eternizá-lo na Terra? Penso que não, por isso minha utopia conduz a uma proposta mundial com perspectiva histórica mais abrangente. Sobretudo, a partir dessa crise de inquietação do espírito que trespassa a condição humana. Criar, ao em vez do PIB convencional e costumeiro entre as economias mundiais, seu sucedâneo, o Produto de Qualidade de Vida Superior (PQVS), onde os abismos entre riqueza e pobreza seriam menos dramáticos. Com as sobras acima de US$ 5 bilhões seriam reinvestidas na geração de bem-estar humano, não como esmola, mas com novos negócios criadores de meios de produção!

A história das moedas e seus valores são retratos da civilização e suas trocas. Que já incluíram escravos como moeda corrente em vários Países e Impérios. O ser humano como “coisa” mercantil construiu riquezas espalhadas entre os colonizadores e piratas de várias nacionalidades. Desde a antiguidade dos valores atribuídos ao arroz, trigo e às moedas de reis e imperadores, passando pela Bíblica dracma.

Bretton Woods, em plena Guerra de 1944, foi palco do acordo que durou até 1971, quando num passe de mágica os EUA colapsaram a conversibilidade do dólar em ouro, fazendo surgir, do nada, o dólar como moeda fiduciária, tornando-se moeda de reserva. Até a libra esterlina, do grande aliado britânico, passou a ser flutuante como moedas de outros Estados/Países. Eu imagino: se os EUA imprimirem toneladas de dólar não haverá inflação nenhuma, porque o dólar ainda vale quanto pesa! Está na hora de mudar essa relação? Na minha avaliação, sim! O mundo oferece com lágrimas, chagas, dores e sofrimento uma oportunidade excepcional a uma correção desta fadiga histórica que veio à tona em meio à pandemia.

O capital não pode mais matar vidas humanas para sobreviver. Com que finalidade ter no acúmulo a antítese da vida?  Ainda que essa proposição tenha a ousadia da utopia do alcance mundial, a proporcionalidade da obscena concentração de renda no Brasil poderia ter como teto  de R$ 1 bilhão de acúmulo per capita. Convenhamos, esse valor é mais do que suficiente para alguém digladiar pelo trono do mais rico mausoléu de sua terra. Mesmo que quem o possua supere os 100 anos de vida não terá tido tempo de torrar tamanha fortuna. Qualquer valor acima desse acúmulo geraria uma avalanche de investimentos de todo porte, num País onde mais de 90% da população é formada de pobres a miseráveis. 

Por tudo isso, o conceito de PQVS, como balizador da nova ordem mundial, poderá gerar centenas e centenas de milhares de novos investimentos, com o consequente crescimento da qualidade de vida de milhões de pessoas mundo afora. Com a criação de mais escolas, mais universidades, mais hospitais, mais formação de qualidade, maior preparo, rendas mais dignas e mais amplas em alcance e valores. Maior igualitarismo sem nenhum cunho ideológico de esquerda, direita ou centro. Se preferirem, apenas com a recolocação da Humanidade no centro como geradora e detentora dos seus meios de vida. E os muito ricos? Pelos meus cálculos eles ficariam ainda mais ricos. De duas formas soberanas: financeira e moralmente. É isso. Estou pronto para utópicos abraços e muitas pedradas.   

*José Armando Nougeira é publicitário, e segundo ele próprio um aposentado sem vestir o pijama.

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O texto acima é de inteira responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do editor do “Blog do Pedlowski”. Entretanto, a decisão de publicá-lo decorre da compreensão que o mesmo instiga reflexões necessárias acerca do presente e do futuro.

Agropecuária perde força e deixa de sustentar economia brasileira

agronegócioSoja e arroz foram os grandes responsáveis pela redução do PIB no setor. (Foto: FolhaPress)

O PIB (Produto Interno Bruto) da agropecuária voltou a cair. O recuo nos três primeiros meses deste ano, em relação a igual período de 2018, foi de 0,1%. Em relação ao trimestre imediatamente anterior, a queda foi de 0,5%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Está difícil para o PIB do setor dar sustentação à economia neste ano, como vinha ocorrendo em períodos anteriores. Neste primeiro trimestre, houve redução de produção e de produtividade de alguns dos principais produtos brasileiros.

Soja, arroz e milho, com grande participação nesse período do ano, somam 92% de toda a produção anual de grãos do país. Os dois primeiros foram os maiores responsáveis pela baixa do PIB do setor.

A carga negativa, porém, continuará no próximo trimestre. A queda na produção de soja foi de 4% nesta safra, mas a colheita se estendeu também para o segundo trimestre.

No fim de março, ainda restavam 20% dos 113 milhões de toneladas da oleaginosa para serem colhidos. Já a queda de 11% na produção do arroz ocorreu praticamente toda dentro do primeiro trimestre.

Desestimulados, os produtores reduziram a área de plantio do cereal no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional.

O feijão também teve peso importante na queda do PIB neste início de ano. A primeira safra teve redução de 10%, escasseando a oferta da leguminosa e elevando os preços.

Neste segundo trimestre o cenário se inverteu e a segunda safra deverá ser maior do que a do ano passado. O feijão tem três colheitas no ano.

Pecuária

A queda do PIB do agronegócio só não foi maior por causa da boa participação da pecuária (bovinos, aves e suínos). Como já antecipou o IBGE, houve aumento de abates e produção maior de carnes neste ano.

A demanda externa está favorável, principalmente em razão dos problemas sanitários na China, grande importadora. O setor deverá continuar favorecendo o PIB.

A taxa do PIB da agropecuária sofrerá ainda os efeitos negativos da queda de 10% da produção de café neste e no próximo trimestre. O período será beneficiado, porém, pela boa evolução da safrinha de milho, que tem crescimento previsto de 18%, e pelo aumento das produções de trigo e de algodão.

A safra de verão de milho, ocorrida praticamente no primeiro trimestre, ficou estável em relação à de igual período anterior, sem grande participação na taxa do PIB.

Embora as exportações tenham cooperado, a agropecuária adicionou um valor menor de recursos na economia neste ano.

No primeiro trimestre foram R$ 90,3 bilhões, abaixo dos R$ 96,2 bilhões de janeiro a março de 2018. Já no primeiro trimestre do ano passado, o setor já havia adicionado um valor 3% inferior ao de 2017, o que mostra uma desaceleração das atividades.

Com isso, a participação da agropecuária no PIB total, que era de 5,7% em 2016, recuou para 5,1% em 2018, segundo o IBGE.

da FolhaPress

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Este conteúdo produzido pela FolhaPress foi recolhido pelo autor do blog do Yahoo Finanças [Aqui!].

Apenas 124 pessoas concentram mais de 12% do PIB do Brasil

Blog Controvérsia

As 124 pessoas mais ricas do Brasil acumulam um patrimônio equivalente a R$ 544 bilhões, cerca de 12,3% do PIB, o que ajuda a entender porque o país é considerado um dos mais desiguais do mundo.

Estas 124 pessoas integram a última lista de multimilionários divulgada nesta segunda-feira pela revista ‘Forbes’, que inclui todos os brasileiros cuja fortuna supera R$ 1 bilhão.

O investidor chefe do fundo 3G Capital, Jorge Paulo Lemann, que acaba de adquirir a fabricante de ketchup Heinz e é um grande acionista da cervejaria AB InBev e do Burger King, ficou com o primeiro lugar.

A fortuna de Lemann, de 74 anos, chega a R$ 38,24 bilhões, enquanto o segundo da lista, Joseph Safra, empresário de origem libanesa e dono do banco Safra, tem ativos de R$ 33,9 bilhões.

A maioria das fortunas corresponde a membros de famílias que dominam as grandes empresas de setores como mídia, bancos, construção e alimentação.

Entre os 124 multimilionários brasileiros apenas o cofundador de Facebook, Eduardo Saverin, constituiu seu patrimônio por meio da internet.

O empresário Eike Batista, que chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo e perdeu parte de sua fortuna pela vertiginosa queda do valor das ações de sua companhia petrolífera OGX e do resto das empresas de seu conglomerado EBX, ficou em 52º lugar na lista.

A grande fortuna concentrada por estes milionários comprova a veracidade dos indicadores oficiais que classificam o Brasil como um dos países com maiores disparidades entre ricos e pobres.

O índice de Gini do país foi de 0,501 pontos em 2011, em uma escala de zero a um, na qual os valores mais altos mostram uma disparidade mais profunda entre ricos e pobres.

Cerca de 41,5% das rendas trabalhistas se concentram nas mãos de 10% dos mais ricos, segundo dados do censo de 2010, enquanto metade da população vivia, nesse ano, com uma renda per capita mensal de menos de R$ 375.

FONTEhttp://cebes.com.br/2014/01/apenas-124-pessoas-concentram-mais-de-12-do-pib-do-brasil/