Um exame remoto dos supostos investimentos milionários em conservação ambiental da Prumo no Porto do Açu

Os últimos acontecimentos em Bento Rodrigues onde duas lagoas de rejeitos causaram o maior desastre ambiental na história recente do Brasil serviram para pelo menos uma coisa positiva. É que todos os desencontros já detectados entre o discurso de sustentabilidade e a realidade dos fatos serviram para colocar em xeque o discurso corporativo. Não há  nenhuma campanha publicitária que possa esconder a lama tóxica que está neste momento chegando no Espírito Santo tal é o volume que brotou em Bento Rodrigues, graças principalmente à negligência da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton). 

Mas bem perto de nós aqui no Norte Fluminense há também um descompasso retórico no tocante aos impactos de megaempreendimentos sobre a população e o ambiente, e que aparece. inclusive, em relatórios corporativos a acionistas e possíveis investidores. Estou neste caso falando da Prumo Logística Global e seus divulgados investimentos de R$ 30 milhões em conservação da biodiversidade (como mostra a figura abaixo).

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Para mim há já faz algum tempo uma postura dicotômica no discurso da Prumo Logística. De um lado, se soma tudo o que foi investido em determinadas atividades desde o lançamento do Porto do Açu pelo Grupo EBX e, de outro, se ignoram todos os danos socioambientais que tenham sido eventualmente causados. Entretanto, para azar da diretoria da Prumo existem ferramentas disponíveis para uso público que nos ajuda a enxergar rapidamente o descompasso entre discurso e prática.

No caso da conservação da biodiversidade já vi evidências em terra, e mostrei aqui neste blog, que o discurso dificilmente bate com a prática. Mas para deixar mais claro a distância abissal que separa investimentos declarados das mudanças necessárias na paisagem, mostro abaixo duas imagens retiradas do Earth Google onde se pode comparar a situação da área do Porto do Açu em 2003 com a de 2015.

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16/09/2015

Quem clicar nas duas imagens poderá verificar até com alguma facilidade que não há qualquer sinal aparente de conservação emergindo. Já as profundas transformações físicas causadas pela construção de aterros hidráulicos gigantescos e pela abertura do Canal de Navegação nem precisaria ser marcadas com os círculos vermelhos que inseri na imagem de 2015.

Esse desencontro entre discurso e o que as imagens explicitam pode ainda ser encontrado em outras da rubricas elencadas pela Prumo Logística, e basta o leitor olhar para os números declarados para, por exemplo, “realocação de comunidades rurais” que teriam atingido astronômicos R$ 62 milhões e uns quebrados para saber que as coisas simplesmente não batem. É que se isso fosse verdade, as 50 e poucas casas construídas na Fazenda Palacete sob a alcunha de “Vila da Terra” estariam entre as luxuosas do planeta. E para quem já visitou o local sabe que isto absolutamente não é verdade. 

Mas qual é então o moral da história? Para mim é simples: não se pode simplesmente acreditar em discursos que não resistem a um exame mínimo, nem que seja apenas por meio do sensoriamento remoto. É que ao ter essa postura ingênua (para dizer o mínimo) corremos o risco de acordar com novas tragédias socioambientais enfeitando a tela da TV. Simples assim!

Na continuidade da sua campanha publicitária, Prumo divulga as cifras milionárias obtidas com a aluguel de terras

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Em um aparente esforço para convencer o mercado de que o Porto do Açu não é um mico ou, tampouco, um elefante branco, a Prumo Logística continua um vigoroso processo de “placement” na mídia corporativa brasileira. A última dessas matérias propaganda foi publicada ontem pelo jornal Valor Econômico sob o sugestivo título de “Porto do Açu entra em nova etapa” (Aqui!).

Nesse matéria/propaganda, o porta voz da Prumo Logística foi o seu presidente, Eduardo Parente, que ofereceu uma visão para lá de otimista da situação do Porto do Açu.  Uma primeira contraposição a essa visão ufanista e ao que está acontecendo ao redor do enclave formado pela EIG Global Partners foi oferecida pelo professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Alcimar Chagas, em seu blog (Aqui!).

Mas um detalhe que me chamou especialmente atenção na matéria/propaganda foi a declaração de que a Prumo Logística está obtendo uma renda anual de R$ 125 milhões com o aluguel de terras. E ai eu me dou conta que uma parte significativa dessas terras alugadas pode ter vindo de presente como fruto das desapropriações promovidas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin) para a instalação de um natimorto distrito industrial em São João da Barra. 

Tal situação apenas ressalta a completa injustiça que foi e continua sendo promovida contra as centenas de agricultores familiares que tiveram suas terras expropriadas pelo (des) governo do Rio de Janeiro e continuam até hoje sem ver a cor do dinheiro que lhes é devido pela tomada de suas terras, as quais como mostra a matéria estão gerando lucros milionários para a Prumo Logística Global.

É a isso que o geógrafo estadunidense David Harvey classifica como acumulação por despossessão. Mas sobre essa origem das terras  que geram os lucros milionários alardeados é bem provável que não ouçamos o presidente da Prumo Logística alardear na mídia corporativa.

Agora, se eu fosse advogado de um dos muitos agricultores expropriados pela Codin ou mesmo de um daqueles que tiverem suas terras e águas salinizadas pelo Porto do Açu, guardaria essa matéria com muito carinho. É que se o negócio anda tão bem como está sendo fartamente anunciado, dinheiro para pagar o que é devido as essas famílias não será mais problema.

Mariana e São João da Barra: em meio a minas, minerodutos e portos, agoniza o Neodesenvolvimentismo neoextrativista

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A tragédia social e ambiental causada pela explosão de duas lagoas de rejeitos tóxicos em Mariana (MG) possui paralelos que merecem ser analisados com o que temos vivido no Norte Fluminense, mais precisamente no V Distrito de São João da Barra. 

É que se à primeira vista não há qualquer ligação meritória de ser notada, eu aponto que o caso é justamente o contrário, tantas são as coisas que ligam esses dois casos. Então vejamos os pontos de ligação:

  1. Em Mariana temos uma mina que é explorada por uma “joint venture” formada pela Vale e pela mineradora australiana BHP Billiton, a Mineradora Samarco, que transporta o minério extraído por meio de um mineroduto que termina em Anchieta (ES), e é ali exportado via o Porto de Ubú. 
  2. Em São João da Barra, temos um porto controlado por uma corporação estudanidense (a EIG Global Partners que aqui se apresenta como Prumo Logística Global) que irá exportar minério extraído por uma corporação sul africana, a Anglo American, que transporta o minério extraído em Conceição do Mato Dentro (MG) por um mineroduto operado pela Ferroport, uma joint venture formada pela Prumo Logística Global e por ela própria (i.e., Anglo American).

Então o que temos unindo Mariana, Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais com Anchieta no Espírito Santo e São João da Barra no Rio de Janeiro? Além de minas de minério de ferro, minerodutos e portos, eu acrescentaria graves riscos sociais e ambientais, com episódios ocasionais que misturam tragédia humana, graves prejuízos ao ambiente natural e omissão dos responsáveis, sejam eles privados ou estatais.

Além disso, o que está acontecendo  nessas minas, minerodutos e portos expõe de forma emblemática os intestinos do modelo Neoextrativista disfarçado de Neodesenvolvimentismo que embalou boa parte dos investimentos de infraestrutura que foram e estão sendo realizados por todo o território nacional desde o início do governo Lula para transformar o Brasil na maior potência mundial de commodities.

Assim, o que foi enterrado ontem em Mariana não foram apenas casas, seres humanos e seus sonhos de vida, mas um modelo de inserção do Brasil na economia globalizada. É justamente esse modelo Neoextrativista que começou a sangrar quando a China iniciou a esfriar sua demanda por commodities minerais e agrícolas que estrebucha diante de nós. O problema é que como não existe uma alternativa pensada a um modelo que se esgotou muito mais rápido do que seus mentores pensavam que iria, teremos provavelmente que continuar imersos na lama que tudo isto efetivamente representa para o Brasil.

Um pequeno consolo que eu tenho é que, dado o tamanho da tragédia que ocorreu em Mariana, é provável que determinados processos que dormitavam em gavetas empoeiradas agora ganhem “tracking” e velocidade, de forma que possamos finalmente ver alguns desdobramentos concretos para a reparação dos graves prejuízos que já foram causados pelo Neoextrativismo contra os segmentos mais pobres e politicamente marginalizados da população brasileira, seja em Mariana, Conceição do Mato Dentro, Anchieta ou São João da Barra. 

Dois anos depois da implosão das empresas do Grupo EBX, O Globo faz matéria “celebratória”

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A edição deste domingo do jornal O Globo teve uma página inteira para mostrar que a crise que assola o grupo de empresas do ex-bilionário Eike Batista  desde 2013 ainda não acabou (Aqui!). Aliás, muito pelo contrário, já que as perdas acumuladas equivalem, segundo a jornalista Danielle Nogueira, ao valor atual da Petrobras.  Não é à toa que o título da matéria é “Ascensão e queda do Império X- Promessas ao vento”. 

De tudo o que a matéria trouxe, o que eu achei mais informativo está mostrado no infográfico abaixo, onde destaquei com círculo vermelho a situação da ex-LL(X), e atual Prumo, e explico a seguir porque considero emblemático o caso dessa empresa.

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A primeira informação relativa à Prumo Logística se refere ao tamanho das perdas, algo em torno de R$ 56,4 milhões. Aqui o que menos importa é o valor, mas a informação em si que serve para colocar em xeque as seguidas informações do estilo ‘está tudo azul na América do Sul” que aparecem na imprensa corporativa, especialmente a regional. Em segundo lugar, a informação de que Eike Batista ainda é acionista, ainda que minoritário, da Prumo Logística. É que depois que a EIG Global Partners assumiu o controle do Porto do Açu, a figura de Eike Batista pareceu sair de cena no empreendimento. Mas o que os meros 0,27% parecem indicar é que o ex-bilionário ainda ocupa um papel na empresa; restando apenas se saber exatamente qual. 

Um último fato se refere ao próprio Eike Batista que agora passa a ser chancelado como alguém que lança “promessas ao vento’. Como no caso foi o insuspeito “O Globo” quem aplicou o rótulo, resta saber o que Eike Batista vai achar disso. Com certeza, boa coisa não será. Afinal de contas, essa é uma pecha pesada demais para alguém se recuperar, mesmo que este alguém seja Eike Batista.

O que verão os texanos no Porto do Açu: pesadelos “made in São João da Barra” ou sonhos de Dubai?

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O jornal Folha Manhã informou na coluna “Ponto Final” que um “grupo de executivos que desembarcou de jatinho em Campos vindo do Texas, nos Estados Unidos“, e que o mesmo “permanecerá na cidade até terça-feira”. Ainda segundo a nota o “objetivo é uma visita bem contextualizada (grifo meu!) ao Porto do Açu, em São João da Barra.”(Aqui!)

A visita de cidadãos dos EUA ao Porto do Açu não chega a ser novidade, já que o empreendimento hoje é controlado por um fundo de “private equity”, o EIG Global Partners, que está sediado em Washington, DC.

O que me deixa curioso sobre a natureza dessa visita é sobre qual será a definição de contextualizada que será aplicada. É que se for para levar em conta a matéria/publicada pelo jornal O DIA sobre as supostas conquistas ambientais que foram obtidas pela Prumo Logística no Porto do Açu (; um gaiato poderia perguntar se o contexto que os texanos conhecerão é o de São João da Barra (pesadelo) ou de Dubai (sonho).

Se alguém me perguntasse a resposta a esta charada, a minha resposta sem hesitação seria: Dubai dreams, of course!

Porto do Açu: matéria/propaganda de O DIA não resiste à mínima análise dos fatos

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A matéria abaixo, assinada pela jornalista Rosayne Macedo, que foi publicada pelo jornal O DIA está repleta de tantas informações duvidosas que mais parece propaganda paga Prumo Logística.  Ainda bem que a jornalista Rosayne Macedo informou, ainda que no rodapé da matéria, que esteve no Porto do Açu a convite da própria Prumo Logística. Daí podemos até entender tamanha distância entre a realidade do empreendimento e a propaganda que ela está ajudando a disseminar travestida sob a forma de uma matéria jornalística.

Tivesse a jornalista Rosayne Macedo se dado ao trabalho de entrevistar pessoas que não estão ligadas à Prumo Logística na visita que realizou a São João da Barra, ela talvez tivesse colhido informações semelhantes às que eu postei neste blog no dia 10 de Agosto de 2015 (Aqui!), onde mostrei a situação real em que se encontravam mudas que teriam sido plantadas na RPPN da Fazenda Caruara. 

Um aspecto que me parece interessante na divulgação de mais essa peça publicitária travestida de matéria jornalística é que esta estratégia me parece resultar de uma clara ansiedade que parece estar tomando da diretoria da Prumo Logística em face de uma série de notícias ruins que colocam em xeque a sua credibilidade para consolidar um empreendimento que vem tendo tropeços desde que foi iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista. 

O problema é que este tipo de estratégia, quando confrontada pelos dados frios da realidade, acaba tendo um efeito contrário ao pretendido.  E como já disse recentemente neste blog, em termos de incompetência de gerar lucro, o mercado costuma punir bem mais rápido dos que os tribunais. A ver!

Conheça o lugar onde o ecossistema convive com as grandes indústrias

Maior reserva de restinga do país, que supera áreas de algumas cidades do estado, fica dentro do Porto do Açu, onde várias espécies de flora e fauna são preservadas

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Rio – Manoel Gonçalves de Almeida, 72 anos, 11 filhos, mais de 20 netos, sabe tudo da terra desde que se entende por gente. Era mateiro na Usina de Baixa Grande, antiga dona de um mundaréu de terras improdutivas na baixada litorânea de São João da Barra, no Norte Fluminense. Mas o que este senhor de pouco estudo tem a ver com o sonho ousado do ex-megabilionário brasileiro Eike Batista de erguer ali naquele ‘fim de mundo’ o maior complexo portuário do país? Seu Manoel é o “guardião” do viveiro de mudas de espécies de restinga que o Porto do Açu teve que construir como uma das contrapartidas ambientais na região.

Manoel, no viveiro de mudas: antes destruía, agora ajuda a recuperar. Foto: Rosayne Macedo

Com capacidade para produção de 500 mil mudas, já é considerado o maior viveiro do gênero na América Latina. Atualmente, produz e maneja 70 espécies de restinga e até agora, mais de 600 mil mudas já foram plantadas em 530 hectares da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Caruara, que ocupa 40 quilômetros quadrados no entorno do porto — mais do que o tamanho de cidades como Nilópolis, São João de Meriti e Mesquita, na Baixada Fluminense. Com mais de 4 mil hectares de área protegida, esta é a maior unidade de conservação privada de restinga particular do país — a segunda colocada é sete vezes menor. Equivale a cerca de 60% da soma de todas as 69 RPPN’s registradas no estado pelo Inea.

Ali são desenvolvidas ações de resgate e monitoramento da fauna silvestre e de recomposição. São parte do Programa de Conservação da Biodiversidade da Prumo Logística, empresa responsável pela administração do porto, que hoje conta apenas com 0,26% de ações de Eike Batista. Por este trabalho, a Prumo já recebeu três prêmios socioambientais: o selo verde Chico Mendes, o Prêmio Firjan Ação Ambiental e o Benchmarking Brasil. No local, pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e Instituto Jardim Botânico realizam estudos sobre novas espécies de restinga.

O processo de replantio de mudas envolveu diretamente cerca 150 trabalhadores da região. Até hoje já foram produzidas mais de 800 mil mudas no viveiro, entre elas algumas ameaçadas de extinção, segundo a lista oficial do Ibama. Como a pimenta da praia, a almescla e a quixaba. “Aqui tem todo tipo de fruta”, conta ‘seu’ Manoel, nativo da região e que há nove anos trabalha no projeto. Enquanto limpa dezenas de araçás colhidos para preparar as sementes para o replantio, explica seu trabalho: “ Eu cato mudo no mato, planto, limpo semente, resgato bicho no mato. Já peguei tamanduá, cobra, porco-espinho para soltar depois que os biólogos olham eles (sic)”.

Na década de 1970, quando começou a trabalhar na antiga fazenda, ele também fazia de tudo. Mas era diferente. “Era tudo mato. Na época da usina, cortava e queimava tudo para fazer pasto para boi. Antes eu trabalhava aqui destruindo. Agora eu estou aqui para ajudar a (re)construir”, diz ele, com a simplicidade de quem nunca foi à escola, mas aprendeu a lição do respeito ao meio ambiente.

Ponte de R$ 50 milhões para lagarto do rabo verde

A RPPN Fazenda Caruara é uma baita contrapartida ambiental para um empreendimento gigantesco e polêmico como o Açu, inúmeras vezes contestado, inclusive, pelo Ministério Público Federal. Mas nem de longe é a mais “exótica” que o porto teve que fazer para garantir o licenciamento ambiental da obra, que já foi acusada de causar erosão e salinização da água e do solo e de promover desapropriações que provocaram protestos de famílias de agricultores.

Há nove anos, quando o projeto ainda era tocado por Eike, engenheiros tiveram que mudar o traçado inicial de uma ponte para que o largarto do rabo verde, uma espécie rara e típica da região, fosse preservado. “Com o novo projeto, foi necessário gastar mais R$ 50 milhões”, lembra Johnson Tatton, gerente de implantação do porto.

As luzes das embarcações que confundiam as tartarugas marinhas que desovavam na região também foram motivo de preocupação para o empreendimento, que transformou os antigos “caçadores de tartarugas” locais em parceiros no projeto de proteção à espécie. Diariamente, 11 moradores percorrem 62 km de praia. Animais debilitados são levados para um centro de recuperação com veterinários, biólogos e técnicos.

Uma ilha de progresso no meio do nada, o Porto do Açu ocupa 90 km2 — mais que cidades como Armação dos Búzios, Queimados ou Japeri —e iniciou sua operação em 2014, já tendo recebido mais de 40 navios de 4 milhões de toneladas de minério de ferro. Emprega atualmente cerca de 10 mil pessoas, sendo 3,5 mil já na operação das unidades. Quando estiver em plena carga, a previsão é empregar cerca de 40 mil empregos. O porto se transformou em um megacondomínio industrial e já atraiu 14 grandes empresas.

A jornalista viajou ao Porto do Açu a convite da Prumo Logística

FONTE: http://odia.ig.com.br/2015-10-31/conheca-o-lugar-onde-o-ecossistema-convive-com-as-grandes-industrias.html

Porto do Açu: da propaganda à realidade, outra greve por falta de pagamento de salários

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No dia 14 de Outubro, os trabalhadores da empresa “Engesique  Engenharia, Construções e Montagens” que realizam obras no Porto do Açu “trancaram” as portas do empreendimento por (Aqui!). Pois bem, passadas duas semanas, eis que o mesmo grupo de trabalhadores está fechando novamente os acessos da “Roterdã dos trópicos” do ex-bilionário Eike Batista na manhã desta sexta-feira (30/10).

As notícias que me chegam da área do Porto do Açu é que a Engesique teria suspenso uma reunião de acordo que seria realizada hoje em São João da Barra, o que teria motivado mais esse movimento paredista que, aparentemente, bloqueia todas as vias de acesso ao empreendimento. 

Também fui informado de que há uma forte apreensão entre os trabalhadores quanto à possibilidade de demissão coletiva frente à incapacidade da Prumo Logística Global de honrar suas dívidas com a Engesique que, por sua vez, não honra as dívidas trabalhistas que possui com seus empregados.

Agora, talvez este fosse um bom momento para a diretoria da Prumo Logística Global vir a público vestindo as “sandálias da humildade” para informar à população e aos próprios investidores e parceiros sobre qual é a real situação financeira do Porto do Açu. É que me parece que o atual discurso de que “tudo está azul na América do Sul” simplesmente não se encaixa com a realidade dos fatos.  Diante desse cenário há ainda que se lembrar que o mercado pune quem fica prometendo maravilhas em apresentações de Powerpoint, mas não consegue transformar belas apresentações em realidade. Aliás, não há melhor disso do que o idealizador do Porto do Açu, o ex-bilionário Eike Batista.

Erosão na Praia do Açu: em vez de ação, Prumo responde vereador com evasivas

Trecho do RIMA - Explicação da Erosão

As últimas semanas foram mais calmas na Praia do Açu, já que o avanço da língua erosiva deu uma acalmada. Isto deveria estar sendo usado pelo poder público e pelos gestores do Porto do Açu para agilizar todas o cumprimento das exigências legais para que fossem iniciadas ações para mitigar a destruição daquela praia que está dentro da chamada Área de Influência Direta do empreendimento. Lamentavelmente não parece ser esse o “espírito” que reina ao menos na direção da Prumo Logística.

Implicância minha com a empresa que herdou o Porto do Açu? Não, nada disso. É que ao receber via redes sociais um ofício que a Prumo Logística enviou à Câmara de Vereadores de São João da Barra no dia 09/10/2015 após um pedido de informações do vereador Franquis Arêas (PR), não me resta outra conclusão senão a de que não há efetivamente compromisso com a resolução de um problema que estava previsto nos Estudos de Impactos Ambientais (EIAs) e nos Relatórios  de Impactos Ambientais (RIMAs) que foram utilizados para se obter as licenças ambientais para a construção da Unidade de Construção Naval (UCN) da OS(X) e do Canal de Navegação (CN) do Porto do Açu.

Vejamos então o ofício da Prumo Logística à Câmara de Vereadores de São João da Barra com destaques visuais que coloco para ressaltar as contradições objetivas que o mesmo contêm:

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Já na primeira página identifiquei um exagero criativo e uma contradição em termos. O exagero criativo fica por conta do fato de que o estudo a que a Prumo Logística se refere foi o documento essencialmente qualitativo que foi preaprado a pedido da empresa pelo professor da UFRJ/COPPETEC, Paulo César Rosman, onde ele exonerou o Porto do Açu de ser elemento causal na erosão em curso na porção central da Praia do Açu.  Ora, naquela audiência realizada no dia 01 de Outubro de 2014, o próprio professor Rosman reconheceu que não havia 1) visitado a Praia do Açu, e 2) não tinha tido acesso aos resultados do monitoramento costeiro que a Prumo diz estar realizando na área de influência do Porto do Açu.  Em outras palavras,  o que foi apresentado na Câmara de Vereadores dificilmente passaria num teste de rigor científico para atender o critério de “estudo científico”.

Já a contradição fica a cargo da declaração contida no mesmo terceiro parágrafo onde a Prumo Logística afirma que apesar do empreendimento não ser o fator causal no processo erosivo, a empresa vai participar dos esforços para entender as “causas  reais” e “apresentar soluções emergenciais e definitivas” para o problema. Ora, se as estruturas do Porto do Açu não são causa, o que levaria a Prumo a assumir tal compromisso?  A julgar pelas práticas cotidianas que temos visto, não é por simples compromisso social. 

Agora, vejamos a segunda página do ofício.

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Aqui temos a combinação de duas novidades velhas com promessas vagas. A primeira novidade velha é que houve uma reunião no dia 10 de Dezembro de 2014 (mais de 10 meses atrás!). e a segunda é que ali, se acordou que o mesmo professor Paulo César Rosman para coordenar estudos para se chegar à conclusão das causas do processo erosivo do Porto do Açu. Será que é preciso ser algum Einstein para se intuir que nesse novo estudo, a causa do processo erosivo continuará a não ser a construção do Porto do Açu e suas estruturas perpendiculares á costa? 

Em relação às promessas (isto é, “produtos”) me causa espécie o fato de que já se saiba as causas da erosão e a Prumo Logística não se digna a informá-las à Câmara Vereadores de São João da Barra neste mesmo ofício. Já em relação à segunda promessa (“produto”), me causa ainda mais espécie que o projeto para conter a erosão só deverá ficar pronto até Março de 2016! Com esse prazo elástico, é capaz de que quando for iniciar os trabalhos de construção das estruturas de proteção, não haja mais nada a ser protegido!

Mas vamos agora à última página do ofício que também contém declarações e omissões peculiares para uma empresa encarregada de gerir um negócio de grande porte como se diz que o Porto do Açu seria.

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Nesta página, o primeiro detalhe é que de cara se volta à ladainha de que não houve erosão ao sul e ao norte do molhe (quebra mar) como se essa fosse uma informação relevante. Ora, ali houve e está havendo deposição que só não causa maiores impactos porque existe um processo de dragagem todos os dias por 24 horas! Esse fato acompanhado da alteração que está ocorrendo ao sul do quebra mar é que se apresenta como relevante para quem quer realmente explicar o que está acontecendo na Praia do Açu. E, novamente, chamar o documento que foi enviado para a Câmara de Vereadores e apresentado publicamente na audiência realizada no dia 01 de Outubro de 2014 é, quando muito, um exagero criativo.

Agora, notei ainda o detalhe de que o documento é assinado por alguém que não teve seu nome ou cargo na Prumo Logística identificados.  Como o mundo das corporações não é controlado por pessoas ingênuas, esta falta de identificação deve ter seu propósito. Resta saber apenas qual.

Mas o que me causa realmente espécie não apenas na situação particular da erosão da Praia do Açu, mas em várias outras relacionadas aos problemas ambientais que decorrem da construção do Porto do Açu, é a completa ausência de cobranças formais por parte do Estado sobre as responsabilidades que foram assumidas no processo de emissão de licenças por parte do Instituto Estadual do Ambiente.  Que a Prumo Logística procure se eximir de responsabilidades é esperável.  Mas não é aceitável que a resposta a esta posição seja de completa inércia por parte de quem deveria estar cobrando o cumprimento das exigências legais contidas no processo de licenciamento ambiental.

Enquanto isso, a comunidade que vive nas imediações da Praia do Açu fica à mercê do imponderável e, sim, da inclemência das ondas. 

Disputa judicial por terreno traz mapa das sucessões dentro do reino (nada) encantado de Eike Batista

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Um colaborador deste blog enviou a íntegra do Processo 048706-75.2014.8.19-0001 que é movido pela Eneva S/A (sucessora da MPX que pertencia ao conglomerado do ex-bilionário Eike Batista) contra a Porto do Açu Operações S/A. Este processo trata de uma acirrada disputa que colocou fortíssimos escritórios de advocacia situados no Rio de Janeiro a serviço dos diferentes herdeiros do espólio de Eike Batista na área em que deveria ser instalada um termelétrica no Porto do Açu.

Pois bem, ao ler parte desse caudaloso material me deparei com mais uma empresa que até agora me era desconhecida, a Gás Natural Açu Ltda. Como ao longo dos últimos anos já vi várias siglas aparecerem como cogumelos numa pastagem num dia de chuva, me dei ao trabalho de tentar entender a origem de mais essa empresa, e como a mesma se encaixa no quebra cabeças que a débâcle do Grupo EBX acabou gerando.

Pois bem, como mostra a imagem abaixo, a Gás Natural do Açu é a sucessora de uma das empresas de Eike Batista, a SDX Investimentos S/A

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Olhando um pouco mais, encontrei o montante do capital acionário desta empresa limitada e seus sócios (ver imagem abaixo).

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Da observação da tabela, podemos notar que: 1) 99% do capital da Gás Natural Açu é detido pela Porto do Açu Operações S/A e o restante 1% pela Prumo Logística, e 2) o montante do capital é, digamos, modesto.

Não obstante, quando se examina outro aspecto do contrato social da Gás Natural do Açu, o qual se refere às condições para autorização para a “assunção de obrigações”, podemos ver que a empresa pode ter capital modesto, mas isso não afeta as perspectivas de tomadas de investimentos.

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Mas um detalhe que me chamou particularmente a atenção foi a composição da diretoria da Gás Natural do Açu, a qual é mostrada abaixo.

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É que se olharmos os nomes veremos que os mesmos ocupam cargos na Prumo Logística e na Porto do Açu Operações ou em ambas as empresas.   Mas qual é o problema nisso, já que não há impedimento legal para essas múltiplas participações em direções corporativas? 

A resposta para a minha pergunta provavelmente pode ser encontrada no livro”Tudo ou nada”  escrito pela jornalista Malu Gaspar para narrar ao mesmo tempo gloriosa e trágica trajetória de Eike Batista e seu conglomerado de empresas pré-operacionais.  E o problema que aparece narrado é a dificuldade que acabou ocorrendo no grupo de Eike Batista foi de se separar o capital real do ficcional.  E o resultado disso tudo o mundo já sabe qual foi.

Agora, como esse embate está longe de acabar, sabe-se lá o que ainda aprenderemos sobre os caminhos tomados pelos herdeiros do espólio de Eike. Mas uma coisa, a sopa de letrinhas e de sucessões não deve ter parado pelo que está transpirando nesse embate entre Eneva e Prumo. A ver!