Para se combater o governo Bolsonaro há que se separar a encenação dos seus fins práticos

 

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As cenas do presidente Jair Bolsonaro nadando (ainda que tropegamente) em meio a uma multidão de apoiadores nas águas de uma praia na Baixada Santista fez com que muitos analistas sérios o equiparassem ao ditador fascista Benito Mussolini que um dia também usou dessa estratégia para mostrar estratégia. Além de derivar comparações com um passado fascista, as cenas de Bolsonaro nadando deixaram muita gente boa atônita pelos simples fato de ainda existirem brasileiros que se disponham a tratá-lo como “mito”.  A solução para esse mistério está surgindo em narrativas de pessoas que estavam na areia da mesma praia quando as cenas envolvendo o presidente brasileiro ocorreram.  Segundo pelo menos uma testemunha, toda a situação pode ter sido simulada, provavelmente para energizar a base mais sólida sobre a qual Bolsonaro se apoia para governar.

Mas qual seria a surpresa se as cenas vindas de Praia Grande tenham sido realmente apenas uma bem elaborada encenação teatral? Para mim, nenhuma. É que ao longo de 2020, Bolsonaro foi flagrado realizando várias encenações dessa natureza, inclusive uma em que ele acena de forma animada para o vazio em um aeroporto em Goiás como se acenasse para uma multidão (ver vídeo abaixo). Coisa de um político que está há muito tempo no teatro da política, e que sabe manejar como poucos as emoções de uma base pequena, mas aguerrida, de fieis seguidores.

Contudo, se todos já deveriam saber que Bolsonaro e seus ideólogos são versados nas técnicas de manipulação da realidade, por que tantos ainda caem facilmente em seus truques? Em minha opinião, isso ocorre porque Bolsonaro é o espantalho perfeito para que as forças políticas que o apoiam, mas também supostamente o atacam, fujam das responsabilidades em relação ao projeto que ele e Paulo Guedes estão tendo implementar que é, basicamente, desmontar e reduzir a pó os elementos progressivos da Constituição Federal de 1988, incluindo não apenas os direitos sociais, mas também a proteção do meio ambiente e dos povos tradicionais. 

Como a imensa maioria dos partidos políticos fugindo do debate sobre o projeto que está sendo executado, à direita e também à esquerda, ficam todos apontando o dedo para Bolsonaro, enquanto Paulo Guedes continua avançando com as privatizações espúrias e com o desmanche das políticas sociais.  Essa é a tônica inclusive das análises feitas pelos chamados “intelectuais de coleira” que lotam os programas da mídia corporativa e cujas análises contribuem para esse clima de fim feira em meio à pandemia que contribui para a persistência da paralisia política. Se levarmos ao pé da letra o que muitos desses intelectuais amestrados, nem será preciso fazer eleição em 2022, pois já se sabe que Jair Bolsonaro será reeleito.

A saída para essa verdadeira “chave de cadeia” em que o Brasil está metido começa pela questão básica que é destrinchar o papel de Jair Bolsonaro no atual teatro de operações, mas continua com a identificação dos atores que estão ganhando com o avanço de seu projeto de desconstrução do sistema de direitos sociais e trabalhistas que está sendo aplicado por seu governo. Entender a relação entre a aparência e a essência da situação política que nos envolve será a principal tarefa nos primeiros meses de 2021, sob pena de ficarmos todos boquiabertos se os trabalhadores e a juventude resolverem desmontar por conta própria as caixas de ilusão de ótica que o presidente monta para esconder sua própria fragilidade.  Por isso, é essencial que se mantenha claro que com Bolsonaro só há uma verdade absoluta: nem tudo é o que parece. E isso como regra básica.

Mas mais do que a natureza e a finalidade da máquina de propaganda do Bolsonarismo, o essencial será sair da inação letárgica em que as forças políticas que dizem se opor ao projeto político convenientemente estão colocadas. E isso deverá começar por questionários desde os municípios a aplicação do receituário ultraneoliberal da dupla Bolsonaro/Guedes.  Essa será a chave para se sair das cordas e partir para a ofensiva política que a conjuntura requer.

 

Cenas de uma cidade em que as políticas sociais foram exterminadas

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O jovem prefeito Rafael Diniz (Cidadania) assumiu a chefia do executivo municipal fazendo uma espécie de massacre da serra elétrica nas políticas sociais estabelecidas por diferentes administrações que se beneficiaram da chegada de recursos vultosos a partir da promulgação da chamada Lei do Petróleo.

De forma paulatina, mas inapelável, os segmentos mais pobres da população se viram desprovidos de várias políticas que, precariamente, mantinha muita gente fora da miséria extrema.  Em pouco tempo, Rafael Diniz e seus menudos neoliberais acabaram com a chamada “passagem social” que facilitava o acesso ao transporte público, com o acesso a comida barata no “restaurante popular”,  com o “cheque cidadão” que permitia uma capacidade mínima de consumo, e também enterrou com o programa de habitação de interesse social, o “Morar Feliz”.

Nada foi criado para suprir o vácuo deixado por esse desinvestimento no alívio da pobreza extrema e, ao longo de quase 3 e 4 meses de governo, as consequências foram se tornando óbvias em praças e marquises que assistiram a um aumento exponencial da população de rua.  Gastos mesmos só com sacolões cujos preços chamaram a atenção dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado.

Enquanto isso, de forma silenciosa e efetiva, as freiras do Mosteiro da Santa Face, da Ordem Redentora foram fazendo o que o poder público comandado por um grupo de menudos ultraneoliberais optou por não fazer.  Sou testemunha do papel que as freiras cumpriram ao longo do mandato de Rafael Diniz no tocante à matar a fome dos mais excluídos. Elas contaram com a contribuição de muitas pessoas e pontualmente da sociedade civil para conduzir essa ação de mitigação da fome de muitos campistas.

Essa é a síntese do período pré-pandemia. É que depois que se fecharam as alternativas existentes ao trabalho das freiras, o Jardim São Beneditos acabou se tornando um ponto crescente de aglomeração de campistas (desde crianças até idosos) em busca de alimentação (ver imagens abaixo).

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Para aqueles que se incomodam com as cenas de uma multidão se postando em cartões postais da cidade à procura de um pouco de comida, eu diria que o maior incômodo deveria ter ocorrido logo quando as políticas sociais municipais foram exterminadas por Rafael Diniz e seus menudos neoliberais. Lamentavelmente as vozes indignadas foram poucas e rapidamente alienadas, sob as mais diversas adjetivações. Tudo em nome das reformas ultraneoliberais de Rafael Diniz, que  tornaram Campos dos Goytacazes um vitrine dos retrocessos que ocorrem quando o Estado resolve esquer suas tarefas de cuidar dos mais pobres.

Pois bem, agora podemos ver bem claramente o que acontece quando as políticas sociais que minimizam a pobreza são exterminadas em nome da saúde fiscal dos entes federativos.