Banco Alimentar de Portugal: comida para quem precisa de comida

Por força da minha presença temporária no “Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais” da Universidade de Lisboa, estive presente numa das maiores feiras do agronegócio português, a chamada AgroGlobal [1]. 

A presença das maiores empresas do setor da agricultura industrializada dá à AgroGlobal um ar de feira dos desejos inalcançáveis para a maioria dos agricultores que lá foram já que os equipamentos e insumos lá mostrados são de última geração e são vendidos a custos fabulosos. Isso é superado pela farta distribuição de “brindes” dados pelas empresas para divulgar as suas marcas, o que os agricultores aproveitam com sofreguidão.

Entretanto, dentro da AgroGlobal encontrei um estande que me chamou muito a atenção por destoar do ar corporativo da feira, bem como de seus propósitos. Falo aqui do Banco Alimentar de Portugal (ver imagens abaixo) [2].

Pelo que pude conversar com a voluntária que lá estava, o Banco Alimentar é uma iniciativa que procura recolher alimentos vindos não só da produção própria a partir de áreas concedidas e do recolhimento daquilo que seria descartado pelas grandes redes de supermercado pelos mais variados motivos (da simples ruptura de uma embalagem até a ultrapassagem da data de validade). Com isso, se junta a necessidade de matar a fome de uns com a busca da redução do amplo processo de desperdício que acontece na cadeia de comercialização de alimentos.

O Banco Alimentar oferece ainda a possibilidade de detentos do sistema prisional de trabalharem nas áreas de cultivo em troca da diminuição do período de apenamento, além de lhes possibilitar algum tipo de treinamento nas atividades agrícolas. Mas a participação nas chamadas “hortas solidárias” também pode ser feita por voluntários que não estejam interessados em reduzir suas penas, mas apenas em ajudar a produzir alimentos para os que têm fome e não possuem condições econômicas para comprá-los. 

Para que se tenha a noção do problema da fome em Portugal, o Banco Alimentar de em 2017 entregou alimentos a cerca de 370 mil pessoas, o que corresponde a 3,7% da população portuguesa. E pelo que pude conversar com colegas que conhecem a atuação da instituição, o número de pessoas assistidas poderia ser ainda maior se muitos não ficassem constrangidos em acessar os serviços da organização.

Um detalhe a mais é que o Banco Alimentar não depende da ação de igrejas para mobilizar a sua estrutura de voluntários, sendo, portanto, um modelo de ação política que depende do grau de mobilização cívica da sociedade portuguesa, e que inclui a participação de grandes empresas.

Eu fico imaginando quando em Campos dos Goytacazes, apenas à guisa de exemplo, poderíamos ter o engajamento das cadeias de supermercado em um tipo de projeto como o do Banco Alimentar. É que enquanto aqui, as grandes cadeias aceitam se engajar na entrega de alimentos, em Campos os donos dos supermercados agem para não terem que mostrar a data de validade de alimentos que estejam vendendo em promoção. 


[1] http://www.agroglobal.pt/

[2] https://www.bancoalimentar.pt/homepage/

Aduenf divulga entrevista com o Prof. António Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa

ADUENF apresenta entrevista com o Prof. António Nóvoa

Em meio ao processo de greve de professores e servidores  técnico-administrativos da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a Associação de Docentes realizou uma importante entrevista com o Prof. António Nóvoa, educador e ex-reitor da Universidade de Lisboa.

A experiência portuguesa ganha relevância neste momento na medida em que as universidades portuguesas sofreram um forte impacto da crise econômica imposta pelas receitas neoliberais impostas pela troika e souberam responder com medidas que mantiveram a sua integridade institucional. Neste contexto, a entrevista do Prof. António da Nóvoa traz algumas indicações de como se fez o enfrentamento da crise econômica e de seus impactos no cotidiano das universidades. 

Abaixo postamos a entrevista em sua íntegra.

 FONTE: http://aduenf.blogspot.com.br/2017/09/aduenf-apresenta-entrevista-com-o-prof.html

Mário Magalhães lembra os 40 anos da Revolução dos Cravos

40 anos da Revolução dos Cravos: Ponte 25 de Abril já se chamou Salazar COMENTE

Por Mário Magalhães

Hoje faz 40 anos que os portugueses derrubaram a ditadura salazarista. Tim-tim.

Com a Revolução dos Cravos, a ponte sobre o rio Tejo que homenageava o ditador Salazar mudou de nome. Passou a se chamar 25 de Abril.

Depois os “portugueses”, no sentido preconceituoso de pouco sábio, são eles, e não nós, viventes de um país em que escolas, ginásios e até uma ponte mantêm o nome de próceres da ditadura.

Em 2004, em jogo de legenda, a seleção portuguesa dirigida por Felipão venceu a Inglaterra nas quartas-de-final da Eurocopa. Em casa, acabaria perdendo a final para a Grécia.

Então colunista esportivo da “Folha”, escrevi as maltraçadas abaixo.

* * *

Dona Luísa, seu Júlio e Felipão

O nome dele, com certeza, era Júlio. O dela, se a memória por uma vez não trai, Luísa. Beiravam os 80 anos. Viviam em um apartamento de quarto andar na rua Santa Marta, Lisboa. Pertinho da avenida da Liberdade, onde ontem multidões de portugueses festejaram o triunfo.

Seu Júlio falava pouco. Dona Luísa compensava -falava pelos dois. Tinha uma obsessão desde meio século antes, quando o tipo pacato do marido a ninguém causava impressão. “O Júlio não é parvo, não é parvo”, repetia.

Eu adorava provocar-lhes: “Passei hoje pela Ponte 25 de Abril”.

“Ponte Salazar!”, retrucavam, furiosos, insistindo no velho nome já trocado.

Ela subia a escadaria em espiral, do prédio antigo sem elevador, e suspirava cansada: “Ai, que saudade do António”.

O dito cujo, ditador António de Oliveira Salazar, um dia parecera-lhe imortal. Morrera muito tempo atrás.

Depois de 16 anos de Revolução dos Cravos, ganhavam uma pensão magra. Em compensação, o aluguel, congelado, saía mais barato que um engradado de garrafinhas de um sumo de maçã chinfrim e saboroso cuja marca o tempo apagou da lembrança. Não poderiam ser despejados enquanto vivessem.

Alugavam dois quartos para engordar as finanças. Passei semanas morando ali. Quando me assentara em Cascais, fui assistir com eles a um confronto célebre da Copa de 90: Inglaterra e Camarões, 2 a 2 no tempo normal, 1 a 0 para os europeus na prorrogação. Conosco estava um jovem engenheiro do interior, o Miguel, que continuava por lá.

Dona Luísa e seu Júlio torciam pelos ingleses. Miguel e eu, pelos camaroneses. Os velhinhos foram calando. Olharam-se.

Até que ela, incrédula, constatou, na única vez que a ouvi falar baixinho: “Ê, pá! Vocês estão a torcer para os pretos…”.

“Claro”, confirmamos.

“Por quê?”

Não resisti: “Quem sabe não é por isso mesmo…”.

Odiavam os africanos que acorriam a Portugal em busca de trabalho. Também encrencavam com brasileiros, de todas as raças. “Isso tudo já foi nosso”, comentou seu Júlio, quando a TV exibiu reportagens sobre colônias de antanho.

Outros tantos portugueses não iam com a cara dos brasileiros que desembarcavam onde outrora haviam embarcado seus antepassados. Era uma reticência atávica. Por séculos, mandaram gente sem fim para além-mar. A nação que construiu a Escola de Sagres acostumou-se com seus emigrantes. Não com os imigrantes que agora acolhia com pé e meio atrás. Os brasileiros não contribuíam. Nos jornais, éramos mais assíduos nas páginas de polícia.

O sucesso de Luiz Felipe Scolari na seleção portuguesa talvez indique que as coisas tenham mudado. Pelo menos um pouquinho. Nos tropeços, não falta dedo a acusar sua condição de estrangeiro. Mas, já por mais de uma semana, um país inteiro, Portugal, se comove com seu time dirigido por um técnico brasileiro.

Felipão diminui o oceano entre almas, no fundo, semelhantes. O que pensariam seu Júlio e dona Luísa?

(“Folha de S. Paulo”, 25 de junho de 2004)

FONTE: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/