No interior de SP, agronegócio impulsiona economia enquanto precariza relações de trabalho

A mecanização da produção de cana-de-açúcar trouxe não só a redução de empregos no campo como diminuiu o acesso a direitos e favoreceu a concentração fundiária

Fotografia em plano geral mostrando uma estrada de terra batida vermelha que corta uma vasta plantação de monocultura de cana-de-açúcar, sob um céu nublado.

Desde a década de 1960, o avanço da monocultura canavieira transformou a paisagem rural em Araraquara, substituindo áreas antes ocupadas por lavouras de subsistência e pomares da laranja por extensas plantações de cana destinadas à produção de açúcar e etanol – Foto: Anderson Santos 

Por  Ivanir Ferreira, Arte: Livia Bortoletto, para “Jornal da USP”

Uma pesquisa da USP faz uma análise crítica sobre como a expansão do agronegócio sucroenergético vem alterando as relações de trabalho e a dinâmica social no campo na região de Araraquara, interior de São Paulo. Desde a década de 1960, o avanço da monocultura canavieira transformou a paisagem rural regional, substituindo áreas antes ocupadas por lavouras de subsistência e pomares de laranja por extensas plantações de cana destinadas à produção de açúcar e etanol.

Segundo o autor da pesquisa, o geógrafo Anderson Santos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, nas últimas décadas, “o crescimento da produção de commodities agrícolas para o mercado internacional impulsionou a economia em Araraquara, mas também trouxe consequências sociais negativas para a população, como a redução de empregos no campo, a precarização das relações de trabalho, a concentração fundiária e o enfraquecimento dos vínculos da população com a terra”. Muitos proprietários passaram a arrendar suas propriedades para usinas e a depender de trabalhos urbanos; o trabalho ficou mais precarizado e sem vínculo empregatício formal, levando os trabalhadores a fazerem longos deslocamentos diários para garantir sua renda.

Homem de pele clara, cabelos e barba pretos. Usa camiseta branca. Ao fundo, há uma tela de projeção.
Anderson Santos – Foto: Arquivo pessoal

A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi apresentada ao Departamento de Geografia da FFLCH em abril de 2026, sob orientação do professor Anselmo Alfredo. A pesquisa reúne relatos de pequenos proprietários de terra e produtores, colhedores de laranja e trabalhadores do setor sucroenergético afetados pelas mudanças no campo.

Araraquara, polo do agronegócio sucroenergético

Nas últimas décadas, a região de Araraquara tornou-se um dos principais polos da produção de cana-de-açúcar do País a partir de uma combinação de fatores econômicos, políticos e territoriais. Desde a década de 1960, políticas públicas voltadas à modernização da agricultura estimularam a expansão de grandes monoculturas, com acesso facilitado ao crédito rural, incentivos fiscais, mecanização e infraestrutura para o escoamento da produção.

A pesquisa aponta que o agronegócio ganhou força durante o regime militar (1964-1985), quando o governo federal passou a priorizar a produção agrícola em larga escala voltada ao mercado nacional e internacional. Na região de Araraquara, a oferta ampla de crédito rural e as condições favoráveis de solo, relevo e clima facilitaram a expansão da cana-de-açúcar sobre áreas antes ocupadas por lavouras diversificadas, pastagens e pomares de laranja.

Outro marco importante citado pelo geógrafo foi a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 1975. A iniciativa incentivou a produção de etanol como alternativa ao petróleo, impulsionando a instalação e a ampliação de usinas sucroalcooleiras no interior paulista. Com isso, a cana passou a ocupar parcelas cada vez maiores do território regional, consolidando Araraquara como um centro estratégico da indústria sucroenergética.

Santos explica que a expansão da cana-de-açúcar em São Paulo ganhou ainda mais força a partir dos anos 1990. A abertura da economia brasileira, o aumento da demanda internacional por açúcar e etanol e a ampliação da comercialização de commodities em bolsas de mercadorias e futuros impulsionaram o crescimento do agronegócio canavieiro. Além disso, novos mecanismos de financiamento, como a comercialização antecipada da safra e a emissão de títulos de crédito rural (CPRs) facilitaram a captação de recursos pelos produtores. Com isso, grandes grupos empresariais ampliaram suas áreas de cultivo por meio da compra e do arrendamento de terras, intensificando a especialização produtiva da região e consolidando o predomínio da cana-de-açúcar na economia local.

Imagem em plano geral e ângulo frontal mostra uma ampla paisagem rural de um canavial após a colheita, sob um céu com nuvens carregadas.

Produção canavieira – Foto: Anderson Santos

Contradições do agronegócio

A expansão do agronegócio gerou contradições no interior paulista. Nascido na região de Araraquara, o pesquisador afirma que acompanhou de perto as transformações provocadas pelo avanço da produção agrícola canavieira em larga escala, antes de se graduar em Geografia e seguir na área como pesquisador na USP. De acordo com Santos, “embora a região tenha se tornado mais integrada ao mercado global por meio da produção de commodities, os trabalhadores do campo passaram a enfrentar maior vulnerabilidade social, desemprego e exclusão econômica”

Para Alfredo, orientador do trabalho, a pesquisa de Santos amplia o debate sobre os impactos sociais da expansão do agronegócio no Brasil. “A tese vai além da análise de indicadores econômicos e investiga os efeitos desse modelo de desenvolvimento sobre a vida dos trabalhadores rurais”, diz.

O trabalho aborda temas como a transformação da relação da população com a terra, propondo uma reflexão crítica sobre as consequências da modernização agrícola no País, particularmente nas últimas décadas.

“O crescimento da produção e dos lucros não se traduziu necessariamente em melhoria das condições de vida para todos os grupos sociais envolvidos no processo” – Anderson Santos

Homem de cabelos castanhos escuros, cacheados e volumosos. Usa óculos de grau com armação fina, preta e de formato retangular. Ele tem bigode e um cavanhaque curto e aparado. Veste jaqueta preta por cima de uma camisa pólo azul-clara e cachecol vermelho.
Anselmo Alfredo – Foto: Arquivo pessoal

Deslocamentos mais longos e jornadas mais desgastantes

De acordo com o estudo, a redução das áreas cultivadas com laranja e a concentração da produção nas mãos de grandes agroindústrias citrícolas transformaram a rotina dos trabalhadores rurais da região de Araraquara. Nas poucas áreas citrícolas remanescentes, onde a colheita ainda é realizada manualmente, a oferta de emprego tornou-se mais escassa, obrigando muitos trabalhadores a buscar trabalho em municípios cada vez mais distantes.

Enquanto a mecanização avançou sobre praticamente todas as etapas da produção de cana-de-açúcar — principal atividade agrícola da região —, a citricultura continuou demandando mão de obra manual. Com menos oportunidades disponíveis, os catadores de laranja passaram a depender de empreiteiros que recrutam e transportam equipes para frentes de trabalho nas fazendas espalhadas por diferentes cidades.

Segundo Santos, a rotina desses trabalhadores passou a ser marcada por longos deslocamentos diários em ônibus fretados. Em muitos casos, o tempo gasto na viagem se soma à jornada no campo, aumentando o desgaste físico e reduzindo o tempo destinado ao convívio familiar e comunitário. Para ele, o aumento das distâncias percorridas pelos trabalhadores tornou-se uma das principais consequências da modernização da produção agrícola no campo.

“O trabalho é muito cansativo, e ainda tem o deslocamento. Eu tenho uma irmã que trabalha numa agroindústria. Tem vez que ela viaja duas horas e meia de ônibus pra chegar lá. (…) Pra você levantar quatro horas da manhã e ter que sair, que nem ela sai, cinco e meia de casa, e ficar duas horas e meia pra você chegar no trabalho, eu acho assim muito cansativo”, relatou uma trabalhadora em depoimento ao pesquisador.

Santos explica que a fala da trabalhadora evidencia como a busca por emprego passou a exigir não apenas mais tempo, mas também maior desgaste físico dos trabalhadores rurais. Sem registro em carteira e acesso a direitos trabalhistas, muitos enfrentam dificuldades para se afastar do trabalho mesmo quando adoecem ou precisam de tratamento médico.

Fotografia tirada de um ônibus rural em movimento circulando por uma rodovia de pista dupla, sob um céu azul e limpo.

Longos deslocamentos são fatores de desgaste dos trabalhadores. Na imagem, ônibus que os transporta para grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar – Foto: Anderson Santos

Informalidade agrava vulnerabilidade dos trabalhadores

Outra trabalhadora entrevistada relatou que precisou passar por uma cirurgia no pulso direito e, posteriormente, ficou afastada devido à covid-19. Sem vínculo formal de trabalho, ela não teve garantia de renda durante o período de recuperação. A preocupação com a perda do salário e o pagamento das despesas provocou ansiedade e sofrimento emocional. “Você começa a ficar perturbada porque não está recebendo”, afirmou.

Segundo Santos, a ausência de direitos como auxílio-doença e remuneração durante afastamentos médicos cria uma pressão constante para que os trabalhadores permaneçam em atividade, mesmo quando sua condição de saúde exige repouso. Além das perdas financeiras, essa situação contribui para o aumento do estresse, da insegurança e do desgaste psicológico, agravando as condições de vida da população rural.

Para o professor Alfredo, o caso de Araraquara revela as contradições de um modelo de modernização agrícola que combina aumento da produtividade e integração aos mercados globais com a redução de empregos, a precarização do trabalho e a concentração da terra. O orientador sugere que a análise dos impactos sociais da modernização do campo é essencial para compreender os desafios do desenvolvimento rural no Brasil.

A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanadas e será publicada em breve na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Mais informações: Anderson Pereira Santos (autor da pesquisa), anderson.pereira.santos@usp.br, (11)98440-8978 e Anselmo Alfredo (orientador), ansfredo@usp.br


Fonte: Jornal da USP

FAPERJ em falha: atraso de bolsas expõe crise estrutural

Enquanto outros estados reajustam e pagam em dia, o Rio de Janeiro normaliza o atraso, a desigualdade e o silêncio institucional

A crise das bolsas da  Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) já não pode mais ser tratada como um problema administrativo pontual. O que está em curso é algo mais profundo: a desestruturação silenciosa da pós-graduação no estado do Rio de Janeiro. A combinação entre valores defasados, atrasos na implementação e ausência de previsibilidade transformou aquilo que deveria ser política de fomento em um mecanismo de precarização acadêmica.

O ponto de partida dessa crise é conhecido, mas raramente enfrentado com a devida franqueza: o valor das bolsas. Em nível nacional, as bolsas da CAPES passaram quase uma década congeladas até sofrerem um reajuste em 2023, quando o mestrado passou para cerca de R$ 2.100 e o doutorado para R$ 3.100. Ainda assim, mesmo após o reajuste, esses valores permanecem modestos diante do custo de vida — especialmente em cidades como a do Rio de Janeiro.

O problema é que, no caso fluminense, a situação é ainda mais grave. Outras fundações estaduais não apenas acompanham reajustes, mas os superam deliberadamente como estratégia de fortalecimento científico. A FAPESP, por exemplo, paga atualmente cerca de R$ 3.120 a R$ 3.300 para mestrado e até R$ 6.810 para doutorado . Já a fundação do Espírito Santo elevou suas bolsas a níveis superiores aos federais, com mestrado em torno de R$ 3.200 e doutorado em R$ 4.500, explicitamente com o objetivo de recompor perdas inflacionárias .

Ou seja: enquanto outros estados tratam a bolsa como instrumento estratégico de investimento em capital humano, o Rio de Janeiro a mantém como um valor corroído — e, pior, incerto.

Porque o problema não é apenas quanto se paga, mas se e quando se paga. Editais da própria FAPERJ seguem anunciando cronogramas relativamente organizados, com previsão de implementação de bolsas em janelas específicas ao longo do ano, como maio e setembro . No papel, há planejamento. Na prática, há um abismo entre o edital e a realidade vivida pelos estudantes. A implementação atrasa, o pagamento não chega, e o bolsista — que já recebe pouco — passa a não receber nada.

É nesse ponto que a crise assume sua face mais cruel. A pós-graduação brasileira, por definição, exige dedicação exclusiva. Sem bolsa, não há renda alternativa legítima. O estudante não está apenas com dificuldades: ele está estruturalmente impedido de cumprir aquilo que o sistema exige dele. A bolsa deixa de ser apoio e passa a ser um fator de instabilidade.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa distorção se torna ainda mais visível. A coexistência de bolsas pagas por diferentes agências, e até com verbas descentralizadas da própria FAPERJ, escancara uma desigualdade interna difícil de justificar: enquanto alguns estudantes recebem regularmente, outros — vinculados à FAPERJ “padrão” — enfrentam atrasos indefinidos. Cria-se, assim, uma hierarquia informal de sobrevivência dentro da própria pós-graduação da universidade do “Terceiro Milênio”.

Mas talvez o elemento mais perturbador de toda essa crise seja o silêncio. A ausência de posicionamento firme por parte de reitorias, pró-reitorias e coordenações não é apenas omissão — é cumplicidade passiva com a precarização. Ao não denunciar publicamente os atrasos, ao não pressionar institucionalmente por soluções, as universidades contribuem para a normalização de uma situação que deveria ser tratada como colapso.

E isso tem efeitos concretos e mensuráveis. Atrasos de bolsas significam evasão. Significam estudantes abandonando projetos, interrompendo pesquisas ou migrando para outros estados — justamente aqueles que oferecem melhores condições. Significam perda de competitividade científica. Significam, em última instância, um processo de “fuga de cérebros” interno, silencioso e contínuo.

Há ainda um dano menos visível, mas igualmente grave: a erosão da confiança institucional. Quando editais são lançados, resultados divulgados e bolsas prometidas — mas não implementadas —, o sistema perde credibilidade. E ciência não se sustenta apenas com financiamento: ela depende de previsibilidade, confiança e compromisso.

O caso da FAPERJ evidencia uma contradição estrutural. De um lado, a fundação continua lançando editais e reafirmando seu compromisso com a formação científica . De outro, falha em garantir o básico: a materialização dessas promessas na vida concreta dos estudantes. Não se trata mais de um problema técnico. Trata-se de uma escolha política — explícita ou por omissão.

Se o atual cenário persistir, o Rio de Janeiro corre o risco de consolidar um modelo perverso: formar pesquisadores em um ambiente de instabilidade crônica, onde a excelência acadêmica convive com a insegurança material. Um modelo em que a produção científica sobrevive não por apoio institucional, mas apesar dele.

E ciência, como se sabe, não floresce no improviso. Ela exige estabilidade, compromisso e, acima de tudo, respeito por aqueles que a constroem diariamente.

Com Pedro Paulo é assim: para os servidores, perda de direitos e precariedade, mas para a sogra….

Em mais uma de suas matérias magistrais, o jornalista Ruben Berta publicou hoje um daqueles petardos reveladores sobre a hipocrisia e o cinismo que cercam  a atuação de determinados personagens no parlamento brasileiro. O centro da matéria se refere a uma informação curiosa: a sogra do deputado Pedro Paulo (PSD/RJ), um dos mentores da reforma administrativa, é empregada no gabinete de um dos seus principais aliados políticos na Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro.

O “emprego” rende à sogra de Pedro Paulo o montante de R$ 7.400,00 para que ela atua como “assessora cultural” em meio às suas outras atividades como empresária.

Há que se lembrar que as proposições, se aprovadas, representarão um rigoroso retrocesso de direitos para os servidores públicos e implicarão em um grave aumento do nível de precarização dos serviços públicos nas três esferas de governo.

Pelo jeito, com Pedro Paulo, a coisa vai assim: para a sogra tudo, para os servidores nada.

A universidade brasileira é refém do produtivismo

Exame de uma universidade sem dinheiro e sem projeto. Pesquisas são repetitivas ou rendidas a modismos. Cai a renovação teórica, busca-se financiamento privado e pontuação. Com saberes apartados da sociedade, portas são abertas ao mercado

Por Michel Goulart da Silva para “Outras Palavras” 

Pode-se afirmar que o fundamento que estrutura o meio acadêmico brasileiro é o da precarização, ou seja, a maior parte dos profissionais que produzem conhecimento científico o fazem em condições de extrema dificuldade. Não há muitas das condições básicas para a realização das atividades, seja em termos de estrutura física ou de pessoal, fazendo com que o pesquisador e seus colaboradores encontrem grandes dificuldades para realizar seu trabalho.

Os professores das universidades públicas, onde é realizada a maior parte das pesquisas, encontram dificuldades como a escassez de tempo para se dedicar à pesquisa e à extensão, combinada a uma extensa carga horária de aulas. Os professores das instituições privadas, com poucas exceções, não são incentivados a fazer pesquisa nem a atuar na pós-graduação. Os técnico-administrativos, além de gastar a maior parte do seu tempo em tarefas operacionais, sofrem com todo tipo de preconceitos e marginalização, tornando praticamente impossível a dedicação a outras atividades do espaço acadêmico, como pesquisa e extensão. Os centros de pesquisa públicos são poucos e, a despeito de produzirem importantes pesquisas, não conseguem dar conta das necessidades demandadas pela sociedade.

Outro aspecto a ser considerado se refere à materialização da precarização na condição dos estudantes. Como os docentes têm dificuldades de tempo e de estrutura para realizar suas pesquisas, acabam sendo os estudantes os responsáveis por realizar parte dmerco trabalho, cabendo ao coordenador do projeto se limitar a uma orientação genérica ou simplesmente colocar o nome no artigo final. Esse elemento se manifesta em especial numa divisão de tarefas em que a pesquisa dos orientadores é dividida em partes que os discentes assumem, independentemente do seu nível de formação. Com isso, grande parte das dissertações e teses desenvolvidas no interior dos grupos de pesquisa acabam sendo não o produto do interesse dos pesquisadores em formação, mas fragmentos de uma investigação cujos resultados estão voltados para os interesses e para o currículo do docente que coordena o projeto.

Os discentes, a despeito da enorme responsabilidade que acabam assumindo, inclusive eventualmente de docência, recebem bolsas cujos valores não condizem com suas necessidades vitais e mesmo de apoio às suas pesquisas. Em meio à necessidade de aquisição de bibliografia, de viagem para pesquisas e eventos, além de necessidades primordiais, como se alimentar e pagar aluguel, os valores pagos pelas bolsas vão sendo corroídos pela inflação sem que haja qualquer política de reajuste permanente. Um fator ainda mais degradante se refere ao fato de que, em um cenário de crise econômica e desemprego, para esses pesquisadores em formação a bolsa muitas vezes não está ligada a um projeto de vida e carreira como pesquisador, mas apenas à necessidade imediata de sobrevivência.

Em meio a isso, se coloca a supervalorização da titulação, onde a obtenção do doutorado não é encarada como uma fase da formação do pesquisador, mas um objeto de poder que pode ser utilizado como uma forma de distinção dentro do ambiente acadêmico. Nas universidades o título de doutor pode representar também o ponto mais elevado dentro da burocracia universitária, ocupando cargos de direção ou mesmo a reitoria. O docente doutor pode orientar pesquisadores de todos os níveis de formação, pleitear todos os tipos de financiamento e acessar todos os cargos e órgãos disponíveis na instituição. Muitos doutores fazem questão não apenas de ressaltar sua titulação, mas de destacar que isso os torna especiais e, por isso, mais importantes que todos os demais profissionais que atuam na instituição, inclusive em comparação até mesmo com técnico-administrativos que possuem doutorado. Essa relação de poder e detenção de status é uma demonstração de que “o capital universitário se obtém e se mantém por meio da ocupação de posições que permitem dominar outras posições e seus ocupantes”.

Para que seja relevante, o título de doutor dos pesquisadores precisa estar acompanhado de uma rede de financiamento e alianças que possibilitem à instituição obter mais e mais recursos. Em função disso, não importa a relevância da pesquisa ou o papel que possui o pesquisador em sua área, mas somente a capacidade que ele tem de obter recursos, sejam públicos ou privados, e as redes de contatos em que está inserido. Para a maior parte das instituições vale mais a pena ter um pesquisador que, embora sem grandes contribuições em sua área de pesquisa, possua amigos influentes em outras universidades e centros de pesquisa.

Essa necessidade de busca por financiamento impacta na escolha do que é produzido na instituição, ainda que a pesquisa seja irrelevante em sua área do conhecimento ou apresente uma baixa qualidade teórica e metodológica. O critério passa pela publicidade que a pesquisa possa alcançar e pela sua capacidade de ser vendida ao mercado. Esse processo tem relação direta com a crise na qual se encontra o sistema capitalista, que:

“[…] reflete-se numa crise dos valores burgueses, da moralidade, da religião, da política e da filosofia. O pessimismo que aflige à burguesia e aos seus ideólogos neste período se manifesta na pobreza de seus pensamentos, na trivialidade de sua arte e no vazio de seus valores espirituais. Expressa-se no espantalho filosófico pós-modernista, que se imagina superior a toda filosofia anterior, quando, na realidade, é absolutamente inferior”.

Muitas das pesquisas se tornam meras repetições umas das outras, com pequenas variações, dentro de grupos de pesquisas ou como parte de redes. Produz-se uma grande quantidade de teses, dissertações e artigos que basicamente discutem os mesmos assuntos, apresentando pequenas mudanças nos objetos ou nos problemas a serem discutidos. Não há uma preocupação efetiva em ensaiar novas metodologias e perspectivas, mas somente em chegar a um produto, o que obviamente é garantido por uma metodologia conhecida e utilizada de forma repetida e recorrente. Não se trata aqui de experimentos variados que levam a um novo conhecimento, podendo contribuir inclusive para uma renovação daquele campo de pesquisa, mas de um conhecimento pronto que basicamente vai sendo repetido à exaustão e, dessa forma, garantir a produção em grande escala de dissertações, teses e artigos.

Uma consequência dessa repetição de métodos e procedimentos é um completo desdém pelo debate teórico. Evita-se produzir reflexões que exijam a leitura aprofundada de clássicos e um denso debate epistemológico, e que poderiam apontar para novas interpretações ou mesmo para construções teóricas inovadoras. O caminho mais comum é partir de algum referencial pronto, normalmente algum autor ou um campo da moda na Europa ou nos Estados Unidos, e aplicar na pesquisa. Muitos pesquisadores apenas se alongam em citações que, com sorte, talvez façam sentido dentro da lógica do texto. Como consequência, a ciência “se converter numa rotina de simples absorção e arquivamento de ideias, de mera repetição de procedimentos conhecidos e sancionados, dos quais apenas se esperam os resultados seguros e rendosos que não podem faltar”. Torna-se, assim, praticamente impossível a construção de um referencial teórico que apresente inovações e novos olhares para os objetos de pesquisa.

Essa situação acaba se mostrando mais grave na pós-graduação, onde se estruturou uma avaliação quantitativa do trabalho realizado, embasada num sistema de controle que inicia nos projetos em andamento, passa pelas orientações e trabalhos em eventos, chegando à publicação de artigos e livros, exigindo uma coerência temática e metodológica que é medida não por critérios teóricos e metodológicos ou pela relevância para a área de conhecimento, mas, em última instância, por palavras-chave ou número de citações. Os pesquisadores, as instituições a que estão vinculados, os periódicos e os livros são categorizados e ranqueados, sendo sua classificação um critério determinante na definição da distribuição de recursos. Entende-se que essa “adoção do modo quantitativo de avaliação das produções cientificas, e o fato de que ele passa ser visto como razoável, decorre do processo de mercantilização ao qual a ciência está sujeita no capitalismo”.

Esse cenário de pressão pela produtividade está associado às mudanças na forma de organização do trabalho, na medida em que o capitalismo necessita cada vez mais que a técnica e a tecnologia garantam a diminuição nos custos de produção. No sistema capitalista, “a grande indústria tem de incrementar extraordinariamente a força produtiva do trabalho por meio da incorporação de enormes forças naturais e das ciências da natureza ao processo de produção”. Cabe à pesquisa um papel decisivo nesse processo, na medida em que possibilita a incorporação de novas tecnologias ao processo produtivo, exigindo-se resultados rápidos, inovadores e com impactos práticos. Como parte do processo de “reorganização econômica, a esfera de natureza simbólico-cultural altera-se, para constituir-se de valores e signos próprios da produção econômica, no contexto de tecnificação da política e da cultura”. Consequentemente, diante de dificuldades estruturais, de pressão pela produtividade, e de avaliações com critérios arbitrários, criam-se formas de garantir dados estatísticos de produção. Nesse sentido:

“[…] a pressão produtivista gera o efeito perverso do agir instrumental e do abandono do essencial (o processo em si, gerador de conhecimento e enriquecedor da formação intelectual) pelo aparente, isto é, o resultado espelhado na pontuação. Em outras palavras, privilegia-se a quantidade sem se importar com a qualidade”.

Esse problema se manifesta no comércio de publicações. O mercado das revistas acadêmicas e as parcerias com empresas fazem com que se deixe de lado a possibilidade de produção de conhecimentos que possam ter um caráter socialmente refletido e que apontem para uma perspectiva minimamente crítica. Construiu-se um complexo sistema de indicadores e estatísticas que mede não a qualidade ou a importância do conhecimento produzido, mas a quantidade de textos que o pesquisador produz. Não importa o conteúdo desses textos, se repetem integralmente o que foi escrito antes ou mesmo se não tem alguma relevância, mas sim as citações que faz e as que possa vir a obter. Os textos podem não apresentar nenhuma contribuição para sua área do conhecimento, mas tornam-se importantes dentro da realidade paralela do mundo acadêmico, importância essa completamente subjetiva e que somente faz sentido para um grupo específico de profissionais. O objetivo desses artigos produzidos em grande quantidade não é a apresentação de reflexões realizadas a partir de uma pesquisa com efetiva contribuição para seu campo de estudo ou a intervenção para a solução de um problema da sociedade, mas a obtenção de resultados que sejam mensuráveis por um sistema de avaliação definido com critérios arbitrários e desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas de fora da universidade.

Nesse cenário, de precarização do trabalho da pesquisa e de atribuição de pouca relevância ao conteúdo que se produz, a adesão aos modismos acaba sendo o caminho seguido por pesquisadores em qualquer nível de formação. Os pesquisadores acabam ou adotando os temas mais comuns do momento ou incorporando métodos e teorias mais utilizados por seus pares, na medida em que isso facilita tanto a obtenção de recursos e bolsas, como a publicação em revistas. O pesquisador deixa de ser um profissional que procura novos caminhos para seu trabalho, onde poderia encontrar saberes ainda pouco conhecidos e nada explorados, para permanecer estagnado em um lugar lotado e totalmente desgastado. Outro aspecto tem relação com o fato de esses métodos, teorias e objetos de moda normalmente expressarem interesses privados que, mesmo quando não influem de forma direta sobre o financiamento da pesquisa, determinam a importância que se deve dar ao trabalho do pesquisador.

Essa busca por estar na moda e em harmonia com os temas e teorias dominantes nos meios acadêmicos também tem como consequência o fato de se evitar quaisquer polêmicas. Se há divergências teóricas, deve-se ou fazê-las da forma mais cordial possível ou até mesmo evitar torná-las públicas, embora a produção do conhecimento necessite do debate e da crítica para apontar não apenas limitações do trabalho realizado, como indicar possíveis caminhos a serem seguidos. Nos diversos campos, dominam teorias, temas e métodos quase consensuais, parecendo que todos falam a mesma coisa, ainda que com pequenas variações na forma. O meio acadêmico atualmente existente, com raras e marginalizadas exceções, não é constituído por um espaço de debate aberto e saudável, mas por um comodismo que aceita passivamente os modismos dominantes e a precarização estrutural.

Nos últimos anos, algumas vozes têm se levantando para denunciar os problemas enfrentados pelos pesquisadores, enfatizando especialmente cortes de verbas para fomento, dificuldades estruturais e a ameaça de perda de bolsas. Contudo, de forma geral, essas críticas não apresentam uma análise da lógica perversa do meio acadêmico e do fato de que sua precarização não se limita a um projeto de governo, mas constitui-se em uma estratégia diretamente ligada aos interesses do capital, que tem como objetivo a completa transformação do conhecimento em mercadoria. Deve-se ressaltar que:

“[…] as atividades intelectuais de produção da ciência e da tecnologia não se constituem processos autônomos, independentes da realidade concreta onde se efetivam. A ciência revela-se historicamente como instrumento de poder. Ela passa a atuar junto às forças produtivas de forma cada vez mais decisiva, ampliando cada vez mais sua potência econômica”.

O Estado, diante das variações no modo e nas relações produções, adapta as políticas educacionais e de pesquisa aos interesses do capital, priorizando ora investimentos com recursos públicos, ora a entrega da educação à gestão privada, com ou sem recursos do Estado. Portanto, a despeito de todas as mediações possíveis, em última instância, a educação sob o capitalismo é funcional à produção de valores de troca e à exploração do trabalho. Com isso, a possibilidade de avanço na produção do conhecimento mostra-se incapaz de romper as barreiras da sua mercantilização, exigindo das organizações trabalhadores ações que se coloquem no sentido de romper essa bolha perversa.

Referências

  1. BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. 2ª Florianópolis: Editora da UFSC, 2011, p. 115.
  2. Alan Woods. Reformismo ou revolução. São Paulo: Editora Marxista, 2009, p. 67.
  3. Álvaro Vieira Pinto. Ciência e existência: problemas de filosofia da pesquisa científica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.
  4. Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 38.
  5. Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 460.
  6. Valdemar Sguissardi; João Reis Silva Jr. Novas faces da educação superior no Brasil: reforma do Estado e mudança na produção. 2ª ed. São Paulo: Cortez; Bragança Paulista: USF, 2001, p. 80.
  7. Antonio Ozaí da Silva. A corrida pelo Lattes. In: Waldir José Rampinelli; Valdir Alvim; Gilmar Rodrigues (Org.). Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Xamã, 2005, p. 89.
  8. Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acadêmica no século XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 93.
 

Michel Goulart da Silva

Historiador pela UDESC. Doutor em História pela UFSC. Servidor público, atuando na reitoria do IFC, em Blumenau.


Fonte:  Outras Palavras

A Uenf está sendo corroída pela precarização e ficando muito aquém das tarefas deixadas por Darcy Ribeiro

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O incêndio que ocorreu no último 17/05 e consumiu a sala que abrigava uma secretaria no prédio do Centro de Ciências do Homem é apenas o sinal de uma profunda precarização que vem sendo imposta à universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.  Nascida sob demanda da população de Campos dos Goytacazes, entretanto, é o principal instrumento de desenvolvimento econômico do interior do estado do Rio de Janeiro, tendo gerado um ciclo de formação de profissionais e dinamizado a economia do município de Campos dos Goytacazes em um patamar muito acima do que os bilhões produzidos pelos royalties do petróleo.

Mas se a Uenf é isso tudo, por que precarizá-la a ponto de inviabilizar sua capacidade criativa e de inovação e reduzi-la a mais uma instituição que não gera potencial de desenvolvimento? Uma explicação muito provável tem a ver com a indiferença dos governos estaduais com as necessidades das regiões Norte e Noroeste Fluminense, e também dos grupos de poderes locais que não querem que mais pessoas estejam capacitadas para articular novas formas de governança que possam abalar os arranjos oligárquicos que guiam a política em nível municipal.

Entretanto, o que vem afogando a Uenf é o uso abusivo do chamado Programa de Recuperação Fiscal que asfixia financeiramente a instituição ao não possibilitar, por exemplo, que salários altamente defasados sejam colocados em um patamar de competividade com o que é praticado em outras instituições universitárias. Como agora sequer se há o acréscimo por tempo de serviço, é quase impossível atrair professores doutores de outras partes do Brasil e, menos ainda, de outros países. Essa foi a fórmula que possibilitou que a Uenf funcionasse em nível de excelência em anos iniciais, a ponto de se tornar uma referência de qualidade para outras universidades brasileiras.

uenf 30 anos

Um problema que vem aprofundando o nível de desgaste do projeto revolucionário elaborado por Darcy Ribeiro é que tem faltado à Uenf a atuação de lideranças capacitadas para manter a respeitabilidade que foi obtida nos seus primeiros anos. As diferentes reitorias que foram se sucedendo desde 1999, quando foi eleito o primeiro reitor, terminaram possibilitando a ascensão de uma visão altamente populista de integração com a sociedade regional,  a qual pode ser sintetizada na ideia de que bastaria abrir os gramados do campus Leonel Brizola para a realização de confraternizações e atividades esportivas para que a Uenf cumpra seus desígnios históricos. Com isso, o máximo que se tem conseguido é difundir a ideia de que a Uenf seria uma espécie de “Ibirapuera dos campistas”, e não o poderoso motor de desenvolvimento científico e tecnológico que Darcy Ribeiro idealizou e colocou para funcionar com os recursos alocados pelo governo de Leonel Brizola.

Disse recentemente em uma assembleia dos professores que é urgentemente necessário que a categoria retome urgentemente a primazia da ação política que possibilitou que a Uenf tenha chegado até onde chegou. Sem a liderança de um grupo altamente capacitado não há como qualquer instituição universitária atingir seus objetivos estratégicos, e a Uenf não é exceção. Caberá aos seus quadros mais capacitados garantir que, entre outras coisas, o governo do Rio de Janeiro decida pagar salários que sejam compatíveis com o papel de liderança que a Uenf deve exercer para catapultar as regiões Norte e Noroeste para um ciclo de desenvolvimento que finalmente as faça superior décadas de atraso econômico e social.

E eu lamento dizer:  ou os docentes assumem o papel de liderança que o modelo institucional lhes exige ou a Uenf nunca chegará a cumprir a trajetória pensada por Darcy Ribeiro. É que não se cumpre desígnios mais desafiadores aceitando projetos de mediocridade e de subalternidade que podem até soar “moderninhos” e “antenados” com as modas do momento, mas que são intrinsecamente desprovidos de substância.  Ou alguém acha que um punhado mal arrumado de conversas ocas sobre o papel de start ups e do uso de inteligência artificial resolverão o abissal atraso econômico e social que envolve o Norte e Noroeste do Rio de Janeiro?

Anffa protocola Ação Coletiva em objeção a contratações temporárias de químicos e farmacêuticos

Foi protocolada na última quarta-feira (01/11) a Ação Coletiva de nº 1106632-47.2023.4.01.3400 em oposição à contratação temporária de químicos e farmacêuticos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)

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Por Juliana Procópio para a ANFFA

Conforme noticiado pelo Anffa Sindical, um ofício alertando para a inconstitucionalidade da Portaria Conjunta MGI/MAPA nº36 que noticiou a contratação de 39 pessoas para “atender necessidade temporária de excepcional interesse público”, de acordo com os termos do próprio documento, foi enviado ao ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, e ao secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart. Na mesma oportunidade, o presidente do Sindicato, Janus Pablo, solicitou o cancelamento do processo seletivo simplificado.

Confrontando as informações da Portaria, Pablo foi categórico ao informar que “inexiste o suscitado acúmulo de processos de registro de produtos de uso veterinário, agrotóxicos e bebidas. Da mesma forma, atribuições relativas aos processos de registro de agrotóxicos e demais produtos são procedimentos intrinsecamente relacionados a atribuições cujo exercício, por lei, é privativo dos servidores titulares do cargo de Auditor Fiscal Federal Agropecuário.” (relembre aqui).

Ainda assim, foi designada na última semana a Comissão de Seleção do Processo Seletivo Simplificado de Contratação de Profissionais Temporários pelo Mapa, e na última quarta-feira, publicado o Edital nº 5, que regulamenta o processo seletivo simplificado, em oposição ao que pleiteava o Anffa Sindical. Dessa forma, a Diretoria de Assuntos Jurídicos (DAJ) do Sindicato, em colaboração com o escritório Torreão Braz elaborou e protocolou a petição inicial da Ação Coletiva por entender que “os Auditores Fiscais Federais Agropecuários estão na iminência de ter as atribuições legais, privativas de seus cargos, usurpadas por profissionais não investidos na respectiva Carreira.”

A equipe jurídica destacou que a já demonstrada inexistência de acúmulo de processos de registros de produtos de uso veterinário, agrotóxicos e bebidas torna os motivos da Portaria nº 36 inidôneos e ilegítimos para justificar a contratação pretendida e acrescentou que as competências de exercício de tais atividades são típicas de Estado, já que constituem manifestação do exercício do Poder de Polícia Administrativa.

Também foi demonstrado que, ainda que existisse o represamento de processos administrativos indicado pela Administração Pública, a contratação de servidores temporários jamais poderia viabilizar a usurpação de atribuições privativas da Carreira de Affa, isso porque tal represamento não seria decorrente do incremento de pedidos, mas sim da ausência de quantitativo de pessoal para fazer frente à demanda do setor agropecuário nacional no âmbito do Mapa, o que invariavelmente exige quadro específico permanente de servidores.

Desse modo, foi solicitada ao juízo da 16ª Vara Cível do Distrito Federal, a anulação da Portaria nº 36 por desvio de finalidade e vício de inconstitucionalidade, já que no primeiro caso a contratação em questão supõe necessidade inexistente para aumentar, sem concurso público, a força de trabalho disponível para o exercício de atividades e demandas cotidianas, em desrespeito aos princípios de finalidade e motivação do art 2º da Lei nº 9.784/1999, e no segundo, o Ato Administrativo desobedece ao art 37, II, da Constituição Federal, que trata das admissões de pessoal na Administração Pública.

Consequentemente, pede também pela suspensão da contratação temporária autorizada pela Portaria 36. O pedido foi solicitado em caráter de urgência, diante do grave prejuízo ao interesse público firmado nas atividades atreladas à defesa agropecuária.

Para Rogério Ferreira, diretor de Assuntos Jurídicos do Sindicato, essa atuação é imperiosa na defesa dos interesses da carreira, uma vez que a concessão de atribuições restritas aos Auditores Fiscais Federais Agropecuário a profissionais temporários constituem burla à realização de concursos públicos, os quais têm sido exaustivamente reivindicados pela categoria.


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Este texto foi originalmente publicado pela ANFFA [Aqui!].

Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários emite nota sobre contratação temporária para acelerar registros de agrotóxicos

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O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa) comunicou em nota oficial no dia de ontem (10/10)  que “recebeu com surpresa” o anúncio feito pelo Governo Federal para a contratação temporária de 39 profissionais (químicos e farmacêuticos), para desenvolver atividades relacionadas aos registros de produtos de uso veterinário, agrotóxicos e bebidas no âmbito da pasta. 

O Sindicato esclareceu ainda que o registro de produtos veterinários está cumprindo todos os prazos regulamentados e os registros de bebidas são realizados de forma automatizada. Além disso,  o Anffa reiterou que para o registro de agrotóxicos – produto formulado – é imprescindível a avaliação de Auditores Fiscais Federais Agropecuários engenheiros agrônomos a fim de garantir a celeridade ao processo. Diante deste cenário, o Anffa apontou que “não há justificativa para as contratações anunciadas na portaria e questiona também o fato de já haver um concurso público em andamento, para os cargos de químicos, farmacêuticos e agrônomos, além de médicos veterinários e zootecnistas – com provas a serem aplicadas em fevereiro de 2024“.
 
A nota do Anffa do informou ainda que sua Assessoria Jurídica está acompanhando os desdobramentos da portaria e que já solicitou ao Conselho de Delegados Sindicais uma agenda, para esta semana, a fim de debater o assunto.

Ah, sim, antes que eu me esqueça. Esta ação de precarização do governo federal tem como objetivo claro ampliar ainda mais o número já enorme de agrotóxicos genéricos registrados e sendo vendidos no Brasil, enquanto estão banidos nos países das empresas fabricantes.

Precarização e desumanização do trabalho docente durante a pandemia, o caso da UENF

pandemia

 Ilustração por César Berje

Por Luciane Soares da Silva*

Neste texto vou adotar um olhar mais distanciado e trabalhar em uma escala que parte do governo federal e chega até a administração das Universidades, em especial a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Este método é possível ao observarmos discursos cotidianos sobre alinhamentos em diferentes esferas do poder quanto as suas formas de atuação. Devemos começar pelo óbvio: a constatação do custo de milhares de vidas pela incompetência do governo federal, pelo negacionismo científico e principalmente, pela perseguição aos cientistas. Seguem tentando interferir na autonomia das Universidades Federais, desqualificam o trabalho de institutos sérios, contingenciam verbas para pesquisas. O caso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nos servirá como exemplo. O constrangimento de Ricardo Galvão, a frente do INPE, é parte das arbitrariedades constantes de um governo sem qualquer plano eficaz para o Brasil no combate ao desmatamento na Amazônia. Mas também sem qualquer eficácia nas ações de combate a pandemia de COVID 19. Se foram desenvolvidos respiradores na Paraíba e em São Paulo, se as Universidades, Fundações e Institutos trabalharam constantemente em pesquisas na tentativa de conhecer e desenvolver formas de combate ao Coronavírus, tudo isto foi feito na contramão das ações do governo federal.

Descendo na escala, chegamos em março de 2021 testemunhando governos estaduais e municipais pressionando professores e comunidade pela volta às aulas presenciais. Sabemos que as crianças podem transmitir o vírus para familiares e mesmo aos educadores com este retorno, mesmo que a escola tente assegurar as condições ideais de imunização, o risco é alto e os resultados já são públicos:

  • “Professora da rede estadual é a primeira vítima da COVID-19 na volta às aulas em São Paulo”
  • “Professores denunciam 209 casos de COVID-19 na volta às aulas. Doria fecha sete escolas”
  • “ Com nove professores do IFAM mortos pela COVID, docentes querem aula só após a vacina”
  • “ Após 12 dias internado, professor morre em decorrência da COVID-19”.
  • “Vocês vão mandar suas crianças de volta para as aulas?”
  • “No Amazonas 64 professores morreram de COVID-19 desde janeiro, diz Sinteam”.

No caso de São Paulo, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), responsabiliza a gestão de Doria e o secretário de Educação pela morte da professora Maria Tereza Miguel de 32 anos. Mesmo com denúncia de salas pouco ventiladas, álcool gel vencido e outras irregularidades, as aulas foram iniciadas. Observação importante: a presença dos alunos não é obrigatória. Mas a obrigatoriedade está posta para os professores.

Chegamos ao terceiro momento deste texto. Nas palavras do ex secretário municipal da educação de São Paulo, Alexandre Schneider, “é preciso haver diálogo entre os governantes e quem está no chão da escola”. Esta recomendação poderia ser útil para a definição dos calendários acadêmicos em cada instituição de ensino superior no país, observando singularidades e recursos. A maioria delas adotou o ensino remoto, com disciplinas e equipamentos. Mesmo existindo um consenso sobre as dificuldades de acesso, avaliação e questões pedagógicas específicas desta modalidade remota, também existem muitas críticas. Dentre elas, as condições de trabalho docente.

Temos visto docentes adoecendo pelo excesso de trabalho, pelas reuniões de planejamento, pelas pressões para seguir produzindo durante a pandemia. No caso da Uenf, vivemos um caso exemplar das formas de precarização e desumanização que atingem a Ciência e Educação no Rio de Janeiro. Depois de um ano experimental, docentes decidiram em seus colegiados, adotar medidas já em vigor nas demais Universidades. Avaliação por nota e frequência. O que poderia ser um tema de exercício de diálogo e fortalecimento dos laços internos, se transformou em uma arena de “cancelamentos” e insultos públicos. O resultado disto é uma exposição lamentável da Universidade nas redes sociais como se a tragédia envolvendo uma pandemia não fosse o suficiente.

Observamos em vários momento que o descumprimento dos ritos internos de autonomia dos colegiados (a não nomeação de reitores é só um exemplo), fere de morte a democracia interna das Universidades. O discurso populista que nega o que todos já sabem, torna-se uma forma perigosa de construção da realidade pois o voto perde qualquer efeito jurídico real. Nós já vimos isto na história. Nós sabemos como inicia. E sem dúvida a tragédia consiste nesta repetição meias verdades ad nauseam em redes sociais. É uma forma de rebaixamento de toda comunidade acadêmica. O placar só tem perdedores. O ideal de uma formação crítica e de excelência fica em um horizonte distante.

Um cotidiano exageradamente atribulado

 Docentes nas redes públicas e privadas de ensino tem vivido infortúnios simultâneos: a busca das condições para o domínio de uma modalidade de ensino para a qual não foram preparados, a perda de colegas e familiares, um cansaço constante que gera quadros de ansiedade e depressão e por fim, a total desumanização de seu ofício. No caso da Uenf, a animosidade exposta nas redes sociais como se estivéssemos em uma “vendeta”, explicita os resultados cognitivos acumulados após as jornadas de junho de 2013 e do golpe de 2016. Temos uma geração (ou uma boa parte dela) tomada pelo imediatismo, fascinada por uma forma de comunicação pelas redes e que abre mão das formas de construção participativa (as Assembleias). O mais grave é pensar neste processo de desumanização do docente como parte das formas de administração em voga nos governos Federais (intervenção e destruição da ciência), Estaduais (cortes de salários e ataque aos docentes, lembremos da Bahia) municipais (pressão pela volta presencial das aulas).

Mas que debate deveríamos fazer?

 Para aqueles que sonhavam com a Petrobras no Norte Fluminense ou mesmo com a carreira docente, o debate deveria ser outro. Defender o servidor público é, em minha avaliação como docente com uma década de trabalho na Uenf, a única saída realmente vitoriosa neste momento. Vejam aí os efeitos da propaganda em uma era pós verdade. O que realmente deveria importar é exatamente o que está sob ataque daqueles que são o foco da política pública de educação.

Estas formas de ataque, de insulto, feitas aos docentes seguem a lógica em vigência na era Bolsonaro. A da declaração de Paulo Guedes “o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”. Fomos chamados de algo parecido recentemente. Mas o que esperam nossos alunos em um futuro próximo?

Aprofundando esta análise, e concluindo, é o próprio ideal de Ciência que sai ferido de morte quando seus instrumentos são destruídos. Nós, no ensino Fundamental, Médio e Superior vivemos a sala de aula. Trabalhamos utilizando nossos recursos, recebemos alunos que precisam de cestas básicas, acesso a tratamentos diversos, atenção e acolhimento. Em que momento fomos demonizados e em que bases este processo de demonização se sustenta?

Em meio a tantas mortes diárias, projetos contínuos de privatização (como o da Eletrobras), volta do país ao mapa da fome, violência contínua contra as mulheres, desmatamento da Amazônia e morte de indígenas, as instituições de ensino poderiam ter como vitória a construção do Brasil que queremos. No caso da Uenf, fundada por Darcy Ribeiro, não é uma opção, é uma obrigação. Do contrário, o que vemos são apenas pequenas vitórias na derrota. Nós professores, já vimos tempos piores e melhores. E por isto, a despeito das tentativas de destruição da nossa categoria, seguimos fortes. E lutaremos pela manutenção de vidas, aguardando a derrota do projeto destes governos em todas as suas escalas. Todas.

Dedico este texto ao professor de Geografia Celso Roth, 40 anos, vítima da COVID-19, professor da Escola Municipal Camilo Alves, Esteio, Rio Grande do Sul. Assim como ele, professores que não possuíam comorbidades, pressionados ao retorno para sala de aula, vieram à óbito nestas semanas.

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Greve dos entregadores de aplicativos expõe a ultra precarização do trabalho no Brasil

greve

 

Este 1 de julho está sendo o palco da primeira greve nacional dos trabalhadores precarizados que atuam no Brasil, com a ocorrência de atos em diferentes parte do Brasil (ver vídeo abaixo diante da Assembleia Legislativa de Minas Gerais em Belo Horizonte).

Há que se notar que este movimento, que ocorre por fora das estruturas sindicais que ainda não se ajustaram ao modelo de ultra precarização associado à disseminação de aplicativos que escondem corporações multinacionais que extraem o máximo que podem do valor do trabalho dos seus supostos “colaboradores”. 

Esse é um descompasso que terá de ser superado para que a energia que está sendo mostrada no dia de hoje seja potencializada, de forma a obrigar que a jurisprudência vigente, a qual não reconhece estes trabalhadores enquanto tal, seja modificada, de forma a responsabilizar as corporações que operam remotamente essa nova forma de superexploração do trabalho, obrigando-as a melhorar os salários pagos e a garantir o oferecimento de direitos trabalhistas que hoje são negados.

Aproveitando o ensejo, sugiro a leitura do livro organizado pelo professor Ricardo Antunes intitulado “Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV“, um dos muitos que esse profícuo intelectual já produziu ou ajudou a produzir sobre a escalada da precarização do trabalho em tempos de plataformas digitais.

riqueza e miséria do trabalho no brasil iv

Enquanto isso, ao longo do dia de hoje, que se boicote o uso de estabelecimentos que estão rendidos à superexploração propiciada pelo uso de aplicativos. 

Capitalismo precário dá as condições ideais para o coronavírus aumentar sua letalidade

covid precariado

Muita tinta tem se gasto para imprimir artigos científicos e livros sobre os impactos da financeirização do Capitalismo neste início de Século XXI.  Uma quantidade menor de publicações trata da questão da precarização das relações de trabalho, e me lembro imediatamente do excelente “O privilégio da servidão” do sociólogo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes.

Para mim, a eclosão da COVID-19 oferece uma chance espetacular de revisitarmos a situação do Capitalismo e dos efeitos da precarização das relações de trabalho na piora significativa das condições de vida da maioria da Humanidade que vive de vender sua força de trabalho.  É que a precarização da maioria tem servido apenas para um enriquecimento exponencial de uma fração específica dos capitalistas, que são os donos de bancos e daqueles que vivem de apostar nos múltiplos cassinos do rentismo globalizado.

Se olharmos de perto a forma pela qual a COVID-19 está a devastar sem dar um tiro sequer a maior potência militar que a Terra já conheceu, não poderíamos entender como os EUA estão desabando com um castelo de cartas, se não olhássemos de perto a extrema precarização das condições de vida da classe trabalhadora estadunidense, que em menos de 30 dias de crise já assistiu a uma perda de pelo menos 16 milhões de postos de trabalho, a maioria deles precarizados.  Por cima disso, o que se vê são filas quilométricas de carros que são conduzidos por desempregados, e que estão se dirigindo para pontos de distribuição de alimentos.  Essas filas são o maior testemunho do desabamento do capitalismo precarizado “Made in USA”.

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Mais de dois milhões de pessoas na Califórnia pediram subsídios de desemprego desde meados de março, quando o coronavírus começou a se espalhar rapidamente pelos EUA. 

Mas e o Brasil nessa situação toda? Como já abordei em outras postagens, vivemos, como bem demonstra Ricardo Antunes na obra acima citada, um reinado absoluto da precarização. A opção por precarizar é tal ordem que desde o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 2016 está em curso uma operação desmanche da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) cujos únicos resultados palpáveis têm sido a perda de massa salarial e o aumento no número de desempregados.

Essa sanha precarizadora não foi detida sequer pela COVID-19, pois em plena madrugada, a Câmara de Deputados aprovou a MP 905 com a qual o governo Bolsonaro pretende implantar a chamada “Carteira Verde e Amarela“,  que na verdade é uma mini contrarreforma trabalhista que se concentra em diminuir direitos trabalhistas e aumentar o poder dos patrões sobre a classe trabalhadora.

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No meio da pandemia, governo Bolsonaro opera para precarizar ainda mais os direitos dos trabalhadores brasileiros

A precarização das relações de trabalho, entretanto, é apenas uma das faces do estabelecimento de uma versão precarizado do capitalismo dependente brasileiro.  É que nessa nova faceta do capitalismo no Brasil, a classe capitalista está operando para precarizar não apenas os serviços públicos para transformá-los em mercadoria, como também se volta para reprimarizar completamente a economia brasileira. A combinação dessas precarizações é que resulta na opção de deixar muitos morrerem por causa da COVID-19, em vez de realizar todas as ações possíveis para minimizar o número de óbitos.

É por causa desse somatório de precarizações que, muito provavelmente, teremos os EUA e o Brasil como os líderes mundiais de casos de infecção e mortes causados pelo coronavírus. A única forma disso não acontecer será multiplicar as ações de base que já estão acontecendo nesses dois países, onde movimentos sociais e ativistas independentes estão organizando a resistência ao coronavírus dentro dos maiores bolsões de precarizados, que são as periferias urbanas.  Essas experiências podem não apenas reduzir a letalidade do coronavírus, mas também pavimentar o caminho para que haja uma resistência efetiva ao processo de precarização da vida que as elites econômicas adotaram para acumular a maior parte riqueza gerada pelos trabalhadores.