Placas tectônicas da política se movem e fazem várias vítimas: é o que mostra a capa do O Globo

Quem abriu o site do jornal O GLOBO nesta 6a. feira (28/09) notará que as placas tectônicas da política brasileira estão se movendo rapidamente e os resultados não são bons para três candidatos: Jair Bolsonaro, Marina Silva e Geraldo Alckmin, os quais são agraciados por vários artigos dos principais colunistas do jornalão da família Marinho (ver imagem abaixo).

capa ogloboA principal vítima do que hoje parece ser um “landslide” de notícias negativas é Jair Bolsonaro que mereceu um artigo intitulado “As barbaridades que Jair Bolsonaro e seu vice dizem” do inabalável Merval Pereira. Mas Ancelmo Gois também nos informa que Bolsonaro já até marcou sua próxima cirurgia, enquanto Nelson Motta nos conta quais critérios afetarão o voto feminino no dia 07 de Outubro. 

Quando colocadas juntas essas peças há um apontamento único que é a de que a situação de Jair Bolsonaro começa a passar por um processo de derretimento, o qual deve ser acelerado pela onda avassaladora de denúncias que circula hoje na mídia corporativa.

Mas também há espaço para que se anuncie mais problemas para o PSDB quando as operações da Polícia Federal contra Marconi Perillo, um dos principais grão tucanos que ainda não tinham passado por um escrutínio similar ao de Aécio Neves.  Não faltou ainda um anúncio fúnebre para a candidatura de Marina Silva na forma de um artigo assinado por Bernardo Mello Franco.

E quem sobra nessa sopa? Aparentemente Fernando Haddad e Ciro Gomes. Se for isso mesmo, vamos ver com quem a família Marinho irá se alinhar.  Alguém arrisca um palpite?

O neoliberalismo mostra a sua cara no Espírito Santo

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A mídia corporativa está dando uma boa quantidade de minutos aos caos instalado na região metropolitana de Vitória após a declaração de uma espécie de “greve branca” pelos policiais militares capixabas. Entretanto, pouco tem se falado sobre as causas essenciais dos problemas sociais, econômicos e ambientais que assolam o Espírito Santo que foi transformado num dos principais laboratórios das políticas neoliberais no Brasil.

Como tenho frequentado bastante o Espírito Santo nos últimos anos por força da proximidade que Campos dos Goytacazes tem com as praias e áreas montanhosas do Espírito Santo, eu não me sinto surpreso com o que está acontecendo. Aliás, a surpresa é que tenha demorado tanto a explodir. 

É que no Espírito Santo têm sido concentradas algumas das piores receitas do chamado Neoliberalismo, incluindo a regressão da legislação ambiental, a precarização dos serviços públicos, e a ampliação do controle privado do aparelho de Estado.  Não è a toa que o atual governador, Paulo Hartung (PMDB), tem como vice-governador um membro do PSDB, César Colnago. Em outras palavras, a dobradinha que foi criada após a assunção do presidente “de facto” Michel Temer no governo federal, já andava bem obrigado no Espírito Santo. 

Mas toda a atual comoção sobre o Espírito Santo não pode esconder que as políticas neoliberais ali implantadas nas últimas décadas têm criado fortes bolsões de violência, dando aos moradores de Vitória a “honraria” de pagar bastante caro (alguns dizem que o preço mais alto do Brasil) para segurar seus carros. 

Além disso, como não esquecer do processo de desertificação verde que foi imposto a partir da expansão da monocultura de eucalipto para servir aos interesses da Aracruz Celulose (hoje Fibria), e que avançou sobre terras indígenas e territórios quilombolas sem o menor constrangimento? E não pode se deixar de mencionar ainda o “pó preto” que a Siderúrgica de Tubarão joga todos os dias sobre a população de Vitória. Tudo em nome da minimização das salvaguardas ambientais em nome do aumento das taxas de lucro da multinacional Arcellor Mittal.

E como não esquecer do inesquecível senador Magno Malta (PR) cuja base política são os setores evangélicos/protestantes que lhe tem assegurado votações sólidas, a despeito de sua constante migração por uma verdadeira constelação de siglas partidárias. Parte da despolitização e da fragilização das organizações populares resultam diretamente da agenda ultraconservadora que Magno Malta difunde no seu eleitorado, o qual ironicamente vive majoritariamente nas regiões mais pobres das cidades capixabas.

Assim, que ninguém se deixe enganar pela cobertura parcial da mídia corporativa que basicamente ignora as raízes neoliberais do caos instalado no território capixaba. O fato que o que está acontecendo no Espírito Santo é uma espécie de antessala do que poderá acontecer no resto do Brasil, caso as reformas ultraneoliberais do governo Temer saiam vitoriosas no congresso nacional.  A ver!

O atual ciclo histórico e seu papel na rasgação de todas as fantasias

Há quem olhe para o cenário político, econômico e social instalado neste momento no Brasil e caia num misto de descrença com estupor. E, convenhamos, não é para se culpar para quem se afoge neste estado emocional. Afinal, a carga de fatos e situações que nos obrigam a sair da crença de que o próximo dia será melhor.

Mas vamos e convenhamos, quem esperaria que Alexandre Moraes saísse de suas operações especiais como secretário de justiça do governo tucano de Geraldo Alckmin para o Supremo Tribunal Federal (STF) na vaga de um ministro que iria chancelar delações que pegam em cheio justamente tucanos de alta plumagem? É muita vida imitando a arte para  o cidadão comum e também para o não tão comum.

E a tal da reforma da previdência que está sendo gestada para tornar quase impossível que 90% dos trabalhadores possam usufruir de aposentadorias integrais. Isto sem falar na consequência prática de que muitos irão morrer antes de poderem pleitear seus vencimentos após décadas de contribuição porque a idade mínima que se pretende fixar é superior à idade média dos brasileiros nas regiões mais pobres do nosso país?

Ora, podem me chamar de um eterno otimista, mas essa sucessão de ações impetradas pelo governo “de facto” de Michel Temer e pelos seus satélites nos governos de estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná me dá a certeza que as elites brasileiras resolveram rasgar totalmente a fantasia de que o Brasil já chegou em algum tipo de Modernidade política, e o que impera mesmo é uma estrutura anacrônica que parece se recusar a sair do Século XIX.

Ao rasgar a fantasia de que justiça social se faz por meio do acesso ao consumo como quiseram parecer Lula e Dilma Rousseff, o que as elites fazem é nos dar a chance de refletir de forma apurada sobre a sociedade em que vivemos, o que nos dá uma oportunidade de ouro para decidir se queremos continuar a viver nesse estado de coisas.

Alguém mais preocupado com as regressões nos direitos que o governo “de facto” poderá fazer com um aliado altamente alinhado no STF, eu responderia que essa indicação de que podemos estar chegando num daqueles momentos dialéticos onde a quantidade (de ataques) nos fará passar por uma mudança na qualidade (da reação).

Então que se rasguem logo todas as fantasias.

Por que a indicação de Alexandre Moraes deveria ser considerada escandalosa e não está sendo?

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A indicação do ministro da justiça Alexandre Moraes (PSDB/SP) pelo presidente “de facto” Michel Temer para ocupar a vaga que a morte de Teori Zavascki criou no Supremo Tribunal Federal (STF) é um daqueles escândalos que deveria abalar a república brasileira, mas não irá.

E pelo que pude depreender das matérias quase adulatórias preparadas pela mídia corporativa sobre a indicação de Moraes para substituir Zavascki o escândalo não se dá por falta de credenciais acadêmicas ou de prática jurídica. É que nesses quesitos, Alexandre Moraes supera bem algumas das indicações medíocres que foram feitas pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff, sendo que o caso do ministro José Antonio Dias Toffoli é o mais emblemático.

Parte do escândalo existente nessa indicação se dá pelo fato de que Alexandre Moraes ocupa neste momento um papel de destaque na sustentação jurídica de uma série de medidas que visam conter, nas palavras do senador Romero Jucá, a “sangria” criada pela operação Lava Jato.

Mas o verdadeiro escândalo é o silêncio que está sendo aplicado para que se esqueça que Alexandre Moraes será mais um ministro do STF que possui laços explícitos com o PSDB, partido este que, “coincidentemente, possui vários medalhões pendurados nas denúncias que estão para explodir a partir das 77 delações assinadas por ex-dirigentes da Odebrecht.

Tenho absoluta certeza que nas atuais circustâncias fosse ainda Dilma Rousseff presidente do Brasil e indicação seu ministro da Justiça para o STF, estaríamos todos a ouvir as panelas zunindo das áreas mais ricas e elitistas das grandes brasileiras. Mas como agora é um tucano que certamente irá para o STF cuidar dos interesses de tucanos já seriamente encrencados nas delações da Odebrecht, não há panela nem gritos contra supostas tentativas de emperras a operação Lava Jato e os paladinos curitibanos.  

E como sei disse? É que já me acostumei à moral altamente seletiva das elites brasileiras e daqueles setores que lhes oferecem massa para que as manobras contra a maioria dos brasileiros siga tendo negada uma sociedade mais justa e não tão segregada como que em que vivemos hoje.

Mas como essa maioria de pobres continua assistindo a tudo isso de maneira majoritariamente solitária, a impressão que muitos podem ter é que mais esta manobra de Michel Temer contra o senso comum vai passar batida. Eu me arriscaria a dizer que a possibilidade é de que esta seja apenas uma gota num imenso balde que está a ponto de transbordar. Os primeiros sinais disso estão vindo do Espírito Santo que hoje vive um cenário que beira a convulsão social, o qual poderá se espalhar pelo Brasil inteiro caso os planos de desmanche da legislação trabalhista e previdênciária se consumem.

Daí, se isto acontecer, não ter Alexandre Moraes e suas histrionices autoritárias (o caso da inverossímil política de erradicação da maconha na América do Sul é a primeira que me vem à cabeça) que salve o sistema político brasileiro. A ver!

A recolonização total do Brasil, esse é o plano de Temer et caterva

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A deslegitimação do capitalismo com uma suposta face humana que Lula propôs e executou em combinação com Dilma Rousseff por meio da chamada Operação Lava Jato resultou no golpe de estado “light” que levou Michel Temer e o PSDB ao poder. 

Desde a consumação do golpe o que está se vendo é uma entrega sem precedentes das riquezas nacionais, desmantelamento dos mecanismos de amortecimento das desigualdades sociais e a destruição do sistema de regulação ambiental. De quebra, ainda tivemos a aprovação da PEC 55 que congela investimentos públicos em áreas estratégicas, mas mantém intacta a orgia rentista que enriquece poucos e faz alegria dos banqueiros nacionais e internacionais.

Ainda temos pela frente a tentativa de impor uma reforma draconiana no sistema de seguridade social que tornaria o Brasil um dos países mais difíceis para um trabalhador obter uma aposentadoria, que dirá uma aposentadoria integral.

Olhando de fora, o que está acontecendo no Brasil deveria já ter levado milhões de pessoas às ruas para derrubar um (des) governo ilegítimo e anti-nacional. Mas, convenhamos, não é isso que estamos assistindo. O governo “de facto” de Michel Temer até agora passou tranquilamente o trator sobre tudo, e com uma resistência mínima por parte de partidos da oposição, sindicatos e movimentos sociais.

Na minha modesta opinião, isso está acontecendo porque efetivamente inexiste a vontade política para organizar a resistência a este processo de efetiva recolonização do Brasil pelas grandes instituições financeiras que controlam a economia globalizada. É só observar bem para ver que quando muito temos assistido discursos pró-forma, pois organizar ações diretas contra os (des) governos que estão impondo a recolonização do Brasil que é bom, nada.

O problema dessa inação política é o aprofundamento do desgaste de determinadas forças como o Partido dos Trabalhadores, CUT e MST. Isso num primeiro momento deverá possibilitar que as medidas de recolonização passem com tranquilidade, pois as forças que restam são insuficientes para organizar e executar uma agenda de resistência. Entretanto, a alegria dos que hoje executam a agenda da recolonização poderá se transformar em tristeza se novas forças se impuserem para liderar a reação popular que inevitavelmente virá quando as pessoas comuns se tocarem do que a recolonização vai significar nas suas vidas. 

A grande questão é que o atual momento histórico reflete um processo de profundo desiquilíbrio no sistema capitalista, e a fileira de dominós poderá começar a desabar, mesmo a partir de pontos de maior insignificância na manutenção do status quo. Nesse sentido, o Brasil poderá se ver em breve no epicentro de uma grande convulsão social já que os padrões haitianos que a recolonização nos imporá serão aviltantes demais para serem aceitos pacificamente.

E é preciso notar que não faltam “pontos fracos” na América Latina a partir de onde os dominós começarão a cair, chegando até o Brasil.

Desvendando Moro

Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite*

O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece ser insolúvel.

Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savonarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato de que Savonarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulgurante o Renascimento.

Educado por seu avô, empedernido moralista, o jovem Savonarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar das muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná -não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savonarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

É preciso, portanto, adicionar um outro componente à constituição da personalidade de Moro -o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”.

Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador. Lula é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

Savonarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.

Em Roma, Savonarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.

Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE *, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha*

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/10/1821713-desvendando-moro.shtml