PF apertou o cerco às quadrilhas de falsificação de diplomas

Entre 2024 e 2025, operações se multiplicaram e expuseram redes de falsificação e revalidação fraudulenta de títulos acadêmicos

PF apertou o cerco às fábricas de diplomas nos últimos dois anos

A Operação Side Job 2, da PF, investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. Fotos: Polícia Federal/Divulgação

Por Marcelo Menna Barreto para “Extra Classe” 

Nos últimos anos, a Polícia Federal (PF) brasileira tem deflagrado operações específicas para combater a falsificação e o uso fraudulento de títulos stricto sensu no país. Trata-se de um verdadeiro mercado paralelo de certificados acadêmicos, cursos superiores irregulares e instituições ditas estrangeiras que operam à margem da legislação brasileira.

Titulações falsas têm se revelado, nos últimos anos, um filão lucrativo que envolve não apenas estelionatários, mas também instituições de ensino superior nacionais que revalidam títulos de mestrado e doutorado supostamente obtidos no exterior, mas eivados de irregularidades. A ameaça à credibilidade do sistema educacional pátrio e o risco oferecido à sociedade colocaram esse ecossistema criado por golpistas no radar da PF.

Como um todo, o golpe não é novo nem exclusivo do Brasil. Seguindo um modus operandi semelhante, falsários e estelionatários operam praticamente em todo o território nacional.

A ação pública mais recente da PF foi realizada em 17 de dezembro passado. Dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. A Operação Side Job 2 investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. De acordo com a PF, a apuração teve início em outubro de 2024, após denúncia do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ).

No Distrito Federal, site falso simulava sistemas de verificação

Em junho de 2025, a PF cumpriu 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em outros 11 estados. A ação integrou a Operação Código 451, voltada à desarticulação de uma rede criminosa de falsificação e venda de diplomas de ensino superior.

Segundo as investigações, os documentos ilegais eram utilizados para obtenção de registros em conselhos profissionais, permitindo o exercício irregular de profissões regulamentadas. Entre as áreas identificadas estão direito, engenharia, psicologia, biomedicina, fisioterapia, administração e educação física.

O esquema incluía a criação de um site fraudulento que simulava sistemas oficiais de verificação. Os investigados podem responder por falsificação de documento público, estelionato e exercício ilegal da profissão.

A PF não divulga os nomes dos alvos da operação. O Extra Classe, no entanto, teve acesso à ata da Reunião Plenária do Conselho Regional de Psicologia da 1ª Região (CRP-DF), realizada em 29 de julho passado. No documento, os conselheiros foram informados sobre um inquérito policial que envolvia diplomas de psicologia falsificados. Entre eles, o de Ângelo Ribeiro Froes.

Fábrica de diplomas

Froes já havia sido citado na série de reportagens Fábrica de Diplomas, produzida pelo Extra Classe desde 1º de agosto. Ele é identificado como vice-reitor da Emil Brunner World University (EBWU), organização sediada na Flórida, nos Estados Unidos.

A matéria Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias registrou que Froes tentou obter registro profissional no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).

Para isso, apresentou um diploma falsificado e um termo no qual se declarava “bacharel em Medicina” por uma empresa que se apresenta como instituição de ensino superior norte-americana. Alertado pelo conselho de que diplomas de graduação obtidos no exterior precisam, por lei, ser revalidados por universidades públicas ou institutos federais, ingressou com mandados de segurança contra a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, posteriormente, contra a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), buscando a revalidação simplificada do título.

Nos dois casos, as ações foram abandonadas antes de decisão judicial, após as universidades levantarem questionamentos sobre a autenticidade da documentação. Os processos, ajuizados com o benefício da Justiça gratuita, foram extintos.

No mesmo mês da Operação Código 451, o vice-reitor da EBWU solicitou o cancelamento de seu registro no CRP.

Froes também figura como “chefe de reportagem” de um jornal digital que tem atuado na defesa de supostas instituições de ensino superior estrangeiras e na crítica ao trabalho do Extra Classe e do autor da série que denuncia fraudes atualmente sob investigação da PF.

Engodo em nome da Ufrgs

Até então, um dos casos mais emblemáticos conduzidos pela PF foi a Operação Engodo. Deflagrada em junho de 2024 e aprofundada em fevereiro de 2025, a investigação desarticulou um grupo criminoso que falsificava diplomas de mestrado e doutorado em nome da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

De acordo com a PF, o esquema produziu milhares de documentos acadêmicos falsos, incluindo diplomas, históricos escolares e certificados de conclusão de cursos de pós-graduação. Os títulos eram vendidos a interessados que buscavam vantagens funcionais, progressões na carreira pública ou reconhecimento profissional indevido.

Os documentos simulavam integralmente os padrões gráficos e administrativos da Universidade, com assinaturas, selos e registros inexistentes. A PF apura o uso desses títulos em órgãos públicos, instituições privadas e processos administrativos de concessão de adicionais salariais por titulação.

Além dos diplomas falsificados em nome da Ufrgs, o grupo vendia a promessa de revalidação de diplomas obtidos em instituições estrangeiras da Venezuela, Colômbia, Equador e Estados Unidos.

A PF estima que mais de dois mil diplomas falsos de mestrado, doutorado, especialização e outros cursos estejam relacionados ao grupo criminoso desbaratado pela Operação Engodo.

PF investiga diplomas estrangeiros e revalidações fictícias

Outro eixo recorrente das investigações da PF envolve instituições estrangeiras utilizadas como fachada. Em agosto de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fake Degree, voltada a um esquema de emissão de diplomas de mestrado e doutorado supostamente expedidos por uma instituição sediada na Venezuela.

A fraude, no entanto, não se limitava à emissão dos documentos. Segundo a PF, os diplomas eram irregularmente “validados” no Brasil por entidades sem competência legal, permitindo que os portadores utilizassem os títulos para obtenção de benefícios acadêmicos e funcionais, especialmente na docência.

Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Rondônia e Roraima, estados onde se concentrava parte dos beneficiários do esquema. A investigação apura prejuízos aos cofres públicos e possível participação de intermediários que atuavam como “despachantes acadêmicos”.

O esquema permitia que diplomas falsos de mestrado e doutorado fossem utilizados por professores para requerer retribuição por titulação, resultando em aumentos salariais indevidos que poderiam ultrapassar R$ 70 mil por ano.

Mercado que cresce à sombra da regulação

O trabalho recente da PF dialoga com investigações anteriores, como a Operação Academus, deflagrada em 2021. Ela revelou um esquema de compra e venda de revalidações de diplomas de mestrado e doutorado obtidos no exterior, sobretudo em países da América do Sul.

Embora, nesses casos, os diplomas não fossem necessariamente falsos em sua origem, o processo de reconhecimento no Brasil era fraudado, com pareceres simulados e procedimentos administrativos inexistentes — prática que, na essência, transforma a titulação acadêmica em mercadoria.

As investigações apontaram que os envolvidos atuaram em estados como Alagoas, Mato Grosso, Pará, Piauí e Maranhão, sempre utilizando o mesmo modelo de atuação.

As operações da PF reforçam uma realidade preocupante: a expansão desordenada da oferta educacional, aliada à fragilidade na fiscalização e à crescente demanda por títulos formais para progressão de carreira ou pontuação em concursos públicos, criou um ambiente propício à atuação de verdadeiras fábricas de certificados.

No caso das titulações stricto sensu, o impacto é ainda mais sensível. Mestrados e doutorados falsos comprometem a credibilidade da produção científica, distorcem trajetórias acadêmicas e geram prejuízos diretos ao serviço público, especialmente nas áreas da educação e da pesquisa.

FICS, Carolina Bori e o mercado paralelo em atividade

Especialistas ouvidos pelo Extra Classe afirmam que os esquemas não são episódicos, mas parte de uma engrenagem estruturada, com atuação nacional e internacional. Instituições inexistentes, universidades estrangeiras de fachada e promessas de revalidação “garantida” seguem sendo ofertadas no mercado educacional paralelo.

Alguns casos chegam a ser apurados por ministérios públicos e polícias estaduais. No entanto, por se tratar de crime sem grave ameaça à pessoa, a repercussão midiática costuma ser limitada.

A organização paraguaia Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) tem contribuído para lançar luz sobre o tema nos últimos meses. A quantidade expressiva de “diplomas” revalidados da FICS na plataforma Carolina Bori chamou a atenção e motivou questionamentos da PF às instituições de ensino superior credenciadas que têm concedido chancela na plataforma oficial de reconhecimento e revalidação de títulos acadêmicos do Ministério da Educação (MEC).

Apesar do que já vem sendo tratado como um escândalo no setor, a atuação do mercado paralelo não arrefeceu. Mesmo após a PF caracterizar a FICS como instituição que operou sem regularidade, contrainformações seguem sendo disseminadas em grupos de WhatsApp e em supostos veículos jornalísticos, com o objetivo de manter matrículas e mensalidades em dia.


Fonte: ExtraClasse

Ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro é acusado de planejar golpe de Estado

A polícia federal acusa 37 pessoas de crimes, incluindo conspiração e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo

homem de camisa de futebol amarela fala no microfone

Jair Bolsonaro se dirige a apoiadores durante comício em São Paulo, Brasil, em 25 de fevereiro de 2024. Fotografia: André Penner/AP 

Por Tom Phillips para o “The Guardian” 

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e alguns de seus aliados mais próximos estão entre dezenas de pessoas formalmente acusadas pela Polícia Federal de fazerem parte de uma conspiração criminosa criada para destruir o sistema democrático brasileiro por meio de um golpe de Estado de direita.

A polícia federal confirmou na quinta-feira que os investigadores concluíram sua longa investigação sobre o que chamaram de uma tentativa coordenada de “desmantelar violentamente o estado constitucional”.

Em um comunicado, a polícia disse que o relatório — que foi encaminhado à Suprema Corte — acusou formalmente um total de 37 pessoas de crimes, incluindo envolvimento em uma tentativa de golpe, formação de uma organização criminosa e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo.

Os acusados ​​incluem Bolsonaro, um capitão do exército desonrado que se tornou político populista, que foi presidente de 2018 até o final de 2022, bem como alguns dos membros mais importantes de seu governo de extrema direita.

Entre eles estavam o ex-chefe de espionagem de Bolsonaro, o deputado de extrema direita Alexandre Ramagem; os ex-ministros da Defesa, general Walter Braga Netto e general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres; o ex-ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno; o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos; o presidente do partido político de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto; e Filipe Martins, um dos principais assessores de política externa de Bolsonaro.

Também foi citado o blogueiro de direita, neto do general João Baptista Figueiredo, um dos militares que governaram o Brasil durante a ditadura de 1964-85.

A lista contém um nome não brasileiro: o de Fernando Cerimedo, um guru argentino de marketing digital que foi responsável pelas comunicações do presidente da Argentina, Javier Milei , durante a campanha presidencial de 2023 no país. Cerimedo, que mora em Buenos Aires, é próximo de Bolsonaro e de seus filhos políticos.

A tão esperada conclusão do inquérito policial acontece poucos dias depois de policiais federais terem efetuado cinco prisões como parte de uma operação contra supostos integrantes de um complô para assassinar o sucessor de esquerda de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice-presidente de centro-direita, Geraldo Alckmin, além do desembargador Alexandre de Moraes.

Pouco antes de a polícia anunciar o fim do inquérito, Lula expressou gratidão pelo fracasso da tentativa de envenená-lo. “Estou vivo”, disse o esquerdista de 79 anos durante um discurso.

O Gen Mario Fernandes, uma das cinco pessoas presas pelo suposto plano de assassinato “Adaga Verde e Amarela”, também estava entre as 37 pessoas nomeadas pela polícia federal na quinta-feira – e, como os outros, foi formalmente acusado de fazer parte de uma tentativa criminosa de golpe. “Estamos em guerra”, Fernandes teria dito em uma mensagem descoberta por investigadores da polícia.

Bolsonaro negou anteriormente envolvimento em uma tentativa de anular o resultado da eleição de 2022, que ele perdeu para Lula. Falando a um jornalista do site de notícias brasileiro Metrópoles depois que ele foi nomeado no relatório policial, o ex-presidente disse que precisava ver o que estava na investigação. “Vou esperar o advogado”, acrescentou Bolsonaro.

Braga Netto, Heleno e outros nomes proeminentes na lista não fizeram comentários imediatos sobre as acusações no relatório da polícia federal, que o comunicado policial disse ser baseado em um grande acervo de evidências coletadas por meio de acordos de delação premiada, buscas e análise de registros financeiros, de internet e telefônicos. Mas políticos pró-Bolsonaro proeminentes criticaram o relatório, com Rogério Marinho, o líder da oposição no senado, atribuindo-o à “perseguição incessante” visando a direita do Brasil. “Quanto mais perseguem Bolsonaro, mais forte ele fica”, tuitou Sóstenes Cavalcante, um deputado bolsonarista do Rio.

A suposta tentativa de golpe pró-Bolsonaro teria ocorrido durante os turbulentos dias finais de seu governo de quatro anos, que chegou ao fim quando ele foi derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2022.

Na preparação para essa votação decisiva, um manifesto assinado por quase um milhão de cidadãos alertou que a democracia brasileira estava enfrentando um momento de “imenso perigo à normalidade democrática” em meio a suspeitas generalizadas de que havia planos em andamento para ajudar Bolsonaro a se agarrar ao poder, mesmo se ele perdesse.

Depois de perder sua tentativa de reeleição, Bolsonaro voou para o exílio temporário nos EUA enquanto milhares de apoiadores se reuniam em frente a bases militares no Brasil para exigir uma intervenção militar que nunca aconteceu.

A tentativa frustrada de anular a vitória de Lula culminou nos tumultos de 8 de janeiro de 2023 na capital, Brasília, quando bolsonaristas radicalizados invadiram o palácio presidencial, o congresso e o supremo tribunal.

Quase dois anos depois, Lula está no poder, mas a ameaça da extrema direita à sua administração continua. Na quarta-feira passada à noite, um membro do partido político de Bolsonaro foi morto após aparentemente se explodir com explosivos caseiros enquanto atacava a Suprema Corte.

Durante uma busca no trailer do homem, a polícia teria encontrado um boné estampado com o slogan do movimento de extrema direita de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”

Em uma declaração em vídeo, Paulo Pimenta, ministro das Comunicações de Lula, disse que o governo estava “completamente perplexo e indignado” com as revelações de que o ex-presidente e membros das Forças Armadas supostamente estavam conspirando para derrubar a democracia brasileira “com uma audácia quase inacreditável”.

“São crimes gravíssimos [e] acusações gravíssimas”, acrescentou Pimenta, que disse que o governo Lula agora esperaria o Ministério Público decidir qual dos 37 seria processado e levado a julgamento. Os condenados teriam que pagar pelos crimes que cometeram contra a democracia, contra a constituição e contra o povo brasileiro, disse Pimenta. “Bolsonaro na cadeia”, escreveu o ministro ao lado do vídeo, ecoando um chamado de muitos brasileiros progressistas.


Ações da Polícia Federal mostram que Campos dos Goytacazes se firmou como vanguarda do atraso político

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As ações da Polícia Federal realizadas pela Polícia Federal em Campos dos Goytacazes para prender ativistas de extrema-direita e documentos que os associe eventualmente aos atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro não devem (ou não deveriam) surpreender ninguém que acompanhe com atenção mínima a cena política municipal desde, pelo menos, 2018. É que naquela ano, formandos da Faculdade de Medicina de Campos decidiram por uma fotografia coletiva em que homenageavam o então candidato Jair Bolsonaro tratando-o como “Mito” (ver imagem abaixo), demonstrando uma curiosa opção por um político que não deveria merecer qualquer homenagem de futuros profissionais da saúde.

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Mas a aparição da extrema-direita como um ator proeminente na cena campista não ficou restrito a estudantes entusiasmados com um político do baixo clero que sempre se notabilizou por defender, entre outras coisas, um torturador contumaz como foi o Coronel Brilhante Ustra. Aos longos dos últimos quatro anos, o que se viu foi a colocação de outdoors supostamente financiados por entidades patronais que em uma hora ameaçavam quem não apoiasse os desvarios sendo cometidos por Jair Bolsonaro na condição de presidente da república, para em outra expressar apoio à  sua campanha eleitoral de reeleição (ver imagem abaixo).

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Mas a pitada final nessa proeminência da extrema-direita em Campos dos Goytacazes foi a presença constante de um grupo de apoiadores do agora ex-presidente Jair Bolsonaro na frente da entrada do quartel da 2a. Companhia de Infantaria do Exército, que fica localizado na Avenida Deputado Bartolomeu Lizandro, para expressar a agenda extremista em prol de um intervenção federal, o que na prática significaria a instalação de uma nova ditadura militar no Brasil (ver imagem abaixo).

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Provavelmente as ações da PF no dia de hoje vão servir como uma espécie de “espalha barata” em um grupo que se tornou subitamente visível, apesar de sempre ter estado presente de uma forma mais subterrânea. Entretanto, há que se lembrar que a volta a uma condição mais discreta não vai significar uma conversão ao Estado democrático de direito.  Aliás, muito pelo contrário. O mais provável é que passado o susto das prisões e apreensões, vejamos novamente a extrema-direita em manifestações que reunirão em sua maioria idosos brancos, mas que ainda deverão congregar outros desafetos da democracia para continuarem agindo, ainda que na surdina.

A minha única dúvida é se efetivamente haverá uma busca pelos financiadores destes grupos como está sendo anunciado pelo Ministro da Justiça, Flávio Dino. Se houver, as coisas deverão ficar mais interessantes, pois até as pedras que rolam no Paraíba do Sul sabem que a extrema-direita está sendo financiada por “brasileiros de bens”.

Polícia Federal faz operação contra atos antidemocráticos em Campos dos Goytacazes

Investigadores cumprem cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de suspeitos de organizarem atos em frente à quartéis do Exército, e participar ou financiar dos atos terroristas de 8 de janeiro em Brasília

vandaloBolsonarista radical durante ataques terroristas aos prédios dos poderes em Brasília, em 8 de janeiro — Foto: Eraldo Peres/AP

Por g1

A Polícia Federal deflagrou, nesta segunda-feira (16), uma operação em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, contra atos antidemocráticos após o segundo turno das eleições e naqueles que culminaram na invasão às sedes dos três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro.

Os suspeitos são investigados por associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e incitação das Forças Armadas contra os poderes institucionais.

A operação, chamada de Ulysses, visa cumprir cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de pessoas suspeitas de liderarem bloqueios de rodovias que passam pela cidade.

Os investigadores trabalham também para apurar a organização das manifestações em frente aos quartéis do Exército em Campos dos Goytacazes, bem como a participação dos investigados na organização e financiamento dos atos terroristas que levaram à invasão das sedes dos três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro.

“Durante a investigação, foi possível colher elementos de prova capazes de vincular os investigados na organização e liderança dos eventos. Além disso, com o cumprimento hoje dos mandados judiciais, será possível identificar eventuais outros partícipes/coautores na empreitada criminosa.”, diz comunicado da Polícia Federal.

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Este texto foi originalmente publicado pelo portal G1 [Aqui!].

Genivaldo de Jesus e Roberto Jefferson: a dualidade de tratamentos que escancara o Brasil de Jair Bolsonaro

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Dualidade brasileira: Genivaldo de Jesus, morto em uma câmara de gás improvisada, por cometer uma infração e de trânsito e Roberto Jefferson, contando sua história de agressão contra uma equipe da PF a um policial sorridente

Agora que Jair Bolsonaro já jogou o aliado Roberto Jefferson ao mar no melhor estilo de um capitão (pirata) punitivo, não vou nem me debruçar para a farsesca situação ocorrida no município de Comendador Levy Gasparian, pois já tem gente demais analisando o que aconteceu (de errado) naquela encenação recheada a balas e granadas.

Minha intenção aqui é comparar dois casos, um deles já esquecido pela maioria. Falo aqui da morte pelas mãos de agentes da Polícia Rodoviária Federal de um pai de família, Genivaldo de Jesus Santos, que acabou morto em uma câmara de gás improvisada no porta-malas de um camburão. Genivaldo morreu por uma simples infração de trânsito que teria sido resolvida com o lavrar de uma multa. Mas como era pobre, ele acabou sendo submetido a um grave processo de intoxicação que resultou na sua morte. Fecha o pano.

Agora, pensem em Roberto Jefferson, aliado do presidente Jair Bolsonaro, que se encontrava em prisão domiciliar por causa de crimes continuados, e que resolveu receber uma destamento da Polícia Federal com tiros de fuzil (inicialmente se fala em 20) e granadas (fala-se que ele arremesou duas contra os policiais). Pois bem, Roberto Jefferson não só teve mais de 8 horas para se entregar, mas as imagens da “negociação” mostram um policial federal (supostamente) rindo enquanto ouve a forma pela qual o ex-deputado bolsonarista tentou efetivamente assassinar seus colegas (ver vídeo abaixo).

Se essa situação toda não servir para mostrar que Roberto Jefferson fez o que fez porque tinha algum tipo de garantia de que não teria seus miolos estourados, pelo menos temos agora uma prova didática da imensa dualidade que rege a ação das forças do Estado no controle da situação social no Brasil.

É que se as cenas mostradas pelo próprio Roberto Jefferson do conforto de sua casa tivessem ocorrido no Complexo do Alemão ou na Favela da Maré, o que estariamos vendo hoje seriam cenas de violência extrema, poças de sangue de inocentes, e corpos sendo transportados pela própria população em carrinhos de mão.

Esses dois casos escancaram o Brasil de Jair Bolsonaro, e só não vê quem não quer.

Polícia Federal investiga empresa que movimentou R$ 16 bi em ouro ilegal

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A Polícia Federal realizou ontem (7/7) uma megaoperação de combate à extração e ao comércio ilegais de ouro na Região Norte, com mandados de busca e apreensão e de prisão preventivas em sete estados. Dividida em três operações simultâneas (batizadas de Ganância, Golden Green e Comando), a ação é resultado de uma investigação de mais de um ano da PF sobre movimentações bilionárias do grupo empresarial, além da atuação de empresas de transporte aéreo para retirada do ouro dos garimpos.

De acordo com investigadores da PF, a empresa Gana Gold (atual M.M.Gold) “esquentava” o ouro extraído ilegalmente em garimpo na Amazônia Brasileira, facilitando sua comercialização com licenças inválidas. O dinheiro era lavado de diversas formas, inclusive através da criação de um criptoativo (token) próprio de uma das empresas envolvidas no esquema, com a finalidade de justificar os valores advindos da ação criminosa, como se fossem investimentos de terceiros. Entre 2019 e 2021, o grupo movimentou mais de R$ 16 bilhões, com um lucro superior a R$ 1 bilhão. Agência BrasilBandFolha e Valor, entre outros, repercutiram a ação da PF.

Por falar em garimpo, o InfoAmazonia destacou a resistência dos Povos Indígenas da Terra Raposa Serra do Sol, em Roraima, contra invasores interessados em explorar ouro na região. Nos últimos anos, as comunidades indígenas perderam o apoio da FUNAI e da Polícia Federal no trabalho de desintrusão da reserva, o que impulsionou a circulação de garimpeiros; estima-se que cerca de 4 mil estejam atualmente na área, de maneira ilegal. Em face à omissão governamental, os próprios indígenas estão se organizando em patrulhas para enfrentar e expulsar os garimpeiros, queimando balsas, apreendendo equipamentos e barracos e vigiando a reserva.

“As lideranças decidiram realizar essas ações de combate ao garimpo porque eles [garimpeiros] prejudicam muito a nossa população e a nossa Terra”, contou uma liderança Wapichana, que pediu anonimato por medo de represálias dos criminosos. “[Os garimpeiros] poluem o nosso rio com óleo, trazem bebidas e drogas. Não queremos viver dentro de uma Terra Indígena com essas situações”.

O problema do garimpo deve piorar caso a polêmica lei sancionada pelo governo de Roraima nesta semana, que proíbe a destruição de maquinário de garimpo apreendido em operações de fiscalização, saia do papel. O Globo informou que, além do Ministério Público Federal, o partido Rede Sustentabilidade também está acionando a Justiça para evitar a aplicação da nova lei. A legenda pediu ao Supremo Tribunal Federal a suspensão da matéria e o julgamento de sua constitucionalidade.


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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

 

Associação indígena refuta PF e aponta ação de grupo organizado nas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips

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Em nota, a direção da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari questionou as informações dadas pela Polícia Federal  à imprensa no sentido de que os assassinos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips teriam agido sozinhos (ver imagem abaixo)

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A nota da Unijava afirma que os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips não “se trata apenas de dois executores, mas sim de um grupo organizado que planejou minimamente os detalhes desse crime”.

A direção da Unjivaja exigiu não apenas a continuidade e aprofundamento das investigações, mas também que a PF “considere as informações qualificadas” que a entidade teria repassado via ofício ao órgão policial.

O depoimento de Sérgio Moro na íntegra: um material para ser lido lenta e cuidadosamente

moro e bolsonaro

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, havia solicitado ontem ao Supremo Tribunal Federal que a íntegra do seu depoimento dada na Polícia Federal fosse tornado público. Pois bem, menos de 24 horas depois do pedido de Moro, o jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, obteve com exclusividade a íntegra do depoimento dado no último sábado (02/05) sobre as acusações que Sérgio Moro fez contra Jair Bolsonaro no ato de sua demissão do Ministério da Justiça.

Abaixo segue o depoimento dado por Sérgio Moro, para o qual sugiro uma leitura lenta e cuidadosa. Afinal, é a história dos próximos anos do Brasil que esteja sendo nos apresentada na forma de um oráculo pelo ex-juiz.

depoimento

Leia a íntegra do depoimento de Moro:

Na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba no Estado do Paraná, onde presente se encontrava CHRISTIANE CORREA MACHADO, Delegada de Polícia Federal, Matr. 10.568, Chefe do Serviço de Inquéritos da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado – DICOR, e WEDSON CAJÉ LOPES, Delegado de Polícia Federal, lotado no SINQ/DICOR, compareceu Sergio Fernando Moro

QUE tomou conhecimento pela imprensa sobre a determinação do Ministro Celso de Mello sobre a sua oitiva, tendo se colocado à disposição para prestar declarações, informando o fato à Polícia Federal;  

QUE perguntado sobre sua definição sobre interferência política do Poder Executivo em cargos de chefia no âmbito da Polícia Judiciária, respondeu que entende que seja uma interferência sem uma causa apontada e portanto arbitrária;  

QUE durante o período que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve solicitações do Presidente da República para substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, com a indicação de um nome por ele, e depois para substituição do Diretor da Polícia Federal, e, novamente, do Superintendente da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro, que teria substituído o anterior, novamente com indicação de nomes pelo presidente; 

QUE, durante sua gestão, apenas concordou com a primeira substituição, pois, circunstancialmente, o Superintendente do RJ, RICARDO SAAD, havia manifestado interesse de sair, por questões familiares, e a sua troca já estava planejada pelo Diretor Geral, sendo nomeado um nome com autonomia pela própria Polícia Federal, o que garantia a continuidade regular dos serviços de Polícia Judiciária;  

QUE na sua gestão preservou a autonomia da Polícia Federal, em relação a interferência política e pediu demissão no dia 24 de abril de 2020, com o mesmo objetivo;  

QUE durante a sua coletiva ocorrida em 24 de abril de 2020 narrou fatos verdadeiros, cujo objetivo era esclarecer os motivos de sua saída, preservar autonomia da Polícia Federal, da substituição de Diretor e de Superintendentes, sem causa e com desvio de finalidade, como reconhecimento posteriormente pelo próprio Supremo Tribunal Federal em decisão proferida no dia 29 de abril que suspendeu a posse do DPF ALEXANDRE RAMAGEM; 

QUE perguntado se identificava nos fatos apresentados em sua coletiva alguma prática de crime por parte do Exmo. Presidente da República, esclarece que os fatos ali narrados são verdadeiros, que, não obstante, não afirmou que o presidente teria cometido algum crime;  

QUE quem falou em crime foi a Procuradoria Geral da República na requisição de abertura de inquérito e agora entende que essa avaliação, quanto a prática de crime cabe às Instituições competentes;  

QUE em agosto de 2019 houve uma solicitação por parte do Exmo. Presidente da República de substituição do Superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, RICARDO SAAD;  

QUE essa solicitação se deu de forma verbal, no Palácio do Planalto;  

QUE não se recorda se houve troca de mensagens sobre esse assunto;  

QUE não se recorda se alguém, além do declarante e do Exmo. Presidente da República tenha presenciado essa solicitação;  

QUE no entanto, reportou esse fato tanto ao Diretor da Polícia Federal, MAURÍCIO VALEIXO, como ao Dr. SAAD;  

QUE os motivos dessa solicitação devem ser indagados ao Presidente da República,  

QUE, após muita resistência, houve, como dito acima, concordância do Declarante e do Dr. VALEIXO, com a substituição;

QUE o presidente, após a concordância, declarou publicamente que havia mandado trocar o SR/RJ por motivo de produtividade;  

QUE para o Declarante não havia esse motivo e a própria Polícia Federal emitiu nota pública, informando a qualidade do serviço da SR/RJ, o que também pode ser verificado por dados objetivos de produtividade;

QUE só concordou com a substituição porque o novo SR, CARLOS HENRIQUE foi uma escolha da PF e isso garantia a continuidade regular dos serviços da SR/RJ e a própria Polícia Federal informou na nota acima que ele seria o substituto;  

QUE o Presidente, contrariado, deu nova declaração pública afirmando que era ele quem mandava e que o novo Superintendente seria ALEXANDRE SARAIVA;  

QUE o Diretor da Polícia Federal ameaçou se demitir e que o Declarante conseguiu demover o Presidente;  

QUE tem presente que ALEXANDRE SARAIVA é um bom profissional, no entanto não era o nome escolhido pela Polícia Federal,  

QUE o presidente já havia indicado ao Declarante a intenção de indicar ALEXANDRE SARAIVA, mas que da sua parte entendia que a escolha deveria ser da Polícia Federal;  

QUE mesmo antes, mas, principalmente, a partir dessa época o Presidente passou a insistir na substituição do Diretor da PF, MAURÍCIO VALEIXO;  

QUE essa pressão foi, inclusive, objeto de diversas matérias na imprensa;  

QUE conseguiu demover o presidente dessa substituição por algum tempo;  

QUE o assunto retornou com força em janeiro de 2020, quando o Presidente disse ao Declarante que gostaria de nomear ALEXANDRE RAMAGEM no cargo de Diretor Geral da Polícia Federal e VALEIXO iria, então, para uma Adidância;  

QUE isso foi dito verbalmente no Palácio do Planalto;  

QUE, eventualmente o General Heleno se fazia presente;  

QUE esse assunto era conhecido no Palácio do Planalto por várias pessoas;  

QUE pensou em concordar para evitar um conflito desnecessário, mas que chegou à conclusão que não poderia trocar o Diretor Geral sem que houvesse uma causa e que como RAMAGEM tinha ligações próximas com a família do Presidente isso afetaria a credibilidade da Polícia Federal e do próprio Governo, prejudicando até o Presidente;  

QUE essas ligações são notórias, iniciadas quando RAMAGEM trabalhou na organização da segurança pessoal do presidente durante a campanha eleitoral;  

QUE os motivos pelos quais o Presidente queria substituir VALEIXO por RAMAGEM devem ser indagados ao Presidente;  

QUE RAMAGEM, pela questão da proximidade, o Declarante afirma que o presidente, nessa época, lhe dizia que era uma questão de confiança;  

QUE o presidente chegou a sugerir dois outros nomes para Diretor Geral da Polícia Federal, ao invés de RAMAGEM, mas que os nomes não tinham a qualificação necessária, segundo a opinião do Declarante;  

QUE, ainda em janeiro, o Declarante sugeriu dois nomes para o Presidente, FABIANO BORDIGNON e DISNEY ROSSETI para substituir VALEIXO;  

QUE a troca geraria desgaste para o Declarante, mas, pelo menos, não abalaria a credibilidade da Polícia Federal ou do Governo;  

QUE a substituição sem causa do DG e a indicação de uma pessoa ligada ao Presidente e a sua família seriam uma interferência política na PF;  

QUE os dois outros nomes eram ANDERSON TORRES e CARRIJO e ambos não tinham história profissional na Polícia Federal que os habilitassem ao cargo, além de também serem próximos à família do presidente;  

QUE no começo de março de 2020, estava em Washington, em missão oficial com o Dr. VALEIXO;  

QUE recebeu mensagem pelo aplicativo Whatsapp do Presidente da República, solicitando, novamente, a substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, agora CARLOS HENRIQUE;  

QUE a mensagem tinha, mais ou menos o seguinte teor: “Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”;  

QUE esclarece que não nomeou e não era consultado sobre as escolhas dos Superintendentes; QUE essa escolha cabia, exclusivamente, à Direção Geral da Polícia Federal;

QUE nem mesmo indicou o Superintendente da Polícia Federal do Paraná;

QUE os motivos para essa solicitação entende que devem ser indagados ao Presidente da República; QUE falou sobre a solicitação de troca do Diretor VALEIXO, ainda em Washington;

QUE até aventaram a possibilidade de atender ao Presidente para evitar uma crise;  

QUE, no entanto, o Diretor VALEIXO afirmou que não poderia ficar no cargo se houvesse uma nova substituição sem causa do SR/RJ por um nome indicado pelo Presidente da República;

QUE o Diretor VALEIXO declarou que estava cansado da pressão para a sua substituição e para a troca do SR/RJ; QUE por esse motivo e também para evitar conflito entre o Presidente e o Ministro o Diretor VALEIXO disse que concordaria em sair;

QUE nesse momento não havia nenhuma solicitação sobre interferência ou informação de inquéritos que tramitavam no Rio de Janeiro;  

QUE, por esse motivo, o Declarante, apesar da resistência, cogitou aceitar as trocas, desde que o substituto do Diretor Geral fosse de sua escolha técnica e pessoa não tão próxima ao presidente;  

QUE depois, porém, entendeu que também não poderia aceitar a troca do SR/RJ sem causa;

QUE a partir de então cresceram as insistências do PR para a substituição tanto do Diretor Geral quanto do SR/RJ;

QUE, certa feita, provavelmente, no mês de março o PR passou a reclamar da indicação da Superintendente de Pernambuco;  

QUE essas reclamações sobre o superintendente no Estado de Pernambuco não ocorreram anteriormente;

QUE entende que os motivos da reclamação devem ser indagados ao Presidente da República;  

QUE é oportuno destacar que as indicações para Superintendentes vêm da Direção Geral, mas passam pelo crivo da Casa Civil e que não houve nenhum óbice apontado em relação a esses nomes;  

QUE o Presidente não interferiu, ou interferia, ou solicitava mudanças em chefias de outras Secretarias ou órgãos vinculados ao Ministério da Justiça, como, por exemplo, a Polícia Rodoviária Federal, DEPEN, Força Nacional;  

QUE o presidente, apenas uma vez, solicitou a revogação da nomeação de Ilona Szabo para o Conselho Nacional de Política Criminal do Ministério da Justiça, órgão consultivo, e que o Declarante, após relutar, concordou em aceitar a solicitação;

QUE o Declarante perguntado se as trocas solicitadas estavam relacionadas à deflagração de operações policiais contra pessoas próximas ao Presidente ou ao seu grupo político disse que desconhece, mas observa que não tinha acesso às investigações enquanto ainda evoluíam;

QUE crescendo as pressões para as substituições, o Presidente lhe relatou verbalmente no Palácio do Planalto que precisava de pessoas de sua confiança, para que pudesse interagir, telefonar e obter relatórios de inteligência;

QUE perguntado se havia desconfiança em relação ao Diretor VALEIXO, o Declarante respondeu que isso deve ser indagado ao Presidente; QUE o próprio Presidente cobrou em reunião do conselho de ministros, ocorrida em 22 de abril de 2020, quando foi apresentado o PRÓ-BRASIL, a substituição do SR/RJ, do Diretor Geral e de relatórios de inteligência e informação da Polícia Federal;

QUE o presidente afirmou que iria interferir em todos os Ministérios e quanto ao MJSP, se não pudesse trocar o Superintendente do Rio de Janeiro, trocaria o Diretor Geral e o próprio Ministro da Justiça;

QUE ressalta que essas reuniões eram gravadas, como regra, e o próprio Presidente, na corrente semana, ameaçou divulgar um vídeo contra o Declarante de uma dessas reuniões;

QUE nessas reuniões de conselho de ministros participavam todos os ministros e servidores da assessoria do Planalto;

QUE a afirmação do Presidente de que não recebia informações ou relatórios de inteligência da Polícia Federal não era verdadeira;

QUE o Declarante, em relação ao trabalho da Polícia Federal, informava as ações realizadas, resguardado o sigilo das investigações;

QUE o Declarante, por exemplo, fazia como ministros do passado e comunicava operações sensíveis da Polícia Federal, após a deflagração das operações com buscas e prisões;

QUE o Declarnte fez isso inúmeras vezes e há mensagens de Whatsapp a esse respeito ora disponibilizadas;

QUE ilustrativamente, isso aconteceu após as buscas e prisões envolvendo o atual Ministro do Turismo e o Senador Fernando Bezerra, mas que essas informações não abrangiam dados sigilosos dos inquéritos;

QUE pontualmente comunicou essas operações antecipadamente, em casos sensíveis e que demandavam um apoio do presidente, como na expulsão do integrnte do PCC, vulgo “FUMINHO” de Moçambique;

QUE quanto a relatórios de inteligência, esclaree que a PF não é órgão de produção direta de inteligência para a Presidência da República;

QUE os relatórios de inteligência da Polícia Federal sobre assuntos estratégicos e de Segurança Nacional são inseridos pela sua diretoria de Inteligência no SISBIN e que a ABIN consolida essas informações de inteligência, juntamente, com dados de outros órgãos e as apresenta ao Presidente da República;

QUE o próprio Declarante já recebeu relatórios de inteligência da ABIN que continham dados certamente produzidos pela inteligência da Polícia Federal;

QUE o próprio Presidente da República em seu pronunciamento na sexta-feira, dia 24 de abril de 2020, declarou que um dos motivos para a a demissão do Diretor Geral da PF seria a falta de recebimento de relatórios de inteligência de fatos nas últimas 24 horas;

QUE o argumento não procede, pois os relatórios de inteligência estratégica da Polícia Federal eram disponibilizados ao Presidente da República via SISBIN e ABIN;

QUE também não justificaria a demissão do Diretor VALEIXO a susposta falta de disponibilização dessa inteligência, já que cobrada pelo Presidente ao Declarante dois dias anteriores à exoneração do Diretor;

QUE o presidente nunca solicitou ao Declarante a produção de um relatório de inteligência estratégico da PF sobre um conteúdo específico, causando estranheza que isso tenha sido invocado como motivo da demissão do Diretor Geral da PF;

QUE perguntado se o presidente da República, em algum momento lhe solicitou relatórios de inteligênca que subsidiavam ingestigaçãoes policiais, o Declarante respondeu que o Presidente nunca lhe pediu até porque o Declarante ou o Diretor  VALEIXO jamais violariam sigilo de investigação policial;

QUE na quinta-feira, dia 23 de abril de 2020, o Presidente enviou ao Declarante por mensagem de Whatsapp um link de notícia do site “oantagonista” informando que a PF estaria no encalço de Deputados Bolsonaristas, QUE antes que o Declarante pudesse responder, o Presidente mandou outra mensagem afirmando que este seria mais um motivo para a troca da PF;

QUE o Declarante ficou apreensivo com a mensagem;

QUE o Declarante reuniu-se com o Presidente às 9h do dia 23 de abril de 2020, e trataram da substituição do Diretor Geral da Polícia Federal;

QUE o Presidente lhe disse que VALEIXO seria exonerado, a pedido, ou de ofício, e que nomearia o DPF ALEXANDRE RAMAGEM, porque seria uma pessoa de confiança do Presidente, com o qual ele poderia interagir;

QUE o Declarante informou ao Presidente que isso representaria uma interferência política na PF, com o abalo da credibilidade do  governo, isso tudo, durante uma pandemia;

QUE o Declarante também disse poderia trocar o Diretor VALEIXO desde que houvesse uma causa, como uma insuficiência de desempenho ou erro grave, mas não havia nada disso;

QUE o Declarante pediu ao Presidente que reconsiderasse, mas que se isso não ocorresse o Declarante seria obrigado a sair e a declarar a verdade sobre a substituição;

QUE o Presidente lamentou, mas disse que a decisão estava tomada;

QUE o Declarante reuniu-se  em seguida com os ministros militares do Palácio do Plananto e relatou a reunião com o Presidente;

QUE a reunião foi com os Ministros Generais RAMOS, HELENO e BRAGA NETTO;

QUE o Declarante informou os motivos pelos quais não podia aceitar a substituição e também declarou que sairia do governo e seria obrigado a falar a verdade;

QUE na ocasião o Declarante falou dos pedidos do Presidente de obtenção  de Relatórios de Inteligência da PF, que inclusive havia sido objeto de cobrança pelo Presidente na reunião de conselho de ministros, oportunidade na qual o Ministro HELENO afirmou que o tipo de relatório de inteligência que o Presidente queria  não tinha como ser fornecido;

QUE os Ministros se comprometeram a tentar demover o Presidente,

QUE o Declarante retornou ao MJSP na esperança de a questão ser solucionada;

QUE logo depois vazou na imprensa que o Planalto substituiria VALEIXO e que, em decorrência, o Declarante sairia do governo;

QUE o MJSP foi contatado por muitos jornalistas e políticos querendo confirmar, mas que o Declarante entendia que não poderia confirmar, já que tinha esperança de que o Presidente mudaria de idéia;

QUE à tarde do dia 23 de abril de 2020, recebeu uma ligação do Ministro RAMOS indagando se seria possível uma solução intermediária, com a saída de VALEIXO, mas a nomeação de um dos nomes que o Declarante já havia informado antes, a saber: FABIANO BORDIGNON ou DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante informou que haveria um impacto ao governo e à sua credibilidade, mas que, garantida a nomeação técnica e de pessoa não proximamente ligada à familia do presidente, a solução seria aceitável;

QUE ligou para o Diretor VALEIXO, que concordou com a substituição sugerindo o nome de DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante ligou em seguida ao Ministro RAMOS e então manifestou a sua concordância, mas ressaltou que seria a única mudança e que não concordava com a troca pretendida do superintentdente da SR/RJ;

QUE o Ministro RAMOS ficou de levar a questão ao Presidente e de retornar, mas não o fez;

QUE à noite do dia 23 de abril de 2020, recebeu informações não oficiais de que o ato de exoneração do Diretor VALEIXO havia sido encaminhado para publicação;

QUE buscou a confirmação do fato no Planalto com os ministros BRAGA NETTO e RAMOS, tendo o primeiro informado que não sabia e o segundo informado que iria checar e retornar, mas não o fez;

QUE, durante a madrugada do dia 24 de abril de 2020, saiu a publicação, o que tornou irreversível a demissão do Declarante;

QUE o Declarante não assinou o decreto de exoneração de MAURÍCIO VALEIXO e não passou pelo Declarante qualquer pedido escrito ou formal de exoneração do Diretor VALEIXO;

QUE na manhã do dia 24 de abril de 2020, encontrou-se com VALEIXO e ele lhe disse que não teria assinado ou feito qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que, na noite do dia 23 de abril de 2020, teria recebido uma ligação do Planalto na qual o Presidente teria lhe dito que ele, VALEIXO, seria exonerado no dia seguinte e lhe perguntado se poderia ser “a pedido”;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que como a decisão já estava tomada não poderia fazer nada para impedir, mas reiterou que não houve, nem partiu dele, qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO poderá esclarecer melhor o conteúdo dessa conversa;

QUE perguntado em regra, como ocorrem as exonerações no âmbito do Ministério da Justiça e como se dá o processo de assinatura no Diário Oficial da União, respondeu

QUE pedidos de nomeação e de exoneração são assinados eletronicamente pelo Declarante e enviados ao Palácio do Planalto;

QUE não delegava essa função a subordinados;

QUE decretos assinados pelo Presidente da República e em concurso com o Declarante, quando sua origem era um ato produzido pelo MJSP, o que seria o caso da exoneração do Diretor VALEIXO, sempre eram assinados previamente pelo Declarante, pelo sistema eletrônico SIDOF, antes de encaminhados ao Planalto;

QUE nunca, pelo que se recorda, viu antes um ato do MJSP ser publicado sem a sua assinatura, pelo menos, eletronicamente;

QUE em virtude do ocorrido decidu exonerar-se e informar em pronunciamento coletivo os motivos de sua saída;

QUE o Declarante entendeu que havia desvio de finalidade na exoneração do Diretor MAURÍCIO VALEIXO, à qual se seguiria a provável nomeação do DPF ALEXANDRE RAMAGEM, pessoa próxima à família do presidente, e as substituições de superintendentes, tudo isso sem causa e o que viabilizaria ao Presidente da República interagir diretamente com esses nomeados para colher, como admitido pelo próprio Presidente, o que ele chamava de relatórios de inteligência, como também admitido pelo próprio Presidente;

QUE reitera que prestou as declarações no seu pronunciamento público para esclarecer as circunstâncias de sua saída, para expor o desvio de finalidade já reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal e com o objetivo de proteger a autonomia da Polícia Federal;

QUE reitera que em seu pronunciamento narrou fatos verdadeiros, mas, em nenhum momento, afirmou que o Presidente da República teria praticado um crime e que essa avaliação cabe às instituições competentes;

QUE posteriormente, no mesmo dia 24 de abril de 2020, o Presidente da República fez um pronunciamento no qual confirmou várias declarações feitas pelo Declarante, como a de que o presidente poderia substituir o Diretor Geral, os superintendentes, qualquer pessoa na pirâmide do Poder Executivo Federal; que o Presidente da República, apesar disso, apesar disso, não esclareceu o motivo pelo qual realizaria  essas substituições, salvo que o Diretor VALEIXO estaria cansado mas, mais uma vez, o Declarante  reitera que o cansaço do diretor VALEIXO era oriundo das pressões por suas substituição e de superintendentes;

Que o Presidente também reconheceu que uma da causas para a troca seria a falta de acesso a relatórios de inteligência da PF, mas que, como o Declarante já esclareceu acima, o Presidente já detinha esse acesso, do que legalmente poderia ser acessado, via SISBIM e ABIN;

Que ademais, como dito acima, nunca houve pelo Presidente, um pedido ao Declarante de algum relatório específico de inteligência propriamente dito e que, portanto, não teria sido atendido;

Que, quanto às informações ou relatórios sobtre investigações sigilosas em curso, o Presidente nunca pediu nada da espécie ao Declarante ou ao Diretor VALEIXO, até porque, ele sabe que não seria atendido.;

Que o Presidente também alegou como motivo da exoneração de VALEIXO uma suposta falta de empenho da Polícia Federal na investigação de possíveis mandantes da tentativa de assassinato perpetrada por ADÉLIO;

Que a Polícia Federal de Minas Gerais fez um amplo trabalho de investigação e isso foi mostrado ao Presidente ainda no primeiro semestre do ano de 2019, numa reunião ocorrida no Palácio do Planalto, com a presença do Declarante, do Diretor VALEIXO, do Superintendente  de Minas Gerais e com delegados responsáveis pelo caso;

Que na ocasião, o Presidente não apresentou qualquer contrariedade em relação ao que lhe foi apresentado;

Que essa apresentação ao Presidente decorreu da sua condição de vítima e ainda por questão de Segurança Nacional, entendendo o Declarante que não havia sigilo legal oponível ao Presidente pelas circunstâncias especiais;

Que a investigação sobre possíveis mandantes do crime não foi finalizada em razão de decisão judicial contrária ao exame do aparelho celular do advogado de ADÉLIO;

Que o Presidente tinha e tem pleno conhecimento desse óbice judicial;

Que o Declarante entende que antes do final das investigações não é possível concluir se ADÉLIO agiu ou não sozinho e que, de todo modo, o Declarante, ao contrário do que afirmado publicamente pelo Presidente da República na data de hoje (02 de maio de 2020) jamais obstruiu essa investigação, ao contrário, solicitou à Polícia Federal o máximo empenho e ainda chegou a informa à AGU, na pessoa do Ministro ANDRÉ MENDONÇA, da importância de que a AGU ingressasse na causa para defender o acesso ao celular, não pelo interesse pessoal do Presidente, mas também  pelas questões relacionadas à Segurança Nacional;

Que o Presidente, no pronunciamento de sexta-feira 24 de abril, também reclamou da falta de empenho do Declarante e da Polícia Federal para esclarecer as declarações do porteiro de seu condomínio  acerca do suposto envolvimento do Presidente no assassinato de MARIELE e ANDERSON;

Que tal reclamação não procede pois foi o próprio Declarante que solicitou  a atuação do MPF e da Polícia Federal na apuração do caso e a Polícia Federal colheu depoimento do porteiro no qual ele se retratou, além de realizar outras diligências;

Que, após pronunciamento do Presidente da República, no qual este afirmou que o Declarante mentia, e que ainda teria condicionado a troca do Diretor Geral à nomeação do Declarante ao Supremo Tribunal Federal, o Declarante, ao responder consulta do Jornal Nacional sobre o que foi dito pelo Presidente, reputou necessário, para restabelecer a verdade dos fatos encaminhar ao Jornal Nacional as mensagens trocados com o Presidente na manhã do dia 23 de abril de 2020, e ainda a troca de mensagens com a Deputada Federal, CARLA ZAMBELLI, pessoa muito ligada ao Presidente, a qual, inclusive, estava no pronunciamento do Presidente;

Que nas mensagens com a Deputada, fica clara a posição do Declarante  de rejeitar a possibilidade de aceitar a substituição do Diretor Geral e  no nome de ALEXANDRE RAMAGEM como condição para sua indicação ao STF;

Que de todo modo tal ofensa ao Declarante sequer faz sentido, pois se tivesse interessado na indicação ao STF, teria simplesmente aceito a substituição;

Que lamenta muito ter repassado as mensagens trocados em privado, mas que não teria como aceitar as afirmações feitas pelo Presidente no pronunciamento dele, a respeito do Declarante; Perguntado: Como o Presidente da República reagia a respeito de operações da Polícia Federal desencadeadas em razão de mandato deferidos pelo Supremo Tribunal Federal?  Havia algum interesse específico do Presidente da República sobre alguma investigação em curso no STF? Respondeu Que no tocante às indagações, o Presidente enviou mensagem ao Declarante na manhã do dia 23 de abril de 2020 com o link de matéria de jornal a respeito do Inquérito no STF contra deputados bolsonaristas, e agregou que este, seria “mais um motivo para a troca na PF”;

Que o Declarante esclareceu ao Presidente que a Polícia Federal cumpria ordens nesse inquérito, mas o Declarante entende que o Presidente jamais poderia ter elencado esse Inquérito como motivo para a troca do diretor Geral da PF;

Que deve ser indagado ao Presidente os motivos dessa mensagem e o que ele queria dizer;

Que há uma outra mensagem do Presidente sobre esse tema ora disponibilizada;

Que o Presidente jamais pediria ao Declarante ou ao Diretor VALEIXO qualquer interferência ou informações  desse Inquérito porque sabia que nem o Declarante e nem o Diretor VALEIXO atenderiam uma solicitação dessa natureza;  

Que o Declarante gostaria de sintetizar as provas que pode indicar a respeito do seu relato;

Que inicialmente indica como elementos de prova o depoimento do Declarante;  

Que, segundo, a mensagem que recebeu do Presidente da República no dia 23 de abril de 2020 e as demais mensagens ora disponibilizadas;

Que, terceiro, todo o histórico de pressões do presidente de troca do SR/RJ, por duas vezes e do DG e que, inclusive, foram objetos de declarações públicas do próprio Presidente da República, inclusive em uma delas com invocação de motivo inverídico para a substituição do SR/RJ, ou seja, a suposta falta de produtividade;

Que quarto, as declarações efetuadas pelo Presidente da República em seu pronunciamento, nas quais ele admite a intenção  de trocas dois superintendentes, inclusive, novamente o do Rio de Janeiro, sem apresentar motivos, também admite a substituição do Diretor VALEIXO invocando motivo inconsistente, já que o cansaço do Diretor era provocado pelas próprias pressões do Presidente, também admite que um dos motivos para a troca era obter acesso ao que  ele denomina relatórios de inteligência produzidos pela PF através da SISBIN e da ABIN, ou seja, jamais tinha ele acesso a toda informação de inteligência da PF a qual ele tinha legalmente  acesso;

Que, quinto, as declarações do Presidente no dia 22 de abril de 2020, na reunião com o conselho de ministros, e que devem ter sido gravadas como é de praxe, nas quais ele admite a intenção de substituir o superintendente do Rio de Janeiro, o Diretor Geral e até o Ministro, ora Declarante, e também admite no mesmo contexto sua insatisfação com a informação e no que ele denomina relatórios de inteligência da PF aos quais afirma que  não teria acesso, o que, como já argumentado, não é verdadeiro;

Que, sexto, podem ser requisitados à ABIN os protocolos de encaminhamento dos relatórios de inteligência produzidos com base em informações a ela repassadas pela PF e que demonstrariam que o Presidente da República já tinha, portanto, acesso às informações de inteligência da PF as quais legalmente tinha direito;

Que, sétimo, esses protocolos podem também ser solicitados à Diretoria de Inteligência da PF, Que, oitavo, as declarações apresentadas peo Declarante, podem ser confirmadas entre outras pessoas,  pelo DPF VALEIXO, pelo DPF SAAD, pelos SRMG, e pelos ministros militares acima mencionados;

Que, nono, o Declarante disponibiliza, neste ato, seu aparelho celular para extração das mensagens trocadas, via aplicativo Whatsapp, com o Presidente da República (contato “Presidente Novíssimo”) e com a Deputada Federal CARLa ZAKMBELLI (contato Carla Zambelli II) e que são as relevantes, no seu entendimento, para o caso, Que o Declarante esclarece que não  disponibiliza as demais mensagens pois tem caráter privado (inclusive as eventualmente apagadas), ou se tratam de mensagens trocadas com autoridades públicas, mas sem qualquer relevância para o caso, no seu entendimento;  

Que o Declarante esclarece que tem só algumas mensagens trocadas com o Presidente, e mesmo com outras pessoas, já que teve , em 2019, suas mensagens interceptadas ilegalmente por HACKERS, motivo pelo qual passou a apagá-las periodicamente,

Que o Declarante esclarece que apagava as mensagens não por ilicitude, mas para resguardar privacidade e mesmo informações relevantes sobre a atividade que exercia, inclusive, questões de interesse nacional;

Que, além da mensagem acima mencionada, o Declarante, revendo o chat de conversa com o Presidente identificou várias outras mensagens que podem ser relevantes para a investigação, inclusive outra mensagem sobre o Inquérito no STF e outra com determinação do Presidente de que o Dr. VALEIXO seria “substituído essa  semana a pedido ou ex-ofício”, além de outra com indicativo de desejo dele de substituição do SR/PE;

Que o Declarante destaca ainda mensagens que, de maneira geral, amparam outras declarações prestadas pelo Declarante como a de que comunicava ao Presidente operações sensíveis, após deflagração; Aberta a palavra ao Declarante para esclarecimentos adicionais:

Que, respeitosamente, diante das declarações públicas do Presidente da República, entende que a caberia a ele esclarecer os motivos das sucessivas trocas pretendidas na SR/RJ, da troca efetuada do DG da Polícia Federal bem como, que caberia a ele esclarecer que tipo de informação ou relatório de inteligência de PF pretendia  obter mediante interação pessoal com o DG ou SR/RJ, além de esclarecer que tipo de conteúdo pretendia nesses relatórios de inteligência, já que tinha acesso à produção de inteligência da PF via SISBIN e ABIN e, igualmente, esclarecer porque essa demanda reiterada no dia 23 de abril de 2020 ao Declarante justificaria as substituições do Diretor Geral, de superintendentes e até mesmo  do Ministro da Justiça e Segurança Pública;

Que, por fim esclarece, diante das ofensas realizadas pelo Presidente da República, que o Declarante permanece fiel aos compromissos de integridade e transparência, bem como de autonomia das instituições de controle, superiores a lealdade pessoais; Consigno as presenças dos Procuradores da República ANTÔNIO MORIMOTO JUNIOR, Matrícula 1088, HERBERT REIS MESQUITA, Matrícula 1383 e JOÃO PAULO LORDELO GUIMARÃES TAVARES, Matrícula 1464, os quais foram designados pela Procuradoria Geral da República para este ato, conforme autorizado pelo Ministro Relator, os quais realizaram questionamentos complementares ao longo deste ato. Nada mais disse e nem lhe foi perguntado. Foi então advertido (a) da obrigatoriedade de comunicação de eventuais mudanças de endereço em face das prescrições do Art.224 do CPP. Encerrado o presente que, lido e achado conforme, assinaram com a Autoridade Policial, com o Declarante, com os Advogados, GUILHERME SIQUEIRA VIEIRA, OAB/PR 73938, VITOR HUGO SPRADA ROSSETIM, OAB/PR 70386  e RODRIGO SANCHEZ RIOS., OAB/PR19392, que apresentaram procuração para ser juntada aos autos, e comigo ……………………………… FRANCISCO ANTONIO LIMA DE SOUSA, Escrivã (o) de Polícia Federal, Matr. 17.990, lotado (a) e/ou em exercício nesta DICOR/PF, que o lavrei.

E lá se foi Sérgio Moro, atirando e deixando ameaças no ar

moro demissão

Acabo de ouvir os quase 40 minutos do monólogo do agora ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, em que o ex-juiz nascido em Maringá anunciou sua saída do governo Bolsonaro (ver parte final da coletiva abaixo).

Em que pese o estilo lacônico e sóbrio da “despedida”, Sérgio Moro deixou várias bombas de tempo no colo do presidente Jair Bolsonaro, na medida em que o grosso das explicações dadas para o pedido de demissão estão centradas em uma suposta tentativa de interferência na autonomia de funcionamento da Polícia Federal.

A coisa é especialmente ruim para o presidente Bolsonaro porque Moro apontou o fato verdadeiro de que nem durante o pico das operações policiais da Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff teria interferido politicamente no trabalho autônomo da PF, em que pese os efeitos devastadores que isso teve sobre o seu governo, tendo desembocando no processo de impeachment. 

Uma menção especificamente danosa foi a de que a troca não apenas da direção geral da Polícia Federal, mas também de superintendências importantes como a do Rio de Janeiro e a de Pernambuco, estariam ligadas a uma predisposição de Jair Bolsonaro de ter contato direto com os policiais federais que estiverem ocupando os cargos.  Tal “desejo” de abrir um canal direto não é apenas contraditório com a desejada autonomia da PF, mas também implica em tipos de relações que poderão não apenas impróprias, mas não republicanas em essência. Mas o pior foi Moro revelar que o próprio Bolsonaro teria confirmado que a mudança na direção geral da Polícia Federal teria uma conotação política.

Outro fato que me pareceu grave é que Sérgio Moro desmentiu que a exoneração de Maurício Valeixo teria sido “a pedido”, contrariando o ato publicado no Diário Oficial da União. Nesse sentido, Moro afirmou que “não assinei esse decreto e em nenhum momento o diretor da PF apresentou um pedido oficial de exoneração“. 

Mas para mim, o mais sintomático de que Sérgio Moro não abriu todo o baú de indiscrições foi o fato dele mencionar que teve outras “divergências” com o presidente Bolsonaro ao longo do tempo em que esteve à frente do ministério da Justiça e da Segurança Pública, mas que se reservaria ao direito de mencioná-las neste momento. Entretanto, Moro não disse que jamais revelaria quais divergências teriam sido estas, deixando no ar que existem outras revelações que podem ser desairosas ao presidente da república.

De toda forma, é improvável que Jair Bolsonaro não tenha calculado o prejuízo que poderia ter com a partida de Sérgio Moro. Resta apenas saber se o cálculo de prejuízo feito pelo presidente da república está próximo da realidade. A ver!

Prisões na Alerj e no (des) governo Pezão revelam mais participantes da farra que assolou a política fluminense

alerj

Os principais veículos da mídia corporativa fluminense e nacional informam que hoje está ocorrendo mais uma rodada de prisões envolvendo deputados estaduais e um dos secretários mais poderosos do (des) governo Pezão [1, 2 &3]. 

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Entre os deputados presos os mais “ilustres” são André Corrêa (DEM) e Chiquinho da Mangueira (PSC) [que acabaram de ser reeleitos], mas as prisões do secretário de governo, Affonso Henriques Monnerat Alves da Cruz e do presidente do DETRAN, Leonardo da Silva Jacob, deverão deixar outros deputados que ainda não foram presos ou sequer ligados publicamente aos esquemas do ex (des) governador Sérgio Cabral de cabelos em pé.

É que as prisões de hoje decorrem da delação premiada do economista Carlos Miranda, uma espécie de gerente do esquema de propinas comandado por Sérgio Cabral.  Como existem outras delações sendo processadas pela justiça, o mais provável é que ainda tenhamos outros deputados presos, inclusive alguns que foram reeleitos.

Uma curiosidade a mais é que o deputado André Corrêa (DEM) vinha se apresentando como uma espécie de nome de consenso para presidir a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a partir de janeiro de 2019. Com a sua prisão no dia de hoje, o mais provável é que ele vá passar mais tempo tentando se livrar dos seus problemas na justiça do que tentando angariar votos para presidir a Alerj.


[1] https://extra.globo.com/noticias/brasil/pf-esta-na-ruas-para-prender-deputados-da-alerj-ligados-ao-esquema-cabral-23219512.html

[2] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/pf-cumpre-dez-mandados-de-prisao-contra-deputados-estaduais-do-rj.shtml

[3] https://oglobo.globo.com/rio/pf-esta-nas-ruas-para-prender-deputados-da-alerj-ligados-ao-esquema-cabral-23219501