Brasil em chamas: MapBiomas mostra recorde de queimadas para o mês de Novembro

queimadas-no-amazonas

Por MapBiomas

A área queimada no Brasil de janeiro a novembro de 2024 quase dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando um território equivalente a todo o estado do Rio Grande do Sul. Os dados são da mais recente edição do Monitor do Fogo, do MapBiomas. Ao todo, 29,7 milhões de hectares foram queimados no período – um aumento de 90% em relação ao mesmo período de 2023 e a maior extensão dos últimos seis anos. A diferença em relação ao ano passado é de 14 milhões de hectares a mais, uma área equivalente ao estado do Amapá. 

“Esse aumento desproporcional da área queimada no Brasil em 2024, principalmente a área de floresta, acende um alerta de que além de reduzir o desmatamento, precisamos reduzir e controlar o uso do fogo, principalmente em anos onde as condições climáticas são extremas e podem fazer o que seria uma pequena queimada virar um grande incêndio”, explica Ane Alencar, diretora de ciência do IPAM e coordenadora do Monitor do Fogo do MapBiomas. 

Mais da metade (57%) da área queimada entre janeiro e novembro no Brasil fica na Amazônia, onde 16,9 milhões de hectares foram afetados pelo fogo.  Nesse bioma, foram queimados 7,6 milhões de hectares de florestas, incluindo florestas alagáveis – extensão que ficou à frente das pastagens queimadas no período na Amazônia, que totalizaram 5,59 milhões de hectares. O segundo bioma mais afetado pelo fogo foi o Cerrado, com 9,6 milhões de hectares – 85% dos quais (ou 8,2 milhões de hectares) em áreas de vegetação nativa. Esse número representa um aumento de 47% em relação à média dos últimos 5 anos. Houve aumento também no Pantanal, onde a área queimada de janeiro a novembro foi de 1,9 milhão de hectares e representou um crescimento de 68% em relação à média dos últimos 5 anos. 

Confira o Boletim do Fogo de novembro clicando aqui

area queimada

A área queimada nos demais biomas entre janeiro e novembro deste ano foi: 1 milhão hectares na Mata Atlântica, sendo que 71% da área afetada estava em áreas agropecuárias; 3,3 mil hectares no Pampa; e 297 mil hectares na Caatinga – uma diminuição de 49% em relação ao mesmo período de 2023, com 82% das queimadas concentradas em formações savânicas. Eduardo Velez, da equipe do Pampa do MapBiomas, explica que a área queimada no Pampa é a menor dos últimos três anos para esse período. “Trata-se de uma consequência da maior umidade observada na região, com chuvas acima da média para o período”, detalha.

O estado que mais queimou nos 11 primeiros meses deste ano foi o Pará, com 6,97 milhões de hectares. Esse total equivale a 23% de toda a área queimada no Brasil e a 41% do que foi queimado na Amazônia entre janeiro e novembro. Mato Grosso e Tocantins ficaram em segundo e terceiro lugares, com 6,8 milhões e 2,7 milhões de hectares, respectivamente. Juntos, esses três estados totalizaram 56% da área queimada no período no país. Os municípios de São Félix do Xingu (PA) e Corumbá (MS) registraram as maiores áreas queimadas entre janeiro e novembro de 2024, com 1,47 milhão de hectares e 837 mil hectares queimados, respectivamente.

Em todo o país, o fogo atingiu prioritariamente áreas de vegetação nativa, que representam 73% do total. Um quarto (25%) da área queimada no Brasil foi em florestas. Entre as áreas de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, com 6,4 milhões de hectares queimados entre janeiro e novembro de 2024, ou 21% do total nacional.

“Os números de 2024 são alarmantes, especialmente considerando que 2023 já havia registrado uma tendência de alta, comprometendo não apenas os biomas mais afetados, como Amazônia e Cerrado, mas também o equilíbrio climático”, alerta Vera Arruda,  pesquisadora no IPAM e coordenadora técnica do Monitor do Fogo do MapBiomas.  “O recorde de área queimada também em florestas afeta sua capacidade de regeneração e a resiliência ecossistêmica”, ressalta.

Área queimada em novembro concentra-se na Amazônia e no Pará 

Os números de novembro refletem o arrefecimento da estação do fogo no Brasil, porém em patamares mais altos que em 2023. Embora represente uma queda em relação aos 5,2 milhões de hectares queimados em outubro, a área afetada pelo fogo em novembro foi 70% maior em relação à média para esse mês nos últimos seis anos. Os 2,2 milhões de hectares queimados em novembro – área equivalente ao estado de Sergipe – correspondem a 7,4% de toda a área queimada no Brasil de janeiro a novembro de 2024. 

Quase dois terços (64%) da área queimada em novembro de 2024 foi de vegetação nativa – a maioria em florestas (40% da área queimada no mês). Novamente as pastagens se destacam entre as áreas de uso agropecuário, com 32,7% da área queimada em novembro de 2024.

A Amazônia representa 81% do total queimado no mês. Os 1,8 milhão de hectares representam o dobro em relação à média para o mês nos últimos seis  anos. O tipo de vegetação nativa que mais queimou foram as florestas, com 37% da área queimada em novembro de 2024 (662 mil hectares). A classe de uso da terra mais afetada foi pastagem, com 38% da área total queimada na Amazônia em novembro de 2024 (680 mil hectares).

“Esse crescimento da área queimada na Amazônia reflete não apenas a intensificação das atividades humanas, mas também a continuidade de condições climáticas adversas, com a seca que já marcava 2023 e se prolongando por 2024. Este aumento considerável evidencia a crescente vulnerabilidade das florestas diante da seca prolongada e da pressão do desmatamento”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM e da equipe do Monitor do Fogo do MapBiomas. “Em 2024, observou-se uma mudança preocupante no padrão das áreas atingidas pelo fogo, enquanto nos últimos seis anos as queimadas afetaram predominantemente áreas de pastagem, neste ano as florestas passaram a ser as mais impactadas”, destaca. 

Dentro da Amazônia, quase metade (48%) da área queimada em novembro fica no Pará, onde 870 mil hectares foram afetados pelo fogo. Maranhão (477 mil hectares) e Mato Grosso (180 mil hectares) são o segundo e o terceiro estados com maior área queimada em novembro. 

Os três municípios que mais queimaram no Brasil em novembro ficam no Pará: Oriximiná (81 mil hectares), Moju (54 mil hectares) e Nova Esperança do Piriá (50 mil hectares). Em Santarém, foram queimados 10,7 mil hectares em novembro – mais de 277% em relação a outubro deste ano, quando foram queimados 2,8 mil hectares no município. Apesar desse grande crescimento de um mês para o outro, a área queimada em novembro de 2024 está abaixo do mesmo período no ano passado, quando 54,7 mil hectares foram atingidos pelo fogo em Santarém. 

“O estado do Pará, que liderou o ranking de queimadas no Brasil no mês de novembro, enfrenta graves consequências ambientais e de saúde pública”, adverte Felipe Martenexen.” Entre as regiões mais afetadas está Santarém, no oeste do estado, onde a qualidade do ar tem se deteriorado rapidamente. Os moradores convivem com uma atmosfera carregada de partículas tóxicas, que afetam a visibilidade e aumentam os riscos de doenças respiratórias”, explica.

No Cerrado, o fogo atingiu 237 mil hectares em novembro. Áreas de vegetação nativa representaram 74% desse total (175 mil hectares), principalmente formações savânicas  (96 mil hectares) e formações florestais (63 mil hectares). No Pantanal, a área atingida pelo fogo em novembro foi de 98 mil hectares, 87% em áreas de formação campestre. Na Mata Atlântica, 12,5 mil hectares foram queimados em novembro, principalmente em áreas de várzea (35% ou 4,4 mil hectares). 


Fonte: MapBiomas

Setor sucro-alcooleiro campista: sempre com as mãos firmes no leme do atraso

Capitão Segurando Mãos No Leme Do Navio Foto de Stock - Imagem de viagem,  aventura: 161364500

Por Douglas Barreto da Mata

Depois de um texto meu publicado no site Tribuna NF achei por bem dar algumas informações sobre o setor sucroalcooleiro, compreendido como cadeia econômica primária, o plantio, e o setor secundário de transformação, as usinas. Há setores derivados, mas também no ramo de insumos e bens de capital (máquinas e implementos) ocorreu uma retração severa e perda de valor agregado.

A decadência dessa atividade agroindustrial pode ser explicada por vários motivos, como a redução da produtividade dos solos esgotados por séculos de uso, e queimadas, gestão perdulária e ineficiente, com baixíssimo nível de reinvestimento tecnológico, ao contrário de SP e algumas plantas em GO, e etc., oscilações de preços, e por fim, a interrupção dos subsídios estatais, a enorme teta chamada pró Álcool, no meado para o fim dos anos de 1980.

Alguns argumentos tentam sustentar a relevância desse setor, e dizem que houve uma renovação, que hoje coloca essa cadeia produtiva como uma das maiores empregadores na cidade. Meia verdade. Colocados à luz dos dados, no ano de 2024, por exemplo, o CAGED informa que foram 4.000 desligamentos, quase 100% da atividade agroindustrial canavieira, impactando a empregabilidade local.

Fim do Ministério do Trabalho reforça herança escravocrata do Brasil |  Partido dos Trabalhadores

Setor sucro-alcooleiro é marcado pela sazonalidade do emprego e pelos baixos salários pagos aos trabalhadores

Emprego e desemprego, é a sazonalidade, natureza desse setor. Por outro lado, qual é o custo desses empregos? Alto.  O Estado do Rio de Janeiro renuncia 16% de ICMS com a atividade, já que só recolhem 2% do tributo.  Isto é, o Rio gasta milhões que não tem para uma atividade que produz pouco, gera empregos de baixo salário e ainda por cima, semestrais.

Eu me arrisco a dizer, sem pesquisa prévia, que a maioria de trabalhadores no setor têm suas rendas complementadas por programas sociais, sim, justamente as medidas de proteção que os latifundiários odeiam, e dizem ser um convite à vadiagem.  Quer dizer, sem o dinheiro do governo, boa parte dos empregados passaria fome na entressafra, ou teria que migrar, como sempre foi costume.

Do lado ambiental, na última safra foi recorrente o uso de queimadas, prática que se tentou abolir por força de lei, mas parece que a lavoura é terra sem lei. O contribuinte paga para ter duas ruas, casas e pulmões entupidos de fuligem e dos produtos químicos que são levantados juntos (o mercúrio, por exemplo).

Fumaça das queimadas dos campos de cana elevam teor de mercúrio atmosférico em Campos dos Goytacazes, segundo estudo da PUC/RJ

É esse setor que anuncia ter mudado, que reivindica ter entrado na modernidade.  Não adianta pintar o tigre de branco, e tratar o bicho como gato doméstico, porque ele ainda vai ser tigre.

O Brasil em chamas

fires

Por Luciana V. Gatti

Ao longo de 21 anos de estudo na Amazonia, medindo CO2 (dióxido de carbono), CO (monóxido de carbono) e demais gases de efeito estufa, determinando as emissões e absorções destes gases na Amazônia e as emissões de queimadas, entendemos que existe uma correlação forte entre desmatamento, perda de chuva, aumento de temperatura e aumento de emissões de CO2. Para tal conclusão foram 14 anos de estudos, mais de 1000 voos com avião de pequeno porte, em 4 localidades da Amazônia, estrategicamente escolhidos para representar o ecossistema Amazônico.

Com o objetivo de entender porque havia tanta variação entre um ano e outro, e entre uma região e outra, estudamos o que ocorreu para que uma região da floresta apresentasse emissões tão diferente de outra. Para tal estudamos 40 anos de chuva, temperatura e quanto cada área já havia sido desmatada. Descobrimos que quanto mais desmatada a região, maior a intensificação do estresse climático na região, ficando cada vez mais seca, quente e a duração da estação seca mais longa. Esta situação afeta sua capacidade de absorver carbono. Estes efeitos ocorrem principalmente durante os meses de agosto, setembro e outubro, quando entra menos umidade do oceano para dentro da floresta.

A seca atual é também fruto desta intensificação do desmatamento a partir de 2019, não só na Amazônia, mas em todos os ecossistemas brasileiros. Observamos a partir deste ano que também ocorreu uma intensificação nos eventos extremos de chuva e seca no Brasil. A natureza, as florestas, matas fazem parte do controle climático e sua perda intensificada faz parte deste cenário de aceleração das mudanças climáticas no Brasil, que se somam as mudanças climáticas globais. Neste contexto as atuais queimadas, não naturais, promovidas em período de seca intensa está causando grande perda vegetal e podemos afirmar que sofreremos uma intensificação das secas e eventos extremos ainda maiores no futuro. Este é o motivo do alarme e enorme preocupação da comunidade científica.

Não é natural o atual enxame de queimadas que assola o país. Ignição natural de fogo pode ocorrer por raios e acidental que podem ocorrer por bitucas de cigarro jogadas, faísca elétrica, etc. Mas estes acidentes não ocorreriam coincidentemente todos ao mesmo tempo no Brasil todo. A evidência de que são provocados está em toda a história de monitoramento de queimadas no Brasil. As queimadas se intensificaram no Brasil a partir de 15 de julho de 2024 (Figura 1), principalmente na Amazônia e Pantanal e um mês depois no cerrado e Mata Atlântica, somando 155 mil focos de queimada. Nos últimos 30 dias ocorreram 105.665 focos, concentrando 68% no último mês. Os sete (7) dias com maior número de queimadas estão apresentados na tabela 1, que apresenta os 3 estados com maior numero de focos. Fonte BD Queimadas/INPE, dados abertos e públicos.

figura tabela

Figura 1- Número de focos de queimada por dia no Brasil.     Tabela 1: os 7 piores dias da série temporal.

O ecossistema mais atingido é a Amazônia (Figura 2), onde sua floresta apresenta atualmente uma maior condição de queima devido ao desmatamento, promovendo secas cada vez mais intensas, acrescido da condição global dos 2 últimos anos agravando o cenário. Em 2023 tivemos tanto o El Nino extremo, como anomalia de temperaturas altas no oceano atlântico norte e neste ano, apesar de não haver mais o El Nino, persiste a anomalia no oceano atlântico norte, além do desmatamento promovendo redução de chuvas e aumento das temperaturas.

figura 2

Figura 2- Número de focos de queimada por dia nos biomas brasileiros.

figura 3

Figura 3- Número de focos de queimada por dia nos 10 estados brasileiros com maior número de queimadas.

No dia 15 de setembro de 2024, durante entrevista na GloboNews, quando perguntada sobre as queimadas, ia comentar sobre as queimadas generalizadas pelo Brasil todo e ao mesmo tempo, e em larga escala, e como isto me lembrou do “dia do fogo” em 10 de agosto de 2019 e como se disseminou pela Amazônia, além de ter chovido preto em São Paulo alguns dias depois. Para falar de todos os ecossistemas comecei pelo estado de São Paulo, meu estado, que apresentou assustadores 1886 focos de queimada em um único dia: 23/08/2024. Me lembrei de quando vivia na região de Ribeirão Preto e São Carlos, e chovia fuligem devido a queimada da cana naquela época, pois o fogo era utilizado no processo da colheita. O que hoje em dia não acontece mais, para alívio dos pulmões de muitas centenas de milhares de moradores da região.

Em minha fala não identifiquei culpados em momento algum. Nem poderia, pois, nossos métodos de estudo se retem ao número de focos de queimada, área queimada e emissões decorrentes delas, sem apontar ou responsabilizar pessoas físicas ou jurídicas. Tão pouco falei em nome do INPE, instituição onde sou cientista. Estava desenvolvendo meu raciocínio baseado nos estudos científicos que fazemos a 25 anos, quando a conexão da internet do hotel, onde me encontrava caiu. Comecei a frase sobre o governador Tarcísio anunciar em tão pouco tempo o auxílio financeiro antes que as investigações identificassem os culpados e as vítimas. Todas as vítimas merecem auxílio: tanto os grandes agricultores vitimados do incêndio, quanto os pequenos agricultores e sitiantes que tiveram suas propriedades queimadas e perdas na lavoura, animais, etc. Assim como as pessoas que ficaram doentes e as famílias das pessoas que morreram, minha solidariedade sincera a todas as vitimas. Lamentável o Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo chamar uma cientista de criminosa, ao invés de colocar todos seus esforços em identificar todos os criminosos que promoveram, apenas no dia 23 de agosto de 2024, 1886 incêndios nas lavouras paulistas. Somando as ocorrências nos dias entre 22 e 24 foram 2621 focos de queimada.

Precisamos nos proteger das mudanças climáticas: Plantar árvores, plantar árvores e plantar árvores. Além delas serem verdadeiras “fábricas de chuva”, “fábricas de água”, ainda reduzem a temperatura e nos protegem das ondas de calor e eventos extremos de chuvas torrenciais, e ainda retiram da atmosfera o CO2, o principal culpado pelas mudanças climáticas.      

 A situação atual nos mostra que este modelo econômico baseado em exportação de grãos, carnes e madeira nos coloca cada vez mais vulneráveis as mudanças climáticas, aos eventos extremos que tem matado muitos brasileiros. Precisamos desenvolver um modelo econômico viável nestes tempos de clima tão diferentes, e sabendo que será cada vez pior. Precisamos de produção de alimento em sistema de agrofloresta, onde ao mesmo tempo que produzimos alimentos, produzimos também chuva, baixamos a temperatura e retiramos CO2 da atmosfera. Nos dias atuais temos que nos unir para juntos desenvolvermos as soluções. Precisamos apagar os incêndios, tomar providências quanto aos que não tem nenhum compromisso com o coletivo, e somarmos forças para descobrirmos juntos como sobreviver em um Brasil, um planeta cada vez mais inóspito, devido às agressões cometidas contra o meio ambiente, contra a natureza.

Referencia

1, Gatti, L. V. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change.

Nature 595, 388–393 (2021). https://doi.org/10.1038/s41586-021-03629-6

2- Gatti, L.V. et al. Increased Amazon carbon emissions mainly from decline in law enforcement. Nature 621, 318–323 (2023). https://doi.org/10.1038/s41586-023-06390-0

3- Gatti, L. V. et al. Drought Sensitivity of Amazonian Carbon Balance Revealed by Atmospheric Measurements, Nature 506, 76–80 (2014). https://doi.org/10.1038/nature12957

4- Fonte dos focos de queimada – https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/bdqueimadas/

Entrevista ao Canal “História Atual” sobre a crise climática e a epidemia de queimadas no Brasil

jaci parana

Essa semana participei de uma conversa com o Professor Lemuel Rodrigues da Silva da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) que mantém um canal no Youtube intitulado “História Atual“.  O tema dessa conversa foram as mudanças climáticas e seus impactos para a dualidade que se viu este ano entre as fortes enchentes no Rio Grande do Sul e a epidemia de queimadas que sacodiu o Brasil nos últimos meses.

Posto abaixo a conversa com o Professor Lemuel Rodrigues da Silva que eu considero oferece vários ângulos sobre essa dualidade.

Queimadas da cana colocam Campos como principal área de contaminação por mercúrio atmosférico no RJ, mostra estudo

Produção de poluentes pela queima da vegetação e de combustível pode se espalhar pelo ar e comprometer a saúde da população. É que mostrou um levantamento da PUC-Rio

cana

Por Arthur Almeida para a Revista Galileu 

Um estudo feito no Laboratório de Química Atmosférica PUC-Rio avaliou as concentrações de mercúrio (Hg) em material particulado (PM2.5) no ar em três locais no estado do Rio de Janeiro. Os resultados revelaram que 63% das amostras apresentavam níveis diários superiores aos padrões estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dentre as regiões investigadas estavam o bairro da Gávea, na capital fluminense; o município de Campos dos Goytacazes, área urbana afetada pela queima de cana-de-açúcar; e a zona de proteção do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso). Um artigo que detalha a análise foi publicado em junho na revista científica Royal Society of Chemistry.

poluição Hg

“A novidade dos nossos resultados está na quantificação das concentrações de mercúrio no material particulado no Rio de Janeiro, na identificação das variações sazonais e nas suas possíveis fontes de emissão”, aponta Luis Fernando Mendonça da Silva, primeiro autor do estudo, em nota enviada à imprensa. Dado que possui um dos maiores centros urbanos e industriais do Brasil, ele acredita que o estado apresenta características únicas que tornam a investigação desses níveis de poluição relevante.

Na comparação das áreas avaliadas, a concentração média de mercúrio no PM2.5 em Campos dos Goytacazes foi a maior encontrada, com níveis de 169 ± 139 pg m⁻³. Segundo os especialistas, tal fato pode ser explicado pelas queimadas da cana-de-açúcar recorrentes na região.

Da mesma forma, embora o Parnaso seja uma área de preservação, suas concentrações médias de mercúrio (110 ± 71 pg m⁻³) foram maiores do que as identificadas na Gávea (81 ± 116 pg m⁻³). A provável explicação para essa diferença é a proximidade do ponto de amostragem do parque com a rodovia, na qual a queima de diesel dos veículos emite mercúrio para a atmosfera.

“As queimadas, independentemente do tipo de biomassa, não causam a poluição do ar apenas pela emissão de partículas, mas também pelos componentes associados a elas”, aponta Adriana Gioda, coordenadora do Laboratório de Química Atmosférica. Ela lembra ainda que essas partículas não são estáticas e tampouco se restringem a seus limites geográficos, o que significa que o mercúrio pode migrar para outras regiões e afetar populações distantes de onde as queimas aconteceram.

A variação sazonal também foi recorte de avaliação dos pesquisadores. As amostras levantadas entre 2022 e 2023 revelam que as maiores porcentagens de mercúrio no PM2.5 foram encontradas no outono (37%); seguido pela primavera (28%); inverno (24%); e, por fim, verão (11%).

Para explicar a diferença do mercúrio nas amostras ao longo do ano, a equipe trabalha com a hipótese de que as temperaturas elevadas e a maior radiação solar no verão podem facilitar a transformação de gás em partículas. “As concentrações de Hg foram, aproximadamente, duas vezes maiores durante o período seco, quando comparados com o verão, sugerindo contribuições de fontes locais e poluição transfronteiriça”, revela Gioda.

De acordo com os pesquisadores, estudos complementares devem ser realizados no futuro. A ideia agora é entender como ocorre o ciclo desse poluente no Rio de Janeiro.


Fonte: Revista Galileu

‘É uma guerra de guerrilha’: bombeiros combatem incêndios na Amazônia – e os incendiários que os iniciam

Bombeiros e policiais de Rondônia combatem incêndios intensificados pela crise climática e por uma agressão criminosa à floresta tropical

man in yellow uniform stands against backdrop of burning forest

José Baldoíno lidera seus homens em direção a um incêndio na Estação Ecológica Soldado da Borracha, no estado de Rondônia, na Amazônia brasileira. Fotografia: Alan Lima/The Guardian

Por Tom Philips em Cujubim para  o “The Guardian”

Os ocupantes das tendas militares revestidas de vinil neste remoto acampamento na selva no oeste selvagem do Brasil comparam a paisagem infernal que os cerca a catástrofes antigas e novas: a extinção dos dinossauros, o bombardeio de Gaza , a destruição de Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial.

“É como se uma bomba nuclear tivesse explodido. Não há floresta. Não há nada. Tudo está queimado. É caos”, disse o Tenente-Coronel Victor Paulo Rodrigues de Souza enquanto fazia um tour pela base na linha de frente da luta do Brasil contra uma das piores temporadas de queimadas em anos e um ataque implacável à maior floresta tropical da Terra.

homem de uniforme laranja fala com policial de preto segurando uma arma

Tenente-coronel Victor Paulo Rodrigues de Souza, chefe de bombeiros cujos homens estão combatendo incêndios florestais no estado de Rondônia, no Amazonas, Brasil. Fotografia: Alan Lima/The Guardian

Há semanas, florestas e fazendas aqui na Amazônia — e em todo o Brasil — estão em chamas como raramente antes, graças a um coquetel altamente combustível de seca extrema que afeta quase 60% do país, à crise climática e a um apetite aparentemente insaciável para destruir o meio ambiente em busca de imensos ganhos financeiros.

Na frente do acampamento, uma escavadeira construiu uma posição de tiro defensiva para proteger os cerca de 100 bombeiros e policiais que vivem aqui de um possível ataque de madeireiros ilegais e grileiros que passaram os últimos anos cortando e incendiando grandes áreas de floresta tropical para criar terras agrícolas e pastagens. Além dessa terraplenagem de 3 pés, há uma imensidão de destruição: dezenas de milhares de acres de madeira e terra arável que estão virando fumaça, obscurecendo o sol e enchendo os céus com uma névoa branca tóxica.


floresta queimada parcialmente obscurecida pela fumaça

Um trecho recentemente devastado de floresta tropical na protegida Estação Ecológica do Soldado da Borracha na Amazônia brasileira. Fotografia: The Guardian

“Está queimando aqui há mais de 40 dias”, disse Souza enquanto seus bombeiros se preparavam para sua mais recente missão de apagar incêndios que também estão causando estragos nos vizinhos Bolívia e Peru. “Você não conseguia respirar na base ontem. Todo mundo estava usando máscaras… Às 9h da manhã era como se fosse noite porque você não conseguia ver a luz do sol.”

O  The Guardian passou três dias no acampamento da Estação Ecológica Soldado da Borracha, perto de um posto avançado de extração de madeira chamado Cujubim, para testemunhar os esforços do governo para controlar as chamas antes que elas causem ainda mais danos.

Cujubim recebeu esse nome em homenagem a um pássaro amazônico – o jacutinga-de-garganta-vermelha – que é nativo dessa parte de Rondônia, um dos nove estados amazônicos. As ruas da cidade prestam homenagem à abundância de pássaros que habitam as selvas da região.

O tema aviário obscurece uma realidade ameaçadora causada pela corrida criminosa para lucrar com as florestas supostamente protegidas da região. Uma placa dando boas-vindas aos visitantes de Cujubim está cheia de buracos de bala. Em uma manhã recente, dois homens foram baleados na cabeça no cruzamento da Avenida Curassow com a Estrada Jabiru Stork.

um bombeiro vestindo laranja luta contra as chamas

Um incêndio florestal devastando a Estação Ecológica do Soldado da Borracha, protegida no estado de Rondônia. Fotografia: Alan Lima/The Guardian

Há poucos sinais de pássaros na trilha de terra que serpenteia para o norte de Cujubim em direção à base de combate a incêndios, exceto o ocasional par de araras cujas penas escarlates contrastam com a poluição branca pálida. Essa estrada leva o nome não da natureza, mas de um notório destruidor de florestas chamado Chaules Pozzebon, que os moradores dizem que a construiu para acessar as selvas intocadas que ficam além.

Apelidado de “o maior desmatador da Amazônia , Pozzebon foi preso em 2019 e condenado a 99 anos de prisão por comandar uma organização criminosa armada, embora tenha sido solto recentemente após sua sentença ter sido reduzida. “Ele semeou terror por aqui. Ele era o chefe da floresta”, disse um policial sobre Pozzebon, que possuía mais de 100 serrarias e supostamente empregava uma milícia de pistoleiros para proteger a área selvagem que ele controlava.

A 90 minutos de carro pela Estrada do Chaules, de tirar o fôlego, chega-se à base de bombeiros: um acampamento empoeirado ao lado do Rio Curicá, conectado ao mundo exterior por uma antena parabólica Starlink.

Essa conexão de internet permite que os bombeiros detectem incêndios conforme eles irrompem ao redor deles. Na semana passada, imagens de satélite mostraram que, apesar dos esforços, a situação estava piorando. “Na nossa primeira semana aqui, reduzimos o número de focos para 17 por dia. Mas desde ontem, aumentou de 17 para 59 – e hoje está em mais de 80”, disse Souza, culpando “represálias” de criminosos ambientais enfurecidos pela luta do governo para extinguir os incêndios.

mapa cujubim

Três grandes árvores foram derrubadas nas estradas da selva para impedir a chegada dos bombeiros. Em outros lugares, barras de aço foram transformadas em tiras de pregos improvisadas, projetadas para furar os pneus. “É como uma guerra de guerrilha. Eles estão tentando impedir que os bombeiros entrem para apagar os incêndios florestais porque querem limpar a área”, disse o chefe dos bombeiros, que usava uma pistola no quadril.

Horas depois, em um incêndio ao sul do acampamento, Souza avistou os restos derretidos de um recipiente de plástico de gasolina perto da carcaça de uma castanheira- do- pará de décadas que havia queimado até o chão. Rastros de motocicleta eram visíveis nas proximidades, mas o iniciador do incêndio já havia desaparecido há muito tempo. “É como uma favela na selva, cheia de becos e vielas”, disse Souza, comparando a vasta região da floresta tropical a uma das favelas labirínticas do Rio. “Os invasores conhecem cada trilha, então é quase impossível pegá-los.”

Os restos derretidos de um recipiente de plástico para gasolina

Os restos derretidos de um recipiente de plástico de gasolina encontrados na cena de um incêndio na Estação Ecológica Soldado da Borracha. Fotografia: Alan Lima/The Guardian

Na manhã seguinte, um comboio de bombeiros e policiais deixou a base da Soldado da Borracha e dirigiu por duas horas por uma paisagem pós-apocalíptica de árvores caídas e terra queimada. Depois de passar pelo cadáver putrefato de um cavalo que parecia ter sido mordido por uma cobra, o grupo descobriu uma serraria ilegal no coração de uma extensão colossal de floresta recém-derrubada. Madeira serrada e latas de cerveja vazias cobriam o pátio. O fogo havia se apagado, mas o dano estava feito.

“Não sei dizer como começou. Tudo o que sei é que veio de lá”, disse Damião de Andrade, 53, um trabalhador migrante de Bodocó, no nordeste empobrecido do Brasil, que a polícia deteve para interrogatório em uma fazenda vizinha.

Especialistas dizem que a falta de chuva associada ao fenômeno climático natural El Niño e as temperaturas escaldantes durante o que se espera ser o ano mais quente do mundo já registrado turbinaram os incêndios florestais. Mas a esmagadora maioria dos incêndios foi deliberadamente provocada.

Carlos Nobre, um dos principais climatologistas do Brasil, suspeitou que a explosão de queimadas — não apenas aqui na Amazônia, mas no Pantanal, no Cerrado e até mesmo no sul de São Paulo — poderia ser parte de um contra-ataque criminoso projetado para sabotar a repressão do governo federal ao desmatamento e à mineração ilegal .

Desde que o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva se tornou presidente em janeiro de 2023, o desmatamento da Amazônia caiu drasticamente, após quatro anos em que disparou sob seu antecessor de extrema direita, Jair Bolsonaro. Nobre disse que criminosos ambientais consideravam o governo de Lula — e outros líderes sul-americanos que também estavam lutando contra o desmatamento — “um inimigo de guerra”, ao contrário de Bolsonaro, cujas políticas antiambientais significavam que o viam como um amigo . Uma seca que as autoridades chamam de “a mais intensa e generalizada” da história brasileira e as ondas de calor associadas deram a esses criminosos uma oportunidade de ouro para semear o caos. “É guerra — eles querem derrubar esses governos”, disse Nobre.

vista aérea de um grande celeiro em uma paisagem queimada e obscurecida pela fumaça

Uma operação ilegal de extração de madeira descoberta pela polícia e bombeiros. Fotografia: The Guardian

Esta semana, a ministra do Meio Ambiente de Lula, Marina Silva, acusou os incendiários de cometerem “terrorismo climático” e pediu punições mais duras para tais crimes.

Enquanto os investigadores da polícia federal trabalham para identificar os responsáveis ​​pelo incêndio deste ano, centenas de bombeiros intrépidos e cobertos de fuligem continuam a combater as chamas com facões, sopradores de folhas e motosserras.

“É como entrar em um cemitério… Tudo aqui já foi vivo. Agora está tudo morto”, disse José Baldoíno, um bombeiro de 41 anos, enquanto liderava sua equipe de nove pessoas em sua mais recente conflagração, onde chamas laranja brilhantes rasgavam o mato carbonizado.

bombeiros de laranja caminhando em meio a árvores queimadas

Bombeiros sobem ao longo do tronco de uma enorme castanheira-do-pará destruída pelo fogo. Fotografia: Alan Lima/The Guardian

Ao cair da noite, Baldoíno, que trabalha para uma unidade federal de combate a incêndios florestais chamada Prevfogo, ordenou que seu esquadrão recuasse por medo de ser esmagado por árvores caídas. Eles estavam trabalhando desde as 6h. Mas na manhã seguinte os homens acordaram antes do amanhecer, vestiram uniformes resistentes a chamas e correram de volta para a frente.

Na Bíblia, “diz que o mundo acabará em fogo – e o que estamos testemunhando hoje não está muito longe das escrituras”, refletiu Baldoíno, lembrando dos incêndios florestais recordes que também atingiram países tão distantes quantoCanadá e Portugal.

Depois de um mês na selva, Baldoíno admitiu que os corpos de seus homens estavam cansados, mas jurou que eles não desistiriam da luta. “Nossas almas clamam por um final feliz.”


Fonte:  The Guardian

Lula e Bolsonaro: no tratamento das pandemias da COVID-19 e das queimadas existe alguma diferença entre eles?

xr:d:DAF-OLMzWpM:9,j:6379769698367065799,t:24030613

Por Douglas Barreto da Mata

Em conversas mantidas com o amigo George Gomes Coutinho, e em tantas outras com o editor deste blog, que generosamente permite que eu veicule minhas inquietações neste espaço eletrônico, o Professor Marcos Pedlowski, sempre questionamos o sentido da palavra democracia no modelo capitalista.

Por certo, de forma mais ou menos intensa, concluímos que falar em democracia no capitalismo é um erro conceitual grave.  Coutinho, inclusive, cunhou o termo “mercado democrático”, para dar sentido a um sistema de concorrências políticas, em ambientes específicos, onde as forças em conflito tratam suas diferenças, dando uma gradação mais ou menos “democrática” para cada sistema, de cada país, atendendo a critérios de mais ou menos liberdade de expressão, estabilidade jurídica e normativa, etc. Eu chamaria de mercado representativo.

Continuo a achar que nada há de democrático no capitalismo, nem mesmo um “mercado democrático”, ainda que eu entenda cada nuance da expressão imaginada por Coutinho.  Pois bem, olhando o movimento recente da economia, no atual governo, e as guinadas e recuos do Presidente Lula, juntando com o desastre ambiental e a inação da administração federal, onde o próprio Lula disse, ontem, senão me engano, que ninguém está preparado para tais circunstâncias, em todas as esferas de governança, eu fiquei imaginando: tem diferença entre Lula e Jair Bolsonaro?

Se a pandemia da COVID-19 foi o pior ponto do governo Bolsonaro, onde os analistas entendem que ali se exauriu boa parte de seu capital político, e se concordamos com o magistrado do STF, o insuspeito e ex Ministro da Justiça Flávio Dino, que estamos diante de uma pandemia ambiental, então também podemos concluir que esse será o ponto fatal para Lula, dentre tantos outros já acumulados.

Como assim não estamos preparados, Lula?  Esse atual cenário de desastre ambiental foi projetado desde 1992.  Já se passaram dois mandatos seus, e um e meio de Dilma, como assim não sabiam o que ia acontecer?

COP dois mil e X paineis climáticos internacionais, e se Lula não souber ou puder ler ttodo o material gerado nesses encontros, pode ir de “O Dia Depois de Amanhã” mesmo, com Dennis Quaid.  Ali, de forma exagerada e resumida dá para ter uma noção do que o aquecimento vai trazer ao clima.  Se Lula não sabe, não quer saber, manda alguém ler e traduzir para ele. Tudo certo, não se pode saber tudo.

O que não pode é dizer que um tema de 40 anos não gerou no presidente uma demanda de planejamento e preparação, e neste caso, de enfrentamento da causa: o modelo econômico agroexportador!

Quer dizer que o governo Lula, que alimentou-se dos superávits da balança comercial, pelas exportações do latifúndio (chamado, carinhosamente, também por Lula de agronegócio), não sabia que o custo sócio ambiental seria esse?

Lula passou todos os seus anos de governo sem mexer em nada na estrutura da nossa carteira de exportações, somos quase que meros exportadores de “pau-brasil”, ganhando em troca, não espelhos e miçangas, como os índios da época, mas isqueiros e gasolina, para transformar tudo em pastagens e áreas de soja e milho.

Quando exportamos carne, milho, soja, etc, na verdade, enchemos os bolsos de ricos fazendeiros, que não recolhem impostos sobre a venda exterior desses produtos (Lei Kandir), e damos, de graça, trilhões de litros d’água, usadas nesses cultivo e criações, enquanto os compradores poupam seus biomas quando adquirem essas commodities a preços generosos.

Você fica sem água, no calor, na fumaça, para alguém enriquecer, e sequer pagar o imposto para ajudar a conter os estragos.  Vejam bem a que ponto chega a cretinice desse governo, ao justificar que poderia haver um incremento da inflação por causa das queimadas, ao mesmo tempo que criou a narrativa dos “piromaníacos lobos solitários”, ou dos “incêndios terroristas”.

Ora, claro que podem haver grupos organizados para criar tensão, bem como a ação de incendiários malucos, agindo por imitação.  Sim, é possível.  Mas creditar a esses atos a responsabilidade por tudo que está acontecendo desde sempre nos biomas que servem como repositores de chuva e umidade no resto país, leia-se Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica é de um cinismo tão cruel quanto Bolsonaro dizer que não se importava com as vítimas da pandemia, porque não era coveiro.

Ao lado disso tudo, Lula, que passou anos atacando o Presidente do Banco Central, agora deu uma guinada, e na iminência de colocar o seu indicado na presidência, resolveu aderir à tese da autonomia, e sequer deu um pio sobre a subida recente (ontem) da SELIC em 0.25%.  Alguns dirão que faz sentido o cálculo de Lula, para afastar os questionamentos sobre as ações de seu indicado, quando ele tomar as medidas que Lula deseja.

Será Lula um ingênuo, e será que ele acredita que o seu indicado fará mesmo o que ele mandar, e não o mercado?  Mesmo diante da canalhice dos porta-vozes da banca, os mercenários do teleprompter, dizendo em alto e bom som que a subida se justificava para “acalmar” o mercado de trabalho.  Em outras palavras, aumentar o desemprego, para evitar que os patrões tenham que pagar mais pela mão-de-obra.

Assim, como sempre, toda vez que há alguma merreca em ganho de renda, a banca, com a cumplicidade do governo, aumenta os juros para subtrair esse excesso das mãos dos trabalhadores.  O governo não cria impostos, nem torna a estrutura tributária mais justa (rico paga mais, pobre paga menos) mas permite o “tributo dos juros” sobre os que têm menos renda.  Assim temos o pior dos mundos.

Um país massacrado pela inépcia e covardia de um governo, que cede aos magnatas dos juros e do latifúndio, e que agora resolveu voltar a lamber as botas dos EUA nas questões geopolíticas regionais, antigo fetiche de Lula pelos Democratas, logo eles que nos entubaram o golpe de 2016, em Dilma, via juízes treinados pelo departamentos de Estado e de Justiça dos EUA.

Talvez estas conjunturas tenham reflexo aqui, na planície, onde o PT parece desgovernado, cambaleando, trocando as pernas. Faz sentido.

Há diferença entre Lula e Bolsonaro?  Bem, respondendo a esta pergunta,  talvez a diferença entre Lula e Bolsonaro é que o primeiro não gravou, ou pelo menos ainda não divulgou, imagens e áudios de reuniões ministeriais com a Marina Silva falando em passa boi, passa boiada.

Na prática, porém, o boi e a boiada passaram, e foram direto para o brejo.  Alguém disse que é mais fácil imaginar o fim do mundo, a pensar no fim do capitalismo.  Pode ser. Lula e o PT, com certeza, são herdeiros dessa tese.

Seca e queimadas no Brasil: entrevista no SBT News

entrevista SBT

Ontem tive a oportunidade de dar uma entrevista ao jornalista Léo Cavalcanti do SBT News sobre a situação da seca histórica e das queimadas que assolam o Brasil neste momento. Em que pesem eventuais erros que ocorrem neste tipo de interação ao vivo, penso que a mensagem foi passada com a devida correção.

O fato é que a situação está dramática e tende a piorar nos próximos anos e décadas se medidas concretas não forem tomadas para conter a destruição da Amazônia e do Cerrado. Agir com orçamento adequado será fundamental para impedirmos o avanço da catástrofe climática que está se colocando sobre o planeta, e em especial o Brasil.

Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental emite nota sobre papel do agronegócio no ecocídio brasileiro

A chapa tá quente! Mas quem a esquenta?…

cerrado okozid

Por RP-G(S)A

Não está acontecendo apenas hoje, nem começou ontem ou na semana passada. Já se vão alguns meses que o Brasil é tomado por uma espessa camada de fumaça, fruto de um número recorde queimadas que tem incendiado a vegetação, matando animais nos diferentes biomas brasileiros, especialmente o Pantanal, o Cerrado e Amazônia. Em relação a esta situação,  distintos veículos de comunicação “informam”, “especialistas” opinaram, celebridades fizeram postagens em suas redes sociais alertando para os problemas de saúde causados pela piora da qualidade do ar, principalmente as doenças respiratórias. Falou- se, também, sobre a proporção das queimadas (vários milhões de hectares) e sobre a mobilização de  brigadistas para apagar as chamas… Mas algo que tem sido tratado apenas superficialmente em meios ao caos, e se refere a quem são os agentes mediatos e imediatos desse verdadeiro ecocídio que se desenrola em frente aos nossos olhos.

Tudo indica que, em busca de fazer avançar sua fronteira agrícola, desterritorializando populações tradicionais e povos indígenas, e devastando a biodiversidade, o agronegócio não hesita em avançar o processo de destruição. Durante o governo Bolsonaro, vimos como o fogo atingiu partes significativas da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal (e, em menor escala, dos outros biomas também). O fato é que o agronegócio se acostumou em fazer a boiada passar, e não dá sinais que pretenda parar. Nesta época de secas e estiagens, com a vegetação ressequida e vários rios com a vazão diminuída, nem todos os incêndios são fruto da ação do agronegócio; mas é seguro que a maioria deles foram e estão sendo iniciados para acelerar a territorialização das monoculturas e da pecuária de exportação, como os dados divulgados pelo Mapbiomas nos levam a concluir.

Mesmo quando não é o agente direto, agindo criminosamente ou sob a aprovação legal do Estado brasileiro (incêndios associados ao desmatamento para uso como pasto ou para as monoculturas, ou mesmo, quem sabe, para “fazer barulho”, para poderem depois alegar que “não foi só sob Bolsonaro que houve incêndios”…), o agronegócio é um agente decisivo na destruição da Natureza. Afinal, a pressão pela desproteção e a maior vulnerabilidade dos ecossistemas têm muito a ver com o seu papel, que conta com o apoio resoluto da bancada ruralista no Congresso Nacional.

No momento em que cada vez mais se torna perceptível a ocorrência dos eventos climáticos extremos e de seus efeitos catastróficos, pouco se fala dos agentes causadores e de seus interesses  como se as mudanças climáticas fossem resultado de variáveis desconhecidas, ou um fenômeno imputável apenas a um “fator antrópico” abstrato. Nós, que compomos a Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental / RP-G(S)A, não titubeamos em assinalar que, enquanto o agronegócio continuar a receber vantagens, como financiamento público, liberação desenfreada de agrotóxicos altamente venenosos, além de usufruírem de uma fiscalização insuficiente, tanto ambiental como trabalhista, continuaremos a respirar a fumaça das queimadas e a adoecer com sua toxicidade. E, pior, a viver com um clima cada vez mais vez hostil, principalmente para os mais pobres.

RP-G(S)A, 13 de setembro de 2024.


Fonte: RP-G(S)A

Estamos sufocando para garantir um modelo de desenvolvimento ultrapassado e mortal

red sun queimadas

Editorial do Observatório da Mineração

O pouco ar que consigo injetar para dentro dos meus pulmões enquanto escrevo estas linhas é um ar consistentemente “muito insalubre”. A capital paulista registra a pior qualidade do ar entre as grandes cidades do mundo nos últimos dias. Fora do atual período, porém, a situação não é muito melhor. E SP não é exceção: capitais amazônicas como Porto Velho em Rondônia e Rio Branco, no Acre, registraram índices de qualidade do ar piores que os de SP.

No Sul, já castigado pelas terríveis enchentes recentes, uma chuva cinza, fruto das milhares de queimadas em curso no Brasil, principalmente na Amazônia e no Cerrado, está caindo sobre a cabeça dos moradores.

A palavra recorde passou a fazer parte do dia a dia: seca recorde, calor extremo recorde, chuva recorde, incêndios recorde e por aí afora. Os tais eventos extremos frequentes chegaram para ficar e serão nossos companheiros inseparáveis pelos próximos anos e décadas, cada vez mais extremos, mais insuportáveis, mais mortais.

Não é preciso ser cientista, pesquisador ou jornalista – não falei quais – para constatar que, sim, a crise climática não é um passeio no shopping, um delírio distópico de apocalipses vindouros, coisa de ambientalista “ecochato” que gosta de abraçar árvore e salvar baleias. Não. Ela é real, aqui e agora, e basta tentar respirar, em vão, para se dar conta, bem debaixo do nosso nariz, que não adianta negar essa realidade.

O rio Madeira, em Porto Velho, está extremamente seco. A maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, está enfrentando um período extremo de estiagem – Isaac Fontana/EPA-EFE/REX/Shutterstock via BBC News Brasil

Mesmo assim há um elemento crucial, responsável pela crise climática, que costuma ficar de fora da discussão, esperando talvez que a temperatura baixe, a umidade retorne a níveis aceitáveis para a vida humana, episódios agudos diminuam e o cotidiano chegue a algo próximo do normal. O tal varrer as brasas da floresta em chamas para debaixo do tapete incômodo da memória. É o atual modelo de desenvolvimento em curso no Brasil e no mundo.

Você não consegue respirar porque este modelo de desenvolvimento, ultrapassado e mortal, não deixa. Um fato incômodo para muita gente. Reconhecer que o problema central é o modelo de produção em massa de matéria-prima tipo exportação que carrega com ele o ecocídio continuado de biomas que estão virando pó numa velocidade muito maior do que o aceitável implica reconhecer que algo precisa mudar e rápido.

Implica reconhecer que quase tudo que estamos fazendo deu muito errado, que as alternativas na mesa estão longe de serem viáveis na escala necessária e que não basta vender um mundo encantado de “soluções verdes” questionáveis. Uma das premissas básicas do desenvolvimento sustentável é que o modelo em curso deva ser capaz de atender às necessidades do presente não comprometendo a capacidade que gerações futuras terão de atender às suas necessidades.

Um olhar rápido comprova que falhamos grosseiramente em garantir isso. O esgotamento de recursos finitos e não renováveis – se você pensou em mineração, petróleo e gás, pensou certo – em escala massiva global compromete a vida humana no presente e, claro, todas as gerações futuras.

A produção ininterrupta de commodities agrícolas como soja, carne, milho e algodão, principal vetor do desmatamento que já engoliu mais da metade do Cerrado – berço de bacias hidrográficas inteiras que garantem água na sua torneira – e boa parte da Amazônia, que nos últimos 5 dias, pasmem, teve a sua região Sudoeste como a maior emissora de gases de efeito estufa no planeta, parece – e é – uma escolha estúpida fiada em modelos literalmente insustentáveis.

Não raro é preciso reafirmar várias vezes o óbvio ululante para que o óbvio ululante seja levado a sério com a precisão necessária.

A fumaça sobe dos incêndios na vegetação do Cerrado na área rural de Formosa, estado de Goiás. Foto em 11 de setembro – Andre Borges/EPA-EFE/REX/Shutterstock via BBC News Brasil

Este óbvio, porém, que tem no Brasil um dos principais expoentes e um dos principais responsáveis históricos – estamos no top 10 de maiores emissores globais – encontra muita dificuldade em ser aceito por políticos, empresários, lobistas e até por muitos jornalistas, analistas, cientistas e pesquisadores.

Reconhecer esse óbvio implica em reconhecer que o seu modelo de negócio é inviável. Reconhecer a realidade implica em aceitar publicamente que aquilo que você defende é na verdade indefensável. E que não importa quantos termos bonitos você invente, quantas promessas você faça, quantos acordos cheios de boas intenções você assine.

Não importa sequer que este modelo causador da crise climática que está levando a humanidade ao colapso irá fazer com o que seu próprio negócio colapse. E o “agrosuicídio” ilustra isso muitíssimo bem: o agronegócio, especialmente a fatia radical que despejou bilhões em golpes contra a democracia antes, durante e depois do governo de Jair Bolsonaro, que tenta desestabilizar politicamente o país agora, que vive de chantagear o atual governo que se equilibra nos acordos que teve que fazer e na equipe que teve que compor, esse agro sempre insaciável por mais privilégio, mais dinheiro e mais poder, que não tem o menor pudor em arrastar correntões que põe abaixo a Amazônia e o Cerrado, já está sentindo na pele e no bolso, continuamente, os efeitos da crise climática que ele mesmo causa.

Contra o ditado, a estupidez do “ogronegócio” é tão disseminada, a certeza da impunidade é tão clara – não por acaso estão literalmente tocando fogo no Brasil – e o desejo de poder tão infinito que nem sentindo no bolso a postura muda. Afinal, não importa qual governo esteja no cargo, ele terá que comer na mão do agronegócio e da mineração, irmãos em armas, em infraestrutura, logística, em mútua dependência, em lobby no Congresso, em benefícios multibilionários. Se o governo sempre depender de você, não importa o que aconteça – mesmo – sempre haverá recursos virtualmente infinitos para te socorrer em momentos de crise, de devastação, de seca, de enchentes. Só no Plano Safra desse ano foram mais de R$ 500 bilhões para o agro nacional. Fora o baile: terra subsidiada, equipamentos, produção, agrotóxicos, exportação, tudo subsidiado. Ou os R$ 1,2 trilhão que o setor mineral faturou apenas nos últimos cinco anos. Sim, você leu certo. Leia novamente. É muito, muito dinheiro. E eles não estão satisfeitos.

Os números da mineração e do agronegócio são sempre gigantescos e estonteantes, capaz de fazer com que nós, meros mortais, percamos o rumo e a noção da realidade. Mas não quero te aborrecer em excesso com números e elencar aqui uma tonelada de dados e fatos que comprovam que nosso tempo, que nunca foi lá grandes coisas, está acabando para tentar frear o colapso da vida na Terra.

O polonês-francês Ignacy Sachs, um dos principais responsáveis por delimitar o que conhecemos por desenvolvimento sustentável, a tentativa de equilibrar demandas sociais, ambientais e econômicas sem prejudicar o meio ambiente e destruir a diversidade, afirmou décadas atrás que, em última instância,“o desenvolvimento sustentável é incompatível com o jogo sem restrições das forças do mercado”.

Repare: Sachs não diz que o modelo econômico em curso é mais ou menos viável, adaptável, possível de se ajustar, que basta mudar uma coisinha ali e outra acolá, mas que o desenvolvimento sustentável é incompatível com o jogo do mercado. Incompatível. Mesmo o insuspeito Sachs, que não pode ser acusado de comunista, socialista ou coisa que o valha.

Uma fazenda perto de um incêndio florestal na Amazônia em uma área da Rodovia Transamazônica BR-230 em Labrea, Amazonas – Bruno Kelly/Reuters

Ele não está sozinho: mesmo o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e alguns economistas liberais já começaram a reconhecer nos últimos anos que talvez as coisas não estejam mesmo lá muito boas. O sociólogo alemão Wolfgang Sachs, que defende que precisamos ir mais devagar – um alô para o “polêmico” Decrescimento – acumular menos coisas, escolher produtos regionais e não deixar que o mercado tome conta de absolutamente todos os aspectos da nossa vida, vai além. Para ele, o engano e a desilusão, os fracassos e os crimes têm sido companheiros permanentes do desenvolvimento. Contam uma mesma história: não funcionou”. Não funcionou. Está obsoleto, antiquado e esgotado.

Pensadores e lideranças indígenas são ainda mais diretos: “não existe democracia no Brasil e estamos sofrendo a terceira onda de invasão”, como me disse Ailton Krenak, entrevistado aqui em 2019.

Lembre-se disso quando você tentar puxar o ar e não conseguir, quando o mal-estar generalizado se tornar banal e a destruição permanente, televisionada e compartilhada dos nossos biomas for considerada mais uma notícia qualquer.

Aqui, neste Observatório, nunca será. Neutralizar e normalizar a barbárie ecocida nunca fez e nunca fará parte da nossa atuação. Mudar o atual modelo de desenvolvimento agro mineral, nas bases em que se encontra, não é uma questão de opinião, mas de sobrevivência. Reconhecer o óbvio ululante e não incorrer em negacionismos muito bem costurados, disfarçados de outra coisa, repito, é o primeiro passo para tanto.

Primeira foto, destaque: Fumaça dos incêndios deixou o sol alaranjado em São Paulo. Crédito: Isaac Fontana/EPA-EFE/REX/Shutterstock via BBC News Brasil


Fonte: Observatório da Mineração