Pesquisa internacional aponta pane em ciclo hídrico global

Desde o início do século 20, o padrão de chuva no mundo está cada vez mais imprevisível, com aumento de secas ou tempestades extremas. Aumento na variabilidade da precipitação coloca em risco os ecossistemas e a existência humana 

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Precipitação de Cumulonimbus arcus sobre Zhuhai, China – (crédito: GAO Si)

Por Isabella Almeida para o “Correio Braziliense” 

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Academia Chinesa de Ciências (Ucas) e do Met Office, no Reino Unido, revelou que a variabilidade diária da precipitação global cresceu 1,2% por década desde 1900. As análises mostraram que, atualmente, mais de 75% das áreas terrestres sofreram com esse aumento. Os impactos foram mais acentuados na Europa, Austrália e leste da América do Norte.

A variabilidade da precipitação se refere à irregularidade temporal e na quantidade de chuva. Isso resulta em períodos de seca mais prolongados e intensos e tempestades torrenciais mais frequentes.

Zhang Wenxia, autor principal do estudo, detalhou que a atmosfera mais quente e úmida devido às emissões de gases de efeito estufa está provocando eventos de chuva mais fortes e flutuações mais drásticas entre períodos secos e úmidos. Isso torna a previsão e a gestão das águas pluviais cada vez mais complexas e desafiadoras.

Desmatamento

Marcelo Seluchi, especialista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sublinha que a mudança do uso do solo é um problema. “Desmatar para produzir modifica o solo e o balanço da umidade. Se troca floresta por pastagem, diminui a evaporação do solo, que é muito importante para provocar chuva, especialmente em países muito grandes, como o Brasil. Se é uma área costeira, o oceano tem grande influência, mas, por exemplo, a região Centro-Oeste está muito longe da água, então essas áreas dependem bastante da umidade evaporada pelas florestas.”

Além da variabilidade da precipitação, a segurança hídrica global enfrenta novos desafios. Uma pesquisa da Universidade de Estocolmo, publicada na Nature Water, destacou a importância de considerar a origem da umidade que gera a chuva ao avaliar o risco de escassez de água.

Tradicionalmente, a segurança hídrica tem sido avaliada com base na quantidade de água armazenada em aquíferos, lagos e rios. No entanto, o novo estudo revela que os riscos são significativamente maiores ao considerar a umidade a favor do vento — aquela evaporada de outras áreas, que contribui para a precipitação.

Demanda

Os cientistas estudaram 379 grandes áreas hídricas ao redor do mundo e descobriram que a demanda por água, que chega a 32,9 mil quilômetros cúbicos por ano, está ainda mais ameaçada do que se pensava. O risco de o recurso faltar é de quase 50% maior do que o calculado usando métodos tradicionais que só consideram a área acima das bacias.

A pesquisa também destaca a influência da governança e das mudanças no uso da terra nas áreas a favor do vento. Se o desmatamento e o desenvolvimento agrícola forem predominantes em regiões onde a umidade evapora, a quantidade de precipitação pode diminuir, aumentando os riscos à segurança hídrica.

Conforme José Marín, doutor pela Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, os impactos das mudanças no uso da terra na disponibilidade de água em áreas a jusante dependem das transições de uso da terra e mudanças na evaporação. “Por exemplo, a substituição de florestas por pastagens reduz tanto a evaporação quanto a disponibilidade de água em áreas desmatadas e a favor do vento, respectivamente. Por outro lado, a conversão de terra seca em terras de cultivo irrigadas aumenta a evaporação e a disponibilidade de água”, afirmou, ao Correio.

Integração

O artigo reforça ainda a interdependência entre países e a importância de uma gestão integrada dos recursos. Como exemplo, existe a bacia do Rio Congo, na África, que enfrenta riscos consideráveis devido à falta de regulamentação ambiental e desmatamento em países vizinhos.

Além disso, as secas prolongadas são consideradas um grande desafio. Ao contrário de desastres naturais repentinos, como terremotos ou furacões, elas se desenvolvem lentamente, o que as torna mais difíceis de gerenciar.

A conscientização global sobre o problema tem aumentado, em parte devido ao acesso à informação pela internet. No entanto, conforme aponta um estudo recente, divulgado na revista Clean Water, há uma grande disparidade na capacidade de resposta entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Nações com alta renda per capita têm mais recursos para gerenciar os impactos da seca, enquanto aqueles com menos infraestrutura enfrentam maiores dificuldades.

Ao Correio, Jonghun Kam, coautor do estudo e cientista da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pohang, na Coreia do Sul, ressaltou que muitas nações não estão prontas para uma seca severa. “Esses países precisam de ajudas e doações internacionais. As descobertas do nosso estudo sobre análise multidimensional da conscientização global sobre a seca dão ideias sobre como construir um roteiro eficiente e eficaz para ajudas e doações internacionais para os países que têm lutado contra secas.”

Três perguntas para…

Juliano Bueno
Juliano Bueno de Araujo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, acredita que a população não compreende a crise hídrica iminente(foto: Arquivo cedido)

Estudos mostram que os padrões pluviométricos estão se alterando no mundo todo. Qual a situação do Brasil nesse cenário?

Diversos estudos têm demonstrado que o aumento da temperatura média do planeta causa uma intensificação do ciclo hidrológico, o que poderá ocasionar mudanças nos regimes das chuvas, como o aumento da ocorrência de eventos hidrológicos extremos, alterando fortemente a disponibilidade hídrica de uma região e a qualidade de vida da população. A análise da tendência de séries históricas de precipitação pluviométrica é uma das maneiras de se inferir a ocorrência de mudança climática brasileira. Já estamos convivendo com extremos climáticos. Houve três enchentes no Rio Grande do Sul em 18 meses, vemos agora regiões com mais de 100 dias sem chuvas, com queimadas, fumaça tóxica e devastação de territórios que equivalem ao tamanho de Portugal incinerado em semanas.

É possível reverter a situação atual?

É possível e necessário, para mantermos nossa existência da forma que conhecemos hoje. A restauração ecológica inclui mecanismos como a recuperação acelerada de áreas e biomas degradados e a transição energética, que reduzirá pela metade as emissões de gases de efeito estufa. Temos como exemplo Brasília, que está há mais de 130 dias sem chuvas e teve episódios de 7% de umidade do ar, pior que o deserto do Saara. Essa conjuntura mostra que temos que agir, e isso não deve ser protelado, pois pontos de não retorno de biomas e regiões podem nos colocar em circunstâncias ainda piores. Portanto, devemos associar novas políticas públicas e ações do setor privado e da sociedade para agir em prol de um objetivo principal: manter nossa existência e a dos biomas.

A população compreende a crise hídrica iminente?

Infelizmente, acredito que não. Sou conselheiro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) e cientista em riscos e emergências ambientais. O que assisto é um conjunto de desinformações e pessoas acreditarem que estamos com a mesma abundância de água que o Brasil tinha 30 anos atrás. Nesse curto período, eliminamos 7,5% de todos nossos recursos hídricos — isso é o equivalente ao que a França tem de água. As projeções não são boas, o que significará o encarecimento da água, de alimentos e de todas as atividades que demandam esse elemento central na vida humana.


Fonte: Correio Braziliense

Estudo mostra que atividades humanas influenciam chuvas na Terra

O aquecimento antropogênico do clima tem sido um fator em eventos extremos de precipitação em todo o mundo, dizem os pesquisadores

climate rainfall

Um carro em uma parte inundada da I-94 em Detroit, Michigan, vários dias depois que fortes chuvas inundaram partes da cidade. Fotografia: Matthew Hatcher / Sopa Images / Rex / Shutterstock

Por C h uma r l o t t e B u r t o n para o “The Guardian”

A atividade humana, como as emissões de gases de efeito estufa e as mudanças no uso da terra, foram um fator-chave em eventos extremos de precipitação, como inundações e deslizamentos de terra em todo o mundo, concluiu um estudo.

Nos últimos anos, ocorreram numerosos casos de inundações e deslizamentos de terra: a precipitação extrema, uma quantidade de chuva ou neve que excede o normal para uma determinada região, pode ser a causa de tais eventos.

Variações naturais no clima, como El Niño – Oscilação Sul (Enso), afetam a precipitação. Mas estudos de pesquisa de atribuição, como o último estudo de modelagem, publicado na terça-feira na Nature Communications , trabalham para entender melhor se as ações humanas que impactam o clima, como emissões de gases de efeito estufa e mudanças no uso da terra, contribuem para a probabilidade e gravidade de eventos extremos .

No estudo, os pesquisadores da UCLA analisaram os registros climáticos globais para examinar se a influência antropogênica – mudanças induzidas pelo homem no clima – afetou a precipitação extrema. Ao examinar vários conjuntos de dados de precipitação observada, os pesquisadores foram capazes de construir uma imagem global e encontraram evidências da atividade humana afetando a precipitação extrema em todos eles.

“É vital identificar as mudanças [nos padrões de precipitação] causadas pela ação humana, em comparação com as mudanças causadas pela variabilidade natural do clima”, explicou o pesquisador principal Gavin Madakumbura. “Isso nos permite gerenciar os recursos hídricos e planejar medidas de adaptação às mudanças impulsionadas pelas mudanças climáticas.”

Até agora, o trabalho neste campo tem sido restrito a países, ao invés de aplicado globalmente. Mas a equipe de pesquisa utilizou o aprendizado de máquina para criar um conjunto de dados global.

A mudança climática induzida pelo homem está causando o aumento da temperatura da Terra. Diferentes mecanismos vinculam temperaturas mais altas a precipitações extremas. “O mecanismo dominante [que leva à precipitação extrema] para a maioria das regiões do mundo é que o ar mais quente pode reter mais vapor de água”, disse Madakumbura. “Isso alimenta tempestades.”

Embora existam diferenças regionais e alguns lugares estejam ficando mais secos, os dados do Met Office mostram que, em geral, as chuvas intensas estão aumentando globalmente, o que significa que os dias mais chuvosos do ano estão ficando mais úmidos. Mudanças nos extremos das chuvas – o número de dias com muita chuva – também são um problema. Esses períodos curtos e intensos de chuva podem levar a inundações repentinas, com impactos devastadores na infraestrutura e no meio ambiente.

“Já estamos observando um aquecimento de 1,2ºC em comparação aos níveis pré-industriais”, apontou o Dr. Sihan Li, pesquisador sênior associado da Universidade de Oxford, que não esteve envolvido no estudo. Ela disse: “Se o aquecimento continuar a aumentar, teremos episódios mais intensos de precipitação extrema, mas também eventos de seca extrema.”

Li disse que, embora o método de aprendizado de máquina usado no estudo seja de ponta, ele atualmente não permite a atribuição de fatores individuais que podem influenciar extremos de precipitação, como aerossóis antropogênicos, mudanças no uso da terra ou erupções vulcânicas.

O método de aprendizado de máquina usado no estudo aprendeu apenas com os dados. Madakumbura destacou que, no futuro, “podemos auxiliar nesse aprendizado impondo física do clima no algoritmo, para que ele não apenas saiba se a precipitação extrema mudou, mas também os mecanismos, por que mudou”. “Esse é o próximo passo”, disse ele.

fecho

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].