Políticas de manejo de fogo podem evitar incêndios florestais, orientam pesquisadores

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Entre 2019 e 2020 os incêndios no Brasil chamaram a atenção do mundo, especialmente na Amazônia e no Pantanal, que perdeu quase 30% da sua área com a maior queimada registrada nas últimas duas décadas. Para atuar de forma eficaz contra esses incêndios, é preciso uma base de informações calcada em pesquisas científicas, agências governamentais com equipes bem treinadas e integração de políticas de manejo de fogo e terras. Essas são as orientações de pesquisadores da USP e de outras instituições em análise publicada na revista “Perspectives in Ecology and Conservation” na terça (20).

Os pesquisadores citam esses e outros itens como fundamentais para o desenvolvimento de abordagens eficazes de manejo do fogo nos biomas e ecossistemas do Brasil. Os investimentos em estrutura incluem o desenvolvimento de sistemas de monitoramento e programas de capacitação local para manejo do fogo, além de ações de divulgação e educação sobre conservação de recursos naturais para fomentar um entendimento mais profundo sobre o papel do fogo nos diferentes ambientes. O estudo teve apoio financeiro do Programa Biota/Fapesp e do CNPq por meio do Centro de Síntese em Biodiversidade (SinBiose) e do Edital PrevFogo/Ibama.

Segundo Vânia Pivello, uma das co-autoras do estudo, o fogo é um tema bastante polêmico. “Algumas pessoas são bastante contrárias ao uso do fogo, o que é compreensível pois ele pode ser muito destrutivo e danoso. Porém é muito importante que possamos discutir onde o fogo ocorre e como ele ocorre, pois os efeitos são completamente diferentes em cada ambiente”.

O Brasil possui biomas e ecossistemas com diferentes respostas ao fogo. Enquanto as florestas tropicais, como a Amazônia e a Mata Atlântica, são extremamente vulneráveis às queimadas, os campos naturais do Sul e o Cerrado são adaptados ao fogo, sendo que muitos de seus processos ecológicos dependem dele. Mesmo esses ecossistemas podem sofrer com as queimadas dependendo da sua frequência, tipo e intensidade.

Além de afetar a biodiversidade, regimes intensos de fogo podem prejudicar a qualidade do ar e o fornecimento de água de regiões. Os pesquisadores alertam que o risco de eventos graves de incêndio provavelmente aumentará no futuro, à medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam mais fortes e causam eventos climáticos mais extremos. Por isso, é importante aumentar a resiliência geral de nossos sistemas socioecológicos ao fogo.

Desde 2014 o Brasil conta com uma Estratégia de Manejo Integrado do Fogo que procura controlar a quantidade de material de fácil combustão e diminuir o risco de incêndios florestais. Ela integra as práticas tradicionais de gestão de incêndios das populações locais ao manejo do fogo, mas ainda não foi amplamente implementada em todo o país. Os pesquisadores apontam a necessidade de desenvolvimento de uma estratégia geral para lidar com o fogo em terras privadas, com uso controlado, quando for benéfico, e sem uso quando os efeitos negativos predominarem.

Pivello cita o Parque Nacional das Sempre Vivas, na região de Diamantina, Minas Gerais, como exemplo de aplicação de uma Estratégia de Manejo Integrado do Fogo. “As populações locais usam o fogo para manejo das sempre vivas, pequenas flores típicas da região, pois se acredita que o fogo possa estimulá-las a produzir mais flores”, explica Pivello. Num esforço conjunto, pesquisadores e gestores do Parque conseguiram chegar a um manejo de fogo adequado para conservar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, permitir que a população local possa extrair seu sustento das flores.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori  [Aqui!]

Pondo fumaça nos olhos: governo Bolsonaro retira do INPE a divulgação dos dados de queimadas e incêndios na Amazônia

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Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaro retirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia, repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).

A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.

Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.

Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.

Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet,  não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas. 

Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros.  Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.

Na antessala dos mega incêndios amazônicos de 2021

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O latifúndio agro-exportador (que se apresenta sob a fachada aparentemente menos maligna do “agronegócio”) já lançou todas as condições para que 2021 seja um ano em que mega incêndios ocorram em toda a Amazônia brasileira. As imagens de rolos de fumaça subindo aos céus deverão novamente percorrer o mundo, causando choque nos desavisados e atitudes de complacência dos governos que fingem se importar com o aquecimento da Terra e com todas as suas consequências desastrosas, especialmente para os segmentos mais pobres da população humana.

Mas os grandes incêndios que já começam a ocorrer precocemente na Pan Amazônia (sim, toda a bacia Amazônica está sob ataque neste momento) são apenas um sintoma de um processo azeitado de destruição dos ricos biomas amazônicos com o objetivo claro de abrir novas áreas para abastecer os mercados globais, a começar pelo voraz mercado chinês, passando pela União Europeia, e alcançando países que podem até consumir menos, mas consomem, os produtos que a devastação amazônica gera.

O problema é que junto com o desmatamento e os grandes incêndios há o problema da degradação florestal causada por estes dois outros processos. Como já demonstrado no artigo publicado na Science em setembro de 2020 por Eraldo Matricardi e colaboradores, a sinergia entre desmatamento, fogo e degradação está produzindo uma aceleração exponencial da perda de serviços ambientais estratégicos, a começar pelo fornecimento de água e também de chuvas. Com isso, os piores cenários gerados para o agravamento das mudanças climáticas com base na destruição da Amazônia serão provavelmente ultrapassados, e entraremos em um processo de piora significativa das condições ambientais não apenas na Amazônia, mas também em outros partes do Brasil, e de todo o planeta. 

E é importante que se diga que esse avanço da franja de destruição na Amazônia, apesar da fingida preocupação por parte de governos e grandes fundos de investimento de atuação global, são parte intrínseca de um modelo econômico que despreza o conhecimento científico existente sobre a centralidade de se preservar as florestas tropicais.  Na prática o que conta para os “players” que decidem os rumos da economia global é garantir seus lucros fabulosos, ainda que isso signifique que se está rifando a estabilidade ambiental da Terra.

Por essas e outras é que a proteção das florestas amazônicas não se dará sem que haja uma importante mobilização global, que mesmo sendo iniciada desde dentro, vai ter que ocorrer principalmente nos países que consomem as commodities agrícolas que substituem a biodiversidade ali existente.

Nesse sentido, que os grandes incêndios de 2021 possam servir pelo menos para gerar o processo politico que impedirá, por exemplo, que o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul seja viabilizado.  É que os players da economia mundial só preocupam mesmo quando começam a perder dinheiro ou, pelo menos, a ganhar menos.

 Para os habitantes do centro sul do Brasil, uma quase certeza é que terão menos chuvas e mais fumaça em sua linha do horizonte nos próximos meses. Esse será o preço da devastação amazônica e da inação política em relação ao que está sendo feito por lá pelo latifúndio agro-exportador em troca de um punhado de dólares.

Fogo na Amazônia: Junho registra maior número de focos de calor dos últimos 14 anos

Registro ocorre na semana em que o governo anuncia o mesmo plano de combate a desmatamento e queimadas que fracassou nos últimos dois anos

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Manaus, 01 de julho de 2021 – Dados divulgados nesta manhã, pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), apontam que o mês de junho registrou o maior número de focos de calor na Amazônia desde 2007, na comparação com o mesmo mês dos anos anteriores. Os satélites mostram que foram 2.308 focos de calor, o que representa um aumento de 2,6% em relação a junho de 2020, quando já havia sido batido o recorde histórico.

Esse novo aumento vem na mesma semana em que o governo federal decide manter o mesmo plano que fracassou de maneira incontestável nos últimos dois anos: uma moratória do fogo e o envio de forças armadas, por meio do decreto de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem), para combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

“Infelizmente, esse recorde no mês de junho não é uma surpresa, considerando a continuidade da política antiambiental e a insistência na utilização de uma ferramenta cara como o envio de tropas militares, que se mostrou ineficiente nos últimos dois anos. Na verdade é mais uma estratégia para inglês ver, pois, além de ser por um período mais curto do que nos anos anteriores, o próprio decreto já avisa os desmatadores e grileiros onde irão fiscalizar nesse período”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Enquanto isso, sinalizações vindas de Brasília estimulam fortemente novos desmatamentos e invasões em terras públicas. Exemplo disso são os Projetos de Lei 2633 e 510 que tramitam no Congresso e que visam flexibilizar os critérios da regularização fundiária, anistiando grileiros e estimulando novos desmatamentos. Outro exemplo são as propostas que visam abrir terras indígenas para atividades predatórias, como o PL 490.

Para os próximos meses, o cenário dificilmente será diferente do que vimos nos últimos dois anos. Com números altos de queimadas ainda no começo do verão amazônico, meses onde há uma diminuição natural das chuvas na Amazônia, esses números tendem a subir ainda mais.

Estamos vivendo uma emergência climática e a queima de florestas e outras vegetações nativas é a principal fonte brasileira de emissão de gases de efeito estufa que agravam ainda mais essa crise. Outro reflexo dos desmatamentos e queimadas que todos já estamos sentindo é a alteração do regime de chuvas. Os reservatórios para geração de energia e até mesmo para captação de água para consumo humano encontram-se em níveis historicamente baixos, causando risco de racionamento e aumento na conta de energia e no preço dos alimentos por perda de produção.

“Estamos vivendo um momento muito triste para a floresta e seus povos. Eles estão sendo atacados por todos os lados, seja pelos desmatadores, grileiros, madeireiros e garimpeiros que avançam sobre a floresta ou territórios, seja por meio do Congresso e do Poder Executivo que, não só não combatem esses crimes e danos ambientais, como os estimulam, seja por atos ou omissões”, conclui Rômulo.

Assessoria de imprensa do Greenpeace Brasil

Estudo da Fiocruz mostra que queimadas na Amazônia aumentam problemas respiratórios

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● Em 10 anos, o Brasil gastou quase 1 bilhão de reais com doenças respiratórias causadas pela fumaça das queimadas na região.
● A associação da pandemia com as queimadas pode ter agravado a situação de saúde da população da Amazônia legal.
Estudo da Fiocruz e do WWF-Brasil aponta que as queimadas na Amazônia foram responsáveis pela elevação dos percentuais de internações hospitalares por problemas respiratórios nos últimos 10 anos (2010-2020) nos estados com maiores números de focos de calor: Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre. Estas internações custaram quase 1 bilhão aos cofres públicos. O levantamento aponta ainda que a associação da situação da pandemia com as queimadas florestais na Amazônia pode ter agravado a situação de saúde da população da Amazônia legal, pois os poluentes oriundos das queimadas podem causar uma resposta inflamatória persistente e, assim, aumentar o risco de infecção por vírus que atingem o trato respiratório.1
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O estudo mostra que mesmo com a possível subnotificação, por conta de inconsistências na base de dados do DataSUS, os valores diários de poluentes são extremamente elevados e contribuíram paraaumentar em até duas vezes o risco de hospitalização por doenças respiratórias atribuíveis à concentração de partículas respiráveis e  inaláveis finas (fumaça) nos estados analisados.
 
No Amazonas, 87% das internações hospitalares no período analisado estão relacionadas às altas concentrações de fumaça (partículas respiráveis e inaláveis). O percentual foi de 68% no Pará, de 70% em Mato Grosso e de 70% em Rondônia.  Já as doenças respiratórias associadas às altas concentrações de partículas de poluentes emitidas pelas queimadas respondem por 70% das internações hospitalares registradas no Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.
 
A pesquisadora Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz, afirma que embora os percentuais de internação hospitalar por doenças respiratórias na região tenham se mantido estáveis entre 2010 e 2020, uma parte considerável dessas internações podem ser atribuídas às concentrações de partículas respiráveis finas e inaláveis emitidas por incêndios florestais. “As micropartículas que compõem a fumaça ficam depositadas nas cavidades dos pulmões, agravando os problemas respiratórios. Elas são um fator de risco para pessoas que já possuem comorbidades. Vemos, portanto, um impacto à saúde e perda da qualidade de bem-estar das pessoas, além do elevado custo econômico das doenças respiratórias para o SUS”, explica. “A fragilização do sistema respiratório é extremamente preocupante no atual cenário de uma pandemia que também causa problemas respiratórios.  Essa sobreposição sugere que a região da Amazônia legal tenderá a ter seu sistema de saúde pressionado, já que as queimadas são mais intensas nos meses de seca, que se iniciam dentro de poucas semanas”, alerta.
 
Importante salientar que no ano de 2020 o Brasil alcançou o maior número de queimadas na década. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a floresta amazônica registrou 103.161 focos ante 89.171 em 2019, um aumento de 15,7%. Essa tendência contínua de destruição impacta diretamente não só na saúde das pessoas, mas em todo o ecossistema, que sofre todos os anos durante o ciclo das queimadas intensificado no período de seca, ressalta Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil. Ele  aponta que “as queimadas fazem parte da dinâmica de destruição da Amazônia. As áreas desmatadas são posteriormente queimadas para “limpar” o terreno, abrindo espaço para a pastagem, a agricultura, ou a simples especulação fundiária. A associação entre o desmatamento, queimadas e degradação da floresta traz um custo muito alto para todos nós, especialmente para os povos da floresta, e para o clima do planeta”, afirma.
 

O Estudo traz algumas recomendações para o poder público

– Os sistemas oficiais de vigilância e monitoramento em saúde precisam de evolução e melhorias sistemáticas, especialmente aqueles direcionados às populações indígenas da Amazônia;
 
– Políticas consistentes de redução do desmatamento e queimadas na Amazônia são críticas e imediatas, pois o combate ao desmatamento e à degradação do bioma amazônico é fundamental para a garantia de direitos básicos das populações locais, como acesso à saúde e um ambiente saudável e sustentável;
 
– Desenvolvimento e implementação de programas de vigilância epidemiológica e ambiental efetivos, direcionados à população amazônica exposta aos incêndios florestais, principalmente os grupos mais vulneráveis, como gestantes, crianças, idosos, e aquelas pessoas que apresentam comorbidades precisam de atenção dedicada;
 
– Necessidade iminente de esforço preventivo no controle de zoonoses, pois os custos associados aos esforços preventivos são substancialmente menores, comparados com os custos econômicos, sociais e de saúde no controle de potenciais epidemias e ou pandemias.
 

Metodologia do estudo

Foi analisada a relação das tendências da morbidade hospitalar (a taxa de internações registradas em hospitais) por doenças do aparelho respiratório no período de 2010 a 2020 e as concentrações estimadas de emissões de partículas respiráveis finas (PM2,5), presentes na fumaça de incêndios florestais no mesmo período, investigando os potenciais impactos à saúde nos estados com os maiores registros de focos de calor provenientes das queimadas na Amazônia Brasileira, segundo o INPE – Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre, que apresentaram  maior número de focos de queimadas registrados no período analisado – 2010-2020.
 
O estudo observou as séries temporais diárias de morbidade hospitalar por doenças do aparelho respiratório obtidas no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), pelo Sistema de Informação sobre internação hospitalar (SIH) e analisados por dia, mês e ano no período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de outubro de 2020, segundo a unidade de federação de residência. As internações hospitalares por doenças respiratórias relacionadas ao COVID-19 para cálculo da tendência retrospectiva foram excluídas. Portanto, as internações hospitalares derivadas do COVID-19, não entraram no conjunto das causas de hospitalizações.
Os pesquisadores selecionaram informações referentes ao valor em reais (R$) gasto com as hospitalizações de baixa e alta complexidade (Unidades de Terapia Intensiva – UTI) por doenças do aparelho respiratório para estimativa do custo econômico em saúde dessas hospitalizações que pudesse ser atribuível à poluição decorrente das queimadas.
As estimativas de concentração do material particulado (PM2,5) foram obtidas por meio de dados de satélite da NASA, com as informações de profundidade óptica de aerossóis (Aerosol Optical Depth – AOD) convertidas por modelagem matemática em estimativas de concentração de PM2,5 e disponibilizadas para acesso público pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), que é o mais recente conjunto de dados de reanálise global de composição atmosférica produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).

[1]  Travaglio, M., Yu, Y., Popovic, R., Selley, L., Leal, N. S., & Martins, L. M. (2021). Links between air pollution and COVID-19 in England. Environmental Pollution, 268, 115859.
 

Sobre a Fiocruz

A Fiocruz é uma instituição vinculada ao Ministério da Saúde, cuja missão é produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e que contribuam para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira. Acesse em https://portal.fiocruz.br/

Sobre o WWF-Brasil

O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira e sem fins lucrativos que trabalha para mudar a atual trajetória de degradação ambiental e promover um futuro em que sociedade e natureza vivam em harmonia. Criado em 1996, atua em todo Brasil e integra a Rede WWF. Apoie nosso trabalho em wwf.org.br/doe
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Este texto foi originalmente publicado pela WWF Brasil [Aqui!].

Estudo do Insper constata relação entre discurso na internet e ‘dia do fogo’ na Amazônia

Aumento da procura por termos precedeu série de incêndios em agosto de 2019

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Por Insper – Assessoria de imprensa 

A drástica elevação de queimadas na Amazônia Legal, em agosto de 2019, foi precedida por um aumento de buscas na internet por termos relacionados a ataques do presidente do Brasil a nações estrangeiras que financiam a proteção da floresta tropical brasileira.

Em torno do episódio que ficou conhecido como “dia do fogo”, em 11 de agosto de 2019, na Amazônia brasileira, o pesquisador Marco Antonio Leonel Caetano indagou se a celeuma despertada por Jair Bolsonaro ao criticar Alemanha e Noruega, doadoras do Fundo Amazônia de proteção à floresta, pode ter servido de incentivo a ações incendiárias naquele período.

Variações súbitas no interesse de internautas por certos assuntos, detectadas por ferramentas como o Google Trends , têm sido exploradas na investigação acadêmica para projetar acontecimentos e comportamentos em saúde , eleições e nos mercados financeiro , de trabalho e consumidor , entre outros.

Para tanto, o professor do Insper avaliou como evoluíram as buscas no Google pelos termos “Alemanha”, “Noruega” e “fogo + Amazônia”, de um lado, e os alertas diários de novos focos de incêndio na região informados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) naquele período, do outro.

Sua pesquisa incluiu registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os do primeiro mostravam a ocorrência de chuvas em Altamira e Belém, no Pará, Manaus e Lábrea, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, todas cidades que fazem parte da região conhecida como Amazônia Legal. Já os do segundo se referiam ao orçamento do órgão e à fiscalização e punição relacionadas a incêndios ilegais.

Ao todo, os pontos de dados analisados e processados somaram mais de 3 milhões.

A fim de amortecer o peso de sazonalidades, como fenômenos climáticos, nos incêndios florestais e focalizar os ciclos da política, foram utilizadas a mediana -valor que divide as observações em duas metades iguais- e as volatilidades com o desvio padrão, que cria bandas de confianças de previsão ao longo dos anos, do quadriênio encerrado no ano de interesse, além de leituras auxiliares que permitem enxergar a dispersão dos dados.

Por esse método, o estudo constatou uma tendência de queda nos incêndios florestais na Amazônia Legal de 2010 até 2013, seguida, a partir de 2015, de um movimento de alta. Considerados apenas os meses de agosto, a mediana de queimadas no quadriênio 2016-2019 superou em 87% o que foi registrado no período 2012-2015.

O argumento da gestão Bolsonaro de que um período excepcional de seca teria contribuído para o surto de queimadas do segundo semestre de 2019 não se comprovou no estudo de Caetano. Por meio da análise de variância (Anova), técnica estatística que permite concluir se três ou mais grupos de observações diferem significativamente entre si, o pesquisador não detectou contraste entre os níveis pluviométricos do Inmet de julho e agosto ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019.

Outra técnica estatística, a correlação cruzada, foi empregada na pesquisa para testar a força e a dilação temporal entre as buscas na internet pelos termos de interesse e a eclosão de focos de queimada na Amazônia Legal.

Para a expressão “Alemanha”, a análise constatou correlação de 55,7% com defasagem temporal de sete dias -resultados acima de 50% indicam uma forte tendência de ligação entre os acontecimentos observados. A curva de queimadas acompanhou mais intensamente a de buscas com uma semana de atraso.

O resultado é compatível com a diferença de dias entre os ataques de Bolsonaro à Alemanha e à sua chanceler, Angela Merkel, concentrados de 2 a 9 de agosto, e o “dia do fogo” (11) -explosão de queimadas supostamente conduzidas por apoiadores do presidente brasileiro como demonstração de força. A alta de incêndios na Amazônia Legal entre os dias 4 e 11 de agosto foi de 73%.

Verificou-se correlação maior, de 72,87%, nas buscas por “Alemanha” e “Altamira+fogo+BR163”. O interesse relacionado à cidade paraense ganhou força em 3 de agosto de 2019, embora a localidade ainda não estivesse em destaque na imprensa em razão das queimadas. A procura voltaria a se intensificar nos dias 9 e 10. Apenas no dia 11 a região acumularia seu maior número de focos de incêndio.

Segundo Caetano, os dados indicam, com 95% de confiança, que a troca de palavras sobre a Alemanha e o Brasil incentivou os episódios que culminariam no “dia do fogo”.

O desaparelhamento da fiscalização na Amazônia sai reforçado do estudo como hipótese para explicar a elevação das queimadas ilegais nos últimos anos. Enquanto os focos de incêndio na região crescem desde 2015, as autuações por queimadas ilegais feitas pelo Ibama, a autoridade ambiental federal, marcham na contramão.

Sobre o Insper

O Insper é uma instituição independente e sem fins lucrativos, que busca ser referência em educação e geração de conhecimento por meio do ensino de excelência e pesquisas nas áreas de Administração, Economia, Direito, Engenharia, Políticas Públicas e Comunicação. No portfólio, cursos para várias etapas de uma trajetória profissional: graduação (Administração, Economia e Engenharias), pós-graduação lato e stricto sensu (Certificates, MBAs, programas da área de Direito, Mestrados Profissionais e Doutorado) e Educação Executiva (programas de curta e média duração, e customizados de acordo com as necessidades das empresas). No âmbito da produção de conhecimento, o Insper atua por meio de cátedras e centros de pesquisa que reúnem pesquisadores em estudos e projetos dirigidos a políticas públicas, agronegócio, educação, inovação, finanças e gestão. Tem as certificações de qualidade da Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB), Association of MBAs (AMBA) e Associação Nacional de MBA (Anamba).

WWF-Brasil alerta sobre riscos ao Pantanal, a maior área úmida brasileira

No Dia Mundial da Água, instituição aponta as principais ameaças à segurança hídrica devido aos impactos da ação humana no Pantanal

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Conhecida como reino das águas, a maior área úmida do planeta, que fica nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e partes da Bolívia e Paraguai, tem sua segurança hídrica cada vez mais ameaçada. Esse é o alerta do WWF-Brasil no Dia Mundial da Água. Uma combinação de fatores que têm se intensificado ao longo dos anos – que vão das mudanças climáticas às queimadas, passando pelo crescente número de barragens que modificam o fluxo das águas – está alterando a dinâmica das águas do Pantanal, que se tornou especialmente vulnerável este ano. Níveis historicamente baixos do Rio Paraguai podem ocasionar uma nova temporada de queimadas como nos últimos anos, que pode trazer consequências irreversíveis.

Isso porque o Pantanal cumpre várias funções, entre as quais conservação de solo e da biodiversidade, estabilização do clima e fornecimento de água. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o Rio Paraguai, principal indicador das condições de inundação do Pantanal, apresenta uma tendência de seca para este ano de 2021. Especialmente as regiões de Cáceres e Porto Conceição, ambas no Estado de Mato Grosso, apresentam níveis historicamente baixos no Rio Paraguai. No Mato Grosso do Sul, em Forte Ladário e Coimbra também são previstos níveis historicamente baixos. Os modelos de previsão indicam que a seca continuará nos próximos períodos, com uma interrupção da recuperação do nível do rio. Os gráficos no fim do texto mostram o nível do rio fora da zona de normalidade.

“Mesmo que o regime de precipitação se normalize, é pouco provável que o Rio Paraguai e o Pantanal tenham cheias significativas, mantendo-se em níveis historicamente baixos. Além disso, o fogo e as mudanças no uso do solo tendem a afetar a própria precipitação na região. Com a diminuição da cobertura vegetal, a tendência é que haja menor evapotranspiração, menor umidade no ar, e, logo, menor índice de chuvas. Temos um cenário de mudanças climáticas aliado à falta de controle ambiental e infraestrutura para combate a incêndios, isso traz sérias ameaças à biodiversidade do Pantanal, assim como a segurança hídrica da região. Há o risco de haver uma nova catástrofe em razão dos incêndios e uma, como aconteceu em 2019 e 2020”, alerta Cássio Bernardino, analista de conservação do WWF-Brasil.

O equilíbrio do Pantanal depende basicamente do baixar e subir de suas águas. Esse ciclo se repetia todo ano com certa regularidade, possibilitando a renovação constante da fauna e flora e formatando a cultura pantaneira. Porém, desde a década de 1970, a bacia do Alto Paraguai registra uma progressiva mudança em suas paisagens por causa do intenso uso e ocupação do solo. O bioma já perdeu em torno de 18 % de sua cobertura natural, que se converte geralmente em pastos e terras aráveis. O ano passado foi especialmente danoso: em 2020, 22.119 focos de incêndios, cerca de 120% a mais que no ano anterior. Estima-se que mais de 2,1 milhões de hectares foram atingidos pelas queimadas em 2020.

Paralelamente, a ação humana está impondo outro obstáculo ao fluxo natural das águas: existem mais de 100 pequenas centrais hidrelétricas planejadas na região do Pantanal e bacia do Alto Araguaia. Segundo o relatório Alternativas Energéticas Renováveis da Bacia do Alto Paraguai, do WWF-Brasil, todas esses projetos de barramento poderiam ser substituídos por fontes renováveis que têm capacidade de gerar cerca de três vezes a potência nominal das PCHs planejadas para serem construídas na Região Hidrográfica do Paraguai. Essa energia poderia ser gerada a partir de recursos disponíveis na região, tais como biomassa de cana-de-açúcar, dejetos animais, resíduos sólidos urbanos, particularmente das duas principais cidades da região (Cuiabá e Campo Grande), além da energia dos efluentes líquidos (esgoto) e a energia solar. A mudança evitaria os impactos ambientais que podem comprometer o equilíbrio da região e afetar atividades econômicas importantes, como turismo e pesca, além de gerar empregos duráveis.

“Neste Dia Mundial da Água é importante chamar a atenção para a necessidade da criação de uma estrutura robusta de combate, prevenção e previsão de incêndios, mas também para o desenvolvimento de alternativas de desenvolvimento sustentável na região”, ressalta Bernardino.

Abaixo, gráficos mostram o nível do Rio Paraguai fora da zona de normalidade nas regiões de Cáceres, Porto Conceição (MT), Forte Ladário e Coimbra (MS).

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Sobre o Pantanal: O bioma ocupa os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bolívia e Paraguai, uma área de 170.500.92km², equivalente ao tamanho de 4 países juntos: a Bélgica, Holanda, Portugal e Suíça. O bioma é morada de 4,7 mil espécies de animais e plantas e cumpre diversas funções: conservação da biodiversidade, conservação do solo, estabilização do clima e fornecimento de água.

Na época da cheia 80% do Pantanal é alagado, as enchentes se concentram entre dezembro e janeiro. Nesse período, cerca de 180 milhões de litros são despejados por dia nos rios pantaneiros. O equivalente a 72 piscinas olímpicas. Em 1988 o Pantanal foi decretado Patrimônio Nacional, e no ano 2000 foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera, pelas Nações Unidas.

Sobre o WWF-Brasil

O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira e sem fins lucrativos que trabalha para mudar a atual trajetória de degradação ambiental e promover um futuro em que sociedade e natureza vivam em harmonia. Criado em 1996, atua em todo Brasil e integra a Rede WWF. Apoie nosso trabalho em wwf.org.br/doe

No Pantanal, a instituição vem atuando de forma emergencial, por conta dos incêndios desde setembro de 2020, com apoio da Rede WWF, para atender pessoas e animais atingidos.
Algumas ações realizadas:

– Criação de 6 brigadas comunitárias com treinamento e equipamentos de proteção individual;
– Doação de 630 itens para ações de combate ao fogo;
– Doação de 105 cestas básicas para indígenas;
– Doção de 5 armadilhas fotográficas e 1 veículo para monitoramento da Arara-Azul;
– 35 caixas de analgésicos e anestésicos;
– 19 equipamentos de captura de animais;
– 5 caixas de transporte de animais.

Floresta Amazônica: de salvador a fonte de perigos

A maior área de floresta tropical do mundo está causando o aquecimento global devido à exploração excessiva

floresta queimadaUma floresta tropical queimada não pode mais absorver dióxido de carbono. Foto: imagens imago / Photoshot / Balance

 Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

A Amazônia, a maior região de floresta tropical do mundo, se desenvolveu de um ecossistema que retarda o aquecimento global para um produtor líquido de gases e partículas prejudiciais ao clima. Este é o resultado de um estudo de uma equipa internacional que acaba de ser publicado na revista científica “Frontiers in Forests and Global Change”.

Em estudos anteriores comparáveis ​​que identificaram a Amazônia como sumidouro de carbono e como aliada contra as mudanças climáticas, apenas os dados do gás de efeito estufa dióxido de carbono (CO2) foram levados em consideração. Como resultado, a floresta tropical foi um dos maiores sumidouros de CO2 do mundo – esse é o nome dado aos reservatórios naturais que absorvem e armazenam carbono temporariamente. No novo estudo, os mais de 30 pesquisadores ambientais participantes dos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Colômbia, Peru, Suécia e Brasil também examinaram todas as outras emissões e efeitos da radiação que impulsionam o aquecimento global pela primeira vez. Apesar de algumas incertezas »chegamos à conclusão de que o aquecimento atual de gases de efeito estufa não-CO2, em particular metano e óxido nitroso, na bacia amazônica, em grande parte compensa e muito provavelmente excede a contribuição positiva para o clima por meio da absorção de CO2 atmosférico ”, escrevem os autores do estudo “Carbon and Beyond: The Biogeochemistry of Climate in a Rapidly Changing Amazon”. “Também descobrimos que a maioria das influências antropogênicas aumenta o potencial de radiação da bacia”.

Os pesquisadores destacam que, por um lado, a capacidade da região amazônica como armazenamento de carbono vem diminuindo gradativamente nas últimas décadas devido ao desmatamento. E isso está abrangendo cada vez mais países: “Historicamente, o arco do desmatamento brasileiro no sul e sudeste da Amazônia, impulsionado principalmente pela pecuária e plantações de soja, foi o epicentro do desmatamento na região”, segundo o estudo . Nos últimos anos, no entanto, outros estados amazônicos, como Peru e Bolívia, também sofreram extenso desmatamento. A criação de plantações de dendezeiros e garimpeiros são os principais responsáveis ​​pelo rápido desmatamento no Peru, enquanto a Amazônia boliviana é mais afetada pela produção de soja.

A derrubada e queimada e desmatamento para pastagens de gado e plantações de soja, mineração e construção de barragens não apenas reduzem o armazenamento de carbono, mas também aumentam as emissões de CO2 e de outros gases de efeito estufa, como metano, óxido nitroso, ozônio e que afetam o clima micropartículas como a fuligem.

A Amazônia sempre foi um dos grandes produtores naturais de óxido nitroso do mundo. É liberado por microrganismos da floresta tropical. No entanto, segundo os pesquisadores, as emissões aumentaram devido à drenagem de áreas úmidas e à compactação do solo causada pelo desmatamento. Outra fonte são as pastagens artificiais para gado, principalmente nos meses de chuva. Além disso, há emissões de óxido nitroso dos reservatórios das usinas hidrelétricas, que também são produtoras de CO2 e metano. “A inundação após a construção da barragem diminui o teor de oxigênio na água e aumenta a decomposição livre de oxigênio de substâncias orgânicas, o que significa que quantidades consideráveis ​​de metano são lançadas na atmosfera”, afirma o estudo. Este efeito é possivelmente dez vezes mais forte nos trópicos do que em reservatórios em latitudes temperadas. Mais de 190 barragens já represam os rios da bacia amazônica. Outras 246 barragens estão planejadas ou em construção. Estudos anteriores mostraram que as usinas hidrelétricas na Amazônia liberam mais gases de efeito estufa no longo prazo do que as usinas movidas a combustíveis fósseis com a mesma produção de eletricidade.

Outra causa do efeito estufa na Amazônia é o ozônio altamente reativo, que desempenha um papel importante na química da atmosfera e ali atua como um gás de efeito estufa. Segundo o estudo, seus precursores químicos aumentaram “com o aumento da combustão da biomassa, o desmatamento, a conversão da floresta em terras agrícolas e a rápida urbanização na região amazônica”.

Mesmo que muitas questões ainda não tenham sido completamente esclarecidas e os dados subjacentes ainda não tenham sido confirmados, o estudo deixa uma coisa clara: se a humanidade quer vencer a luta contra o aquecimento global, maior desenvolvimento da Amazônia com represas, corte raso, pastagens artificiais de gado, plantações de soja e dendê, construção de estradas e mineração, bem como exploração de petróleo, não tem como continuar.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!  ].

Pantanal: busca pelo termo cresce mais de 1500% no país

Panorama levantado pela SEMrush analisa o crescimento na busca por questões ambientais; queimadas e animais são alguns dos mais pesquisados

pantanal

São Paulo, novembro de 2020 – O ano de 2020 trouxe consigo muitos desafios. Um dos que chama atenção em nível nacional e internacional são as questões ambientais que tem tomado grandes proporções na mídia. Um ano marcado por queimadas no Pantanal, aumento do desmatamento e morte de muitos animais em seu habitat natural fizeram com que a SEMrush, líder global em marketing digital, realizasse um levantamento para compreender se os brasileiros vêm buscando mais sobre o assunto na internet. E sim: os dados apontam que, de janeiro de 2020 a setembro do mesmo ano, a busca pela palavra ‘Pantanal’ teve um aumento de 1561%, com 673 mil buscas apenas em setembro.

Com isso, os brasileiros também aumentaram seu interesse por outras questões ambientais durante o mês de setembro de 2020. Como por exemplo a busca por queimadas, que somam 74 mil acessos no mês. Outro desdobramento desse interesse foi a pesquisa por animais queimados, com 1,9 mil buscas, e até mais específicos como onça pintada, com 2,9 mil. Os biomas nacionais mais afetados também despertaram mais interesses, e Cerrado e Mata Atlântica totalizam 135 mil e 90,5 mil, respectivamente, incluindo um aumento médio nas buscas por desmatamento, de 60,5 mil.

Veja abaixo os termos com maior crescimento nas buscas:

1) Animais do pantanal: aumento de 1976%
2) Onça do pantanal: aumento de 1605%
3) Pantanal: 1561 %
4) Queimadas: aumento de 1021%
5) Animais queimados: aumento de 804%
6) Desmatamento: 646%
7) Conservação Ambiental: aumento de 519%
8) Poluição: aumento de 401%
9) Mata Atlântica: aumento de 400%
10) Cerrado: aumento de 398%
*média mensal de janeiro de 2020 a setembro de 2020

Outras preocupações ambientais também foram alvo do interesse dos brasileiros em suas pesquisas. O levantamento apontou um aumento de 401,5% na busca pela palavra poluição, seguida de um aumento de 516% por poluição da água. Outra pesquisa relevante que aumentou nesse período foi a pergunta “o que é meio ambiente?” que se desdobrou para a pergunta “o que é aquecimento global?”, ambas com um aumento de 516% e 825%, respectivamente. Todo esse contexto para saber mais sobre as questões ambientais presentes no Brasil também fizeram com que o interesse dos brasileiros aumentasse em 519% sobre a conservação ambiental.

“A preocupação com o que acontece com o meio ambiente não é mais uma questão que as pessoas estão deixando de lado. O aumento da busca por informação relevante é uma tendência que vai crescer com o passar dos anos, e quem quer se posicionar como um provedor de conteúdo de qualidade deve se focar no perfil dos comportamentos de buscas. Importante salientarmos que dados estratégicos são um aliado importante para quem quer ajudar e fazer a sua parte frente a questões sensíveis como o meio-ambiente”, conclui Fernando Angulo, Head of Communications da SEMrush.

Desmatamento e queimadas na Amazônia e no Pantanal causam perdas equivalentes a três estados do RJ

De janeiro a novembro, foram destruídos pelas chamas 116.845 km² do território da Amazônia e do Pantanal, área equivalente a quase três estados do Rio de Janeiro. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) também mostram que a Amazônia perdeu, em um ano, 11.080 km² em área desmatada —maior índice da década.

A devastação ambiental tornou-se uma marca registrada do Brasil no exterior. A imagem do Brasil é cada vez pior, resultando até em isolamento internacional. 

Reportagem de Danielle Brant e Renato Machado na Folha de São Paulo mostra que no Pantanal, o principal problema foram as queimadas, que devastaram 40.171 km², o equivalente a um quarto de todo o bioma.

O governo de Jair Bolsonaro tem responsabilidade direta sobre as queimadas  e o desmatamento. Atuou contra os órgãos de fiscalização ,ao ponto de o titular do executivo afirmar que o “Ibama não atrapalha mais”, assinala a reportagem.

Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falou em usar gado para evitar queimadas (o “boi bombeiro”) e, na expressão mais célebre, defendeu aproveitar a comoção com a Covid-19 para “passar a boiada” na legislação ambiental.

O Ministério do Meio Ambiente é omisso, silencia e faz pouco caso das críticas internas e internacionais. Já o Ministério da Defesa, limita-se a dizer que apoia a fiscalização ambiental.  

Este artigo foi inicialmente publicado pelo site Brasil 247 [Aqui!].