A mensagem que vem dos EUA: não basta não ser racista, há que se ser anti-racista

protestos 2Manifestante branco segura cartaz exigindo justiça para George Floyd em frente da Casa Branca em Washington DC.

O episódio do assassinato (porque foi isso exatamente o que aconteceu) de um cidadão negro, George Floyd, por um policial branco na cidade de Minneapolis acabou desencadeando um amplo e massivo movimento de protestos em todo o território dos EUA.

Um aspecto que até agora permanece pouco falado no pouquíssimo que a mídia corporativa está cobrindo este movimento de protestos é o crescente envolvimento de cidadãos brancos não apenas no proteção dos manifestantes negros. O motivo para isso é bastante simples: a polícia estadunidense tende a hesitar mais em usar munição letal em pessoas brancas.

Um dos episódios que já viralizou no tocante à proteção dos manifestantes negros por pessoas de pele branca ocorreu na cidade de Louisville no estado do Kentucky (quando uma linha de proteção foi formada majoritariamente por mulheres brancas para impedir a ação violenta da polícia ver imagem abaixo).

protestos

Esses manifestantes brancos estão levando ao pé da letra o que já disse a filósofa e militante política negra Angela Davis quando afirmou que “em uma sociedade racista não é suficiente não ser racista, pois há que se ser anti-racista”.

Como o Brasil é uma espécie de irmão gêmeo dos EUA no tocante à formação racista de sua sociedade que se escorou na exploração brutal do trabalho escravo negro, o que os manifestantes brancos estão fazendo neste momento para garantir a integridade física dos negros que protestam contra a brutalidade policial poderia ser muito bem repetido por aqui.  

Em meio à catástrofe causada pela COVID-19, revolta popular contra violência policial abala os EUA

Os EUA são o principal epicentro da pandemia da COVID-19 e no dia de hoje a principal potência econômica e militar do planeta já contabiliza cerca de 1.8 milhão de infectados pelo coronavírus e em torno de 103.000 mortos pela COVID-19. Não obstante,  outro caso rumoroso de violência policial contra um cidadão negro, George Floyd, por policiais brancos na cidade de Minneapolis, a mais populosa do estado de Minnesota, causou uma revolta popular sem precedentes, com partes inteiras da cidade, a começar pela delegacia de polícia, foram reduzidas à cinzas (ver vídeo abaixo).

A verdade é que os EUA hoje amargam uma decadência econômica que ameaça a estabilidade social do país, com a grande parte da riqueza ficando concentrada nas mãos dos 1% mais ricos da população. Esse processo de alta concentração de renda já foi rotulado de “Brazilinization” da sociedade estadunidense, pelos motivos que os leitores deste blog podem facilmente imaginar.

Essas cenas de caos social são exatamente aquelas que se imaginaria em países mais pobres que hoje sofrem duramente com os efeitos de décadas de políticas neoliberais. Entretanto, estas são cenas genuinamente estadunidenses, o que chega a ser irônico, pois foi dos EUA que se originaram as políticas que aumentaram a concentração da renda em outras partes do planeta. É o famoso “o feitiço se virando contra o feiticeiro.

Essa situação caótica serve ainda para piorar as chances de reeleição do presidente Donald Trump que é visto cada vez mais como o principal responsável pelo duro custo humano que a pandemia da COVID-19 tomou nos EUA. Sempre é bom lembrar que como Jair Bolsonaro fez no Brasil, Donald Trump apostou todas as suas fichas em uma combinação de negacionismo da letalidade do coronavírus e da aposta nos efeitos supostamente milagrosos da cloroquina.

 

Lançamento de livro com coletânea de artigos sobre a desmilitarização da polícia e da política no Brasil

A criminalização da pobreza e sua “policização”

Postado por Sérgio Domingues

pm

Acaba de ser lançada “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”, coletânea organizada por Givanildo Manoel da Silva, o “Giva”. São contribuições teóricas fundamentais, mas também particularmente importantes para armar a militância social na indispensável resistência à brutalização da vida pelos aparatos estatais de repressão.

Um dos artigos é “Desmilitarização da polícia, das prisões e da política: uma pauta necessária a luta pelo fim do capital”. Nele, Camila Gibin traz o interessante conceito de “policização” dos pobres, intimamente relacionada ao fenômeno da criminalização da pobreza. Ela cita Eugenio Raul Zaffaroni, criador do conceito:

O pessoal policizado, além de ser selecionado na mesma faixa etária masculina dos criminalizados, de acordo também com um estereótipo, é introduzido em uma prática corrupta, em razão do poder incontrolado da agência da qual faz parte..

O policial de baixa patente, capturado por esta estrutura se vê qualificado pela “moralidade burguesa” como “corrupto”. Ao mesmo tempo, lhe é exigido desempenhar funções que desumanizam a si mesmo e àqueles com quem se relaciona em sua profissão. 

Assim, o policizado seria, “para a classe baixa, o ‘cão de guarda’ da burguesia que a criminaliza; e para a classe média e alta, o pobre ‘cão de guarda’ que deve responder a seus comandos”. Muitos dos que exigem do policial uma ação rápida e letal também o desprezam por cometê-la.

De um lado e do outro, pretos e pobres matam e morrem em situações que pouco têm a ver com o combate à criminalidade. Tudo a ver com a manutenção de uma ordem social extremamente violenta e injusta. 

Desmilitarização da polícia e da política

Autor: Givanildo Manoel da Silva (org.)

Uma resposta que virá das ruas.

livro

O presente livro, contém textos de militantes, coletivos, movimentos sociais e pesquisadores engajados na transformação da realidade. Givanildo Manoel da Silva, o “Giva”, militante de inúmeras lutas, organizou este livro que apresenta o debate sobre a desmilitarização da polícia e da política por diversos ângulos: a perspectiva histórica da formação das polícias militares; a herança da ditadura militar; o uso do militarismo como instrumento de gestão de territórios e controle da população, sobretudo dos trabalhadores pobres, negros e moradores das periferias; os grupos de extermínio e a repressão no interior da corporação; a guerra às drogas; o encarceramento em massa; a repressão aos movimentos sociais; a militarização e a questão palestina. O livro trata também da necessária desmilitarização da política, pois a polícia militar é um dos tentáculos de uma política de coerção social e controle militar da sociedade, onde o Estado se preocupa mais com a garantia violenta da ordem (de dominação de classe) do que com os direitos sociais: para a maior parte da população, o Estado só se faz presente através da polícia.

“Como qualificar a matança de jovens, em sua maioria negros, que vivem nas periferias do Brasil, por tropas das PMs – e, cada vez mais, também da Marinha e do Exército? É uma “guerra civil”, como querem alguns? Ou “extermínio”, “genocídio” ou ainda “limpeza étnica” como querem outros?

O terror é óbvio, mas não a compreensão de sua natureza. No Brasil das UPPs, “tropas de elite”, em geral aplaudidas pela mídia, usam armas de última geração, fornecidas pelos Estados Unidos e por Israel; os métodos de repressão e controle derivam da experiência adquirida pelos generais brasileiros nas operações de ocupação da ONU no Haiti (Minustah) e no Congo (Monusco).

Dado esse quadro, é obrigatória a leitura deste livro: ele nos ajuda a refletir sobre o fascismo made in Brazil e as suas estarrecedoras implicações políticas, culturais e ideológicas.” (José Arbex Jr.)

Prefácio: Jorge Souto Maior. Textos: Givanildo Manoel da Silva, Adriana Eiko Matsumoto, Ana Vládia Holanda Cruz, Angela Mendes de Almeida, Henrique Carneiro, Tatiana Merlino, Francilene Gomes Fernandes, Coletivo DAR, Camila Gibin, Comitê Popular da Copa de São Paulo, Movimento Passe Livre – SP, Orlando Zaccone D’Elia Filho, Comitê Cearense pela Desmilitarização da Polícia e da Política, Deivison Mendes Faustino, Movimento Palestina para Tod@s, Thiago B. Mendonça, Rubens RR Casara, Família Rap Nacional, Dário Ferreira de Souza Neto, Igor Frederico Fontes de Lima. Ilustrações: Paloma Franca.

Editora: Pueblo

Ano: 2015

Páginas: 184

Edição: 1ª

ISBN: 9788569249009

 

Absolvição de policial que matou jovem negro desarmado gera protestos nos Estados Unidos

Por Valor, com Associated Press

SÃO PAULO  –  Milhares de pessoas, de Los Angeles à Nova York, realizaram centenas de protestos – a maioria pacíficos – nesta terça-feira nos Estados Unidos, contra a decisão do júri de não indiciar um policial branco pela morte de um jovem negro desarmado em Ferguson (Missouri). 

Em todo o país houve marchas com cartazes e gritos de “Mão para cima. Não disparem”, o chamado para convocar as pessoas a protestar contra as mortes causadas pela polícia. De acordo com a CNN, estavam programados protestos em mais de 115 cidades do país. 

Os principais distúrbios ocorreram em St. Louis e Oakland, onde os manifestantes invadiram as rodovias e cercaram os carros com as mãos para o alto. 

Grupos de algumas dezenas e de várias centenas de pessoas se concentraram em Chicago, Denver, Salt Lake City, Boston e várias outras cidades. Na capital Washington, pessoas segurando cartazes com a mensagem “Justiça para Michael Brown” se aglomeraram na frente da Casa Branca.

“Mike Brown é o emblema [de um movimento]. O país está em ebulição”, disse Ethan Jury, que se juntou as centenas de manifestantes na Filadélfia. “Quantos mais têm de morrer? Quantos negros têm de morrer?”

O protesto estava programado antes mesmo do anúncio da decisão do júri de que o policial Darren Wilson não será acusado pela morte a tiros do jovem Michael Brown, de 18 anos. 

O caso de Ferguson, com fortes implicações raciais, tem gerado tensões e debates sobre as relações entre a comunidade e as forças da ordem em cidades com grandes áreas de subúrbio de população majoritariamente negra.

Em Oackland (Califórnia), centenas de manifestantes carregando cartazes com a mensagem “O povo diz culpado” fecharam uma rodovia e várias ruas, atacaram lojas e carros policiais. Mais de 40 pessoas foram detidas por lançarem garrafas, quebrar janelas e iniciar pequenos incêndios, segundo a prefeita Jean Quan em comunicado. Não houve registro de feridos graves. 

Em Los Angeles, as manifestações foram majoritariamente pacíficas com um breve bloqueio da rodovia interestadual 110, segundo informações da imprensa local.

Em St. Louis, centenas de manifestantes marcharam em um local próximo a outro tiroteio envolvendo a polícia e fecharam a rodovia interestadual 44. Não houve ataques aos automóveis.

Em Ferguson, foram registrados ataques contra patrulhas policiais e edifícios. Os manifestantes levantaram barricadas e gritaram insultos à polícia, que respondeu lançando granadas de gás. Moradores reportaram sons de tiros nas ruas e a ocorrência de vários incêndios.

Em Seattle, uma passeata bloqueava periodicamente o tráfego nos cruzamentos, enquanto que a polícia apenas observava. Depois da marcha pacífica, os manifestantes começaram a lançar latas, garrafas e pedras. Cinco pessoas foram detidas. 

Em Nova York, a família de Eric Garner, que morreu asfixiado ao ser detido por um policial meses atrás, se juntou ao reverendo Al Sharpton, que lamentou a decisão do júri em Ferguson em um discurso do Harlem.

“Estamos do lado de Michael Brown para lutar pelo o que é certo”, afirmou o reverendo. “Perdemos o primeiro round, mas a luta não acabou.”

Centenas de pessoas marcharam do sul de Manhattan a Times Square. Os manifestantes chegaram a bloquear brevemente várias pontes. 

FONTES: http://www.valor.com.br/internacional/3793354/eua-tem-dia-de-protestos-contra-decisao-de-ferguson#ixzz3K7JV1Ejl

Genocídio brasileiro

Policiais matam em média 6 pessoas por dia, mostra estudo

Marcelo Camargo/ABr
Polícia Militar de São Paulo aborda moradores

Polícia Militar: organização aponta que é preciso rever o padrão de atuação das forças policiais

Camila Maciel, da AGÊNCIA BRASIL

São Paulo – As polícias brasileiras mataram, durante o serviço, 2.212 pessoas em 2013, apontam dados da oitava edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pela organização não governamental Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Em média, são 6,11 mortos por dia. O número é menor do que o verificado no ano anterior, quando 2.332 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil.

A íntegra do documento será apresentada amanhã (11) na capital paulista.

Apesar da queda, o FBSP avalia que a diferença não indica uma melhora ou tendência de mudança. A organização aponta que é preciso rever o padrão de atuação das forças policiais.

O fórum foi criado em 2006 com objetivo de construir um ambiente de cooperação técnica na área de atividade policial e na gestão de segurança pública.

O anuário apresenta dados sobre custo da violência, gastos de segurança pública, estatísticas de crimes e violência, efetivo de polícias e população prisional.

O levantamento releva ainda que, nos últimos cinco anos, a polícia matou 9.691 pessoas.

O número é cinco vezes maior do que o verificado nos Estados Unidos, onde 7.584 pessoas foram mortas pela ação policial nos últimos 20 anos.

Se forem somados os casos em que os policiais agiram também fora de serviço, o total chega a 11.197. Os dados norte-americanos apontam 11.090 mortes em 30 anos.

relação à quantidade policiais mortos, houve um aumento em 2013 na comparação com o ano anterior.

Foram 490 mortes, 43 a mais do que 2012. A média no país é 1,34 policial assassinado por dia. Desde 2009, 1.170 agentes foram mortos.

A maioria das mortes (75,3%) ocorreu quando não estavam em serviço.

O Rio de Janeiro é o estado com maior número de casos, com 104, seguido por São Paulo (90) e Pará (51).

Como parte do anuário, o FBSP apresenta o Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil), apurado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

O estudo aponta que apenas 33% dos entrevistados dizem “confiar ou confiar muito” no trabalho da polícia. O percentual é três pontos superior ao verificado no ano passado, mas, na avaliação da organização, o número ainda é muito baixo. Foram entrevistadas 7.176 pessoas em oito estados.

Os policias avaliados como mais honestos pela população local foram os do Rio Grande do Sul, com 62% de confiança dos entrevistados.

Em segundo lugar, estão os agentes de Minas Gerais e do Distrito Federal, com 57% da população confiando na idoneidade das forças policiais.

Na média nacional, 51% acreditam que a maior parte dos policiais é honesta. Os amazonenses, por outro lado, são os que mais desconfiam das forças de segurança. A polícia do Amazonas é considerada honesta por 35% dos entrevistados.

As pessoas mais velhas (62%) e as que têm maior escolaridade (60%) são as que mais tendem a concordar com a afirmação de que a maior parte dos policiais é honesta.

Também foram verificadas diferenças étnicas em relação a essa questão.

É maior a proporção de entrevistados que se autodeclaram branco que concordam com a afirmativa do que entre os que se autodeclaram negros.

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/policiais-matam-em-media-6-pessoas-por-dia-mostra-estudo

EL País: Os protestos ofuscam a estreia da Copa do Mundo no Brasil

As manifestações anti-Copa se juntam à concentração de metroviários e atraem os Black Blocs, que fizeram trincheiras de fogo num bairro próximo ao Itaquerão

No resto da cidade, os torcedores seguiam eufóricos para o estádio

PEDRO MARCONDES DE MOURA

A polícia dispara contra os manifestantes na zona leste. / MARIO TAMA (GETTY)

A Copa do Mundo está a ponto de começar. Mas os protestos que, há um ano acompanham sua organização, persistem. Focos de manifestação e greves de vários setores e em várias cidades brasileiras ofuscaram o dia de estreia do Mundial. Em São Paulo, que está tomada por policiais e por soldados do Exército, agentes anti-motins dissolveram hoje pela manhã com gases lacrimogênios um protesto de uma centena de pessoas que reclamava pelas despesas do Mundial, às portas da partida inaugural de hoje. A agência Reuters contabilizou pelo menos oito feridos, a maioria jornalistas, e algumas pessoas foram detidas.

Os manifestantes reuniram-se próximos à Radial Leste, um dos acessos do estádio Itaquerão, onde às 17h horas começa o jogo entre a Croácia e o Brasil. A polícia cercou os manifestantes, que retrocederam várias centenas de metros e acabaram se unindo a um grupo de trabalhadores do metrô de São Paulo – que rapidamente tratou de se desvencilhar do conflito. Os metroviários estavam concentrados também na região, onde fica o sindicato dos metroviários, para protestar contra o Governo do Estado pela readmissão dos 42 demitidos de uma greve recente, desconvocada na segunda-feira, que paralisou durante cinco dias a cidade. Teve início o corre-corre, os distúrbios, jovens encapuzados começaram a derrubar sinais de trânsito e a fazer barricadas de lixo que foram incendiadas na sequência, levantando uma fumaça preta que assustou os moradores da região.

Os trabalhadores do metrô se preocuparam em não se misturar com os jovens mais violentos, que lançavam pedras aos agentes. A polícia, enquanto isso, continha os protestos e tratava de cercar os manifestantes de maneira que não se aproximassem das vias de acesso ao estádio. Conseguiu. Tudo isso acontecia na zona leste da cidade. No resto, os pedestres de camiseta amarela, torcedores emocionados e sorridentes e turistas se dirigindo ao estádio.

Enquanto isso, no Rio produziu-se uma greve de trabalhadores dos aeroportos que afetou uma das vias de acesso ao terminal internacional. Professores que exigiam melhores salários fizeram passeatas no centro da cidade. Em Natal, no nordeste do país, também sede do Mundial, se anunciava uma greve de motoristas de ônibus que afetava meio milhão de pessoas. Já em Porto Alegre, uma manifestação antiCopa tomou conta do centro. Aproximadamente 150 pessoas se juntaram em frente à prefeitura municipal para protestar contra os gastos da competição. Houve atos de vandalismo, e a tropa de choque chegou para conter os ataques à Secretaria de Turismo.

As imagens nas redes de televisão brasileiras mostravam bombeiros tentando apagar os focos de fogo em São Paulo, policiais vestidos como Robocops e nuvens de jornalistas com capacetes ziguezagueando entre uns e outros. Uma moradora do bairro do Tatuapé admitiu: “Que pena: meu bairro está em guerra”.

No final da manhã, os metroviários fecharam a sede do sindicato para proteger os manifestantes da polícia. Ficaram de fora apenas um grupo de simpatizantes da tática Black Bloc e policiais. A PM bloqueou as vias de acesso ao local para evitar que a aglomeração aumentasse.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/12/politica/1402588208_408345.html

Viomundo: Polícia faz busca e apreensão em casa de jornalista carioca, que diz: “Nunca falei nada do Aécio” nas redes sociais

por Luiz Carlos Azenha

A casa completamente revirada. Apreendidos um computador, dois HDs externos, pen drives, um iphone sem uso, chips de computador, CDs de fotos e um roteador.

A jornalista Rebeca Mafra, do Rio de Janeiro, que trabalha no Canal Brasil, concorda que viveu um dia “bizarro”.

Era por volta do meio dia quando ela recebeu uma ligação do prédio onde mora com a informação de que policiais estavam presentes com um mandado de busca e apreensão e arrombariam a porta.

Como trabalha na Barra da Tijuca e mora no centro, Rebeca pediu a uma amiga que tem a chave que abrisse a porta.

Os policiais reviraram tudo.

Só mais tarde ela soube qual era a acusação: ela teria de alguma forma participado de um grupo organizado para difamar o senador Aécio Neves nas redes sociais.

O problema é que, segunda ela, “nunca falei nada do Aécio” nas redes sociais.

Rebeca não se define como uma internauta muito ativa. Admite que não pretende votar em Aécio, mas diz que o que mais faz é postar fotos no Instagram. Olha o meu Facebook, sugeriu.

De fato, uma rápida navegada pelo perfil da jornalista demonstra que ela em geral reproduz posts de outras pessoas, não relacionados a política.

O mais recente é um vídeo do gato de uma amiga que fica agitado quando tem fome.

No Facebook, segunda ela, o máximo que faz é dar algumas curtidas.

Porém, documentos aos quais o Viomundo teve acesso demonstram que Rebeca e outras quatro pessoas estão sob investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro a pedido do senador Aécio Neves.

Na decisão em que atendeu ao pedido do Ministério Público para expedir os mandados de busca e apreensão, o juiz descreveu uma suposta quadrilha muito sofisticada:

Segundo narra o órgão ministerial, o procedimento investigatório foi iniciado a partir de notitia criminis encaminhada pelo Exmo. Senador Aécio Neves, na qual noticia a prática reiterada de crimes contra a sua honra através da colocação de comentários de leitores em sites de noticia, muitos dos quais não guardam qualquer pertinência com as notícias comentadas. Afirma o Parquet que há indícios de que tais comentários são lançados de forma orquestrada, por pessoas associadas para, mais do que potencialmente  afetar a reputação do senador, associar, em escala estatisticamente relevante, seu nome aos termos constantes dos comentários. Assim agindo, possuem os autores o intento de alterar os resultados dos mecanismos de busca na internet, como o Google, por exemplo, fazendo com que tais páginas — ainda que substancialmente irrelevantes — alcancem destaque nos resultados das pesquisas.

A Folha deu a notícia com grande escândalo.

Porém, para pelo menos uma das pessoas acusadas, a jornalista Rebeca Mafra, é tudo novidade.

“Que maluquice”, comentou Rebeca quando informada de que é acusada de atuar numa espécie de “quadrilha virtual”, já que ela não conhece nenhum dos outros quatro acusados.

“Bizarro”, eu disse à entrevistada por telefone. Ela concordou: “Bizarro”.

Rebeca ainda não deu depoimento à polícia carioca.

[Post alterado para acréscimo de informações]

Leia também:

Mídia Ninja denuncia “prisão preventiva” de ativistas no Rio

FONTE: http://www.viomundo.com.br/denuncias/policia-faz-busca-e-apreensao-em-casa-de-jornalista-carioca-que-diz-nunca-falei-nada-do-aecio-nas-redes-sociais.html

Vai ter Copa. Só não para você

Evento privado, gasto público, lucro privado

“Ingressos caros, gasto público com lucro privado, violações aos direitos humanos e ataques à democracia. Esse é o grande legado da realização da Copa do Mundo no Brasil. Revertê-lo em ganhos de mobilização política e transformação social é possível”

Edemilson Paraná *

A “Copa das Copas” vai acontecer, já aconteceu, já está acontecendo. Pelo menos para a Fifa. Uma projeção feita pela BDO (empresa de auditoria e consultoria especializada em análises econômicas, financeiras e mercadológicas) aponta que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil vai render para a entidade, que supostamente não tem fins lucrativos, a maior arrecadação de sua história: nada menos do que US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões). O valor é 36% superior em comparação ao montante obtido com o Mundial da África do Sul (US$ 3,6 bilhões), em 2010, e 110% maior do que o arrecadado na Copa de 2006, na Alemanha, que rendeu US$ 2,3 bilhões. Os números foram confirmados pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, em entrevista coletiva realizada em junho de 2013.

Os governos têm feito sua parte para ajudar… os cartolas. Com isenção de cerca R$ 1 bilhão em impostos, o Mundial no Brasil já é um ótimo negócio para a entidade. Ao todo, cerca de R$ 28 bilhões serão gastos em obras de infraestrutura e construção e reforma de estádios para receber o torneio. Desse montante, quase R$ 8 bilhões estão sendo gastos em estádios. Metade desse valor é financiada por bancos federais. Apenas R$ 820 milhões gastos nos estádios foram financiados com recursos privados (segundo valores da CGU). O restante dos recursos foi aportado por governos locais, como é o caso de Brasília, onde o valor do Mané Garrincha passou de R$ 1,2 bilhão.

Cerca de um terço do valor total das obras (R$ 8,7 bilhões) está sendo financiado por bancos federais – Caixa Econômica Federal, BNDES e bancos estaduais. Boa parte desses empréstimos é tomada pelos próprios governos estaduais, sozinhos ou em parcerias com o setor privado, embora alguns empréstimos também sejam contraídos por entes privados (como os mais de R$ 400 milhões liberados pelo BNDES para o Corinthians construir o Itaquerão). E antes que surja o papo de que o dinheiro desses bancos é privado, lembremos que o BNDES, por exemplo, é uma empresa pública. Recebe dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para emprestar em condições privilegiadas a empresários. O fundo é formado por parte da receita de um tributo, a contribuição ao PIS/Pasep, cujo custo é incorporado pelas empresas aos preços dos bens pagos pelos consumidores.

As obras consumirão R$ 6,5 bilhões do orçamento federal e R$ 7,3 bilhões de governos locais (estaduais e municipais). Dos R$ 28,1 bilhões totais, apenas R$ 5,6 bilhões serão recursos privados (que se concentram principalmente nos aeroportos). Balela dizer que não há dinheiro público na jogada. O preço dos ingressos todos nós já conhecemos, as obras de infraestrutura urbana, propagandeados como o grande legado do evento, poucos viram até agora.

Em resumo, a lógica é bastante simples. A Fifa faz uma festa privada e se você quiser sediá-la precisa aceitar as condições da entidade. A verdade é que não há nenhum comprometimento com o desenvolvimento econômico, esportivo ou humano dos países que sediam grandes eventos esportivos.

Não por acaso, a Suécia – que notoriamente tem problemas sociais menos agudos do que os brasileiros – acaba de negar a oportunidade de uma candidatura para sediar as Olimpíadas de 2022. A justificativa é assustadoramente simples: o país tem outras prioridades como habitação, desenvolvimento e providência social.

Gastos incalculáveis: o retrocesso nos direitos humanos

Não bastasse a matemática contábil básica ignorada pelos defensores dos grandes eventos, um conjunto de abusos e violações aos direitos humanos completa o pacote de “gastos” sociais incalculáveis.

Um mapeamento divulgado na Suíça pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) em parceria com a ONG Conectas, no final de maio passado, calcula que mais de 200 mil pessoas estão sendo despejadas arbitrariamente de suas casas por causa de obras para os preparativos da Copa em todo o Brasil. Durante os preparativos de megaeventos esportivos, estima-se que 15% dos moradores de Seul foram expulsos de suas casas e, na África do Sul, 20 mil pessoas foram despejadas.

Além das milhares de famílias desalojadas, algumas outras pagaram com a vida o preço de obras superfaturadas, feitas às pressas, com baixa remuneração, cargas de trabalho extenuantes e pouca fiscalização. De junho de 2012 a dezembro de 2013, o Brasil registrou sete mortes relacionadas à preparação do país para a Copa do Mundo. Número mais de três vezes maior do que o registrado na África do Sul.

Contra a revolta social produzida por tais abusos, muita repressão. Além de outros milhões de reais gastos com aparato de repressão adicional (bombas de gás, spray de pimenta, armas e balas de borracha, equipamentos de dispersão, entre outros), uma tropa de choque especial com 10 mil homens, especialmente recrutados para isso, será responsável por agir em caso de manifestações nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.  Além das tropas, robôs irão monitorar por imagens a movimentação de pessoas nos entornos dos estádios, e a vigilância a aplicativos de celulares e mídias sociais já está em andamento. O Exército está a postos e também se prepara para a necessidade de ser convocado a conter as manifestações. O (não) preparo dessas “tropas” para lidar com seus próprios cidadãos exercendo seu livre direito de manifestação, como se fossem inimigos da pátria, já é amplamente conhecido.

No apagar das luzes de 2013, o Ministério da Defesa baixou uma portaria normativa que “Dispõe sobre a Garantia da Lei e da Ordem” pelas Forças Armadas. Entre outras coisas o documento aponta a necessidade de conter “sabotagem nos locais de grandes eventos” e aponta como “força oponente” os “movimentos ou organizações” que causem dificuldades no objetivo de “manter ou restabelecer a ordem pública”.

No Congresso, tramitam mais de 13 propostas que “normatizam” manifestações. As propostas, muitas flagrantemente inconstitucionais, tratam de criminalização, aumento de penas, tipificação de terrorismo, entre outros ataques ao direito de organização social. Além da Lei Geral da Copa, um abuso em si, que já revoga vários direitos democráticos, tramita um projeto de lei no Senado que, entre outras coisas, proíbe greves durante o período dos jogos e inclui o “terrorismo” no rol de crimes com punições duras e penas altas para quem “provocar terror ou pânico generalizado”.

Ganhos inesperados: articulação e mobilização social

Ingressos caros e avanço do processo de elitização do futebol no Brasil, gasto público com lucro privado, violações aos direitos humanos e ataques à democracia. Como pano de fundo desse cenário, um país desigual, com saúde e educação precarizadas e péssimos serviços de mobilidade urbana. O resultado não poderia ser outro que não revolta social.

O combate dos governos e seus aliados às manifestações é de ruborizar pela falta de consistência política. O argumento de que “os protestos causarão prejuízos ao Brasil” até faria algum sentido se os vultosos lucros com a realização do evento não fossem parar no bolso de meia dúzia de gestores, empresários e cartolas em detrimento dos altos preços cobrados de torcedores e contribuintes.

A ideia de que o “movimento é partidário e, portanto, orquestrado para prejudicar a reeleição da presidenta Dilma” desmonta-se diante de uma primeira visita a qualquer um dos protestos: há tudo e todos, diferentes movimentos e colorações ideológicas, trata-se de um espaço amplo, aberto, caótico e fragmentado. Estrutura-se, pois, em anseios legítimos da população brasileira, que se expressam da maneira possível diante do atual quadro de esvaziamento representativo. Se prejudicam a imagem de governos, o problema está, obviamente, nas medidas que estes resolveram adotar à revelia do que precisa e pede o país neste momento, à revelia de nossas reais prioridades.

Chega a ser irônico ver um governo dirigido por um partido que até ontem se apresentava como de esquerda e nacionalista se mobilizar de modo tão uníssono – e por que não dizer, desesperado – em defesa da submissão do Estado e da sociedade na garantia dos lucros de uma instituição privada internacional que concorre na Suíça ao prêmio Public Eye Awards como a pior companhia do mundo, honraria já concedida às “benévolas” Vale do Rio Doce, Shell e ao Banco Goldman Sachs, um dos responsáveis pelo estouro da crise financeira mundial em 2008.

Por fim, o argumento de que os protestos são “autoritários” é risível diante do fato de que em nenhuma etapa do processo – a eleição do Brasil como sede, a aprovação da abusiva Lei Geral da Copa ou a remoção de centenas de milhares de famílias – a população foi consultada. Tudo foi decidido, para variar, entre as cúpulas do poder dominante.

As preocupações dos governos e seus partidos dirigentes, no entanto, têm razão de ser. A revolta crescente aos poucos se organiza politicamente e procura, sim, os responsáveis pelos abusos. Já em 2013 a Ancop (Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa) cumpriu um papel importante nas manifestações de junho lançando o importante questionamento “Copa para quem?”. A articulação, um dos catalisadores das manifestações à época com atos em todo o Brasil, reúne comitês nas 12 cidades-sede da Copa, que por sua vez agregam movimentos sociais, universidades e entidades de sociedade civil que lutam contra a violação de direitos humanos. Poucos ganhos podem ser maiores para uma sociedade do que os de conscientização e organização política em defesa de seus direitos. Esse pode ser o nosso maior legado.

Desde o ano passado, essa articulação vem se ampliando. O debate a respeito dos abusos da realização da Copa do Mundo no Brasil, aos poucos, se desloca ao centro da agenda política. No bradar de vozes opositoras, que já se autonomearam em relação à ação inicial dos comitês, uma consigna se destaca mais do que outras, para o pânico do andar de cima: “Não vai ter Copa”.

Não vai ter Copa?

Tudo somado, os gastos envolvidos, os interesses em jogo e o aparato de repressão mobilizado, é difícil que não haja. Trata-se de ano eleitoral, de uma das Copas mais lucrativas da história e da subjetividade de um país que passou – também graças a insistente propaganda oficial ao longo de anos – a enxergar-se como o país do futebol. Vai, sim, ter Copa. Só não para você.

Para quem ela será, já sabemos. Sabemos também que o preço será alto para todos os lados: governos, empresários, torcedores e manifestantes. Como o cenário não é favorável para nenhuma mudança de rumos na organização do evento, engana-se quem acha que a tensão social diminuirá até lá. Mas será que a palavra de ordem “Não vai ter Copa” é a melhor nesse momento?

Particularmente, creio que não. A consigna “Copa para quem?” denuncia de modo mais claro os problemas que apontamos, articulando-o a outras dimensões de nossas desigualdades estruturais, o que abre cenário para a politização sistêmica desse processo, mesmo após a finalização do evento.

“Não vai ter Copa”, em contrapartida, anima as manifestações para um objetivo que não parece muito crível no momento, encaminhando as reivindicações para uma derrota. Derrotas, sabemos, têm um impacto consideravelmente negativo em um processo de lutas sociais, já que é de vitórias e conquistas, ainda que pontuais, que se alimenta um ascenso político dessa natureza. Denunciar de modo firme e claro os desmandos da realização do evento, desgastando e constrangendo os responsáveis e privilegiados por tais abusos, já aponta uma importante vitória parcial, que pode ser ampliada posteriormente em articulação com outras denúncias, reconfigurando com isso a conjuntura da política brasileira.

Peçamos hospitais e escolas padrão Fifa, moradias para os sem-teto, transparência nos investimentos para a Copa, denunciemos a corrupção, a suspensão da liberdade de manifestação durante a Copa. Dessa forma, temos mais possibilidades de obter algumas vitórias; a maior delas, sem dúvida, será o fortalecimento de um amplo e enraizado movimento de contestação social.

A maioria do povo brasileiro não é contrária à realização da Copa do Mundo no país. É contrária, sim, aos atropelos e usurpações que cercam a organização do evento. Não fosse isso, tal maioria gostaria de uma Copa no “país do futebol”. De alguma forma, então, a palavra de ordem “Não vai ter Copa” pode confundir as coisas e fazer com que uma parcela da opinião pública que poderia apoiar o movimento acabe se opondo a ele, ampliando, inclusive, a violência da repressão. Quem surfa nessa ambiguidade? O governismo mal intencionado e os defensores da realização dos grandes eventos tal qual estão sendo organizados.

De qualquer forma, com a palavra de ordem que for, nosso lado é claro – e não é o lado dos governos e da Fifa. Se a palavra de ordem “Não vai ter Copa” é a quem vem das ruas, não devemos cerrar fileiras com o oportunismo político governista a combatê-la. Podemos e devemos contribuir com a discussão de táticas alternativas, mas o nosso dever é, antes de tudo, a unidade; é estar ao lado daqueles que lutam contra o superfaturamento das obras, a corrupção aberta e o uso de dinheiro público sem um mínimo de respeito às reais prioridades do país, a submissão do governo federal a exigências absurdas da Fifa, as restrições à liberdade de manifestação, às remoções, entre outros inaceitáveis ataques em nome da alegria do futebol. Provemos ao mundo que somos sim, apaixonados por futebol, mas negamos ser humilhados e oprimidos por essa paixão.

 *Edemilson Paraná é vice-presidente do Psol-DF e mestrando em Sociologia na UnB.

FONTE: http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/vai-ter-copa-so-nao-para-voce/