Que venha a nós um mundo novo!

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Por José Armando Nogueira*

Ninguém menos que Karl Marx escreveu em “A ideologia alemã”: (…“O primeiro ato histórico dos homens, pelo qual se distinguem dos animais não é o fato de pensar, mas o de produzir seus meios de vida.” Eu emendo sem a pretensão de discutir, aprovar ou rebater o economista e filósofo alemão, talvez o pensador mais odiado e mais amado do século XIX até hoje. Apenas pego carona no seu raciocínio para perguntar: quem produz seus meios de vida e consegue acumular fortunas, (sem discutir méritos, oportunidades, heranças ou sorte) necessitaria de mais de  US$ 5 bilhões para viver, segundo suas regras de conforto, extravagâncias ou pão-durismo?

De acordo com o Índice Bloomberg, as 500 pessoas mais ricas do planeta nunca ganharam tanto dinheiro como neste início de 2020. Atingiram em 2019, o recorde histórico:  US$1,2 trilhão (equivalente a 60% do PIB do Brasil!). Essas 500 pessoas aumentaram em 25% o patrimônio coletivo (delas), chegando a US$ 5,9 trilhões! Gente: US$ 5,9 trilhões repartidos entre apenas 500 pessoas no mundo! Só vou citar o Jeff Bezos, fundador da Amazon, que continua o dono do maior patrimônio do mundo:  US$ 116,28 bilhões!

Mas a consistência e volatilidade desses números andam de mãos dadas. O efeito covid -19, por exemplo, provocou com a pandemia uma perda a Bezos de 8% no valor do seu patrimônio em duas semanas. (perdeu mais de US$ 8 bilhões– e daí? Continua riquíssimo e todo faceiro). Fora o desmoronamento de Bolsas e mercadinhos de flores ou de batata mundo afora, além das dificuldades de assalariados e aposentados, com o encarecimento geral dos custos de manutenção de tudo. A crise sanitária nascida na esteira da COVID-19 ceifa vidas mundo afora. E também expõe as vísceras da crueldade humana como nunca se viu com tanta clareza. Os vergonhosos extremos agem com a força de cutelos entre o luxo e o lixo.

No Brasil, as desigualdades até então meros números e cálculos estatísticos ganham o mau cheiro de guetos, becos sem esgotos e sem água tratada. Cortiços, casebres e moradias apinhadas de gente. Quando não moradores sem teto e nulos de esperança. Em que pese tamanha dor e o ronco da fome são sobreviventes da indiferença. Sequer recebem o olhar de quem os vê apenas nas telas das TVs ou nas páginas tímidas de noticiários inócuos e acríticos, na maioria das vezes. Salvo raríssimas exceções de solidariedade, geralmente realizadas por remediados, e não pelos podres de rico. Mas a crise serve de alerta para trazer à tona a fragilidade humana, independente de sua posição socioeconômica e ideológica. O vírus não escolhe etnia, poder ou País. Todos são vulneráveis.

Conforme citação de Monteiro Lobato, no livro de aforismos editado pela magnífica, Migalhas Editora, (aforismo 505) – “De século em século opera-se uma revisão nas ideias humanas, e vai para o refugo muita coisa tida antes como verdade absoluta –.”

Minha utopia secular: nada a ver com subtrair dinheiro de nenhum afortunado. Pelo contrário. Apenas imaginar que toda fortuna pessoal acima de US$ 5 bilhões poderia/deveria ser investida para “produzir meios de vida.”

Em outras palavras: desentocar fortunas estagnadas, como se guardadas nas sacolas do Pato Donald. Fortunas que poderiam gerar mais fortunas para os donos dos capitais investidos, e criariam, ao mesmo tempo, uma roda-viva ecumênica de desenvolvimento. Com mais qualidade de vida. Menos pobreza. Mais oportunidades. Mais conforto. Mais saúde. Quem sabe, muito menos violência. Não por acaso o Papa Francisco disse nessa Sexta-Feira Santa, para quem possa compreender seja Cristão ou incréu: “Precisamos de pão não de rifles.”

Afinal, continuo me perguntando: se alguém precisa desesperadamente acumular mais de 5 bilhões de dólares para si mesmo, julgando que essa fortuna pode eternizá-lo na Terra? Penso que não, por isso minha utopia conduz a uma proposta mundial com perspectiva histórica mais abrangente. Sobretudo, a partir dessa crise de inquietação do espírito que trespassa a condição humana. Criar, ao em vez do PIB convencional e costumeiro entre as economias mundiais, seu sucedâneo, o Produto de Qualidade de Vida Superior (PQVS), onde os abismos entre riqueza e pobreza seriam menos dramáticos. Com as sobras acima de US$ 5 bilhões seriam reinvestidas na geração de bem-estar humano, não como esmola, mas com novos negócios criadores de meios de produção!

A história das moedas e seus valores são retratos da civilização e suas trocas. Que já incluíram escravos como moeda corrente em vários Países e Impérios. O ser humano como “coisa” mercantil construiu riquezas espalhadas entre os colonizadores e piratas de várias nacionalidades. Desde a antiguidade dos valores atribuídos ao arroz, trigo e às moedas de reis e imperadores, passando pela Bíblica dracma.

Bretton Woods, em plena Guerra de 1944, foi palco do acordo que durou até 1971, quando num passe de mágica os EUA colapsaram a conversibilidade do dólar em ouro, fazendo surgir, do nada, o dólar como moeda fiduciária, tornando-se moeda de reserva. Até a libra esterlina, do grande aliado britânico, passou a ser flutuante como moedas de outros Estados/Países. Eu imagino: se os EUA imprimirem toneladas de dólar não haverá inflação nenhuma, porque o dólar ainda vale quanto pesa! Está na hora de mudar essa relação? Na minha avaliação, sim! O mundo oferece com lágrimas, chagas, dores e sofrimento uma oportunidade excepcional a uma correção desta fadiga histórica que veio à tona em meio à pandemia.

O capital não pode mais matar vidas humanas para sobreviver. Com que finalidade ter no acúmulo a antítese da vida?  Ainda que essa proposição tenha a ousadia da utopia do alcance mundial, a proporcionalidade da obscena concentração de renda no Brasil poderia ter como teto  de R$ 1 bilhão de acúmulo per capita. Convenhamos, esse valor é mais do que suficiente para alguém digladiar pelo trono do mais rico mausoléu de sua terra. Mesmo que quem o possua supere os 100 anos de vida não terá tido tempo de torrar tamanha fortuna. Qualquer valor acima desse acúmulo geraria uma avalanche de investimentos de todo porte, num País onde mais de 90% da população é formada de pobres a miseráveis. 

Por tudo isso, o conceito de PQVS, como balizador da nova ordem mundial, poderá gerar centenas e centenas de milhares de novos investimentos, com o consequente crescimento da qualidade de vida de milhões de pessoas mundo afora. Com a criação de mais escolas, mais universidades, mais hospitais, mais formação de qualidade, maior preparo, rendas mais dignas e mais amplas em alcance e valores. Maior igualitarismo sem nenhum cunho ideológico de esquerda, direita ou centro. Se preferirem, apenas com a recolocação da Humanidade no centro como geradora e detentora dos seus meios de vida. E os muito ricos? Pelos meus cálculos eles ficariam ainda mais ricos. De duas formas soberanas: financeira e moralmente. É isso. Estou pronto para utópicos abraços e muitas pedradas.   

*José Armando Nougeira é publicitário, e segundo ele próprio um aposentado sem vestir o pijama.

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O texto acima é de inteira responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do editor do “Blog do Pedlowski”. Entretanto, a decisão de publicá-lo decorre da compreensão que o mesmo instiga reflexões necessárias acerca do presente e do futuro.

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