Qualis ou não Qualis, eis a questão!

macbeth1

Estive ontem participando do “II Seminário Latino-Americano sobre Coleções Biológicas e Biodiversidade, Saúde e Ambiente” que está ocorrendo até hoje (26/11) das dependências do Museu da Vida do Instituto Oswaldo Cruz (Aqui!), onde participei de uma mesa redonda sobre mudanças climáticas. Entretanto, o momento que mais despertou a plateia não teve nada a ver com o tema da mesa em si, mas sobre o caos que foi estabelecido a partir das mudanças realizadas no ranqueamento do Qualis Capes. 

É que apesar da própria Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) ter alertado que o “Qualis Capes” se atém basicamente a avaliar a qualidade da produção dos programas de pós-graduação e não dos pesquisadores individualmente, o fato é que ao não se combinar o jogo com os russos (no caso os comitês de assessoramento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), muitos pesquisadores estão tendo que se virar para escolher as revistas científicas onde irão tentar publicar seus trabalhos, já que o ranqueamento feito no Qualis Capes é sim considerado nos momentos de se escolher quem serão os beneficiários dos financiamentos, seja no plano individual ou coletivo.

A principal questão que eu consegui identificar é que as comissões de áreas  (CAs) da Capes na ânsia de responder às pressões criadas pela infestação de “trash science” no Qualis Capes como alertado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog (Aqui!Aqui!Aqui!) acabaram piorando o que já era ruim. É que em vez de fazer a limpeza necessária e descontaminar o Qualis Capes, o que parece ter ocorrido foi a instalação de um grau de incerteza inédito sobre onde se deve publicar.

E o pior é que o remendo pela metade acaba perpetuando uma mentalidade que está impregnada na comunidade científica brasileira de que o mais importante é publicar bastante e apenas naquelas revistas que tenham sido aquinhoadas com uma nota melhor num determinado ano, já que a avaliação de uma dada revista só vale para o ano em que for avaliada!

Lamentavelmente essa postura produtivista se dá num momento de enxugamento de verbas, o que acaba fortalecendo a postura pragmática de publicar não para avançar o conhecimento, mas para viabilizar a obtenção de financiamentos e premiações. Em outras palavras, o que já aconteceu no plano da avaliação da carreira docente está se estendendo para a produção científica. E os resultados disso serão péssimos para a consolidação da comunidade científica brasileira. E eu me arrisco a dizer mais, ao se “jogar o bebê fora com a água suja do banho”, o que a Capes acabou fazendo foi desestimular o pensamento crítico entre as novas gerações de pesquisadores, algo que se provará mortal para a ciência brasileira no médio e longo prazo.

Enquanto isso, que ninguém se engane, os produtores de “trash science” continuam com suas produções de vento em popa e rindo da cara de quem tenta produzir ciência qualificada. É que no frigir dos ovos, tudo continua como dantes no Quartel de Abrantes.  É que, ao fim e ao cabo de cada dia dentro das universidades públicas, a maioria está tendo sobreviver ao vagalhão de cortes de verbas impostos pelos diferentes governos cujas prioridades não são nem de perto aquelas que embalam os pesquisadores mais comprometidos com o avanço da ciência. Simples, porém trágico.

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