Afogada em uma dívida de R$ 7,9 bilhões, OSX acusa Porto do Açu de “negligência” e gestão “precária” com intenção de prejudicá-la

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No dia 15 janeiro, publiquei uma nota sobre a situação do Porto do Açu que estava em vias de rolar uma dívida bilionária de R$ 5,6 bilhões com apenas dois dos seus credores. Eis que hoje, o jornalista Victor Irajá publicou na coluna Radar da Revista Veja que a OSX, empresa de construção naval do antigo grupo EBX do ex-bilionário Eike Batista está tentando conseguir uma segunda recuperação judicial para tentar sanear uma dívida também bilionária de R$ 7,9 bilhões (ver imagem abaixo).

Mas a verdadeira novidade está na informação de que a OSX atribui a evolução ascendente da sua dívida a uma suposta sabotagem do Porto do Açu (i.e., da Prumo Logísitica Global)  que teria atuado de forma “negligente” e “precária” em suas responsabilidades de gerar a renda que permitiria que a OSX pudesse começar a diminuir as suas dívidas bilionária.

Para a OSX, o Porto do Açu tem agido desta forma porque “não tem interesse efetivo na reestruturação da OSX e tem intenções de tomar a área ocupada pela companhia de Eike em suas instalações.” Além disso, a OSX alega “ter sido prejudicada pela gestão da Porto de Açú, como a recusa de firmamento de contratos de locação“,

Particularmente digo que nesta briga entre a Prumo e a OSX, eu torço pela briga. No entanto, o que me parece importante frisar é o incrível montante de dívidas que existem no Porto do Açu, já que em apenas dois casos noticiados, ficamos sabendo da existência de “papagaios” da ordem de R$ 13,4 bilhões. Eu fico realmente curioso para saber o volume total de dívidas que existem hoje associadas aos diferentes empreendimentos que foram instalados no Porto do Açu.

Com tudo isso, ainda sou obrigado a notar que em meio a esse estoque bilionária de dívidas, ainda temos centenas de famílias de agriultores que tiveram suas terras tomadas para a instalação do natimorto Distrito Industrial de São João da Barra. Para essas famílias, as perspectivas não são nada boas, pois com tantas dívidas bilionárias, o direito delas fica cada vez mais escanteado.

Com dívidas bilionárias, Porto do Açu pode ser vendido para petroleira estatal chinesa

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Eike Batista e Sérgio Cabral em visita na China já tentavam tornar o Porto do Açu uma espécie de autoestrada chinesa encravada no Norte Fluminense. A hora para isso pode estar chegando

Acompanho as idas e vindas do Porto do Açu desde de antes de sua construção ter sido iniciada, e uma das minhas orientandas no Programa de Políticas Sociais da Uenf, Beatriz Oliveira Pires, realizou um dos primeiros estudos sobre as expectativas e temores gerados pelo empreendimento na população do V Distrito de São João da Barra. 

Nas muitas entrevistas que concedi quando jornalistas vinham cumprir pautas sobre o empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista, sempre disse que o Porto do Açu era mais espuma do que chopp, pois as muitas promessas e anúncios grandiosos feitos para angariar apoios acabavam não se cumprindo ou ficavam muito aquém do prometido.

Pois, neste domingo (14/01) o jornalista Lauro Jardim publicou em sua coluna dominical duas informações que podem alterar, mais uma vez os rumos do Porto do Açu. Segundo Jardim, o Porto do Açu está em vias de rolar uma dívida bilionária com dois dos seus credores (Bradesco e Santander), enquanto tratativas iniciais estariam sendo feitas com a petroleira estatal chinesa Sinopec para, digamos, passar o ponto (ver imagem abaixo).

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Eu particularmente não me surpreendo com a informação, pois o montante de empréstimos tomados desde que o Porto do Açu começou a ser construído é gigantesco, enquanto o empreendimento tem parte de sua estrutura ociosa. Além disso, desde os tempos de Eike Batista, um dos sonhos dos controladores é ter a China como principal destino das mercadorias exportadas via o Porto do Açu. Dai para passar o porto para controle direto dos chineses é um pulo. 

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As diferentes tentativas de tornar o Porto do Açu em uma espécie de rodovia para a China estão descritas no capítulo que eu escrevi para o livro “The Tropical Silk Road: The Future of China in South America” que foi publicado pela Stanford University Press em 2022.  Essa obra traz ainda outros casos de portos que estavam sendo ou foram adquiridos por empresas chinesas, o que demonstra que diferente dos EUA, os chineses preferem controlar portos do que instalar bases militares.

No caso do Porto do Açu, me preocupa o fato de que passada mais de uma década desde que o governo do Rio de Janeiro expropriou milhares de hectares que pertenciam centenas de propriedades de agricultores familiares (que até hoje esperam pelo devido ressarcimento financeiro), agora possamos ter esse estoque de terra (algo em torno de 7.500 ha) transferido para uma petroleira estatal chinesa, replicando o que ocorreu quando Eike Batista vendeu o Porto do Açu para o fundo de private equity EIG Global Partners. É que com isso, a chance dos agricultores do V Distrito serem finalmente ressarcidos vai diminuir ainda mais. Isto sem falar no aprofundamento da condição de enclave que já é uma das principais características do Porto do Açu.

Veja publica nota sobre desapropriações nunca pagas do Porto do Açu. Grilagem estatal de terras é o nome

Desapropriações envolvendo antigo porto de Eike se arrastam na Justiça. Processo de compensação das famílias é agravado pela constante troca de juízes

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Eike Batista fala na Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado que apura irregularidades no BNDES, em Brasília – 29/11/2017 (Marcos Oliveira/Agência Senado)

Por Victor Irajá

Na esteira da disputa entre a Prumo Logística e a OSX, última empresa do império de Eike Batista a sobreviver, na operação do Porto de Açu, no Rio de Janeiro, um impasse na indenização de cerca de 400 famílias de agricultores removidas para dar lugar ao porto se arrasta na Justiça desde 2010. Na ocasião, o governo de Sérgio Cabral removeu dos arredores cerca de 400 famílias de agricultores. A ideia era oferecer a área de 7.500 hectares que ocupavam para a instalação de um polo industrial, beneficiado pelas facilidades de transporte oferecidas pelo porto.

A indenização das famílias degringolou e até hoje se arrasta nos tribunais, com uma sucessão de conflitos sobre os critérios de avaliação das terras desapropriadas. Complexa por si só, a disputa só se acirrou desde a entrada da Prumo Logística como parte interessada das desapropriações ao lado do governo do Rio. O processo de compensação das famílias é agravado pela constante troca de juízes, resultando em revisões nas peritagens e desvalorização das propriedades, enquanto as terras permanecem abandonadas.


Fonte: Revista Veja

Desapropriações no Porto do Açu: 13 anos de negação de direitos e violências contra os agricultores do V Distrito

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Capa da Folha de Manhã de 26/4/2011 mostrando a resistência dos agricultores do V Distrito contra a expropriação de suas terras pelo governo do Rio de Janeiro

Este final de ano será particularmente sombrio para centenas de famílias de agricultores no V Distrito de São João da Barra que tiveram suas terras expropriadas pelo ex (des) governador Sérgio Cabral para a instalação de um natimorto distrito industrial na retroárea do Porto do Açu.   Ao tomar mais de 7.500 hectares de terras de seus legítimos proprietários e entregá-los sem qualquer base legal para usufruto do Grupo EBX (que posteriormente repassou essas terras para a Prumo Logística Global), Sérgio Cabral realizou uma reforma agrária às avessas e criou um imenso latifúndio improdutivo que 13 anos depois permanece completamente abandonado, e sem perspectiva de que a finalidade manifesta (a criação de um distrito industrial seja realizado).

O problema é que ao contrário do tratamento dado a latifundiários no momento da desapropriação de seus latifúndios, o estado do Rio de Janeiro nunca cumpriu o que está previsto tanto na Constituição Federal quanto na Estadual no tocante ao processo de ressarcimento financeiro aos agricultores que tiveram suas terras tomadas. O que deveria ter sido um processo razoavelmente rápido ainda se arrasta lentamente nos tribunais, com uma sucessão de conflitos sobre quem pode avaliar as terras desapropriadas.

Mapa dos processos de desapropriação no Açu |

Mapa das desapropriações no V Distrito produzido pela LLX Açu Operações Portuárias

A disputa em termos da peritagem tem sido complicada pelo fato da Prumo Logística Global ter se apresentado como parte interessada das desapropriações, sem que haja muita clareza sobre o que dá a sustentação jurídica para isto. Entretanto, ainda que só tenha chegado depois da instalação do processo de desapropriação, a Prumo vem sendo aceita como parte interessada, o que acabou atrasando ainda mais o início do pagamento das indenizações.

Se o problema não fosse grande o suficiente, os agricultores ainda têm assistido a uma constante troca de juízes responsáveis pelos processos, com repercussões sobre o processo de peritagem e valoração das terras.   Com isso, processos que já tinham sido praticamente concluídos tiveram que basicamente voltar à estaca zero com a realização de novas peritagens, as quais, invariavelmente, reduzem os valores que peritos anteriores haviam atribuído às propriedades tomadas pelo governo estadual. 

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Um jurista que acompanha o caso me alertou que uma lei municipal de 2017, a Lei No. 500, determinou que o valor referência do metro quadrado no V Distrito de São João da Barra deve ser de R$ 800,00. Com isto, o valor das indenizações deverá ser milionária para muitas das famílias afetadas pela tomada de suas terras.  Um problema que isto acarreta é que, na possibilidade de novas peritagens levarem esse valor como referência, não seria de se estranhar se aumentarem as pressões para que as famílias aceitem negociar suas terras com os famosos “contratos de gaveta”, mas por valores muito abaixo do que foi estabelecido pela Lei No. 500.

Toda essa situação reflete bem o tratamento díspare que tem sido dado às partes interessadas na disputa agrária que foi aberta em 2010 e que se arrasta, sem previsão de conclusão, até hoje.  Quem quiser saber um pouco mais sobre esse imbróglio das desapropriações na retroárea do Porto do Açu, sugiro a leitura da dissertação defendida pelo meu ex-orientando Felipe Medeiros de Alvarenga no Programa de Políticas Sociais da Uenf sob o título de “Os deserdados do desenvolvimento: o caso da implantação do Complexo Portuário e Industrial do Açu e seus impactos socio-territoriais“.

A questão da oferta de água potável no V Distrito e a sombra da outorga dada ao Porto do Açu sobre o Aquífero Emboré

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O site “Parahybano” publicou ontem uma matéria sobre uma ação da Prefeitura Municipal de São João da Barra para resolver o gritante e urgente problema do abastecimento de água potável no V Distrito de São João da Barra, área que foi alvo de um incidente ambiental causado pelo despejo de água salgada vinda dos aterros hidráulicos do Porto do Açu.

A matéria do Parahybano informa que a “prefeita Carla Caputi assinou na tarde de sexta-feira, 24/11, a ordem de serviço para perfuração de poço tubular profundo na localidade de Bajuru, no quinto distrito de São João da Barra, e interligação na rede existente na RJ-240“. A nota informa ainda que a “previsão é que a obra, no valor de R$ 1.144.136, com recurso próprios, seja concluída em um prazo de quatro meses, beneficiando mais de 5 mil famílias das localidades de Bajuru, Azeitona, Campo de Areia, Corrego Fundo, Água Preta, Mato Escuro, Cazumbá, Sabonete e Concha“. 

Por outro lado, o que a nota não nos informa é se foram realizados estudos prévios sobre a qualidade da água que se pretende utilizar para o resolver o problema crônico que tem sido o abastecimento nas localidades apontadas, especialmente porque uma das reclamaçõesdos habitantes do V Distrito é que a água servida a eles seria salgada ou, na melhor das hipóteses, salobra. Sem um estudo prévio que ateste que a água que será retirada de uma profundidade estimada de 240 metros estará livre do excesso de sal, esta obra será uma espécie de trocar “seis por meia dúzia”. Uma questão que levantei neste espaço faz pouco tempo se relaciona ao maior usuário de água de V Distrito  (e certamente do município de Sâo João da Barra) que é o Porto do Açu.

Segundo dados levantados pela Agência Pública e publicados na matéria “Os donos da água“, o Porto do Açu possui uma outorga para o uso de 142,4 bilhões de litros de água anualmente, colocando o empreendimento como o sétimo maior consumidor de água do Brasil. Desde fiquei pensando de ontem o porto estaria retirando este mega volume de água. 

Agora após ler a mesma matéria do Parahybano, um leitor deste blog  me perguntou o que estaria ocorrendo em termos de uso da água contida no chamado “Aquífero Emboré“, pois há a preocupação de que a grande outorga dada ao Porto do Açu esteja sendo obtida desta reserva hídrica (ver imagem abaixo).

A possibilidade de que o Porto do Açu esteja obtendo seu abastecimento anual do Emboré não me parece algo despropositado, na medida em que a planejada transposição do Rio Paraíba do Sul que iria ser feita para abastecer o empreendimento iniciado pelo ex-bilionário nunca saiu do papel, até porque houve a devida reação por parte do Ministério Público Federal.

A questão é que não se ouviu nada por parte de autoridades municipais do entorno do Porto do Açu após a veiculação da matéria produzida pela Agência Pública. E agora vem a Prefeitura de São João da Barra com essa solução para um problema que foi, ao menos em parte, causado pelo Porto do Açu.  Com isso, cresce a necessidade de que haja a devida publicidade sobre a qualidade da água que vai ser fornecida à população do V Distrito, mas também sobre a mineração da água contida no Aquífero Emboré por parte do enclave comandado pelo fundo de private equity EIG Global Partners. Afinal, o usufruto da riqueza hídrica do Emboré deve ser primeiro da população dos municípios de Campos e de São João da Barra.

 

Colonialismo Verde: Porto do Açu tem novo capítulo de “licenciamento fast food”, enquanto agricultores e pescadores sofrem exclusão em seus territórios

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Já discorri aqui em diferentes ocasiões sobre a aplicação de uma modalidade de licenciamento ambiental no Porto do Açu que eu rotulei de “licenciamento fast food” por causa de suas características particulares que incluem audiências públicas do tipo “para inglês ver”.  Agora, o Porto do Açu está anunciando a realização de mais um capítulo dessa modalidade “fast food” para a obtenção das licenças ambientais para a construção do que seria  um “Hub de Hidrogênio e Derivados de Baixo Carbono” (ver imagens abaixo).

Um aspecto inicial que poderia se chamar (por falta de melhor palavra) de “curioso” é o horário da realização de audiências públicas a partir das 19:00 horas, período em que a população que será afetada tende a não estar disponível para participar. De quebra, especialmente para os moradores do V Distrito de São João da Barra, os organizadores da “audiência pública” promovem uma espécie de “caravana holiday” que obriga a um percurso relativamente longo antes de se chegar ao local físico do evento.

Esse tipo de estratagema já foi abordado pela minha ex-orientanda Juliana Latini em sua dissertação intitulada “A avaliação de impacto ambiental (AIA) enquanto instrumento participativo e preventivo no contexto do neodesenvolvimentismo: o caso do complexo logístico industrial do Porto do Açu (CLIPA)” onde ficou demonstrado que essas audiências eram preparadas para que não houvesse a devida participação dos atingidos”.

Agora o que se tem é uma versão requentada do mesmo tipo de estratégia de alienação dos interessados, mas com um detalhe pitoresco que é rebatizado da secretaria estadual de Meio Ambiente que agora se denomina “Secretaria de Estado de Ambiente e Sustentabilidade”, o que no caso do governo Castro beira o cinismo, pois a questão ambiental e da sustentabilidade só existem para dar um nome “fashion” para uma secretaria que mormente só existe para emitir licenças fast food.

O que não está dito é o que realmente importa

O problema é que por detrás desses projetos de energia verde que a Porto do Açu tenta vender ao anunicar a audiência pública do seu “hub” há um grande projeto de instalação de um rede de fazendas de vento “offshore” que só no Rio de Janeiro e no Espírito Santo promete a alocação de 14 ilhas de geração de energia, verde é claro (ver mapa abaixo).

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Fonte: EPBR

De cara, o que precisa ser dito é que este tipo de projeto de verde não tem nada, pois não se destinam a abastecer a demanda de energia interna, mas sim prover a demanda por hidrogênio nas economias mais desenvolvidas, a começar pelas que compõe a União Europeia. Além disso, quando se olha quem está por detrás desses projetos, o que se descobre, pasmemos todos, são empresas petroleiras (como a Shell e A Total) ou a empresas ligadas a ou controladas por elas.  O problema é que para viabilizar tais projetos, há ainda o aumento das áreas de exclusão de comunidades tradicionais, a começar pelos pescadores artesanais que veem um encurtamento dos seus territórios de pesca.

Além disso, há ainda um impacto em terra porque essas unidades offshore acabam tendo estruturas onshore para armazenamento e distribuição do seu “hidrogênio verde”. Exemplos de deslocamento forçado de populações tradicionais já estão sendo fartamente documentados em diversos pontos da costa brasileira.  Desta forma, tais projetos se configuram em uma forma avançada do que se denomina “colonialismo verde“.

Mais exclusão e passivo ambiental para os agricultores e pescadores do V Distrito

Assim, diante da magnitude do que está preparando sob a capa de um hub de “hidrogênio e derivados de baixo carbono” não é difícil antever que o nível de expulsão de comunidades que tradicionalmente habitavam o V Distrito de São João da Barra antes da chegada do Porto do Açu vai aumentar ainda mais. É que esses segmentos social e economicamente marginalizados não tem como competir com interesses corporativos globais, especialmente sob a égide de governos que pouco se importam com eles.

Por outro lado, como esse tipo de instalação traz impactos materiais, a começar pela exclusão das áreas de pesca, o que teremos é um agravamento do passivo ambiental e social criado pelo Porto do Açu, incluindo o aumento da erosão costeira e a manutenção do processo de salinização das águas superficiais, e o esgotamento do lençol freático.

Além disso, há que se lembrar que enquanto o Porto do Açu tenta continuar se reinventando, centenas de famílias de agricultores familiares continuam sem serem ressarcidas pela expropriação de suas terras. Terras estas que foram entregues a Eike Batista por Sérgio Cabral, para depois caírem de mãos beijadas no controle do fundo multinacional de private equity EIG Global Partners que hoje é o proprietário de fato do Porto do Açu e do estoque de terras que antes servia para a produção de alimentos.

Nesse sentido, uma coisa é certa: sobre esse passivo não se falará na audiência fast food que ocorre no dia 23. Na verdade, quantos mais silêncio melhor, de preferência com a distribuição de alguns canapés para os desavisados que comparecerem.

Outorga amiga para o porto, tarifa salgada para os moradores da Barra do Açu

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Após ler a postagem de hoje sobre o mega consumo de água pelo Porto do Açu (o sétimo maior consumidor entre 50 empresas que são “os donos da água no Brasil), um leitor que reside na localidade de Barra do Açu me informou que o caso não é o mesmo quando se aplica ao abastecimento oferecido pela CEDAE.

Segundo esse morador que me enviou a conta mostrada abaixo, há algum tempo a aplicação de uma regra esdrúxula que divide o consumo das residências em “comercial” e “doméstico”, as contas de água na Barra do Açu se tornaram extremamente “salgadas”, tornando o consumo que proibitivo para muitas famílias pobres que vivem ali, e que estão sendo cada vez mais acossadas pelo avanço do mar.

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Para essa pessoa que vive há décadas na Barra do Açu, o tratamento camarada dispensado ao Porto do Açu deveria ser estendido aos moradores que convivem hoje com as consequências negativas que o empreendimento trouxe para quem vive no V Distrito de São João da Barra.

Uma questão que foi levantada no diálogo que mantive com o leitor do blog se refere ao sentimento de abandono que os moradores possuem não em relação ao Porto do Açu de quem não se espera muita coisa, mas do governo municipal e da Câmara de Vereadores de São João da Barra que nada fazem para minimizar as graves distorções que afetam a vida dos moradores da Barra do Açu desde que o ex-bilionário Eike Batista assumiu a construção do empreendimento que hoje é de propriedade do fundo de private equity conhecido como EIG Global Partners.

Porto do Açu está entre os maiores consumidores de água do Brasil. Enquanto isso, o V Distrito convive com água salinizada…

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No dia 27 de outubro repercuti uma reportagem da Agência Pública mostrando que apenas 50 empresas podem usar a mesma quantidade de água que metade da população brasileira.  Pois bem, ontem ao ministrar uma aula no curso de Ciências Sociais da Uenf, notei um detalhe fino da reporagem que me passou despercebido inicialmente.

É que um dos gráficos usados pela Pública para ilustrar a sua reportagem aponta que o Porto do Açu possui um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água, ficando acima de grupos empresariais importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Klabin (ver imagem abaixo).

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Não sei se os leitores do blog recordam, mas o projeto do porto criado pelo ex-bilionário Eike Batista previa a realização de uma transposição do Rio Paraíba do Sul que retiraria um volume de de 10 litros por segundo para abasteceras necessidades do empreendimento.  Este volume seria capaz de abastecer uma cidade com uma população de 2,8 milhões de habitantes.

Entretanto, como a tal transposição nunca foi concretizada, a pergunta que fica é de onde a Prumo Logística estaria retirando a água que lhe foi outorgada e para quais usos específicos.  Uma coisa é certa, se mesmo uma fração do volume outorgado está sendo usado neste momento, isto levanta questões interessantes sobre o impacto que o empreendimento está trazendo para os mananciais existentes em seu entorno ou embaixo dele.

Nunca custa lembrar que a população do V Distrito de São João da Barra continua enfrentando as mesmas condições de abastecimento que existiam antes da construção do empreendimento, com uma “leve pitadinha de sal” vindo do aterro hidráulico do Porto do Açu (dos aterros, quer dizer).

Tanto em Ilhéus como na Praia do Açu, um porto está na raiz da erosão costeira

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Praia do Açu: o que estava caindo em 2014, em 2023 sumiu totalmente da paisagem

O município de Ilhéus localizado no sul da Bahia está experimentando um processo acelerado de erosão costeira que, segundo pesquisadores, tem com um das causas a construção do Porto do Malhado que foi inaugurado em 1971.  Segundo matéria publicada pelo Portal G1, o processo de erosão está ameaçando a estabilidade da região litorânea de Ilhéus e coloca em risco o futuro de milhares de pessoas que ali se estabeleceram a partir da década de 1970.

Segundo o professor  José Maria Landim Dominguez, professor do Instituto de Geociências da UFBA e responsável pelo mapeamento da Bahia no estudo “Panorama da Erosão Costeira no Brasil”, do Ministério do Meio Ambiente, a estrutura portuária  impede a passagem da areia do lado sul para o lado norte da cidade, e causa o processo erosivo (ver imagem abaixo).

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Comparação da faixa de areia em 1960 e em 2012 — Foto: José Maria Landim Dominguez, professor do Instituto de Geociências da UFBA

Ao olhar a imagem acima, me veio imediatamente à mente uma análise que foi realizada no meu laboratório em 2014 sobre um processo semelhante, e que continua ocorrendo até hoje, na localidade de Barra do Açu. Em função disso, resolvi tentar uma comparação entre 2014 e 2023 na Praia do Açu para ver se houve alguma mudança visual na paisagem costeira (ver imagem abaixo).

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O que transparece dessas imagens é que, apesar de não estarmos experimentando a mesma redução observada na Bahia (provavelmente ao período comparado nos dois casos), é que a Praia do Açu está realmente “encolhendo” por causa do processo erosivo associado à implantação dos terminais do porto de Eike Batista. Para identificar isso, bastaria olhar para a linha de praia em 2014 quando existiam pequenos quiosques na extensão comparada, os quais hoje sumiram da paisagem. Além disso, como seria de se esperar, a área da “Avenida Atlântica” está praticamente toda coberta por areia em 2023, diferente do que estava em 2014.

Outra diferença notável está no tratamento que a Prefeitura Municipal de Ilhéus está dando ao problema em comparação ao que se pratica na sua congênere de São João da Barra. O fato é que neste momento a questão da erosão causada pelo Porto do Açu simplesmente sumiu da pauta não apenas da Prefeitura, mas também da Câmara de Vereadores de São João da Barra. Parece até que nada de diferente está ocorrendo na Barra do Açu e na praia que um dia foi o principal ponto de veraneio de muitas famílias campistas e sanjoanenses.

 

 

 

Em tragédia anunciada pelo EIA/RIMA do Porto do Açu, erosão costeira se agrava e ameaça localidade no V Distrito de São João da Barra

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Erosão continua avançando e ameaça varrer do mapa a localidade de Barra do Açu no V Distrito de São João da Barra.

Venho acompanhando ao longo dos anos o processo de erosão costeira que afeta a localidade de Barra do Açú após a construção de um quebra-mar que protege um dos terminais do Porto do Açu.  Essa é uma tragédia anunciada nos estudos técnicos realizados pelo Grupo EBX do ex-bilionário para obter as licenças ambientais para a implantação do empreendimento que hoje está nas mãos do fundo de “private equity” EIG Global Partners.

Visitei a outrora aprazível e pacata localidade de Barra do Açu ao longo dos anos e a perda da faixa de areia é visível, com uma diminuição acentuada da faixa de praia. Entretanto, o processo que parecia ter estabilizado, agora voltou com força, deixando os habitantes da localidade cada vez mais apreensivos com o destino do local (ver vídeo abaixo mostrando a ação do mar neste sábado (30/09).

O mais lamentável é que após momentos em que se pretendeu alguma preocupação, seja por parte do governo municipal, da Câmara de Vereadores, ou da Prumo Logística Global, a situação agora está no melhor estilo do “À mercê da própria sorte”.

Esta situação demonstra que o discurso de desenvolvimento não apenas não se concretizou, como agora temos uma série de heranças malditas afetando todo o V Distrito de São João da Barra. É que além da erosão costeira, temos ainda a salinização de águas superficiais, o aumento das ações do narcotráfico em uma região que antes não vivenciava nenhum desses problemas.