Filhos de pais e mães diferentes, PT e PSDB tem um gene em comum: o da corrupção

O Brasil tem assistido nas últimas semanas um campeonato bizarro entre o PT e o PSDB que querem mostrar a todos nós que um roubou menos do que o outro. Esse tipo de disputa é, no entanto, reflexo da estrutura de poder que se mantem intacta desde os tempos coloniais, e agora desaguou em casos explícitos de roubalheira oficial.

A maioria da população assiste com alguma indiferença a todo esse teatro de absurdos, pois o reme-reme de todos os dias é muito concreto e real. O que é lamentável, pois sabemos que a vida no Brasil poderia ser muito melhor para todos se o povo se cansasse de uma vez por todas em ver as nossas riquezas pilhadas por uma minoria ínfima da população.

E essa minoria ínfima ainda coloca um bando de desavisados para gritar pela volta dos militares, enquanto bebem suas champanhes caras e fumam seus charutos cubanos que eles sabem por experiência são os melhores do mundo. É que na hora de desfrutar das coisas excelentes da vida, os apologéticos de Miami se ralam para a origem ideológica do produto.

Quem tem medo do Petrolão? Mais fácil perguntar quem não tem

Enquanto muitos cidadãos, alguns até honestos, ficam esperneando nas ruas e pedindo o impeachment de Dilma Rousseff por causa do chamado escândalo do Petrolão que, aliás, deveria ser chamado de “estripulias das grandes construtoras”,  os principais líderes do PSDB agora adotaram um tom estranhamento conciliador.

Eu até estranharia se não tivesse acessado a figura que vai abaixo e que mostrar algo bastante interessante: seis das nove empreiteiras citadas no caso do Petrolão financiaram a campanha do candidato Aécio Neves! Em outras palavras, os grandes doadores da campanha de Aécio Neves estão agora enrascados com a justiça.

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Por essas e outras é que eu quero ver até onde vai a apuração desse escândalo. É que seria uma verdadeira revolução nos modos e costumes da política nacional se todos os culpados, e não apenas os petistas, fossem parar nas barras dos tribunais.  Mais fácil é tudo terminar em pizza! A ver!

O que seria a democracia burguesa senão a ditadura da burguesia?

Tenho visto entre professores da UENF, e em certos setores direitistas da sociedade brasileira, repetidas manifestações ressentidas acerca da reeleição de Dilma Rousseff. Para mim, o chorôrô é até aceitável, menos quando se transpõe os limites da incitação ao golpe de Estado, como fizeram manifestantes liderados por Lobão e um dos filhos de Bolsonaro na Avenida Paulista. 

A invocação da volta dos militares seria patética se as pessoas que o fazem não estivessem praticando crimes contra a segurança nacional, pois teve gente defendendo o fuzilamento de Dilma Rousseff e, até onde eu saiba, a ordem de prisão ainda foi dada já que estão propondo a eliminação física de uma presidente democraticamente eleita, ao contrário do ocorreu com os manifestantes de Junho de 2013 que protestavam contra as políticas do governo federal.

Mas deixemos esses defensores do golpe de Estado para examinar algo que é recorrente a denúncia de que o PT quer implantar uma ditadura comunista no Brasil. Como um estudioso colateral da história da Revolução Russa e de todos os movimentos revolucionários que mudaram parcialmente a característica do Estado em diversos Estados-Nação, tenho a dizer que nunca houve e não existe uma ditadura comunista, pois jamais tivemos a instalação do comunismo. Se as pessoas quiserem ser mais precisas e dizer que foram ditaduras de partidos que se reclamavam comunistas, isto, tampouco, resolverá o debate acerca do tipo de ditadura que eles instalaram. Haveria ainda que debater o contexto histórico em que isto se deu, bem qual foi o papel dos Estados burgueses frente a esse avanço de uma forma distinta de controlar o Estado.

Eu até indico que alguns mais desavisados assistam a uma série da rede estadunidense CNN chamada “Cold War”, onde é dito com todas as letras como os EUA e a OTAN sabotaram, mataram e fizeram guerras em nome de uma suposta democracia, que no final do dia visava apenas garantir a sobrevivência de suas corporações. Em relação a isto nunca vi nada dito aqui.

Por último, precisamos urgentemente de um mini-curso sobre as origens da democracia liberal burguesa e o que ela representa em termos do controle cotidiano da vida das pessoas. Eu sugeriria de cara a leitura de um autor maldito entre os defensores da atual forma de democracia que a burguesia nos impõe para esconder sua ditadura de classe. O nome dele é Thomas Paine, um pensador do Iluminismo escocês, que teve uma incrível trajetória de militância democrática, tendo ajudado na confecção da constituição dos EUA. Eu sempre digo que a visão de Paine sobre a democracia se implantada no Brasil resultariam numa revolução, dada a radicalidade de sua visão do que seria democracia. Além disso, outro xodó teórico dos que acreditam na democracia burguesa que poderia ser lido é Alexis de Tocquivelle, cuja principal obra se chamou “Democracia na América”.  É capaz que algum leitor desatento da obra vá pensar que a escreveu foi o falecido presidente venezuelano Hugo Chavez. Entre outras coisas Tocqueville que só uma sociedade civil organizada livremente poderia impedir que o Estado (burguês) se tornasse ditatorial!

Finalmente, como diria Luciano Genro, há que se estudar. Até para que não se corra o risco de se ficar espalhando elementos de senso comum sem que se faça a devida análise de como outros partidos se comportam, aqui me refiro ao PSDB, nos mesmos tipos de esquema de ataque ao tesouro público. E aqui não custa lembrar que enquanto o pessoal do PT foi condenado sem provas como nos casos dos Josés (Genoíno e Dirceu), o pessoal do PSDB mineiro nem foi a julgamento. Se é para defender o combate à corrupção, tem que valer para todo mundo.

Luiz Felipe Pondé e sua verborragia de ultra direita

Acabo de ler mais um dos textos redigidos por um dos líderes do pensamento ultraconservador brasileiro que atende pelo nome de Luiz Felipe Pondé (Aqui!). Das muitas idiotices escritas em voz alta por Pondé neste pequeno mas aborrecido texto é de que o PT estaria tentando impor uma espécie de mordaça na “imprensa livre” brasileira.

Esse besteirol já foi dito antes, mas vive sendo insistido para quem sabe dar um verniz de verdade às proclamações de que estamos sendo tomados por uma nova espécie de ameça comunista, o Bolivarianismo. Esse tipo de agitar de fantasmas para justificar discursos de ultra-direita até engana os leitores da Revista Veja, mas não deveria causar qualquer efeito nos que estendem suas leituras para depois do lixo editorial que é promovido pela família Civita em claro, defendido por Pondé como livre expressão.

Aliás, se o PT quisesse realmente contribuir para uma mudança substancial na qualidade editorial dos órgãos da imprensa corporativa, a coisa mais simples que deveria fazer seria cortar as gordas verbas publicitárias com que continua alimentando essa forma de esgoto jornalístico que arreganhou seus dentes nas últimas eleições. Do contrário, continuaremos vendo o tipo de cobertura jornalística que temos visto, e ainda bancado com dinheiro público.

Como estou terminando de ler o livro “Os Arquivos de Snowden” do jornalista Luke Harding,   eu indicaria essa leitura a quem quer saber como a Inglaterra exerce uma pesada mão de ferro para controlar o que é publicado em seus jornais, especialmente quando se trata de denunciar crimes cometidos pelo Estado contra seus cidadãos. A esse controle, Pondé e outros arautos do ultra-conservadorismo brasileiro devem dar outro nome. É que controle da liberdade de expressão quando feito por governos de direita deve parecer bonito para esse tipo de “intelectual”.

Finalmente, consta no biografia de Pondé que ele fez pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Fico imaginando com quem ele teve interação nesse período em Israel. O chefe do Mossad é a primeiro “orientador” que me veio à mente.

Petrolão e a generalização da corrupção. Até os “indignados” tucanos estão envolvidos

Cartel da Lava Jato doou R$ 456 milhões

Ricardo Brandt e Valmar Hupsel Filho. Colaborou Daniel Bramatti

As empresas acusadas de formar um cartel para lotear grandes licitações públicas no País, segundo investigação da Operação Lava Jato, doaram R$ 456 milhões a PT, PMDB, PSDB, PSB, DEM e PP nos últimos sete anos, sem fazer distinção entre situação e oposição. Parte do dinheiro foi repassada às legendas em valores fixos e mensais.

Segundo o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef, parte desse dinheiro teve como origem esquemas de fraudes em contratos, lavagem de dinheiro e corrupção, e foi parar nas campanhas presidenciais de 2010 do PT e do PSDB. Levantamento feito pela reportagem mostra que o PT e o PSDB, juntos, receberam 55% do total repassado aos seis partidos via diretório nacional. Os R$ 456 milhões que irrigaram as contas dessas legendas de 2007 a 2013 – período que o Tribunal Superior Eleitoral publica para consulta na internet – representam 36% do total doado às seis legendas por pessoas jurídicas em geral, no período.

Esse tipo de doação é legal, mas tem uma fiscalização mais frouxa em relação à eleitoral, e sempre foi usada para tentar dissimular a origem do dinheiro que abastece campanhas.

Repasses mensais. O mapa do dinheiro feito pelo Estado mostra que as construtoras fizeram repasses mensais em valores fixos muitas vezes e pulverizados por partidos, tanto da situação como oposição. É o caso da Andrade Gutierrez, líder no total repassado: R$ 128 milhões aos seis partidos. Para o PT, em 2010, ela deu R$ 15 milhões, sendo que alguns mensais fixos, como três depósitos de R$ 700 mil cada entre fevereiro e abril. Para o PSDB, a Andrade Gutierrez fez 24 repasses, totalizando R$ 19 milhões. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE: http://atarde.uol.com.br/politica/noticias/1632251-cartel-da-lava-jato-doou-r-456-milhoes

Luciana Genro e a trajetória das esquerdas petistas

Por RUDÁ GUEDES RICCI
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Ontem, a estrela de Luciana Genro brilhou. Foi protagonista do maior ataque que se viu no Brasil num debate eleitoral televisionado (no dia de setembro, promovido pela CNBB) . Em poucos minutos, desferiu críticas e nomeou erros e escolhas do PSDB, acusando o candidato tucano, Aécio Neves, de parasita, de estar num partido que ensinou o PT a roubar, de ser fanático pela privatização a ponto de usar dinheiro público para construir aeroportos de uso particular. Escrever, neste momento, suas palavras, me causa certo constrangimento, tal a potência de sua ofensiva. Algo inédito que, obviamente, ressoa como o inesperado.

Luciana Krebs Genro não é novata em política. Nasceu em 1971. Filha de Tarso Genro, que veio do Partidão e se tornou uma das lideranças do PT gaúcho, dividindo este principado com Olívio Dutra. Neta de Adelmo Genro, militante do trabalhismo gaúcho que foi perseguido pelo regime militar. Começou a atuar politicamente com 14 anos de idade (no emblemático ano de 1985, ano da posse de Sarney como presidente da República) numa escola que leva o nome do ex-presidente do Rio Grande do Sul e formulador da Constituição Estadual deste estado em 1891, o positivista Julio de Castilhos. Na sua primeira eleição, disputando vaga na Assembleia Legislativa, em 1994, com 23 anos de idade, se torna deputada, logo depois do movimento pelo impeachment de Collor. Sua pauta mais significativa como parlamentar foi a denúncia de corrupção em órgãos de saneamento do Rio Grande do Sul. Reeleita em 1999, enfrentou a dura situação de apoiar a greve dos professores gaúchos num momento em que seu partido, o PT, governava pela primeira vez o Rio Grande do Sul. Foi punida pelo partido. Em 2002 foi eleita deputada federal, ainda pelo PT. A proposta de reforma da previdência enviada pelo presidente Lula ao Congresso Nacional foi o estopim para o confronto final que levou à sua expulsão do PT. Luciana foi uma das fundadoras do PSOL.

Reproduzi rapidamente estas passagens de seu currículo político porque se confunde, de alguma maneira, com a trajetória de várias correntes petistas à esquerda.

O PT teve várias correntes internas de inspiração marxista. A grande maioria de origem trotskista e poucas de inspiração maoísta e até mesmo origem stalinista. Várias dessas correntes se estruturaram, até o final dos anos 1980, como partidos encastelados no PT. Algo, aliás, que ocorreu com o MDB (com a “hospedagem” do PCB e PCdoB) e, depois, com o PMDB (talvez, o caso mais conhecido seja do MR-8).

As correntes trotskistas mais famosas do PT foram a Convergência Socialista (hoje, PSTU, da corrente internacional morenista), a Libelu (vinculada à corrente internacional lambertista) e a Democracia Socialista (vinculada à corrente internacional mandelista). Mantiveram uma relação de amor e ódio com Zé Dirceu (ex-Ação Libertadora Nacional/ALN e ex-Movimento de Libertação Popular/Molipo). Embora Dirceu tenha militado na frente de massas da ALN (e não na militar), foi se revelando como dirigente petista muito mais afeto à burocracia e comando central partidário que o próprio Marighela.

Havia outras correntes derivadas do Partidão ou com proximidade com a lógica soviética, como MCR ou Ala Vermelha ou até mesmo o PRC (Partido Revolucionário Comunista), que teve Ozéas Duarte, Aldo Fornazieri e José Genoíno nas suas fileiras. Mas nada que se comparasse à articulação liderada por Zé Dirceu.

O fato é que este impasse interno entre correntes marxistas criou várias histórias pouco públicas do PT. As lutas de massas, as campanhas eleitorais e pronunciamentos de lideranças nacionais formavam uma enxurrada que encobria os afluentes à esquerda da disputa intestina dessas correntes.

Assim, numa divisão didática, seria possível sugerir várias histórias paralelas que conformaram o PT: a história da construção de sua burocracia interna, a história das lutas de massas, a história da organização eleitoral e construção da governabilidade do governo do país e a história da disputa entre correntes internas, em especial, as de inspiração marxista.

A história da construção da burocracia interna se embaralhou com a da organização eleitoral e montagem do arco de alianças e de governabilidade do PT. E foi esta articulação que, a partir dos anos 1990, alijou as forças políticas envolvidas com as outras histórias paralelas do PT (a das lutas de massa e a da disputa programática entre correntes internas do partido).

O ataque de Luciana Genro a Aécio Neves no debate organizado ontem (16) pela CNBB lembrou os velhos tempos do PT, anterior à vitória de Lula em 2002. Dura e afiada, Luciana encarou o adversário como opositor de classe. Não perdoou um segundo. Típico embate dos primeiros anos da vida do Partido dos Trabalhadores e de toda tradição de esquerda marxista onde o programa está acima de tudo. Aécio revelou total desconhecimento deste terreno de disputa. Fugiu, tentou mudar de assunto, tentou desqualificar Luciana. Continuou sendo caçado pela verve metálica da candidata do PSOL como num carrossel enlouquecido.

A trajetória de Luciana Genro cruza com a de outros militantes que foram alijados do centro do processo decisório do PT.
Daí certa surpresa de muitos que acompanharam o debate de ontem. Até então, era Eduardo Jorge, outro ex-militante petista, médico sanitarista oriundo do Partidão que sempre atuou na periferia da cidade de São Paulo, que chamava a atenção pela desenvoltura e perspicácia, além de objetividade e clareza programática. Mas havia mais gente oriunda do PT no debate de ontem. E gente que nunca esteve no centro do poder do lulismo. Era o caso de Luciana Genro. Forjada no PT pré-lulismo, vimos na tela de televisão ressurgir a escola das correntes internas do PT. Uma agressividade desconcertante, foco ideológico e programático, rapidez de raciocínio e coragem.

A ausência deste PT no PT de hoje é o que cria tanta perplexidade em militantes contemporâneos do partido de Lula quando jovens saem às ruas em protesto. E é o que cria frio na barriga quando Dilma Rousseff entra no estúdio para debater com seus adversários.

A ausência, enfim, é o que está transformando o PT em Partido da Ordem.

Rudá Guedes Ricci é sociólogo. Blog: http://www.rudaricci.com.br/

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10059:submanchete180914&catid=72:imagens-rolantes

Por favor, basta de chororô. Quem pariu Marina que a embale

Eu confesso que já cansou a minha beleza ler centenas de diatribes escritas por jornalistas, políticos e blogueiros alinhados com a manutenção do PT no governo federal sobre a ex-ministra Marina Silva. É que para entender como Marina se tornou o fenômeno eleitoral que se tornou, ao menos momentaneamente, seria preciso apenas olhar o que ela fez durante 6 anos nos dois mandatos do presidente Luis Inácio Lula da Silva, e de como ela usou as contradições da forma neopetista de (des) governar para se tornar uma alternativa viável a “tudo que ai está”. 

Para esses tantos que hoje se assombram com a sombra da ex-seringueira, só posso dizer…. quem pariu Marina que a embale!

E mais, se olharmos de perto as propostas do PT, do PSDB e do PSB, o que se pode antever é que em 2015, a classe trabalhadora, camponeses, quilombolas, indígenas e a juventude (isto é, a maioria do povo brasileiro que hoje vive à margem da acumulação capitalista) têm mais é que se preparar para resistir contra o avanço da espoliação de direitos e territórios. Afinal de contas, com uma mudança aqui e ali, o que as plataformas eleitorais de seus candidatos apontam é para mais ataques. Pode até variar o tamanho da bordoada, mas que virão, virão. Independente de qual desses partidos consiga ser o vencedor das eleições. Afinal, os partidos da ordem já anunciaram o que querem. 

Encontrando Paulo Freire na Estação de Waterloo

Como já aprendi que nos países centrais um bom lugar para encontrar interessantes, e que nem sempre estão nas livrarias das ruas das áreas comerciais, são as livrarias que ficam dentro de estações de trem. Aproveitei o fato de que a estação de Waterloo é umas daqui de Londres onde se faz transferência do metrô para trens urbanos, e fui lá ver o que tinha.

Para minha surpresa, eis que achei o livro antológico de Paulo Freire, o “Pedagogia do Oprimido”, disponível para compra.

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Esse encontro me levou a duas reflexôes na seguinte ordem:

1) por que não estamos pensando mais em como transportar as práticas propostas por Paulo Freire para as nossas escolas e universidades?

2) Como Paulo Freire se sentiria hoje se estivesse vivo para ver no que se transformou o PT que ele ajudou a fundar?

Sonho das UPPs cariocas virou pesadelo

Astrid Prange, da redação brasileira da Deustche Welle (Voz da Alemanha)

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Era bom demais para ser verdade. Quando em dezembro de 2008, policiais e soldados ocuparam a primeira favela do Rio de Janeiro, sequer um único tiro foi disparado. De lá para cá, cerca de 40 das 300 favelas cariocas foram “pacificadas”. Traficantes de drogas tiveram que se mudar e procurar novos pontos de venda.

Mas, a menos de 50 dias da Copa do Mundo, o milagre parece estar se esfacelando perante a realidade. A aproximação do torneio de futebol parece atiçar os conflitos que estavam há tempos latentes dentro da sociedade brasileira. As recentes batalhas de rua em Copacabana mostram claramente que ficou para trás o tempo em que no Brasil as questões sociais eram simplesmente “resolvidas” com violência policial.

Ironia do destino, exatamente o governo do PT é que começa a sentir a revolta popular. Seus programas sociais tiraram nos últimos anos milhões de pessoas da pobreza. No entanto, o avanço social foi acompanhado por uma grande desilusão, pois muitos brasileiros logo se deram conta que o crescimento da renda não vem automaticamente acompanhado por mais direitos civis. A revolução da justiça social proclamada pelo PT se volta, paradoxalmente, contra seus próprios criadores.

A diferença entre sonho e realidade é enorme. Mesmo se hotéis de luxo são inaugurados em favelas com vista para o mar, o contraste há séculos existente entre as comunidades negligenciadas e as partes privilegiadas da cidade não foi superado. Moradores das favelas continuam tendo que se contentar com escolas deficitárias, empregos mal remunerados e um sistema de saúde sucateado. Os progressos muitas vezes permanecem longe das expectativas.

E mais: quem mora na favela ainda é considerado como um potencial traficante ou assaltante. A última vítima desse preconceito implacável foi o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde o ano passado, após ser detido “por engano”, confundido com um traficante por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Testemunhas afirmam que ele foi torturado até a morte. Dez policiais militares envolvidos no incidente estão presos.

O caso Amarildo enterrou para sempre a esperança de uma polícia nova e realmente pacífica. O desejo inicial de moradores de favelas de, finalmente, serem tratados com respeito pela polícia se transformou numa rejeição generalizada ao novo conceito de polícia pacificadora, deixando patente a certeza de que a tortura ainda é um método usado pela polícia brasileira quase 30 anos após o fim da ditadura militar.

Ainda não foi esclarecido se o dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, encontrado morto na terça-feira na favela Pavão-Pavãozinho, foi mais uma vítima dessa violência policial arbitrária. A guerra diária entre polícia e traficantes de drogas pode custar a vida de mais outros inocentes, como Amarildo. A história de sucesso da polícia pacificadora precisa de um milagre para virar realidade.

FONTE: http://www.dw.de/opini%C3%A3o-sonho-das-upps-cariocas-virou-pesadelo/a-17592359

Terrorismo é ter Bolsonaro como presidente da Comissão de Direitos Humanos

Por Leonardo Sakamoto

A proposta da lei antiterrorismo é tão nonsense que não vale a pena gastar bits com ela.

Mas se essa piada de mau gosto passar, sugiro contarmos também outra piada, aquela da punição retroativa com base na lei.

Afinal de contas, se parlamentares de um partido que tem entre suas fileiras pessoas que foram torturadas na essencial luta pela democracia passaram a achar que manifestação é terrorismo, então os seus companheiros sejam os primeiros julgados por essa definição do crime, com base em suas ações na ditadura. Fazendo um malabarismo jurídico, talvez possamos dizer que “terrorismo” não prescreve…

(Em tempo, eu concordo com a maior parte do que eles fizeram.)

E dá-lhe plano de marketing, campanha de comunicação e o Pelé gerando vergonha alheia com declarações ufanistas… Já não bastasse a gente ter que engolir um mascote de nome Fuleco (FU-LE-CO!!!), fornecer toalhas brancas com as iniciais da Fifa bordadas com fios de ouro e entregar cadáveres de operários mortos em “acidentes” nas obras dos estádios, ainda temos que ver uma tentativa de aprovação de lei restringindo direitos.

Tenho, aliás, uma sugestão de definição de terrorismo:

“Terrorismo é um partido que se diz historicamente ligado aos direitos humanos gastar um tempão discutindo se assume ou não a comissão ligada ao tema enquanto somos obrigados a assistir Jair Bolsonaro ameaçar presidi-la, falando os impropérios de sempre, na chantagem para que o PP herde uma comissão considerada mais importante.”

Conversei com deputados federais a fim de entender quem ficará com a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Alguns membros da bancada preferem perder Direitos Humanos do que a Comissão de Seguridade Social e Família, que tem tratado de questões de saúde. Segundo eles, isso pode causar impacto no programa Mais Médicos em ano eleitoral. Entendo politicamente. Mas não.

E alguém puxa a cordinha do mundo que acho que passou meu ponto e eu quero descer. O governo do Estado do Rio de Janeiro adota o terrorismo de Estado como forma de governar e tem gente que nunca abre a boca.

Pelo contrário, há veículos de comunicação que estão usando desavergonhadamente o cadáver de Santiago Andrade, como comentei em outro post, para tentar vender suas teses sobre manifestações, tentando criminaliza-las. Não diferem em nada dos políticos supracitados que querem aprovar leis que possibilitem punir protestos populares como atos terroristas. Até porque palavras, ditas em um megafone, machucam em massa.

“Se morreram, é porque são bandidos”, disse um comandante da polícia, tempos atrás, após uma operação em uma comunidade pobre no Rio de Janeiro.”

“Todos são suspeitos até que se prove o contrário”, afirmou outro.

“Foi igual a dar tiro em pato no parque de diversões”, resumiu um policial civil.

Em 2007, a polícia chegou chegando nos morros, cometendo uma verdadeira chacina, sem diferenciar, sem perguntar. Duas dezenas de pessoas morreram. Parte delas com tiros na nuca – o que demonstra uma mira incrível ou uma falta de vergonha gigante. Naquele momento, o Rio foi mais fundo em sua opção pelo terrorismo de Estado ao invés de mudanças estruturais em tempos de Jogos Panamericanos.

Para alguns, do governo, da mídia, do Congresso, mortos são lembrados enquanto úteis.

Pensando bem, entrega para o Bolsonaro a comissão mesmo. Faz sentido.

FONTE: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/02/13/terrorismo-e-ter-bolsonaro-como-presidente-da-comissao-de-direitos-humanos/