Intelectuais de coleira e a falta que Karl Marx faz no entendimento da crise brasileira

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Ao ler muitas análises feitas por intelectuais que se dizem preocupados com a atual situação política brasileira é visível que elas se movem por caminhos em que lhes falta a devida ponderação em termos dos elementos sistêmicos que explicam o que vem ocorrendo no Brasil. Em outras palavras, falta a essas análises ao menos algumas pitadas das ideias de Karl Marx sobre as características de produção e reprodução do Capitalismo, bem como do modelo particular pelo qual o Capitalismo se instalou e se reproduziu no Brasil.

A ausência de Marx nos posicionamentos desses intelectuais parece ser fruto de dois fatores básicos. A primeira é simplesmente por covardia, pois citar Karl Marx em análises numa conjuntura tão conflagrada é um convite para que as hordas de analfabetos políticos se coloquem em marcha, proferindo xingamentos e ameaças de extermínio físico.  Já a segunda tem a ver com opções analíticas que são até palatáveis para os donos da mídia corporativa, justamente por evitar expor a natureza da crise sistêmica que se abate hoje sobre o sistema capitalista. De quebra, ao oferecer nuances críticas que soam até elegantes, mas que fogem do essencial, esses intelectuais cooperam com a manutenção de uma névoa de particularismo que apenas serve aos que querem nos manter como uma ilha isolada, como se o resto do mundo não existisse.

Felizmente existem exceções como é o caso do sociólogo Ricardo Antunes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que acaba de lançar o esclarecedor livro “O privilégio da servidão” onde presenta um retrato detalhado da classe trabalhadora hoje, em suas principais tendências, centradas principalmente na precarização, terceirização, desregulamentação e assédio no mundo do trabalho [1]. 

Mas Ricardo Antunes não é um desses intelectuais de coleira que a mídia corporativa adora ter em seus quadros, pois suas análises vão claramente ao encontro dos oprimidos e explorados, e não de uma audiência que pode até ter espasmos de lucidez, mas que mormente optou ou por se colocar do lado dos opressores ou, por outro, pela aceitação do status quo atual.

O meu ponto aqui é que Ricardo Antunes só pode nos oferecer uma análise mais realista em suas obras porque entende e aceita a natureza sistêmica do que estamos presenciando, e não fica preso à superficialidades que em nada servem para nos armarmos para o verdadeiro combate que está posto.

Falando nisso, o que está mesmo posto diante de nós?  O que fica cada vez mais aparente é a opção das elites rentistas brasileiras de se entregarem o nosso país de bandeja para as economias centrais, desprovendo nesse processo a maioria do nosso povo de qualquer perspectiva de superação da miséria estrutural que existe no Brasil. Para as elites rentistas nacionais se trata de manter intacto um modelo de sociedade que prima pela extrema concentração de renda, que beneficia um punhado de famílias, para que elas possam manter seus padrões de consumo retirados dos “playbooks” da burguesia primeiro mundista.  E o resto do povo que se afogue em praias imundas e campos inundados de venenos agrícolas proibidos no resto do planeta.

Só entendendo isso é que poderemos efetivamente superar as análises superficiais dos intelectuais amestrados e começar a realizar um esforço de entendimento que não nos atole na falta de perspectivas e na paralisia.

Finalmente, apenas para voltar no ponto que comecei, isto só será possível com doses maciças de análise marxista, a única capaz de nos dotar das conexões e da profundidade necessárias para efetivamente entender a realidade aonde estamos imersos.


[1] https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/o-privilegio-da-servidao-805

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