Qualis: o estranho rumo dos periódicos científicos

Critérios para avaliar artigos acadêmicos mudarão em breve. Incluirão número de downloads e menções em redes sociais. Avanço rumo à popularização da ciência? Ou mergulho ainda mais profundo na mercantilização e na lógica empresarial?

Arte: Julie Jabur

Por Michel Goulart da Silva para o “Outras Palavras” 

Nos últimos meses, muito se tem comentado acerca do Qualis – o sistema de avaliação dos periódios científicos brasileiros organizado pela Capes – e as mudanças a serem realizadas em seus critérios, notas e rankings. No geral, as reflexões produzidas em torno desse tema têm se limitado a analisar se a forma está correta ou se o novo sistema funcionará. Ou seja, essas reflexões colocam-se dentro dos limites da compreensão de que existe a necessidade de um sistema de avaliação para a pós-graduação e para as publicações acadêmicas e que apenas deve ser melhorada, mantendo a busca de resultados qualitativos e quantitativos. Portanto, não fazem uma avaliação do caráter mercantil dessas avaliações e de como afetam a produção científica em seu conjunto. Há poucas reflexões que tocam no caráter mercantil dessa avaliação e no fato de que esse processo ignora os fundamentos que deveriam embasar a divulgação científica. 

Embora as informações divulgadas pela Capes ainda sejam escassas, sabe-se que, a partir de agora, a classificação dos periódicos passa a ser baseada em artigos publicados e não mais por revistas. Nessa nova proposta, a avaliação passa a ter três critérios fundamentais: 1) número de citações; 2) número de downloads e menções em sites e redes sociais; 3) contribuição científica e impacto teórico. Portanto, com a nova avaliação, o que estava ruim com o Qualis poderá se tornar um desastre que permitirá o aprofundamento do livre mercado acadêmico.

Nos últimos anos, aprofundou-se o caráter mercantil das publicações científicas, em um duplo sentido, “de movimentar valores monetários muito elevados, e de proporcionar altíssimas taxas de lucro”.1 O central na avaliação das publicações acadêmicas vem sendo o número de citações, como forma de medir o prestígio que permite ao pesquisador se destacar em editais e rankings. Esse processo se fortaleceu por meio da imposição de regras sobre a própria escrita dos artigos, como exigir um determinado percentual de citações de artigos recentes, entre outras coisas. Na prática, um autor que verifica resumos num banco de dados de publicações recentes pode ter mais chance de sucesso do que alguém que estuda a fundo e cita a obra de um autor clássico. Uma das consequências dessa forma viciada passa pelo fato de que orientadores de pós-graduação comumente ganhem citações de seus orientados, além das parcerias com outros pesquisadores que participam dos esquemas de coautorias forjadas.

Outro aspecto passa pelo uso da aparição em sites e redes sociais como critério, o que, na era dos algoritmos, torna-se um prato cheio para a difusão momentânea e superficial de artigos que se tornarão irrelevantes depois de pouco tempo. Esse problema coloca em cena o fato de as redes de pesquisadores se mobilizarem para valorizar determinado artigo ou autor sem levar em conta a perspectiva histórica de como essa produção se localiza no processo de produção do conhecimento. Concretamente, serão valorizadas muitas produções que respondem superficialmente a temas de momento e que se tornarão irrelevantes em poucos meses ou mesmo semanas.

Portanto, o centro da questão passa menos pela forma como serão avaliados os artigos e os periódicos, mas se de fato é preciso que se faça uma avaliação quantitativa da produção científica. Esse processo foi inserido, há muitos anos, como parte da avaliação da pós-graduação, a partir da qual se definem critérios para a distribuição de recursos públicos – ou seja, eles definem com qual estrutura os programas de pós-graduação poderão contar em determinado período. Nesse caso, os mecanismos que aumentem a visibilidade de artigos vinculados aos programas, ainda que de forma temporária e forçada, poderão ser utilizadas para destacar critérios que levem a um melhor desempenho.

Essa lógica expressa o processo de mercantilização que vem avançando nas últimas décadas nos meios acadêmicos. Nesse processo, observa-se que “a administração baseada nas avaliações quantitativas é uma faceta da transformação da universidade num simulacro de empresa, daquilo que é produzido (em especial, os artigos científicos) em simulacro de mercadoria, dotadora de simulacros de valor de troca”.2 Portanto, a divulgação científica, na forma de anais de eventos, livros ou de artigos em periódicos, toma a forma de uma mercadoria. Com isso, inverte-se o caráter da produção científica, que deveria ser o de apresentar para os pesquisadores os resultados, parciais ou finais, de projetos desenvolvidos em universidades e centros de pesquisa. Os anais de eventos não deveriam ser produtos onde se vende espaço de publicação, mas a expressão de debates realizados em congressos e simpósios com os pares. Os artigos em revista deveriam mostrar a sistematização de resultados do trabalho realizado por grupos pesquisas. E os livros deveriam mostrar de forma mais densa e acabada o trabalho realizado ao longo dos anos anteriores. Na atual lógica, a preocupação passa por garantir mercadorias que garantam mais linhas no Currículo Lattes.

Concretamente, a divulgação científica deveria ser uma forma de fomentar o diálogo entre pesquisadores do mesmo campo do conhecimento que, a partir da leitura dos materiais difundidos, poderiam avaliar esses trabalhos, criticá-los e, inclusive coletivamente, apontar para novos caminhos nessa produção de conhecimento. Nada disso é possível em meio a proliferação de textos difundidos sem critério levando em conta somente os valores pagos para publicação. Essa indústria de textos pode levar a que se dê mais espaço para trabalhos de pouca qualidade científica, enquanto pesquisadores sérios e comprometidos com a produção de conhecimento pouco publiquem por evitarem entrar nesse jogo de mercantilização.

Esse processo vem sendo imposto ao espaço acadêmico, seja pelas pressões advindas dos interesses privados externos à universidade, seja pela adesão ideológica dos pesquisadores às ideias de mercantilização da pesquisa científica. Esses dois problemas levam à fragmentação do conhecimento, na medida em que seus produtos possam ser mais rapidamente vendidos, e à busca por resultados práticos, evitando-se pesquisas que não levem à satisfação do mercado acadêmico.

Esse processo impacta na produção científica. No capitalismo, “como todas as mercadorias, seu fornecimento é impulsionado pela demanda, resultando que o desenvolvimento de materiais, fontes de energia e processos tornou-se menos fortuito e mais atento às necessidades imediatas do capital”.3 Empobrece-se a produção do conhecimento, que deixa de ser uma busca por compreender os fenômenos da realidade e passa ser, na maior parte dos casos, a mera descrição visando a publicação de textos em anais de eventos ou em revistas.

Esses não são problemas que a nova política de avaliação de artigos pretende diagnosticar e procurar soluções, mas piorar a situação. Quando incentivam na avaliação de periódicos os desvios que vêm desvirtuando a divulgação científica, com a publicação rápida de artigos ou com os convites aleatórios em periódicos duvidosos de textos publicados muitos anos antes, os órgãos responsáveis estão fomentando o fortalecimento da lógica mercantil. O caráter plural da divulgação científica e do debate se perde em meios a eventos em que nada se discute e revistas que os pesquisadores não se interessam em ler, levando a que se limitem a pagar para publicar.

1 Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 54.

2 Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 235-6.

3 Harry Braverman. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2015, p. 146.

Michel Goulart da Silva é É Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Contemporâneo, ditadura no Brasil, modernização, marxismo e cultura política.


Fonte: Outras Palavras

Qualis ou não Qualis, eis a questão!

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Estive ontem participando do “II Seminário Latino-Americano sobre Coleções Biológicas e Biodiversidade, Saúde e Ambiente” que está ocorrendo até hoje (26/11) das dependências do Museu da Vida do Instituto Oswaldo Cruz (Aqui!), onde participei de uma mesa redonda sobre mudanças climáticas. Entretanto, o momento que mais despertou a plateia não teve nada a ver com o tema da mesa em si, mas sobre o caos que foi estabelecido a partir das mudanças realizadas no ranqueamento do Qualis Capes. 

É que apesar da própria Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) ter alertado que o “Qualis Capes” se atém basicamente a avaliar a qualidade da produção dos programas de pós-graduação e não dos pesquisadores individualmente, o fato é que ao não se combinar o jogo com os russos (no caso os comitês de assessoramento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), muitos pesquisadores estão tendo que se virar para escolher as revistas científicas onde irão tentar publicar seus trabalhos, já que o ranqueamento feito no Qualis Capes é sim considerado nos momentos de se escolher quem serão os beneficiários dos financiamentos, seja no plano individual ou coletivo.

A principal questão que eu consegui identificar é que as comissões de áreas  (CAs) da Capes na ânsia de responder às pressões criadas pela infestação de “trash science” no Qualis Capes como alertado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog (Aqui!Aqui!Aqui!) acabaram piorando o que já era ruim. É que em vez de fazer a limpeza necessária e descontaminar o Qualis Capes, o que parece ter ocorrido foi a instalação de um grau de incerteza inédito sobre onde se deve publicar.

E o pior é que o remendo pela metade acaba perpetuando uma mentalidade que está impregnada na comunidade científica brasileira de que o mais importante é publicar bastante e apenas naquelas revistas que tenham sido aquinhoadas com uma nota melhor num determinado ano, já que a avaliação de uma dada revista só vale para o ano em que for avaliada!

Lamentavelmente essa postura produtivista se dá num momento de enxugamento de verbas, o que acaba fortalecendo a postura pragmática de publicar não para avançar o conhecimento, mas para viabilizar a obtenção de financiamentos e premiações. Em outras palavras, o que já aconteceu no plano da avaliação da carreira docente está se estendendo para a produção científica. E os resultados disso serão péssimos para a consolidação da comunidade científica brasileira. E eu me arrisco a dizer mais, ao se “jogar o bebê fora com a água suja do banho”, o que a Capes acabou fazendo foi desestimular o pensamento crítico entre as novas gerações de pesquisadores, algo que se provará mortal para a ciência brasileira no médio e longo prazo.

Enquanto isso, que ninguém se engane, os produtores de “trash science” continuam com suas produções de vento em popa e rindo da cara de quem tenta produzir ciência qualificada. É que no frigir dos ovos, tudo continua como dantes no Quartel de Abrantes.  É que, ao fim e ao cabo de cada dia dentro das universidades públicas, a maioria está tendo sobreviver ao vagalhão de cortes de verbas impostos pelos diferentes governos cujas prioridades não são nem de perto aquelas que embalam os pesquisadores mais comprometidos com o avanço da ciência. Simples, porém trágico.

Do blog do jornalista Maurício Tuffani: morto era editor-chefe de revista científica trash

Médico assassinado se torna editor-chefe de revista científica

Por MAURÍCIO TUFFANI

Imagem: Reprodução

O neuropatologista Roger Brumback e sua esposa Mary foram assassinados em maio de 2013 em sua casa em Omaha, em Nebraska, nos Estados Unidos. Apesar de ter sido amplamente noticiada, inclusive neste ano pela notícia do julgamento do acusado a ser realizado em setembro, a morte do médico não foi impedimento para ele ser apontado como editor-chefe do periódico “American Journal of Medical Sciences and Medicine”.

Morto por vários tiros no abdômen, Brumback era professor da Universidade Creighton, onde havia chefiado o departamento de patologia. O uso indevido de seu nome pela revista foi noticiado na terça-feira (7.jul) pelo blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver.

AJMSM_detalheAlgumas horas depois, o periódico removeu o nome de seu site e em seu lugar inseriu um link para inscrições de candidatos ao cargo de editor-chefe, como mostra o detalhe da página na imagem à direita.

Periódicos predatórios

Longe de parecer apenas um mero episódio anedótico, a apropriação indevida do nome de Brumback pela revista se insere no crescente cenário de desconfiança na comunidade científica em relação aos chamados “periódicos predatórios”. A expressão tem sido usada há alguns anos para designar revistas acadêmicas editadas por empresários que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet, que é o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, financiado pelas próprias instituições acadêmicas mantenedoras dos periódicos ou pela cobrança de taxas de autores dos estudos.

Tanto nas publicações científicas em acesso aberto como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas e até a poucos dias o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

Em novembro de 2012, Beall já havia publicado um post informando o lançamento simultâneo de 85 periódicos científicos pela mesma editora dessa revista, a Science and Education Publishing (SciEP), que desde então está na lista de publishers predatórios mantida pelo blogueiro.

A revista “American Journal of Medical Sciences and Medicine” não consta na na base de dados online Qualis Periódicos, mantida pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação). Pelo menos 235 periódicos da lista de Jeffrey Beall foram identificados no Qualis Periódicos por este blog em abril deste ano.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/07/09/medico-assassinado-se-torna-editor-chefe-de-revista-cientifica/#_=_

Percalços da “trash science”: sua revista favorita entrou em manutenção sem avisar e nem dizer adeus

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As peripécias dos pesquisadores que enveredam pelo caminho do “trash sicence” são muitas. Mas a maioria dos que enveredam por esse caminho só fica mesmo em alerta quando algo mais do que esperado ocorre: a revista onde se colocam “n” artigos repentinamente sai do ar, sem deixar maiores vestígios ou informações de quando deverá retornar ao ar para permitir acesso aos arquivos que contem, os arquivos com o material publicado.  

Essa situação, que era impensável até o advento da internet, hoje assola muitos pesquisadores em diferentes momentos de suas carreiras, os quais sacrificam o rigor e a qualidade em nome da quantidade que, no frigir dos ovos, é que premiações, enquadramentos e progressões e, ainda mais importante, financiamentos de agências de fomento e ministérios. Mas hoje não são raros os casos em que um pesquisador se vê diante da situação insólita de clicar no link do “Document Object Identifier” (DOI)  (Aqui!) que deveria levar ao seu artigo, e descobrir que a revista simplesmente não está mais operacional. Em outras palavras, a revista simplesmente tomou chá de sumiço.

Quando isso acontece é um tremendo “Deus nos acuda” porque não há mais prova virtual de que o artigo sequer existiu caso o pesquisador não tomou o cuidado de imprimir uma cópia física ou salvar o documento em um repositório digital.   E as consequências para isso não poucas, a começar pelo fato de que  o preenchimento do famoso Currículo Lattes contem um aviso de que quaisquer preenchimentos falsos implicam em crime de falsidade ideológica. 

O interessante é que acabei de identificar esse fenômeno com uma revista muito utilizada por pesquisadores que eu conheço, e que, inclusive, se encontra qualificada por diversos comitês técnicos da CAPES que determinam a classificação de revistas no sistema Qualis. E para não ter dúvidas no momento de escrever esta postagem, tomei o cuidado de ligar para a instituição onde a revista estava hospedada até recentemente, e lá fui dirigido ao Serviço de Informática. Ao falar com um dos técnicos que trabalham nesse departamento, o mesmo me ofereceu uma resposta que considerei enigmática: o serviço a que a referida revista estaria associada está em manutenção por tempo indeterminado, mas que brevemente deverá online. Em outras palavras,  apesar de eu insistir, não me foi dada uma informação mais precisa de quando, ou mesmo se, a revista voltará a ficar disponível online.

Agora, a pergunta que se coloca é a seguinte: o que farão os pesquisadores em diferentes momentos de formação que enviaram seus artigos para esta revista? Essa é uma boa pergunta para o CNPq, que é responsável pela base Lattes, e para a CAPES, responsável pela base Qualis.  A ver!