A vitória de Rodrigo Maia é o enterro definitivo do PT como partido de esquerda

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Faz tempo que eu enxergo o Partido dos Trabalhadores (PT) como uma organização de centro, com comportamento meramente reformista e prisioneiro da lógica da conciliação de classes. E isso é lamentável, pois no seu nascedouro o PT representava uma possibilidade concreta de oferecer à classe trabalhadora um instrumento poderoso para sua luta contra as elites oligárquicas que dominam há séculos o estado brasileiro.

Mas principalmente de 2002 para cá, após o lançamento da chamada “Carta aos Brasileiros”, a maioria da direção do PT optou por uma política que transcende o reformismo e optou pela colaboração aberta com a classe dominante. O famoso abraço entre o ex-presidente Lula e Paulo Maluf para celebrar a aliança que acabaria elegendo Fernando Haddad como prefeito de São Paulo foi só apenas um momento mais emblemático da capitulação do PT.

Entretanto, o PT ainda arrebata milhões de brasileiros que ainda não fizeram o processo de ruptura entre o passado e o presente do partido que diz representar os interesses dos mais pobres.  E muito desses que ainda acreditam no PT estão sempre esperando a famosa “guinada à esquerda” que possibilitaria uma espécie de processo de purificação para todos os erros e traições cometidos na última década. Mas a verdade é que a direção do PT e a imensa maioria dos seus parlamentares não estão nem aí para os compromissos históricos firmados no seu processo de fundação.  A política virou apenas uma oportunidade de negócios, também para os dirigentes e parlamentares petistas (que eu chamo de neoPetistas).

Até aqui eu não disse nenhuma novidade em relação ao que eu penso sobre o processo de direitização do PT. Mas  a estas alturas do campeonato, eu confesso que não esperava ver o PT votando em Rodrigo Maia (DEM) para presidir a Câmara dos Deputados. É que tendo sido Maia um dos líderes (se ele é mesmo capaz de liderar qualquer coisa ainda está ser para resolvido tal a mediocridade de seu histórico como parlamentar) do golpe de estado “soft” cometido contra Dilma Rousseff. Ai, convenhamos, já seria demais, mesmo para o neoPT. Mas só que não foi!

Eu sinceramente desconfio que muitos desses parlamentares petistas se regojizaram quando o processo de impeachment foi aceito pela Câmara de Deputados, tal é a indisposição da presidente eleita de participar das flexões patrimonialistas que eles agora explicitamente demonstraram poder fazer sem muito remorso.

Por último considero que beira o patético querer imputar aos parlamentares do PSOL algum tipo de culpa pela vitória de Rodrigo Maia, seja qual for a alegação. É que o PSOL com seus muitos erros e vacilações apenas cumpriu o papel que cumpriria à esquerda parlamentar, estivessem seus deputados mirando ou não as próximas eleições municipais. Até porque se não lançassem a candidatura de Luiza Erundina, o que restaria a eles em Outubro? Provavelmente nem lançar candidatos para chamar o voto no PMDB ou em outros partidos que organizaram o golpe de estado.  Felizmente, essa opção suicida não foi cometida, e o PSOL agora poderá se apresentar com alguma chance de sucesso em um bom número de cidades brasileiras. E provavelmente, dado o arco de alianças que está formando, o PSOL ainda conseguirá que partidos como o PCB e o PSTU elejam vereadores em bom número, coisa que nunca conseguiram.

E o PT depois desse episódio? Com quase certeza irá se aferrar -se aos grotões. A ver!

Crise política no Brasil: quando 6 são mais do que 60

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Lí uma análise interessante do Prof. Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política da USP, onde aponta para uma suposta “desorientação das esquerdas” frente ao que ser feito em relação ao governo interino de Michel Temer (Aqui!). Apesar do conteúdo ser interessante, creio que o Prof. Fornazieri errou no título. É que penso que até pelo conteúdo, o correto teria sido escrever “Os  frutos da capitulação do PT”.

É que frente ao que vem acontecendo em termos de resistência popular, pode já dizer que esta ocorre apesar do PT e dos sindicatos e movimentos sociais que o partido controla. A impressão que fica é que dentro do PT ainda tem gente que acredita que será recuperada a possibilidade de um governo de conciliação de classes.

Mas essa impressão já estava clara para mim nos debates dentro da Câmara de Deputados acerca da aceitação ou não do impeachment de Dilma Rousseff quando coube às bancadas do PSOL e do PC do B a principal via de resistência ao rolo compressor montado por Michel Temer e seus aliados da direita parlamentar. Vendo a ação de parlamentares como Heloísa Erudina, Chico Alencar, Glauber Braga, Jean Wyllys e Jandira Fegalli era indisfarçável a diferença de tom em relação à bancada do PT onde apenas Paulo Pimenta e Wadih Damous expressavam qualquer sinal de aguerrimento frente ao que estava sendo construído. 

Pode se dizer que boa parte desta inação da banca do PT foi construída a partir de um longo processo de emasculação que resultou de alianças espúrias e relações promíscuas com fontes de financiamento. Eu, aliás, tenho a opinião de que o tamanho da bancada parlamentar do PT poderia ter sido maior nas eleições de 2014 se bons candidatos não tivessem sido sacrificados em nome do supostamente amplo arco de alianças. Aqui abro inclusive espaço para reconhecer que o senador Lindbergh Farias soube superar as traições que sofreu na eleição de governador para cumprir um papel digno na luta contra a aceitação do impeachment pelo senado federal.

Agora, qual será o caminho a ser adotado pelo PT? Sinceramente não tenho a menor ideia, pois é óbvio o controle ainda mantido sobre a direção nacional pelo ex-presidente Lula. Se Lula escolher o caminho da coabitação com Michel Temer, o caminho para o cadafalso do PT estará definitivamente selado, e suas porções ainda saudáveis seguirão outros caminhos dentro da esquerda. Agora, se Lula decidir que enfrentar Michel Temer será o caminho a seguir, talvez possamos inverter a situação de pasmaceira atual da bancada federal do PT. Daí talvez possamos superar a condição atual onde os 6 deputados do PSOL (a maioria deles oriunda do próprio PT) valem mais do que os 60 do PT. A ver!

Pauta bomba na Alerj dá os indícios de como o PMDB faliu o Rio de Janeiro

pauta bomba

AS MALDADES DA SEMANA NA ALERJ!

Pelo mandato do deputado estadual Eliomar Coelho (PSOL)

Os servidores do estado estão ameaçados de terem o salário, que já está sendo pago quase no meio do mês, parcelado. A educação, a saúde e a segurança pública vivem um caos sem investimento.
Enquanto isso, o governo quer aprovar essa semana três projetos que são contrários aos interesses da população do estado.

A bancada do PSOL Rio de Janeiro vai se manter firme na resistência a esses absurdos.

São eles:

PLC 10/2015:

Dispõe sobre a Região Metropolitana, criando a sua Agência Executiva. No nosso entender, do jeito que está, se trata de um cartório de projetos dos grandes jogadores da economia fluminense, sem um mínimo de transparência, muito menos controle social sobre serviços essenciais.

Mais uma vez, o Governo do Estado trabalha no sentido de cristalizar as estruturas que já se verificaram ineficientes e socialmente injustas na gestão de tais serviços

PL 1561/2016

Autoriza o governo a pegar empréstimo de até R$1 BILHÃO para concluir a obra da fajuta Linha 4 do Metrô (obra orçada inicialmente em R$5,6 BILHÕES e que pode custar no final mais de R$10 BILHÕES).

O projeto vai endividar ainda mais um estado já atolado em dívidas por uma obra que já deveria ter sido inaugurada em 2015. Além disso, há denúncias de forte corrupção nessa obra, feita por empreiteiras como a Odebrecht.

PL 1251/2015:

Institui uma série de mudanças na previdência, trazendo uma série de restrições ao direitos dos servidores como

-Revoga a obrigatoriedade do pagamento dos benefícios
previdenciários seguir o mesmo calendário dos servidores ativos.

-Acaba com as aposentadorias integrais em casos de doenças crônicas e deficientes.

-Acaba com pensão por morte para filhos universitários entre 21 e 24 anos.

-Altera o critério de pensão para expectativa de sobrevida ao cônjuge ou companheiro, tendo como critério mínimo 2 anos de casamento ou união estável e 18 meses de contribuição. Esta alteração, que foi feita pela União, não precisava ser feita no Estado, pois o Estado tem competência para legislar sobre o seu regime próprio.

FONTE: https://www.facebook.com/eliomarcoelho/photos/a.458709430830745.92883.442179582483730/999485306753152/?type=3&theater

Crise no Rio de Janeiro: em mais uma prova da seletividade, (des) governo Pezão entrega milhões para um torneio de tênis

Em plena crise, sem conseguir pagar os servidores, com a saúde em estado lastimável e sem investimentos em educação, o (des) governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando pezão, abriu mão de mais de R$9 MILHÕES para um torneio internacional de tênis. As isenções saíram da secretaria do filho do ex-governador Sérgio Cabral.

E os beneficiários dessas isenções: CLARO, ORTOBOM E AMBEV.  A imagem produzida pelo mandato do deputado estadual Eliomar Coelho (PSOL) mostra de forma didática a distribuição de mais essa “generosidade” do (des) governo Pezão com o dinheiro público.

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Agora, prezados leitores deste blog, a propalada crise que impede o pagamento de salários de servidores e o correto financiamento de hospitais, escolas e universidades é seletiva ou não?

The Intercept produz interessante artigo sobre ida de Jean Wyllys a Israel

 JEAN WYLLYS, UM HERÓI DA ESQUERDA BRASILEIRA, É DURAMENTE CRITICADO POR VIAGEM A ISRAEL E COMENTÁRIOS ANTI-PALESTINOS

Andrew Fishman
(This is a Portuguese translation. For the English version, click here.)
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O Deputado Federal Jean Willys (PSOL-RJ), conhecido por seu progressismo e sua liderança em movimentos de justiça social, está tentando se defender de várias críticas feitas por seus eleitores e apoiadores de esquerda devido a sua recente viagem a Israel. O congressista despertou a ira de boa parte da base do partido de esquerda PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), ao qual é filiado, após participar de uma conferência em uma universidade israelense intimamente ligada a violações de direitos humanos dos palestinos. Após as críticas, ele defendeu sua presença no evento com argumentos frequentemente usados por fervorosos defensores da política de ocupação israelense. O discurso inesperado de Wyllys é um grande exemplo da bem sucedida tática de explorar questões socio-liberais para gerar apoio da esquerda ao militarismo.

Em uma mensagem de vídeo postada na sexta-feira no Facebook, Paulo Sérgio Pinheiro, um renomado diplomata brasileiro que trabalhou na Comissão Nacional da Verdade sobre violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar brasileira e foi relator especial de direitos humanos da ONU em Myanmar (Birmânia), criticou duramente o deputado. “Lamentáveis e deploráveis as notas do Deputado Jean Wyllys sobre sua visita a Israel. Revelando uma crassa ignorância e desinformação sobre as políticas de direitos humanos praticadas atualmente por Israel”, falou. Esse sentimento reflete a reprovação de boa parte da esquerda, motivada tanto pela viagem quanto pelos comentários feitos posteriormente.

The Intercept questionou o Deputado Jean Wyllys repetidas vezes por meio de sua assessoria para obter informações para este artigo, porém nem o deputado nem sua equipe responderam a quaisquer dos questionamentos.

A polêmica visita de Wyllys a Israel e sua defesa das políticas israelenses ocorre em um momento especialmente tenso das relações bilaterais. O Governo Federal, também de esquerda, do Partido dos Trabalhadores, sob o comando da combatida Presidenta Dilma Rousseff, se recusou a aceitar a nomeação de Dani Dayan como embaixador de Israel no Brasil baseado no argumento de que ele é um polêmico defensor de assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia ocupada. Tanto na gestão de Dilma quanto na de Lula, o partido governista tem demonstrado apoio aos palestinos. O PSOL se posiciona como uma alternativa mais à esquerda à moderada esquerda do PT; portanto, o posicionamento de Wyllys é surpreendente.

Jean Wyllys tornou-se nacionalmente conhecido em 2005 como o primeiro vencedor abertamente gay do famoso programa de reality TV “Big Brother Brasil”. Um professor universitário de origem pobre, ele conquistou a audiência nacional com sua erudição e intelecto e converteu sua fama em passaporte para ser eleito o primeiro membro assumidamente gay do Congresso Nacional, em 2010. No ano passado, ele foi eleito o deputado mais popular pelo site Congresso em Foco e foi listado pela revista inglesa The Economist como uma das 50 figuras públicas mais importantes no quesito promoção da diversidade.

Ele angariou popularidade perante os jovens do PSOL, eleitorado de esquerda comprometido com a defesa inegociável de questões de justiça social: apresentando projetos de lei para a legalização da maconha, estatutos contra a discriminação, legalização plena do trabalho sexual e erradicação de vestígios institucionais da ditadura militar brasileira — todas essas propostas são abominadas pela direita evangélica em ascensão no país. Wyllys é o único político abertamente gay em um país majoritariamente católico e evangélico. Além disso esse carismático político de 39 anos é constantemente alvo de agressões verbais e ofensas  homofóbicas proferidas por pessoas como o Deputado Jair Bolsonaro, a quem The Intercept já definiu comoo político eleito mais misógino e execrável do mundo democrático”. Tudo isso consolidou a posição de Wyllys como uma figura de destaque da esquerda brasileira.

No entanto, na terça-feira, Wyllys chocou e despertou a ira de muitos de seus mais leais apoiadores. Ele postou uma foto sorridente de si mesmo para seus 871.626 seguidores no Facebook, posando em frente da Universidade Hebraica de Jerusalém. O comentário postado junto à foto: “Estou muito feliz e emocionado pela oportunidade de visitar, pela primeira vez, esta cidade cheia de história, terra santa para as três religiões do livro, onde se encontram tradições e costumes do Oriente e do Ocidente. Amanhã vou ministrar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém, a convite da mesma, junto ao professor James Green. Vamos debater sobre antissemitismo, racismo, homofobia e outras formas de ódio e preconceito e suas relações com a política contemporânea”. Até o momento, a foto já obteve mais de 24 mil likes e mais de 1.700 comentários.

O post causou grande e imediata comoção, com algumas demonstrações de apoio, porém muitos dos comentários em veemente oposição. Vários críticos expressaram choque e indignação que um líder do movimento progressista brasileiro romperia tão profundamente com o posicionamento oficial do seu partidoque defende o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra as ocupações ilegais de Israel na Palestina. Porém, Wyllys inflamou os ânimos ainda mais nos dias seguintes com uma série de declarações em defesa própria cujo conteúdo, até mesmo para ouvidos americanos, soa como pró-Israel.

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Foto: Jean Wylllys/Facebook

O ex-deputado Milton Temer, membro da liderança do PSOL, foi incisivamente crítico a Wyllys durante entrevista para The Intercept. “Essa visita me incomoda demais. Em Israel, a opressão ao povo palestino não é feita pela extrema direita. A verdade é que o governo israelense, eleito pelo povo, perpetra essa opressão. Somente uma pequena minoria de judeus israelenses está engajada na corajosa luta em defesa de um posicionamento humanitário para os palestinos. Me incomoda profundamente que um membro progressista do Congresso vá a Israel e afirme que Israel é um paraíso onde LGBTs recebem tratamento civilizado, enquanto Israel investe bilhões todos os anos em suas forças militares para oprimir os palestinos. Acho que Jean Wyllys cometeu um grande erro”.

Ele disse ainda: “Um congressista de esquerda deveria ir a Israel somente para denunciar (esse Estado) publicamente pela ocupação da Palestina. Esse político certamente não deveria ir a Israel para declarar que há algum tipo de conflito simétrico, a ser pacificado, entre as duas nações. Por esse motivo, ele cometeu um erro”.

QUE PIOROU A SITUAÇÃO foi a visita de Jean Wyllys à universidade que simboliza a ocupação israelense. Boa parte das instalações da Universidade Hebraica de Jerusalém foi construída em terras palestinas na Jerusalém Oriental. Essas terras foram expropriadas ilegalmente por Israel e, por esse motivo, o país sofreu recentemente um boicote importante. Uma carta assinada por 351 pesquisadores internacionais explica que “apesar de todas as universidades israelenses compactuarem plenamente com a ocupação, o colonialismo de assentamentos e o apartheid, a Universidade Hebraica de Jerusalém tem papel proeminente”. A carta destaca que “a universidade (Universidade Hebraica de Jerusalém) compactua com o tratamento desigual de palestinos, inclusive daqueles que são cidadãos de Israel”; “restringe a liberdade de expressão e de protesto de seus poucos estudantes palestinos”; e é afiliada à Universidade de Ariel na Cisjordânia ocupada, no entanto, nega o reconhecimento de credenciais acadêmicas à instituição palestina, a Universidade de Al Quds.

Em 2014, a Universidade Hebraica criou um fundo de bolsas acadêmicas destinado exclusivamente a estudantes que estavam servindo no ataque militar brutal em Gaza durante o qual 2.131 palestinos, em sua maioria civis, foram assassinados e mais de 100 mil, segundo dados da ONU, ficaram desabrigados. “A universidade está participando do esforço de guerra para demonstrar apoio aos seus alunos combatentes de modo a minimizar o fardo financeiro”, segundo uma carta oficial enviada a “amigos e ex-alunos”. Na época, Jean Wyllys apoiava as críticas da Presidenta Dilma Rousseff sobre o ataque a Gaza como um “uso desproporcional da força” e, meses depois, apoiou uma missão humanitária a Gaza.

A conferência desta semana, da qual Wyllys participou, é intitulada “Brasil e Israel: desafios sociais e culturais”. O evento ocorreu nos dias 5 e 6 de janeiro e foi patrocinado pela Universidade Hebraica de Jerusalém, pela Universidade Brown (EUA), pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil (MRE) e pela Confederação Israelita do Brasil, dentre outros. De acordo com uma descrição do evento, Brasil e Israel são dois países com complexa diversidade social, cultural, étnica e religiosa. Em ambos os países, o Estado e a sociedade civil têm se envolvido no combate a problemas relacionados à diversidade cultural, tolerância e inclusão. Programas e políticas têm sido desenvolvidos para superar a histórica marginalização de certos grupos, com níveis variados de sucesso, e, por vezes, a despeito das críticas de outros setores de seus respectivos países”.

Esse tipo de discurso morno e comparativo, cheio de argumentos progressistas e humanistas, é popular entre liberais defensores do descarado Estado não liberal de Israel. Observadores críticos identificam injustiças evidentes (digamos, na limpeza étnica de milhares de palestinos, na permanência do cerco à Gaza e na basilar essência israelense de colonização por assentamentos), um liberal sionista vê complexidade que demanda estudo e discurso em detrimento de culpar a todos indiscriminadamente: Sim, o Estado é governado por extremistas de direita, porém, nós – os sionistas liberais – somos pessoas boas, portanto vamos observar as pequenas diferenças.

Não obstante, há imperativos morais evidentes em jogo quanto à ocupação israelense da Palestina: durante décadas desse “diálogo” elogioso de si entre liberais, Israel desmantelou sistematicamente a sociedade civil palestina e ocupou suas terras ilegalmente, matando e encarcerando aqueles que se opuseram e fomentando radicalismo por todos os lados. A participação nessas conferências intermináveis funciona eficientemente como uma proteção liberal, evitando qualquer questionamento sério às duras verdades da situação palestina. Muitos, inclusive o próprio partido de Wyllys, o PSOL, apoiam um boicote a Israel.

Em uma carta aberta publicada na quarta-feira, a Frente em Defesa do Povo Palestino, um grupo brasileiro pró-Palestina, argumentou que “A tática de Israel de convidar personalidades e autoridades a participarem de palestras em suas instituições acadêmicas – cujo histórico de cumplicidade com a ocupação é amplamente comprovado – objetiva transmitir ao mundo a ideia de normalidade, enquanto mantém o apartheid, a colonização e ocupação de terras palestinas”. A carta expressa surpresa com relação à viagem de Wyllys; além disso, afirmou-se que o post do deputado no Facebook demonstra que “você não entendeu a história e a ocupação”.

Uma charge feita pelo cartunista brasileiro Vini Oliveira foi compartilhada por usuários de esquerda nas redes sociais e sintetiza o descontentamento de muitos. Nessa imagem, Wyllys, com a Estrela de David estampada em seus óculos, posa para uma selfie em frente a um jovem palestino estirado no chão em cima de uma poça de sangue. Em segundo plano, o sol sorridente, símbolo de seu partido PSOL, brilha à distância (The Intercept obteve permissão para divulgar a imagem).

Imagem: Vini Oliveira

À MEDIDA QUE ESSA POLÊMICA se desenvolveu nesta semana, a assessoria de imprensa de Jean Wyllys respondeu rápida e grosseiramente às críticas, tentando justificar a decisão do deputado de participar da conferência. Ao fazer isso, eles tanto acirraram os ânimos ao atacar quem fazia críticas, quanto ecoavam argumentos pró-Israel rasos e pouco sofisticados sobre terrorismo, antissemitismo e direitos civis. Por diversas vezes, Wyllys confundiu o Hamas, partido político democraticamente eleito que governa a Faixa de Gaza desde 2007, com a “ISIS ou outras facções criminosas” — uma retórica israelense padrão no governo de Netanyahu.

Wyllys também definiu o muro que separa Israel da Cisjordânia e que separa muitos fazendeiros palestinos de suas terras como sendo “construído por Israel para impedir os atentados terroristas”. Ele repete a justificativa israelense padrão que alguns críticos afirmam ser parte de uma política mais ampla de apropriação ilegal de terras e separações forçadas.

O congressista também invocou o antissemitismo várias vezes e o fez de tal maneira que deixaria Alan Dershowitz orgulhoso. Em um dos comentários, ele argumenta que muitos de seus detratores que se identificam como “antissionistas” estão usando esse rótulo para esconder suas reais motivações antissemitas. Ele explicou para seus seguidores a diversidade de fundamentos e opiniões entre sionistas, israelitas e judeus; argumentando que não se pode culpar todos os sionistas por todos os pecados de Israel (“complexidade”).

A discussão de Jean Wyllys é, dentre outras coisas, uma tentativa descarada de ser um laranja. O BDS não é um movimento contra todos os sionistas. Pelo contrário, o movimento combate a personificação moderna do sionismo, a supremacia étnico-religiosa do “Estado Judeu de Israel”, cuja subjugação militar palestina tem sido feita tanto pelas gestões israelenses “brandas” como pelas gestões mais à direita. As lágrimas de liberais sionistas cada vez mais marginalizados não melhoraram a rotina dos moradores da Faixa de Gaza.

Jean Wyllys foi criticado por perpetuar a tática israelense de “pinkwashing” (“lavar em rosa”), por meio da qual o governo Netanyahu destaca o discurso relativamente progressista do país concernente a direitos LGBT para obter apoio de liberais e indivíduos LGBTs para suas políticas de ocupação em geral, enquanto perpetra violações de direitos humanos fora do âmbito LGBT. Conforme Sarah Schulman argumentou em um artigo de opinião doNew York Times publicado em 2011, trata-se de “uma estratégia proposital para esconder a sistemática violação de direitos humanos dos palestinos por trás de uma imagem de modernidade personificada na vida gay israelense”. “Os direitos dos homossexuais tornaram-se, basicamente, ferramentas de relações públicas”, disse Aeyal Gross, um professor de direito na Universidade de Tel Aviv.

Essa abordagem pinkwashing tenta definir Israel como o único bastião de tolerância em meio a um mar de extremismo homofóbico islâmico; portanto, a noção de que Israel deveria receber apoio de todos aqueles que defendem direitos LGBT está implícita. Esqueça-se do resto: coisas pequenas como as longas décadas de brutal ocupação do povo palestino marcadas por bombardeios seguidos de demolições ocasionais de bairros inteiros. Esse método doutrinador prega que a única medida para avaliar a moral de um país ou, ao menos, o critério norteador para essa medida, deveria ser os direitos dos LGBTs.

Essa tática se assemelha às tentativas mais amplas dos neoconservadores americanos de, após os Ataques de 11 de setembro,   explorar posicionamentos liberais quanto a questões sociais para angariar apoio da esquerda para a agenda militarista neoconservadora. Essa tática era implementada ao, por exemplo, cinicamente apresentar a Guerra no Afeganistão como uma causa feminista ou afirmar que os desentendimentos com o Irã foram motivados por preocupações referentes aos direitos da população LGBT. Em novembro de 2001, a gestão Bush enviou Laura Bush para descrever a Guerra no Afeganistão como “uma luta por direitos e dignidade das mulheres” e — mesmo após 14 anos de conflitos que mataram um números incontável de mulheres afegãs – alguns grupos de mulheres continuam a apoiar aquela guerra tendo por base argumentos feministas.

Jean Wyllys rechaçou a acusação de que ele teria adotado pinkwashing. Segundo ele, trata-se de uma “teoria da conspiração” e “desrespeitoso a nós, LGBTs”. Ele continuou esse protesto apresentando uma demonstração perfeita do pinkwashing padrão:

Os direitos conquistados pelos LGBTs israelenses são uma luz numa região dominada pelo fundamentalismo, o totalitarismo, a misoginia e a homofobia, e eu parabenizo esse povo por seus avanços. […] E a solidariedade com os palestinos não deveria impedir a esquerda de denunciar a opressão que (por exemplo) os homossexuais sofrem nos países islâmicos, ou reconhecer as conquistas democráticas em Israel!

Conforme definido por Jay Michaelson na publicação Forward, além de a tática de pinkwashing ser doutrinação política calcada em uma falsa caricatura de todas as nações islâmicas da região (por exemplo, tanto Beirute quanto Istambul oferecem uma cena LGBT bem agitada), essa tática subestima as forças anti-LGBT ativas em Israel, “um país que pode ser pró-gay e contra direitos humanos”. É importante destacar que essas políticas sociais “progressistas” não beneficiam a comunidade LGBT palestina. “Sim, é difícil ser gay em Gaza – assim como é difícil ser gay em Meah Shearim. Porém, queers palestinos dirão a você que o regime de confisco de terras, assentamentos, paradas para identificação, cartões de identidade, restrição na construção de prédios e, é claro, o bombardeamento pesado das áreas civis são um fardo muito mais pesado”, Michaelson afirma.

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Captura de tela: Jean Wyllys/Facebook

Em uma interação que aparentemente foi apagada, quando um dos seguidores no Facebook perguntou, “Jean, quando você visitará a Faixa de Gaza?”, a conta de Jean Wyllys (sob os cuidados de sua equipe de comunicação) respondeu, “Talvez você não saiba que a [F]aixa de Gaza está atualmente sob o controle da organização terrorista Hamas. Não é, portanto, um lugar seguro para um homossexual assumido… mas, talvez você possa ir. Boa sorte!” Em um comentário posterior, ele disse que “de fato, eu também gostaria de ir a outros países do Oriente Médio, mas não posso, porque em muitos deles poderia ser enforcado ou preso por ser gay”.

É bem verdade que fundamentalistas islâmicos, assim como fundamentalistas judeus e cristão, não costumam ser aliados confiáveis e a homossexualidade é tecnicamente ilegal em Gaza e em muitos países islâmicos, porém a sugestão de que o Hamas seria tão tolo a ponto de machucar uma importante figura pública estrangeira simplesmente por ele ser gay é profundamente ingênuo ou extremamente dissimulado — ou ambas as opções. Essa afirmação é uma distorção infundada, caricatural, e alarmante do Hamas como uma gangue de terroristas irracionais, atrasados e sedentos por sangue – aliás, o Ministério das Relações Exteriores israelense publicou uma charge assim no ano passado, que foi removida após muitas críticas (ir para 0:28)

A discriminação por homofobia existe e é horrível, no entanto, esse tipo depinkwashing ignora o fato que se trata de uma preocupação global. Lembre-se: leis punitivas à sodomia foram vigentes nos Estados Unidos até 2003 e a luta por igualdade das pessoas LGBT ainda está longe de acabar. Cristãos evangélicos exigiam uma nova lei em Uganda punindo homossexualidade com pena de morte, ficaram satisfeitos com a prisão perpétua. A menos que o nosso deputado decida passear em Raqqa, Síria, hasteando a bandeira do arco íris, ele pessoalmente tem zero chance de ser enforcado por sua orientação sexual, porém ele não poderia ficar tão à vontade e aberto como no Rio de Janeiro.

NA QUINTA-FEIRA, um assistente do congressista Jean Wyllys disse a The Intercept que ele não havia visitado e que não pretendia visitar nem a Cisjordânia nem a Faixa de Gaza. Mas, algumas horas depois, naquela mesma noite, ele comunicou que visitaria “Belém e talvez Hebron” antes de ir para Tel Aviv. Temer disse que, inicialmente, Wyllys não havia planejado visitar a Palestina, porém a polêmica o forçou a fazê-lo.

Wyllys também disse ter se encontrado brevemente com apoiadores do BDS de um grupo identificado apenas como “FFIFP”, possivelmente em referência a FFIPP, um grupo internacional sem fins lucrativos que se denomina uma “rede educativa de direitos humanos Palestina/Israel”. O grupo sedia seminários internacionais de educação em Israel e na Palestina. Esse seminários incluem visitas a Tel Aviv. Yoav Elinevsky, o diretor executivo da FFIPP-USA, disse a The Intercept que cada filial nacional é independente, ele desconhece filiais da FFIPP que tenham condenado publicamente o BDS.

A despeito dessas concessões, Wyllys continuou a receber uma enxurrada de comentários raivosos.

  • “Realmente decepcionado com o Deputado Jean Wyllys. Visita Israel e não visita os territórios do Estado da Palestina ocupados por Israel. Fecha os olhos ao que acontece com o povo palestino e se preza a ecoar a propaganda do apartheid israelense. Caetano Veloso, ao menos, se retratou depois que visitou Israel e foi visitar a Palestina. Ele escreveu artigo declarando que nunca mais volta para Israel. Deputado, você acaba de ganhar o título de ‘Ex-defensor dos Direitos Humanos’. Que decepção!”, escreveu Emir Mourad, secretário geral da Federação Árabe Palestina do Brasil.
  • “Que mancada monumental! …. Admiro sua atuação como parlamentar, mas dessa vez eu fiquei extremamente decepcionado”, escreveu João Canobre.
  • “O cara finaliza um texto cheio de preconceitos e visões reducionistas das sociedades islâmicas afirmando seguir ‘com a cabeça aberta e sem preconceitos’. Coerência manda beijos. A visão do Oriente Médio apresentada aqui poderia muito bem ser a de um europeu do XIX.”, escreveu Rafaél Antônio Cruz.
  • “O apoio a Israel vai contra toda postura revolucionária, corajosa do Jean. Pesquisem um pouco e vejam o que realmente acontece com os palestinos”, escreveu Silvia Medeiros.

O BDS obteve força significativa no Brasil nos últimos tempos. Em 2014, o governador do Rio Grande do Sul cancelou um contrato importante com a empresa de segurança israelense Elbit Systems para desenvolver um centro de pesquisa aeroespacial (Segundo um porta-voz, “o apoio à causa palestina” por parte do governador em exercício naquela época não influenciou a decisão de cancelar as negociações com a Elbit).

Em julho de 2015, os lendários músicos brasileiros Caetano Veloso e Gilberto Gil se apresentaram em um show em Tel Aviv e participaram de um evento público com o ex-presidente israelense Shimon Peres, apesar de forte pressão pública para cancelamento da viagem, inclusive de alguns apoiadores do BDS como o Arcebispo Desmond Tutu e o co-fundador do Pink Floyd, Roger Waters. Após a viagem, Caetano Veloso escreveu um artigo de opinião para a Folha de São Paulo explicando o impacto emocional de visitar comunidades palestinas sob ocupação. “Todas as queixas dos participantes do BDS são fundamentadas”, ele escreveu, afirmando ainda que, “Gosto de Israel fisicamente…Mas acho que nunca mais voltarei lá”.

No Facebook, Wyllys declarou ser contra o BDS. “Sou contra boicotes voltados a qualquer povo. Acho um erro confundir o governo, o Estado e a população. O boicote destrói pontes e favorece os extremistas de ambos os lados”, ele escreveu, citando o fracassado bloqueio de Cuba como um exemplo e questionando retoricamente, “por que não há boicote contra a Síria?” Porém, enquanto bloqueios e sanções contra regimes autocráticos e semi-isolados, como Cuba e Iraque se mostraram ineficientes porque o sofrimento imposto à população não afeta a liderança, o oposto é verdadeiro em sociedades democráticas ou marginalmente democráticas, como Israel ou a África do Sul do Apartheid, nos quais (uma parte da) população pode votar em novos líderes que prometam mudar as políticas. Funciona melhor, principalmente, quando uma nação depende muito de ajuda externa e apoio diplomático, como Israel.

Como o líder antiapartheid e atual defensor do BDS, Desmond Tutu escreveu em 2010: “Na África do Sul, nós não teríamos alcançado nossa liberdade e nossa paz sem a ajuda das pessoas do mundo todo, que, por meios não violentos, tais como boicotes e desinvestimentos, estimularam seus governos e outros atores corporativos a minar as bases de apoio que o regime do Apartheid teve por décadas”.

A eficácia dos boicotes, desinvestimento e sanções é, talvez, a razão pela qual o Estado de Israel e seus apoiadores têm empregado esforços concentrados em combater o surgimento de quaisquer movimentos BDS ao redor do mundo e atingir aliados inesperados, como políticos latino-americanos de esquerda.

Políticos estrangeiros frequentemente visitam Israel e elogiam as “conquistas democráticas” do país baseados em afinidades ideológicas, um valor político percebido ou ambas as opções – principalmente para políticos dos Estados Unidos, um país para o qual apoiar Israel é imprescindível e apoiar movimentos BDS seria suicídio político.

No entanto, o caso de Jean Wyllys é especialmente confuso. O Brasil não tem um considerável lobby pró-Israel e seu apoio aos direitos dos palestinos é o discurso padrão. O trabalho louvável desempenhado por Wyllys no combate à discriminação, por justiça social e direitos humanos para todos simplesmente não se encaixa com sua nova defesa de Israel e de parte da retórica israelense mais nociva. Além disso, ele não obteria nenhuma vantagem política perceptível ao alienar sua base e contrariar seu partido em uma questão basilar de política externa.

Primeira foto: Deputado Jean Wyllys do PSOL palestra nesta semana na Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel.

Colaborou: Cecília Olliveira

FONTE: https://theintercept.com/2016/01/09/jean-wyllys-um-heroi-da-esquerda-brasileira-e-duramente-criticado-por-viagem-a-israel-e-comentarios-anti-palestinos/

Cagaço tucano é mostrado direto de Caracas!

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O vídeo abaixo mostra o “cerco” dos manifestantes chavistas à van que conduzia os senadores da direita brasileira que foi a Caracas para um exercício de inutilidade política. As imagens abaixo mostram que, ao contrário do que foi declarado por Ronaldo Caiado e outros membros da “comitiva”, a polícia venezuelana prestou a devida proteção ao veículo em que os direitistas brasileiros estavam.

Além disso, ao contrário do que se viu no Brasil em manifestações recentes onde pessoas vestidas de vermelho (petistas ou não) foram fisicamente agredidas, o que aparece na imagem é uma manifestação política basicamente orientada pelos gritos de “Fora” e “Chavez não morreu, se multiplicou”.

Este tipo de manifestação deve ser mesmo novidade para os falastrões liderados por Aécio Neves que em seus anos na política só saiu nas ruas sob forte proteção de escoltas públicas e privadas.

Aliás, o que eu gostaria mesmo era ver essa comitiva ir à prisão de Guantánamo em Cuba protestar contra os prisioneiros que estão lá há mais de uma década sem qualquer tipo de acusação formal por parte das autoridades estadunidenses.

Finalmente, é lamentável notar toda a submissão do governo Dilma à direita no congresso. E, pior, saber que partidos que se dizem de esquerda, o PSOL incluso, ajudaram a aprovar uma moção de repúdio à Venezuela para defender essa caravana de golpistas. Mais lamentável ainda!

Deputado federal Ivan Valente (PSOL/SP) cobra apuração do escândalo do HSBC leaks

ESCÂNDALO HSBC – O Brasil precisa apurar!

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Desde meados de fevereiro tem circulado na imprensa mundial o vazamento de uma vasta documentação revelando que a filial do HSBC na Suíça foi cúmplice de uma série de crimes financeiros. As informações foram vazadas por Hervé Falciani, ex funcionário do próprio banco, que acusou o HSBC de criar um sistema de auto enriquecimento através da evasão de divisas e lavagem de dinheiro, tudo à custa da sociedade. Os dados estão de posse do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo – ICIJ (International Consortium of Investigative Journalism). A operação foi batizada de “Swissleaks”.

Trata-se do maior vazamento de dados bancários da história, algo em torno de US$ 120 bilhões – o equivalente a 340 bilhões de reais na taxa atual de câmbio, correspondendo ao período de 2005 a 2007, envolvendo 106 mil clientes de 203 países, que tinham depositado nas contas secretas do HSBC suíço.

Mas a prática criminosa do HSBC parece não estar restrita a sua filial suíça. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, o próprio presidente-executivo do HSBC, Stuart Gulliver, que veio recentemente a público prometer “reformar o banco”, escondeu milhões de libras em uma conta na Suíça por meio de uma empresa no Panamá. Ou seja, uma farra financeira que envolve, além dos clientes de má procedência, os próprios executivos do HSBC. Pratica esta que certamente tem contribuídos para engordar os lucros do bancos, que em 2014 foram em torno de 13 bilhões de libras.

O Brasil é o quarto país em número de clientes que constam nos documentos vazados pela ICIJ, com 8.667 potenciais sonegadores, que somam um montante de aproximadamente 8 bilhões de dólares – quase 20 bilhões de reais. Os nomes dos brasileiros ainda não foram amplamente divulgados. Apenas o jornalista do UOL, um dos brasileiros vinculados ao ICJI, recebeu a lista, que teria sido encaminhada à Receita Federal para averiguação.

Fernando Rodrigues divulgou apenas 11 pessoas da lista de brasileiros até agora, segundo ele ligadas ou citadas de alguma forma no escândalo da Operação Lava. Entre os nomes divulgados por Rodrigues estão o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, delator na Operação Lava Jato e que já havia revelado ter mantido valores no HSBC, oito integrantes da família Queiroz Galvão, o empresário Júlio Faerman (ex-representante da holandesa SBM) e o doleiro Henrique Raul Srour.

Outros nomes como o de Robson Tuma fariam parte da lista – segundo o jornalista Luis Nassif o endereço do ex-deputado ((Avenida Cauaxi 189, ap 203, Alphaville, Barueri) aparece na lista do HSBC. Ou do banqueiro Edmond Safra, do Banco Safra, e a família Steinbruch, dono da Vicunha e da CSN, segundo o jornalista Miguel do Rosário. “O Banco Safra foi o banco usado pela Globo para comprar os dólares que enviaria às Ilhas Virgens Britânicas, quando se envolveu naquela “engenhosa operação” para adquirir os direitos de transmissão da Copa de 2002 sem pagar os devidos impostos”, afirma o jornalista.

Mas apesar da grande dimensão do escândalo, e do fato do Brasil ocupar o quarto lugar na lista de potenciais sonegadores, há hoje em nosso país um silêncio sepulcral da grande mídia sobre o assunto, assim como dos líderes da oposição de direita e do próprio governo. Talvez porque muitos dos seus façam parte da lista, além do fato óbvio de que não há por parte destes segmentos muita disposição em enfrentar os ricos e poderosos, suspeitos de estarem envolvidos até o pescoço no maior escândalo financeiro que se tem conhecimento.

Até agora, só o que temos de concreto são declarações de intenções dos órgãos do governo brasileiro de que os documentos serão analisados, mas numa morosidade que beira a paralisia. A Receita Federal, por exemplo, divulgou uma nota de esclarecimento, afirmando que estava investigando o caso, apenas três meses após ter recebido a lista das mãos do jornalista Fernando Rodrigues, da UOL – único jornalista brasileiro membro da ICIJ que recebeu os dados do vazamento.

A sociedade brasileira precisa pressionar o governo e o parlamento para que a apuração deste escândalo se dê de forma imediata, com a divulgação pública dos nomes comprovadamente envolvidos nos crimes financeiros de sonegação e evasão fiscal. Da mesma forma, a mídia deve colocar em prática seu discurso em defesa do direito à informação, com a divulgação do fato e da lista de brasileiros com contas secretas na suíça. Uma informação que, aliás, já deveria ter sido solicitada oficialmente pelo governo Brasileiro, por envolver questões de interesse nacional.

É um absurdo que os partidos da base do governo e da oposição de direita, com o evidente apoio da grande mídia, falem em “ajustar as contas públicas” por meio de corte de gastos sociais e redução de direitos trabalhistas enquanto os mais ricos que sonegam impostos e guardam suas fortunas em paraísos fiscais permanecem impunes.

A economia de R$ 18 bilhões anunciado pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por meio da restrição de direitos como o seguro desemprego, seguro defeso, pensão pós-morte e auxílio doença, representa menos do que o montante de 20 bilhões de reais guardadas por brasileiros nas contas secretas do HSBC suíço. Isso num quadro em que o governo e seu ministro da fazendo não tem qualquer disposição para adotar medidas redistributivas fundamentais, como é o caso da Reforma Tributária de caráter progressivo e a taxação das grandes fortunas.

Em contra partida, nos últimos dois anos, o governo federal deixou de receber, a título de renúncia fiscal, R$ 200 bilhões de reais devido às isenções concedidas ao setor empresarial, que foram beneficiados pela redução de alíquotas, isenção de IPI e desonerações.

Exigimos a apuração imediata do escândalo do HSBC, com a adoção de todas as medidas legais cabíveis para garantir a punição dos sonegadores e o ressarcimento dos recursos aos cofres públicos.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL-SP.

Brasília, 25 de fevereiro de 2015.
(Pronunciamento)

Fonte: https://www.facebook.com/IvanValentePSOL/photos/a.316625541715668.82338.194174003960823/941511255893757/?type=1&theater

E se a “oposição” virasse o jogo em Campos, o que mudaria?

Em resposta à minha própria pergunta, eu diria que muito pouco ou quase nada, o que pode não ser o mesmo mas é quase igual. É que ao olhar quem compõe a oposição e quem está oposição apoiou para o governo do Rio de Janeiro, o que se vê é até um receituário ainda pior para os pobres. Aliás, isto é tão evidente para a maioria da população que ninguém dessa oposição se preocupa em apresentar uma perspectiva distinta de governar. E não é preciso lembrar que quando tiveram o controle do governo municipal, os resultados foram catastróficos.

O problema em minha modesta opinião é que em Campos a maioria gostaria de ser como o deputado Anthony Garotinho, mas ninguém na oposição tem a mesma disposição para o embate ou para o incansável trabalho de sustentar um grupo político coeso.  O que unifica a maioria é apenas a vontade de controlar o butim representado pelo gordo orçamento que os royalties do petróleo fornecem ao município. Agora, o que há de concreto por detrás dos discursos de moralidade e compromisso com a transparência? Nada!

Se este comportamento me é indiferente naqueles que se agrupam dentro dos partidos da direita, o mesmo não posso dizer daqueles partidos que se reivindicam como sendo de esquerda como o PSOL, o PSTU e  o PCB.  Se há algo que as últimas eleições mostraram foi que o isolamento de candidaturas serviu, quando muito, para uma clarificação para uma fração mais organizada da população sobre as nuances programáticas destes partidos. Além disso, no caso de Campos, me preocupa a visão de que o problema se resolve personificando todo o mal em Anthony Garotinho, enquanto se flerta com setores extremamente atrasados da classe política local.

A esquerda ideológica só sairá do limbo se conseguir ultrapassar a fixação reinante na figura de Anthony Garotinho e apontar para a construção de um modelo de cidade que cesse a hiper concentração de renda nas mãos dos mesmos de sempre. A perpetuação desta situação sob a égide do grupo de Anthony Garotinho é muito pouco explorado pelos partidos de esquerda. Questionar este modelo de cidade partida é uma obrigação dos partidos da esquerda ideológica. Mas para fazer isto há que se superar modelos baseados no culto à personalidade no processo de construção partidária. Afinal, se é para ser assim, ninguém faz isto melhor do que Garotinho.

 

Luciana Genro e a trajetória das esquerdas petistas

Por RUDÁ GUEDES RICCI
lucianagenro

 

Ontem, a estrela de Luciana Genro brilhou. Foi protagonista do maior ataque que se viu no Brasil num debate eleitoral televisionado (no dia de setembro, promovido pela CNBB) . Em poucos minutos, desferiu críticas e nomeou erros e escolhas do PSDB, acusando o candidato tucano, Aécio Neves, de parasita, de estar num partido que ensinou o PT a roubar, de ser fanático pela privatização a ponto de usar dinheiro público para construir aeroportos de uso particular. Escrever, neste momento, suas palavras, me causa certo constrangimento, tal a potência de sua ofensiva. Algo inédito que, obviamente, ressoa como o inesperado.

Luciana Krebs Genro não é novata em política. Nasceu em 1971. Filha de Tarso Genro, que veio do Partidão e se tornou uma das lideranças do PT gaúcho, dividindo este principado com Olívio Dutra. Neta de Adelmo Genro, militante do trabalhismo gaúcho que foi perseguido pelo regime militar. Começou a atuar politicamente com 14 anos de idade (no emblemático ano de 1985, ano da posse de Sarney como presidente da República) numa escola que leva o nome do ex-presidente do Rio Grande do Sul e formulador da Constituição Estadual deste estado em 1891, o positivista Julio de Castilhos. Na sua primeira eleição, disputando vaga na Assembleia Legislativa, em 1994, com 23 anos de idade, se torna deputada, logo depois do movimento pelo impeachment de Collor. Sua pauta mais significativa como parlamentar foi a denúncia de corrupção em órgãos de saneamento do Rio Grande do Sul. Reeleita em 1999, enfrentou a dura situação de apoiar a greve dos professores gaúchos num momento em que seu partido, o PT, governava pela primeira vez o Rio Grande do Sul. Foi punida pelo partido. Em 2002 foi eleita deputada federal, ainda pelo PT. A proposta de reforma da previdência enviada pelo presidente Lula ao Congresso Nacional foi o estopim para o confronto final que levou à sua expulsão do PT. Luciana foi uma das fundadoras do PSOL.

Reproduzi rapidamente estas passagens de seu currículo político porque se confunde, de alguma maneira, com a trajetória de várias correntes petistas à esquerda.

O PT teve várias correntes internas de inspiração marxista. A grande maioria de origem trotskista e poucas de inspiração maoísta e até mesmo origem stalinista. Várias dessas correntes se estruturaram, até o final dos anos 1980, como partidos encastelados no PT. Algo, aliás, que ocorreu com o MDB (com a “hospedagem” do PCB e PCdoB) e, depois, com o PMDB (talvez, o caso mais conhecido seja do MR-8).

As correntes trotskistas mais famosas do PT foram a Convergência Socialista (hoje, PSTU, da corrente internacional morenista), a Libelu (vinculada à corrente internacional lambertista) e a Democracia Socialista (vinculada à corrente internacional mandelista). Mantiveram uma relação de amor e ódio com Zé Dirceu (ex-Ação Libertadora Nacional/ALN e ex-Movimento de Libertação Popular/Molipo). Embora Dirceu tenha militado na frente de massas da ALN (e não na militar), foi se revelando como dirigente petista muito mais afeto à burocracia e comando central partidário que o próprio Marighela.

Havia outras correntes derivadas do Partidão ou com proximidade com a lógica soviética, como MCR ou Ala Vermelha ou até mesmo o PRC (Partido Revolucionário Comunista), que teve Ozéas Duarte, Aldo Fornazieri e José Genoíno nas suas fileiras. Mas nada que se comparasse à articulação liderada por Zé Dirceu.

O fato é que este impasse interno entre correntes marxistas criou várias histórias pouco públicas do PT. As lutas de massas, as campanhas eleitorais e pronunciamentos de lideranças nacionais formavam uma enxurrada que encobria os afluentes à esquerda da disputa intestina dessas correntes.

Assim, numa divisão didática, seria possível sugerir várias histórias paralelas que conformaram o PT: a história da construção de sua burocracia interna, a história das lutas de massas, a história da organização eleitoral e construção da governabilidade do governo do país e a história da disputa entre correntes internas, em especial, as de inspiração marxista.

A história da construção da burocracia interna se embaralhou com a da organização eleitoral e montagem do arco de alianças e de governabilidade do PT. E foi esta articulação que, a partir dos anos 1990, alijou as forças políticas envolvidas com as outras histórias paralelas do PT (a das lutas de massa e a da disputa programática entre correntes internas do partido).

O ataque de Luciana Genro a Aécio Neves no debate organizado ontem (16) pela CNBB lembrou os velhos tempos do PT, anterior à vitória de Lula em 2002. Dura e afiada, Luciana encarou o adversário como opositor de classe. Não perdoou um segundo. Típico embate dos primeiros anos da vida do Partido dos Trabalhadores e de toda tradição de esquerda marxista onde o programa está acima de tudo. Aécio revelou total desconhecimento deste terreno de disputa. Fugiu, tentou mudar de assunto, tentou desqualificar Luciana. Continuou sendo caçado pela verve metálica da candidata do PSOL como num carrossel enlouquecido.

A trajetória de Luciana Genro cruza com a de outros militantes que foram alijados do centro do processo decisório do PT.
Daí certa surpresa de muitos que acompanharam o debate de ontem. Até então, era Eduardo Jorge, outro ex-militante petista, médico sanitarista oriundo do Partidão que sempre atuou na periferia da cidade de São Paulo, que chamava a atenção pela desenvoltura e perspicácia, além de objetividade e clareza programática. Mas havia mais gente oriunda do PT no debate de ontem. E gente que nunca esteve no centro do poder do lulismo. Era o caso de Luciana Genro. Forjada no PT pré-lulismo, vimos na tela de televisão ressurgir a escola das correntes internas do PT. Uma agressividade desconcertante, foco ideológico e programático, rapidez de raciocínio e coragem.

A ausência deste PT no PT de hoje é o que cria tanta perplexidade em militantes contemporâneos do partido de Lula quando jovens saem às ruas em protesto. E é o que cria frio na barriga quando Dilma Rousseff entra no estúdio para debater com seus adversários.

A ausência, enfim, é o que está transformando o PT em Partido da Ordem.

Rudá Guedes Ricci é sociólogo. Blog: http://www.rudaricci.com.br/

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10059:submanchete180914&catid=72:imagens-rolantes