Amazônia em 2020: mais desmate e queimadas, e violência explícita contra os povos indígenas

xreserva-indigena.jpg.pagespeed.ic.azlgR7Cj65Unidades de conservação e terras indígenas foram transformadas em áreas preferenciais de novos desmatamentos na Amazônia em 2019.

Os tradicionais votos de final de ano nos quais depositamos nossas melhores esperanças para o ano novo certamente continuarão sendo oferecidos, e muitos dos que os oferecerem certamente o farão com sinceridade. Entretanto, se olharmos para as perspectivas em relação à Amazônia brasileira, mantidas as práticas de desmanche e sucateamento impostas pelo governo Bolsonaro, o próximo ano deverá ser palco de um forte agravamento em três áreas que se mantiverem em níveis críticos em 2019: desmatamento, queimadas e violência contra os povos indígenas.

Que ninguém se iluda com a manutenção formal do Brasil no chamado Acordo de Paris sobre o Clima, pois a quantidade de negacionistas climáticos ocupando cargos chaves no governo Bolsonaro aniquila qualquer expectativa de que tenhamos uma postura responsável frente aos problemas que já estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil por causa das mudanças ocorrendo no clima global.   O claro antagonismo do governo  Bolsonaro em relação à manutenção do estoque de florestas primárias, que é uma das condições fundamentais para que haja qualquer viabilidade no cumprimento dos objetivos firmados em Paris, implica em total descompromisso com a proteção e a conservação da Amazônia. 

Essa oposição explícita do governo Bolsonaro à proteção e conservação dos biomas amazônicos continuará incentivando os saqueadores ilegais dos recursos naturais ali existentes, bem como levará a que mais grileiros de terras se sintam autorizados a invadir unidades de conservação e terras indígenas.  De quebra, ainda serão executados mais projetos governamentais envolvendo a construção de estradas e hidrelétricas. Desse processo combinado de agentes ilegais e da ação do Estado decorrerão taxas ainda mais elevadas de desmatamento, com a provável inovação da interiorização do arco de desmatamento que até hoje ficou restrito à porção mais ocidental da bacia amazônica.  E como desmate e fogo caminham juntos, também deverá crescer o número e a intensidade dos focos de incêndio, visto que estão de volta os grandes desmatamentos que marcaram o início da década de 1970.

No meio de toda esse desmatamento e fumaça, outra variável que deverá crescer ainda mais será a violência contra os povos indígenas, processo que deverá tomar ares ainda mais explícitos de genocídio. A razão para isso não é apenas o racismo incrustado nas práticas cotidianas dos inimigos das florestas contra os povos originários do Brasil. A causa do genocídio é simples e direta: os povos indígenas são protetores milenares das nossas florestas e sua existência representa um obstáculo ao avanço da destruição pela qual os saqueadores e grileiros exercem suas formas cruas de apropriação das riquezas amazônicas.

garimpoGarimpos ilegais ameaçam os povos indígenas e os ecossistemas naturais na Amazônia

De forma direta, a batalha pela Amazônia vai ser uma espécie de síntese da guerra que vamos travar ao longo de 2020 para determinar em que tipo de país queremos viver. É que o projeto de exploração via “economia de fronteira” que está sendo escancarado na Amazônia é apenas um prenúncio do que as forças ultraneoliberais encastelados no governo Bolsonaro pretendem fazer com todo o Brasil. Por isso, não há como subestimar o tamanho da disputa que se desenrola neste momento na Amazônia, e que deverá se agravar de forma aguda no próximo ano.  Mais do que em qualquer momento de nossa história, o destino do Brasil estará umbilicalmente conectado ao que acontecer na Amazônia.

Felizmente, há muita gente dentro e fora do Brasil atenta aos planos de destruição que estão sendo engendrados para transformar a Amazônia em um mosaico que mistura monoculturas e pastagens.  Unir os esforços de toda essa gente será uma das principais e inadiáveis tarefas que os defensores da natureza e de uma nação democrática terão que resolver. 

Amazônia em chamas: estudo mostra que queimadas são três vezes mais comuns em áreas de pecuária

Investigação revela que 70% dos alertas de incêndio da Nasa estavam localizadas nas zonas estimadas de compra de empresas de carne bovina, algumas das quais exportam para o Reino Unido

guardian 1As zonas de compra estimadas de 128 matadouros foram combinadas com a localização de alertas de incêndio florestal. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Alexandra Heal, Andrew Wasley, Sam Cutler and André Campos para o “The Guardian”

Os incêndios foram três vezes mais comuns nas zonas produtoras de carne do que no restante da Amazônia neste verão, segundo uma nova análise.

As descobertas mais uma vez chamam a atenção para os vínculos entre a poderosa indústria de carne bovina do Brasil e o desmatamento da floresta amazônica, assim como o mundo debate as mudanças climáticas na COP25.

Em resposta ao trabalho do Guardian e do Bureau of Investigative Journalism (BIJ), os eurodeputados pediram à UE que bloqueie a carne bovina que pode estar ligada ao desmatamento. “É absolutamente urgente que a UE imponha um dever legal às empresas européias para garantir que suas cadeias de suprimentos estejam livres de desmatamento”, disse Heidi Hautala, uma eurodeputada finlandesa.

gado fogoNa imagem acima no lado esquerdo aparecem as áreas estimadas como sendo de pontos de compra de animais para abate pelos grandes frigoríficos. Já no lado direito aparecem os focos de incêndio na Amazônia brasileira. Em dois 2/3 dos casos há coincidência entre os dois fatores.

Há dois anos, a ONG brasileira Imazon coletou dados para estimar as zonas de compra de carne bovina em toda a Amazônia. Eles identificaram 128 matadouros e começaram a estabelecer as áreas a partir das quais essas plantas poderiam comprar seu gado para processamento. Por meio de entrevistas por telefone com a equipe dos matadouros, ou fazendo médias com base em métodos em outras frigoríficas, a equipe de pesquisa coletou informações sobre as distâncias máximas das quais cada um provavelmente obteria gado.

Eles modelaram esses dados com base em fatores locais, como estradas, rios navegáveis e padrões climáticos, e estimaram a zona de compra potencial máxima para cada matadouro. As zonas de compras cobrem grandes áreas de centenas de km e há sobreposição significativa entre as zonas de compras para diferentes empresas. Somados, os dados criam uma imagem convincente das áreas da Amazônia onde o gado está sendo criado para a carne bovina.

Usando métodos projetados pelo projeto de sustentabilidade sem fins lucrativos Chain Reaction Research, o Guardian e o BIJ mapearam os alertas de incêndio da Nasa arquivam dados na área legalmente definida da Amazônia e descobriram que dos 554.000 alertas de julho a setembro, quase 376.000 – cerca de 70% – estavam nas zonas de compra estimadas, apesar de essa área cobrir muito menos da metade da Amazônia legal.

Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na região. Mais de um quarto de milhão de alertas de incêndio foram emitidos nas zonas estimadas de compra da JBS, a maior fornecedora de carne do mundo, por exemplo. Sabe-se que suas fábricas exportam para a Europa, inclusive para empresas do Reino Unido.

Havia quase 80.000 alertas de incêndio nas prováveis ​​áreas de compra da Marfrig, o terceiro maior exportador brasileiro de carne bovina, e mais de 66.000 em torno de matadouros pertencentes à Minerva. Esses três frigoríficos dominam a Amazônia brasileira e respondem por quase metade do gado abatido na região, segundo o Imazon.

guardian 2Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na Amazônia. Fotografia: Marco Antonio Rezende / Getty

JBS, Marfrig e Minerva disseram ao Bureau que estavam comprometidos com as cadeias de suprimento de “desmatamento zero” e que todos monitoram seus fornecedores para garantir isso.

“A correlação teórica baseada em estimativas não é causal e é enganosa”, disse um porta-voz da JBS. “A JBS está trabalhando ativamente para reunir outras partes interessadas e empresas importantes para unir forças para preservar a Amazônia.”

A empresa acrescentou: “Se as fazendas são consideradas não compatíveis com nossas políticas de abastecimento sustentável por qualquer motivo, incluindo o desmatamento, elas estão bloqueadas em nossa cadeia de suprimentos … Não estamos envolvidos nem toleramos a destruição da Amazônia”.

A Marfrig também disse que bloqueou todas as fazendas encontradas envolvidas no desmatamento e que começou a monitorar os focos de incêndio em agosto deste ano. “Sempre que qualquer sobreposição de áreas entre as propriedades e os focos de incêndio é identificada, há um alerta para que a compra seja reavaliada”, afirmou a empresa em seu comunicado.

Minerva disse que não havia evidências de que havia comprado animais de fazendas onde ocorreram incêndios e culpou a crise deste ano pelo clima. Ele disse que “não há conexão comprovada com as atividades do agronegócio”.

Em uma investigação separada, também foram encontrados incêndios em pelo menos três fazendas conhecidas por vender gado diretamente aos matadouros da JBS. Trabalhando com a Repórter Brasil, o BIJ descobriu que pelo menos uma dessas plantas exporta carne e couro globalmente.

Enquanto JBS, Marfrig e Minerva dizem estar confiantes de que o gado que compram não provém de áreas ilegalmente desmatadas, eles também aceitam que não sabem a origem de muitos porque o gado é frequentemente movimentado entre os milhares de fazendas de criação, criação e engorda.

A indústria de carne bovina é vista como uma das principais causas do desmatamento na região amazônica. Os criadores de gado são responsáveis ​​por 80% da derrubada de terra em todos os países com cobertura florestal na Amazônia, de acordo com a Escola de Estudos Florestais e Ambientais da Universidade de Yale.

JBS, Minerva e Marfrig admitem que não podem monitorar as fazendas que estão mais abaixo em suas cadeias de suprimentos. “Atualmente, nenhum dos participantes do setor consegue rastrear fornecedores indiretos”, disse Minerva.

guardian 3Havia mais de meio milhão de alertas de incêndio da Nasa na Amazônia de julho a setembro. Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Marfrig disse ao Bureau que mais da metade do gado que abate é originário desses fornecedores indiretos.

Todas as três empresas disseram que estavam trabalhando com o governo ou ONGs para abordar esse ponto cego nos seus processos de monitoramento.

A JBS afirmou: “Estamos trabalhando com autoridades locais, governo e setor em geral para obter acesso aos dados e ferramentas necessárias para resolver esse problema.” A Marfrig disse que solicita informações de compra de gado de seus fornecedores diretos, enquanto Minerva afirma que mais policiais era necessário em todas as etapas da cadeia.

Os incêndios na Amazônia neste verão causaram alarme global. Não há evidências de que esses incêndios tenham sido iniciados em ou por fazendas que fornecem JBS, Marfrig ou Minerva, mas a própria existência de uma colcha de retalhos de fazendas na floresta tropical pode estar ajudando a agravar o efeito geral dos incêndios iniciados em outros lugares. “Todo o clima local é mais seco porque você está obtendo menos evaporação das árvores”, disse Yavinder Malhi, professor de ciência de ecossistemas da Universidade de Oxford.

Especialistas dizem que o aumento dos incêndios foi causado diretamente pelo aumento do desmatamento: a queima intencional de árvores que haviam sido derrubadas meses antes, em vez de incêndios florestais aleatórios. “Depois de limpar a floresta para fazer uma fazenda, você tem muitos materiais mortos espalhados e os agricultores esperam até a estação seca para queimar esse material”, disse Malhi.

O desmatamento tem sido uma questão-chave nas negociações sobre mudanças climáticas em Madri, e importantes empresas do Reino Unido escreveram ao governo brasileiro na semana passada para pedir ações urgentes.

Em resposta às novas descobertas, os deputados Manon Aubry e Heidi Hautala pediram uma ação. “Não pode ser responsabilidade do consumidor garantir que os produtos nas prateleiras dos mercados europeus sejam produzidos de maneira sustentável”, disse Hautala ao Guardian. “O consumidor precisa confiar que apenas os itens produzidos com responsabilidade são vendidos na Europa.” Aubry pediu uma reavaliação do Acordo Comercial UE-Mercosul, que aumentaria as importações para a Europa do Brasil e de outros países da América do Sul.

guardian 4Um número recorde de incêndios florestais no Brasil em 2019 provocou protestos globais. Fotografia: Kenzo Tribouillard / Getty

A UE também tem que questionar o impacto dos acordos de livre comércio que são prejudiciais para o planeta e as pessoas. Um acordo com o Mercosul pioraria a situação e aceleraria o desmatamento na Amazônia. ”

“Nossas descobertas ilustram que incêndios e desmatamento continuam ocorrendo na cadeia de suprimentos da JBS, apesar das políticas e compromissos da empresa”, disse Marco Tulia Garcia, que liderou a pesquisa na Chain Reaction. “É da maior urgência que a JBS resolva esses problemas.”

A JBS recentemente criou um site que permite que os clientes pesquisem códigos de produtos para o nome e as coordenadas da última fazenda para criar o animal antes do abate, em um movimento descrito na imprensa especializada como uma redução da transparência. Os clientes agora são redirecionados para outro site, onde apenas o nome e o município das fazendas são fornecidos.

A empresa afirmou: “Devido a questões legais baseadas no Regulamento Geral de Proteção de Dados do Brasil, a empresa limitou algumas das informações de terceiros publicadas em seu site … A JBS possui uma política de transparência robusta.”

_____________________________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

O Brasil já perdeu investidores por causa da Amazônia. Vai perder ainda mais

Brazil's President Jair Bolsonaro, Environment Minister Ricardo Salles and Vice President Hamilton Mourao attend a swearing-in ceremony for the country's new army commander in BrasiliaO êxito de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles no retrocesso ambiental na Amazônia já custa caro ao Brasil. Vai custar ainda mais em 2020

O comentarista da GloboNews João Borges publicou uma nota em seu blog no portal G1 dizendo que o Brasil  “já paga o preço pelas queimadas na Amazônia e, de forma geral, pela política ambiental do governo Bolsonaro“. Borges acrescentou ainda que “gestores de grandes fundos de investimentos europeus informaram a autoridades brasileiras que seus cotistas não querem mais ter dinheiro aplicado aqui. Alguns não vão mais aplicar. Outros sinalizam que podem retirar o que já investiram“.

Imagem relacionadaJair Bolsonaro se gabou pelo aumento das queimadas na Amazônia. Investidores estrangeiros não acharam graça

Pois bem, eu particularmente acho que João Borges foi até comedido na forma com que divulgou a informação de que o Brasil, sob Jair Bolsonaro e seus ministros terraplanistas e céticos das mudanças ambientais, já é visto e tratado como uma pária ambiental até pelos grandes operadores do mercado financeiro global.

Esse é o preço do retrocesso na governança ambiental e no desmanche dos mecanismos de comando e controle que existiam para diminuir a sanha destruidora  de diferentes pilhadores dos ecossistemas amazônicos, cuja proteção interessa a todos os que se preocupam com as mudanças climáticas que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um negacionista contumaz.

O problema é que fora do Brasil há pouca ou nenhuma paciência com a visão de “economia de fronteira” que Jair Bolsonaro almeja impor na Amazônia para atender interesses muitas vezes paroquiais de seus apoiadores “raiz” que estão na cabeça de ponte da pilhagem, a começar por garimpeiros e madeireiros ilegais que estão hoje causando uma ampla devastação em áreas proteção ambiental e terras indígenas.

Como já tenho escrito aqui, em que pesem a natureza intrínseca do Capitalismo de buscar incessantemente novas fronteiras de extração de recursos, as forças mais modernas do sistema querem que a apropriação se dê dentro de marcos que favoreçam os altos investimentos feitos em tecnologia extrativa, em vez de se favorecer aquelas formas mais antiquadas e ultrapassadas como as que parece favorecer Jair Bolsonaro.

Como as previsões para as taxas de desmatamento e números de queimadas são de alta para 2020 em função da inércia do governo Bolsonaro para brecar os piores elementos de sua pauta antiambiental, o mais provável é que tenhamos mais fuga de investidores, o que aumentará as dificuldades cambiais do Brasil. Com isso, teremos ainda um provável aumento na carestia dentro país, o que, por sua vez, aumentará a débâcle econômica do Brasil, que já não é pequena, diga-se de passagem.

Um elemento adicional neste cenário é que cedo ou tarde vão aparecer os números mais completos da degradação florestal na Amazônia, o que aumentará o grau de alarme em torno do destino do maior estoque de florestas tropicais do planeta. Com isso, as pressões sobre o presidente Jair Bolsonaro deverão aumentar ainda mais e, com isso, a crise política que a visão terraplanista de governar que ele representa.

Em resposta previsível, Leonardo DiCaprio reforça compromisso com a Amazônia e ignora Bolsonaro

leonardo-rainforest-fb

Não durou muito o momento de glória infame que o presidente Jair Bolsonaro obteve às custas da notoriedade do ator Leonardo DiCaprio. É que Leonardo DiCaprio usou a sua página da rede social Instagram para dar a previsível resposta à acusação sem evidências de que ajudou a incendiar a Amazônia ao apoiar organizações não-governamentais que, curiosamente, são vistas como inimigas pelo “bolsonarismo” por defenderam a natureza (ver imagem abaixo).

di caprio reply

Sem sequer citar o nome de Jair Bolsonaro, Leonardo DiCaprio afirmou que “neste momento de crise para a Amazônia, apoio o povo do Brasil que trabalha para salvar seu patrimônio natural e cultural. Eles são um exemplo incrível, comovente e de grande humildade do compromisso e paixão necessários para salvar o meio ambiente. O futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de apoiar os grupos que os protegem. Embora dignos de apoio, não financiamos as organizações visadas. Continuo comprometido em apoiar as comunidades indígenas brasileiras, governos locais, cientistas, educadores e público em geral que estão trabalhando incansavelmente para garantir a Amazônia para o futuro de todos os brasileiros.

A mensagem de DiCaprio é clara: apoia os que lutam em prol da preservação natural e cultural da Amazônia, e os que fazem essa luta acontecer no chão. Além disso, DiCaprio também nomina com quem está comprometido: as comunidades indígenas brasileiras, governos locais, cientistas, educadores. Além disso, ele aponta para o fato que a proteção da Amazônia é essencial para garantir o futuro de todos os brasileiros.

Como já escrevi, essa tentativa do presidente Jair Bolsonaro de jogar nas costas de Leonardo DiCaprio a culpa de seu próprio êxito na aceleração da hecatombe ambiental em desenvolvimento na Amazônia vai trazer consequências desastrosas para a imagem internacional do Brasil. 

A questão é que se no Brasil as ideias ambientalmente regressivas de Jair Bolsonaro e seus ministros terraplanistas  e céticos das mudanças climáticas estão passando sem a devida checagem do sistema política e da maioria dos veículos da mídia corporativa, a coisa não é bem assim no exterior. Assim, atacar Leonardo DiCaprio pode até render alguns pontos entre a malta de apoiadores do presidente do Brasil, mas nada comparado à antipropaganda que isto representa em muitas partes do mundo.

Jair Bolsonaro e a falácia do desmatamento como traço cultural brasileiro

salles bolsonaroO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles sorriem com o sucesso do desmanche da governança ambiental na Amazônia. Mas o problema seria o traço cultural dos brasileiros

Após ter exitosamente exterminado as estruturas de comando e controle que garantiam formas básicas de governança ambiental no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro saiu pela tangente ao tentar explicar a jornalistas as razões da explosão nas taxas de desmatamento ao afirmar que “... você não vai acabar com o desmatamento, nem com queimadas, é cultural“.

bolso cultura

A primeira coisa que precisa ser dita é que se há uma cultura do desmatamento e do fogo no Brasil, a explicação para isso está fundamentalmente ligada à permanência de um padrão de alta concentração da propriedade da terra e ao aprofundamento de um modelo de forte dependência na exportação de commodities agrícolas como geradoras de reservas de moedas fortes. 

Em segundo lugar, como já está fartamente ilustrado na literatura científica, padrões culturais são ajustáveis e se transformam conforme os incentivos que ocorrem por parte de diferentes agentes societários, incluindo o Estado. O problema aqui é que o governo Bolsonaro foi montado a partir da noção de que seria preciso (e quase um direito divino) aprofundar os padrões ditados pelo latifúndio agro-exportador que é fortemente dependente do aumento da área em produção em face de sua inaptidão para fomentar ganhos significativos de produtividade.

Outro elemento importante é que se forem estudados os custos de produção das principais culturas de exportação, a começar pela soja, o que se observa é que a maioria dos produtores está operando com margens magérrimas de lucro e com fortes pressões advindas do aumento dos custos dos insumos, especialmente fertilizantes e agrotóxicos. Em função disso é que o governo Bolsonaro operou de forma industriosa em duas áreas expressas: 1) garantir a ampliação da área em produção, mesmo sob o risco de aumentar as taxas de desmatamento, e 2) baixar os custos de produção do insumo “agrotóxico”, mesmo sob pena de gerar uma hecatombe química no Brasil a partir da liberação de substâncias que já estão banidas em outras partes do mundo, inclusive na China que é o principal parceiro comercial do Brasil (o herbicida Paraquate é o maior exemplo disso).

Em suas explicações sobre o desastre de imagem que o aumento de 30% no desmatamento na Amazônia entre 2018 e 2019, o governo Bolsonaro está apontando para a necessidade de ampliar o processo de titulação de terras como a principal ferramenta para combater o que se classifica como desmatamento ou queimadas ilegais. Essa receita vem diretamente do receituário do Banco Mundial que há pelo menos três décadas aposta na entrega de títulos como uma ferramenta que poderia ampliar as chances de “usos sustentáveis da terra”.  O problema é que essa é mais uma falácia pró-mercado. Além disso, no caso da Amazônia, boa parte dos “novos desmatamentos” está ocorrendo em terras públicas, sejam elas reservas indígenas ou unidades de conservação.

Em outras palavras, não vai ser com titulação de terras que se resolverá os problemas relacionados à ampliação do binômio desmatamento-queimadas. Aliás, o que a titulação deverá incentivar é a ampliação da invasão de reservas indígenas e áreas de proteção ambiental, pois os grileiros e invasores poderão depois pedir a “legalização” das invasões via a titulação das terras invadidas.

A verdade é que não vejo muita saída para a crise ambiental em desenvolvimento na Amazônia sem muita pressão interna e dos parceiros comerciais do Brasil. É que sem isso, não haverá por parte do governo Bolsonaro qualquer disposição para retomar as ações de comando e controle. Aliás, o mais provável é que sejam desmanteladas as poucas estruturas que ainda restam. Tudo isso em nome do elemento cultural vislumbrado pelo presidente Jair Bolsonaro.

NASA: queimadas e gases de efeito estufa estão secando atmosfera da Amazônia

gases-de-efeito-estufa

A queima de vegetação e a liberação de gases de efeito estufa estão conspirando para secar a Floresta Amazônica, segundo as conclusões de um novo estudo.

“Observamos que nas últimas duas décadas houve um aumento significativo da aridez da atmosfera e da demanda atmosférica por água acima da floresta tropical”, diz a principal autora do estudo, Armineh Barkhordarian, do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.

Os incêndios florestais provocados para abrir espaço para pastagens e agricultura alimentam um ciclo no qual secas e incêndios continuarão a ser mais prováveis.

No trabalho publicado na revista Nature Scientific Reports, Barkhordarian e seus colegas usaram satélites para determinar o déficit de pressão de vapor, ou VPD, na América do Sul tropical. O VPD é a diferença entre a quantidade máxima de umidade que o ar pode reter e a quantidade de umidade que realmente existe. O déficit tem crescido nas últimas décadas, criando situações de ar seco na Amazônia.

A análise deixa pouca dúvida de que os seres humanos estão por trás da mudança: “Ao comparar esta tendência dos resultados de modelos que estimam a variabilidade climática ao longo de milhares de anos”, disse Barkhordarian, “determinamos que a mudança na aridez atmosférica está muito além do que seria esperado da variabilidade climática natural”.

Em particular, as partes sul e sudeste da Amazônia, mais afetadas pelo desmatamento provocado pela grilagem, pela implantação de novas fazendas e pastagens, têm experimentado estações secas cada vez mais secas e que duram cada vez mais. Mas, mesmo nos trechos setentrionais da floresta, as “megassecas” pontuam os últimos 20 anos, sendo que a mais recente ocorreu em 2015.

As emissões de gases de efeito estufa são parte do problema. À medida que as suas concentrações aumentam na atmosfera, capturam mais energia, o que aquece o planeta e leva a condições mais secas. Os aerossóis que formam a fuligem e são libertados pelos incêndios também absorvem calor e dificultam a formação de nuvens.

Para se manterem frescas à medida que a temperatura aumenta, as árvores retiram mais água do solo. Normalmente, essa água flui através das árvores, desempenhando um papel vital no transporte de nutrientes ao longo do caminho. Quando finalmente é libertada do topo do dossel, a umidade condensa-se em nuvens e grande parte dela regressa ao solo sob a forma de chuva.

“É uma questão de oferta e demanda”, disse Sassan Saatchi, cientista sênior de pesquisa da JPL e coautor do estudo. “Com o aumento da temperatura e a secura do ar acima das árvores, estas precisam transpirar para se resfriar e adicionar mais vapor de água à atmosfera.

“Mas o solo não tem água extra para as árvores puxarem”, acrescentou.

Essas condições mais áridas tornam os incêndios mais prováveis, o que por sua vez pode secar a floresta ainda mais. À medida que a água se torna mais escassa, as próprias florestas, juntamente com alguns dos ecossistemas mais biodiversos da Terra que elas sustentam, podem estar em perigo.

“Nosso estudo mostra que a demanda está aumentando e a oferta está diminuindo”, disse Saatchi, “e, se isso continuar, a floresta pode não ser mais capaz de se sustentar”.

Como disse o jornalista Marcelo Leite no Twitter, os resultados deste trabalho são muito importantes: podemos estar observando o início da ladeira que levaria a Amazônia a ressecar-se, ficando mais parecida com uma savana. O famigerado “dieback”, espécie de colapso do bioma.

A matéria é da Mongabay.

___________________________________________

Este artigo foi publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia vai ultrapassar os 10 mil km²

Estudo revela que incêndios foram causados por aumento da destruição da floresta. Medo de represálias leva alguns cientistas a não assinarem o documento

Queima-1Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Por Marizilda Cruppe para o Projeto Colabora

Poderia ser mais um artigo científico, fundamental para ajudar a sociedade a entender as recentes queimadas que acometeram a floresta amazônica. Não fosse um detalhe: a frase que encerra os agradecimentos finais. “Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.”

Tão grave quanto a projeção de que o desmatamento deve ultrapassar os dez mil quilômetros quadrados, a maior taxa registrada desde 2008, é ver cientistas precisarem esconder suas identidades por questões de segurança, com medo de represálias do governo.

“É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário” desabafa o inglês Jos Barlow, professor das universidades de Oxford e Lavras,  que liderou o estudo divulgado ontem, e que pesquisa as emissões de carbono na Floresta Amazônica brasileira há tempo suficiente para ter passado por quatro presidentes. Está no quinto. “Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável”.

Em março deste ano, Barlow assinou, com mais seis cientistas, um editorial no Jornal de Ecologia Aplicada da Sociedade Ecológica Britânica, fundada em 1913, que falava de países onde a influência científica e as liberdades acadêmica e pessoal foram comprometidas. O Brasil foi citado como um país com a liberdade acadêmica comprometida por medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, como a extinção de órgãos que lideravam discussões internacionais sobre mudanças climáticas e de departamentos do Ministério do Meio Ambiente que tratavam do desmatamento.

Soja e fragmento de floresta em Belterra.

Foto Marizilda Cruppe/DivulgacãoAs plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

“Desmatamento e fogo andam de mãos dadas”

O artigo Clarifying Amazonia’s burning crisis (Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia) foi publicado ontem pelo periódico inglês Global Change Biology (versão original aqui), um dos maiores do mundo na área de meio ambiente. Os cientistas identificaram os diferentes tipos de incêndios, os agentes causadores e potencializadores e examinaram as possíveis soluções. O estudo se refere ao período de agosto deste ano quando ocorreu um pico de queimadas diretamente ligadas ao desmatamento. Erika Berenguer, cientista sênior das universidades de Oxford e Lancaster, pesquisa emissões de carbono na Amazônia há mais de uma década. Ela comenta sobre o principal resultado:

“Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar”.

Para a brasileira radicada na Inglaterra o Brasil sabe como diminuir o desmatamento e tem essa capacidade “porque de 2004 a 2012 o desmatamento caiu 80%.” Ela lamenta que “pela primeira vez em dez anos o desmatamento pode chegar a dez mil quilômetros quadrados, o que parecia impensável que o Brasil voltasse a fazer.” E arremata “o país sabe o que e como fazer, o que falta é vontade política.”

São vários os agentes causadores apontados pelo estudo como governança fraca, rebanhos enormes e mal administrados, comércio ilegal de madeira e mudanças climáticas. Uma frouxidão do governo pode levar ao aumento do desmatamento que por sua vez é um gatilho para incêndios. As mudanças climáticas tornam as florestas mais quentes e secas e, por isso, mais propensas a incêndios fora do controle. Cada tipo de incêndio traz impactos diferentes. Um incêndio em área aberta pode matar o gado e acabar com plantações, enquanto incêndios florestais, mesmo de baixa intensidade, podem matar metade das árvores.

O estudo avaliou as alegações do governo Bolsonaro de que os incêndios de agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica”. Os cientistas compararam dados públicos sobre queimadas e desmatamento e constataram que os incêndios deste ano foram os maiores desde 2010. E, se comparados ao mesmo período de 2018, os incêndios foram quase três vezes maiores.

Os cientistas apontam no estudo caminhos para a prevenção dos incêndios florestais que exigiriam ações do governo no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira, pois mudanças no microclima tornam as florestas mais inflamáveis. Outra ação seria o monitoramento da intensidade da seca e o risco de incêndios com o apoio de brigadas de incêndio locais.

A taxa anual de desmatamento do período que compreende agosto de 2018 a julho de 2019 será divulgada na segunda-feira e os números do PRODES são ansiosamente aguardados porque os monitoramentos do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para o maior desmatamento dos últimos 11 anos.

*Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotógrafa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa – já são 130 e contando!

___________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].