Tragédia anunciada: Amazônia continua ardendo

A Amazônia brasileira continua sofrendo com o descaso das autoridades públicas, enfrentando novos grandes focos de incêndio que consomem a floresta, símbolo da diversidade da natureza do país.

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Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, se observa um grande aumento das queimadas na ampla floresta amazônica, atraindo fortes críticas da comunidade internacional.

O fogo tem afetado também reservas indígenas, como a do Xingu, na bacia do rio Amazonas, preocupando populações indígenas e ribeirinhas enquanto bombeiros tentam conter o fogo.

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Bolsonaro ignora dados do próprio governo e diz que queimadas na Amazônia são “uma mentira”

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Bolsonaro parece viver em um universo paralelo: pelo menos, esse é o tom da fala feita pelo presidente brasileiro durante a 2ª Cúpula Presidencial do Pacto de Letícia pela Amazônia, realizado ontem (11/8) por videoconferência. De acordo com Bolsonaro, “não há nenhum foco de incêndio, nem um quarto de hectare desmatado” na Floresta. “É uma mentira essa história de que a Amazônia arde em fogo”, disse o presidente. “Sabemos o quanto somos criticados de maneira injusta por muitos países. Nós, com perseverança, com determinação e com verdade, devemos insistir”.

Se a verdade for uma aliada de Bolsonaro nessa tarefa, ela não depõe em seu favor. Como o próprio governo reconhece, o desmatamento na Amazônia cresceu mais de 34% nos últimos 12 meses. O ritmo de desmate em julho passado foi menor que o registrado no mesmo mês em 2019, mas ainda assim foi muito superior à média histórica desse período.

O presidente desafiou embaixadores estrangeiros a sobrevoar o trecho entre Boa Vista (RR) e Manaus (AM) e disse que eles “não acharão nenhum foco de incêndio ou corte de hectare desmatado”. Ele acusou também aqueles que criticam o Brasil de serem motivados por interesses comerciais ou, no caso dos críticos internos, antipatrióticos. “Afinal de contas, o Brasil é uma potência no agronegócio, ameaças existem sobre nós o tempo todo e, lamentavelmente, alguns poucos brasileiros trabalham contra nós nessa questão”. Sobre os criminosos ambientais que promovem a destruição e prejudicam a imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro não teceu nenhum comentário.

O vice-presidente Mourão também participou da conferência e, na mesma linha de Bolsonaro, acusou de “neocolonialistas” os países que criticam o Brasil. “Pior ainda foi a postura de alguns [líderes mundiais] que se aproveitaram da crise para avançar interesses protecionistas e atitudes neocolonialistas”, disse o vice. Em seu discurso, ele defendeu que “o protagonista do desenvolvimento sustentável na Amazônia será o setor privado, não o Estado” e destacou a importância de incentivar a bioeconomia como forma de desenvolver e preservar a Floresta.

As falas de Bolsonaro e Mourão foram destacadas pelos FolhaEstadãoO GloboG1Valor Exame, entre outros.

ClimaInfo, 12 de agosto de 2020.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Amazônia: alta do desmatamento não é inépcia; é projeto

Alertas de devastação em 2020 têm novo pico, de 9.205 km2, mesmo com Exército na Amazônia; Jair Bolsonaro poderá ser primeiro presidente da história com dois anos seguidos de aumento recorde no corte da floresta

queimadasGrandes queimadas começam a aparecer em Rondônia. Na imagem de satélite da NASA registrada ontem, pode-se ver grandes focos circundando áreas indígenas, como a Karipuna e Uru-Eu-Wau-WAu. São focos de grilagem.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

Somente alguém que tenha chegado ontem de um outro planeta poderia se surpreender com a nova alta nos alertas de desmatamento na Amazônia, que atingiram imorais 9.205 quilômetros quadrados em 2020. A elevação de 34% na velocidade da devastação neste ano, medida pelo sistema Deter, do Inpe, tem dois agravantes: ela vem após um ano que já havia tido o maior desmatamento desde 2008. E ocorreu mesmo após três meses de presença das Forças Armadas na floresta – em tese para combater o desmatamento.

Desde a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, a área de alertas de desmatamento dobrou na Amazônia. Os alertas do Deter são uma subestimativa; a taxa oficial de devastação, dada pelo sistema Prodes, mais preciso, será conhecida apenas no fim do ano. No entanto, se a variação entre os dados do Deter e os do Prodes ficar na média histórica, poderemos ter cerca de 13.000 quilômetros quadrados de desmatamento, a maior taxa desde 2006 e três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. Será também a primeira vez na história que o desmatamento na Amazônia tem duas altas seguidas na casa dos 30%.

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Acabam de sair dados para o mês de julho do sistema Deter do INPE. Está confirmado: o desmatamento na Amazônia cresce sem controle, mesmo durante a pandemia. Nos últimos 12 meses, o crescimento é de 34% comparado com o mesmo período do ano passado. Foram derrubados 9,2 mil km²

Isso não acontece por incompetência do governo no combate à devastação; acontece porque a agenda do governo Bolsonaro é promover ativamente a devastação. Não é inépcia; é projeto.

Desde o início do governo um amplo grupo de atores – que vai de cientistas a povos indígenas, passando por ex-ministros, organizações ambientalistas, servidores federais e Ministério Público – vem denunciando o desmonte sistemático da governança ambiental brasileira: o fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente, o enterro dos planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a banana dada ao Acordo de Paris, a perseguição a fiscais e a omissão ideológica e ilegal em investir no combate a ilícitos ambientais mesmo tendo quase R$ 2 bilhões em caixa.

Tal conjunto de ações e omissões, que o ministro do Meio Ambiente tão bem sintetizou na infame expressão “passar a boiada”, é o responsável direto pelo descontrole do desmatamento, que transforma o Brasil em pária internacional e ameaça levar embora investimentos no momento em que eles são mais necessários, o de recuperação econômica no pós-pandemia.

Declarações de integrantes do Observatório do Clima

“A explosão do desmatamento na Amazônia tem como causa importante o discurso do Presidente da República, que deslegitima a fiscalização ambiental ao mesmo tempo em que estimula a ocupação da região em modelo predatório. O Ministro do Meio Ambiente segue as ordens de seu patrão. Quem lucra com isso é o desmatador ilegal, o grileiro, o investidor no garimpo sem controle que explora trabalho escravo. Se quisesse controlar o desmatamento, e essa realmente não parece ser a intenção, o governo retomaria o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e reforçaria a atuação do Ibama e outros órgãos ambientais, no lugar de gastar dinheiro com a atuação teatral das Forças Armadas.” – Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do OC

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o governo trabalha para esconder. Combate ao desmatamento se faz com transparência, ciência, áreas protegidas, órgãos especializados eficientes e controle social. Tudo o que Bolsonaro odeia. A política de destruição promovida pelo governo empodera os que lucram com a floresta no chão e ameaça os que lutam para mantê-la em pé, arrastando o Brasil para o atraso. Ao ignorar a importância de conservar nossas riquezas naturais, o governo Bolsonaro impacta de forma negativa os brasileiros, a economia do país e o clima global.” – Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

“Será difícil conter o desmatamento se o governo continuar a intenção de alterar a legislação fundiária para legalizar áreas desmatadas e invadidas ilegalmente. A grilagem de terras públicas é um vetor do desmatamento, que é estimulado com a expectativa de anistia e legalização” – Brenda Brito, pesquisadora-associada do Imazon

“Os dados do Inpe indicam que o Brasil fracassou no cumprimento de sua lei de clima, cuja meta para 2020 era limitar o desmatamento na Amazônia a no máximo 3.925 km2. Isso também nos desvia da rota do Acordo de Paris, o que criará uma série de dificuldades comerciais para o Brasil no período crítico de recuperação econômica no pós-pandemia. O crime tomou conta da Amazônia, incentivado pelo próprio governo Bolsonaro.” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

“A alta nos alertas de desmatamento entre o ano da eleição e este ano é de 101%. Como lembrou um amigo meu, a ex-presidente Dilma Rousseff dizia que quanto atingisse a meta dobraria a meta. Jair Bolsonaro acabou com a meta e dobrou o desmatamento.” – Caetano Scannavino Filho, coordenador do Projeto Saúde e Alegria

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

IPAM: incêndios na Amazônia não se concentram em áreas já exploradas

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O governo tem tentado minimizar a dimensão das queimadas usando alguns agentes da Embrapa que afirmam que 90% dos focos de calor registrados na Floresta Amazônica em 2019 ocorreram em áreas já desmatadas, o que dissociaria essas ocorrências da derrubada de novas áreas no mesmo período. O IPAM mostrou que esse número não se sustenta.

Segundo relata André Borges no Estadão, uma nota técnica do IPAM mostra que, em 2019, 30% dos focos registrados na Amazônia foram incêndios em áreas protegidas, e 34% estiveram associados a desmatamentos recentes. A maior parte (36%) esteve de fato relacionada com manejo agropecuário, mas em uma proporção muito abaixo da apontada pela Embrapa. “Pode-se observar pouca variação proporcional entre 2016 e 2018 (média de 42%), mas a taxa cai em 2019, para 36%, devido ao aumento do fogo em área de desmatamento recente”, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela nota à reportagem.

O argumento levantado pelo governo ressalta o principal problema enfrentado por Mourão e equipe na atual crise Amazônica: enquanto o desafio das queimadas e do desmatamento exige ação concertada, planejada e efetiva, Brasília oferece respostas improvisadas e dissociadas de experiências passadas bem-sucedidas.

No Valor, Daniela Chiaretti destacou as impressões de Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atualmente no Observatório do Clima (OC), que defende que o governo retome o Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), a “principal ferramenta” que permitiu ao Brasil controlar as taxas de desmatamento em gestões passadas. Ela apontou também que a solução dessa questão passa pela “reversão do discurso governamental do presidente Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles e de outras autoridades, de falar contra a fiscalização ambiental, deslegitimar os fiscais e as sanções ambientais”.

Em tempo: A alta das queimadas na Amazônia registrada em julho foi destaque na imprensa internacional nos últimos dias. Veículos como BBC News, The TimesReutersDeutsche WelleAssociated PressPhysAFP e Al-Jazeera, entre outros, repercutiram essa informação no exterior.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

BBC faz sobrevoo e mostra escala das destruição da Amazônia brasileira por queimadas

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A rede BBC publicou ontem uma matéria sobre o aumento explosivo das queimadas na Amazônia brasileira que deverão ocorrer em número recorde em 2020.  A rede inglesa mostrou, usando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que ao longo do mês de julho, o número de queimadas na Amazônia atingiu o estratosférico número de 6.803 focos de incêndio, o que representou um aumento de 28% em relação ao ocorrido em 2019.

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Como os principais meses para a realização de queimadas ainda estão por vir, o mais provável é que outros recordes irão ser batidos em termos de queimadas e de desmatamento, em uma clara demonstração de que a política do “passa boiada” do governo federal, encabeçada pelo improbo Ricardo Salles, está funcionando muito bem para a alegria de aliados paroquiais do presidente Jair Bolsonaro.

O problema é que o sucesso interno já suscitou uma série de reações negativas no plano externo, incluindo os anúncios do megafundo de investimentos Nordea e a da gigante chinesa  Cofco International Ltd que estão cobrando uma mudança de rumo no controle do desmatamento e já anunciaram uma série de medidas que deverão atingir em cheio a combalida economia brasileira.

Essas reações deverão ser aumentadas quando imagens como as mostradas no vídeo abaixo, incluída na matéria da BBC, atingir não apenas os segmentos compostos por ecologistas e ambientalistas, mas também os acionistas de grandes fundos de investimento que estão, como o Nordea, cobrando uma ação mais diligente do governo Bolsonaro para conter a destruição em curso na Amazônia.

Eu fico me perguntando porque foi preciso que o correspondente de uma rede estrangeira fazer um sobrevoo no norte de Rondônia para mostrar o que está em curso na Amazônia neste momento. A única razão para essa omissão de informar a população brasileira se deve ao fato de que os donos da mídia brasileira são fiadores da política de destruição ambiental comandada por Ricardo Salles e Jair Bolsonaro.

Nunca é demais avisar que a consolidação da imagem de pária ambiental do Brasil será desastrosa. Mas parece que isso não sensibiliza o presidente Jair Bolsonaro ou quem quer que seja dentro do seu governo. O que parece existir é uma aposta arriscada de que a dependência global das commodities brasileiras irá fazer com que os discursos de preocupação na passe de discurso de fachada.  Os dados dessa aposta estão rodando na mesa. Resta-nos esperar para ver se quem pressiona o Brasil para mudar o seu rumo está apenas blefando.

Amazônia registra recordes de focos de calor em julho

Com falta de fiscalização e inteligência no combate aos danos ambientais, queimadas em Terras Indígenas registraram aumento de 76%

unnamed (6)Imagem de satélite do estado do MT mostrando queimada ocorrendo no dia 30 de julho

Manaus, 01 de agosto de 2020 – No dia 30 de julho, a Amazônia registrou mais um triste recorde: 1.007 focos de calor em um único dia. Esse é o número mais alto registrado no mês de julho desde 2005. Neste mesmo dia, no ano passado, foram 406 focos. Agora, dados consolidados de julho mostram um aumento expressivo nos focos de calor.

“O fato de ter mais de mil focos de calor em um único dia, recorde dos últimos 15 anos para o mês de julho, mostra que a estratégia do governo de fazer operações midiáticas não é eficaz no chão da floresta. Somente em julho, foram registrados 6.804 focos de calor na Amazônia, um aumento de 21,8% quando comparado ao mesmo mês do ano passado. A moratória, que proíbe no papel as queimadas, não funciona se não houver também uma resposta no campo, com mais fiscalizações. Afinal, criminoso não é conhecido por seguir leis. Assim como a GLO aplicada sem estratégia e sem conhecimento de como se combate as queimadas, também não traz os resultados que a Amazônia precisa”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil aponta que dos focos de calor registrados em julho, 539 foram dentro de Terras Indígenas, um aumento de 76,72% em relação ao ano passado, quando foram mapeados 305 focos. Além disso, 1.018 atingiram Unidades de Conservação, um aumento de 49,92% em relação ao mesmo período do ano passado.

Deforestation and Fire Monitoring in the Amazon in July, 2020
Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em Julho de 2020

Hotspot próximo a uma área desmatada registrada pelo Prodes (Projeto Brasileiro de Monitoramento de Satélites na Amazônia), em Nova Maringá, Mato Grosso.

“O desmatamento precisa ser combatido durante todo o ano, principalmente considerando que as queimadas na Amazônia não são resultado de um fenômeno natural, mas da ação humana. O fogo é uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e agricultores, que o usam para limpar áreas para uso agropecuária ou especulação. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e o desmantelamento dos órgãos ambientais. Estamos observando uma tendência de alta nas queimadas neste ano. Além da ameaça do coronavírus, com a temporada de fogo, os povos indígenas estarão ainda mais vulneráveis, pois a fumaça e a fuligem das queimadas prejudicam ainda mais sua saúde”, completa Rômulo.

Acesse imagens de queimadas da Amazônia em 2020 aqui

Assessoria de imprensa do Greenpeace Brasil:

Rebecca Cesar, (11) 95640-0443, rebecca.cesar@greenpeace.org

Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudança de rumos na área ambiental

amazoniaO avanço do desgaste da imagem do Brasil por causa da aceleração do desmatamento na Amazônia provoca carta inédita de representantes do grande capital ao governo Bolsonaro

Sentindo que as labaredas que brevemente vão arder na Amazônia brasileira têm o potencial de, desculpem-me a metáfora, queimar a sua picanha, dirigente de 38 empresas e quatro entidades setoriais (ver lista na imagem abaixo) fizeram publicar uma carta no jornal Valor Econômico onde pedem providências inéditas ao governo Bolsonaro, na figura do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

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A carta deixa clara a preocupação com o iminente isolamento do Brasil em face da política de “passada boiada” que está instalada na área ambiental, onde o improbo ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles vem realizando um amplo desmanche da governança ambiental criada a partir da criação de Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) pelo governo de outro general, no caso Emílio Garrastazu Médici, bem como das estruturas de comando e controle que impediam o avanço acelerado do desmatamento e outras formas de degradação na Amazônia brasileira.

Em termos de propostas objetivas, o documento apresenta linhas bastante coerentes com aquilo que já foi explicitado em conferências multilaterais e até em documentos oficiais firmados por outras administrações federais brasileiras (ver imagem abaixo).

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O problema é que a não ser que haja uma mudança radical na forma de governar de Jair Bolsonaro (o que me parece difícil), não bastará cortar a cabeça (metaforicamente dizer) de Ricardo Salles para que as propostas apresentadas pelos representantes do grande capital brasileiro e internacional sejam transformadas em políticas públicas. 

A verdade é que afora as visões ultrapassadas em termos de equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação da natureza que são compartilhadas por várias cabeças estreladas do governo Bolsonaro,  existem as alianças políticas paroquiais entre o presidente Jair Bolsonaro e vários segmentos que estão hoje na linha de frente do saque de recursos madeireiros e de minérios (principalmente o ouro) na Amazônia brasileira.

Como alguém que estuda a Amazônia há quase três décadas e tem uma longa quilometragem nas estradas empoeiradas e esburacadas em Rondônia, não creio que haja a possibilidade de qualquer mudança dentro do governo Bolsonaro até que as ameaças que estão sendo feitas pelos grandes fundos de investimento globais e grandes corporações que atuam na produção de carne sejam transformadas em ações concretas.

Entretanto, a carta publicada hoje pelo Valor Econômico certamente terá o efeito de acelerar a fritura de Ricardo Salles. Até que ponto isto resultará na adoção das propostas feitas pelo representantes do grande capital é que fica a ser observado. 

Dois pontos a mais: 1) a pressão que agora está se tornando evidente por parte dos representantes do grande capital nacional e global não é nada perto do que acontecerá quando começarem os grandes incêndios que ocorreram em poucas semanas na Amazônia, e 2) estudos que certamente estão em fase de finalização para publicação por grandes revistas científicas vão mostrar um quadro ainda mais grave do que o normalmente aceito em termos de alterações ambientais na Amazônia brasileira. Quando estes artigos começarem a ser publicados, haverá um aumento ainda maior das pressões por ações objetivas por parte do governo Bolsonaro.

Por isso tudo, é só uma questão de tempo até que as commodities agrícolas, florestais e minerais do Brasil passem a sofrer duras barreiras comerciais, especialmente na União Europeia. E aqui não se trata de futurologia, mas de uma previsão científica amparada naquilo que já estabelecido na literatura e pelo que eu sei do que brevemente será publicado.  Assim, é muito provável que a carta de hoje seja a primeira de uma lista.

Desmatamento sob Bolsonaro afasta investidores e ameaça acordo Mercosul-União Europeia

Diplomatas afirmam que alerta feito por fundos internacionais deve ser levado em conta, se Brasil quiser se aliar com bloco europeu. Em alta, desmatamento na Amazônia bateu recordemadeiraMadeira sendo transportada pelo rio Xingu, na região de Porto de Moz, no Pará.LILO CLARETO

Por Afonso Benites para o El País

A ineficiência apresentada pelo Governo Jair Bolsonaro no combate ao desmatamento da Amazônia já começa a apresentar seus primeiros efeitos e, se os resultados práticos de redução dos índices não aparecerem rapidamente, pode botar em risco o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. A avaliação foi feita por cinco de seis fontes diplomáticas europeias consultadas pelo EL PAÍS nesta quarta-feira. A que não concorda com as demais, entende que o acordo sairá independentemente de como o presidente brasileiro agirá. Todas elas concordam, contudo, que a decisão de alocar o vice-presidente Hamilton Mourão na coordenação do Conselho da Amazônia representa um sinal positivo, já que exclui o radical ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, da linha de frente desse processo.

No início de junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais constatou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram desmatados 10.129 km2 de floresta – a área equivale a quase nove vezes o município do Rio de Janeiro. É o maior índice desde 2008. O número representa um aumento de 34,4% do desmatamento na Amazônia, em comparação com o período entre agosto de 2017 e julho de 2018. Agora, em 2020, o desmatamento segue em alta e o período de seca e consequente temporada de incêndios amazônicos ainda nem começou.

“Queremos ajudar o Brasil. Temos participado de várias reuniões com o vice-presidente e com sua equipe do Conselho Amazônia. Demonstramos nossa preocupação. Agora, depende mais do governo daqui do que de nós para frear esse desmatamento”, afirmou um diplomata ouvido pela reportagem.

Um dos alertas mais contundentes de que o país pode começar a perder dinheiro foi dado nesta semana, quando fundos internacionais de investidores, que gerenciam ativos de cerca de 21 trilhões de reais (4 trilhões de dólares), cobrou maior efetividade do Brasil na área ambiental. Em uma carta aberta entregue em embaixadas do Brasil pela Europa, Ásia e América do Sul, os representantes dos fundos disseram estar preocupados com “o impacto financeiro do desmatamento, bem como as violações dos direitos dos povos indígenas” e que acreditam que, sem a mudança de rumo, seus clientes veem “potenciais consequências para os riscos de reputação, operacionais e regulatórios”.

A maior parte dos fundos que assinou a carta compõem o Investor Initiative for Sustainable Forests (Iniciativa de Investidores pelas Florestas Sustentáveis), da qual participam empresas expostas ao desmatamento por seus investimentos na pecuária bovina e na sojicultura. Entre esses fundos estão a francesa Comgest, a britânica LGPS Central e o KLP, o maior fundo de pensões norueguês.

“Agora, além dos prejuízos ambientais conhecidos, temos a provável perda de investimentos internacionais em todos os segmentos da economia, o que poderia afetar até o programa de privatização que a gestão Bolsonaro pretende implantar”, disse Virgílio Viana, superintendente geral da ONG Fundação Amazônia Sustentável. A organização trabalha com projetos de sustentabilidade e geração de renda na região amazônica.

Outra fonte diplomática ouvida pela reportagem afirmou que a carta dos fundos de investimentos pode gerar um resultado positivo, a médio prazo. “Esse despertador tocado pelos fundos de investimento é o resultado das informações nada animadoras que agora chegam do Brasil. Pode ser bom para seguir nessa linha que, finalmente, o governo começou a tomar, de mudar o rumo no combate ao desmatamento”, declarou o diplomata.

Se não bastassem os sinais que vêm de fora, internamente também houve quem reclamasse da política ambiental e de seu impacto na economia. A cúpula dos dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco deram declarações nesse sentido nesta semana. “No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde como a covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, em um debate promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).

“Todo mundo falava de sustentabilidade, de problema com o planeta, de aquecimento global, reflorestamento, derrubada, de qualidade do ar, da água. Todo mundo falava sobre isso, mas de fato nós temos de reconhecer que fizemos muito pouco em relação a isso”, ponderou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, no mesmo evento.

Se não bastassem as possíveis fugas de investimentos, o Brasil já abriu mão de receber recursos que costumava ter na área ambiental. Em 2019, o primeiro da gestão Bolsonaro, o Governo viu 2,2 bilhões de reais (cerca de 400 milhões de dólares) ficarem retidos por conta de uma decisão unilateral do Ministério do Meio Ambiente. No ano passado, outro grupo que representa 230 fundos de investimento já havia enviado alertas à gestão federal. Na ocasião, a cobrança era para que o Poder Executivo intensificasse o combate às queimadas, que devastaram boa parte do território amazônico.

Regras frouxas

Outros fatores que têm preocupado os investidores da área ambiental são propostas do Governo Bolsonaro e de seus aliados no Congresso que devem impactar diretamente no desmatamento. Uma delas prevê a redução de unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas, para a construção de estradas, ferrovias e portos. Há ainda o projeto que pretende autorizar a exploração mineral em territórios indígenas, a medida provisória que faz a regularização fundiária sem muitos critérios e o afrouxamento nas regras de fiscalização de madeiras exportadas pelo Brasil.

Em março, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente decidiu relaxar a fiscalização de madeiras que são exportadas pelo Brasil. O presidente do órgão, Eduardo Bim, decidiu acabar com a necessidade de o órgão autorizar a exportação de madeiras retiradas de florestas brasileiras. A definição contrariou parecer assinado por cinco técnicos de carreira do instituto. E isso ocorre no período em que o país registrou aumento de 30% nas queimadas na Amazônia.

No governo Bolsonaro, os discursos são distintos. Quando indagado sobre a carta dos fundos de investimentos, o presidente disse que havia muita desinformação nessa área e reclamou que vários dos países que o criticam sequer conseguiram preservar suas matas ciliares. Nesta quarta-feira, o vice-presidente e coordenador do Conselho da Amazônia, tentou apaziguar os ânimos dizendo que a resposta será dada com trabalho. “O Brasil responderá com a verdade e com trabalho responsável em prol da proteção e preservação da Amazônia”, afirmou Mourão ao jornal O Estado de S. Paulo.

A corrida de Mourão agora é contra o relógio. Nesse mês, está sendo editado os termos do acordo do Mercosul com a União Europeia, no qual estão destacados os compromissos ambientais. O próximo passo é levar o texto para os parlamentos de todos os países envolvidos. Até agora, os Congressos da Áustria e da Holanda já aprovaram moções para que o bloco europeu rejeite o compromisso por conta do desmatamento amazônico. Ainda não é uma sentença de morte para o acordo, mas é uma sinalização de que ainda há muito a ser feito para que ele sobreviva.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

Em Campos é assim: COVID-19 ou queimadas de cana, façam a sua escolha

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Não bastasse a COVID-19, agora os moradores de Campos dos Goytacazes vão ter que se virar com a poluição causada pelas queimadas de cana

Por uma dessas coincidências nefastas que ocorrem de tempos em tempos, publiquei nesta manhã uma postagem mostrando os efeitos agregados entre a pandemia da COVID-19 e os índices de poluição atmosférica.

Eis que no meio desta tarde comecei a notar aquela característica chuva de fuligem que ocorre durante a safra da cana de açúcar em Campos dos Goytacazes. Sem me dar conta disso, pensei que era apenas um vizinho queimando lixo. Ledo engano! Ao transitar pelas ruas de Campos dos Goytacazes, a verdadeira causa se desvelou e se revelou como sendo uma série de queimadas que estariam ocorrendo na parte norte da cidade (ver imagens abaixo).

Como uma vítima anual de problemas respiratórios pela combinação de ar seco e alta quantidade de material particulado no ar, fato que já me vez frequentar incontáveis visitas à áreas de emergência hospitalar e realizar outras incontáveis sessões de inalação, fico me perguntando o que será de mim se eu ficar no mesmo estado lamentável em que fiquei em safras passadas?

Pois em Campos dos Goytacazes é assim: as vias pelas quais se pode contrair doenças respiratórias são inúmeras, incluindo a COVID-19. Mas a mais tradicional e de longa contribuição para doenças respiratórias certamente não será ela.

Será que custa lembrar pela Lei 5.990 de junho 2011 o  prazo para a erradicação da queimada no Estado do Rio de Janeiro acaba em 2020 para lavouras implantadas em áreas passíveis de mecanização da colheita e em 2024 para áreas não passíveis de mecanização?

Pesquisa aponta frigoríficos e produtores de soja com maior risco de serem associados a queimadas

Commodities agrícolas foram as grandes responsáveis por incêndios na Amazônia, segundo estudo que cruza dados da Nasa com cadeias de suprimentos das empresas

The Companies Behind the Burning of the Amazon

por Marcelo Coppola*

Em agosto do ano passado, imagens dos incêndios na Amazônia atraíram a atenção do mundo todo. Chefes de governo, organizações multilaterais, ambientalistas e celebridades manifestaram preocupação com o futuro da maior floresta tropical do planeta. “A Amazônia precisa ser protegida”, disse António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “Nossa guerra contra a natureza precisa acabar”, tuitou a ativista Greta Thunberg.

unnamed (13)Os 10 principais estados brasileiros com alertas de incêndio durante os meses da estação de incêndio em 2019. Fonte: Alertas de incêndio da NASA VIIRS

O tamanho real do desastre ambiental só foi conhecido em janeiro, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentou um balanço final dos incêndios que atingiram a floresta. Em 12 meses, ocorreram 89 mil focos de incêndio na região, um aumento de 30% em relação a 2018. Um crescimento preocupante, apesar de o número ter ficado abaixo da série histórica (109 mil).

No auge da crise, o presidente Jair Bolsonaro lançou suspeita sobre ONGs que atuam na região. E o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) culpou a temporada mais seca, quando, na verdade, choveu mais do que no ano anterior. Pesquisadores do bioma atribuem os incêndios, porém, a outros fatores.

A especulação fundiária é hoje um dos grandes vilões da floresta amazônica. Trata-se de um negócio de alta rentabilidade que envolve a invasão de terras públicas, a derrubada e retirada das árvores mais valiosas e depois, por meio de correntes presas a tratores, a derrubada da vegetação mais baixa. Passadas algumas semanas, período necessário para a secagem do material destruído, basta pôr fogo ao que antes era uma floresta. É hora então de espalhar as sementes para criar o pasto, à espera do comprador.

“É dinheiro fácil. O invasor de terra pública que gasta R﹩ 1 mil para derrubar e colocar fogo em um hectare consegue vender o mesmo hectare por até R﹩ 2,7 mil”, afirma Raoni Rajão, pesquisador da Amazônia e professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As queimadas costumam ser feitas no período mais seco da Amazônia, entre julho e outubro.

A floresta não queima apenas por conta da grilagem de terras. Para ampliar o pasto, muitos produtores põem fogo em áreas contíguas às suas propriedades ou destroem a mata existente dentro de suas próprias fazendas. O Código Florestal estabelece que, nos imóveis localizados na Amazônia Legal, 80% da mata nativa deve ser preservada. Há ainda as queimadas feitas por agricultores, indígenas e povos tradicionais com o propósito de renovar o pasto ou a área de cultivo, uma prática que tem impacto bem menor sobre o bioma, mas que pode sair do controle e provocar destruição em grandes áreas.

Levantamento realizado pelo MapBiomas — iniciativa que reúne universidades, organizações sociais e empresas de tecnologia – revela a dimensão das práticas criminosas citadas acima. De acordo com o estudo, realizado a partir do cruzamento de imagens de satélites com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outros bancos de dados oficiais, 99% do desmatamento realizado no Brasil no ano passado foi ilegal. Dos 12 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa destruída, a maior parte está localizada no Cerrado e na Amazônia.

Pecuária e soja

Um estudo recente realizado pela Chain Reaction Research (CRR) , uma coalizão de consultorias ambientais europeias e americanas, ajuda a entender um pouco mais os interesses por trás dos incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia. Os pesquisadores cruzaram imagens dos incêndios, feitas por satélites da Nasa, com a localização dos maiores frigoríficos da região, como JBS e Marfrig, e grandes silos de soja, controlados por gigantes como Bunge e Cargill.

O sistema de monitoramento da agência espacial americana detectou 417 mil focos de fogo nas “zonas potenciais de compra” da JBS e da Marfrig de julho a outubro do ano passado, um número que representa 42% de todos os incêndios ocorridos no Brasil no período – foram 981 mil, segundo a Nasa. Os focos de incêndios no entorno das duas empresas representam quase a metade (47%) do total detectado (885 mil) nas proximidades dos dez maiores frigoríficos da região.

Alerta VIIRS no Brasil (em cima) e número de alertas por mês (embaixo). Fonte: dados de incêndio da NASA VIIRS, imagens de satélite do Google

As zonas potenciais de compra dos matadouros foram estabelecidas pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) em 2017, a partir de entrevistas feitas com 157 frigoríficos da Amazônia Legal. Entre outras informações, essas empresas revelaram a distância máxima que percorrem para comprar os animais para abate. Os frigoríficos maiores uma distância máxima de 360 km a partir de suas instalações. Os menores, que têm certificados para atuar apenas dentro do Estado, compram gado a uma distância máxima de 153 km.

No caso da soja, a Chain Reaction Research estabeleceu um raio de 25 km a partir dos silos das maiores empresas do setor como área de sua cadeia de suprimentos. O levantamento indicou que as queimadas ocorridas no entorno da Bunge e da Cargill (39,9 mil) superaram a soma dos focos de incêndio registrados nas proximidades dos outros oito maiores traders do setor.

O levantamento não faz nenhuma acusação a esses conglomerados. “O objetivo foi mostrar a ocorrência de uma enorme quantidade de incêndios nas proximidades dessas empresas, o que não implica o envolvimento direto delas com essas práticas. Mas faz com que tenham de resolver as suspeitas que recaem sobre sua cadeia de suprimentos”, diz Marco Túlio Garcia, pesquisador da Aidenviroment e um dos autores do estudo, que analisou também os incêndios na Indonésia, onde as suspeitas recaem sobre a produção de óleo de palma.

“O desmatamento na Amazônia, causa principal dos incêndios, traz riscos a essas empresas. Nos últimos anos, os grandes investidores internacionais colocaram essas questões no centro de sua pauta. Elas não estão mais restritas a debates entre ambientalistas”, completa Tim Steinweg, coordenador de pesquisa da Chain Reaction Research. Um exemplo dessa preocupação do mercado global foi dado em dezembro último pela Nestlé, quando suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da Amazônia.

unnamed (9)Desmatamento de janeiro a julho de 2019 e alertas de incêndio em agosto de 2019 – área agrícola do Estado da Amazônia, Brasil. Fonte: dados da NASA VIIRS, alertas Deter e imagens de satélite do Google

Reportagem recente do jornal The Guardian revelou que bancos e outras instituições financeiras britânicas investiram nos últimos anos mais de US﹩ 2 bilhões nas principais empresas brasileiras de carne que atuam na Amazônia. Por conta do desmatamento, estudam reconsiderar seu apoio se essas companhias não mostrarem progressos no rastreamento de seus fornecedores. Gigantes do setor de alimentos manifestam a mesma preocupação. Em dezembro, a Nestlé suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da floresta.

Estudiosos avaliam que o setor de pecuária traz hoje mais riscos para a Amazônia do que a indústria da soja, que hoje ameaça mais o Cerrado. A imagem dos produtores do grão melhorou a partir do pacto, batizado de “moratória da soja”, firmado em 2006 com entidades ambientalistas, pelo qual se comprometeram a não comprar a commodity de áreas desmatadas no bioma. O acordo contou depois com o apoio do governo federal.

O setor pecuário carrega irregularidades dos mais variados tipos. Entre elas, animais que nascem em áreas desmatadas, muitas vezes embargadas pelo Ibama, e que são vendidos para pequenos e médios produtores. Depois da engorda, são comprados legalmente pelos grandes frigoríficos. Os sistemas de controle não conseguem pegar o vício de origem. “É uma cadeia muito complexa. Não existe um sistema que permita rastrear cada animal desde o início, e os frigoríficos não parecem interessados em implantar um monitoramento desse tipo”, lamenta Ritaumaria Pereira, diretora executiva do Imazon. “Há um ditado na região que traduz essa triste realidade. Boi não morre de velho na Amazônia. Sempre vai ter alguém para comprá-lo, independentemente de onde venha”, afirma a engenheira agrônoma.

Menos floresta, menos chuva

Para muitos especialistas, falta visão estratégica ao governo brasileiro e aos produtores rurais em relação à Amazônia, o principal ativo ambiental do país. Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), lembra que a floresta funciona como uma espécie de bomba de vapor d’água que, transportado por meio dos chamados rios voadores, irriga o Centro-Oeste e o Centro-Sul do Brasil. A destruição coloca em risco esse sistema de irrigação. “Ao desmatar, é como se fizéssemos um furo nesse regador, que garante o sucesso de boa parte da produção agrícola brasileira.” De acordo com estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) e do IBGE, 92,5% da água consumida pela agricultura brasileira vêm das chuvas. Apenas 7,5% são de sistemas de irrigação.

Os riscos à floresta amazônica são reais, de acordo os cientistas. O bioma já perdeu cerca de 17% (dados de 2017) de sua vegetação nativa. Se esse percentual superar 20%/25%, corre grande risco de entrar em um processo de savanização, segundo estudo publicado há dois anos pelo pesquisador brasileiro Carlos Nobre e pelo americano Thomas Lovejoy. Na década anterior, os mesmos pesquisadores falavam que o tipping point (ponto sem volta) aconteceria quando fossem atingidos os 40% de destruição. Refizeram os cálculos em razão da aliança mortal entre desmatamento, incêndios e mudança climática.

Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que não é preciso destruir nenhum hectare a mais para aumentar a produção agropecuária. Bastaria aproveitar os 12 milhões de hectares que foram desmatados e abandonados na Amazônia, áreas que poderiam ser recuperadas. “Você tem muitas áreas que estão abertas e, com incentivo adequado, poderiam ser exploradas”, afirma Paulo Moutinho, do IPAM. Ritaumaria Pereira, do Imazon, concorda: “Além da regeneração dessas áreas, precisamos de políticas públicas para incentivar o aumento da produtividade da pecuária, que hoje é muito baixa, cerca de um animal por hectare”.

O que dizem as empresas

Em nota, a JBS reclama do fato de não ter sido procurada pelos pesquisadores da Chain Reaction Research. A empresa questiona os critérios técnicos do estudo e diz adotar uma abordagem de tolerância zero em relação ao desmatamento em toda a sua cadeia de fornecimento. “Todos as fazendas fornecedoras de gado da JBS na região amazônica são monitoradas por meio de imagens de satélite e dados georreferenciados da propriedade. Portanto, fornecedores que utilizaram fogo para desmatar a floresta serão detectados pelo sistema de monitoramento da Companhia e bloqueados para compra de gado.”

unnamed (12)Alertas de incêndio dentro da zona potencial de compra da JBS em Alta Floresta, Mato Grosso, 2019. Fonte: imagens de satélite do Google, IMAZON, dados de incêndio da NASA VIIRS

A Marfrig afirmou que adota “uma rígida política de compra de animais, bem como um protocolo com critérios e procedimentos que são pré-requisitos para a homologação de fornecedores”. A empresa diz manter uma plataforma que monitora, por meio de um sistema de georreferenciamento e geomonitoramento socioambientais, todos os seus fornecedores. A ferramenta cruza os dados georreferenciados e documentos das fazendas com informações públicas oficiais para identificar potenciais não conformidades, “coibindo que a matéria-prima seja oriunda de fazendas que produzam carne em áreas de desmatamento ou embargadas, sobrepostas a unidades de conservação ou terras indígenas, ou mesmo que utilizem ‘trabalho escravo”’.

A Bunge disse que está comprometida com uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento e que condena qualquer uso do fogo para o desflorestamento. “A empresa mantém rigoroso controle sobre critérios socioambientais em suas operações em todo o Brasil. As ações incluem verificações diárias às listas públicas de não conformidades do Ibama e do Ministério do Trabalho e Emprego, além da checagem de outros requisitos legais, e bloqueio imediato de qualquer negociação comercial, em caso de desconformidade”. De acordo com a nota, “a empresa também é signatária da Moratória da Soja, compromisso reconhecido mundialmente que proíbe a compra de soja cultivada em áreas desmatadas após 2008 na Amazônia, e do Protocolo Verde de Grãos do Pará, uma iniciativa conjunta com o Ministério Público Federal (MPF), que estabelece critérios para transações comerciais com foco em evitar a comercialização de grãos oriundos de áreas ilegalmente desmatadas”.

A Cargill afirmou que está comprometida com a proteção das florestas e da vegetação nativa de maneiras que sejam economicamente viáveis para os agricultores. “O desmatamento ilegal e incêndios deliberados na Amazônia são inaceitáveis ​​e, juntamente com outras empresas do setor, continuaremos a fazer parcerias com comunidades locais, agricultores, governos, ONGs e nossos clientes para encontrarmos soluções que preservem esse importante ecossistema”, afirma a nota da Cargill. “Fazemos parte da Moratória da Soja na Amazônia desde 2006, quando assinamos um acordo voluntário com organizações industriais e ambientais de não comprar soja de terras que foram desmatadas após 2008 neste bioma. Esse esforço contribuiu para o declínio de 80% no desmatamento na Amazônia na última década e foi estendido indefinidamente em 2016.”

* Marcelo Coppola é jornalista e foi editor na revista Época. Trabalhou também no jornal Folha de S. Paulo e na revista Veja.