Estudos mostram lado nefasto do produtivismo acadêmico

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Por Evanildo da Silveira para a “Questão de Ciência”

Ninguém do mundo acadêmico desconhece a expressão – ou princípio, ou mandamento – “publish or perish”, em português “publique ou pereça”. Significa que um cientista que não publica artigos em periódicos especializados, relatando suas descobertas, não é produtivo, é irrelevante ou, no limite, não existe para a comunidade acadêmica. Ele terá dificuldades para progredir na carreira, conseguir financiamento para suas pesquisas e formar novos pesquisadores, pois não terá bolsas de mestrado ou doutorado a oferecer.

Aos poucos, no entanto, esse mantra draconiano começa a ser questionado. Ou pelo menos estudado. “O número de artigos científicos com o tópico ‘publish or perish’ tem aumentado nos últimos anos, publicados em revistas de diferentes áreas do conhecimento e não apenas em revistas dedicadas à cientometria, por exemplo”, diz o físico Peter Alexander Bleinroth Schulz, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Limeira. “A percepção é de que a cultura associada ao mandamento precisa ser mudada”.

De acordo com ele, é o que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionado no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos, em diferentes áreas, sobre este tema vem crescendo notavelmente nos últimos anos. Schulz cita um estudo realizado na área de Economia em universidades holandesas pelo pesquisador Henrik van Dalen.

O autor do trabalho explica que escolheu estudar as faculdades de Economia da Holanda porque elas alcançaram uma posição de destaque na Europa e vêm se internacionalizando rapidamente. Quarenta e três por cento dos estudantes delas são estrangeiros e a maioria das aulas nos departamentos de economia é ministrada em inglês.

Van Dalen detectou uma clara divisão entre os economistas. Aproximadamente dois terços dizem que a pressão para publicar tem mais pontos negativos do que positivos, e um terço vê apenas pontos positivos e não negativos. Essa divisão não ocorre por causa da pressão em si, pois todos a sofrem igualmente. De acordo com o autor, o posicionamento em relação ao princípio de publicar ou perecer está mais ligado ao lugar que se ocupa na hierarquia. Professores titulares têm uma atitude muito mais positiva quanto ao princípio.

Para o médico Guilherme Werneck, doutor em saúde pública e epidemiologia pela Universidade de Harvard e professor das universidades Federal (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o impacto do “publique ou pereça” é perceptível em várias áreas do conhecimento e gera preocupações sobre suas consequências na formação de pesquisadores e, ao final, na própria credibilidade da ciência. “Por isso, muitos grupos de pesquisa têm se dedicado a estudar este processo em diferentes áreas e contextos, enfatizando os seus efeitos em vários aspectos da vida acadêmica”, diz.

Entre esses aspectos, estão ética na pesquisa; credibilidade da ciência; redução do interesse pela carreira acadêmica; qualidade de vida e saúde mental de pesquisadores; desperdício de recursos com pesquisas e artigos pouco relevantes ou não inovadores; custos crescentes do uso de recursos de pesquisa para publicação; explosão de editoras e revistas científicas de má qualidade (popularmente conhecidas como revistas e editoras “predatórias”).

Segundo Werneck, existem muitos dados na literatura sobre esses temas. Como exemplo, cita um estudo feito na França que mostrou que os critérios de autoria do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) muitas vezes não foram seguidos, e que a “autoria concedida”, quando o nome de um pesquisador que não colaborou de modo significativo com o trabalho aparece na lista de autores,  era uma prática frequente. “O sistema ‘publicar ou perecer’ foi apontado como a principal causa desses abusos”, diz.

Outra pesquisa, realizada na Holanda, identificou que uma atitude negativa em relação ao sistema de publicação está presente em todos os níveis acadêmicos e campos disciplinares. Nesse estudo, pós-doutorandos e professores assistentes perceberam o maior estresse em relação à publicação, e os doutorandos notaram falta de recursos para enfrentar situações de estresse relacionado à demanda por publicação.

Werneck cita um terceiro exemplo. Um inquérito nacional entre pesquisadores biomédicos na Bélgica mostrou que 15% dos entrevistados admitiram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados nos últimos três anos. “A pressão da publicação foi frequentemente relatada (72%) e significativamente associada com maior gravidade de má conduta científica”, diz.

Os pesquisadores brasileiros não estão alheios ao assunto. “Existe uma iniciativa em andamento no país para replicar experimentos biomédicos realizados ao longo dos últimos 20 anos”, conta Werneck. “O trabalho poderá jogar luz sobre a confiabilidade da pesquisa publicada nessa área”.

Para o biólogo Demétrio Luís Guadagnin, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essas iniciativas e estudos que vêm sendo realizados mostram que a ciência é capaz de ser cética consigo mesma. “É uma autocrítica que está sendo feita”, diz. “Isso é bom, é o caminho para melhorar”. Mas enquanto a melhora não vem, as consequências do “publique ou pereça” vão continuar existindo.

Guadagnin vê dois lados na questão. “Há consequências boas e ruins (lembrando que o que é bom ou ruim depende de quem julga)”, explica. “Pelo lado bom, conforme o julgamento ortodoxo, a seleção dos melhores e os consequentes ganhos de eficiência e produtividade na academia. Pelo lado ruim, a deturpação dos valores superiores da ciência em favor de caminhos que facilitem a permanência e ascensão no sistema”.

Schulz é mais incisivo. Para ele, a principal consequência do princípio do “publique ou pereça” é que a publicação deixa de ser uma consequência natural da pesquisa para ser um fim em si mesmo. Em outras palavras, deixa-se de avaliar a ciência em si para, simplesmente, considerar o número de artigos e seus indicadores associados. “Em uma analogia econômica, deixa-se de lado a economia real para só olhar o mercado financeiro”, compara.

A química Teresa Dib Zambon Atvars, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acrescenta outras consequências, entre elas o surgimento de revistas com pouca qualificação e que publicam artigos com pouco ou nenhum critério de qualidade. “Na sequência, surge um comércio com as chamadas revistas predatórias, nas quais se paga para publicar”, diz. “Todos os dias os pesquisadores recebem convites para publicar ou para organizar números especiais, convidando colegas. Algumas dessas são sérias, têm impacto, são lidas, outras são apenas depósitos de papers impublicáveis em revistas mais sérias”.

Por isso, considera, o sistema precisa mudar. Caso contrário, a ciência corre risco de estagnação. No Brasil, ela diz que a alternativa é medir o potencial de inovação da pesquisa, não no sentido de gerar tecnologia, mas no de avaliar corretamente o que o trabalho traz de novidade em relação ao que vem sendo feito, no mesmo campo, pelos melhores grupos do mundo. “Isto significa mudar a cultura de avaliar resultado (o número de papers) para medir impacto (no que o trabalho feito muda a ciência)”, defende. “Não é fácil, mas é necessário. Exige uma mudança de paradigmas, uma cultura de avaliação e preparo para fazê-la”.

Segundo o biólogo Victor Jose Mendes Cardoso, professor aposentado do Instituto de Biociências do campus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para que ocorram mudanças deve ficar claro que publicar faz parte da vida de todo cientista. Quem não publica não divulga suas ideias e sua contribuição às ciências e à sociedade em geral. “A questão é que ‘publicar’ deve ser entendido num conceito amplo, não necessariamente a produção de papers, mas também outros meios de divulgação e de interação com o público alvo das pesquisas”, explica. “Atualmente, a produção de artigos científicos assume uma importância desmesurada. Isso precisa mudar”.

Evanildo da Silveira é jornalista

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Este texto foi originalmente publicado pela revista “Questão de Ciência” [Aqui!].

Ciência: um crescente mal-estar e a necessidade das mudanças, por Peter Schulz

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Por Peter Schulz para o “Jornal da Unicamp”

O mal-estar, para deixar claro de início, é em relação ao desmesurado universo da produção científica, bem como às práticas medir esta produção por meio do número de artigos publicados e de citações – que, ao serem adotadas, desmesuram ainda mais esse universo. Já escrevi vários textos neste espaço relacionados, direta ou indiretamente, a este tema. Mesmo instigado por novas fontes e acontecimentos, também sinto um mal-estar em retomar o assunto, afinal, já não falei sobre isso? Porém, pensando melhor e com essa advertência de possível autoplágio, a partir do que eu tenho observado, considero necessário retomar dois textos anteriores: o primeiro que também traz a palavra mal-estar no título[I] e o segundo sobre algumas reações a esse mal-estar e a percepção de que mudanças são necessárias[II]. O que mudou nos poucos anos entre esses textos e o que escrevo agora é que há tanto sinais de mudanças como de preservação da situação (ou seja, reações contra as mudanças). Então, no balanço, talvez valha mesmo a pena retomar a questão.

O adágio “publique ou pereça”, vulgo “publish or perish” é amplamente conhecido no mundo acadêmico e, aos poucos, fora dele. A expressão é antiga: já em 1951, Marshall MacLuhan teria escrito a Ezra Pound que “publicar ou perecer é o lema da espelunca”, sendo que o poeta chamara anteriormente as universidades de espeluncas. Ou seja, o lema é longevo, sobrevivendo e ganhando importância com o passar do tempo no mundo da pesquisa científica. Como exemplo, recolho das buscas um artigo de 1986, de uma médica, Marcia Angel: “Publish or perish: a proposal”[III]. O resumo do artigo, sintetiza a percepção da autora há 35 anos:

“Devido ao fato de que promoções e financiamento de médicos na medicina acadêmica estão estreitamente ligados ao número de publicações, pesquisadores sentem-se impelidos a publicar tão frequentemente quanto possível. Essa pressão leva a um número de práticas desafortunadas na publicação médica, incluindo realizar estudos triviais porque estes rendem resultados rápidos, o desnecessário relato do mesmo estudo em diferentes apresentações, relatar o estudo mais de uma vez e listar como autores pessoas com envolvimento marginal no trabalho. E pode ser também motivação para fraude. Uma maneira efetiva de reduzir essas ofensas e afirmar a supremacia do essencial sobre o volume […] é colocar um teto no número de publicações a serem consideras para fins de promoção ou financiamento. Cada publicação [considerada mais relevante] receberia assim mais atenção…”.

É exatamente a mesma discussão de hoje, passadas essas três décadas e meia! No meio tempo surgiram os rankings globais de universidades (começo do século XXI) que, como um vírus e suas variantes, infectaram o mundo acadêmico. Não é preciso dizer que os rankings são fortemente ligados aos indicadores. Assim, apesar dos diagnósticos bem anteriores à propagação desses novos vírus, até agora poucas medidas de distanciamento à ilusão e ao delírio foram tomadas. Essa frase remete a um artigo recente do jornalista Carlos Orsi: “Medo e delírio na comunicação da ciência”[IV]. O jornalista é atento e arguto observador do mundo da ciência e, 35 anos depois da médica norte-americana, dispara algo similar sobre uma plausível grande parcela dos trabalhos e o cenário em que se inserem:

“São trabalhos que existem porque é preciso cumprir alguma meta burocrática de publicações para conquistar este ou aquele índice neste ou naquele ranking, não porque havia uma questão legítima a ser respondida, um aspecto relevante da natureza a ser explorado, uma hipótese viável a ser testada; e que são conduzidos no limite inferior da qualidade metodológica, às vezes representando pouco mais do que pobres arremedos”.

E causticamente, sem o compromisso da médica com alguma solução, afinal, cabe à academia mesmo cuidar disso, finaliza: “esperamos que os cientistas se resolvam com suas ilusões (aparecer nas listas de mais influentes, por exemplo) e as universidades despertem de seus delírios de grandeza (querer subir nos rankings para emparelhar com Oxford, outro exemplo).

Mas isso tudo pode parecer apenas ressentimento de alguns muitos, afinal o tal “publique ou pereça” tem lá seus méritos e, de fato, em um estudo de caso (economia nas universidades holandesas), Henrik van Dalen aponta para uma comunidade acadêmica dividida[V]: “professores titulares enxergam, mais do que outros membros do corpo docente, lados positivos do princípio “publish or perish” e virtualmente nenhuma desvantagem”. Esse artigo acadêmico de 2021 mostra que nos últimos anos, publicar ou perecer, deixou os espaços de ensaio e opinião para virar objeto de pesquisa científica. É que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionada em artigos no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos em diferentes áreas sobre este tema vêm crescendo notavelmente nos últimos anos. Voltando à percepção dos professores titulares na Holanda, o recado dado aos pesquisadores mais jovens neste ano (2021) é claro no sítio de assessoria à publicação voltada e esse público (Proof-Reading-Service.com): “Como publicar 50 papers por ano”[VI]. Ao ler o texto, notei que as dicas já são seguidas como um mantra por alguns colegas, segundo confissões ou profissões de fé. A isso somam-se as fábricas de artigos, por meio das quais seu nome pode ser incluído como autor em um artigo pronto, frente a uma “módica” contribuição. Sobre isso, também há um texto na revista Questão de Ciência[VII].

Novamente, a minha história de pesquisador, que sempre valorizou a publicação de artigos em periódicos de seletiva política editorial, etc., etc., (sempre obedecendo ao princípio atribuído a César Lattes: “é muito bom publicar um artigo, desde que se tenha algo a dizer primeiro”), pede que vieses (no caso contra o produtivismo burro para atender às métricas, ainda que muitos dos seus praticantes acreditem que tudo isso é pelo bem da ciência) sejam considerados com cuidado. Assim, nada melhor do que um estudo quantitativo cuidadoso para guiar um pouco a discussão. Um extenso levantamento bibliográfico de artigos e citações de várias décadas e uma acurada análise, realizados por Johan Chu e James Evans[VIII], publicado em outubro de 2021, sugere uma crescente desigualdade nas citações de artigos: cada vez mais são sempre os mesmos citados ao passo que possíveis contribuições importantes passam despercebidas no “dilúvio de artigos” (o corolário é que cresce diluvianamente o número de artigos sem relevância, cumpridores de metas e que também não são citados). Apresento pequenos excertos do texto sobre o cenário delineado (os aspectos metodológicos, dados e resultados podem ser apreciados no link logo acima):

“O dilúvio de novos artigos pode privar revisores e leitores da abertura cognitiva necessária para reconhecer e entender novas ideias […] A atual natureza do empreendimento científico, calcada na métrica de ‘mais é melhor’ pode retardar, ironicamente, o progresso nos campos científicos maiores”.

E atenção para uma das conclusões!

“Sistemas de promoção e reconhecimento que evitem medidas quantitativas e valorizem um número menor de contribuições, mais robustas e inovadoras, poderiam reduzir o dilúvio de artigos competindo por atenção em seu campo”. Chegamos em 2021 a uma proposta já enunciada em 1986, caso alguém se lembre da citação no começo desse texto.

Se “publicar ou perecer” está virando um campo quantitativo de pesquisa, as reações às maneiras automatizadas de avaliação começam a ser qualitativamente revistas mundo afora. Três cientometristas conhecidos e influentes escreveram uma carta, também publicada agora em 2021: “Um apelo por uma mudança radical na avaliação de pesquisa na Espanha”[IX]. O cenário espanhol descrito é muito parecido com o brasileiro: o fetiche em relação ao uso das métricas e suas consequências negativas, enumerando movimentos iniciados na década passada, cujos princípios deveriam ser considerados nas mudanças radicais pedidas. E novos movimentos e mudanças, ainda que não tão radicais, são implementadas. Enumero apenas três delas. A iniciativa é mais antiga, mas segue: é o movimento pela “des-execelência”, iniciado por um grupo de pesquisadores da Universidade Livre de Bruxelas[X]. O site todo é em francês, mas o slogan é autoexplicativo, ainda que misturando francês e inglês: “esqueça seu fator de impacto (que é uma dessas métricas, a mais fajuta delas, na verdade, ainda que amplamente utilizada), aqui temos a des-excelência”.

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De novo aquele muro entre um possível ressentimento(?) e um diagnóstico preciso? Pois a carta do movimento é um diagnóstico acurado. E, como anunciei, mudanças acontecem. Em meados de 2021, saiu o anúncio de que a Universidade de Utrecht na Holanda deixará de lado, pelo menos parcialmente, as métricas[XI]. O autor do projeto da mudança de avaliação declarou para a revista Nature: “fatores de impacto – bem como métricas relacionadas, como o índice H – contribuem para a ‘produtificação’ da ciência, que valoriza volume em vez de boa pesquisa […] Isso se tornou um modelo muito doentio, que vai além do que é realmente relevante na ciência”.

Nas últimas semanas, uma pequena nota no jornal francês, Le Monde[XII], trouxe comentários sobre estas mudanças em vários países, inclusive na França, com avaliações se distanciando das métricas: ‘se não é uma revolução, é uma mudança cultural, de paradigma’. Por que a mudança? Segundo comentário de Chérifa Boukacem, professora da Universidade Claude Bernard-I em Lyon, “passamos a pensar em ‘publicação’ e não mais em ‘pesquisa’. Não tentamos mais produzir conhecimento, mas nos perguntamos que tipo de artigo seria interessante fazer”. Fica no ar a pergunta: interessante para que ou para quem? Resposta possível: um fim em si mesmo.

É hora de discutirmos mais detidamente intramuros acadêmicos o que estamos fazendo por aqui, com os medos, ilusões e delírios. As ideias e ações surgem em vários lugares! Precisamos de novas cenouras e novos rumos.

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Observação: Os artigos publicados não traduzem a opinião do Jornal da Unicamp. Sua publicação tem como objetivo estimular o debate de ideias no âmbito científico, cultural e social.


[I]https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/malaises-da-ciencia

[II]https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/artigos/peter-schulz/um-manifesto-pela-universidade-publica

[III]https://www.acpjournals.org/doi/pdf/10.7326/0003-4819-104-2-261

[IV]https://revistaquestaodeciencia.com.br/apocalipse-now/2021/11/21/medo-e-delirio-na-comunicacao-da-ciencia

[V]https://www.researchgate.net/publication/344025747_How_the_Publish-or-Perish_Principle_Divides_a_Science_The_Case_of_Academic_Economists

[VI]https://www.proof-reading-service.com/en/blog/publish-50-papers-year/

[VII]https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2021/11/23/fabricas-de-artigos-falsos-expoem-fragilidade-da-publicacao-academica

[VIII]https://www.pnas.org/content/118/41/e2021636118

[IX]https://revista.profesionaldelainformacion.com/index.php/EPI/article/view/86526/62971

[X]https://lac.ulb.ac.be/LAC/home.html

[XI]https://www.nature.com/articles/d41586-021-01759-5

[XII]https://www.lemonde.fr/sciences/article/2021/11/23/chambardements-dans-l-evaluation-des-scientifiques_6103279_1650684.html

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da Unicamp” [Aqui! ].

Estudo da UCLA associa “publicar ou perecer” com diminuição da inovação em Ciência

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Venho abordando aqui neste blog as múltiplas facetas negativas do “trash science” sobre a qualidade da produção científica em escala mundial, mas principalmente em países da periferia capitalista como o Brasil. Uma coisa que não venho abordando devidamente é a gênese dessa epidemia que é a cultura do “publicar ou perecer” que é um dos subprodutos do vigoroso sistema universitário dos EUA. A disseminação do “publicar ou perecer” como modus operandi das universidades em todo o mundo é, para mim, um fator basilar na instalação primeiro do “Salami science” e, mais recentemente, do “trash science“.

Agora, três pesquisadores atuando em duas respeitáveis estadunidenses (Universidade da Califórnia- Los Angeles e Universidade de Chicago) acabam de publicar um estudo abrangente sobre o impacto fortemente negativo do mote “publicar ou perecer” sobre a inovação científica. Segundo eles, a lógica de se associar estabilidade no emprego e premiações acadêmicas com o número de publicações vem diminuindo as chamadas áreas de inovação na ciência. É que premidos pela necessidade de publicar mais em menos tempo para assegurar emprego e reconhecimento, a maioria dos pesquisadores prefere ignorar ideias mais inovadoras, mas igualmente mais arriscadas.

A principal sugestão que emerge do trabalho é de que as universidades e institutos de pesquisa façam a devida separação entre estabilidade e produtividade e, além disso, revejam as formas de investimento científico.

O curioso é que este tipo de reflexão crítica sobre o paradigma dominante venha do centro gerador desta forma de disseminar conhecimento científico.  O pior é que aqui no Brasil, além de estarmos vivendo um período de forte contenção no investimento nas universidades públicas, temos agora no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação um personagem com pouquíssimas credenciais para colocar o Brasil nos trilhos que foram apontados neste artigo. Em outras palavras, arriscamos nos atrasar ainda mais em termos de inovação científica, como se isso fosse possível. Mas como disse a famosa Lei de Murphy “nada está tão ruim que não possa piorar”. 

Quem tiver interesse de acessar o artigo em questão, basta clicar Aqui!

Abaixo um artigo preparado pela UCLA para divulgar os resultados da pesquisa que eu traduzi para facilitar a sua divulgação em português. 

A pressão para “publicar ou perecer” pode desencorajar a investigação inovadora, sugere estudo da UCLA 

As conclusões dos pesquisadores foram extraídas de uma base de dados que reuniu mais de 6 milhões de publicações acadêmicas em Biomedicina e Química

Por Phil Hampton

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A tradicional pressão no meio acadêmico para se “publicar ou perecer” amplia o conhecimento em zonas já estabelecidas. Mas isto também pode desencorajar os cientistas a fazerem as perguntas inovadoras que são mais susceptíveis de provocar os maiores avanços, de acordo com um novo estudo liderado por um professor da UCLA.

Os pesquisadores já enfrentam uma tensão natural e um processo de troca ao decidir se deve construir sobre o conhecimento acumulado em um campo, ou prosseguir com uma ideia nova e ousada que desafia o pensamento dominante na ciência.  O professor assistente de sociologia Jacob Foster e seus co-autores descrevem essa situação como um conflito entre “tradição produtiva” e “inovação arriscada.”

Para estudar essa tensão, Foster e seus colegas montaram um banco de dados de mais de 6,4 milhões de publicações acadêmicas nas áreas de biomedicina e de química no período de 1934 a 2008. Eles então analisaram se as publicações individuais foram construídas a partir  de descobertas existentes ou criavam novas conexões . A partir dai fizeram a criação de um mapa da rede crescente do conhecimento científico. Finalmente, eles correlacionaram cada uma das duas estratégias  com dois tipos de recompensa: citações em pesquisas posteriores e o reconhecimento mais substancial conferido por 137 diferentes tipos de premiações acadêmicas.

O estudo, publicado na “American Sociological Review”, é um dos primeiros a analisar a tensão entre tradição e inovação produtiva arriscada em escala maciça.

O estudo descobriu que um padrão notavelmente consistente caracteriza a investigação contemporânea em Biomedicina e da Química: mais de 60 % dos artigos não tinham novas conexões, o que significa que eles foram construídos  principalmente com base na tradição e evitaram a inovação.

Com base na  análise das recompensas científicas, Foster e seus colegas argumentam que os investigadores que confinam seu trabalho para responder perguntas estabelecidas são mais propensos a ter os resultados publicados, o que é uma chave para a progressão na carreira acadêmica. Por outro lado, pesquisadores que pedem mais perguntas originais e procuram forjar novas ligações na rede de conhecimento são mais propensos a tropeçar no caminho para a publicação, o que pode fazê-los parecer improdutivos para os seus colegas. Se publicada, no entanto, estes projetos de investigação inovadores são mais altamente recompensado com citações. E os cientistas que ganham prêmios – especialmente os mais importantes, como o Prêmio Nobel – incluem mais  movimentos inovadores em sua carteira de investigação.

“As publicações que fazem conexões novas são raros, mas mais altamente recompensado”, disse Foster, autor principal do estudo. “Então, o que corresponde à disposição dos cientistas para prosseguir a tradição sobre a inovação? Nossa evidência aponta para uma explicação simples: pesquisa inovadora é um jogo cuja recompensa, em média, não justifica o risco. Não é uma maneira confiável para acumular recompensa científica. “

Foster acrescentou: “Quando os cientistas inovar, eles podem estar apostando no impacto extraordinário. Eles estão jogando para a posteridade. “

Foster se especializa no estudo computacional de idéias científicas. Os co-autores do estudo foram James Evans, um professor associado de Sociologia da Universidade de Chicago, e Andrey Rzhetsky, professor de  Medicina e Genética Humana na Universidade de Chicago.

Os autores sugerem que as universidades poderiam incentivar mais a assunção de riscos em pesquisa, dissociando a estabilidade no emprego da produtividade. Eles observam que uma abordagem semelhante foi especialmente bem sucedidas no laboratórios da Bell   em meados do Século 20; quando cientistas  podiam trabalhar em um projeto por vários anos antes de ter sido avaliada. O estudo também recomenda um modelo em que o financiamento da investigação vai para cientistas individuais, em vez de projetos de pesquisa específicos – uma estratégia que está sendo usada pelo Instituto Médico Howard Hughes e em alguns projetos financiados pelo National Helath Institute.

Instituições e organizações de financiamento poderiam também reduzir as barreiras à investigação inovadora, utilizando regimes de financiamento que o tornassem menos arriscados para os pesquisadores para lançar uma idéia nova – e mais provável de que essa idéia possa ser financiada. A Fundação Gates usa esta abordagem em certos programas de investigação, reduzindo drasticamente a duração dos pedidos iniciais, financiando projetos  numa base experimental, e reestruturando painéis de revisores para que as idéias inovadoras possam encontrar defensores em vez de críticos.

Foster pediu que as universidades, outras organizações de pesquisa e agências de financiamento usem mais análises quantitativas de larga escala para orientar as suas políticas de pesquisa científica..

“Estudando a ciência em grande escala nos dá uma nova perspectiva sobre esta instituição fundamental. Uma melhor compreensão da ciência vai levar a uma ciência de melhor qualidade. “, disse ele.

O estudo foi financiado com doações da National Science Foundation e da  John Templeton Foundation.

FONTE: http://newsroom.ucla.edu/releases/pressure-to-publish-or-perish-may-discourage-innovative-research-ucla-study-suggests