Jessé de Souza e o racismo brasileiro: quando a classe média vira explicação para o que deveria ser explicado

A recente exposição das ideias do sociólogo Jessé de Souza sobre racismo e classe média trouxe novamente ao debate público algumas das teses que ele vem desenvolvendo sobre a estrutura social brasileira. Entre suas afirmações mais provocativas está a caracterização da classe média branca como uma espécie de “reservatório seminal” do racismo brasileiro. Essa interpretação aparece associada a uma determinada leitura da imigração europeia ocorrida principalmente entre 1880 e 1930: milhões de italianos, alemães, portugueses, espanhóis e outros europeus teriam se estabelecido sobretudo em São Paulo e no Sul, prosperado economicamente e construído uma identidade separada da maioria negra e mestiça do país. Na formulação de Jessé, esse processo teria contribuído para produzir uma população que continuaria a se imaginar como uma espécie de comunidade europeia inserida num país majoritariamente mestiço, utilizando essa suposta superioridade racial e cultural para legitimar privilégios e a exclusão das classes populares.

Há aspectos importantes nessa interpretação, especialmente quando ela chama atenção para o papel desempenhado pelo branqueamento e pelas representações de São Paulo e de partes da região Sul como espaços da modernidade, do trabalho e da racionalidade em oposição a um Brasil apresentado como atrasado, negro e mestiço. Também não há razão para minimizar o papel desempenhado por setores das classes médias na reprodução cotidiana do racismo, especialmente porque seus integrantes ocupam posições estratégicas nas escolas, universidades, empresas, meios de comunicação, burocracias públicas, profissões liberais e no sistema de Justiça. O problema começa quando essas observações, em si mesmas relevantes, são transformadas numa explicação mais geral para a persistência histórica do racismo brasileiro.

O primeiro obstáculo está no próprio conceito de classe média. Afinal, estamos falando de uma posição definida pela renda, pela propriedade, pela escolaridade, pela ocupação, pelos padrões de consumo ou pela posição nas relações de produção? Quando essas dimensões são comprimidas numa categoria aparentemente homogênea, a classe média corre o risco de funcionar mais como personagem sociológico do que como conceito capaz de explicar a complexidade das relações raciais brasileiras. Reconhecer que determinados setores da classe média reproduzem e institucionalizam práticas racistas é uma coisa; transformá-los no principal reservatório histórico do racismo brasileiro é algo inteiramente diferente.

O racismo brasileiro chegou muito antes dos imigrantes europeus

É justamente quando colocamos a cronologia no centro da análise que a explicação de Jessé começa a apresentar sua maior fragilidade. A escravização de africanos no Brasil começou ainda no século XVI e foi organizada durante mais de três séculos pelo sistema colonial português. A Coroa portuguesa, os comerciantes envolvidos no tráfico transatlântico, os grandes proprietários e, posteriormente, o próprio Estado imperial brasileiro construíram, administraram e protegeram uma ordem econômica e social baseada na transformação de seres humanos africanos e seus descendentes em propriedade. Não estamos falando de um elemento periférico da formação brasileira, mas de uma instituição que organizou durante séculos a produção, a propriedade, o trabalho, a riqueza e o poder.

Quando os grandes contingentes de imigrantes europeus chegaram ao Brasil no final do século XIX, portanto, encontraram uma sociedade que possuía mais de três séculos de experiência na produção institucional de hierarquias raciais. Mais do que isso, chegaram justamente quando as elites brasileiras enfrentavam um problema fundamental: como reorganizar uma sociedade profundamente racializada diante da crise e posterior abolição da escravidão? A imigração europeia não criou esse problema. Ela foi, em parte, uma das respostas encontradas pelas elites brasileiras para enfrentá-lo.

Esse ponto inverte significativamente a causalidade sugerida pela interpretação de Jessé. Os imigrantes europeus certamente puderam incorporar o racismo brasileiro, reproduzi-lo e posteriormente beneficiar-se dele. Mas a política de atração desses trabalhadores já estava inserida num projeto de reorganização racial da sociedade brasileira. As ideologias do branqueamento e as políticas que favoreceram a entrada de trabalhadores europeus no mercado de trabalho não nasceram espontaneamente das comunidades de imigrantes. Foram formuladas e implementadas por elites e instituições de um país cuja população negra saía de séculos de escravização sem terra, sem reparação e sem mecanismos capazes de garantir sua integração econômica em condições minimamente igualitárias.

A pergunta sociologicamente mais interessante, portanto, não é simplesmente por que os imigrantes europeus e seus descendentes passaram a se considerar superiores aos negros e mestiços. É necessário perguntar que estrutura histórica tornou socialmente possível, economicamente vantajoso e politicamente funcional que a branquitude fosse associada à superioridade e a negritude à inferioridade. Quando o problema é formulado dessa maneira, os imigrantes deixam de aparecer como causa primordial do racismo e passam a integrar um processo muito mais amplo de reorganização de uma estrutura racial que antecedia em séculos a sua chegada.

Frantz Fanon e a inversão da causalidade

É justamente nesse ponto que Frantz Fanon oferece uma chave particularmente poderosa para testar a explicação de Jessé de Souza. Em textos como Pele negra, máscaras brancas e “Racismo e cultura”, Fanon recusou compreender o racismo simplesmente como preconceito, ignorância ou falha psicológica de determinados indivíduos. Para ele, a inferiorização racial precisa ser compreendida no interior de uma estrutura colonial de dominação na qual exploração econômica, violência política, cultura e produção de subjetividades se articulam.

Essa perspectiva permite perceber um problema fundamental na explicação que localiza o racismo primordialmente na mentalidade de descendentes de europeus que passaram a imaginar-se superiores à população negra e mestiça. Frantz Fanon não negaria a existência dessa consciência de superioridade; pelo contrário, dedicou boa parte de sua obra a demonstrar como a ordem colonial produz subjetividades racializadas. O ponto decisivo é outro: a sensação de superioridade do branco não constitui a causa original da estrutura racial, mas é também um dos seus produtos históricos. Uma ordem baseada na dominação e na exploração produz representações que naturalizam essa própria ordem, fazendo a posição dominante aparecer como expressão de mérito, civilização, inteligência ou superioridade cultural.

A crítica a Jessé pode então ser formulada de maneira mais precisa.  A fraqueza do argumento de Jessé não está em reconhecer a capacidade da classe média branca de reproduzir o racismo, mas em correr o risco de transformar um agente historicamente situado da reprodução do racismo numa explicação para sua própria existência. O descendente de europeu que se imagina culturalmente superior ao negro ou ao mestiço constitui certamente um fenômeno sociológico relevante, mas sua existência exige uma explicação anterior: por que a branquitude se tornou uma posição socialmente valorizada e por que a negritude foi historicamente associada ao trabalho compulsório, à pobreza e à inferioridade?

É aí que Fanon ajuda a inverter a cadeia causal. Não foi uma suposta superioridade cultural dos descendentes de europeus que produziu originalmente a hierarquia racial brasileira.  Uma sociedade constituída pela escravidão, pelo colonialismo e pela exploração racializada do trabalho é que tornou a branquitude uma posição socialmente valorizada e permitiu posteriormente que determinados grupos convertessem essa posição em sentimento de superioridade. A ideologia racial não antecede simplesmente a estrutura de dominação: ela é produzida por essa estrutura, naturaliza-a e, uma vez constituída, passa também a contribuir decisivamente para reproduzi-la.

Adolph Reed e o perigo de transformar raça em classe

A contribuição de Adolph Reed Jr. permite acrescentar outra dimensão crítica à formulação de Jessé. Reed parte de uma tradição materialista que recusa tratar “raça” como uma entidade dotada de capacidade explicativa independente das relações históricas que a produziram. Para ele, raça deve ser compreendida como uma forma historicamente específica de ideologia de hierarquia atributiva: uma maneira de transformar desigualdades produzidas social e politicamente em características aparentemente naturais dos grupos humanos. Em sociedades capitalistas, essa naturalização pode contribuir para obscurecer as relações concretas de classe que produzem e reproduzem desigualdades.

A objeção de Reed atingiria um ponto particularmente vulnerável da interpretação de Jessé. Ao aproximar descendência europeia, branquitude, prosperidade e pertencimento à classe média, Jessé corre o risco de fazer uma categoria racial ou étnica desempenhar o trabalho analítico que deveria caber à investigação da estrutura de classes. A pergunta deixa de ser como determinados trabalhadores europeus e seus descendentes ocuparam posições distintas numa economia capitalista em transformação e passa a sugerir uma trajetória quase contínua entre imigrante europeu, branco, ascensão econômica e classe média.

Mas essas categorias não são equivalentes. Branco não é sinônimo de classe média, assim como negro não é sinônimo de classe trabalhadora ou pobre. Reed insiste precisamente na necessidade de reconhecer diferenciações de classe existentes no interior dos próprios grupos racialmente definidos. A população negra, por exemplo, não possui interesses econômicos homogêneos simplesmente porque compartilha uma classificação racial. Empresários negros, profissionais negros de classe média e trabalhadores negros podem experimentar formas de discriminação racial e simultaneamente ocupar posições radicalmente diferentes na estrutura de classes, com interesses materiais que podem inclusive entrar em conflito.

Aplicada à população branca, a mesma lógica torna ainda mais problemática a generalização sobre os descendentes dos imigrantes europeus. Italianos, portugueses, espanhóis, alemães, poloneses e outros grupos chegaram ao Brasil em condições profundamente diferentes e experimentaram trajetórias igualmente diversas. Alguns conseguiram acumular propriedade e ascender socialmente; outros permaneceram trabalhadores assalariados, pequenos agricultores, trabalhadores rurais ou integrantes dos setores populares urbanos. Transformar a ascendência europeia numa espécie de antecâmara sociológica da classe média significa apagar justamente essas diferenciações.

Aqui surge uma ironia importante na própria construção teórica de Jessé. Se uma parcela dos descendentes desses europeus permanece nos estratos populares e poderia ser incluída naquilo que ele próprio denominou “ralé brasileira”, então sua ascendência europeia evidentemente não explica sua posição de classe. E se existe, simultaneamente, um componente negro crescente dentro das classes médias brasileiras, a correspondência entre raça, origem étnica e classe torna-se ainda menos sustentável. O problema não é negar que a branquitude possa proporcionar vantagens numa sociedade racializada, mas reconhecer que vantagem racial e posição de classe são dimensões distintas da realidade social, ainda que possam historicamente combinar-se e reforçar-se.

Uma experiência familiar que escapa ao esquema

Minha própria história familiar oferece um pequeno contraponto empírico a essa generalização. Como descendente de poloneses, vivenciei pessoalmente como a inserção historicamente subordinada de parte dessa comunidade deixou marcas que atravessaram gerações, mantendo muitos de seus descendentes fora daquilo que Jessé denomina classe média. Ser socialmente identificado como branco podia proporcionar vantagens evidentes numa sociedade racializada, mas jamais significou pertencimento automático à classe média, muito menos aos seus estratos superiores.

É justamente aqui que Reed acrescenta precisão ao argumento. A questão não consiste em negar o significado social da branquitude, mas em recusar que dela sejam deduzidas automaticamente posição econômica, consciência política e interesses de classe. Um trabalhador rural branco descendente de poloneses ou italianos podia ocupar uma posição profundamente subordinada na estrutura econômica e, ao mesmo tempo, beneficiar-se de uma hierarquia racial que colocava o trabalhador negro numa posição ainda mais vulnerável. Não há qualquer contradição nisso. O que existe são determinações diferentes que precisam ser reconstruídas historicamente, em vez de fundidas numa categoria social aparentemente homogênea.

Florestan Fernandes fez uma pergunta mais difícil

É precisamente aqui que a tentativa de escapar das interpretações clássicas sobre as relações raciais brasileiras parece conduzir Jessé a uma explicação menos sofisticada do que aquela apresentada há mais de seis décadas por Florestan Fernandes. Em A integração do negro na sociedade de classes, Florestan não procurou simplesmente identificar quem era racista ou em qual grupo social o preconceito aparecia com maior intensidade. Sua pergunta era muito mais difícil: o que acontece com uma população escravizada quando a escravidão é juridicamente abolida sem que desapareçam as estruturas econômicas e sociais responsáveis por sua subalternização?

A Abolição de 1888 libertou juridicamente os escravizados, mas não distribuiu terras, não democratizou a propriedade, não criou mecanismos de reparação e tampouco garantiu condições materiais que permitissem à população negra ingressar em igualdade de condições na nova ordem econômica. O antigo escravizado foi formalmente transformado em trabalhador livre sem receber os meios necessários para competir numa sociedade de classes que começava a se consolidar justamente no momento em que o Estado e as elites incentivavam a chegada de trabalhadores europeus.

A diferença teórica é enorme. Enquanto uma explicação centrada na classe média procura localizar o racismo nas disposições culturais de determinado grupo social, Florestan nos obriga a perguntar como o racismo foi incorporado às estruturas da sociedade de classes. A questão deixa de ser apenas quem possui preconceitos contra negros e passa a ser como propriedade, educação, mercado de trabalho, habitação, renda e poder foram organizados de maneira a reproduzir desigualdades racialmente constituídas.

Fanon, Reed e Florestan aproximam-se aqui por caminhos distintos. Fanon permite compreender como relações de dominação racial produzem subjetividades que posteriormente ajudam a legitimá-las; Florestan permite acompanhar como desigualdades constituídas no escravismo atravessam a Abolição e são reorganizadas dentro da sociedade capitalista brasileira; e Reed acrescenta uma advertência indispensável: não transformar os próprios grupos racialmente constituídos em sujeitos homogêneos, apagando as diferenciações de classe existentes dentro deles.

Escravidão, racismo e capitalismo mundial

Há ainda uma dimensão mais ampla que praticamente desaparece quando a explicação se concentra na identidade cultural de descendentes de imigrantes europeus. A escravidão brasileira nunca foi apenas um fenômeno brasileiro. Açúcar, algodão, café, ouro e outras mercadorias produzidas por diferentes formas de trabalho compulsório estavam profundamente integrados aos circuitos internacionais de comércio e acumulação. A exploração extrema dos trabalhadores escravizados nas Américas participou da expansão comercial europeia e das transformações históricas que acompanharam a formação do capitalismo industrial.

É nesse ponto que as contribuições de Eric Williams e Ruy Mauro Marini permitem ampliar decisivamente a escala da análise. Williams demonstrou a relação histórica entre escravidão, comércio atlântico e desenvolvimento do capitalismo britânico, enquanto Marini, em sua clássica Dialética da dependência, procurou demonstrar como a inserção subordinada da América Latina na economia mundial contribuiu para sustentar processos de acumulação nos países capitalistas centrais. A articulação dessas perspectivas permite perceber que a escravização de africanos não pode ser compreendida apenas como resultado de preconceitos culturais: ela constituiu um mecanismo extraordinariamente eficiente de organização da exploração do trabalho e da produção de riqueza no processo histórico de expansão do capitalismo.

Fanon acrescenta a esse quadro a compreensão de como relações de dominação produzem também um universo simbólico capaz de naturalizá-las. Reed, por sua vez, introduz uma cautela adicional: denominar essas relações de “racistas” não pode substituir a identificação dos mecanismos concretos pelos quais elas funcionam. Em sua crítica ao reducionismo racial, Reed insiste que constatar uma disparidade entre grupos não equivale a explicar sua produção. É necessário investigar instituições, relações de trabalho, políticas estatais, propriedade, distribuição de recursos e conflitos de classe. Caso contrário, “racismo” pode terminar funcionando como um nome atribuído ao fenômeno que deveria ser explicado.

Essa advertência é particularmente importante porque também impede que a crítica a Jessé caia no extremo oposto. Não basta substituir a afirmação de que “a classe média branca é racista” pela afirmação de que “o racismo brasileiro é estrutural”. Qual estrutura? Quais instituições? Quais relações de propriedade? Quais mecanismos do mercado de trabalho? Quais políticas estatais? Quem obtém vantagens materiais e quem suporta os custos? Sem responder a essas perguntas, a palavra “estrutural” corre o risco de adquirir a mesma função retórica que estamos criticando na categoria excessivamente genérica de classe média.

Duas reduções que precisam ser evitadas

A combinação entre Fanon e Reed permite, portanto, uma crítica particularmente produtiva à formulação de Jessé. Fanon impede que transformemos a consciência de superioridade branca na causa original da ordem racial, mostrando que essa subjetividade também precisa ser explicada como produto de relações históricas de dominação. Reed, por outro lado, impede que a crítica do racismo transforme raça numa explicação totalizante capaz de substituir a análise das relações de classe.

Isso significa que o problema não pode ser resolvido escolhendo simplesmente entre raça e classe. A questão é reconstruir historicamente como relações de classe e classificações raciais se combinaram em circunstâncias determinadas, sem pressupor que uma pessoa branca pertença necessariamente às classes dominantes ou médias e sem imaginar que negros constituam um bloco social economicamente homogêneo.

É justamente por isso que a presença simultânea de milhões de brancos pobres e de uma crescente classe média negra representa um problema importante para o esquema de Jessé. Ela não demonstra que o racismo desapareceu, mas mostra que as posições raciais e de classe não coincidem perfeitamente. Uma pessoa negra pode ascender socialmente e continuar enfrentando discriminação racial; um trabalhador branco pode beneficiar-se relativamente de sua classificação racial e continuar submetido à exploração econômica. Uma análise materialista precisa ser capaz de compreender simultaneamente essas duas realidades.

De “europeus na África” a uma questão mais incômoda

A imagem de descendentes de europeus imaginando-se como “europeus vivendo num contexto africano” é sociologicamente sugestiva porque captura uma forma possível de consciência racial e regional. Mas ela descreve melhor uma ideologia de legitimação do que a estrutura histórica que tornou essa ideologia possível. Dizer que determinados setores paulistas ou sulistas passaram a imaginar seus espaços como uma espécie de Europa moderna cercada por um Brasil atrasado pode ajudar a compreender determinadas formas de regionalismo e manifestações de superioridade diante do Brasil negro, mestiço e nordestino. Não explica, entretanto, por que negros já ocupavam posições subalternas muito antes que milhões de italianos, espanhóis, alemães ou poloneses desembarcassem no país.

Fanon permitiria interpretar essa fantasia de superioridade como produto de uma ordem racial. Reed acrescentaria uma pergunta incômoda: quais interesses e relações materiais essa representação ajuda a naturalizar? Afinal, para Reed, uma das funções históricas das ideologias raciais consiste justamente em fazer hierarquias socialmente produzidas aparecerem como consequência de atributos naturais ou culturais dos próprios grupos que ocupam posições diferentes.

A causalidade precisa, portanto, ser invertida. Não foram primordialmente os imigrantes europeus que produziram uma sociedade na qual ser branco representava uma vantagem. Eles chegaram a uma sociedade que já havia produzido historicamente a branquitude como posição privilegiada em relação à população negra escravizada. Parte deles e de seus descendentes conseguiu posteriormente converter essa vantagem racial relativa em mobilidade econômica, educacional e social. Outros permaneceram pobres. O fato decisivo é que ambas as trajetórias foram produzidas dentro de uma estrutura que antecedia sua chegada.

Onde está, afinal, o “reservatório” do racismo brasileiro?

Se quisermos preservar a metáfora utilizada por Jessé, talvez seja necessário deslocar radicalmente a localização desse “reservatório”. Ele dificilmente pode ser encontrado numa classe média descendente dos imigrantes europeus chegados ao Brasil no final do século XIX, pois começou a ser construído séculos antes. Seu conteúdo histórico está na escravização de africanos e seus descendentes, na concentração da propriedade da terra, na ausência de reparação após a Abolição, na formação racializada do mercado de trabalho, na segregação das cidades, nas desigualdades educacionais, na violência estatal e nos mecanismos pelos quais propriedade, riqueza, pobreza e oportunidades são transmitidas entre gerações.

Mas Reed obriga a acrescentar uma qualificação importante a essa formulação. Não basta declarar que tudo isso constitui manifestação de um “racismo estrutural” abstrato e autônomo. É necessário mostrar concretamente como essas desigualdades foram produzidas e transformadas, quais relações econômicas as sustentam e como políticas aparentemente universais podem beneficiar ou prejudicar diferencialmente grupos historicamente constituídos. Para Reed, tratar racismo como uma força independente da economia política pode terminar desistoricizando aquilo que uma análise materialista deveria justamente explicar historicamente.

Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe

Talvez Reed permita identificar de maneira ainda mais precisa o paradoxo central da explicação de Jessé de Souza. Jessé começa falando de classe, mas termina racializando a própria classe. A classe média aparece progressivamente como branca; sua branquitude é relacionada à descendência europeia; essa descendência é associada à prosperidade; e dessa combinação é deduzida uma consciência de superioridade que explicaria sua disposição racista.

Mas uma análise materialista precisaria percorrer quase exatamente o caminho inverso. Seria necessário investigar como propriedade, trabalho, educação, políticas migratórias, acesso à terra, Estado e mercado produziram trajetórias diferenciadas entre negros, imigrantes europeus e seus descendentes e, somente então, analisar como classificações raciais interferiram nesses processos e ajudaram a legitimá-los.

É justamente nesse ponto que a combinação de Fanon, Reed, Florestan Fernandes, Eric Williams e Ruy Mauro Marini oferece uma alternativa teoricamente mais poderosa. Williams permite situar a escravidão atlântica nos processos de acumulação associados à expansão do capitalismo; Fanon mostra como colonialismo e exploração produzem hierarquias raciais e subjetividades capazes de naturalizá-las; Florestan acompanha a reorganização dessas desigualdades na passagem brasileira do escravismo para a sociedade de classes; Marini recoloca essa sociedade dentro de uma economia mundial hierarquizada e dependente; e Reed impede que, depois de reconstruirmos toda essa história, voltemos a transformar raça numa entidade autônoma ou grupos racialmente definidos em sujeitos de classe homogêneos.

Essas perspectivas não são idênticas e existem tensões importantes entre elas, especialmente porque Reed provavelmente seria mais crítico do que Fanon e Florestan em relação a certas utilizações contemporâneas do conceito de racismo estrutural. Essa tensão, entretanto, fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo, pois obriga a análise a especificar mecanismos e relações causais em vez de simplesmente substituir uma palavra totalizante por outra.

É perfeitamente legítimo investigar como setores brancos das classes médias reproduzem o racismo, transformam privilégios históricos em virtudes imaginárias e utilizam instituições para conservar posições sociais. O problema surge quando essa constatação é elevada à condição de explicação histórica geral. Nesse movimento, aquilo que deveria ser explicado — como determinados descendentes de imigrantes puderam converter uma posição racial relativamente privilegiada em vantagens sociais numa sociedade pós-escravista, enquanto outros descendentes dos mesmos fluxos migratórios permaneceram entre os trabalhadores pobres — acaba sendo apresentado como a própria causa do racismo.

Talvez seja esse o limite mais importante do esquema de Jessé de Souza. Ao procurar explicar o racismo brasileiro pela classe média branca e sua genealogia imigrante, ele concentra a análise num dos espaços contemporâneos de sua reprodução e perde de vista as relações históricas que produziram tanto as classificações raciais quanto as próprias posições de classe que pretende explicar. Fanon mostra por que a superioridade branca precisa ser explicada historicamente; Reed mostra por que branquitude não pode ser convertida em posição de classe; Florestan demonstra como as desigualdades raciais foram reorganizadas depois da escravidão; Williams conecta a exploração escravista aos circuitos internacionais de acumulação; e Marini situa essa formação social dentro da reprodução desigual e dependente do capitalismo mundial.

Ao tentar escapar das interpretações clássicas sobre a questão racial brasileira, Jessé termina, assim, oferecendo uma explicação que começa tarde demais na história e homogeneíza excessivamente os sujeitos que pretende explicar. O problema não está em reconhecer o racismo da classe média branca. Está em confundir um possível agente contemporâneo de sua reprodução com a estrutura histórica que tornou esse racismo possível.

Justificando a morte : a cor e as ações de Cláudio Castro na Operação Contenção

Por Luciane Soares da Silva

Florestan Fernandes fez muito pelo Brasil. Além de uma obra fundamental para compreender o país, nos apresentou uma frase aparentemente fácil mas extremamente profunda; ‘o Brasil tem preconceito de ter preconceito”. Vários textos contemporâneos trataram a questão explicitando um país racista sem pessoas racistas. Não leremos em placas a proibição de entrada em uma barbearia, um shopping ou no Copacabana Palace. O professor Kabengele Munanga afirmava que nossa forma de resolver a questão racial, a engenharia de nosso racismo. era mais eficaz (e um tanto mais perversa) se comparada a outros países. E esta seria nossa marca, a  disseminação ideológica da impossibilidade de ser este um país racista uma vez que a miscigenação teria abarcado todas as relações sociais e íntimas. A acomodação dos opostos nas formas mais próximas de relação que se estabeleciam na Casa Grande. E eis aí uma das teses mais interessantes e controversas de Gilberto Freire: este encontro que antes de ser separação era concertação, afeto. Contribuição da cultura africana ao Brasil “amolengando” os conflitos nas formas de apadrinhamento e miscigenação populacional.

Mas nossa construção imagética sobre um país sem racistas nos apresenta com muita frequência imagens que fundem cor e violência. Joel Zito trabalha esta ideia em seu livro e depois documentário, A negação de negro na telenovela. Mas qual a importância das imagens?

Quem já pisou em um museu com quadros africanos ou instrumentos de tortura usados na escravidão deve ter recebido imediatamente um tipo de estímulo. De pavor, dor, lamento ou raiva. Quase todos que leem este texto devem ter crescido com as representações de corpos negros sujeitos a condição do escravo ou do subalterno, ladrão, alcóolatra, boêmio, sensual, mutilado física ou psicologicamente.

Antônio Sérgio Guimarães ao discutir classe e raça, no livro Classes, Raças e Democracia, observa que no Brasil se tivemos certa dificuldade no tratamento de nossa condição de operário, conhecemos desde sempre o tratamento dispensado aos escravizados. E minha interpretação seria de que esta lembrança nos diz algo sobre continuidades históricas (o pensamento social brasileiro sempre nos lembra de nossa ausência de um processo revolucionário ( e isto merece um texto único ).

Seguindo este raciocínio não é  estranha a afirmação da existência  desta longa duração do tratamento dispensado aos descendentes de escravos quando observamos o tratamento dispensado aos moradores de favela “quase todos pretos, ou quase pretos de tão pobres”. Seguimos um debate sobre classe e raça que tem rendido importantes contribuições teóricas. E possibilitado que se avance na política de ações afirmativas, por exemplo

Durante a pesquisa nas favelas da Maré era preciso combinar um dia para poder entrar no território. Crianças sem aula por 42 dias, pessoas buscando medicação e calmantes para sobreviver à experiência do “caveirão do ar” aterrorizando moradores  frequentemente, pessoas diariamente acossadas pelas forças policiais. Com medo contínuo e aquisição de trauma coletivo semelhante a populações expostas à guerra.

Os dados apresentados sobre aceitação da operação , dizem muitas coisas. Embora façam parte de um momento dramático e de alta pressão emocional, no passado recente já houve aceitação do uso de blindados, de outras operações como a do Jacarezinho. Trago uma única variável: a cor de quem é executado. E devemos observar ainda os casos de execuções com sinais de tortura. Seria errado dizer que é isto que a população fluminense está aprovando? Execuções com sinais de tortura de pessoas que sequer foram identificadas?

Mas gostaria de estabelecer aqui uma questão sobre metodologia de pesquisa (é o que fazemos, é o nosso ofício e isto não desqualifica pesquisadores em segurança pública). As pesquisas que sempre buscam seu grau de cientificidade em bases quantitativas sempre me lembram da limitação desta técnica. Especialmente com determinados grupos. Entre eles, os moradores de favela. Vamos fazer um exercício fácil. Mudar as questões e pensar em outros resultados. Se você perguntasse sobre o grau de confiança na polícia aos mesmos grupos pesquisados no dia 10 de outubro? Se você perguntasse sobre tapas na cara e outras formas de humilhação ? Se antes da operação, você perguntasse o que acham do governador ? E qual o peso das respostas de católicos e evangélicos ? E se você morasse em área de milícia, poderia responder o que pensa ? Já fiz entrevistas em favelas nas quais a pessoa só respondia com a cabeça porque ela sabia exatamente onde estavam as facções durante a UPP. Conclusão: você pode usar a estatística para obter resultados diferentes com o mesmo grupo. Depende de quando, como e o quê deseja obter como resposta.

Existem aqueles que se indignam com a injustiça representada pelas 121 mortes até aqui. E em minha trajetória como pesquisadora eu estaria neste grupo. Mas ao seguir metodologicamente o exercício de permanecer dentro das favelas e seguir cotidianamente aprofundando os diálogos, passei da relação formal de pesquisadora  à experiência de imersão cotidiana junto aos moradores. Então tenho meus afetos a defendo que esta não é a variável que diminui nossa objetividade no fazer científico. A postura que exigiram de minha geração sempre retomava o afastamento como técnica de pesquisa para que não fosse perdida a objetividade. Os moradores de favela que entram na Universidade e que pretendo formar não serão menos capazes de manter a objetividade. Seria impossível aceitar que além de corpos estraçalhados, este exercício de manutenção da objetividade nos demandasse esquecer cada luta desde o Brasil Colônia. Que não foi outra coisa se não uma luta contra o extermínio que segue historicamente o mesmo modus operandi.

Nosso sentimento, daqueles que estão lá, têm parentes, temem pela vida de policiais expostos a estes eventos passa por tristeza, indignação. Mas não perco a objetividade quando observo os olhos de uma mãe cujo filho foi desaparecido pelo Estado. Eu ouvi mais de 30 mulheres, ouvi longamente suas histórias de vida. E muito do que tinham em comum, era comum às suas mães e avós. Um século de subemprego, um século de ausência de direitos, um século de mortes.

Esta condição vergonhosa é nosso legado, nossa face global.  Nossa estatística diária de execuções e torturas. E acredito que ao fazer o registro deste cotidiano, ao ouvir estas histórias de vida, não deixamos de fazer uma ciência relevante. Que nunca permita o esquecimento da história. E que faça justiça aos mortos pelo Estado.


Luciane Soares da Silva é professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Florestan Fernandes, suas análises sobre a condição do negro na sociedade brasileira e a prisão por racismo de um dirigente do PT Campos

Florestan Fernandes: 100 anos de um pensador brasileiro – Associação dos  Amigos da ENFF

Não sei quantos leram algo sobre a vida do fundador da Sociologia brasileira, Florestan Fernandes, mas sua trajetória de vida parece ter saído de um daqueles livros do surrealismo, tamanha são suas façanhas ao longo de seus 75 anos de vida. No meu caso, li duas biografias excelentes e passei por uma parte pequena de sua obra para poder escrever um capítulo de livro sobre a relação de Florestan Fernandes com o MST.  Com base nas minhas leituras sobre Florestan, eu sempre digo para os meus alunos na Uenf que ele mereceria uma disciplina  só sobre ele para que os futuros cientistas sociais formados na instituição pudessem ter a devida apreciação não apenas pela grandeza da sua obra, mas pela sua incrível contribuição ao entendimento da persistência, resistência e generosidade que um cientista deve ter para ser realmente capaz de contribuir com a sociedade onde vive.

Uma das obras mais centrais para o entendimento da sociedade brasileira que foi escrita por Florestan Fernandes tem o título de “A integração do negro na sociedade de classes“,  e nela ele analisa a dificuldade histórica da integração do negro na sociedade capitalista brasileira após a abolição da escravatura. A tornar evidente, a persistência da desigualdade e a falta de preparação para uma nova realidade. Florestan demonstrou que, sem acesso a trabalho, prestígio e segurança em condições de igualdade, o negro foi relegado a posições inferiores, sem ter suas aptidões plenamente aproveitadas. Para ele, somente uma transformação social profunda e a luta pela superação das desigualdades de classe e raça poderiam garantir uma democracia real.  Como sabemos bem, a transformação social profunda mencionada por Florestan ainda está longe de acontecer neste país e, principalmente, nesta cidade.

Florestan Fernandes me veio à mente após pensar mais um pouco e conversar com quem entende do riscado sobre a prisão do dirigente do Partido dos Trabalhadores  de Campos,  Gilberto Gomes, pela acusação de racismo.  A primeira coisa que se pode dizer da acusação e prisão de Gilberto Gomes é que ele provavelmente passará à história como uma das primeiras pessoas a passarem por essa situação nesta pobre/rica cidade.  Eu diria que quem procurar os registros policiais e os processos em andamento no Fórum Juiza Maria Tereza Gusmão Andrade por motivo de racismo deverá sair com as mãos vazias. E sabemos que atos de racismo devem ocorrer todos os dias. 

Mas então por que essa situação envolvendo um dirigente do PT que estava participando do “Grito dos Excluídos” (e me digam qual é a cor da pele mais excluídos entre os excluídos desta cidade?). Me parece que ao colocar a pecha de racismo em quem objetivamente estava em uma manifestação que explicita a necessidade de transformação sugerida por Florestan Fernandes é uma das formas mais eficientes de se desviar a atenção da realidade que ele descreveu em 1964; justamente o ano em que sofremos um golpe civil-militar que foi desenhado para impedir qualquer avanço social em prol dos mais pobres no Brasil.  Aliás, há que se dizer que Florestan Fernandes foi um dos primeiros cassados pelo Ato Institucional nº 1 que foi implementado em 9 de abril de 1964, tendo sido expulso da sua cadeira de professor na Universidade de São Paulo (USP), lugar para o qual nunca mais voltou, mesmo depois do fim do regime militar.

Então, o que fica disso é que o enfrentamento do racismo e de suas repercussões no sistema político e social brasileiro passa por entender, ao meu ver, a que e a quem ele serve.. E no caso da prisão de Gilberto Gomes, me parece que serve mais a quem mandou reprimir, mais uma vez, o “Grito dos Excluídos”. 

Por mais Florestan Fernandes em nossas vidas, essa é a minha conclusão.

No boicote ao Carrefour, latifundiários mostram que carne vermelha vale muito mais do que o direito à vida dos negros brasileiros

carrefour morte

A última semana vem sendo marcada por um enfrentamento dos latifundiários exportadores de carne e a rede francesa Carrefour por conta de uma decisão de uma carta enviada pelo seu CEO, Alexandre Bompard à Federação Nacional dos Sindicatos dos Produtores Rurais (FNSEA), o maior sindicato de produtores rurais da França, onde ele declarou que “o Carrefour quer se unir ao setor agrícola e agora se compromete a não comercializar nenhuma carne do Mercosul””. 

Bastou essa declaração cujo efeito se restringe ao mercado francês para que os grandes frigoríficos brasileiros, liderados pelo latifundiário e dublê de ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarassem guerra ao Carrefour no Brasil, suspendendo a entrega de carnes situadas em território nacional. Na prática, esse gesto extremo causa danos limitados à rede francesa, mas pode criar embaraços sérios para os consumidores brasileiros já que com o desabastecimento deverá haver um aumento dos preços.

Agora o que me parece interessante lembrar é que não se viu nada parecido com isso quando seguranças do Carrefour mataram a pancadas João Alberto Silveira Freitas em uma das lojas da rede na cidade de Porto Alegre.  O detalhe é que João Alberto era um trabalhador negro que teve o azar de cair nas garras dos empregados de uma empresa de segurança terceirizada que prestava serviços ao Carrefour. 

Mas há que se lembrar que a rede Carrefour já se envolveu em inúmeros casos de violência contra pessoas negras no Brasil, sendo que o caso de João Alberto foi apenas o que teve um desfecho mais extremo. Entretanto, nem antes, nem depois da morte de João Alberto, não se viu qualquer reação dos fornecedores de carne às lojas da rede francesa no Brasil que, lembremos, também detém o controle do Atacadão e do Sam´s Club.

Moral da história: para o latifúndio agro-exportador brasileiro, liderado pelas empresas de carne, mais vale defender o naco de 0,5% que a França representa nas vendas internacionais de carne brasileira do que o direito à vida dos trabalhadores negros que se dirigem para comprar nas lojas do Carrefour.

Faculdades de Direito no Brasil: racismo e a reprodução de preconceitos

JOGDS RACISTAS

Coletivos Negros fazem intervenção no Centro Acadêmico de Direito na PUC-Rio – Mariana Carlou

Por Luciane Soares da Silva*

Trabalhei na Faculdade Nacional de Direito (FND) da Universidade Federal do Rio de Janeiro entre 2006 e 2008. Ministrava Antropologia Jurídica, Sociologia e uma disciplina de final de curso para composição da monografia. Desta instituição trago os melhores amigos que fiz entre meus alunos. Hoje, somos colegas de profissão e muitos deles atuam na área de direitos humanos ou levaram para suas áreas de atuação nossos campos de pesquisa na Central do Brasil, em presídios, delegacias, postos do INSS, favelas. Ao longo dos anos a disciplina de antropologia foi ganhando uma centralidade inesperada na FND. Lembro de entrar uma manhã, por volta das 7:30 em um dos auditórios e encontrar mais de 70 alunos sentados esperando o início da aula. Achei que haviam errado e aguardavam direito desportivo. Mas o fato é que fui percebendo que o currículo da Nacional era tão engessado que a possibilidade de sair para realizar entrevistas, descrições, interações com outros espaços, atraía aquela parcela do alunado. Muitos de meus colegas eram juízes, profissionais renomados que participavam diretamente do poder judiciário. Os currículos não tratavam de temas como patrimonialismo, questões sobre direito dos povos originários, pensamento social brasileiro.

Durante minha passagem pela Nacional, lemos Os donos do poder de Raymundo Faoro, o Espetáculo das Raças de Lilian Schwartz, Sociedade contra o Estado de Pierre Clastres. Lemos Geertz, Foucault e outros autores que olhavam o direito como objeto e desconstruíam certa sacralidade do poder que ele emana no Brasil. Compreender o lugar de um “doutor advogado” no século XIX em um país de analfabetos e mestiços ampliou de forma crítica a formação de meus alunos. E não agradou muito os poderes estabelecidos naquela instituição que já abrigou o Senado. Ainda hoje encontro meus alunos e me parece que seguem alinhados com esta perspectiva crítica. Mas naquela época tive pouquíssimos alunos negros e a UFRJ não havia adotado ações afirmativas. Os currículos das faculdades de direito e a cultura jurídica deviam mudar. Mas é o acesso ao espaço de formação que incomoda alunos como demonstrado nos Jogos Jurídicos Estaduais ocorridos em Americana no último fim de semana.

Chamar alunos de pobre e cotistas diz muito sobre o problema da formação e da prática jurídica no Brasil. Tenho produzido pesquisas sobre a relação entre o Judiciário e questões raciais e certamente esta é uma das esferas mais resistentes a mudança quanto ao tema. A jurisprudência não avançou, os casos de racismo são tipificados como “sensação subjetiva” do autor. Até mesmo a expressão “filho da puta” recebe um atenuante no qual o operador jurídico alega que “não há uma ofensa direta à mãe do insultado e sim o uso de uma expressão comum do cotidiano”. O judiciário faz uso de livros como Casa Grande & Senzala para apoiar o argumento de que não existe racismo no Brasil. Principalmente se o caso envolve a questão de territórios negros como a luta pelo reconhecimento de quilombos no país. As questões do cotidiano são tratadas como mal entendido. Portas giratórias que sempre travam com as mesmas pessoas só recebem alguma indenização se codificadas pelo Código do Consumidor. E quando temos uma acusação aos bancos, o valor pago é ínfimo, individualizado. Redes de supermercado assassinam pessoas negras e seguem fazendo isto.

Mesmo com manifestações, não raras vezes é uma empresa terceirizada que assume o ônus da ação e a indenização é muito menor. Como uma camareira chamada de “escrava” por turistas americanos pode acessar a justiça? Sem que seja despedida? Com que testemunhas ela contaria? O que pode fazer um motorista de ônibus ao ouvir de um passageiro que “deveria voltar para a senzala”? Em meu mestrado “O cotidiano das relações inter-raciais, o processo de criminalização dos atos decorrentes do preconceito de raça e cor no Rio Grande do Sul (1998-2001) “ analisei 531 casos. Eram boletins de ocorrência que desvelaram a centralidade de categoria “raça” nas interações mais simples do cotidiano. No trânsito, comércio, clubes, Universidades. Mas o resultado fundamental desta pesquisa é que mais de 50% dos casos ocorreram entre pessoas que interagiam cotidianamente em relações de trabalho e vizinhança. Uma doutrina positivista e pouco dinâmica como a jurídica ainda não incorporou estas questões. Não falta materialidade. É uma questão ideológica de classe e raça. Ou no caso brasileiro de casta e raça. Não deveria ser estranho que os estudantes mobilizassem estes insultos.

O uso do termo “cotista” faz referência a um processo que rachou as Universidades brasileiras no início dos anos 2000. Reconhecer a urgência das ações afirmativas produzia uma percepção de que os docentes teriam sido racistas na história da criação das instituições de ensino superior no país. Presenciei na Cândido Mendes, em agosto de 2003, uma cena na qual a professora  chorava demoradamente enquanto explicava à pesquisadores portugueses que “não era racista” e tinha bolsistas de iniciação científica que eram negros. Eles pareciam um pouco chocados com os dados que eu apresentava. Quase incrédulos.

A impossibilidade de manter a neutralidade diante das ações afirmativas criou ódios entre amigos de longa data, foram lançados manifestos contra as cotas por intelectuais renomados, livros foram escritos para afirmar que seria impossível aferir quem era negro no Brasil, que aquele era um problema importado dos Estados Unidos. Professores especialistas no tema  vieram a público e revelaram o quão frágil eram suas teorias. E soubemos que boa parte dos docentes no Brasil, tentavam justificar a desigualdade com argumentos sobre nosso “carrefour colorido”. Este misto de crença na democracia racial misturado com crença na meritocracia segue fértil não só nas faculdades de direito mas em todas as áreas nas quais poder e dinheiro definem acessos.

Finalizo este texto relembrando um fato exemplar: em 2016 a filha de um dos ministros do Supremo Tribunal Federal tomou posse aos 35 anos como desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Dizem nos bastidores que seu pai foi ativo na campanha pela filha. Ele estava na posse. Mesmo cercado de polêmicas, ela recebeu 125 de um total de 180 votos.

É sobre este Brasil que temos de falar. E a Universidade deve ser o centro deste debate. Não haverá real igualdade de oportunidades se mantemos uma casta de altos privilégios enquanto os presídios estão lotados de pessoas negras. O não reconhecimento dos operadores do direito sobre esta realidade não é apenas má fé. É uma operação intensa, contínua e de longa duração para barrar qualquer mudança que altere seu status quo.

Por que a surpresa com os xingamentos dos alunos da PUC? Eles foram educados exatamente para expressar seu desprezo e sua ignorância pelos pobres e negros. E manifestam isto publicamente porque fazem parte desta casta intocável. Serão jovens juízes tão racistas quanto seus antecessores nas primeiras faculdades de direito em Recife e São Paulo. Eles acreditam em eugenia e não parece que os currículos tenham mudado ao longo de um século. As ações afirmativas ferem esta crença quando formamos turmas cujo desempenho supera aqueles que sempre ocuparam estes espaços.

Notas de repúdio não são suficientes. Nem as formas de punição que raramente são concretizadas. O que queremos é tomar o Judiciário, o conhecimento e as formas de gestão do Estado e da justiça. É esta a mudança que fere de morte os alunos da PUC SP.


Luciane Soares da Silva é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) onde atua nos programas de pós-graduação em Políticas Sociais e Sociologia Política.

Política de bode expiatório: como o fascismo implanta a raça e como o anti-racismo morde a isca

 
nonsite
Por Adolph Reed Jr. para o Nonsite

Em 2022 e no início de 2023, uma campanha de petição altamente divulgada procurou destituir a prefeita de Nova Orleans, LaToya Cantrell. A lei da Louisiana estabelece grandes obstáculos para iniciativas de recall; numa jurisdição do tamanho de Nova Orleães, o desencadeamento do processo requer assinaturas válidas de vinte por cento dos eleitores registados numa petição solicitando uma revogação das eleições, e o esforço acabou por fracassar. No entanto, vale a pena refletir sobre a campanha por três razões.

Em primeiro lugar, pelo menos tem uma forte semelhança familiar com os ataques republicanos de direita às cidades governadas pelos democratas, que recentemente passaram de uma retórica inflamatória para tentativas concertadas de enfraquecer, por meios extraordinários , as jurisdições que os democratas representam. Nessa medida, a campanha de revogação de Cantrell está em sintonia com os muitos esforços republicanos para suprimir os eleitores em todo o país e com o ataque mais amplo e mais abertamente autoritário da direita às instituições democráticas em todos os níveis de governo, sobre o qual Thomas Byrne Edsall soou o alarme no New York Times. 1 Em segundo lugar, a campanha NOLATOYA ilustra como a raça pode funcionar como um símbolo de condensação, uma componente abreviada, difusa e até tácita de um discurso de mobilização política, embora não defina necessariamente os objetivos políticos da mobilização. Terceiro, o caráter da campanha, especialmente à luz da tendência mais ampla da qual pode ser um exemplo, e as respostas da oposição também demonstram a inadequação dos entendimentos reducionistas raciais, mesmo do elemento racialista que ajudou a impulsioná-la e a outras iniciativas reacionárias. , como a medida da legislatura do Mississippi para minar a autoridade do governo eleito de Jackson.

Os patrocinadores do recall procuraram atiçar e tirar proveito da ansiedade em relação ao crime nas ruas – mais visivelmente as ondas de pirataria em varandas, roubos de carros e homicídios que aumentaram em Nova Orleans, como em muitas cidades durante e após a pandemia e o bloqueio do Coronavírus – bem como o prodigiosamente condições ruins e quase perigosas das estradas e ruas municipais, um colapso aparentemente inexplicável e cronicamente não resolvido da operação privatizada de coleta de saneamento da cidade e, na melhor das hipóteses, qualidade inconsistente de outros serviços públicos. 2 A campanha também recorreu a tropos antigos e de inflexão racial, tais como alegações genéricas de incompetência e evocações de acusações de comportamento imoral e “arrogante”, por exemplo, em ataques a Cantrell por alegadamente ter um caso com um agente da polícia sob a sua guarda, viver pelo menos meio período em um apartamento de luxo de propriedade municipal na Jackson Square, no coração de Vieux Carré, e voando de primeira classe às custas da cidade em viagens comerciais internacionais. 3 Os apoiantes do recall acabaram por levantar alegações inflamatórias de incompetência, hostilidade à aplicação da lei ou corrupção contra os negros,  procuradores distritais da paróquia de  Nova Orleans recentemente eleitos e juízes não especificados, e sugeriram que as iniciativas subsequentes de recall também os deveriam visar.

Os co-presidentes titulares da campanha eram negros: um, Belden “Noonie Man” Batiste, era um candidato perene a um cargo eleitoral que recebeu 5% dos votos nas primárias para prefeito de 2021, que Cantrell venceu com quase 65% dos votos; a outra, Eileen Carter, é uma “consultora de estratégia” freelance que foi nomeada no primeiro mandato pela administração Cantrell. 4 Suas fontes de apoio financeiro permaneceram obscuras durante meses, mas as revelações eventualmente confirmaram que mais de 90% do financiamento da campanha veio de um único desenvolvedor branco e operador da indústria hoteleira, Richard Farrell, que, além de ter contribuído para Cantrell no passado , foi um dos maiores doadores da Louisiana para a campanha presidencial de Trump em 2020. 5 Os opositores do recall argumentaram que o fato de a iniciativa ter sido financiada quase inteiramente por um megadoador de Trump e a tentativa dos seus organizadores de limpar os cadernos eleitorais a fim de reduzir o número total de assinaturas necessárias para forçar uma nova eleição 6 indicava uma objetivo mais insidioso, que a campanha era uma manobra para fazer avançar a agenda mais ampla dos Republicanos de suprimir o voto negro e de desacreditar os funcionários negros. 7

Depois de muito entusiasmo, a campanha fracassou terrivelmente. A certificação das petições confirmou que os organizadores ficaram muito aquém do limite mínimo de assinaturas exigido para estimular uma eleição revogatória e que o apoio foi fortemente distorcido racialmente. Este último não foi nenhuma surpresa. 8 A campanha teve origem num dos bairros mais ricos, mais brancos e com maior tendência republicana da cidade. E, como indiquei, a retórica dos proponentes – apesar da sua insistência de que a iniciativa tinha amplo apoio em toda a cidade – negociou imagens racializadas de criminalidade feroz, e desviou-se muito facilmente para a denúncia hiperbólica da suposta degeneração moral do prefeito e uma animosidade que parecia muito desproporcional às suas transgressões reais ou alegadas, o que, em qualquer caso, dificilmente parecia justificar o esforço extraordinário de uma revogação, especialmente porque Cantrell estava com mandato limitado e inelegível para buscar a reeleição em 2025. Até que ponto a revogação defende a demonização dela que se transformou em ataques a outros funcionários públicos negros também sugeriu uma dimensão racial à campanha que sem dúvida deixou muitos eleitores negros cautelosos.

Uma explicação racial da iniciativa de recall oferece benefícios de familiaridade. Ele se encaixa nos canais já desgastados da política de grupos de interesse racial de ambos os lados. Permite que os defensores comprometidos do recall rejeitem o fracasso de seu esforço como resultado da atitude defensiva irresponsável do grupo racial dos negros, ao ponto da fraude e da conspiração, e permite que os oponentes rejeitem as queixas contra a prefeitura de Cantrell, atribuindo-as a um racismo branco efetivamente primordial. ligado por meio de alegoria histórica à era Jim Crow. 9 Assim, quando os jornalistas Jeff Adelson e Matt Sledge estimaram que, embora  54% dos eleitores registrados na paróquia de Orleans sejam negros e 36% sejam brancos,  76% dos signatários da petição eram brancos e pouco mais de  15% eram  negros; para os negros, a descoberta foi facilmente assimilável a uma narrativa racial convencional de que “os negros dizem tomayto /os brancos dizem tomahto ”. A inferência contundente dos autores de que “os eleitores brancos tinham sete vezes mais probabilidade de ter assinado a petição do que um eleitor negro” reforça essa opinião.

Pelos cálculos de Adelson e Sledge, mais de 23 mil eleitores brancos assinaram a petição de revogação, em comparação com cerca de 7 mil negros. À primeira vista, essa diferença gritante parece apoiar uma interpretação racial da iniciativa. No entanto, esse cálculo também significa que mais de 57 mil eleitores brancos, por qualquer razão, não o assinaram. Ou seja, cerca de duas vezes e meia mais eleitores brancos da paróquia de Orleans não assinaram a petição de revogação do que o fizeram. Poder-se-ia perguntar, portanto, por que deveríamos ver o apoio ao recall como a posição “branca”. Os signatários agruparam-se desproporcionalmente nas áreas mais ricas da cidade, e os menos propensos a assinar concentraram-se nas áreas mais pobres da cidade. Como Adelson e Sledge também observam, há muitos motivos pelos quais alguém pode não ter assinado a petição. Estas poderiam ter variado entre oposição explícita à iniciativa; ceticismo sobre seus motivos, probabilidade de sucesso ou seu impacto se for bem-sucedido; ausência de preocupação suficiente com a questão para tentar aderir; ou outras razões inteiramente. Essa faixa se aplicaria aos 76% dos eleitores brancos que não assinaram, bem como aos quase 95% dos eleitores negros que não o fizeram. Dessa perspectiva, “raça” é, neste caso, menos uma explicação do que uma alternativa a ela.

Os organizadores e apoiantes do recall também tinham, sem dúvida, vários motivos e objetivos, e estes podem ter evoluído com a própria campanha. Batiste e Carter são oportunistas políticos e, como oponentes duramente derrotados e ex-funcionários, podem nutrir queixas pessoais idiossincráticas contra Cantrell; eles também não podem ser reduzidos a apenas traidores raciais ou ingênuos, até porque cerca de mais 7.000 eleitores negros assinaram a petição de revogação. Farrell e o punhado de outros grandes doadores republicanos que apoiaram a iniciativa provavelmente tinham objetivos variados de longo e curto prazo, desde o enfraquecimento da prefeitura de Cantrell até o retorno da resposta agressiva da cidade à pandemia, que encontrou descontentamento e oposição dos operadores da indústria hoteleira, até fomentar desmoralização e antagonismo em relação ao governo municipal ou ao governo em geral, ao aumento da influência individual e organizacional na política partidária mundana, incluindo o simples reforço da divisão partidária instintiva. E, mesmo que não esteja sempre nas mentes dos iniciadores, a supressão dos eleitores na paróquia de Orleans pode ter-se tornado um benefício imprevisto ao longo do caminho.

Outros entusiastas agiram sem dúvida por uma mistura de motivos. As exigências de “responsabilidade” e “transparência”, palavras de ordem neoliberais que apenas parecem transmitir significados específicos, substituíram argumentos causais que ligam as condições na cidade que geraram frustração, ansiedade ou medo a afirmações sobre o carácter de Cantrell. Essas palavras de ordem orwellianas de um programa mais amplo de desdemocratização 10 se sobrepõem ao discurso muitas vezes alusivamente racializado em que Cantrell, o funcionalismo negro, o governo indiferente, supostamente inepto e corrupto, a criminalidade descontrolada e a intensificação da insegurança e do colapso social, todos significam uns aos outros como um singular, embora amorfo, alvo de ressentimento. A campanha de recall condensou frustrações e ansiedades em uma política de criação de bodes expiatórios que fixa todas essas preocupações vagas ou incipientes em uma entidade alienígena e malévola que existe para frustrar ou destruir um “nós” igualmente vago e fluido. E essa entidade é parcialmente racializada porque a raça é um discurso de bode expiatório.

Mas a raça não é a única base para usar bodes expiatórios. Como indiquei em outro lugar, “a fantasia MAGA da ‘elite democrática pedófila’ hoje fornece um bode expiatório que ninguém poderia defender razoavelmente e, portanto, facilita o desvio que é sempre central para uma política de bode expiatório, a construção da fantasia do ‘judeu/judeu’ -Banqueiro bolchevique-judeu e cosmopolita/judeu e judeu/subumano eslavo fizeram o mesmo pelo nacional-socialismo de Hitler.” 11 O bode expiatório é uma presença evanescente, criada através do pânico moral e de histórias justas e projetada em indivíduos ou populações visadas, postuladas como a causa incorporada das condições que geram medo e ansiedade. Como instrumento de ação política, o objetivo do bode expiatório é formar um grande eleitorado popular definido pela percepção de ameaça e oposição a um outro demonizado, um eleitorado que então pode ser mobilizado contra políticas e agendas políticas que os ativistas identificam com o outro maligno e seus desígnios nefastos —sem ter de abordar essas políticas e agendas com base nos seus méritos.

Uma postagem no Facebook que um colega compartilhou de um parente há muito perdido para o mundo QAnon / MAGA exemplifica a cadeia de associações que sustenta essa linha de pensamento conspiratório e sua política de bode expiatório: “É hora dos americanos pararem de se esconder atrás do idiota da democracia que tem sido usado como um ópio para extorquir salários americanos para travar uma guerra contra qualquer país que dissesse não ao culto de satanás, um agiota cambiador de dinheiro de Rothschild.” Meu colega ressaltou que o anti-semitismo aparente naquele cargo foi um enxerto tardio nas opiniões políticas do parente; nem os judeus nem o judaísmo tiveram qualquer presença nas circunstâncias da sua educação, nem dentro da sua família, nem no ambiente demográfico mais amplo. Isto é, o anti-semitismo pode funcionar, pelo menos durante algum tempo, como um item numa lista de verificação que assinala a pertença entre os eleitos dos combatentes contra a grande conspiração malévola, tanto ou mais do que expressa uma intolerância cometida contra os judeus ou o judaísmo.

É compreensível que a campanha de revogação parcialmente racializada provocasse a objecção do mínimo denominador comum de que se tratava de uma manobra para atacar a liderança política negra, ou feminina negra. Foi sem dúvida, pelo menos como uma primeira tentativa fácil de alcançar os frutos mais fáceis de alcançar na mobilização de apoio. No entanto, a reclamação de que o esforço de recall tinha motivação racial não foi ao alvo – ou mordeu a isca. O bode expiatório tem fundamentalmente a ver com desorientação, como a esquiva de um batedor de carteiras. Uma política baseada na criação de bodes expiatórios é especialmente atrativa para os proponentes de agendas antipopulares e desigualitárias que, de outra forma, poderiam ser incapazes de obter um amplo apoio para programas e iniciativas que sejam antidemocráticos ou que facilitem a redistribuição regressiva. 12 E as forças que impulsionam a campanha de recall de Cantrell enquadram-se nesse perfil.

O fato de ter sido apoiada por importantes doadores de direita, mas ter falhado tanto, levanta a possibilidade de que a campanha de revogação nunca tenha sido séria como uma tentativa de remover Cantrell do cargo. 13 Se a sua tagarelice sobre responsabilização, transparência e responsabilidade para com os contribuintes fosse genuína, os organizadores deveriam ter admitido o fracasso e não se preocuparam em apresentar as suas petições, evitando assim os encargos administrativos do processo de certificação – a menos que forçar esse empreendimento extraordinário fosse parte de um grande esforço para simular uma campanha séria de recall. Em vez disso, muito depois de ter reconhecido e admitido o fracasso, a organização da campanha tentou manter a conversa sobre recordações no ciclo de notícias por meio de timidez e dissimulação em relação ao estado do seu esforço e continuou a fabricar supostos ultrajes de Cantrell, por mais duvidosos ou picayune que fossem para alimentar o fogo da exposição lasciva do “você não vai acreditar no que ela está fazendo agora!” Quando as autoridades confirmaram a magnitude do fracasso, incluindo provas de milhares de assinaturas obviamente falsas que foram apresentadas, os organizadores recorreram ao boato padrão da era MAGA face à derrota – desafiando a credibilidade dos funcionários designados por lei para determinar as assinaturas. validade. Não obstante os motivos complexos e as expectativas dos apoiantes individuais, tudo isto sugere ainda que a iniciativa de retirada, a um nível, foi suspeitamente consistente com os múltiplos ataques ao governo democrático que os militantes de direita têm levado a cabo concertadamente em todo o país desde pelo menos 2020.

Esse esforço maior e mais insidioso e os seus objetivos – que se resumem à eliminação de vias de expressão da supervisão democrática popular ao serviço da consolidação do poder de classe capitalista não mediado  14 – constituem o perigo mais grave que enfrentamos. E centrar-se na dimensão racial de estratagemas como o recall de Cantrell faz o jogo dos arquitetos dessa agenda e da política de bodes expiatórios de que dependem, concentrando-se exclusivamente num aspecto da táctica e não no objetivo. Da perspectiva desse perigo maior, se o esforço de recall foi realmente motivado pelo racismo não vem ao caso. O mesmo se aplica a qualquer uma das muitas outras iniciativas de democratização e de inflexão racial que a direita tem promovido. Com ou sem intenção consciente, e independentemente das expressões chocantemente feias e assustadoras que possa assumir retoricamente, a dimensão racial da ofensiva não tão furtiva da direita é uma cortina de fumaça. Os pedófilos canibais, os transgêneros subversivos predadores e os proponentes do aborto a pedido até ao nascimento juntam-se a significados familiares ligados aos negros e a um outro não-branco genericamente ameaçador ao fundirem um inimigo fantasmagórico singular, intercambiável e até contraditório – o judeu como banqueiro e bolchevique .

Uma conclusão importante sobre a natureza desta ameaça é que uma política que prioriza a raça não é capaz de responder eficazmente a ela. O reducionismo racial falha intelectualmente e é politicamente contraproducente porque a sua suposição de que raça/racismo é trans-histórico e a sua correspondente exigência de que compreendamos a ligação entre raça e política na vida contemporânea através da analogia com a era da segregação ou da escravatura não nos equipam para compreender as especificidades da o momento atual, incluindo os perigos historicamente específicos que enfrentamos. Esta não é uma limitação nova. Essa orientação anacrônica subscreveu prognósticos extremamente imprecisos sobre o provável impacto político da mudança demográfica racial em Nova Orleans após o furacão Katrina e foi totalmente ineficaz para os crescentes desafios à afretamento do sistema escolar da paróquia de Orleans e à destruição de habitações públicas no meio dos maiores problemas da cidade. escassez de habitação a preços acessíveis. 15 A interpretação racial reducionista não poderia especificar nem os mecanismos nem a concatenação de forças políticas que impulsionaram qualquer um desses programas regressivos. Os reducionistas raciais parecem assumir que definir essas intervenções, bem como as práticas imobiliárias regressivas vulgarmente conhecidas como gentrificação e os problemas do hiperpoliciamento, como racistas, suscitaria algum tipo de resposta corretiva. 16 , mas isso não aconteceu.

Da mesma forma, tal como a afirmação de que o encarceramento em massa é o “Novo Jim Crow” não nos ajuda a compreender ou a responder às complexas forças político-econômicas ou ideológicas que produziram o encarceramento em massa ,17 a crítica aos esforços contemporâneos de supressão dos eleitores, ligando-os aos que estão no final do século XIX não nos ajuda a especificar a natureza da ameaça, os objetivos a que está ligada ou as abordagens para a combater. No que diz respeito à supressão e privação de direitos eleitorais, mesmo no final do século XIX, embora a) o seu objetivo fosse aberta e explicitamente privar os negros de direitos eb) há poucos motivos para duvidar da sinceridade dos compromissos com a supremacia branca expressos pelos arquitetos da privação de direitos, privando os negros de direitos por o objetivo também não era o objetivo; nem impor a subordinação racial codificada era um fim em si mesmo.

A dimensão racial da campanha reacionária também foi então uma cortina de fumaça que ajudou a facilitar a afirmação do poder da classe dominante após a derrota da insurgência populista, atacando os negros como bodes expiatórios, uma orientação errada da atitude acentuadamente classista das elites democratas de proprietários-comerciantes-capitalistas. agenda distorcida, incluindo a segregação racial codificada, que não poderiam impor totalmente até que o eleitorado fosse “purificado”. Do ponto de vista dos arquitetos, o problema com o voto dos negros era, em última análise, o fato de eles não votarem de forma confiável nos Democratas. Se se pudesse contar com os eleitores negros para votarem a favor da agenda Democrata, a supremacia branca comprometida provavelmente teria encontrado expressão em outras áreas que não o sufrágio. Na verdade, uma faceta da política acomodacionista bookerista da época – articulada, entre outros, pelo romancista Sutton Griggs – era que o apoio reflexivo dos negros americanos aos republicanos forçou os democratas a recorrer à privação de direitos e que, se os democratas de princípios sentissem que poderiam contar com os negros votos, eles não precisariam adotar tais medidas. 18 Entre os defensores da supressão eleitoral hoje, o voto negro é em parte uma metonímia para um bode expiatório composto que inclui eleitores democratas ou “liberais” ou “acordados”, todos os quais, como os pedófilos canibais liberais, são caracterizáveis ​​como não sendo “americanos de verdade”. e cuja votação é, portanto, fraudulenta por definição. E os propagandistas fundem as imagens para desviar a atenção da agenda política regressiva da direita. 19

É instrutivo que, ao mesmo tempo, os direitistas contemporâneos geralmente apregoem evidências de apoio de negros e hispânicos. É claro que essa medida é em grande parte um estratagema cínico – a mentira, retirada diretamente do manual do agitador fascista, acompanhada por uma piscadela de conhecimento aos fiéis – para desviar as críticas à sua óbvia utilização de bodes expiatórios raciais. No entanto, a rejeição instintiva dessa reação como dissimulada ou dos apoiadores negros e hispânicos como inautênticos, ingênuos ou traficantes é problemática. Certamente não há escassez de racismo malicioso dentro da ala direita, mas os apoiadores negros e latinos da política de direita não podem ser todos descartados como o equivalente a menestréis traficantes de dinheiro e transporte como Diamond & Silk ou lunáticos de dinheiro e transporte como Ben Carson e Clarence Thomas, tal como os 7.000 negros que assinaram a petição de revogação de Cantrell, não podem ser considerados ingênuos dos ativistas do NOLATOYA. Embora as percentagens tenham permanecido relativamente pequenas, os aumentos nos votos negros e hispânicos para Trump entre 2016 e 2020 indicam que esses eleitores veem mais utilidade no falso apelo populista do que no racismo ou na supremacia branca. 20

O que é verdade para os eleitores negros e pardos que provavelmente não se considerarão racistas 21 é, sem dúvida, também verdade para alguma percentagem de brancos que gravitam em torno do canto de sereia da direita reacionária. 22 Não pretendo sugerir que devamos ceder às expressões reacionárias em torno das quais a direita tem procurado mobilizar essas pessoas. No entanto, quero sublinhar que o que torna muitos deles susceptíveis a essa política suja é uma sensação razoável de que o liberalismo democrático lhes ofereceu pouco durante meio século. Obama prometeu transcendência e libertação, com base em imagens evanescentes derivadas em grande parte da sua raça. O seu fracasso em corresponder à “esperança” que promoveu preparou o terreno para uma reação igual e oposta.

Acima de tudo, as explicações reducionistas raciais e as analogias históricas simplistas são contraproducentes como política porque não conseguem fornecer uma base para desafiar a ameaça autoritária iminente. Perguntei aos apoiantes da política de reparações durante mais de vinte anos como imaginam formar uma coligação política suficientemente ampla para prevalecer nesse objetivo numa democracia maioritária. 23 Até esta data, a questão nunca recebeu uma resposta que não fosse alguma versão do non sequitur “você não concorda que os negros merecem compensação?” ou sofismas como a afirmação irreverente de que a abolição e o movimento pelos direitos civis não teriam hipótese de vencer até o conseguirem. 24 Recentemente, um questionador da plateia, alguém com quem tive uma discussão contínua ao longo de muitos anos sobre a primazia do racismo como força política, catequizou-me num painel na Universidade de Columbia [começando às 1:01:48] sobre a minha opinião sobre os ataques da legislatura do Mississippi à cidade de Jackson. Não houve pergunta específica; a intervenção foi um estímulo para que eu reconhecesse que o caso Jackson é uma prova do poder independente do racismo. Essa interação capta um problema crucial do reducionismo racial como política. Centra-se na exposição e na acusação moralista.

Mas o que aconteceria se aceitássemos como senso comum a convicção dos defensores da política reducionista racial de que o “racismo” é a fonte das várias desigualdades e injustiças que nos afectam – incluindo as caricaturas antidemocráticas perpetradas contra os residentes de Jackson e oficiais eleitos? Que intervenções políticas se seguiriam? E como eles seriam realizados? Estas questões não surgem porque o objetivo desta política não é transformar as relações sociais, mas garantir a posição social daqueles que pretendem falar em nome de uma população negra indiferenciada. Na medida em que se trata de uma política, é um arranjo de grupos de interesse em que os porta-vozes raciais propõem como perspectivas “raciais” pontos de vista que se harmonizam com o neoliberalismo democrático. Pela enésima vez, 25 uma política focada na identificação de disparidades a nível de grupo dentro do atual regime de desigualdade capitalista baseia-se logicamente, mas acima de tudo materialmente, em não desafiar esse regime, mas em equalizar as diferenças de “grupo” dentro dele. Essa política antidisparitária segue o ideal igualitário do neoliberalismo de acesso igualitário à competição por um conjunto cada vez menor de oportunidades para uma vida segura. 26 E, como tem sido explícito pelo menos desde 2015, quando a campanha de Bernie Sanders empurrou uma abordagem mais social-democrata para o centro do debate político americano, o “esquerdismo” antidisparitário é uma força ideológica militante que defende a lógica do neoliberalismo contra a redistributividade descendente. ameaças, ao ponto de denunciar os apelos à expansão da esfera dos bens públicos universais como irresponsáveis ​​e os apelos castigadores aos interesses da classe trabalhadora como racistas.

Décadas de afirmação reducionista racial e de recurso à história como alegoria em vez de argumento empírico e estratégia política clara 27 propagaram outro discurso de desorientação. A insistência em que qualquer desigualdade ou injustiça que afete as pessoas negras deve ser entendida como resultante de um racismo genérico e transhistórico, por exemplo, desvia a atenção das atuais fontes de desigualdade na economia política capitalista para os anti-racistas reducionistas, tal como a retórica da guerra cultural faz para a direita. Como a gênese da “disparidade de riqueza racial” demonstrou, a premissa de que a escravatura e Jim Crow continuam a moldar a vida de todas as pessoas negras e a forjar uma condição fundamentalmente comum de sofrimento e destino comum subscreveu uma resposta política de propagação racial que é uma política de classe. disfarçada de política de grupo racial. 28 O truque que faz com que a dinâmica da classe capitalista desapareça numa narrativa de incessante e demoníaca “supremacia branca” faz o trabalho para os neoliberais democratas (de qualquer cor ou gênero), que o bicho-papão canibal pedófilo faz para a direita reacionária. Assim, o reducionismo racial pode apresentar tornar os negros ricos mais ricos e reduzir a “disparidade de riqueza” entre eles e os seus homólogos brancos como uma estratégia para a busca de justiça para todos os negros ou atacar as propostas políticas social-democratas como de alguma forma não relevantes para os negros e, na verdade, encorajadoras racistas brancos, ou tentar ignorar o fato de que o Racial Reckoning produzido pelo verão de George Floyd culminou de forma mais visível em um presente de US$ 100 milhões de Jeff Bezos para Van Jones e uma inundação de quase US$ 2 bilhões em dinheiro corporativo em diversas ações de defesa da justiça racial organizações.

O aumento da ameaça autoritária deveria elevar os riscos do momento a um ponto em que reconhecemos que esta política anti-racista não tem uma agenda para alcançar reformas significativas, muito menos uma estratégia para a transformação social, que não só é incapaz de ancorar um desafio ao perigo que enfrentamos, mas fundamentalmente não está interessado em fazê-lo. Parece haver uma surpreendente miopia subjacente a esta política e aos estratos cujos interesses ela articula – a menos, claro, que o seu único objetivo seja assegurar o que Kenneth Warren caracteriza como “autoridade de gestão sobre o problema negro da nação”,29 não importa qual o regime que esteja a ser exercido . no poder. Nesse caso, o Judenrat é, na verdade, o seu modelo e, portanto, todas as apostas estão canceladas.

Notas

1.   Sobre a extensão da estratégia geral e sistemática dos republicanos de imobilizar e deslegitimar as autoridades democratas e o governo democrático, ver Thomas B. Edsall, “The Republican Strategists Who Have Carefully Planned All of This”, New York Times, 12 de abril de 2023 ,https://www.nytimes.com/2023/04/12/opinion/republican-party-intrusive-government.html; e Rachel Kleinfeld, “How Political Violence Went Mainstream on the Right”, Politico, 7 de novembro de 2022,https://www.politico.com/news/magazine/2022/11/07/ Political-violence-mainstream-right- asa-00065297 .
2.  Tyler Bridges, “Campanha para recordar LaToya Cantrell é alimentada pelas mídias sociais; Os organizadores enfrentam grandes probabilidades”, NOLA.com, 3 de setembro de 2022,https://www.nola.com/news/politics/article_5673d178-2b13-11ed-badc-77d337d6e319.htmlhttps://www.nola.com/news /política/artigo_5673d178-2b13-11ed-badc-77d337d6e319.html ; e Morgan Lentes, “Problems with Trash Pick-ups in New Orleans Continue into New Year”, WDSU News, 3 de janeiro de 2023,https://www.wdsu.com/article/problems-with-trash-pick-ups- em-nova-orleans-continua-no-ano-novo/42379945 .
3.   Freqüentemente, esses tropos assumem a forma de um apito de cachorro com a intenção de fornecer uma negação plausível em relação ao seu caráter racial. Na corrida para prefeito de Nova York em 1989, o comediante Jackie Mason não deixou espaço para dúvidas ou ambigüidades. Ao expressar seu apoio à campanha inicial malsucedida de Rudolph Giuliani para prefeito de Nova York e ao tentar difamar seu oponente, David Dinkins, como incompetente, Mason descreveu Dinkins de forma infame como parecendo “uma modelo negra sem emprego”; veja Howard Kurtz, “Quips Create Political Uproar”, Washington Post , 28 de setembro de 1989,https://www.washingtonpost.com/archive/politics/1989/09/28/quips-create- Political-uproar/752f6949-063f -4986-99a2-6c8e00809ca5/ . Mason também menosprezou Dinkins como um “ schvartze chique com bigode”, e ele e outros apoiadores de Giuliani atacaram Dinkins por suas supostas afetações de moda e o descreveram como um “atendente de banheiro”. Kevin Baker, “David Dinkins: O prefeito certo na hora errada”, Politico , 26 de dezembro de 2020,https://www.politico.com/news/magazine/2020/12/26/david-dinkins-the-right -prefeito-na-hora-errada-445217 .
4.  Anita D. Brown, “Análise política: o recall caiu aquém, mas e toda a poeira que ele levantou?”, New Orleans Tribune , 21 de março de 2023,https://theneworleanstribune.com/2023/03/21 /análise-política-o-recall-ficou-aquém-mas-e-toda-a-poeira-que-levantou/ .
5.  Matt Sledge, “O empresário Rick Farrell descarta outro meio milhão no esforço para destituir a prefeita LaToya Cantrell”, NOLA.com, 16 de março de 2023, https://www.nola.com/news/politics/businessman-rick-farrell -dropa-outro-meio-milhão-no-esforço-para-recall-mayor-latoya-cantrell/article_877417fc-c2b1-11ed-aa6c-a784a4728ab1.html; e Connor Van Ligten, “A maioria do dinheiro da campanha de recall de Cantrell veio de um doador notável do Partido Republicano, afirma o relatório”, WWL-TV, 31 de janeiro de 2023,https://www.wwltv.com/article/news/local/orleans/mayor -cantrell-orleans-recall-gop-donor/289-0001e4b0-bd2a-4599-9b31-f8b7d0ee323e .
6.  A lei estatal exige assinaturas válidas de um mínimo de vinte por cento dos eleitores registados numa jurisdição do tamanho de Nova Orleães para autorizar o processo de revogação; a redução do número de eleitores registados reduziria correspondentemente o número necessário de assinaturas válidas. Veja também Travers Mackel, “Recall LaToya Leaders File Lawsuit Against Orleans Registrar of Voters”, WDSU News, 16 de fevereiro de 2023,https://www.wdsu.com/article/new-orleans-mayor-recall-effort-sues- registradores-eleitores/42939566 .
7.   Charles P. Pierce, “Campaign to Recall New Orleans Mayor Turns on Fight Over Voter Rolls”, Esquire , 28 de fevereiro de 2023,https://www.esquire.com/news-politics/politics/a43128034/new-orleans -prefeito-recall/. Desde a campanha fracassada, os republicanos na legislatura estadual promoveram um projeto de lei que reduziria significativamente o limite para desencadear eleições revogatórias em todos os níveis; consulte Annum Sidiqqui, “Louisiana Lawmakers Push Recall Bill to Full House”, WDSU News, 26 de abril de 2023,https://www.wdsu.com/article/louisiana-bill-recall-threshold/43697136?utm_source=nextdoor&utm_medium=RSS&utm_campaign =Ao lado.
8.   Jeff Adelson e Matt Sledge, “LaToya Cantrell Recall Petitions Show Sharp Divides Across New Orleans by Race, Neighbourhood”, NOLA.com, 10 de março de 2023, https://www.nola.com/news/politics/in- cantrell-recall-sharp-divides-across-race-neighborhood/article_c0ef979e-bdf3-11ed-a51c-3bdc48da4b60.html ; e Paul Murphy, “Cantrell Recall fica aquém de milhares de assinaturas, diz o governador”, WWL-TV, 21 de março de 2023, https://www.wwltv.com/article/news/local/orleans/mayor-cantrell-recall -assinaturas-aquém-não-suficientes/289-0d0bca21-3b79-4c11-af69-ab7364c04c13 .
9.   Pierce cita Bill Rousselle, um antigo conselheiro de Cantrell (e, aliás, meu colega de escola), que descreve o recall como “um movimento de supressão de eleitores saído diretamente da era Jim Crow… completo com acordos de bastidores”. Pierce, “Campanha para Recordar”.
10. Damien Cahill, O Fim do Laissez-Faire?: Sobre a Durabilidade do Neoliberalismo Incorporado (Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar, 2015), 106–16, 155–56. Os processos de desdemocratização prosseguiram nas democracias capitalistas ao longo da era do pós-guerra, muito antes do início geralmente reconhecido do neoliberalismo no final dos anos 1970 e 1980. Muitas vezes avançados retoricamente através de uma linguagem de eficiência, estes processos postulam tipicamente uma separação artificial entre política e economia e procuram remover esta última da supervisão democrática popular, tornando-a uma esfera de controlo por parte de especialistas e de uma administração supostamente neutra. O isolamento das funções governamentais da interferência popular, transferindo-as para órgãos não eleitos, muitas vezes multijurisdicionais, tem sido um elemento básico da política metropolitana do pós-guerra nos Estados Unidos. (Ver, por exemplo, Timothy Weaver, “Urban Crisis: The Genesis of a Concept”, Urban Studies 54 [2017]: 2039–55; e Timothy Weaver, Blazing the Neoliberal Trail: Urban Political Development in the United States and the United Kingdom [Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2016].) Estudos recentes salientaram a importância do surgimento, após a Segunda Guerra Mundial, de uma profissão económica simultaneamente profissionalizada e politizada e o seu impacto nas restrições das políticas públicas. Por exemplo, ver Stephanie L. Mudge, Leftism Reinvented: Western Parties from Socialism to Neoliberalism (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2018); Amy Offner, Classificando a Economia Mista: A Ascensão e Queda dos Estados de Bem-Estar e de Desenvolvimento nas Américas (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2021); e Elizabeth Popp Berman, Pensando como um economista (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2022). Clara Mattei, The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism (Chicago: University of Chicago Press, 2022) argumentou que a noção de que a economia está separada do domínio político e requer gestão por especialistas profissionais tomou forma em contexto de luta de classes aberta em resposta revanchista aos ganhos materiais obtidos pelos trabalhadores no Reino Unido e na Itália durante a Primeira Guerra Mundial, e a noção de austeridade, que foi uma invenção desse processo, foi um aríete contra os ganhos dos trabalhadores nesses dois estados e em outros lugares e um alicerce fundamental do fascismo italiano.
11. Adolph Reed, Jr., “Remembering Operation Bagration: When the Red Army Decapitated the Nazi Front,” Common Dreams , 22 de junho de 2022, https://www.commondreams.org/views/2022/06/22/remembering -operação-bagração-quando-o-exército-vermelho-decapitado-nazista-frente .
12. Ver, por exemplo, a respeito do desempenho dos reacionários da era MAGA de “você pode superar” esta falsa indignação populista no teatro da “cultura” e sua justaposição à agenda programática descarada e muitas vezes cruel da classe dominante que eles perseguem, Jake Johnson, “Chefe Financeiro do Senado: Nada une mais o Partido Republicano do que ‘Ajudar os ricos a trapacear em seus impostos’”, Common Dreams , 20 de abril de 2023,https://www.commondreams.org/news/senate-finance-gop- impostos aos ricos ; Jacob Bogage e Maria Luisa Paúl, “The Conservative Campaign to Rewrite Child Labor Laws”, Washington Post , 23 de abril de 2023,https://www.washingtonpost.com/business/2023/04/23/child-labor-lobbying- fga/; Tami Luhby, “Republicanos usam projeto de lei do teto da dívida para aumentar as exigências de trabalho para milhões que recebem Medicaid e vale-refeição”, CNN , 26 de abril de 2023,https://www.cnn.com/2023/04/26/politics/work-requirements -food-stamps-medicaid-debt-ceiling/index.html ; Timothy Bella, “Texas Bill Would Require Ten Commandments in Public School Classrooms”, Washington Post , 21 de abril de 2023,https://www.washingtonpost.com/politics/2023/04/21/texas-bill-ten-commandments- public-schools-religion/?pwapi_token=eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJzdWJpZCI6Ijc4NjA0MjQiLCJyZWFzb24iOiJnaWZ0IiwibmJmIjoxNjgyMTM2MDAwLCJpc3MiOiJzdWJzY3JpcHRpb25zIiwiZXhwIjoxNjgzNDMxOTk5LCJpYXQiOjE2ODIxMzYwMDAsImp0aSI6ImUwOTdiYTBlLTY5N2UtNDdkMS04NzAwLTU2OWE2MTVlMTk4YyIsInVybCI6Imh0dHBzOi8vd3d3Lndhc2hpbmd0b25wb3N0LmNvbS9wb2xpdGljcy8yMDIzLzA0LzIxL3RleGFzLWJpbGwtdGVuLWNvbW1hbmRtZW50cy1wdWJsaWMtc2Nob29scy1yZWxpZ2lvbi8ifQ.8vFx3-s0GKB8Abt0n6ItBhWnYWSBphi_SgvH190BWRo ; Mark Wingfield, “Texas é o primeiro passo no plano nacional para instalar ‘capelães’ nas escolas em vez de conselheiros profissionais”, Baptist News Global , 20 de abril de 2023,https://baptistnews.com/article/texas-is-first-step -em-um-plano-nacional-para-instalar-capelães-em-escolas-públicas-em-vez-de-conselheiros-profissionais/?link_id=8&can_id=ac9eec252c9bea017e52fbe4d54ec601&source=email-joe-bidens-2024-opening-argument-its- eu-ou-o-abismo&email_referrer=email_1896432&email_subject=a-complicada-tragédia-de-don-limões-cnn-implosão&fbclid=IwAR0LhgABHpW2D2gdcOjMNadJRHI27Viyn4M5RzJInTaGWTkyxsh4Y9dcSxI&mibextid= Zxz2cZ; Charles Homans, “Ad Flap Leaves Bitter Aftertaste for Bud Light and Warning for Big Business”, New York Times , 25 de abril de 2023, https://www.nytimes.com/2023/04/25/us/politics/bud- light-boycott-politics-republicans.html?smid=nytcore-ios-share&referringSource=articleShare ; e Gordon Lafer, A solução de um por cento: como as corporações estão refazendo a América, um estado de cada vez (Ithaca, NY: ILR Press, 2017).
13.   Matt Sledge e Jeff Adelson, “Com a contagem de recalls de Cantrell concluída, Nova Orleans aprende que os signatários incluem Mickey Mouse e Pato Donald”, NOLA.com, 23 de março de 2023, https://www.nola.com/news/politics/ latoya-cantrell-recall-signers-donald-duck-mickey-mouse/article_ee151900-c9cf-11ed-8ece-2fc8f4d7e27e.html .
14.   Adolph Reed, Jr., “The Whole Country Is the Reichstag”, nonsite.org (agosto de 2021), https://nonsite.org/the-whole-country-is-the-reichstag/ .
15.  Adolph Reed, Jr., “A trajetória pós-1965 de raça, classe e política urbana nos EUA reconsiderada”, Labor Studies Journal 41 (2016): 260–91.
16.  Ver, por exemplo, Adolph Reed, Jr. e Touré F. Reed, “The Evolution of ‘Race’ and Racial Justice Under Neoliberalism”, em  Socialist Register 2022: New Polarizations, Old Contradictions, The Crisis of Centrism , ed. Greg Albo, Leo Panitch e Colin Leys (Nova York: Monthly Review Press, 2021), 113–34; e Cedric Johnson, After Black Lives Matter: Policing and Anti-Capitalist Struggle (Nova Iorque: Verso, 2023).
17. Ver Marie Gottschalk: Caught: The Prison State and the Lockdown of American Politics (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2016); Marie Gottschalk e Connor Kilpatrick, “Não é apenas a guerra às drogas: uma entrevista com Marie Gottschalk”, Jacobin , 5 de março de 2015,https://jacobin.com/2015/03/mass-incarceration-war-on-drugs ;James Forman, Jr., Locking Up Our Own: Crime and Punishment in Black America (Nova York: Farrar, Straus e Giroux, 2017); e Johnson, Depois de Vidas Negras Importam .
18.  Griggs explora os possíveis benefícios do apoio negro aos democratas do sul em vários pontos dos seus panfletos e das suas ficções, talvez mais notavelmente no seu romance de 1902, The  Unfettered , no qual o herói do romance, Dorlan Warthell, é apresentado como corajoso por ousar instar o apoio eleitoral dos negros ao Partido Democrata. Ver  Unfettered: A Novel  (Nashville, TN: The Orion Publishing Company, 1902) 90, 92. O exame definitivo da privação de direitos no final do século XIX permanece. J. Morgan Kousser, A Formação da Política do Sul: Restrição do Sufrágio e o Estabelecimento do Sul de Partido Único, 1880-1910 (New Haven, CT: Yale University Press, 1974). Discuto essa questão em “A farsa desta vez: reducionismo racial como mitologia de classe, do Sul sólido ao antirracismo neoliberal”, em Adolph Reed, Jr. e Kenneth W. Warren, You Can’t Get There From Here: Black Studies, Política Cultural e a Evasão da Desigualdade (Nova York: Routledge, no prelo). Sobre o Bookerismo, suas origens, fundamentos sociais e econômicos e caráter de classe, ver August Meier, Negro Thought in America, 1880-1915: Racial Ideologies in the Age of Booker T. Washington (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1963); James D. Anderson, A Educação dos Negros no Sul, 1860–1935 (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1988); Michael Rudolph West, A Educação de Booker T. Washington: Democracia Americana e a Idéia de Relações Raciais (Nova York: Columbia University Press, 2006); e Judith Stein, “’Of Mr. Booker T. Washington and Others’: The Political Economy of Racism in the United States”, Science & Society 38 (Winter 1974/1975): 422–63 [reimpresso em Adolph Reed, Jr. e Kenneth W. Warren, eds., Renewing Black Intellectual History: The Ideological and Material Foundations of African American Thought (Nova York: Routledge 2009)]. Vale a pena notar que o apelo à diversificação das lealdades partidárias negras tem sido um elemento básico do programa eleitoral dos conservadores políticos negros. O principal grupo de apoio negro à campanha de reeleição de Richard M. Nixon em 1972 foram os Negros Americanos por um Sistema Bipartidário Responsável, liderado pelo ex-advogado de direitos civis, defensor do Black Power e presidente nacional do Congresso de Igualdade Racial (CORE) Floyd McKissick. Talvez por coincidência, durante esse período, McKissick recebeu um compromisso de US$ 19 milhões da administração Nixon para seuprojeto de vaidade Soul City .
19.   Sugiro como funciona a cadeia de associações em Adolph Reed, Jr., “How Serious Is the Authoritarian Threat in the United States? O que podemos fazer sobre isso?” Sonhos comuns , 12 de novembro de 2022, https://www.commondreams.org/views/2022/11/12/how-serious-authoritarian-threat-us-what-can-we-do-about-it .
20.  Mara Ostfeld e Michelle Garcia, “Black Men Shift Slightly Toward Trump in Record Numbers, Polls Show”, NBC , 4 de novembro de 2020, https://www.nbcnews.com/news/nbcblk/black-men-drifted- democratas-em direção a trunfo-números-recordes-pesquisas-mostra-n1246447; e Steven Shepard, “New Poll Shows How Trump Surged with Woman and Hispanics — And Lost Anyway”, Politico , 30 de junho de 2021,https://www.politico.com/news/2021/06/30/new-trump- enquete-mulheres-eleitoras-hispânicas-497199 .
21.   Ver, por exemplo, Leslie Lopez, “’I Believe Trump Like I Believe Obama!’ Um estudo de caso de dois eleitores ‘latinos’ de Trump da classe trabalhadora: meus pais”, nonsite.org (novembro de 2016),https://nonsite.org/i-believe-trump-like-i-believed-obama/ .
22.  Mais uma vez, a melhor estimativa é que entre 6,7 e 9,2 milhões de eleitores de Trump em 2016 votaram em Obama em 2012. Geoffrey Skelley, “Just How Many Obama 2012-Trump 2016 Voters Were There?”, Sabato’s Crystal Ball, 1 de junho. , 2017,https://centerforpolitics.org/crystalball/articles/just-how-many-obama-2012-trump-2016-voters-were-there/ .
23.   Adolph Reed Jr., “The Case Against Reparations”, The Progressive (dezembro de 2000): 15–17; e Adolph Reed Jr., “’Let Me Go Get My Big White Man’: The Clientelist Foundations of Contemporary Antiracist Politics”, nonsite.org 39 (março de 2020),https://nonsite.org/let-me-go -pegue-meu-grande-homem-branco/ .
24.  Sobre esta última resposta, ver, por exemplo, “The Reparations Debate (Keeanga Yahmatta-Taylor and Adolph Reed, Jr.),” Dissent, 24 de junho de 2019,https://www.dissentmagazine.org/online_articles/the -reparações-debate .
25. Reed e Reed, “Evolução da ‘Raça’”; e Merlin Chowkwanyun, “Raça, classe, crise: o discurso da disparidade racial e seu descontentamento analítico”, em  Socialist Register 2012: The Crisis and the Left , ed. Leo Panitch, Greg Albo e Vivek Chibber (Londres: Merlin Press, 2011), 149–75; Adolph Reed, Jr., “Esplendores e Misérias da ‘Esquerda Antiracista’”, nonsite.org (novembro de 2016),https://nonsite.org/splendors-and-miseries-of-the-antiracist-left-2/; Adolph Reed, Jr., “Black Politics After 2016”, nonsite.org 23 (fevereiro de 2018),https://nonsite.org/black-politics-after-2016/ ; Reed, “Fundações Clientelistas”.
26.   Walter Benn Michaels e Adolph Reed, Jr., “The Trouble with Disparity”, nonsite.org 32 (setembro de 2020), https://nonsite.org/the-trouble-with-disparity/ . Reimpresso em Michaels e Reed, No Politics but Class Politics (Londres: ERIS Press, 2023).
27.  Adolph Reed, Jr., “ The South: The Past, Historicity, and Black American History (Part 1)”, Blog de História Intelectual dos EUA, 3 de abril de 2023,https://s-usih.org/2023/04 /o-sul-a-historicidade-passada-e-a-história-negra-americana-parte-1 /; e Adolph Reed, Jr., “ The South: The Past, Historicity, and Black American History (Part 2),” US Intellectual History Blog, 10 de abril de 2023, https://s-usih.org/2023/04/ o-sul-a-historicidade-passada-e-a-história-negra-americana-parte-ii/.
28. Reed e Reed, “Evolução da ‘Raça’”, 122; Adolph Reed, Jr., “Bayard Rustin: As Panteras também não puderam nos salvar”, nonsite.org 41 (janeiro de 2023), https://nonsite.org/bayard-rustin-the-panthers-couldnt-save- nós-então-outro /; Adolph Reed, Jr., “A surpreendente saga inter-racial da desigualdade de riqueza moderna”, The New Republic , 29 de junho de 2020, https://newrepublic.com/article/158059/racial-wealth-gap-vs-racial- disparidade de rendimentos-desigualdade económica moderna; Adolph Reed, Jr., “Quer transformar a marcha impiedosa da gentrificação em uma parábola de progresso? The New York Times mostra como isso é feito”, The Nation, 4 de abril de 2023,https://www.thenation.com/article/society/gentrification-racecraft-nyt-class/. E quem duvida que o resultado final do programa de reparações de São Francisco – https://www.nytimes.com/2023/05/16/us/san-francisco-reparations.html – será, em vez de uma soma absurdamente grande de pagamentos de transferências individuais, uma sincera confidência públicaou rejeição do passado obscuro em favor do ideal neoliberal de oportunidades iguais perante a lógica do mercado? E, se tiver algum efeito material, será uma soma muito menos absurda reservada em fundos de desenvolvimento direcionados à raça que tornará os negros ricos mais ricos, acompanhada por programas de correção de subclasses que propagam o Evangelho da Prosperidade no lugar onde deveria estar a redistribuição?
29.  Kenneth W. Warren, Tão preto e azul: Ralph Ellison e a ocasião da crítica (Chicago: University of Chicago Press, 2003), 27.
 
 
Adolfo Reed, Jr.  é professor emérito de ciência política na Universidade da Pensilvânia e organizador da iniciativa Medicare for All-South Carolina do Instituto Debs-Jones-Douglass. Seus livros mais recentes são The South: Jim Crow and Its Afterlives (Verso, 2022) e com Walter Benn Michaels, No Politics but Class Politics (ERIS, setembro de 2022). Atualmente, ele está concluindo um livro, When Compromises Come Home to Roost: The Decline and Transformation of the U.S. Left for Verso e, com Kenneth W. Warren, You Can’t Get There from Here: Black Studies, Cultural Politics, and the Evasion of Desigualdade com Routledge. Seus outros livros incluem O Fenômeno Jesse Jackson: A Crise de Propósito na Política Afro-Americana; REDE. Du Bois e o pensamento político americano: o fabianismo e a linha da cor; Agitações no Jarro: Política Negra na Era Pós-Segregação; Notas de aula: posando como política e outros pensamentos no cenário americano; e coautor com Kenneth W. Warren et al., Renewing Black Intellectual History: The Ideological and Material Foundations of African American Thought.

compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Nonsite [Aqui!  ].

Humor, racismo e algumas histórias que vocês deveriam conhecer

piada-racista

POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

Sou professora em uma Universidade Pública no Brasil. Moro no Estado do Rio de Janeiro. Aqui, sob o governo de Cláudio Castro, o Estado pratica chacinas e não estamos em uma guerra civil. Não há como achar nada de engraçado nisto, embora a favela seja um dos temas prediletos dos humoristas brasileiros. Estudo racismo em delegacias, em Tribunais de Justiça e escuto muitos operadores do direito expondo seu carinho por seus amigos negros. Amigos do futebol, os porteiros dos prédios de Copacabana, os camaradas de roda de samba ou mesmo de baile funk. Os “negros do coração” não são os genéricos que morrem diariamente.

Eu vivi muitos anos olhando o mar como quem olha uma novela do Manoel Carlos. Eu vivi sob uma ilusão de ótica, um processo de formação cognitiva com  Vera Fischer e Regina Duarte estampando as novelas. Eu cresci vendo as mamis negras do sítio do Pica Pau Amarelo ou fazendo o povo rir de suas “formas de falar” em um país de analfabetos. Nunca vi graça nisto. Nunca achei homens negros fazendo o papel de bêbados algo engraçado. Qual era a graça? Mas eram os maiores bordões da televisão.

Eu soube da Cabana do Pai Tomás, com um ator branco, pintado de preto escalado para fazer o papel de um escravo de bom coração. E quem não sabe de Lucélia Santos fazendo a escrava Isaura em um dos maiores sucessos nacionais? Uma escrava de pele alva. Pois é, Léa Garcia, Ruth de Souza, Zezé Motta são atrizes estupendas. Nunca tiveram o tratamento devido. Existe neste país o Teatro Experimental do Negro sob a batuta de Abdias do Nascimento. Mas isto nunca interessou ao mainstream. Nunca interessou uma linguagem na qual os negros fossem livres, autônomos e escrevessem suas próprias piadas. Sempre fomos a escada do humor nacional. Por mais de um século. Porque qualquer escritor mediano sabe a capacidade corrosiva de uma piada anti sistema.  Daquelas que desafiam a burguesia, que riem do medo cotidiano da família tradicional, que mostram o alto custo da manutenção das aparências, das formas repressivas de poder.

Eu nasci em 75. Assisti Mussum nos Trapalhões. Vi Triller do Michael Jackson sob o medo das bombas , da Guerra Fria. E admirava as atletas cubanas. E não gostava da seleção canarinho, mas gostava de sair mais cedo da escola no caminhão do meu pai e ver a televisão colorida. Cresci com a televisão e com os discos do Gilberto Gil e de Alcione. Mas também do Pink Floyd. Eu vi todos os programas de humor. Vi o genial Chico Anysio e seus patriarcas baianos, vi os corruptos urbanos de Jô Soares, vi as tentativas inovadoras da TV Pirata e uma infinidade  de Bobagens das Organizações Tabajara. Vi Sai de Baixo e os pobres rindo de um branco destilando ódio aos pobres. E no mesmo programa, as piadas que rendiam aplausos ao mostrar uma mulher “gostosa e burra” em horário nobre. Vi um país rindo de um personagem alcoólatra e uma praça que sendo “nossa” era cheia de ofensas ao povo, ofensas ao “simplório” ao “caipira”.  Sem falar na infinidade de representações sobre as bichas e sapatões, a humilhação de quem não tinha o corpo perfeito enquanto uma empregada semi nua subia uma cadeira para pegar um livro e era apalpada pelo patrão. Vi as gerações mais jovens da classe média da PUC fazendo algo engraçado, uma paródia do que já era velho, uma perseguição sobre a vida de um estilista querido e talentoso como Clodovil. Nunca irritaram os patrocinadores. Porque os negros sempre estiveram lá para fazer rir, sem que o contrário fosse possível. Nunca rimos dos que acreditam em meritocracia mas sempre aplaudimos os jovens do sudeste com suas piadas sobre morar com os pais aos 40 anos e ter uma empregada para lavar suas cuecas.

O pessoal acha engraçado imitar o Mano Brown como se estivesse passeando em um zoológico. Um homem negro tem de ser engraçado (para que não seja ameaçador, tem de ser domesticado, para que não seja um alvo). Acham que é uma homenagem construir um personagem para Grande Otelo que tem problemas com álcool. E acreditam que no Brasil, a Juliana Paes tem competência dramática para interpretar a negra Gabriela de Jorge Amado. Eu vi tudo que passou na televisão, todos os formatos, todos os personagens, todas as invenções. Elas sempre foram a cópia do mesmo, do domesticado, da graça que te faz dormir sem angústia porque a gente tinha de saber que as piadas sobre negro e capim (ambos deviam morrer ao nascer, para não crescer) eram só um momento de descontração na aula de veterinária da UFRGS. Afinal, o Brasil é o paraíso racial da mulata seminua com a qual a moçada do humor não casaria. Mas “pegaria com prazer”. Sempre tem aquela cota Noêmia , Pimenta, para que se saiba, “olha o pessoal é descolado mesmo”. Vamos continuar deixando que eles operem nosso imaginário e até cantem nosso samba. Que recreativo! Vidas negras importam, mas a gente pode até fazer esquete dizendo que somos racistas. Assim, eles não vão reparar nesta farsa sobre nosso humor progressista. Que genial. Quem fica com os milhões em propaganda? O Porchat.

Nós negros temos …

Nós temos a Motown Records, temos a diáspora, temos John Coltrane . Temos Garrincha e Ruth de Souza. Temos familiares presos, comida de menos e problemas demais. Temos uma relação com a morte de difícil tradução. Pois o Estado atualiza diariamente os padrões de sofrimento e racismo. Temos Carnavais em disputa e Orfeus. Temos Baden Powel, construção de si como fato, como ato, contra a violência da cultura de batata frita.

Temos Clara Nunes.

Vocês não são engraçados. Vocês são um clube de privilégio fechado que se ressente quando perde o biscoito e não suporta a nossa velocidade. Quando soltamos o murro, vocês gritam censura. O roteiro não saiu como esperado. Vocês passaram. Tipo fruta murcha.

E precisamos todos, enegrecer.


*Luciane Soares da Silva é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce).

Para surpresa de ninguém, trilha do trabalho escravo chega a Campos dos Goytacazes

trabalho-escravo-na-cana

O jornal “O DIA” publicou uma reportagem mostrando que os municípios de Campos dos Goytacazes e São Francisco do Itabapoana são o foco da prática do trabalho escravo no estado do Rio de Janeiro. A reportagem se baseou em um estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o qual serviu de base de um seminário realizado este mês na Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 1ª Região (Amatra1). Um dos pontos destacados durante o debate foi a questão racial, na qual a maioria dos trabalhadores imigrantes escravizados são negros e africanos. 

trabalho escravo

Como alguém que acompanhou de perto os trabalhos do Comitê pela Erradicação do Trabalho Escravo do Norte Fluminense que ajudou a libertar centenas de trabalhadores escravizados em áreas de monocultura da cana-de-açúcar na primeira década do Século XXI, recebo essa notícia com pouca surpresa. É que apesar das condições que fizeram Campos dos Goytacazes a principal área de libertação de escravizados no início do atual século terem sido arrefecidas, nunca houve de fato a culpabilização dos responsáveis. Como isso, até forma óbvia, agora se descobre que o trabalho escravo continua fincado no município.

Talvez seja a hora de reativar o Comitê pela Erradicação do Trabalho Escravo, pois suspeito que existem mais trabalhadores sendo postos em condições de trabalho degradante ou até mesmo de condições análogas à escravidão.

Ah, sim, como não lembrar o apoio dado a Jair Bolsonaro pelos sindicatos patronais locais nas duas últimas eleições presidenciais. Se me perguntarem se esse apoio era acidental, as últimas revelações sobre trabalho escravo apontam na direção oposta.

As razões do atual ataque ideológico e financeiro às universidades públicas

ciencia educação

No último debate presidencial transmitido pela Rede Globo coube ao senhor Kelmon Luis da Silva Souza (a.k.a., “Padre Kelmon”) realizar um forte ataque ideológico às universidades públicas brasileiras. Dentre os muitos absurdos assacados por um cidadão cuja ligação a algum tipo de clero é, no mínimo, questionável sobressaiu-se a repetição da cantilena de que as universidades públicas, muitas deles reconhecidas internacionalmente como centros de divulgação de pesquisas inovadoras e de formação de recursos humanos qualificados, de que não passamos de núcleos esquerdistas que nada dão de volta para o país.

O problema aqui é que o “Padre Kelmon”  (que em sua vida terrena é o feliz proprietário de uma loja de artigos religiosos e bijuterias em um prédio comercial em Brasília) serviu-se do local onde estava para ser o porta-voz dos esgoto in natura que prolifera nas redes de comunicação da extrema-direita brasileira.  Quem tem um mínimo de conhecimento sobre o cotidiano das universidades sabe que nem somos um centro avançado do pensamento de esquerda (aliás, o inverso é que realmente ocorre), nem nossos estudantes vivem em orgias diárias, pois a maioria tem mesmo é que se virar para sobreviver ao rigor de uma vida universitária que muitas vezes não dá as devidas oportunidades para quem nela entra.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, mas principalmente como filho de um trabalhador metalúrgico, sei que as universidades públicas são a principal oportunidade para que muitos jovens saiam de situações de grande dificuldade social para se tornarem os primeiros de famílias inteiras a terem o grau universitário. Foi assim comigo, e assim como muitos dos jovens com quem tive a oportunidade de interagir desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Ao contrário do que se propala, a maioria deles se origina de famílias da classe trabalhadora que chegam até nós com imensas lacunas de formação, já que a degradação da rede pública de educação vem avançando de forma impiedosa. Entretanto, com as oportunidades oferecidas pela Uenf, tenho o orgulho de dizer que a imensa maioria dos meus alunos aproveitou a oportunidade para se elevar intelectualmente, tendo muitos deles alcançado níveis de formação que provavalmente ninguém em suas próprias famílias esperava.

Mas há que se olhar as reais razões dos ataques contra as universidades públicas para melhor desenhar formas de defendê-las do projeto de destruição que paira sobre elas neste momento.  Uma das primeiras razões é que a produção científica nacional sai majoritariamente das universidades públicas, já que a maioria das instituições privadas não só oferece ensino de baixíssima qualidade, mas como também nelas não se gera qualquer tipo de conhecimento científico.  Como vivemos em uma conjuntura onde conhecimento científico é equiparado como ameaça ao projeto político que é expresso por Jair Bolsonaro e seus filhos, temos essa campanha de difamação.

Por outro lado, há uma razão econômica para que se tenta desacreditar o potencial transformador que está depositado dentro das universidades públicas. É que desde que entrei na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1980 se sabe que há um projeto para privatiza-las para quem sejam transformadas em novas fábricas de diplomas que gerariam fortunas para seus proprietários.  Não é à toa que o governo Bolsonaro está seguindo a receita usual para quando se quer privatizar uma empresa pública: primeiro se desacredita, depois se privatiza.

Finalmente há a questão do acesso dos pobres às universidades públicas, pois mesmo com as oportunidades limitadas oferecidas pelas políticas afirmativas, hoje há uma maioria afluência de jovens pobres. Como a maioria desses jovens são afro-descendentes, aparece o incomodo que uma sociedade fraturada por diferenças raciais não tolera. Por isso, os ataques de natureza racista que volta e meia aparecem até dentro das próprias universidades.

Mas se sabemos as causas desse ataque visceral às universidades públicas, por que então tanto silêncio das comunidades universitárias que assistem caladas a todos essas alegações caluniosas? Salvo engano não houve qualquer manifestação pública contra o auto denominado “Padre Kelmon” por parte de reitorias ou sindicatos universitários e, tampouco, de associações representativas da ciência brasileira como a Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). 

Aliás, desde o golpe de 2016 contra a presidente Dilma que me pergunto o porquê de tamanha covardia por parte da comunidade acadêmica e científica brasileira contra essa campanha de difamação. Provavelmente é porque não devido valor ao risco que estamos sofrendo, ou porque se preferem a atitude escapista de que se o risco for ignorado, ele vai desaparecer por um passe de mágica.

Na minha opinião, é passada a hora de uma ampla campanha de defesa das universidades públicas que deveria começar justamente por quem está dentro dela. Não vai ser com a atual atitude de avestruz com a cabeça enterrada na areia que vamos responder ao ataque incessante que nos é promovido pela extrema-direita, muitas vezes com ajuda interna.  A hora de reagir é agora, pois se esperarmos mais tempo, o que acontecerá já está escrito nas estrelas e não é preciso ser astrônomo para saber do que se trata.

Rio de Janeiro, movimentos sociais e mídia: como ir além da indignação

violencia

Por Luciane Soares da Silva*

Tenho estudado as situações de violência no Rio desde 2005. E gostaria de ofertar uma contribuição para pensar os desdobramentos atuais em dois casos de racismo (um deles de racismo e xenofobia): o caso de Moïse e o caso do sargento que atirou em seu vizinho. No primeiro caso, temos o linchamento de um refugiado político vivendo desde 2011 no Brasil. Morto pela ação brutal de 3 homens. Morto por exigir o pagamento pelo trabalho realizado. No segundo caso, Durval, homem negro de 38 anos, igualmente um trabalhador, foi confundido por seu vizinho, Aurélio, sargento da Marinha. E baleado dentro do próprio condomínio. Acredito que não precisamos recuperar o número de vezes em que um homem negro foi confundido pela polícia. Policiais já confundiram furadeiras, sombrinhas e até moedas de um real com armas. Já alvejaram pessoas inocentes neste estranho hábito de confundi-las com outras. Sempre o mesmo grupo é confundido: os negros.

Estes dois casos têm além do racismo outro ponto em comum: geram comoção social e ganham as redes e a grande mídia. Produzem pressão sobre o Estado. Voltando a 1992, o Jornal Nacional repetiu ad nauseum cenas de uma confusão em Ipanema, classificada como arrastão pela mídia. A Polícia Militar ofereceu outra explicação. Pesquisadores da área também. Mas desde então, não importa. A categoria funkeiro tem sido o motor de manchetes que associam bailes a tráfico. E portanto, chacinas praticadas nestes locais recebem o aval da sociedade. Foi o caso da chacina da Providência, mortes no Turano e recentemente Paraisópolis em São Paulo. Estar em um baile funk libera a sociedade civil para apoiar o extermínio da juventude trabalhadora de periferia.

O caso Tim Lopes é um marco fundamental para compreender a relação entre mídia, cidade e favelas.  O jornalista da rede Globo, premiado e reconhecido por suas matérias investigativas, estava disfarçado na Vila Cruzeiro e foi torturado e morto por ordem de Elias Maluco. Tim faria uma reportagem sobre denúncias envolvendo menores e uso de drogas em bailes. A favela está para a cidade do Rio de Janeiro como uma fonte inesgotável de crime, vícios, desordens e todo tipo de aberração. As manchetes colaboram para banalização de decapitações, corpos carbonizados, furados a balas, mutilados. Impossível que qualquer morador do Rio nunca tenha se deparado com a cena de 10 ou mais pessoas em frente a uma banca de jornal debatendo uma manchete do Povo com um cidadão sem cabeça ou sem as mãos. A questão envolvendo Tim Lopes foi uma ruptura definitiva com tempos menos violentos. A imagem de um homem andando com uma espada, as notícias de incremento cada vez maior das armas, tudo isto mostrava que o Rio entrava em uma nova era. A era da intensificação das mortes por atacado e das execuções bárbaras.

Em 2014, DG, dançarino do programa “Esquenta” apresentado por Regina Cassé, foi morto por uma ação policial no Pavão Pavãozinho. Em julho de 2013, o pedreiro Amarildo sumiu em uma unidade de polícia pacificadora. Sob comando do Major Edson, foi torturado e sua família jamais obteve o corpo. Não se sabe onde está Amarildo. Marcus Vinícius de 14 anos foi atingido em um incursão policial na Maré em 2018.  Usava camiseta da escola. Em maio de 2020, João Pedro e outras quatro crianças perderam a vida durante ação da Polícia Militar. Estes são casos que ganharam notoriedade. Tantos outros não tiveram o mesmo desfecho.

Por outro lado, os casos de linchamento a castigos físicos públicos se tornaram mais comuns nos últimos. Basta lembrarmos do caso de um jovem negro amarrado a um poste, nu, no Flamengo em 2014.

Todos estes casos têm elementos em comum. O fato de gerarem comoção pública é o primeiro. É importante dizer isto porque o número de mortes e violações que não ganham espaço na mídia é bastante expressivo. Recentemente este fato foi debatido na comparação do caso Henry com o caso do 3 meninos de Belford Roxo desaparecidos em dezembro de 2020. Ou seja, a mídia seleciona e dá maior visibilidade para certos casos. Dito isto, vamos ao segundo elemento importante: a mobilização da sociedade civil por justiça. Situações de violência nas favelas são cotidianas, a exigência de justiça pelos mortos e desaparecidos estão presentes na base de movimentos contra a violação dos direitos humanos.

Lamentavelmente a resposta do Estado é limitada. Famílias sem apoio psicológico em seu pós trauma, falta de resolução nas investigações e sobretudo falta de punição são uma constante neste sistema. A exoneração de secretários, a criação de programas como as Unidades de Polícia Pacificadora, o café da manhã na Providência com uma mãe que encontrou seu filho mutilado, em tudo isto funciona a mesma lógica cosmética de uma segurança pública que não pode (porque não quer poder) atacar problemas como eles devem ser atacados.

Em julho de 2013, vi um policial subindo a Rocinha com um tubo de conexão para improvisar um banheiro. Compreendi o que tinha ouvido alguns dias antes: a UPP dependia da crença em sua existência para que funcionasse como política. Não havia efetivo suficiente e nem recursos. Jogar um policial de 18 anos com formação de seis meses em uma favela de 100 mil habitantes? Descobrimos com o sumiço de Amarildo como as práticas da Ditadura seguem vivas dentro destas instituições.

Segundo um dos relatos sobre o caso Moïse, a Guarda foi chamada mas preferiu não se envolver. Talvez porque soubesse quem era o dono do quiosque. Nestas relações de dominação territorial não há a menor possibilidade de cidadania efetiva. O homem comum, trabalhador, será tratado como estabelecido no Código do Império: coisa.  Ou seja, em minha avaliação há um acordo muito tácito em funcionamento entre aqueles que espancam um ser humano até a morte, aqueles que deveriam prover segurança e aqueles que rifam o território por terem as credenciais para isto. Não há espaço para a universalização de direitos. Nossa cordialidade nos obrigada a saber sempre com quem estamos falando.

As manifestações de indignação e luto deverão dar lugar a ações sem trégua dos movimentos sociais e da sociedade civil pela ampliação do debate sobre as instituições de controle. As oficiais e sobretudo, as extra-oficiais.

Entregar dois quiosques para que virem um memorial em homenagem a cultura congolesa e africana, segue a mesma lógica cosmética e diversionista descrita acima. É a lógica da UPP social, é a lógica de renomear as ruas com o nome dos mortos pela polícia. É a lógica do faz de conta. O Estado conta com nosso esquecimento. O Estado conta com nosso medo. E com a mídia em seu trabalho eterno de morder e assoprar. Mantendo altos seus índices de audiência.

É o Fado Tropical de Chico Buarque, que me faz pensar em um torturador sentimental. De tudo isto que trago o verso :

“Oh, musa do meu fado, Oh, minha mãe gentil, Deixo-te consternado,

No primeiro Abril, Não seja tão ingrata, não esqueças quem te amou,

E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir o seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.


*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).