Rodrigo Fux, o Porto do Açu e as desapropriações que continuam sem pagamento

As recentes revelações sobre a proximidade entre o advogado Rodrigo Fux e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro recolocaram em debate as relações entre grandes interesses econômicos, escritórios de advocacia influentes e os tribunais superiores. No Norte Fluminense, essa discussão possui um antecedente que merece atenção: a atuação de Rodrigo Fux na defesa de empresas ligadas ao Porto do Açu.

Documentos judiciais confirmam que Rodrigo Fux representou a Porto do Açu Operações e a Grussaí Siderúrgica do Açu em processos envolvendo terras desapropriadas no V Distrito de São João da Barra. No processo nº 0000721-89.2017.8.19.0053, ele compareceu como advogado das empresas em uma ação destinada a retirar agricultores que haviam retomado áreas desapropriadas durante o governo Sérgio Cabral.

A distinção necessária é que Rodrigo Fux não aparece como responsável pelo pagamento das indenizações, atribuição do Estado do Rio de Janeiro e da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin). Sua atuação ocorreu na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações. Enquanto o Estado não pagava aos antigos proprietários, seus clientes procuravam garantir judicialmente a posse das terras e afastar os agricultores que haviam retornado às propriedades.

Essa atuação proeminente já havia sido percebida por fontes locais diretamente envolvidas no conflito. O advogado Antonio Mauricio Costa, representante dos desapropriados, vinha chamando atenção para a presença de Rodrigo Fux na defesa dos interesses empresariais relacionados ao Porto do Açu. Registros posteriores mostram que o advogado continuou representando a Porto do Açu Operações em outros litígios, enquanto o próprio escritório Fux Advogados apresenta a Porto do Açu Operações e a Prumo Logística entre seus clientes relevantes.

O caso também expõe uma profunda desproporcionalidade nas capacidades de defesa jurídica. De um lado estão grandes  fundos de investimentos e empresas dotados de recursos financeiros e assessoradas por escritórios com trânsito nacional, entre cujos advogados se encontra o filho de um ministro do STF. Do outro estão agricultores desapropriados que, quando muito, podem contar com advogados locais muito capazes, mas obrigados a conduzir processos longos e complexos sem a mesma estrutura material, a mesma rede de relações institucionais ou a mesma capacidade de sustentar indefinidamente uma disputa judicial.

Isso não diminui a competência dos advogados dos agricultores. Ao contrário, mostra o tamanho da tarefa que enfrentam. Enquanto a defesa empresarial pode mobilizar equipes especializadas e levar rapidamente suas demandas a diferentes instâncias, os desapropriados dependem de uma tramitação predominantemente local, marcada por mudanças de magistrados, perícias demoradas ou nunca realizadas e processos que atravessam anos sem uma solução definitiva. A desigualdade não está apenas nos argumentos apresentados, mas nas condições concretas disponíveis para fazê-los chegar, com a necessária celeridade, aos espaços onde as decisões são tomadas.

Não existe, por si só, qualquer ilegalidade no exercício da atividade profissional de Rodrigo Fux. O problema é de natureza institucional. Processos relativos às desapropriações e às indenizações ainda não pagas continuam tramitando e podem alcançar os tribunais superiores. Caso algum deles chegue ao Supremo Tribunal Federal e seja submetido ao ministro Luiz Fux, pai de Rodrigo Fux, surgirá uma questão objetiva de possível impedimento ou suspeição.

É importante registrar que, até o momento, não encontrei elementos que permitam afirmar que Rodrigo Fux tenha atuado para provocar ou impedir o pagamento das indenizações, tampouco provas de interferência do ministro Luiz Fux nesses processos. Essa ausência de evidências na pesquisa realizada, entretanto, não permite excluir definitivamente tal possibilidade. Diante da presença destacada de Rodrigo Fux na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações, permanece legítima a dúvida sobre a extensão de sua atuação e sobre a eventual existência de iniciativas ainda não identificadas nos documentos consultados. Entretanto,  há que se ressaltar que aquilo que está documentado é suficientemente grave e dispensa exageros: enquanto centenas de desapropriados aguardavam aquilo que lhes era devido, Rodrigo Fux atuava para assegurar às empresas beneficiárias das desapropriações o controle das terras e a retirada dos antigos ocupantes.

Não se trata de criminalizar a advocacia, mas de reconhecer que relações familiares, grandes interesses empresariais e processos capazes de alcançar os tribunais superiores exigem transparência redobrada.  Além disso, também é necessário reconhecer que a igualdade formal perante a Justiça pouco significa quando uma das partes dispõe de recursos, estruturas e conexões incomparavelmente superiores. No V Distrito, onde milhares famílias de agricultores pobres continuam esperando pelas indenizações das terras tomadas pelo Estado há mais de uma década, essa não é uma discussão abstrata. É uma questão de terra, dinheiro, poder e justiça que tarda há tempo demais.

Porto do Açu: bilhões e promessas avançam sobre um território que já acumula muitos passivos

A matéria publicada por O Dia sobre o papel do Porto do Açu no desenvolvimento regional oferece uma boa oportunidade para examinar não apenas o crescimento efetivamente alcançado pelo complexo industrial-portuário, mas também a distância que ainda separa sua realidade presente de boa parte do futuro que vem sendo anunciado para São João da Barra e para o Norte Fluminense. Há, entretanto, uma dimensão praticamente ausente dessa narrativa que considero indispensável para qualquer avaliação sobre o significado do empreendimento: o Porto do Açu não chega ao futuro anunciado partindo de uma folha em branco, mas carregando um passivo socioambiental acumulado desde sua implantação, ao qual poderão ser acrescentados novos e potencialmente maiores impactos caso a extensa carteira de empreendimentos anunciados venha efetivamente a se materializar.

Não há dúvida de que o Porto do Açu se tornou uma estrutura econômica de grande porte. Os 89 milhões de toneladas movimentados em 2025, os cerca de R$ 20 bilhões já investidos, a presença das duas termelétricas da GNA, que juntas ultrapassam 3 GW de capacidade instalada, e a participação crescente do complexo nas exportações brasileiras de petróleo demonstram que não estamos mais diante daquele projeto cuja viabilidade ainda era motivo de especulação há pouco mais de uma década. O Porto existe, cresceu e ocupa hoje uma posição relevante nas cadeias brasileiras de petróleo, minério de ferro, gás natural e serviços offshore.

Também existem novos investimentos e projetos capazes de ampliar significativamente essa importância. A matéria menciona mais R$ 22 bilhões em investimentos previstos até 2033, além de iniciativas relacionadas ao hidrogênio e à amônia verdes, combustíveis de baixo carbono, data centers e à futura integração ferroviária por meio da EF-118. É justamente nesse ponto que se torna necessário separar aquilo que já está efetivamente instalado daquilo que permanece no terreno dos contratos preliminares, do licenciamento, do planejamento ou das expectativas empresariais. Essa distinção é fundamental não apenas para evitar que o futuro seja apresentado como presente, mas também para que se possa discutir antecipadamente quais serão as consequências territoriais desse futuro caso ele realmente aconteça.

O caso dos data centers é ilustrativo. A Yamna reservou inicialmente uma área de 20 hectares no Porto do Açu e anunciou um projeto cuja primeira fase poderá alcançar 250 MW. Trata-se de uma iniciativa relevante e que merece ser acompanhada, mas reservar uma área e desenvolver um projeto não equivale a possuir um campus de data centers instalado e funcionando. Entre uma coisa e outra existem licenciamento, financiamento, contratação de capacidade, infraestrutura elétrica, disponibilidade hídrica e uma série de decisões empresariais que ainda precisarão ser tomadas. Mais importante ainda, se um empreendimento dessa escala efetivamente sair do papel, será necessário discutir de onde virão a energia e a água necessárias ao seu funcionamento e quais pressões adicionais serão produzidas sobre um território que já abriga um dos maiores complexos industriais e energéticos do estado do Rio de Janeiro.

O mesmo cuidado deve ser adotado em relação ao chamado hub de hidrogênio verde, pois existem projetos, áreas reservadas e processos de licenciamento em andamento, enquanto parte importante dessa infraestrutura permanece projetada para o final desta década ou para a seguinte. Assim, parece mais preciso afirmar que o Porto do Açu procura construir uma posição estratégica na futura economia de baixo carbono do que tratar essa transformação como realidade consumada. Além disso, classificar uma atividade como “verde” não elimina automaticamente seus impactos territoriais. Produzir hidrogênio e amônia em grande escala exige energia, água, instalações industriais, sistemas de armazenamento, estruturas de transporte e áreas de segurança, de modo que a questão ambiental não pode ser resolvida simplesmente pela utilização do adjetivo que acompanha a tecnologia.

Essa distinção torna-se ainda mais necessária porque a estrutura econômica atualmente consolidada no Porto continua fortemente associada aos combustíveis fósseis. Petróleo e gás natural ocupam posição central, enquanto as duas grandes termelétricas da GNA funcionam a gás. Surge daí uma contradição que merece ser examinada com atenção: ao mesmo tempo que procura posicionar-se como plataforma da transição energética, o Açu amplia sua importância como infraestrutura logística e energética diretamente associada ao petróleo e ao gás. A chamada economia verde constitui, portanto, uma possibilidade importante de diversificação futura, enquanto a economia fóssil permanece como um dos pilares concretos do empreendimento no presente.

Mas existe uma questão anterior que não deveria desaparecer diante da sucessão de novos anúncios. A implantação e expansão do Porto do Açu produziram profundas transformações territoriais em São João da Barra, especialmente no V Distrito. A constituição do complexo envolveu desapropriações, alteração do uso da terra, restrições de acesso a áreas anteriormente utilizadas por populações locais e mudanças nas condições de reprodução social de agricultores e pescadores artesanais. Ao mesmo tempo, a industrialização de uma extensa faixa costeira modificou relações históricas entre comunidades, lagoas, áreas de pesca, restinga e demais ecossistemas associados à planície costeira.

No caso da pesca artesanal, esse processo merece atenção particular porque os impactos não se resumem à perda física de determinado ponto de pesca. A criação de áreas industriais, cercamentos, restrições de circulação e alterações no acesso a ambientes costeiros e lagunares interfere em práticas construídas ao longo de gerações. A transformação do território pode aumentar distâncias, modificar rotas, reduzir alternativas de acesso e concentrar a atividade pesqueira em áreas menores. São impactos que dificilmente aparecem quando o sucesso do empreendimento é medido exclusivamente em toneladas movimentadas, bilhões investidos ou hectares ocupados por novas empresas.

Há ainda efeitos ambientais que precisam ser compreendidos em escala territorial. A presença simultânea de estruturas portuárias, termelétricas, atividades de movimentação de minério e petróleo, tráfego pesado e sucessivas instalações industriais cria pressões sobre qualidade do ar, recursos hídricos, ecossistemas costeiros e lagunares e sobre a própria dinâmica de ocupação do território. Em outras palavras, existe um passivo socioambiental associado à implantação e ao funcionamento do complexo que não desaparece quando um novo empreendimento é anunciado. Ele permanece no território e passa a constituir a base sobre a qual as novas atividades serão acrescentadas.

Essa constatação torna ainda mais importante observar a infraestrutura necessária para sustentar a expansão anunciada. A direção do próprio Porto reconhece que os acessos terrestres constituem um problema relevante. Centenas de caminhões circulam diariamente pelas estradas da região, existem trechos rodoviários problemáticos e obras importantes, como o chamado Arco Sul, dependem de centenas de milhões de reais em investimentos. Um complexo que anuncia dezenas de bilhões de reais em novos investimentos privados necessita, portanto, de investimentos públicos consideráveis para resolver gargalos externos ao seu perímetro. Isso não constitui uma peculiaridade do Açu, pois grandes infraestruturas portuárias normalmente dependem de investimentos públicos em acessos rodoviários e ferroviários, mas essa dependência precisa entrar na conta quando se fala em desenvolvimento regional.

A EF-118 representa outro exemplo da diferença entre presente e futuro. A ligação ferroviária do Porto do Açu com a malha nacional poderá modificar profundamente sua logística e reduzir a atual dependência do transporte rodoviário, mas essa ferrovia ainda não existe e sua concessão permanece em desenvolvimento. A própria expectativa apresentada pela direção do Porto situa sua operação em um horizonte que pode alcançar aproximadamente uma década, criando uma ironia difícil de ignorar: a locomotiva econômica utilizada como metáfora para descrever o Porto do Açu ainda depende, literalmente, da construção dos trilhos que poderão sustentar parte importante de sua expansão futura.

Entretanto, talvez o maior problema de olhar separadamente para cada novo anúncio seja perder de vista aquilo que poderá acontecer caso todos, ou mesmo uma parcela significativa deles, efetivamente saiam do papel. Petróleo, minério, gás natural, duas grandes termelétricas, novas instalações industriais, fertilizantes, combustíveis de baixo carbono, hidrogênio, amônia, data centers e uma ferrovia não ocuparão territórios diferentes e independentes. Todos estarão concentrados no mesmo complexo e utilizarão, em diferentes proporções, o mesmo território, os mesmos sistemas viários, a mesma região costeira, recursos hídricos regionais e uma infraestrutura energética que precisará continuar sendo ampliada.

É justamente aí que a discussão sobre impactos cumulativos e sinérgicos se torna incontornável. O impacto de dez grandes empreendimentos instalados no mesmo território não corresponde necessariamente à simples soma dos impactos individuais calculados em dez processos separados de licenciamento. Uma atividade pode ampliar os efeitos produzidos por outra, enquanto novas demandas por água, energia, transporte e território podem produzir pressões que somente aparecem quando o conjunto é considerado. O tráfego de caminhões, por exemplo, não depende apenas da movimentação atual, mas poderá crescer com novas cargas; a demanda energética dos data centers terá de coexistir com outras atividades eletrointensivas; novas instalações industriais poderão aumentar simultaneamente as pressões sobre recursos hídricos, infraestrutura e ecossistemas.

Esse problema assume importância ainda maior diante das características ambientais da região onde o complexo foi instalado. O Porto do Açu não está situado em um vazio territorial esperando pela chegada do desenvolvimento, mas em uma planície costeira ocupada por comunidades e marcada pela presença de lagoas, áreas úmidas, restingas, ambientes agrícolas e pesqueiros e por uma dinâmica hidrológica particularmente sensível. Qualquer expansão industrial dessa magnitude deveria ser examinada não apenas empreendimento por empreendimento, mas também a partir da capacidade do território de absorver o conjunto das transformações projetadas.

Há, portanto, duas contas que precisam ser feitas simultaneamente. A primeira olha para trás e pergunta qual foi o custo socioambiental necessário para produzir o Porto do Açu que existe hoje, quem perdeu terras, acessos e possibilidades econômicas e quais transformações ambientais já foram acumuladas desde o início da implantação do complexo. A segunda olha para frente e pergunta o que poderá acontecer se os R$ 22 bilhões anunciados, os projetos de hidrogênio e amônia, os data centers, os novos terminais, a ferrovia e outras iniciativas efetivamente forem implantados. Discutir apenas os benefícios econômicos futuros sem colocar essas duas contas na mesma equação produz inevitavelmente uma visão incompleta do significado territorial do empreendimento.

É nesse ponto que também se torna necessário separar crescimento portuário de desenvolvimento regional. Para demonstrar que o crescimento do Porto está efetivamente produzindo desenvolvimento seria necessário acompanhar não apenas toneladas movimentadas, investimentos anunciados e número de empresas instaladas, mas também renda, salários, qualidade e estabilidade dos empregos, encadeamentos com empresas locais, arrecadação municipal, distribuição territorial dos benefícios, pressão sobre serviços públicos e os custos ambientais e sociais associados à expansão.

Essa distinção é particularmente importante porque o complexo apresenta características típicas de um enclave de recursos, conectando diretamente um território específico às grandes redes nacionais e internacionais de circulação de petróleo, minério, gás e outras commodities. A capacidade de movimentar volumes cada vez maiores e atrair novos investimentos demonstra o sucesso econômico do empreendimento, mas não comprova que uma parcela equivalente dessa riqueza esteja sendo internalizada na economia regional. É justamente nesse intervalo entre riqueza movimentada e riqueza territorializada que deveria estar uma parte importante da discussão sobre o significado do Porto do Açu para o Norte Fluminense.

Por isso, a sucessiva incorporação de novas atividades exige que o debate deixe de considerar cada empreendimento como uma peça isolada. O território não experimenta separadamente o terminal de petróleo numa segunda-feira, as termelétricas na terça, o minério na quarta, o futuro data center na quinta e o hidrogênio verde na sexta-feira. As populações e os ecossistemas recebem tudo ao mesmo tempo, e é dessa simultaneidade que emergem os impactos cumulativos, as disputas pelo uso dos recursos e as transformações territoriais que dificilmente aparecem quando cada projeto é analisado exclusivamente dentro de seus próprios limites.

Nesse sentido, a matéria de O Dia permite perceber o tamanho da aposta que está sendo feita no Porto do Açu, mas também evidencia a necessidade de ampliar o campo de perguntas. Há uma estrutura portuária efetivamente consolidada e poderosa, uma segunda camada de investimentos em expansão e uma terceira composta por projetos que poderão transformar profundamente o complexo nas próximas décadas. O cuidado necessário está em não colocar essas três dimensões no mesmo tempo verbal e, sobretudo, em não projetar o futuro como se o território sobre o qual ele será construído não carregasse uma história anterior de transformações, conflitos e impactos.

O Porto do Açu do presente continua sendo fundamentalmente um grande corredor de petróleo, minério, gás e serviços offshore, acompanhado por um enorme parque termelétrico, enquanto o Porto projetado para o futuro pretende incorporar hidrogênio verde, amônia, combustíveis de baixo carbono, data centers e uma conexão ferroviária capaz de alterar sua inserção logística. Esse futuro pode efetivamente ocorrer, mas ainda terá de ser construído, financiado, licenciado e, em muitos casos, apoiado por investimentos públicos de grande porte. Se ele se concretizar, não substituirá automaticamente o Porto atual por outro mais “verde”; ao contrário, tenderá a acrescentar novas camadas industriais e tecnológicas à infraestrutura fóssil, mineral e logística que já existe.

É justamente enquanto esse futuro está sendo construído que o Norte Fluminense deveria ampliar o debate sobre o significado do Porto do Açu. A questão decisiva não deveria ser apenas quanto o complexo poderá crescer ou quantos bilhões de reais poderão ser investidos dentro de seus limites, mas quanto desse crescimento será convertido em desenvolvimento territorial, quem ficará com os benefícios, quem absorverá os custos, quais passivos já foram acumulados e qual será a capacidade da região de suportar as pressões adicionais caso o futuro atualmente anunciado realmente se transforme em presente. Afinal, um porto pode crescer extraordinariamente como elo de cadeias globais de commodities enquanto o território que o abriga acumula custos que não aparecem nas toneladas movimentadas, nos bilhões anunciados nem nas imagens cuidadosamente construídas de um futuro que ainda está por chegar.

Porto do Açu: gigante para o mundo, gargalo no território

Gargalos logísticos revelam os limites de um enclave de recursos que cresce mais rápido do que o território consegue — ou deve — suportar

A matéria de Jenifer Ribeiro publicada pela CNN Brasil sobre os gargalos logísticos enfrentados pelo Porto do Açu merece ser lida para além da aparente discussão sobre estradas. O que está sendo revelado é uma contradição estrutural que acompanha o empreendimento desde sua implantação: construído para conectar rapidamente recursos naturais, energia e mercadorias aos circuitos nacionais e internacionais de acumulação, o Porto do Açu permanece precariamente articulado ao território que o abriga.

Os números apresentados pela reportagem são particularmente reveladores. Cerca de 600 caminhões circulam diariamente pela região, enquanto aproximadamente 12 quilômetros da RJ-238 encontram-se em condições precárias. Para resolver parte do problema, projeta-se o chamado Arco Sul, incluindo uma nova ligação de aproximadamente 27 quilômetros, além da recuperação da Estrada dos Ceramistas. A conta estimada chega a R$ 379 milhões. O objetivo declarado é melhorar o acesso ao porto e, simultaneamente, retirar parte do trânsito pesado das áreas urbanas de Campos dos Goytacazes.

Aqui aparece uma questão fundamental: quem paga pela infraestrutura necessária para sustentar a expansão de um gigantesco complexo portuário privado? A Prumo financiou os estudos das intervenções, mas a realização das obras depende essencialmente do poder público. E justamente aí surgiu o impasse: a crise financeira do Estado do Rio de Janeiro levou à suspensão de licitações e contratos do DER-RJ e das secretarias envolvidas. Diante disso, representantes do Porto do Açu passaram a conversar com candidatos ao governo estadual sobre uma solução para os acessos terrestres.

Essa situação ajuda a compreender por que considero apropriado analisar o Porto do Açu como um enclave de recursos. Enclaves desse tipo não devem ser entendidos simplesmente como empreendimentos geograficamente isolados. Ao contrário, podem possuir conexões extremamente sofisticadas com mercados internacionais, empresas transnacionais e cadeias globais de commodities. O isolamento relevante é outro: existe uma enorme assimetria entre a capacidade de conexão do empreendimento com o exterior e sua integração econômica, social e infraestrutural com o território imediatamente circundante.

No Açu essa assimetria é especialmente evidente. Pelo complexo passam petróleo, minério de ferro e outros produtos destinados a circuitos econômicos de grande escala, enquanto novos projetos relacionados ao agronegócio, fertilizantes, energia, data centers e outras atividades industriais continuam sendo anunciados. A própria CNN Brasil informa, em outra reportagem publicada simultaneamente, que um terminal de grãos previsto para começar a operar em 2028 deverá movimentar inicialmente 1 milhão de toneladas anuais, podendo chegar posteriormente a 2,5 milhões, e foi projetado para receber inicialmente 100% das cargas por rodovia.

Temos então uma situação quase paradoxal: um empreendimento que se apresenta como um dos maiores complexos portuários privados da América Latina, destacando sua capacidade de movimentar volumes crescentes de petróleo, minério de ferro e outras commodities e de atrair sucessivamente novos investimentos, continua dependendo de estradas estaduais deterioradas para estabelecer suas conexões terrestres mais elementares com o restante do território.

A contradição é ainda mais significativa porque a grandiosidade reivindicada pelo Porto do Açu contrasta com a fragilidade da infraestrutura regional que precisa sustentá-la. Quanto mais o complexo anuncia novos terminais, indústrias e atividades logísticas, mais evidente se torna a distância entre a escala global de suas ambições e as condições concretas do território no qual foi implantado.

Mais interessante ainda é observar que a tão anunciada integração ferroviária continua distante. Segundo a reportagem, a EF-118 somente deverá entrar em operação em aproximadamente dez anos. Até lá, a expansão do complexo continuará dependendo fundamentalmente do transporte rodoviário. Isso significa mais caminhões, maior pressão sobre a infraestrutura regional, maiores riscos de acidentes, emissões, ruído e congestionamentos e uma crescente necessidade de investimentos públicos destinados a tornar possível a expansão das atividades privadas instaladas no porto.

É justamente aqui que a categoria de enclave ganha força explicativa. O Porto do Açu não está desconectado. Está seletivamente conectado. Sua infraestrutura interna e marítima permite estabelecer relações diretas com mercados situados a milhares de quilômetros, enquanto as conexões terrestres com Campos dos Goytacazes, São João da Barra e outras partes da região permanecem insuficientes. Em outras palavras, o território funciona extraordinariamente bem quando considerado como plataforma de exportação e circulação de recursos, mas muito menos eficientemente quando observado como espaço cotidiano das populações que nele vivem.

Há ainda uma segunda contradição. À medida que o enclave cresce, ele começa a exigir que o território ao redor seja progressivamente reorganizado segundo suas próprias necessidades. Estradas precisam ser reconstruídas, contornos urbanos precisam ser abertos, novas conexões ferroviárias precisam ser implantadas e parcelas crescentes do espaço regional passam a ser subordinadas às exigências logísticas do complexo. Nesse processo, os custos da expansão deixam de permanecer circunscritos ao empreendimento e passam a ser distribuídos territorialmente, inclusive por meio da mobilização de recursos públicos.  Isso significa que os impactos do Porto do Açu já não podem ser analisados apenas dentro dos limites físicos do empreendimento. Eles se propagam pelas rodovias, cidades, áreas rurais, lagoas, unidades de conservação e comunidades do Norte Fluminense. Quanto maior o porto, maior a infraestrutura territorial necessária para sustentá-lo — e maior também a área sobre a qual seus custos sociais, ambientais e econômicos tendem a se espalhar.

Esse é um aspecto particularmente importante quando novos empreendimentos continuam sendo incorporados ao complexo antes que gargalos estruturais anteriores tenham sido solucionados. Se um novo terminal de grãos nasce prevendo inicialmente a chegada de toda a sua carga por caminhões, não estamos diante apenas de uma deficiência logística herdada da implantação do porto. Estamos diante da reprodução ampliada do próprio problema: acrescentam-se novos fluxos de mercadorias e novas demandas sobre uma infraestrutura regional que já demonstra sinais evidentes de saturação.  A matéria da CNN Brasil, portanto, acaba revelando algo que talvez não fosse sua intenção principal demonstrar. O gargalo rodoviário não constitui simplesmente um problema técnico a ser solucionado para aumentar a eficiência do Porto do Açu. Ele expõe a própria lógica territorial sobre a qual o empreendimento foi construído.

Criou-se primeiro uma enorme plataforma destinada a inserir o Norte Fluminense nos circuitos globais de petróleo, minério, energia e commodities. Agora se descobre que o território real — com suas cidades, estradas, comunidades, ecossistemas e limitações ambientais — não possui a mesma capacidade de expansão aparentemente ilimitada imaginada pelos planejadores do complexo.  Talvez estejamos, portanto, diante de uma inversão reveladora. Em vez de o Porto do Açu adaptar-se às características e aos limites do território onde foi instalado, é o território que passa a ser continuamente convocado a adaptar-se às necessidades de expansão do porto. E, quando essa adaptação exige centenas de milhões de reais em obras públicas para garantir a circulação associada aos novos negócios privados, torna-se inevitável perguntar não apenas quem captura os benefícios desse modelo, mas também quem fica com a conta e com os impactos de sua expansão.

E talvez seja justamente por isso que a pergunta que venho fazendo se torne cada vez mais pertinente: quantos Portos do Açu cabem no Açu?

Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.

Quantos portos ainda cabem no Açu?

De terminal de minério e petróleo a complexo de termelétricas, siderurgia, fertilizantes, hidrogênio, amônia e data centers, a expansão transnacional do Porto do Açu multiplica pressões sobre um território já ameaçado pela erosão e pela salinização

A expansão transnacional do Porto do Açu acumula data centers, termelétricas, siderurgia, fertilizantes e novos projetos energéticos sobre uma região já pressionada pela erosão, salinização e transformação das formas tradicionais de ocupação

A sucessão de novos empreendimentos anunciados para o emprrendimento criado por Eike Batista exige uma mudança na maneira de discutir seus impactos socioambientais. Já não basta avaliar separadamente uma termelétrica, um terminal portuário, uma siderúrgica, uma fábrica de fertilizantes ou um data center. O que precisa estar no centro da discussão são os efeitos cumulativos e sinérgicos da concentração de todas essas atividades sobre um mesmo território costeiro, ecologicamente sensível e que já apresenta sinais evidentes de estresse ambiental.

O anúncio de que a Yamna assegurou uma área para instalar um campus de data centers com capacidade inicial de 250 MW acrescenta uma atividade intensiva em eletricidade e potencialmente também em água a uma região onde a intrusão salina na foz do Rio Paraíba do Sul já compromete periodicamente o abastecimento de São João da Barra. Antes de celebrar a chegada da economia digital ao Açu, portanto, é indispensável saber quanta água será utilizada, de onde ela virá, qual tecnologia de refrigeração será empregada e o que acontecerá nos períodos de baixa vazão do Paraíba do Sul, quando aumenta o risco de avanço da cunha salina.

O problema torna-se maior quando esse empreendimento é colocado ao lado das atividades existentes e planejadas. O Açu concentra termelétricas e gigantescas operações de petróleo e minério de ferro, enquanto avança sobre siderurgia, hidrogênio, amônia, infraestrutura digital e cadeias vinculadas ao agronegócio. A recente entrada na movimentação de enxofre é ilustrativa: o desembarque inaugural foi de apenas 1,5 mil toneladas, mas a infraestrutura projetada pretende movimentar 300 mil toneladas anuais, além de abastecer uma futura unidade misturadora de fertilizantes. O Terminal Multicargas também já movimenta soja e milho, revelando uma estratégia explícita de abertura de uma nova frente de crescimento ligada ao agronegócio.

Estamos, portanto, diante da transformação progressiva do Açu em um complexo portuário, energético, industrial, agroexportador e digital. Entretanto, o território que recebe todos esses empreendimentos continua sendo o mesmo. O consumo de água se acumula, novas infraestruturas ocupam espaço, emissões se sobrepõem, aumenta a circulação de navios e caminhões e intervenções portuárias passam a coexistir com processos de erosão costeira, salinização e alterações em uma planície formada por lagoas, canais, restingas, praias, áreas úmidas e aquíferos.

A violência lenta de um território em transformação

É nesse ponto que o conceito de “violência lenta”, desenvolvido por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente apropriada para compreender o que ocorre no Açu. Diferentemente de uma catástrofe que acontece subitamente, a violência lenta se desenvolve durante anos ou décadas, por meio da acumulação de transformações que progressivamente deterioram as condições ambientais necessárias à reprodução da vida.

No Açu, essa violência não precisa assumir a forma espetacular de um grande desastre. Ela pode aparecer na erosão das praias, na salinização das águas, na transformação de lagoas, na perda de acesso a determinados espaços, na pressão sobre áreas agrícolas e pesqueiras e na substituição progressiva de formas tradicionais de utilização do território por grandes infraestruturas industriais e logísticas.

Essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante da crescente transnacionalização do complexo. Corporações privadas e empresas vinculadas a Estados estrangeiros participam de diferentes cadeias instaladas no Açu, fazendo com que decisões capazes de transformar profundamente São João da Barra sejam tomadas em escalas muito distantes das comunidades que experimentarão seus efeitos. O problema não está simplesmente na origem estrangeira do capital, mas na possibilidade de consolidação de uma geografia conhecida: decisões e benefícios internacionalizados enquanto custos e passivos ambientais permanecem territorializados.

Quando permanecer no território deixa de ser possível

É justamente aqui que a violência lenta encontra outra categoria importante: a dos “refugiados do desenvolvimento”. Grandes empreendimentos podem produzir deslocamentos não apenas por desapropriações formais, mas pela deterioração progressiva das condições necessárias à permanência das populações em seus territórios.

Quando agricultores perdem acesso à terra ou à água, pescadores encontram dificuldades crescentes para acessar áreas tradicionalmente utilizadas, sistemas lagunares são modificados ou a salinização compromete determinados usos da água, a expulsão pode ocorrer sem que exista uma ordem formal de remoção. As pessoas acabam saindo porque permanecer se torna econômica, social ou ambientalmente inviável.

Esse risco merece atenção especial no entorno do Porto do Açu. O V Distrito não começou a existir com a chegada do porto. Trata-se de um território historicamente ocupado por agricultores, pescadores e outras comunidades cuja reprodução social depende diretamente da terra, das lagoas, das praias e dos recursos hídricos. Se esses elementos forem progressivamente alterados, o resultado poderá ser uma nova rodada de deslocamentos produzidos não por uma única intervenção, mas pelo efeito acumulado de décadas de transformação territorial.

O que precisa ser avaliado agora é o próprio Açu

Por isso, o licenciamento fragmentado de novos empreendimentos está se tornando insuficiente. Um projeto pode parecer ambientalmente administrável quando estudado sozinho e tornar-se problemático quando colocado ao lado de muitos outros disputando os mesmos recursos e pressionando os mesmos ecossistemas.

O que precisa ser conhecido é a capacidade de suporte do território diante do conjunto dos empreendimentos existentes, licenciados e planejados. Isso significa avaliar conjuntamente disponibilidade hídrica, intrusão salina, erosão costeira, aquíferos, sistemas lagunares, biodiversidade, demanda energética, tráfego, mudanças climáticas e efeitos sobre as comunidades locais.

O Porto do Açu está apostando em ser uma das grandes concentrações portuárias, energéticas e industriais do Brasil, mas justamente sobre uma região costeira altamente sensível. A pergunta, portanto, deixou de ser se cada novo empreendimento consegue individualmente uma licença ambiental. A pergunta que realmente importa é quantos Portos do Açu cabem ambiental e socialmente em São João da Barra.

Continuar avaliando cada projeto como se os demais não existissem poderá fazer com que descubramos tarde demais que o limite não estava em cada empreendimento separadamente, mas na soma e, principalmente, na interação entre todos eles. E, nesse caso, a violência poderá ser lenta, mas seus resultados serão bastante concretos: um território profundamente transformado e comunidades convertidas, pouco a pouco, em refugiados do próprio desenvolvimento que lhes foi apresentado como inevitável.

A face verde da desterritorialização no Porto do Açu

Artigo publicado na Geografares mostra como uma ação apresentada como proteção da natureza pode transferir para comunidades tradicionais os custos socioambientais de um grande empreendimento portuário

Acaba de ser publicado pela revista Geografares o artigo “O papel das intervenções ambientais no deslocamento de pescadores artesanais por grandes empreendimentos portuários: o caso do Porto do Açu, em São João da Barra, Brasil”, de Jayson Freitas Gomes, Carlos Abraão Moura Valpassos e eu. O trabalho parte de uma questão que deveria interessar profundamente a quem discute desenvolvimento econômico, conservação ambiental e justiça social: o que acontece quando medidas apresentadas como destinadas à proteção da natureza acabam retirando de populações tradicionais o acesso aos territórios dos quais dependem para produzir renda, alimento e reproduzir seus modos de vida?

O caso analisado é particularmente revelador. A pesquisa mostra que a criação e a gestão da RPPN Fazenda Caruara, vinculada ao Porto do Açu, modificaram profundamente as condições de acesso dos pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari. O artigo sustenta que programas corporativos de proteção ambiental podem funcionar não apenas como instrumentos de conservação, mas também como mecanismos de mercantilização da natureza e de desterritorialização de comunidades tradicionais.

Não se trata, evidentemente, de negar a necessidade de conservar ecossistemas de restinga ou lagoas costeiras. O problema aparece quando a conservação é realizada sem aqueles que historicamente utilizam esses territórios e, pior ainda, contra eles. No caso da Caruara, as unidades de conservação atingiram áreas historicamente utilizadas por cerca de 33 comunidades rurais, enquanto a Lagoa de Iquipari constituía importante fonte de renda e alimentação para os pescadores artesanais. O estudo aponta ainda a ausência de diálogo adequado com as populações afetadas durante esse processo.

A dimensão territorial do problema é bastante concreta. Foram instalados 32 quilômetros de cercas, portarias, sistemas de vigilância, cadastros e autorizações, enquanto antigos acessos à Lagoa de Iquipari foram progressivamente restringidos. Com o fechamento das entradas pelo V Distrito, os pescadores passaram a depender de um acesso localizado em Grussaí, o que pode representar um deslocamento adicional de aproximadamente 40 quilômetros para chegar à área de pesca.

Os resultados da pesquisa são ainda mais eloquentes: dos 19 pescadores entrevistados, dez deixaram de pescar na Lagoa de Iquipari e os outros nove reduziram consideravelmente a atividade naquele ambiente. Isso ocorreu justamente em uma lagoa reconhecida pela elevada produtividade e diversidade de espécies de interesse comercial. Há inclusive uma consequência ambiental contraditória: impedidos de alternar a pesca entre Iquipari e outros ambientes, os pescadores passaram a concentrar maior esforço sobre a Lagoa do Açu, aumentando potencialmente a pressão sobre seus estoques.

É nesse ponto que o artigo discute aquilo que denomina “economia de reparação” e “ambientalismo de resultados”. A proteção de uma parcela do território pode funcionar como compensação e como elemento de legitimação para impactos produzidos em outras áreas. A natureza passa então a ser administrada como ativo ambiental corporativo, enquanto as relações sociais historicamente estabelecidas naquele território ficam em segundo plano.

As conclusões são contundentes: a implantação do Porto do Açu produziu processos de desterritorialização e injustiça socioambiental no V Distrito ao transformar recursos naturais historicamente utilizados pelas comunidades em ativos submetidos ao controle corporativo. Nesse arranjo, parte dos custos sociais da conservação foi transferida justamente para populações dependentes daqueles recursos para a pesca, a agricultura e o extrativismo. Por isso, políticas de conservação não podem ser avaliadas apenas pelo número de hectares protegidos, mudas plantadas ou espécies catalogadas. É preciso perguntar quem passou a controlar o território, quem perdeu acesso a ele e quem está pagando a conta da proteção ambiental.

Talvez seja justamente esse tipo de pesquisa que não se encaixe confortavelmente numa concepção de ciência excessivamente subordinada às demandas imediatas do mercado, como aquela que vem sendo defendida pelo desembargador Ricardo Couto e por outros atores envolvidos na discussão sobre os rumos da ciência fluminense. Uma comunidade de pescadores artesanais dificilmente aparecerá como grande “demandante de inovação” numa planilha empresarial. Da mesma forma, a perda de acesso a uma lagoa, a ruptura de redes comunitárias ou o desaparecimento progressivo de um modo de vida dificilmente aparecem nos indicadores utilizados para medir retorno econômico de investimentos em ciência e tecnologia.

Mas é precisamente aí que reside a importância da universidade pública e de um sistema público de ciência. Desenvolvimento não pode ser confundido com aumento da rentabilidade das corporações instaladas num território. Ele precisa envolver distribuição de benefícios e custos, reprodução social das populações existentes, participação nas decisões sobre o território e preservação das bases naturais das quais essas populações dependem. Uma ciência que só pergunta aquilo que interessa ao mercado corre o risco de oferecer respostas tecnicamente sofisticadas para perguntas excessivamente estreitas.

Outro aspecto importante é que este trabalho foi produzido no âmbito das pesquisas associadas ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, demonstrando a contribuição das Ciências Humanas e Sociais para a compreensão dos grandes processos de transformação territorial. A pesquisa envolveu revisão bibliográfica, análise documental, entrevistas e questionários aplicados a 19 dos 105 pescadores cadastrados no V Distrito.  Esta é, portanto,  uma investigação empírica destinada justamente a revelar dimensões do desenvolvimento que indicadores como PIB, volume de investimentos ou toneladas movimentadas pelos portos simplesmente não captam.

Finalmente, seria um erro considerar Iquipari uma excepcionalidade. O artigo demonstra empiricamente o caso do Porto do Açu e não permite afirmar automaticamente que os mesmos mecanismos estejam operando em todos os portos brasileiros. Entretanto, seus resultados oferecem uma hipótese de pesquisa poderosa para complexos como Suape, Pecém e Porto Sudeste, igualmente inseridos em territórios historicamente utilizados por pescadores e outras comunidades tradicionais. Investigar comparativamente quem ganhou e quem perdeu acesso aos territórios costeiros, quais compensações ambientais foram implementadas e de que maneira elas reorganizaram as relações de poder constitui uma agenda científica que merece ser ampliada.

Talvez esteja justamente aí uma boa resposta à pergunta sobre para que serve a ciência produzida numa universidade pública. Ela não deve servir apenas para ajudar empresas a produzir mais, transportar mais cargas ou ampliar sua competitividade. A ciência deve também permitir enxergar aqueles que costumam desaparecer das fotografias oficiais do “desenvolvimento”. No caso da Lagoa de Iquipari, quando se olha para além das cercas da RPPN Caruara e das narrativas corporativas de sustentabilidade, aparecem os pescadores. E aquilo que eles têm a dizer muda substancialmente a história normalmente contada sobre o Porto do Açu.

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Porto do Açu: gigantismo portuário, dependência de commodities e o risco de permanecer um enclave de recursos

Enquanto o Espírito Santo avança na disputa pelos contêineres, o Açu aposta na multifuncionalidade, mas continua diante de uma questão fundamental: o que sustentará o complexo quando o petróleo deixar de cumprir o papel de commodity-âncora?

O Porto do Açu é hoje alegadamente uma das maiores infraestruturas portuárias privadas existentes no Brasil. Com águas profundas, extensa retroárea e diferentes terminais especializados, o empreendimento costuma ser apresentado como evidência da emergência de um novo polo de desenvolvimento no Norte Fluminense. Entretanto, quase duas décadas depois do início de sua implantação, talvez seja necessário formular uma pergunta diferente daquela normalmente utilizada para medir seu sucesso: o gigantismo físico do Porto do Açu está efetivamente se convertendo em uma estrutura econômica capaz de dinamizar e diversificar a economia regional?

Essa questão ganha importância quando observamos uma característica peculiar do Porto do Açu. Apesar de suas dimensões hiperdimensionadas, o complexo ainda não possui um terminal especializado na movimentação de contêineres. E isso está longe de ser um detalhe, pois a conteinerização transformou profundamente a geografia mundial dos portos. Desde a segunda metade do século XX, o contêiner tornou-se um dos principais instrumentos de integração das cadeias globais de produção, fazendo com que a importância de um porto deixe de depender apenas da profundidade de seus canais, do comprimento de seus cais ou da tonelagem movimentada e passe a depender também de sua posição nas redes regulares de transporte marítimo.

Um grande terminal de contêineres não movimenta apenas caixas metálicas. Ele conecta indústrias, centros de distribuição, transportadoras, ferrovias, armadores e operadores logísticos, produzindo aquilo que poderíamos chamar de centralidade relacional. Quanto maior o número de linhas e escalas regulares, maior tende a ser a capacidade de atrair novas cargas, e quanto maior o volume de cargas, maior o interesse dos armadores em manter ou ampliar suas escalas.

É justamente nesse ponto que o avanço da estrutura portuária do estado vizinho do Espírito Santo merece atenção. Além da infraestrutura já existente na Grande Vitória, novos investimentos estão sendo realizados para transformar o território capixaba em um corredor ainda mais importante para a movimentação de contêineres. O exemplo mais significativo é o Porto da Imetame, em Aracruz, projetado como terminal multipropósito com capacidade expressiva para contêineres e possibilidade de conexão ferroviária com a Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Isso significa que o Porto do Açu pode estar diante de uma janela de oportunidade que não permanecerá aberta indefinidamente.  Além disso, construir fisicamente um terminal de contêineres é uma coisa; construir uma rede de contêineres é algo muito diferente. Para isso são necessários armadores, escalas regulares, cargas de ida e retorno, operadores logísticos, conexões terrestres e uma hinterlândia capaz de sustentar economicamente essas operações.

Se o Espírito Santo consolidar primeiro essas relações, empresas poderão organizar suas cadeias logísticas em função dos portos capixabas, operadores poderão instalar centros de distribuição em suas proximidades e os grandes armadores poderão estruturar suas rotas utilizando essas escalas. Nesse cenário, quando o  Porto do Açu eventualmente decidir entrar de maneira mais agressiva no mercado de contêineres, não encontrará necessariamente um espaço vazio esperando para ser ocupado, e terá de disputar cargas e escalas com redes previamente estabelecidas.

Assim, talvez a pergunta relevante já não seja quando o Porto do Açu terá um terminal de contêineres, mas se, quando isso acontecer, ainda haverá espaço econômico para uma nova escala relevante entre Santos e um sistema portuário capixaba cada vez mais especializado.

O petróleo como força e calcanhar de Aquiles

Existe ainda outra questão talvez mais importante. Depois do colapso do projeto empresarial original associado a Eike Batista, o Porto do Açu encontrou no petróleo offshore  sua commodity-âncora. Atualmente, uma parcela expressiva do petróleo exportado pelo Brasil passa pelo complexo, enquanto diferentes empresas ligadas às atividades de petróleo, gás, serviços offshore e subsea instalaram operações no empreendimento.  Esta foi uma solução extremamente bem-sucedida para garantir movimentação e receitas ao porto no plano imediato. Mas aquilo que representa sua grande força no presente pode também constituir seu calcanhar de Aquiles no futuro.

Portos são construídos para funcionar durante muitas décadas. O problema é que ciclos de commodities não possuem necessariamente a mesma duração. Independentemente das divergências sobre a velocidade da transição energética mundial, parece arriscado imaginar que o petróleo continuará ocupando indefinidamente a posição que possui atualmente na economia internacional. O  Porto do Açu está  procurando diversificar suas operações. O Terminal Multicargas vem incorporando café, soja, milho, fertilizantes, produtos minerais, cargas de projeto e outros fluxos. Também existem apostas relacionadas à siderurgia, gás, energia e novos combustíveis. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre diversificar cargas e diversificar estruturalmente uma economia.

Petróleo, minério, siderurgia, fertilizantes, gás e parte dos novos projetos energéticos permanecem, apesar de suas diferenças, fortemente relacionados a um metabolismo econômico baseado na exploração de recursos naturais, energia, processamento primário e exportação. Podemos estar, portanto, diante de uma diversificação dentro da especialização.  E isso faz toda a diferença.

E se as indústrias prometidas não chegarem?

A variável verdadeiramente decisiva para o futuro do Açu talvez não esteja nos navios que hoje atracam em seus terminais, mas no que acontecerá com sua enorme retroárea industrial.  Se indústrias diversificadas forem efetivamente instaladas no complexo, poderá ocorrer uma transformação qualitativa. Essas empresas importarão insumos, demandarão fornecedores, processarão matérias-primas, produzirão mercadorias de maior valor agregado e gerarão seus próprios fluxos logísticos. Nesse caso, o porto poderá deixar progressivamente de depender de uma commodity específica para justificar sua existência.

Poderá surgir um círculo virtuoso: o porto atrai indústrias, as indústrias geram cargas, as cargas atraem novas linhas marítimas, a maior conectividade reduz custos e os menores custos tornam o território mais atraente para novas empresas. Nesse contexto, inclusive a instalação de um terminal de contêineres poderia resultar de uma demanda econômica previamente constituída.

Mas existe também a possibilidade inversa. Se as indústrias não forem instaladas na escala anunciada, o complexo continuará dependendo fortemente das commodities. E, quando uma delas entrar em declínio, não haverá garantia de que outra atividade conseguirá ocupar imediatamente o seu lugar.  Essa é uma questão que toneladas movimentadas podem esconder.

Um porto pode movimentar volumes extraordinários e, ainda assim, possuir baixa complexidade econômica. Afinal, quebra-mares, canais profundos, quilômetros de cais e milhares de hectares de retroárea não produzem cargas por si mesmos.

Porto industrial ou enclave de recursos?

Essa discussão torna-se ainda mais importante quando consideramos os custos territoriais e socioambientais associados à implantação do Porto do Açu. Sua construção exigiu uma profunda reorganização territorial do V Distrito de São João da Barra, envolvendo desapropriações de agricultores, mudanças nas formas tradicionais de uso do território e impactos sobre ecossistemas costeiros, sistemas agrícolas e atividades pesqueiras.

O território onde o complexo foi implantado não era um espaço vazio esperando pela chegada do grande capital. Ali existiam comunidades, sistemas produtivos, pescadores artesanais, agricultores familiares, lagoas, restingas e relações históricas de pertencimento e utilização dos recursos naturais.  Por isso, avaliar o Açu apenas pela tonelagem movimentada significa observar somente uma parte da equação. A questão fundamental deveria ser: quanto da riqueza que atravessa o Porto do Açu permanece efetivamente no Norte Fluminense e contribui para diversificar sua estrutura econômica?

O petróleo é particularmente revelador. Uma parcela significativa do óleo exportado pelo Brasil passa pelo Açu, mas esse petróleo não é produzido em São João da Barra. Ele chega ao complexo pelo mar e pode sair novamente pelo mar. O território funciona, nesse caso, essencialmente como plataforma logística de conexão entre áreas produtoras offshore e mercados externos.

Isso não significa negar os empregos, contratos, impostos e atividades econômicas gerados pelo empreendimento. Eles existem e são relevantes. A questão é saber se possuem magnitude, diversidade e capacidade multiplicadora suficientes para justificar a narrativa de que o Açu estaria produzindo uma transformação estrutural da economia regional. É justamente aqui que aparece a diferença entre um complexo portuário-industrial territorialmente integrado e um enclave de recursos.

No primeiro caso, o porto produz encadeamentos para frente e para trás, estimula fornecedores regionais, promove inovação, atrai diferentes atividades produtivas e gera uma economia que progressivamente adquire capacidade de reprodução própria. No segundo, enormes volumes de recursos atravessam o território, enquanto as decisões fundamentais, os mercados consumidores, grande parte dos fornecedores e os circuitos de acumulação permanecem localizados fora dele.

O paradoxo do gigantismo

Talvez esse seja o grande paradoxo do Porto do Açu.  O seu gigantismo físico é um dos atributos mais reclamados pelos seus gestores, mas gigantismo portuário não significa necessariamente centralidade econômica regional.  Essa distinção torna-se ainda mais importante quando lembramos a magnitude das transformações territoriais realizadas para permitir sua implantação. Grandes extensões foram incorporadas ao projeto sob a justificativa da formação de um complexo portuário-industrial que produziria uma profunda transformação econômica no Norte Fluminense.

Quanto maiores os custos sociais e ambientais impostos para viabilizar esse empreendimento, maior deveria ser também sua obrigação de produzir benefícios econômicos duradouros e territorialmente distribuídos. Por isso, quase duas décadas depois do início desse processo, talvez seja necessário olhar menos para o número de navios que entram no porto e mais para aquilo que está acontecendo fora de seus portões.

Quantas cadeias produtivas regionais foram efetivamente criadas? Quantos fornecedores locais adquiriram capacidade tecnológica para participar dessas cadeias? Quanto da riqueza movimentada permanece no Norte Fluminense? Quantas atividades econômicas sobreviveriam independentemente do petróleo? E, principalmente, quanto da gigantesca retroárea apropriada para o empreendimento efetivamente se transformou em uma base industrial produtiva?

Essas perguntas se tornam ainda mais importantes diante do avanço do Espírito Santo na conteinerização. Se os portos capixabas consolidarem primeiro suas linhas regulares, conexões ferroviárias e relações com grandes hinterlândias, o Açu poderá descobrir que possuir espaço para construir um terminal de contêineres é muito diferente de possuir as condições econômicas necessárias para torná-lo competitivo.

No final das contas, o verdadeiro teste histórico do Porto do Açu provavelmente ocorrerá quando o petróleo deixar de desempenhar o papel de commodity-âncora que exerce atualmente. Se nesse momento houver indústrias diversificadas, cadeias produtivas regionais, conectividade logística e atividades capazes de gerar seus próprios fluxos, o Açu terá conseguido realizar a prometida transformação de porto de commodities em complexo portuário-industrial.

Mas, se isso não ocorrer, poderemos descobrir que aquilo que foi apresentado durante décadas como um novo polo de desenvolvimento do Norte Fluminense constituiu essencialmente um gigantesco enclave de recursos: extraordinariamente eficiente para conectar commodities brasileiras aos mercados globais, mas incapaz de criar raízes econômicas proporcionais às profundas transformações sociais, ambientais e territoriais que foram impostas para viabilizá-lo.

Turismo ecossistêmico para escolhidos, exclusão territorial para pescadores

Evento fechado da Reserva Caruara, realizado em parceria com a UFF, reacende o debate sobre a legitimidade de uma conservação ambiental que restringiu o acesso de comunidades tradicionais à Lagoa de Iquipari enquanto reivindica o discurso do diálogo e da construção coletiva

A circulação de um convite para o I Workshop de Experiências Turísticas Ecossistêmicas, promovido pela Reserva Caruara em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), suscita uma série de questões que merecem ser debatidas publicamente. A primeira delas é bastante objetiva:  apesar do nome, a atividade é um evento fechado, com participação restrita a convidados previamente selecionados e autorizados pelos organizadores. Embora o material de divulgação utilize uma linguagem que remete ao diálogo, ao compartilhamento de experiências e à construção coletiva, a própria dinâmica anunciada contradiz esse discurso ao impedir a participação da sociedade em geral e, especialmente, daqueles diretamente afetados pela existência da Reserva Caruara.

Esse aspecto é particularmente sensível porque a Reserva Caruara não é uma unidade de conservação criada espontaneamente em resposta a uma demanda da sociedade pela proteção ambiental. Ela constitui uma medida compensatória vinculada ao licenciamento ambiental do Porto do Açu, empreendimento cuja implantação alterou profundamente a dinâmica territorial do V Distrito de São João da Barra. Entre os impactos mais conhecidos está a drástica restrição do acesso de pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari, espaço utilizado por gerações como fonte de sustento, trabalho e reprodução de modos de vida tradicionais.

Nesse contexto, discutir “experiências turísticas ecossistêmicas” sem a presença efetiva daqueles que perderam acesso ao território em nome da chamada conservação ambiental produz um paradoxo estridente. O discurso da valorização dos serviços ecossistêmicos culturais é incompleto quando ignora justamente o patrimônio cultural representado pelas práticas históricas da pesca artesanal, que também constituem parte indissociável da paisagem, da memória social e da identidade territorial da região.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao papel da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentada no material de divulgação como parceira da iniciativa. A questão que se coloca é simples e legítima: qual é exatamente o significado dessa parceria em um evento cuja participação é previamente definida pelos gestores da Reserva Caruara e, em última instância, pelo Porto do Açu? Ao figurar como parceira consentida de um encontro fechado, a UFF acaba associando sua imagem institucional a uma iniciativa que exclui justamente os segmentos sociais mais diretamente afetados pela implantação da Reserva Caruara.

Não se trata de discutir a qualidade técnica ou científica do workshop, mas de indagar sobre a responsabilidade institucional de uma universidade pública ao emprestar sua credibilidade a um evento privado que restringe o acesso ao debate. A direção da UFF considera compatível com sua missão institucional participar, como parceira, de uma atividade que se apresenta como espaço de diálogo, mas cuja participação depende de convite e autorização prévia? Em um território marcado por conflitos socioambientais ainda não resolvidos, seria de se esperar que uma universidade pública contribuísse para ampliar o debate público, e não para legitimar um processo deliberativo circunscrito a um grupo previamente selecionado.

Também merece atenção a própria estratégia de divulgação do evento. O convite enfatiza expressões como “pesquisa, conservação e turismo em diálogo”, “compartilhamento” e “construção coletiva”. Entretanto, em posição de destaque, informa que a participação ocorrerá “mediante convite e autorização prévia”. Há, portanto, uma evidente dissonância entre a mensagem transmitida e o formato efetivamente adotado. A linguagem visual busca comunicar abertura e diálogo, enquanto as regras de acesso revelam um encontro de natureza privada, reservado a um público previamente escolhido pelos organizadores.

Essa aparente falta de transparência se torna ainda mais evidente quando se busca obter informações adicionais sobre o workshop. Embora o site da Reserva Caruara disponibilize um link para o evento, o acesso não conduz a uma página contendo sua programação, objetivos, palestrantes, critérios de seleção dos participantes ou qualquer outra informação específica. Em vez disso, o visitante é direcionado para um conteúdo que não guarda relação com o workshop anunciado. Essa incongruência impede que o público conheça minimamente a estrutura do encontro e dificulta compreender quem participará das discussões e quais perspectivas estarão representadas.

Essa ausência de informações torna ainda mais pertinente questionar a natureza da parceria estabelecida entre a Reserva Caruara e a UFF. Se a proposta é promover um debate sobre turismo, conservação e serviços ecossistêmicos em um território marcado por conflitos socioambientais, seria razoável esperar que aspectos elementares do evento — como programação, convidados, critérios de participação e objetivos específicos — estivessem disponíveis de forma clara e acessível. A transparência é um componente indispensável da legitimidade, especialmente quando uma universidade pública associa seu nome a uma iniciativa dessa natureza.

Não se questiona o direito de uma instituição privada realizar eventos restritos aos seus convidados. O que merece problematização é a tentativa de apresentar um encontro dessa natureza como espaço de reflexão sobre questões de interesse coletivo em um território profundamente marcado por conflitos ambientais, sociais e fundiários. Quando se fala em turismo sustentável, conservação e serviços ecossistêmicos em uma área cuja criação implicou severas restrições ao acesso de comunidades tradicionais ao seu território histórico, transparência, pluralidade de vozes e participação pública deixam de ser detalhes organizacionais para se tornarem requisitos fundamentais de legitimidade.

Permanecem, assim, algumas perguntas que merecem resposta pública. Por que um workshop que afirma promover o diálogo sobre conservação e turismo não é aberto à sociedade? Haverá representantes dos pescadores artesanais que estão sendo prejudicados pela criação da Reserva Caruara? Pesquisadores que produziram estudos críticos sobre os impactos territoriais do Porto do Açu foram convidados? A programação e os critérios de participação serão finalmente tornados públicos? E, sobretudo, qual o sentido de a UFF figurar como parceira de uma iniciativa privada cujo formato restringe o debate público sobre um conflito socioambiental que permanece longe de ser resolvido?

Enquanto essas questões permanecerem sem resposta, será difícil não interpretar o workshop como mais um esforço de construção de legitimidade para um modelo de conservação ambiental corporativa que, ao mesmo tempo em que promove a proteção da biodiversidade e novas modalidades de turismo, continua associado à exclusão de comunidades tradicionais de territórios que, durante gerações, garantiram sua sobrevivência material, cultural e social. A verdadeira construção coletiva começa pela disposição de ouvir também aqueles cujas vozes foram historicamente silenciadas pelo mesmo processo que hoje se pretende apresentar como exemplo de sustentabilidade.

A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

Por trás do discurso de “gestão hídrica” e conservação ambiental, seguem sem resposta as contradições envolvendo o Aquífero Emborê, a exclusão territorial e a violência lenta em São João da Barra

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

O greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.

Eduardo Paes conheceu o Porto do Açu. Falta agora conhecer São João da Barra

A visita ao enclave multinacional revelou entusiasmo com os negócios bilionários do empreendimento, mas nenhuma curiosidade sobre os agricultores expropriados, os pescadores prejudicados e as promessas que ficaram pelo caminho

Como ocorreu no passado com o então bilionário Eike Batista, o ex-prefeito do Rio de Janeiro e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes (PSD), teve seu dia de “Barão de São João da Barra”, coroado pela concessão de um curioso diploma de cidadão sanjoanense. Tudo indica que esta tenha sido uma de suas poucas visitas ao município. O episódio demonstra que, quando se trata de homenagear grandes investidores ou seus representantes políticos, o Legislativo local parece não conhecer limites na distribuição de honrarias.

Como todo político em pré-campanha, Eduardo Paes participou de uma visita cuidadosamente organizada ao Porto do Açu, acompanhado da ainda deputada estadual e ex-prefeita Carla Machado, personagem que poderia ser considerada, sem exagero, uma das principais madrinhas políticas do empreendimento. Durante o roteiro pelo interior do complexo portuário, Paes reproduziu um discurso já conhecido dos entusiastas do projeto, afirmando que o Porto do Açu não seria apenas “uma joia da coroa do Rio de Janeiro”, mas “a coroa inteira”.

A declaração não surpreende. Ao longo de sua trajetória política, Eduardo Paes construiu uma relação particularmente próxima com grandes grupos empresariais. Em seus mandatos à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, promoveu amplas intervenções urbanas voltadas à valorização imobiliária de determinadas áreas da cidade, mobilizando vultosos recursos públicos para dinamizar territórios posteriormente apropriados pelo mercado como novas fronteiras de valorização econômica.

Também não surpreende que a visita tenha sido conduzida sob a ótica dos números apresentados pela direção do Porto do Açu. Segundo os administradores do empreendimento, o complexo abriga atualmente cerca de 30 empresas, movimenta aproximadamente 7 mil trabalhadores por dia e teria investido mais de R$ 70 milhões em compras e contratações de fornecedores regionais no último ano. O discurso empresarial enfatiza ainda que 75% dos trabalhadores seriam oriundos da região e que a parceria com os municípios vizinhos seria fundamental para sustentar o crescimento do empreendimento.

O problema é que, ao aceitar sem questionamentos essa narrativa corporativa, Eduardo Paes deixou de abordar questões centrais relacionadas à implantação e aos impactos do Porto do Açu. Em nenhum momento explicou como um eventual governo estadual trataria a dívida histórica da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) com centenas de famílias de agricultores que tiveram suas terras desapropriadas para a criação de um distrito industrial que jamais se materializou nos moldes originalmente anunciados. Parte dessas áreas acabou incorporada à expansão do complexo portuário e hoje gera receitas milionárias por meio da locação de terrenos para empresas instaladas no empreendimento.

O fato incontornável é que a implantação do Porto do Açu ocorreu mediante um amplo processo de expropriação de terras produtivas que garantiam renda e reprodução social para agricultores familiares. Paralelamente, comunidades pesqueiras tradicionais passaram a enfrentar crescentes restrições de acesso a áreas historicamente utilizadas para a pesca artesanal. Em especial, os sistemas lagunares do V Distrito sofreram mudanças que reduziram significativamente as possibilidades de reprodução econômica de dezenas de famílias que dependiam desses ambientes para sobreviver.

Além disso, chama atenção que, passados quase vinte anos desde o anúncio do projeto original, a promessa de um grande distrito industrial diversificado nunca tenha se concretizado. O complexo consolidou-se principalmente como uma plataforma logística voltada ao apoio offshore, à exportação de minério de ferro e às atividades ligadas ao setor de petróleo e gás, mantendo características típicas de um enclave econômico pouco integrado ao território que o abriga.

Por isso, mais do que celebrar sua nova condição de cidadão sanjoanense, seria desejável que Eduardo Paes realizasse uma visita ao V Distrito de São João da Barra. Mas não apenas ao interior do complexo cercado e protegido que lhe foi apresentado. Seria importante percorrer o lado de fora das cercas, conversar com agricultores desapropriados, pescadores artesanais e moradores das comunidades afetadas pela implantação do empreendimento. Somente assim poderá conhecer uma realidade que raramente aparece nos centros de visitantes e nas apresentações institucionais: a de um empreendimento multinacional que extrai enormes riquezas do território, enquanto distribui de forma extremamente desigual os custos sociais e ambientais de sua presença.