E a montanha do juiz Moro pariu um rato

Será que sou o único a achar que a lista de políticos denunciados pelo juiz federal Sérgio Moro é uma materialização do ditado de que “a montanha pariu um rato”?  É que após meses de contínuo bombardeio da mídia corporativa em relação ao caso de corrupção na Petrobras, a lista de 47 políticos denunciados sinceramente não me impressiona. Ainda que ali estejam o presidente do senado (Renan Calheiros) e da Câmara de Deputados (Eduardo Cunha), ambos do PMDB, a soma da conta realmente não fecha.

É que do total de denunciados exatamente 50% são vinculados ao Partido Progressista (PP) e que compõe uma bela lista de desconhecidos. Podem me chamar de cínico, mas mesmo reconhecendo que sempre há potencial para surpresas quando o quesito tratado é corrupção, imaginar que o PP é o centro da corrupção no Brasil é pouco razoável.

Agora, eu fico imaginando porque sobrou denúncia para o senador do PSDB e ex-governador de Minas Gerais Antonio Anastasia. Não é que ele não tenha capacidade de se envolver num esquema tão amplo como é o do chamado “Petrolão”. Mas é que colocar Anastasia dentro e deixar Aécio Neves de fora é pouquíssimo razoável. É que Minas Gerais inteira sabe que Anastasia é uma pessoa da mais alta confiança de Aécio Neves e sua família. Assim, se ela estava dentro do esquema, como Aécio estaria de fora?

A dica de que a meta de atingir Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores realmente não foi alcançada é a indicação de que a equipe de Sérgio Moro agora vai partir para investigar as propinas pagas na construção da famigerada usina hidrelétrica de Belo Monte. Em outras palavras, já que no caso da Petrobras efetivamente sobrou para o PP o maior peso das denúncias, há que se continuar “cavocando” para ver se acham algo que realmente abata o PT.

O que eu estranho nisso tudo é que estando o juiz Sérgio Moro localizado em Curitiba não sobre nenhuma investigação para o (des) governador tucano Beto Richa que literalmente afundou o Paraná em um processo de falência sem que se tenha uma ideia objetiva como ele consegui tal feito. Bom, mas dai já seria pedir muito, não é?

Matéria da Exame mostra que governos do PT investiram mais de R$ 30 bilhões nas particulares, enquanto deixaram as IES públicas à mingua

A matéria abaixo é da insuspeita revista “Exame”, e mostra que os governos da coalizão PT/PMDB colocaram mais de R$ 30 bilhões nos cofres das instituições privadas de ensino superior. Enquanto isso, as instituições federais de ensino foram mantidas à míngua, e tendo que se submeter a exigências absurdas para receberem recursos que as mantivessem funcionando. Não é à toa que a maioria dos hospitais universitários mantidos por universidades federais encontram-se em condição de mais completa petição de miséria, e sob ameaça constante de privatização. 

Mas mais grave do que a mamata fornecida por Lula e Dilma aos tubarões do ensino é a revelação de que a educação no Brasil está hoje completamente submetida aos interesses dos agentes financeiros que operam dentro das bolsas de valores. Além disso, a matéria mostra que a simples intenção de estabelecer regras mínimas de qualidade para a concessão de subsídios federais para essas fábricas de diplomas já implicou em depreciação de suas ações no mercado de ações.  

Essa situação mostra que o sistema de ensino superior no Brasil hoje corre o risco de uma ruptura sistêmica caso o Estado brasileiro pare de conceder seus generosos subsídios para as instituições particulares, visto que a sua supremacia no número de vagas ofertadas. 

Por essas e outras é que deveríamos estar batalhando para que essa fortuna investida em instituições de baixa qualidade seja revertida para as IES federais e estaduais. É que nã o faz o menor sentido o Estado brasileiro secar as torneiras de instituições públicas, enquanto irriga os cofres de empresas particulares que não demonstram qualquer interesse em contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

Redes privadas de ensino ganharam fortunas com o governo

Sala de aula da Kroton

Aula da Kroton: a rede estuda financiar por conta própria os reprovados no Enem

Lucas AmorimLucas Amorim, de Revista EXAME
São Paulo – O Brasil pode não ser o país da educação, mas virou o país das empresas de educação. Nos últimos cinco anos, com crise ou sem crise, os grupos de ensino superior privados tiveram um crescimento espetacular. Em 2010, as três empresas de ensino superior listadas em bolsa valiam 7 bilhões de reais. Hoje, elas são quatro — e valem 35 bilhões de reais.

A Kroton, destaque da turma, tornou-se a maior empresa de educação do mundo. Esse fenômeno foi impulsionado por três fatores. As empresas levaram para o setor carcomido um estilo de gestão moderno. Também perceberam um avanço social inédito, que permitiu a milhares de estudantes pagar uma faculdade.

Mas nenhum desses fatores foi tão decisivo quanto o terceiro — uma baita ajuda do governo federal. Em 2010, o Ministério da Educação (MEC) decidiu turbinar o Fies, programa de financiamento para estudantes do ensino superior.

De lá para cá, o governo já gastou mais de 30 bilhões de reais para pagar as mensalidades de 1,5 milhão de estudantes — dinheiro que foi, inteirinho, para o caixa das faculdades privadas brasileiras. Com a perspectiva de que um programa tão popular fosse mantido para sempre, as empresas partiram para aquisições, cresceram como nunca — e se tornaram as maiores estrelas da bolsa brasileira. Até que o governo mudou de ideia. 

Nos dias 29 e 30 de dezembro, o MEC anunciou duas portarias que mudaram o jogo para redes com mais de 20 000 estudantes. A primeira passou a exigir uma pontuação mínima no Enem, o exame de avaliação do ensino médio, para que os estudantes recebam o financiamento público.

Até então, qualquer aluno, independentemente de seu desempenho no exame, poderia receber o Fies. Agora o governo exige o mínimo de 450 pontos em 1 000 possíveis. O aluno também não pode zerar a redação. A segunda mudança é na forma com que o governo paga as instituições.

Os pagamentos, que eram mensais, passarão a ser feitos a cada 45 dias. Um curso de graduação com quatro anos de duração, portanto, será pago às escolas em seis. Foi o suficiente para a lua de mel dos investidores com as empresas terminar.

Algumas redes, como a pernambucana Ser Educacional, já perderam mais de 40% de seu valor. Acostumados a dar boas notícias ao mercado, executivos do setor passaram as últimas semanas em incontáveis reuniões com investidores e com o governo.

A primeira e mais urgente demanda dos executivos é para que o governo volte atrás na forma como vai pagar as escolas. Com menos parcelas anuais, as empresas vão precisar de mais dinheiro em caixa para suas despesas do dia a dia. O problema, afirmam as escolas, é que as mudanças vão afetar não só os novos contratos mas também os financiamentos já firmados nos últimos anos.

A Federação Nacional das Escolas Particulares entrou na Justiça com um pedido de mudança nas regras. A Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior (Abraes), que reúne seis das maiores redes do país, tem uma série de reuniões agendadas em Brasília para tentar convencer o governo a voltar atrás. “Alterar regras de contratos é ilegal. Mostramos isso ao MEC. Esperamos bom senso”, diz um executivo do setor.

Em paralelo, as escolas se organizam para se adaptar à mudança, que, na visão de todos, é de fato definitiva — a exigência de, no mínimo, 450 pontos. De acordo com a consultoria Hoper, especializada em educação, em 2012 26% dos estudantes ficaram abaixo dessa pontuação. A situação é pior no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, onde mais de 30% dos alunos ficaram abaixo da nova nota mínima.

O problema é que, de lá para cá, a média geral no exame piorou — caiu de 500 para 470 pontos. Como resultado, segundo a Abraes, neste ano 49,9% dos estudantes não poderiam receber o financiamento do governo sob as novas regras. A mudança só será implementada no próximo Enem, mas as perspectivas para as escolas são dramáticas.

As mais afetadas, na visão de analistas, são as redes com mais unidades nas regiões de pior desempenho no Enem, como a pernambucana Ser, ou redes com pouca penetração de ensino a distância — modalidade ainda não contemplada com o Fies.

No caso da Kroton e da Estácio, em que mais de 30% dos alunos estão inscritos em cursos a distância, as mudanças diminuiriam em menos de 10% a base de alunos potenciais. São também essas escolas, na visão de analistas, que mais podem se beneficiar da mudança, roubando alunos ou até comprando redes que passarem a enfrentar dificuldades.

Novas exigências

Para não perder os alunos reprovados no Fies, as escolas vão precisar investir. Uma opção analisada pela Kroton é financiar por conta própria os estudantes e, durante um ano, oferecer aulas de reforço para que no ano seguinte eles voltem a fazer o Enem. Outra ação em estudo por alguns grupos é aumentar o número de promoções na mensalidade para atrair os sem-Fies.

O que as últimas mudanças deixaram claro é que o governo não parece mais disposto a aumentar a base de universitários a qualquer custo. Até 2014, a única exigência era que, para receber aluno do Fies, os cursos tivessem uma nota mínima de 3 num ranking que vai até 5. Agora, além da exigência de uma pontuação mínima para os alunos, o novo ministro da Educação, Cid Gomes, avisou que outras mudanças poderão vir.

Ele disse, por exemplo, que pode aumentar a exigência de nota mínima para os cursos. Com a atual nota de corte, 13 900 cursos podem receber alunos pagos pelo governo. Mas o número cairia para 5 200 se a nota mínima aumentasse para 4. “Apoiamos qualquer medida que ajude a melhorar a qualidade”, diz Elizabeth Guedes, diretora da Abraes.

“Mas só cobrar não basta. É preciso melhorar o ensino médio para que os estudantes cheguem mais preparados à universidade.” Em meio ao debate, até o fechamento desta edição, as quatro maiores redes de ensino superior já tinham perdido 12 bilhões de reais de valor de mercado em 2015.

FONTE: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1082/noticias/redes-privadas-de-ensino-ganharam-fortunas-com-governo

Enfim, o desespero

Por Vladimir Safatle

“A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças.” A frase é de Marx, enunciada há mais de 150 anos. Ela lembrava como situações aparentemente sem saída eram apenas a expressão de que enfim podíamos começar a realmente nos livrar dos entulhos de um tempo morto.

Há tempos, insisti que o lulismo entraria em um esgotamento. Era uma questão de cálculo. Chegaria um momento em que o crescimento só poderia continuar por meio de políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação. Afinal, estamos falando de um país que, ao mesmo tempo, apresenta crescimento econômico próximo a zero e bancos, como o Itaú, com lucro anual de 20 bilhões de reais. Um crescimento de 29% em relação a 2013, com inadimplência recuando para mínima recorde.

“Políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação” significam, neste contexto, ir atrás do dinheiro que circula no sistema financeiro e seus rentistas blindados. Mas isto o governo não seria capaz de fazer. Difícil fazê-lo quando você também se torna alguém a frequentar a roda dos dançarinos da ciranda financeira. Ninguém atira no próprio pé, ainda mais quando se é recém-chegado à festa.

Restaram ao governo federal duas coisas. Primeiro, chorar por não ser tratado como um tucano. É verdade. Nada melhor no Brasil do que ser tucano. Como acontece hoje no Paraná, você pode quebrar seu Estado, colocar quatro de suas universidades públicas em risco de fechamento por falta de repasse e, mesmo assim, irão te deixar em paz. Nenhuma capa de revista sobre seus desmandos nem sobre seus casos de corrupção.

Por estas e outras, o sonho de consumo atual de todo petista é ser tratado como um tucano. Eles até que se esforçaram bastante.

Fora isto, resta ao governo ser refém de um Congresso que ele próprio alimentou. Na figura de gente do porte de Eduardo Cunha e seus projetos de implementar o “dia do orgulho heterossexual”, entregar o legislativo à bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala) e contemplar cada deputado com seu quinhão intocado de fisiologismo, o Brasil encontra a melhor expressão da decadência e da mediocridade própria ao fim de um ciclo.

Neste contexto, podemos enfim ver claramente como as alternativas criadas após o fim da ditadura militar não podiam de fato ir muito longe. Nenhuma delas sequer passou perto da necessidade de quebrar tal ciclo de miséria política dando mais poder não aos tecnocratas ou aos “representantes”, mas diretamente ao povo, que continua a esperar seu momento.

Por isto, a situação desesperadora me enche de esperanças.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP 

FONTE:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/540154-enfim-o-desespero

A direita e o monopólio do xingamento

Uma coisa que deveria me impressionar, mas não impressiona, é a determinação da direita brasileira de querer exercer o monopólio do xingamento. Não fui claro? Eu explico! 

Nos últimos meses, especialmente após a derrota de Aécio Ne (ver)!, temos assistido a um verdadeiro tsunami de xingamentos contra a presidente Dilma Rousseff e o PT. É ladrão para lá, é ladrão para cá, e por ai vai. Enquanto isso, ficam os tucanos e demais direitistas se apresentando como vestais da moral e dos bons costumes, como se as evidências factuais não demonstrassem que se há algo em que não podem apontar o dedo é sobre ser corrupto ou não. Afinal de contas, a privataria tucana está ai debaixo dos olhos de quem quiser olhar!

E o interessante é que nem é preciso ser petista ou defensor do governo Dilma para ser imputado como defensor de seus malfeitos. Basta apontar o dedo para o fato de que a direita rouba igual ou mais do que o PT para se ouvir desaforos tão grandes quanto a tunga que foi feita por FHC no patrimônio público brasileiro quando entregou as estatais em troca de moeda podre e com subsídios do BNDES!

Isso tudo é feito para que com o monopólio do xingamento estabelecido, ninguém possa pensar para além desse cenário de falsa diferença moral que os tucanos e seus aliados na extrema direita querem pintar.

Para mim é simples: na atual conjuntura não há que se poupar Dilma e PT de suas culpas. Mas dai achar que todos os males estão concentrados neles é muita ingenuidade ou, mais simples ainda, desonestidade pura.

Se Dilma é mãe do “Petrolão”, FHC é o que? Avô?

O Instituto Teotônio Vilela (pobre Teotônio!), braço pseudo-intelectual do PSDB, emitiu hoje uma nota intitulada “A mãe do petrolão” cujo mote é colocar na presidente Dilma Rousseff, o papel de líder do esquema de corrupção dentro da Petrobras que veio a ser alcunhado de “Petrolão” (Aqui!).

Pois bem, como várias das deleções indicam que o esquema de corrupção existente dentro da Petrobras foi iniciado ainda no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), já que alguns dos personagens pegos com a boca na botija foram colocados lá por indicação do PSDB e seus aliados, eu fico me perguntando sobre qual seria o papel destinado a FHC neste árvore corrupta! Pela lógica tucana, ele deve ser o avô!

Agora, venhamos e convenhamos, essa coisa do PT e do PSDB ficarem se chamando de corruptos configura aquela velha máxima de que todos os que se acusam mutuamente falam a verdade. Seria cômico, se não fosse trágico!

Enquanto Dilma abraça austeridade e torpedeia direitos, gregos elegem partido antiausteridade

Syriza party supporters

Esse início de 2015 está sendo para lá de interessantes contrastes. Aqui no Brasil, tendo vencido com um discurso antiausteridade, Dilma Rousseff emplacou Joaquim Levy, um “Davos Boy”, no Ministério de Fazenda, e desandou a enfiar a tesoura em parcos direitos acumulados pela classe trabalhadora. Enquanto isso, o povo grego que conviveu nos últimos anos com medidas extremas de austeridade imposta pela troika (FMI, Banco Central Europeu e União Européia) e que jogaram a Grécia num precipício social e econômico sem precedentes.

Os votos ainda estão sendo contados, mas já se sabe que o partido Syriza vai assumir o poder na Grécia (Aqui!), o que deverá obrigar uma mudança de posição por parte da União Européia e do Fundo Monetário Internacional no tratamento da impagável dívida grega, a qual se suspeita já foi paga várias vezes.

De quebra, há a possibilidade de um resultado semelhante na Espanha, onde o Podemos está posicionado para produzir um resultado semelhante ao que o Syriza produziu hoje na Grécia.

E como essa rejeição dos programas de austeridade também está crescendo em outros países da Europa, é provável que ainda tenhamos outros desdobramentos em outras partes da União Européia.

Se isso realmente acontecer, quero ver como é que o neopetismo vai explicar aos trabalhadores brasileiros todas suas políticas de austeridade e cortes de direitos. No mínimo, vai ser complicado. A ver!

Lênin e a rota de fuga de petistas

Por Aldo Fornazieri

Embora muita gente de esquerda tenha dado um adeus a Lênin ele está e permanecerá entre os maiores taticistas e estrategistas da história política. Ele está também no seleto grupo dos grandes pensadores da ação política como atividade autônoma. Junto com Antônio Gramsci, ele foi um dos poucos líderes e teóricos marxistas que tinha a clareza de que a atividade política tem sua especificidade autonomia em relação ao econômico e ao social e, por isto, é portadora de poder e força constituintes do real ou de sua transformação. Neste sentido, os dois se ligam de forma inarredável ao pensamento de Maquiavel. Gramsci o faz de forma explícita teorizando sobre o legado maquiaveliano para a política moderna. Em Lênin, esta ligação aparece de forma autoevidente no conteúdo de seus textos. Não é preciso se considerar leninista – como não me considero – para reconhecer os méritos do líder da revolução russa. 

Muitos militantes do PT, no alto de sua arrogância, e mesmo se considerando portadores da verdade e sábios da política, deveriam estudar Lênin. Não resta dúvida de que o PT agrega militantes da melhor qualidade, que podem ser encontrados entre os militantes históricos do partido e nos combativos militantes dos movimentos sociais. Mas não restam dúvidas também de que parte dos militantes se degradou política e moralmente com a chegada do partido ao poder. Mais do que isto: existe hoje uma militância neopetista adesista e mal formada politicamente que se armou com os piores vícios do oportunismo para justificar os erros cometidos pelo partido e pelo governo.

Em que pese todas as evidências de que existem erros e corrupção no governo e no partido, os neopetistas adotam duas rotas de fuga para acobertar esses males ou, simplesmente, de forma esquizofrênica, negar a realidade. A primeira rota de fuga consiste na sustentação da tese de que todas as acusações não passam de uma conspiração comandada pela grande mídia – o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Qualquer crítica dirigida ao partido ou ao governo, mesmo que ela venha de petistas ou de eleitores do partido, é desqualificada com  adjetivos e identificada como uma ação do PIG. Essa atitude corresponde a aquela dos militantes de extrema-direita, que demonizam o PT e o governo por uma rejeição irracional ao que eles representam. Ambas as atitudes são antidemocráticas e fascistizantes. Para esses militantes, a ação penal 470 (mensalão) é uma perseguição, o governo Dilma não errou na condução da economia, a Petrobras não foi dilapidada e assaltada por grupos corruptos etc.

A segunda rota de fuga consiste na justificação da corrupção, com a alegação de ela é realidade corrente, de que é preciso entrar no jogo para poder vencer eleições e governar, de que os outros partidos também são corruptos, mas são mais espertos e não se deixam pegar ou de que os programas sociais dos governos petistas compensam a corrupção. Os que adotam essa justificativa não viveram a construção do PT na oposição ou se esqueceram que o partido se fortaleceu criticando tudo isto e defendendo a ética na política.

No primeiro caso – colocar a culpa nos outros e fugir de suas próprias responsabilidades – tem-se aquela clássica falta de ética, pois, como alertava Weber, quem assim age não deixa revelar os verdadeiros interesses que defende. Ele sugere que se poderia tipificar como crime político a atribuição da culpabilidade aos outros e a fuga da responsabilidade própria. E note-se que essa conduta de setores petistas hoje sequer é feita em nome de uma ética das convicções, mas na ausência dela.

O segundo caso expressa uma capitulação oportunista à realidade estabelecida por um sistema corrupto e a todos os seus males. Aqui já não há nem convicções e nem causas, pois a corrupção é o puro reino da manipulação dos meios em nome de interesses pessoais ou grupais. Os neopetistas classificam como moralismo qualquer cobrança por moralidade, transparência e responsabilidade para com a coisa pública. Tal como no mundo antigo a corrupção era o maior dos males das repúblicas, ela o continua sendo nas democracias modernas.

Na verdade, o que falta ao PT como um todo e nos neopetistas em particular é o exercício da crítica e da autocrítica. E aqui é preciso retornar a Lênin. Embora ele adotasse as noções de crítica e autocrítica vinculadas a um critério de classe, na verdade, o conceito que esse par de termos expressa pode assumir uma dimensão universal e erigir-se e momento metodológico fundamental da atividade política. Crítica e autocrítica constituíam a essência da metodologia da ação partidária. A sua negação constituía o oportunismo político, assim definido pelo líder russo; “O oportunista não trai o seu partido, não lhe é infiel, não o abandona. Continua a servi-lo com sinceridade e zelo. O seu traço típico e característico é a maleabilidade instantânea do seu temperamento, a sua incapacidade para resistir à moda, a sua miopia política e falta de caráter. O oportunismo é o sacrifício dos interesses de longo prazo e essenciais do partido aos interesses momentâneos, transitórios e secundários”. Grosso modo é isso que se vê no PT quando aderiu a práticas políticas nefastas que já estavam postas antes de o partido chegar ao poder e que continuaram com o partido no poder, como evidencia o caso da Petrobras e outros casos.

Crítica e Autocrítica Como Método

Em relação à autocrítica como método permanente de retificação da ação do partido, Lênin foi categórico ao afirmar: “Ninguém poderá nos destruir, exceto os nossos próprios erros”. A partir disso passa a criticar a presunção dos partidos revolucionários que se recusam a perceber suas fraquezas, seus erros e deixam de ser transparentes. A dogmatização posterior que contaminou os partidos comunistas e a presunção de que eram portadores da verdade, foi fatal para a derrota do próprio comunismo. Se há um mérito que se possa reconhecer ao Partido Comunista Chinês é o de que não abandonou o método da autocrítica. Não é por acaso que o ex-ministro e dirigente partidário Bo Xilai foi condenado à morte por corrupção em 2013. Na semana passada mesmo, o diretor de uma empresa foi condenado à morte pelo mesmo motivo. Ou seja, o partido sabe fazer o ajuste com seus próprios erros e a autocrítica é um método aplicado no exercício geral do poder, valendo também para a condução econômica.

Para Lênin, a autocrítica, no sentido geral do termo, significava reconhecer abertamente os erros praticados, descobrir as causas que os geraram e buscar soluções e meios para corrigi-los. Assim, pode-se reconhecer na autocrítica um método inerente à estratégia da organização política, pois sem sua incorporação enquanto método permanente, a organização tende à crise interna e ao fracasso.

A crítica e a autocrítica eram entendidas por Lênin como dois momentos de um mesmo método. A crítica é necessária para que o partido seja uma organização capaz de compreender a realidade e, ao mesmo tempo, uma organização de combate. A autocrítica evita a derrota pelo erro, a presunção, o dogmatismo e a própria corrupção do partido. Para Lênin, a autocrítica era indispensável para a formação de quadros e dirigentes capacitados do partido, portadores de um caráter moral resoluto. Em termos específicos, a autocrítica é aquele ato em que o militante ou o partido, oficialmente, reconhece seus erros e suas culpas, de forma clara e pública. Dessa forma, o partido não pode ser monolítico. A sua unidade deve ser construída a partir dos seus conflitos internos, tendo por base os pontos de vista divergentes. Escamotear as divergências, negá-las, desqualificá-las é o caminho mais curto para acobertar os erros em nome de interesses escusos que, normalmente, são o combustível da corrosão moral e política do partido e de uma parcela de seus quadros e militantes.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

FONTE: http://jornalggn.com.br/noticia/lenin-e-a-rota-de-fuga-de-petistas-por-aldo-fornazieri

 O ministério de Dilma e a esquerda dos manifestos

Por Sérgio Domingues
A nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda foi saudada pelos editoriais da grande imprensa e pelo “mercado”. O indicado promete “ajuste fiscal”. Definição genérica para mais apertos nos já estrangulados programas sociais. Enquanto isso, continua o pagamento dos juros da ilegítima dívida pública que come metade dos orçamentos públicos. 

Dias atrás, intelectuais e dirigentes de movimentos sociais divulgaram um manifesto contra a indicação de Levy e Kátia Abreu para o ministério. Foi assinado por lideranças e personalidades que apoiaram a reeleição de Dilma.

O episódio poderia lembrar as reações do PCB ao ministério montado pelo governo Goulart no início dos anos 1960. Os comunistas faziam pressões para que o presidente nomeasse ministros menos hostis às lutas populares e operárias. Mas a comparação é frouxa. 

São momentos históricos bem diferentes. Goulart era um latifundiário que foi empurrado para a esquerda pelos golpistas de sua própria classe. Os governantes petistas se jogaram nos braços da direita porque viraram as costas para a classe da qual surgiu e onde se fortaleceu.

Por outro lado, acerta quem diz que Dilma não tinha opção. Há 12 anos, o PT governa sem romper com o essencial da política neoliberal. Agora que o País caminha para uma crise econômica e a reeleição foi conquistada a duras penas, os petistas jamais mudariam de rumo. 

Muito mais grave é a fragilidade da reação da maior parte das forças de esquerda. Nos anos 1960, o PCB também ficou a reboque de um governo reformista. Mas, pelo menos, convocou uma greve geral por um “gabinete nacionalista”. Hoje, nos limitamos ao lançamento de manifestos. 

FONTE: http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2014/11/o-ministerio-de-dilma-e-esquerda-dos.html

Esquerda do PT pede para Dilma desistir de Kátia Abreu. E se ela insistir, vão fazer o que?

http://3.bp.blogspot.com/-a1UNScDA7vk/ThJt_G1iXhI/AAAAAAAAC0w/uTDhaGaM-ws/s1600/129_328-alt-28-MHG-pais-katia-abreu.jpg

Sai do PT em 1998 quando assisti à sua irreversível guinada à direita que ficou célebre por uma entrevista de José Genoíno à Revista Exame onde anunciava o abandono da luta pelo socialismo enquanto bandeira estratégica do partido. Desde então assisto até com alguma incredulidade a insistência dos chamados esquerdistas do PT.  

É forçoso reconhecer que a esquerda é cada vez mais diminuta dentro dos órgãos dirigentes do PT, e hoje não é nem sombra do que foi em termos de representação. Além disso, muitos dos que se dizem de esquerda estão também adaptados aos usos e costumes que imperam na direita petista.

Agora com o convite feito por Dilma Rousseff para que a senadora/latifundiária Kátia Abreu assuma o poderoso ministério da Agricultura, a chamada “esquerda petista” veio a público pedir para que a presidente desista do convite.

Como Dilma não é de voltar atrás em suas decisões, fico pensando no que farão os esquerdistas do PT para mostrar o seu desprazer. Arrisco que farão pouco ou quase nada, tal qual a sua força objetiva do neoPT nos dias de hoje.  E depois que engolirem a pílula amarga chamada Kátia Abreu, a esquerda do PT vai continuar seu papel de ser a retaguarda de um governo neoliberal. A ver!