Blog entrevista advogada e pós-graduanda da Uenf que organizou café da manhã para usuários do Restaurante Popular após o seu fechamento pela Prefeitura de Campos dos Goytacazes

restaurante-popular

Uma das medidas que considero mais controversa  e injusta foi o fechamento do Restaurante Popular Romilton Bárbara no dia 9 de Junho (Aqui!). De forma bem antenada com a realidade da ação via redes sociais, esse fechamento foi parcialmente minimizado quando um grupo de amigos que inclui a advogada e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Estadual do Norte Fluminense (uenf), Maria Goretti Nagime, se organizou para oferecer um pequeno café da manhã para os ex-usuários do restaurante fechado pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes.

goretti 1

Maria Goretti Nagime, advogada e pós-graduanda em Sociologia Política da Uenf, durante o horário de distribuição do café da manhã aos ex-usuários do restaurante popular que foi fechada pela Prefeitura de Campos dos Goytacazes em 09/06/2017

Interessante notar que essa ação foi criticada como sendo um estratagema para prejudicar o prefeito Rafael Diniz, inclusive por órgãos da mídia corporativa local.

Como não vi mais informações na mídia sobre a ação de solidariedade iniciada por Maria Goretti e seus amigos, entrei em contato com ela para saber mais sobre a iniciativa, suas finalidades e, principalmente, se o lanche continua a ser servido como ocorreu nos primeiros dias após o fechamento do restaurante popular.

Abaixo seguem as respostas que Maria Goretti ofereceu a um conjunto de questões que enviei via e-mail.  As respostas trazem uma série de reflexões importantes sobre o que ocorre quando o Estado, seja em qual nível de governo esteja, opta por cortar o financiamento de programas sociais para os mais pobres e, principalmente, o que pode ser feito para mitigar os prejuízos que este tipo de opção de recorte neoliberal causa sobre os mais pobres. Mas a entrevista também traz boas notícias, incluindo a que nos informa que o lanche continua sendo servido dentro do melhor espírito de solidariedade que deveria reger as nossas relações sociais cotidianas e, lamentavelmente, continua sendo uma exceção.

Por que vocês decidiram iniciar o oferecimento de café da manhã aos usuários do restaurante popular após a interrupção dos serviços pela Prefeitura de Campos dos Goytacazes?

MARIA GORETTI: Sempre que eu saía do Fórum da Justiça do Trabalho, passava pela fila do restaurante popular. Era muito nítido que o restaurante atendia a pessoas muito simples, incluindo os moradores de rua. O perfil das pessoas que enfrentavam a fila não é o perfil de pessoa que tem R$ 10,00 para comprar um lanche; da pessoa que se dá ao “luxo” de ir a uma lanchonete e escolher o que prefere comer.  São pessoas que almoçavam com R$ 3,00: R$ 1,00 para ir de ônibus ao restaurante, R$ 1,00 para almoçar e R$ 1,00 para voltar para casa.

Quando esse perfil de pessoa com dinheiro contado se deparasse com o portão fechado, teria então dois reais, um para a volta e mais um, que não daria nem para um Guaravita. Voltaria pra casa com fome ou viraria um pedinte. As duas situações são degradantes. Por isso pensei em atenuar um pouco a situação de quem fosse pego de surpresa com o fechamento do restaurante na segunda-feira: iríamos distribuir sanduíche, café e leite. Seria, portanto, somente nesse dia.

FullSizeRender

Chamei pra participar 3 amigos que reclamaram do fechamento no Facebook. Fizemos uma vaquinha pra comprar os itens pra 150 pães e 10 litros de café com leite. Colocamos um cartaz dizendo “grátis, sanduíche, leite, café”. Não queríamos uma mensagem política, queríamos só diminuir o problema da fome deles naquele dia.

Percebi de fato que era um ato político quando os jornais da cidade – que não falam de problemas da atual gestão – começaram a procurar defeitos naquele ato simples de dar sanduíche, sem sequer cartaz com fala política. Um ato feito por vaquinha dando comida a sem teto. Esses jornais sempre criminalizaram projetos sociais e pessoas que implementavam os projetos sociais, como o Bolsa Família. Mas afirmavam que falavam mal porque os projetos continham erros de gestão e etc. Mas por que procurar defeitos em 4 amigos fazendo vaquinha pra dar sanduíche a sem teto?

Achei um fato curioso e guardei as reportagens e publicações de políticos da prefeitura que afirmaram que não deveríamos ter feito isso. Pretendo pesquisar no doutorado os projetos sociais de combate à fome que deram certo no mundo e o porquê da marginalização desses projetos sociais.

Tenho desconfiado que projetos de combate à fome geram a ira de classes que obtém vantagens através de exploração da miséria humana. Se todos forem tratados como humanos e tiverem alimentação e moradia, só aceitarão trabalhos que não vão ferir a dignidade humana. Já um cidadão desesperado, com medo de morrer de fome, aceitará trabalhar um dia inteiro no sol por um prato de comida. Desconfio, portanto, que dar um prato de comida ofenda aos exploradores porque dificulta a exploração.

Faríamos a entrega dos sanduíches só na segunda-feira do fechamento, pra amenizar a surpresa ruim de quem contava com isso. Mas uma vendedora do comércio que trabalha em frente ao restaurante popular nos enviou uma foto do dia seguinte, a terça feira. Os moradores de rua estavam no mesmo horário em fila esperando a gente. Ficamos muito incomodados com isso e começamos tentando fazer todos os dias.

Em uma semana tive muitos prazos e pedi pra meu marido tentar cuidar disso sozinho. Foi a primeira semana em que conseguiram fazer em todos os dias da semana.  Ele organizou muito bem os voluntários e doações.  E esta é a quarta semana em que estamos conseguindo fazer todos os dias, graças à Deus.

Em média, quantas pessoas participam da distribuição dos alimentos servidos?

MARIA GORETTI: Geralmente 4 pessoas, mas já conseguimos fazer a distribuição com apenas 3 pessoas.

O que vem sendo servido aos ex-usuários do restaurante popular neste café da manhã?

MARIA GORETTI: Todo dia doamos 300 pães com manteiga e mortadela e 17 litros de café com leite. No primeiro dia chegamos a levar café separado. Senti-me muito boba. Lá eu descobri que ninguém queria o café puro. Os moradores de rua sempre fazem opção pelo que alimenta mais. Isso acontece por dois motivos que agora me parecem muito claros: porque já chegam lá com fome e porque não sabem quando comerão de novo.  

Quantas pessoas estão sendo atendidas no momento e qual é o perfil social delas?

MARIA GORETTI: Damos 300 sanduíches todos os dias, mas sabemos que muitos entram na fila de novo pra repetir. Acredito que atendemos de 170 a 230 pessoas. 70% são de fato moradores de rua, pessoas que vivem em situação sub-humana.  Por outro lado, acredito que os demais 30% sejam pessoas que passam por aperto, mas tem acesso a outras refeições garantidas por dia.

Repito, uma pessoa que tem oportunidade sempre irá preferir escolher um salgado em uma lanchonete. Não enfrentará uma fila no sol ou confiará em um sanduíche dado de graça por um desconhecido.  

Há alguns dias choveu durante a distribuição. Como estou grávida, uma colega moradora de rua me colocou junto dela embaixo de seu guarda-chuva. Parei pra observar a fila na chuva. Você sabe que o morador de rua pra se secar no frio é complicadíssimo. Estava frio, chovendo e ninguém saiu da fila. Vi as pessoas com chinelo de dedo, o pé dentro da lama, com a água da chuva correndo, e eles não saíam da fila. E eles estavam esperando nosso modesto lanche. Foi o dia que mais me marcou.  

IMG_8025

De que forma vocês estão garantindo os recursos necessários para realizar o oferecimento deste café da manhã?

MARIA GORETTI: Eu compro os itens da semana no supermercado e mostro a nota fiscal pras pessoas. Quando alguém pode “cobrir um item” (dizer, por exemplo, que vai pagar o leite da semana ou a mortadela, ou o pão) eu pego o dinheiro da pessoa, circulo o item doado na notinha e escrevo o nome da pessoa que doou. O custo geral é de mais ou menos R$ 600,00 por semana.

Quais são as principais dificuldades que vocês estão encontrando para continuar prestando esta ação social?

MARIA GORETTI: É grande a adesão para doações dos itens e para montar os sanduíches lá em casa toda noite, mas é difícil encontrar pessoas que possam sair do trabalho no meio da manhã para fazer a distribuição aos sem-teto. Por isso peço pra quem tiver um grupo de 4 pessoas e puder ficar responsável de forma fixa por algum dia da semana, eu agradeceria muito.

Claro que quem puder doar os itens ou ficar responsável pela montagem seria muito bem vindo também. Mas o problema urgente tem sido a disponibilidade em horário comercial pra entrega das doações. Quem puder ajudar de alguma forma, entre em contato pelo telefone 22 997374134

Apesar do alto valor social desta iniciativa, já li críticas ao que vocês estão fazendo. O que você teria a responder a quem tem criticado esta iniciativa?

MARIA GORETTI: Diria que quem não tem consciência social, por favor, não atrapalhe quem tem.

Há algo mais que você gostaria de falar e que eu não perguntei?

MARIA GORETTI: Queria pedir à Prefeitura de Campos dos Goytacazes para que, se tiver planos de cumprir o que prometeu na campanha (prometeu não acabar com os programas sociais que estavam em curso), por favor, dê uma data para a reabertura do restaurante. Isso nos ajudaria muito a organizar as doações e os voluntários até essa data. Temos pessoas conscientes dentro da prefeitura e tenho certeza que essas pessoas estão tentando reaver os programas sociais para honrar os votos que receberam, para não manchar sua biografia e principalmente porque tem vocação pró-social mesmo.

Quero agradecer de coração a todos que doaram e doam os itens. Saibam que sem vocês não somos absolutamente nada.

Agradeço a todo o grupo que viabiliza a ação. À Jubiraca, que acorda 6 da manhã pra fazer os 17 litros de café com leite na segunda, terça e quarta, à minha sogra que faz isso na quinta e sexta.  À Carolina, Laís e Stefany, que são as mais atuantes na montagem dos pães. À Amélia , Andressa e Vanessa, que  entregam com a gente. À Grazi, que lutou bravamente até o dia do parto do filho!  À Luid, uma das pessoas mais especiais que já conheci, que sempre dá um jeito de ir lá ajudar a distribuir. Ao Campista Polêmico (Douglas), que foi a primeira pessoa que chamei pra participar, que nunca teve medo de divulgar nossa ação na página consagrada dele e já foi lá entregar os alimentos com a gente. À você, professor, que sempre tive admiração e está nos ajudando a divulgar agora. E ao meu marido Pedro, que me ajuda nesse projeto e em todos em que me meto. A justificativa dele é idêntica à minha: “preciso fazer essas coisas pra justificar minha existência”. 

IMG_8045 (2)

Entrevista do procurador geral do município sinaliza: sob a desculpa de não imitar Sérgio Cabral e Pezão, vem aí mais arrocho nos pobres e servidores

diniz pezão

O Prefeito Rafael Diniz (PPS) apoiou e foi apoiado pelo (des) governo Pezão, e seu partido, o PPS, pertence à base de apoio do governo no Alerj.

O jornal Folha da Manhã publicou em suas edições impressa e digital uma longa entrevista com o procurador geral do município de Campos dos Goytacazes, o advogado José Paes Neto sob o curioso título de “Reverter o caos dos Garotinho para não virar Estado do Rio” (Aqui!). Eu digo que é curioso porque o (des) governador Pezão apoiou a candidatura de Rafael Diniz para prefeito de Campos dos Goytacazes e o PPS, ao qual o alcaide pertence, faz parte da base de apoio do governo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ao ler algumas partes substantivas da entrevista, encontrei menções a mais cortes que deverão ser realizados para supostamente equilibrar as finanças de um município que possui um orçamento anual de R$ 1,5 bilhão de reais e, curiosamente, as áreas que deverão sofrer os efeitos da tesoura serão a saúde e a educação, sob o argumento de recorte neoliberal conhecido como “otimização”.

Vi também que a receita aplicada pelo (des) governo Pezão, o qual o procurador geral diz querer não ver repetido, deverá ser aplicado aqui: apertar o cerco aos servidores, impondo até ponto eletrônico em hospitais nos quais já sabemos que não há comida para os servidores. Em outras palavras,  corremos o risco de vermos funcionários passando fome dentro das unidades hospitalares, sem poderem sair para sequer se alimentar, sob pena de serem pegos pelo ponto eletrônico.

Achei ainda curioso a sinalização de que se vai apertar o cerco aos servidores concursados e sobre os prestadores de serviços pagos via o chamado Recibo de Pagamento Autônomo (RPA).  Entretanto, não identifiquei nenhum esforço para diminuir a ocupação de cargos comissionados por apadrinhados políticos que se sabe continuam onerando de forma absurda a folha de salários da Prefeitura de Campos dos Goytacazes.

Considero que esse receituário, que já incluiu o fechamento do restaurante popular, a suspensão do Cheque Cidadão, e 100% de aumento no valor da passagem de ônibus, é exatamente o mesmo que foi utilizado por Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão em seu reinado no Palácio Guanabara. A semelhança é inequívoca, e aí fico me perguntando se o problema é mesmo impedir um iminente colapso financeiro ou garantir que só os pobres sofram com a sua consumação.  Pelo andar da carruagem, está mais para o segundo do que para o primeiro.

Então, me desculpem lembrar,  Rafael é Pezão e Pezão é Rafael!

Novos tempos em Campos dos Goytacazes: manifestação ruidosa de servidores municipais tem reação silente da mídia local

diniz 2

A região do mercado municipal de Campos dos Goytacazes foi palco hoje de uma ruidosa manifestação de servidores públicos municipais, principalmente da área da saúde (ver vídeo abaixo). O interessante é que procurando nos veículos da mídia corporativa local e da blogosfera encontrei apenas uma menção ao ato no site “Diário da Planície” (Aqui!).

O silênco quase sepulcral em torno dessas manifestações difere diametralmente do comportamento que vigiu durante os oito anos do governo Rosinha Garotinho quando qualquer resfriado era apresentado pela mídia local como pneumonia.  

Mas o que também parece ter mudado é o comportamento dos servidores municipais que raramente faziam protestos, muito menos públicos.  A razão para isso pode ser, curiosamente, resultado da eleição do prefeito Rafael Diniz que prometeu não só mais diálogo, como uma maior valorização dos servidores.

Ao consultar colegas que trabalham na área da saúde e que participaram da manifestação me foi dito que a motivação para o protesto foi a suspensão da alimentação oferecida pela Fundação Municipal da Saúde (FMS) aos servidores dos hospitais municipais, e ainda mudanças na escala de trabalho. Segundo que me foi dito, essas mudanças estão sendo vistas como quebra de compromissos eleitorais, os quais estariam causando forte comoção na categoria.

Essa manifestação pode ser apenas a primeira de uma longa série. É que pelos cálculos já feitos pelo economista Ranulfo Vidigal, a administração municipal está diante da possibilidade real de um colapso financeiro (Aqui!), o poderá levar a que o prefeito Rafael Diniz assuma a mesma postura do seu aliado político, o (des) governador Luiz Fernando Pezão, e passe a atrasar o pagamento de salários. Se isto se confirmar, certamente ficará mais difícil para a mídia corporativa e a blogosfera local continuarem silentes quando as manifestações que os servidores municipais certamente vão realizar.

Os servidores do HFM e do HGG vão mesmo ser deixados sem comida?

O ofício abaixo está circulando na internet e nos dá conta do que seria uma suposta nova “economia” nos cofres públicos de Campos dos Goytacazes: a suspensão da alimentação de servidores do Hospital Ferreira Machado (HFM) e do Hospital Geral de Guarus (HGG) por conta de “desabastecimento”, seja o raio que isso for,  a patir do dia de ontem.

memorando-fms-650x888

Como o “memorando” não está assinado, há a chance de ser “hoax” da internet. E até prefiro acreditar que seja mesmo um dos mitos da internet. E eu explico porquê? É que seria o cúmulo do absurdo deixar servidores sem comida em unidades hospitalares lotadas, sem que haja uma estrutura disponível para que eles matem sua fome em longos turnos de trabalho.

Além diss é preciso lembrar que a gestão Rafael Diniz há mais de um mês vem contribuindo para deixar Campos dos Goytacazes no mapa mundial da fome após ter fechado sem oferecer maiores informações o restaurante popular “Romilton Bárbara” (Aqui!).

Assim, vamos esperar maiores informações da mídia corporativa e de blogs “chapa branca” sobre se esse “memorando” é verdadeiro ou não. É que se for verdadeiro iria por terra mais uma promessa eleitoral do prefeito Rafael Diniz: valorizar os servidores municipais da saúde.

Rafael Diniz, um governo neoliberal de viés progressista que pune os pobres para alegria dos ricos

Por Luiz Henrique Moraes*

Recentemente o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad escreveu um excelente relato sobre os quatro anos de sua gestão municipal, na revista Piauí [Aqui!]. Haddad citou artigo de Nancy Fraser, coordenadora de campanha do senador democrata Bernie Sanders, nas primárias do Partido Democrata, nos EUA, concorrendo na época com a senadora Hillary Clinton [Aqui!]. O artigo de Fraser discorre sobre o fim do neoliberalismo progressista com a vitória à presidência dos EUA do outsider e empresário Donald Trump para um neoliberalismo conservador e totalmente excludente.

Este neoliberalismo contempla a famosa exploração da capital financeiro com as pautas identitárias, as minorias, os negros, LGBT, mulheres. Hillary sendo concorrente do magnata conservador Donald Trump representava a elite financeira e rentista de Wall Street, em detrimento dos trabalhadores e da classe média norte-americana, cada vez mais pobre devido o amento da concentração de renda e desindustrialização das grandes cidades industriais como Detroit e Flint, ambas no estado do Michigan.

Creio que, através de minhas observações, o governo Rafael Diniz segue o passo de um neoliberalismo com rosto progressista, que pune e penaliza os pobres com cortes nos programas sociais como o restaurante popular, a suspensão do cheque cidadão, o aumento das passagens subsidiadas pelo governo de R$ 1,00 para R$ 2,00, e a cobrança de taxa de abastecimento de água para as famílias das localidades da zona rural campista como. Governo que promove ao mesmo tempo a representatividade de minorias em sua gestão como negros (Igualdade Racial),  mulheres (secretarias municipais), LGBT (promoção de políticas e eventos).

O atual governo promove uma política municipal de incentivo à ciência e a pesquisa distribuindo bolsas de iniciação cientifica a estudantes das universidades sediadas na cidade por meio de fundo de desenvolvimento local. Um feito exemplar que, todavia, ocorre num momento em que este mesmo governo nega direitos aos mais pobres, direitos mais básicos como acesso a alimentação. Citando e refletindo: retira do orçamento os pobres, detonando as políticas sociais, e investe num sistema de incentivo a quem “estuda”, por meio da meritocracia. Muito comum ouvir de pessoas, contrárias às políticas sociais, que em vez de promover políticas de transferência de renda aos pobres para que eles possam alcançar condições mínimas de sobrevivência seria melhor investir o dinheiro público naqueles que estudam, pois estes por seu esforço pessoal e garra automaticamente superam sua condição de hipossuficiência.

O governo Rafael Diniz orienta suas políticas como um governo de centro-direita, que pratica uma política de austeridade fiscal contra os mais pobres, aqueles cidadãos não organizados que não possuem proteção dos sindicatos quanto das leis trabalhistas. Um governo que promove o desmonte da Seguridade Social, da assistência social, que causa a felicidade e regozijo de uma elite local que apoia os cortes nos programas sociais.

Nós pobres (Sim, eu me incluo!) somos permanentemente massacrados pela violência praticada pelo Estado, com a benção das camadas médias e altas da sociedade, que executa o desmonte das políticas de mitigação das disparidades sociais, não investimento em uma educação pública de qualidade, um sistema público de saúde que funcione corretamente, transporte público adequado, acesso a previdência social pública, equipamentos culturais e de lazer, melhoria da infraestrutura urbana como saneamento básico e ambiental, acesso a rede de energia elétrica, abastecimento e tratamento de água e esgotamento sanitário, proteção à maternidade e a infância e a assistência aos desamparados.

A intervenção social do governo segundo a doutrina social da igreja

O prefeito, que é um cristão devoto talvez não obtivesse acesso à leitura da Encíclica papal Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII em 1891 que trata da intervenção social do Estado em benefício dos mais pobres e trabalhadores. Numa época em que a Revolução Industrial gerou riqueza para poucos e piora nas condições de vida dos trabalhadores a Igreja Católica passou a construir sua Doutrina Social. Leão XIII apoiava o direito dos trabalhadores a se organizarem em sindicatos em busca de proteção laboral, a discussão entre patrões, trabalhadores, o governo e a igreja. O documento papal refere alguns princípios que deveriam ser usados na procura de justiça na vida social, econômica e industrial, por exemplo, a melhor distribuição de riqueza, a intervenção do Estado na economia a favor dos mais pobres e desprotegidos e a caridade do patronato à classe trabalhadora.

Leão XIII criticava o socialismo dos marxistas e se opunha ao liberalismo econômico, vigente na época, o apoio de Leão XIII aos sindicatos e a um salário digno era considerado algo revolucionário naquele período. O governo Rafael Diniz pratica o liberalismo econômico em favor dos abastados e deixa os mais pobres à sua própria sorte deixando de seguir a orientação social da igreja com os menos favorecidos. Repito que é um governo de centro-direita que realiza cortes no orçamento das políticas de assistência social e mantém as regalias dos mais abastados. Não é dando oportunidade a pequenos grupos pertencentes às minorias, sem realizar políticas de universalização dos direitos de todos os cidadãos, que chegaremos a uma sociedade mais justa e fraterna visando o bem comum. Neste caso as pautas identitárias são usadas como forma de humanizar governos de ideologia liberal que promovem a exclusão da maioria da população, tornando os pobres como culpados de sua situação de pobreza e miséria. O governo Diniz se soma aos governos que executam o desmonte da construção de um Estado de Bem Estar Social no Brasil.

Nós pobres temos direito a nossos direitos. Devemos repudiar a violência praticada tanto pelos governos quanto pela sociedade por meio da exclusão social, do preconceito, da humilhação cotidiana, devemos lutar por segurança social, pelo direito a vida, a locomoção, a liberdade de expressão, ao trabalho decente, a comunição social, etc.  

Citando a fala do corajoso personagem Daniel Blake, no filme Eu, Daniel Blake do diretor britânico Ken Loach: Eu, Daniel Blake sou um ser humano e não um cão. Segundo os Racionais MC’s na canção Fim de semana no parque:

Aqui [periferia] não vejo nenhum clube poliesportivo

Pra molecada frequentar, nenhum incentivo

O investimento no lazer é muito escasso

O centro comunitário é um fracasso

Mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo

Tem bebida e cocaína sempre por perto

A cada esquina 100, 200 metros

Nem sempre é bom ser esperto

Referências:

Encíclica Papal Rerum Novarum: https://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

Estado de Bem Estar Social: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_de_bem-estar_social

Eu, Daniel Blake: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eu,_Daniel_Blake

Racionais MC’s, Fim de semana no parque: https://www.letras.mus.br/racionais-mcs/63447/

*Luiz Henrique Moraes é servidor da Universidade Estadual do Norte Fluminense e aluno do curso de Engenharia Ambiental do Instituto Federal Fluminense/ campus Guarus.

 

A gestão Diniz, seus menudos neoliberais, e o discurso tecnocrático usado para ocultar a guerra aos pobres

rafael

As ações da nova (velha) gestão do prefeito Rafael Diniz estão sendo marcadas por uma moeda de duas faces: por um lado o corte nos investimentos em políticas sociais voltadas para os mais pobres e, por outro, a aplicação de um linguagem tecnocrática para justificar essas ações.  Como essas ações estão sendo justificadas publicamente por pessoas jovens, a intenção clara é colocar isto num patamar de novidade onde o técnico seria preponderante sobre o político, de modo a conceder um padrão moral mais elevado em relação às práticas anteriores comandadas pela prefeita Rosinha Garotinho.

Se não fosse pelo “mero” detalhe de que até agora as principais ações deste discurso tecnocrático foram voltadas para deixar mais desprotegidos, os que têm menos, eu poderia até deixar me enganar. Entretanto, basta olhar para a teia de relações montadas para garantir uma maioria avassaladora na Câmara de Vereadores para se notar que a velha política está viva e forte nas mãos de Rafael Diniz e seus “menudos” neoliberais.

Aliás, abro aqui um parentese para notar a presença do prefeito Rafael Diniz na cerimônia de encerramento no evento científico que ocorreu no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e que também contou com a participação do Instituto Federal Fluminense (IFF) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).  Ao vê-lo sendo convidado a falar,  pensei com meus botões que o prefeito de Campos iria marcar um gol de placa, pois quebrava a longa tradição dos prefeitos de Campos de ignorar o valor da Uenf para a cidade.

Lamentavelmente, a sua fala foi uma imensa repetição de ladainhas sobre a herança maldita e uma fabulosa crise financeira que seria a pior da história de Campos dos Goytacazes (nem parecia que ali falava o prefeito de uma das cidades com os maiores orçamentos do Brasil!). Se não soubesse de múltiplas nomeações de parentes para cargos comissionados regiamente remunerados, e de incontáveis cartas convites para contratos milionários que dispensam as “incômodas” licitações determinadas pela Lei 8.666/93, eu poderia ter caído na conversa do prefeito; mas como conheço, fiquei com a sensação de que ele havia perdido um gol em baixo da linha. De quebra, alunos da UFF que estavam do meu lado, e que agora não podem mais usar o restaurante popular, estavam propensos a puxar uma vaia por terem sido deixada na “chuva” juntos com os pobres sem local para se alimentar, o que só não aconteceu em respeito ao evento.

Aliás, faltou ao prefeito Rafael Diniz explicar por que até hoje não enviou o suporte da Guarda Civil Municipal (GCM) para policiar o entorno do campus Leonel Brizola que continua totalmente abandonado. Em que pese a reitoria da Uenf ter cumprido a sua parte no acordo que envolveu a cessão de um espaço físico para abrir o grupo ambiental da GCM!

Voltando à suposta dicotomia entre tecnocracia e ação política, é preciso lembrar que este mote já foi utilizado por Fernando Collor e está sendo usado por João Dória em São Paulo.  Essa contraposição é claramente um subterfúgio para ocultar a ampliação da privatização dos bens públicos, o que rotineiramente tem servido para ampliar a precarização de serviços e direitos dos servidores públicos, bem como a ampliação da miséria dos mais pobres.

Lamentavelmente há gente que se pretende de esquerda caindo na ladainha do “velho contra o novo”, e abrindo mão de oferecer uma saída construtiva que supera os grupos que dominam a política local.  Ao se servir de postos na administração municipal ou por legitimar fóruns que servirão apenas para fortalecer o ataque aos pobres, estes setores se auto condenam à inexpressividade em que se encontram e, pior, facilitam o retrocesso no pouco que existia de distribuição de renda em nosso município. A estes setores eu diria para não correr o risco de “jogar a criança fora com água suja do banho”; a criança sendo neste caso as políticas sociais que estão sendo extintas. 

Finalmente, vamos ver como fica a situação desta gestão após o aumento de 100% no valor das passagens de ônibus. É que esta ação estará atingindo em cheio uma parte significativa do eleitorado que garantiu a vitória do prefeito Rafael Diniz, que certamente não deixará de lembrar o refrão “você pagou com traição com que sempre te deu a mão”. A ver!

Ao prefeito com carinho: menos chororô e mais ação, por favor

amchoro

Não sei se é a falta do meu salário desde Abril que está me deixando menos paciente, mas o chororô que emana das bandas da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes não anda me comovendo muito e, tampouco, a fábula da “herança maldita”.

É preciso lembrar que não apenas o prefeito Rafael Diniz e parte de sua bancada de apoio na Câmara Municipal ofereceram cerrada oposição parlamentar ao governo da prefeita Rosinha Garotinho (como aliás deve fazer quem não pertence à bancada governamental), oferecendo inclusive várias denúncias no Ministério Público contra atos que consideravam ilegais. E vamos reconhecer, o segundo mandato de Rosinha Garotinho foi muito fraco, provavelmente por causa da falta de milho para se fazer pipoca. Ai, para muitos, acabou o amor.

O problema é que agora como governo, composto majoritariamente por quem prometeu uma nova  forma de governar a cidade de Campos, não é possível argumentar que não se tinha noção do tamanho do problema. É que se for assim, com isso se passa um auto atestado de incompetência, pois como vereador de oposição, o prefeito teria que saber o que o esperava. Se não sabia, fica evidente que não cumpriu corretamente o seu papel de fiscalizar os atos do governo que o antecedeu. E se sabia está se fazendo de bobo e fugindo de suas próprias responsabilidades.

Mas esqueçamos as formalidades dos cargos e vamos ao que interessa. É que até o mais ingênuo dos campistas sabia que haveria grande dificuldade financeira ao se entrar no governo. Então o mais óbvio é que não fossem feitas promessas eleitorais que seriam o primeiro alvo da tesoura em nome de um austeridade fiscal para lá de seletiva, vide o corte drástico nas políticas sociais voltadas para os segmentos mais pobres da população.  Assim, se já sabiam que iam cortar o cheque cidadão, fechar o restaurante popular e aumentar o valor da passagem de ônibus, que não tivessem prometido o contrário. É que como bem já disse Antoine de Saint-Exupéry,  “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Ou, no caso em tela, por aquilo que foi prometido e não cumprido.

De quebra, o fato é que até agora o que se assistiu na gestão Rafael Diniz foi a sucessão de uma série de improvisações e do uso repetido da cantilena anti Garotinho.  Se isso não for mudado rapidamente, os primeiros seis meses vão parecer os melhores de um governo que está se preparando para ser um completo desastre.

Finalmente, há que se lembrar que existe uma linha muito fina separando a herança da co-participação, inclusive com penalidades legais para quem passa de um ponto para o outro.  Enfim,  esse é apenas um dos custos de sair de estilingue para vidraça.