Dragagem do Porto do Açu: audiência pública com direito a pegadinha

Como programado ocorreu em São João da Barra a audiência pública referente ao processo de licenciamento da dragagem do Porto do Açu. A referida audiência é um dos pré-requisitos para o fornecimento das licenças ambientais para que o processo possa ocorrer.  Além da presença ostensiva de funcionários da Prumo Logística, a audiência também contou com uma presença razoável de populares, principalmente os vindo do V Distrito, onde o Porto do Açu já vem causando uma série de transformações sociais e ambientais, a maioria delas negativas para os moradores.

A verdade é que essas audiências são um mecanismo precário de observação dos interesses sociais, pois a imensa maioria dos presentes não teve acesso prévio ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que, no caso da dragagem do Porto do Açu possui 2.221 páginas, ou ao Relatório do Estudo de Impacto Ambiental (Rima) e que normalmente são escritos numa linguagem estritamente técnica e de difícil compreensão para os poucos leigos que conseguem ter acesso ao documento.

Além disso, a maioria das audiências públicas segue um script bastante rígido onde o controle dos trabalhos, ainda que formalmente nas mãos do órgão licenciador (no caso o INEA), acaba ficando com a empresa de consultoria contratada para produzir o EIA/Rima. E segundo fui informado por pessoas que estiveram presentes na audiência de ontem, o script foi cumprido à risca.

Isso ficou ainda mais explícito quando o professor João Thadeu de Menezes da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) foi chamado para responder a cerca de 15 perguntas que haviam sido feitos sobre o processo de erosão que está ocorrendo na Praia do Açu.  Surpreendentemente, já que a erosão não era o objeto da audiência, o Prof. Menezes pode fazer uma apresentação em Powerpoint onde seu conhecimento científico foi utilizado para isentar o Porto do Açu do processo de erosão que está destruindo em incrível velocidade a Praia do Açu. 

Esse espaço para que a erosão em curso na Praia do Açu fosse justificada em meio a uma audiência pública para licenciar o processo de dragagem é uma verdadeira “pegadinha”, visto que não apenas não atendia o objetivo da audiência, mas também porque os populares que estavam ali para ter respostas sobre o processo de erosão não puderem se manifestar, já que não estavam inscritos para falar especificamente sobre os aspectos trazidos pelo Prof. João Thadeu de Menezes. Perfeito, não? Eu  (a Prumo Logística) não apenas garanto as licenças para a dragagem, mas como também me isento das responsabilidades sobre o avanço da língua erosiva, já que o “meu especialista” garante que sempre houve erosão na Praia do Açu!

A minha maior preocupação a partir desta pegadinha em audiência pública se refere ao fato de que, com a dragagem poderá ter mais erosão, mas tudo ficará nas costas da “natureza” e dos próprios moradores que decidiram construir uma localidade em uma área “naturalmente” afetada pela erosão.

Mas a presença de um profissional da Univali  (localizada no município catarinense de Itajaí) na audiência de ontem em São João da Barra  me trouxe à lembrança dois fatos curiosos acerca dessa instituição de ensino privado, e que a ligam aos empreendimentos do ex-bilionário Eike Batista.  

O primeiro fato é que profissionais ligados à Univali também tiveram participação na tentativa que o Grupo EBX de obter as licenças ambientais para a construção do Porto de Biguaçu, município próximo de Florianópolis. E claro onde a Univali possui dois campi universitários. 

Para quem não se lembra, quando a construção do Porto de Biguaçu foi impedida pela oposição popular, foi que Eike Batista decidiu construir o seu megaporto em São João da Barra.  E adivinhem onde Eike foi contratar pesquisadores para fazer um estudo sócio-econômico com as famílias de agricultores do V Distrito? Quem pensou, Univali, acertou!

Finalmente, uma ausência sentida na audiência foi a do Prof. Paulo César Rosman da COPPETEC/UFRJ, expert que gerou os modelos utilizados para fazer os prognósticos sobre os eventuais efeitos da dragagem que certamente será aprovada pelo Inea. A ver!

Dragagens e suas consequências: a experiência do Porto de Santos

A realização da audiência pública em São João da Barra na próxima 4a. feira (27/01) teve até agora pouca ou nenhuma divulgação na mídia corporativa, e poucos além dos leitores assíduos deste blog sabem que a mesma ocorrerá.

A minha leitura rápida do Relatório de Impacto Ambiental preparado a pedido da Prumo Logística Global indica que para a equipe técnica que fez a construção de cenários futuros pós-dragagem do Terminal 1 do Porto do Açu não é de se esperar mudanças significativas sobre a Praia do Açu, ponto que hoje já é consumido por um processo de erosão.

A aceitação acrítica dos cenários preparados pela “Masterplan Consultoria de Projetos e Meio Ambiente” é preocupante porque, além de negar a ocorrência de mudanças drásticas associadas ao processo de dragagem, os mesmos isentam o Porto do Açu como fator causal da erosão que já está em curso na Praia do Açu.

É que não me parece ser lógico que a alteração da geomorfologia costeira que será causada por essa dragagem não tenha impactos fortes sobre a direção e velocidade das correntes que atuam no litoral próximo aos terminais do Porto do Açu. 

Não bastasse a minha desconfiança, coloco abaixo matérias que discorrem sobre as consequências e as disputas resultantes do processo de dragagem do Porto de Santos que acelerou o processo de erosão nas praias da principal cidade da Baixada Santista. Como frequentei aquelas praias durante a minha juventude, posso afirmar que, pelo fato de ser um ambiente bem mais circunscrito do que o existente no litoral sanjoanense, o exemplo dessa erosão deveria servir como um sério alerta para as autoridades municipais e estaduais. 

A par das disputas na justiça entre o Ministério Público Federal (MPF) e os empreendedores, é importante levar em conta o que disse em entrevista ao jornal “A TRIBUNA” que circula principalmente na cidade Santos, o pesquisador da Universidade Federal Fluminense , André Belém, sobre as versões para as causas da erosão que estava consumindo a faixa das praias santistas:

“Quando algum cientista estudar o caso sem ter tido nenhum relacionamento comercial com a dragagem, ai sim, poderemos talvez acreditar em alguma tese”.

A minha reação a esta frase do Prof. André Belém, é a seguinte: e não é?

Mas voltando à proposta da dragagem do Porto do Açu, eu digo às autoridades e habitantes de São João da Barra: olhem o que aconteceu em Santos para depois não acreditarem que tudo é culpa da natureza!

Novo licenciamento do Porto do Açu: meu nome é dragagem, mas pode me chamar de negação da erosão

Graças a um atento leitor deste blog pude acessar e baixar no site do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) o Relatório de impacto Ambiental (Rima) preparado pela empresa  de consultoria Masterplan contratada pela Prumo Logística para viabilizar o processo de licenciamento ambiental da dragagem do Terminal 1 do Porto do Açu.

drag 1

O documento que servirá de base para as discussões (discussões?) que deverão ocorrer na audiência pública que deverá ocorrer em São João da Barra é um respeitoso calhamaço de 2.221 páginas, sendo 1.218 delas compostas por anexos ao documento principal.

A primeira informação que me chamou a atenção se refere ao total de material a ser dragado. Em qualquer dos três cenários apresentados, o volume de material que será removido do assoalho oceânico é, digamos, gigantesco como mostra a imagem abaixo, pois vai da ordem de 35 milhões a 39 milhões de metros cúbicos de material dragado.

drag 2

A coisa para mim começou a ficar mais interessante ao encontrar os dois mapas de influência (direta e indireta) desta mega dragagem. Vejamos primeiro o mapa da influência direta e depois o da influência indireta.

Em ambos os mapas, fica demonstrado que a Praia do Açu, atualmente atingida por um forte processo de erosão será afetada pela dragagem que está sendo proposta para aprofundar o canal de navegação e a área de acesso ao Terminal 1 do Porto do Açu. As razões para isso são várias, mas eu eu diria que, como o próprio RIMA mostra, uma alteração duradoura será a alteração da dinâmica de circulação de sedimentos naquela porção do litoral sanjoanense. É que como o volume de material removido será jogado em alto mar, o provável é que haja um aumento da velocidade das correntes (principal e deriva).

Mas, curioso que sou, fui procurar se havia no RIMA alguma menção ao processo de erosão já em curso na Praia do Açu, e não deu outra,  havia menções explícitas ao problema que muitos, a começar pelo o RIMA preparado pela OS(X) para licenciar o canal que agora deverá ter sua dragagem licenciada,  associam à construção dos dois terminais do Porto do Açu.

A primeira menção significativa que eu encontrei no RIMA acerca da erosão em curso na Praia do Açu aparece na imagem abaixo, onde está  dito explicitamente que a erosão em trechos da Praia do Açu seria resultado da “ocupação antrópica” que “interferiu na dinâmica natural da linha de costa”.drag 4 erosão

Antes que alguém se anime a pensar que, finalmente, a Prumo Logística se animou a finalmente reconhecer sua parcela de participação no processo de erosão que está consumindo a Praia do Açu, eu aviso logo que este não é o caso. É que na mesma parte do RIMA em que a imagem se encontra, encontrei uma descrição acerca do problema da erosão que, para todos os fins, reafirma o que está num relatório bastante discutível que foi preparado pelo engenheiro e professor da COPPETEC/UFRJ Paulo César Rosman a pedido da própria Prumo Logística, e que foi transformado num tratado científico para sancionar a falta de responsabilidade da empresa no problema da erosão.

Uma possível razão para explicar tamanho alinhamento entre o documento apresentado pelo próprio Prof. Rosman na audiência pública realizada na Câmara Municipal de São João da Barra  no já distante dia de 01 de outubro de 2014 (Aqui!), e o que é dito no RIMA da dragagem pode ser encontrado na apresentação da equipe responsável por sua confecção.  É que olhando o grupo técnico que preparou o RIMA da dragagem do Porto do Açu, verifiquei que o Prof. Rosman é identificado como o membro responsável pela avaliação da modelagem da hidrodinâmica (ver imagem abaixo). Em outras palavras,  o Prof. Rosman está confirmando no RIMA, o que ele mesmo disse no relatório com o qual a Prumo Logística vem se isentando de quaisquer responsabilidades sobre o problema da erosão na Praia do Açu!

drag 7 rosman

Ainda em relação ao Prof. Rosman, verifiquei que o seu Curriculum Vitae ocupa 70 páginas do RIMA destinado a apresentar a capacitação da equipe que preparou o documento (que no seu conjunto ocupa 15o páginas), o que efetivamente demonstra a importância do renomado pesquisador para a validação da competência de todo o grupo.

Agora, duas coisas que achei peculiar sobre o RIMA e a empresa que o confeccionou. A primeira coisa é que apesar de informar que haverá uma seção para apresentar as referências bibliográficas usadas na preparação do documento, não encontrei a referida seção no documento postado no site do Inea. Essa ausência me impediu, por exemplo, de verificar quem é o autor identificado no corpo do texto como “Menezes (2014)” e qual é o título do trabalho que este autor ou autora produziu, e que corroboraria o relatório apresentado na audiência pública realizada na Câmara de São João da Barra.

Já a segunda coisa que considero peculiar é o fato de que no site oficial da  empresa de consultoria Masterplan, na janela relativa a “alguns clientes” (Aqui!) quem aparece listado não é a Prumo Logística Global, mas sim o Inea e a Secretaria Estadual do Ambiente (Sema) (ver imagem abaixo!).

masterplan

Uma alma mais ingênua poderia me perguntar se o fato do Inea e da Sema serem ao mesmo tempo os licenciadores da dragagem do Porto do Açu e clientes da empresa que preparou o RIMA que será usado para obter as licenças não cria um conflito de interesses. A minha resposta a esse pergunta hipotética seria a seguinte: não é que parece?

Para quem também quiser acessar e baixar o RIMA que será discutido na audiência do 27.01, basta clicar  (Aqui!).

Finalmente, eu diria para que os moradores da Barra do Açu deveriam se organizar para participarem dessa audiência para cobrar explicações claras e diretas para os riscos visualizados para a estabilidade da linha de praia nas áreas de influência desta dragagem. É que, como mostrado nos mapas, a Praia do Açu estará sob efeitos direto e indireto. E é ai que mora o perigo! 

Porto do Açu: vem por aí mais um capítulo do licenciamento “Fast Food”

Um leitor/colaborador deste blog me enviou a imagem abaixo que mostra uma faixa colocada na Barra do Açu para anunciar uma audiência pública para o dia 27.01.2016 para que seja analisado, assumo eu, os estudos de impacto ambiental relativos à dragagem do  Porto do Açu.

audiencia

A data dessa audiência é pouco propícia para que eventuais interessados possam comparecer. Aliás, a experiência pregressa da população sanjoanense com essas audiências não anima ninguém a comparecer.  Digo isso a partir dos depoimentos coletados por uma das minhas orientandas que está estudando o processo inicial de emissão de licenças ambientais do Porto do Açu.

Aliás, eu sempre acho estranho que seja o empreendedor quem convoque publicamente as audiências Públicas (no caso da faixa mostrada acima o logo da Prumo Logística pode ser visto no lado esquerdo superior).  Mas essa parece ser uma prática que visa justamente desencorajar a participação da população, especialmente quando o empreendedor é visto com fortes reservas como, aliás, é o caso da Prumo.

O interessante é que buscando nos sites do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e da Prumo Logística não encontrei qualquer informação acerca da realização dessa audiência, bem como do seu objeto específico.  

Mas vá lá, alguém ainda se surpreende com essa forma pouquíssimo transparente com que o licenciamento “Fast Food” vem sendo realizado no Rio de Janeiro? Eu não!

Praia do Açu: obra improvisada vira piada entre moradores da Barra do Açu

Após passarem 2015 esperando em vão por algum tipo de plano de recuperação da Praia do Açu que está sendo consumida pelo avanço de um processo de erosão que havia sido previsto no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela OS(X) para obter as licenças ambientais necessárias para a construção da sua unidade de construção Naval no porto implantado pelo ex-bilionário Eike Batista, os moradores da localidade da Barra do Açu foram surpreendidos com mais uma improvisação: a colocação de um aterro para permitir a circulação de pessoas e veículos *ver imagens abaixo).

açu 1 açu 2

 

 

 

 

A “obra” que teria sido realizada pela Prefeitura de São João da Barra já está sendo chamada de “boi com abóbora do Neco”.  A menção ao prefeito sanjoanense José Amaro Martins de Souza, conhecido popularmente como Neco, se deve ao fato de desde que o problema foi detectado ele já teria feito inúmeras promessas públicas de que iria resolver o problema, sendo que a última delas ocorreu na própria Praia do Açu durante os festejos da Semana da Pátria como aparece no vídeo abaixo.

Agora que nada aconteceu de prático para resolver o problema, a colocação desse aterro acabou representando um tiro pela culatra do prefeito José Amaro, o Neco.

Finalmente, a população da Barra do Açu espera que em 2016 tanto a Prefeitura de São João da Barra quanto a Prumo Logística saiam da fase da negação e das improvisações para apresentar soluções duradouras para a situação que hoje deixa sem sono a maioria das famílias que vivem nas imediações da Praia do Açu.

Alerj aprova marco regulatório para segurança de barragens, e Bruno Dauaire o apresenta à Prumo Logística. Qual será o porquê dessa deferência?

Barragens marco regulatorio,

A notícia acima foi reproduzida pelo jornal Folha da Manhã e trata do tempestivo projeto de lei de autoria dos deputados Jorge Picciani (PMDB) e Bruno Dauaire (PR) que trata da criação de uma” política estadual de segurança de barragens no Estado do Rio, com a regulamentação do sistema estadual de informações.” Após o incidente da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) em Mariana, e ainda tendo na memória os casos da Paraibuna Metais, da Cataguazes Papel, da Rio Pomba Cataguazes e da Servatis que em diferentes momentos causaram terríveis incidentes no Rio Paraíba do Sul, esta iniciativa é bem vinda. 

O fato é que também no Rio de Janeiro devem existir inúmeras barragens que deveriam estar sendo acompanhadas com lupa de alta precisão devido à alta dependência que todo o Rio de Janeiro possui do Rio Paraíba do Sul para captação e abastecimento de água.  E até hoje aparentemente não o são, tanto que agora temos essa iniciativa.

Eu só não entendi uma coisa nessa matéria. É que aparece a informação de que o jovem deputado Bruno Dauaire já teria apresentado o projeto do marco regulatório das barragens  à Prumo Logística, empresa responsável pelo Porto do Açu. A dúvida que me aparece é a seguinte: antes de apresentar o projeto à Prumo Logística, o deputado Dauaire apresentou o seu projeto ao  Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul (CEIVAP), ao Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana, às universidades estaduais e a outros segmentos da sociedade civil?

Se não, qual a razão da primazia dada  logo à Prumo Logística cujo compromisso com a proteção ambiental é, no mínimo, questionável? Afinal, tanto no caso da salinização de águas e terras como da erosão costeira que hoje dificultam a vida dos habitantes do V Distrito de São João da Barra, a Prumo Logística continua devendo.

E uma última dúvida, será que o (des) governador Luiz Fernando Pezão vai sancionar ou vai vetar esta lei? A ver!

Minas-Rio, nas duas pontas do mineroduto quem sofre e perde são os pobres

A matéria abaixo é do jornal O TEMPO  e é assinada pela jornalista Juliana Baeta e trata de de algo que foi praticado ao cansaço no V Distrito de São João da Barra: a remoção de pessoas pobres de terras que ocupavam por sua vida inteira para entregá-las, neste caso, à Anglo American. O exame do conteúdo da matéria mostra ainda a existência de negócios mal explicados e à ação da justiça para beneficiar a empresa bilionária  e não a camponesa idosa.

Agora uma coisa que a matéria aponta e que deverá acender mais luzes vermelhas entre os donos do Porto do Açu, qual seja a notícia de a Anglo American agora reconhece publicamente que o sistema Minas-Rio não é sua prioridade.  Em outras palavras, que a Anglo American pode se livrar do abacaxi representado pelas minas de Conceição de Mato Dentro a qualquer momento.

A pergunta que fica para as duas pontas do mineroduto da Anglo American é a seguinte: por que então expulsar camponeses pobres de suas terras e colocá-los ao final da sua vida em condição de completa humilhação e desrespeito? A resposta pode ser muito simples… “AS TERRAS”!

 

Anglo American despeja idosa para não ‘atrapalhar’ expansão de mina

Ação envolveu 20 PMs para retirar a mulher de 85 anos de casa e aconteceu um dia depois de a mineradora afirmar que o Minas-Rio não é sua prioridade

expropriação

Natalina Pelo menos 20 policiais militares realizaram a ação de reintegração de posse na propriedade de Natalina nesta quarta-feira Natalina Natalina, de 85 anos, que nasceu e morou em Conceição do Mato Dentro durante toda a sua vida, foi retirada de sua casa pela PM nesta quarta-feira Natalina Antes do despejo, Natalina recebe apoio de outros moradores da região e dos advogados populares

JULIANA BAETA

Cerca de 20 policiais militares estiveram em Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas, nesta quarta-feira (9) para despejar uma idosa de 85 anos de sua casa em uma ação ajuizada pela mineradora britânica Anglo American. A propriedade dela fica na área onde será feita a expansão da mina do projeto Minas-Rio e está no meio de uma negociação confusa entre a mineradora e familiares da idosa.

Natalina Ferreira da Silva, que nasceu e viveu na cidade até então, foi retirada de sua propriedade junto a seus dois filhos que têm deficiência mental. Um deles precisou ser medicado às pressas durante a ação. Por ter mal de Parkinson, ele teve uma crise de tremedeira após ficar nervoso com a situação.

A idosa, que também sofre de problemas cardíacos e outros males causados pela idade avançada, está se sentindo muito mal e é acompanhado de perto por advogados que se uniram para tratar da questão. Como a mineradora também não liberou o dinheiro depositado para que ela possa adquirir uma nova moradia, Natalina terá que ir para a casa de um familiar em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, junto aos filhos. Se não fosse isso, ela ficaria na rua.

Negociação

O advogado Élcio Pacheco, que acompanha o caso, explica que em 2011, um sobrinho distante de Natalina firmou um contrato que ele classifica como arbitrário com funcionários da Anglo para vender a propriedade. “Quando estourou a onda de mineração na região e muitas pessoas ouviram dizer que estavam sendo pagas boas quantias de indenização, muitos picaretas vieram atrás de dinheiro. Um deles é este parente de dona Natalina, que nunca havia sequer vindo à região antes disso”, conta.

Conforme Pacheco, o sobrinho assinou um contrato representando a família junto a funcionários da Anglo que estavam na região. Desde então, ele está desaparecido. A ação foi suspensa pelos advogados em 2012. “Mas agora, três anos depois, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais decidiu reverter essa decisão e confirmou o despejo”, explica.

Com a “venda” das terras por um familiar não registrado, a família de Natalina amarga um prejuízo de mais de R$ 5 milhões. Um inquérito policial será aberto para que o parente desaparecido seja investigado. “O que aconteceu foi um festival de nulidade. Esse parente se juntou a funcionários da Anglo para dar um golpe na família. A empresa deveria, no mínimo, ser obrigada a reassentar a família, mas nem isso eles estão fazendo”, diz ainda o advogado. Como a liminar referente a reintegração de posse é provisória, os advogados entrarão com recursos para tentar reverter a decisão.

Esta não é a primeira vez que a empresa tenta despejar Natalina de sua propriedade. Os advogados populares do Coletivo Margarida Alves, que também acompanham os conflitos relacionados a ações de despejo na região, lembram que há anos Natalina e a família sofrem pressão por parte da Anglo American para deixar o imóvel.
Segundo o coletivo de advogados, a mineradora chegou a afirmar que liberaria o dinheiro depositado judicialmente se a família desistisse de todas as ações ajuizadas contra a empresa.

Resposta

A Anglo American informou que “a reintegração na posse do imóvel da Anglo American Minério de Ferro Brasil, até então ocupado pelo núcleo familiar” de Natalina foi feita por dois oficiais de Justiça acompanhados pela Polícia Militar “e se deu de forma pacífica e respeitosa”.

A empresa ainda afirma que o contrato de venda e compra do imóvel foi assinado em 2011 e que desde então a mineradora “tentou, por diversas vezes, negociar com a Sra. Natalina, filhos, filhas, genros, noras e procurador para que a propriedade fosse desocupada de forma voluntária”.

Segundo a Anglo American, houve o pagamento de “um valor considerável” no ato da assinatura do contrato, mas a assessoria não soube informar para quem este valor teria sido pago. Além disso, a empresa informa que o restante do valor “deverá ser depositado em juízo devidamente corrigido e disponível ao núcleo familiar assim que eles cumprirem com o contratado com a Anglo American”.

Projeto

O Minas-Rio é um complexo minerário composto por mina, em Conceição do Mato Dentro, minerotudo e porto, em São João da Barra (RJ). O mineroduto é o maior do mundo, com 537 quilômetros de extensão ligando as duas pontas do projeto. A ação de despejo da idosa aconteceu um dia depois que o executivo-chefe da mineradora, Mark Cutifani afirmou que “o custoso projeto Minas-Rio”, de US$ 8,8 bilhões, não é a prioridade número um para a companhia. No ano passado, o especial “Um mineroduto que passou em minha vida” publicado por O TEMPO e O Tempo Online, mostrou o rastro de destruição deixado pelo Projeto Minas-Rio nas 32 cidades por onde passa.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cidades/anglo-american-despeja-idosa-para-n%C3%A3o-atrapalhar-expans%C3%A3o-de-mina-1.1187463

EIG vai fechar capital da Prumo após troca de diretor presidente

A agência Reuters está informando algo que já era para se desconfiar pelo andamento da carruagem no Porto do Açu, qual seja, a decisão do fundo EIG Global Partners de fechar o capital da Prumo Logística, o que deverá aumentar ainda mais o grau de opacidade do fluxo de informações dentro do megaempreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista com a ajuda célere do ex-(des) governador Sérgio Cabral.

Prumo Eduardo

Mas um detalhe quase de rodapé na matéria da Reuters me chamou especial atenção que foi a saída da Prumo Logística do agora ex-diretor presidente Eduardo Parente Menezes. É que ao longo ao de 2015 o Sr. Eduardo Parente foi o porta-voz de muitas maravilhas relacionadas ao Porto do Açu que a mídia corporativa repercutiu quase com sofreguidão.  

De toda forma, a troca do CEO de qualquer empresa não é um momento qualquer e geralmente quem sai do cargo o faz por cansaço pessoal, melhores ofertas de emprego ou, simplesmente, por perda da confiança dos patrões. Como o Sr. Eduardo Parente se tornou a face pública das promessas de que o Porto do Açu iria finalmente decolar após investimentos públicos bilionários, é muito provável que hoje muitos estejam coçando a cabeça com essa saída.

A minha avaliação inicial é de que  tanto o fechamento do capital quanto a troca do CEO apontam claramente que as coisas não estão tão boas no Porto do Açu como a propaganda queria nos fazer acreditar, e que muito provavelmente o pior ainda não chegou. 

Finalmente, achei curioso o fato de que uma foto do julgamento de Eike Batista foi usada pelo site UOL para ilustrar a repercussão da matéria da Reuters. O que será que os jornalistas do UOL quiseram dizer com isso pode ser uma daquelas questões de vários milhões de dólares. A ver!

Esqueçamos do incidente Samarco por um momento, lembremos da destruição da Praia do Açu

Dadas as proporções gigantescas do incidente socioambiental causado pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana e que agora contamina a foz do Rio Doce e os ecossistemas fluvi0-marinhos que ali existem, deixei um pouco de lado os problemas causados pelo Porto do Açu nas suas áreas de influência direta e direta. Mas deixar de lado, não significa esquecer. Deste modo, estive recentemente com um grupo de estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) no que ainda resta da faixa central da Praia do Açu e a cena ali é devastadora como mostra a imagem abaixo.

PRAIA DO AÇU

Para quem nunca foi na Praia do Açu, a seta e a linha vermelha demarcam onde até recentemente existia a Avenida Atlântica, via que conectava as suas extremidades  da Praia do Açu. Ao fundo da imagem está o Terminal 2 do Porto do Açu onde a faixa de areia está, pasmem todos, aumentando! Ai a matemática simples, falta num ponto porque a areia está sendo retida em outro.

Como a ocorrência deste fenômeno já apareceu como inevitável nas audiências públicas que foram realizadas para a emissão das licenças ambientais, o que me causa espanto é a morosidade do Estado em fazer valer as condicionantes do licenciamento. É que como se viu no caso da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) , a lógica que prevalece pelas corporações (especialmente as financeiras) é a da minimização dos custos, ainda que isto custe as vidas e economias de populações inteiras. 

Entretanto, lá como cá, o que se vê é a cumplicidade objetiva dos que deveriam proteger os interesses da população ao fazer valer o que determina a legislação ambiental. Mais claro do que isso só as águas do Rio Doce antes do derrame de lama tóxica da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) .

 

Plano emergencial para catástrofes: a Mineradora Samarco tinha um genérico, e a Prumo Logística tem o quê?

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Depois da lama derramada, o Ministério Público Federal de Minas Gerais está acionando a Polícia Federal para investigar a licença ambiental da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana. Pelo menos é o que informou o “Hoje em Dia” na manhã desta 5a. feira (17/11) (Aqui!).

Segundo a matéria, o  procurador da República, José Adércio, apontou falhas no Plano de Ações Emergenciais da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), instrumento que após a aprovação de um dado empreendimento acaba regulando as ações emergenciais que devem ser tomadas para conter possíveis incidentes como o que ocorreu nas lagoas de rejeitos em Bento Rodrigues. O procurador da república apontou também que o plano emergencial era muito “genérico”.  Desce o pano.

Abre o pano. Pensando nessa situação toda causada pelo incidente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana e sobre o que está agora surgindo em termos das limitações do licenciamento ambiental e do plano de ações emergenciais, eu não posso deixar de apontar que este mesmo elemento de generalidade está presente nos Estudos de Impacto Ambientais (EIAs) e nos Relatórios de Impactos Ambientais (RIMAs) utilizados pelo Grupo EBX para obter a maior das licenças ambientais “Fast Food” que permitiram a instalação e operação do Porto do Açu.

Mas o que mais me intriga é sobre a existência (ou não) de planos de ações emergenciais para o Porto do Açu. É que no empreendimento está reunidos elementos potenciais para desastres ambientais (incluindo a questão do armazenamento, separação e transporte do mesmo minério de ferro que causou a tragédia em Mariana!), e que este risco irá aumentar ainda mais com a transformação desta unidade portuária em unidade preferencial para o transporte de petróleo e gás, inclusive com o anunciado uso de superpetroleiros!  

Eu não ficaria surpreso que se nas rubricas criadas para gastar as centenas de milhões de reais que continuam sendo aportados para viabilizar o Porto do Açu não houvesse um centavo para o desenvolvimento de um plano de ações emergenciais que contemplasse ações específicas para conter incidentes em cada uma das múltiplas atividades que estão sendo pensadas para o empreendimento. E se depender da experiência com os problemas da salinização e da erosão costeira, vê-se logo que não há motivo para tranquilidade. Aliás, muito pelo contrário!

E se depois tivermos um grave acidente ambiental no Porto do Açu, talvez seja tarde para exigir a formulação desse plano.  A ver!