Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.

Quando a extrema-direita transforma denúncias em massa em instrumento de censura nas redes sociais

O bloqueio da conta oficial do Blog do Pedlowski no Instagram, após a publicação de um card crítico a Flávio Bolsonaro, expõe os riscos de transformar os mecanismos de segurança das big techs em instrumentos de silenciamento político

Aparentemente, para determinados setores da extrema-direita brasileira, a liberdade de expressão é um direito reservado àqueles que compartilham suas posições políticas. Quando alguém ousa questionar suas propostas e candidatos, a tão proclamada defesa dessa liberdade parece desaparecer. É o que sugere o episódio que estou enfrentando no Instagram, onde minha conta oficial (@marcospedlowski), com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se bloqueada pela Meta sob a justificativa de proteção contra uma possível invasão. Curiosamente, o bloqueio ocorreu após a publicação de um card crítico à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que desencadeou uma onda de ataques de seus apoiadores.

O card reúne críticas às propostas econômicas e sociais associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro, abordando questões como o SUS, o Bolsa Família, a educação pública, o salário mínimo e os direitos trabalhistas. Seu conteúdo foi construído a partir de propostas programáticas e declarações públicas atribuídas ao candidato e a seus assessores. As consequências apontadas constituem interpretações políticas que podem e devem ser debatidas, não fatos já consumados. Discordar dessas interpretações é legítimo; tentar impedir sua circulação é outra coisa. Mais curioso ainda é ver acusações de fake news partindo de setores políticos cuja trajetória inclui episódios documentados de disseminação de desinformação. Parece que não basta disputar a hegemonia política: há quem também pretenda conquistar o monopólio das fake news e da autoridade para definir o que pode circular nas redes sociais.

Depois de sucessivas tentativas de recuperar minha conta pelos mecanismos oferecidos pela Meta, continuo preso a um circuito burocrático digital que não leva a lugar nenhum. A empresa afirma estar me protegendo, mas o resultado concreto é que estou impedido de acessar uma conta construída ao longo de anos. Embora ainda não disponha de provas técnicas de que os ataques tenham provocado diretamente o bloqueio, a sequência dos acontecimentos exige esclarecimentos. Afinal, a própria Meta já reconheceu a existência de operações coordenadas de denúncias em massa destinadas a retirar indevidamente conteúdos e contas de suas plataformas.

O problema é muito maior do que o bloqueio de uma conta. Se grupos políticos organizados conseguirem explorar os mecanismos automatizados das big techs para silenciar adversários, estaremos diante de uma modalidade particularmente eficiente de censura privatizada. Não será necessário fechar jornais, apreender computadores ou enviar policiais às redações. Bastará mobilizar militantes para acionar sistemas de denúncia e deixar que algoritmos opacos façam o restante. E tudo isso sob a conveniente justificativa de proteger os usuários.

A ironia é evidente. Setores da extrema-direita que apresentam qualquer tentativa de regulamentação das plataformas como um atentado à liberdade de expressão parecem não demonstrar o mesmo entusiasmo por essa liberdade quando seus adversários são atingidos. Essa contradição reforça a necessidade de impor regras transparentes às big techs, garantir mecanismos efetivos de contestação e impedir que empresas transnacionais exerçam tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

Por isso, exijo que a Meta esclareça as razões do bloqueio, informe se houve denúncias coordenadas ou tentativas efetivas de invasão e disponibilize um procedimento funcional para recuperar minha conta. Não reivindico privilégios, mas o direito de continuar exercendo minha liberdade de expressão, inclusive para criticar propostas políticas que considero prejudiciais à classe trabalhadora e aos direitos sociais.

Finalmente, fica uma pergunta: é essa a democracia que a extrema-direita pretende oferecer ao Brasil, na qual a discordância política é respondida com intimidação e tentativas de silenciamento? Se esse método se generalizar, especialmente com a complacência ou a incapacidade de reação das big techs, estaremos diante de uma ameaça concreta ao pluralismo político e à própria democracia.

Enquanto isso, continuarei publicando no Blog do Pedlowski. Afinal, bloquear uma conta pode dificultar a circulação das ideias, mas não elimina o pensamento crítico. E, para quem imagina que a democracia pode ser reduzida a um botão de denúncia, fica um lembrete: a liberdade de expressão não é propriedade privada da extrema-direita, e muito menos das big techs.

Preprints e a Ciência sob Pressão: a Ilusão da Verdade Imediata

Como a circulação acelerada de resultados preliminares amplia a desinformação científica e produz novas formas de autoridade sem validação

É possível debater o fenônomeno dos chamados “preprints” sem cair em alarmismo — mas também sem ingenuidade. Eles são uma ferramenta poderosa de circulação rápida do conhecimento, mas carregam um risco estrutural: a possibilidade de amplificar ciência frágil antes que ela seja devidamente testada.

Nos últimos anos, plataformas como arXiv, bioRxiv, earthAXiv e medRxiv se consolidaram como espaços legítimos de divulgação científica preliminar. A lógica é simples: compartilhar resultados rapidamente, abrir espaço para críticas e acelerar o debate acadêmico. Em áreas como física e matemática, isso já é prática consolidada há décadas. O problema começa quando esse modelo é transplantado, sem mediações, para campos altamente sensíveis — como saúde pública, epidemiologia ou políticas sociais.

O ponto central é que preprints não passam por revisão por pares. Isso não é um detalhe técnico; é a espinha dorsal do problema. A revisão por pares, apesar de imperfeita, funciona como um filtro mínimo de qualidade, coerência metodológica e integridade dos dados. Ao contornar essa etapa, os preprints se tornam, por definição, trabalhos em aberto — hipóteses em teste, não conclusões validadas.

O risco se agrava quando esses estudos escapam do circuito acadêmico e ganham circulação pública. Durante a pandemia de COVID-19, vimos um volume sem precedentes de preprints sendo citados por jornalistas, influenciadores e até gestores públicos como se fossem evidência consolidada. Resultados preliminares, muitas vezes baseados em amostras pequenas ou metodologias frágeis, foram transformados em manchetes. Em alguns casos, estudos foram posteriormente retratados ou profundamente revisados — mas o dano informacional já estava feito.

Há ainda um efeito colateral menos discutido, mas igualmente preocupante: a emergência de “celebridades científicas” construídas sobre evidências precárias. Em um ambiente que recompensa visibilidade e afirmações contundentes, alguns autores passam a acumular seguidores e capital simbólico a partir de preprints chamativos, ainda não validados. Essas figuras frequentemente ocupam espaços na mídia e nas redes sociais como vozes de autoridade, mesmo quando suas conclusões não resistem ao escrutínio posterior. O problema não é apenas individual, mas sistêmico: cria-se um atalho entre produção preliminar e prestígio público, contornando os mecanismos tradicionais de validação científica. Quando esses preprints são contestados ou refutados, a reputação construída tende a persistir — e, com ela, a circulação de interpretações equivocadas.

Esse fenômeno revela um descompasso entre o tempo da ciência e o tempo da comunicação. A ciência avança por tentativa, erro, revisão e correção. Já o ecossistema informacional contemporâneo — marcado por redes sociais e ciclos rápidos de notícias — privilegia o impacto imediato. Nesse ambiente, um preprint com conclusões “fortes” tem muito mais chance de viralizar do que um artigo revisado com resultados mais cautelosos.

Outro problema sério é a instrumentalização política e ideológica dos preprints. Grupos com agendas específicas podem selecionar estudos preliminares que reforcem suas posições, ignorando o caráter provisório desses trabalhos. O resultado é a fabricação de uma aparência de legitimidade científica para ideias que, na prática, ainda não resistiram ao escrutínio básico da comunidade acadêmica.

Nada disso significa que preprints devam ser descartados. Pelo contrário: eles são úteis e, em alguns casos, indispensáveis. Permitem transparência, circulação rápida de ideias e até correções mais ágeis do que o sistema tradicional de publicação. O problema não está na ferramenta em si, mas no uso social que se faz dela.

O desafio, portanto, é construir uma cultura de leitura crítica. Isso passa por alguns pontos fundamentais: deixar claro, sempre, que se trata de um estudo não revisado; evitar sua utilização como base para decisões políticas ou recomendações clínicas; e, sobretudo, reforçar o papel da mediação científica qualificada — seja por pares, seja por divulgação científica responsável.

Em última instância, a questão dos preprints expõe algo maior: a fragilidade das fronteiras entre produção de conhecimento e circulação de informação. Em um mundo onde qualquer resultado pode ganhar alcance global em minutos, a responsabilidade não é apenas dos cientistas, mas também de jornalistas, gestores e do público em geral.

A ciência não se fortalece com velocidade, mas com rigor. Quando a pressa substitui o escrutínio, o que se dissemina não é conhecimento — é ruído com aparência de verdade.

Redes sociais como base para a propaganda do fascismo

Os conteúdo de direita está bombando nas redes sociais e entre os jovens. A receita para o sucesso da agitação autoritária é anterior à digitalização 

Influenciadores de direita – propaganda fascista

Foto: nd/Max Sauerbier

Por Alex Struwe para o “Neues Deutschland”

“Ódio e incitação” não são apenas um modelo de sucesso na era digital . Já na década de 1940, o sociólogo Leo Löwenthal, que havia imigrado para os EUA, analisou pregadores de ódio fascistas em seu estudo “Falsos Profetas”. Ele explicou seu apelo, mesmo para democratas liberais, abordando especificamente o que chamou de mal-estar: uma “condição básica da vida moderna”, manifestada, por exemplo, na sensação de ter sido enganado ou de ter se tornado um perdedor. Para aliviar esse sofrimento, o agitador propõe a ideia de que os aproveitadores uniram forças em uma conspiração, que escondem por trás de ideias e instituições liberais. Onde antes havia impotência, a agressão é fomentada: contra inimigos extremamente poderosos, contra o Estado corrupto e sua “elite”, que então é descarregada em inimigos indefesos, como refugiados ou “parasitas”.

Como o agitador usa com sucesso esse mal-estar para incitar sentimentos, ele não pretende fazer nada a respeito da crise social. “Ao contrário”, escreve Löwenthal, “ele se esforça para aprofundá-la a ponto de se condensar em uma relação paranoica com o mundo exterior. E quando seu público chega a esse ponto, está pronto para sua manipulação.” O cerne da publicidade fascista é, portanto, a ativação do indivíduo, ou seja, a atração de seguidores que prometem a superação da impotência precisamente por meio da submissão. As condições para o sucesso dessa receita dificilmente poderiam ser melhores na era digital: o presente parece mais assolado pela crise do que nunca, e as pessoas estão simultaneamente interconectadas e isoladas.

Influência no espaço pré-político

Não é de surpreender, portanto, que forças de direita queiram lucrar com essa constelação — e estejam conseguindo. Os altos índices de aprovação da AfD nas pesquisas e seu sucesso na última campanha eleitoral federal têm sido frequentemente associados à sua presença nas mídias sociais. Os partidos democratas abraçam abertamente demandas de direita, como o “controle migratório “. Os limites do que pode ser dito há muito se deslocaram para a direita, inclusive e especialmente online.

Isso constitui a base discursiva para o aumento de 48% na criminalidade e na violência de direita no ano passado, segundo o Ministério do Interior. Professores e centros de aconselhamento em escolas estão soando o alarme de que não conseguem mais controlar a “tempestade que se forma”, como a “NDR” noticiou recentemente sobre Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. As mídias sociais estão repetidamente no centro dessas descobertas sobre atitudes de direita entre os jovens. Grupos de direita estão explorando deliberadamente a infraestrutura digital, do YouTube, Instagram e TikTok ao serviço de mensagens Telegram, tanto para promover ativamente tópicos e termos como “remigração” na esfera pública online quanto para recrutar novos membros.

A organização juvenil do partido sucessor do NPD, Die Heimat, Junge Nationalisten (JN), por exemplo, conta não apenas com numerosos grupos locais de revolta recém-fundados, mas também com “divisões do TikTok” descentralizadas, como observou um relatório digital do Instituto Else Frenkel Brunswik (EFBI), em Leipzig. Esses grupos “perseguem uma estratégia sofisticada de mídia social, utilizando estéticas voltadas para os jovens, como jaquetas bomber, tênis, botas de combate ou looks fashion-wave, e combinam temas como migração com propostas de identidade e autovalorização”, escreve Alexander Ritzmann, do Projeto Contra o Extremismo (CEP).

O sucesso advém menos da sedução dos flautistas digitais do que da lógica do marketing de influência.

A plataforma de vídeos curtos TikTok, em particular, oferece aos extremistas de direita um alcance digital, de acordo com o relatório do EFBI. O algoritmo específico entrega vídeos aos usuários com base em suas preferências temáticas e também permite que vídeos de sucesso sejam copiados e disseminados por meio de pequenas variações. A enorme presença da AfD na plataforma, por exemplo, durante as eleições estaduais de 2024 e a última eleição federal, também foi possível graças ao uso de uma “guerrilha do TikTok” que publicou um grande número de vídeos relacionados à AfD.

No entanto, esses influenciadores decididamente “de direita” que acompanham manifestações ou editam vídeos de propaganda sobre orgulho nacional e propaganda racista são apenas a ponta do iceberg. Embora a estratégia “metapolítica” da Nova Direita seja ocupar o espaço pré-político, incluindo as mídias sociais, o sucesso real do conteúdo de direita decorre menos dos discursos memorizados de jovens neonazistas em vídeos online ou da sedução de flautistas mágicos digitais. A conectividade reside na lógica do marketing de influência.

A porta de entrada para a droga da “imprensa mentirosa”

O elo entre conteúdo explicitamente de direita e as mídias sociais é a narrativa da conspiração. Sua popularidade, por sua vez, segue a receita clássica para processar o desconforto: algo está errado lá fora, os políticos são corruptos e maquinações sinistras estão à espreita. Um dos temas preferidos aqui é a “imprensa mentirosa”, uma porta de entrada, por assim dizer, para o pensamento conspiratório. Isso reinterpreta a observação banal de que todo relato sobre a realidade contém um traço de interesses pessoais, assumindo uma mentira controlada e dirigida de cima. Aqueles que denunciam essa mentira podem se apresentar como supostamente honestos: afinal, eles estão dizendo as coisas como elas são e se posicionando, segundo a mensagem. As elites liberais, por outro lado, reivindicam seus próprios interesses como valores universais.

Por exemplo, Maximilian Krah, então uma estrela do TikTok para a AfD e agora membro do Bundestag, anunciou em um de seus vídeos: “Quer aprender sobre política? Definitivamente não com a ARD e a ZDF. Seja inteligente também. Assista a bons canais do YouTube e aos meus TikToks.” O político recomendou que os jovens evitassem assistir pornografia e não fossem “gentis, gentis, fracos e de esquerda”. Em vez de discurso de ódio abertamente aberto, Krah simplesmente usou os mecanismos do marketing de influência: personalidades acessíveis e supostamente autênticas oferecem suas dicas sobre rotinas de beleza ou fitness, estratégias de investimento ou produtos de forma direta. Mesmo quando sussurra sobre “os que estão no topo” e sua “mídia sistêmica” controlada, não se trata de dizer a verdade, mas sim do fato de que, na competição de ideias, ninguém mais pode dizer a verdade.

Ódio entre criptomoedas e fitness

No mercado digital de ideias, há uma sobreposição crescente entre tópicos populares de estilo de vida, como condicionamento físico, nutrição ou “independência financeira”, e a ideologia de direita. Os direitistas nem precisam se apropriar desses tópicos, por exemplo, por meio de conteúdo sobre artes marciais ou atitudes militares em relação aos esportes e ao corpo. Essencialmente, a propaganda fascista funciona de acordo com as regras das mensagens publicitárias — e a publicidade se tornou universal no espaço digital.

Essa conexão ficou evidente, por exemplo, nos chamados finfluencers, ou seja, influenciadores com estratégias financeiras e de investimento. Eles costumam apresentar um estilo de vida extravagante, por exemplo, em Dubai, que afirmam ter alcançado por meio de investimentos inteligentes. Para incentivar outros a seguirem seu exemplo, eles apregoam conhecimento secreto sobre os movimentos do mercado ou preveem a próxima crise.

No ano passado, os podcasters Kiarash Hossainpour e Philip Hopf causaram um pequeno escândalo com seu “Hoss & Hopf”, o podcast de maior sucesso da Alemanha na época, abordando tópicos como “Somos controlados por um sistema oculto?” e ​​”A poderosa família Rothschild e seus valores”. Clipes dos influenciadores financeiros foram compartilhados em massa no TikTok, assim como sua transição de gurus financeiros libertários para teóricos da conspiração de direita. A mensagem deles é: aqueles que buscam as estratégias de investimento certas, têm uma mentalidade vencedora, mantêm seus corpos em forma e suas almas puras e não se deixam levar pela lavagem cerebral para se tornarem perdedores podem alcançar a independência financeira e um estilo de vida jet-set.

A promessa de independência repete, no nível individual, o que os direitistas vislumbram como soberania para “seu país”: uma autodeterminação que deve ser alcançada precisamente pela submissão à ordem superior ou natural: a Alemanha para os alemães, os homens devem ser homens novamente, e as mulheres devem ser as chamadas “tradwives”. O mercado financeiro, ao qual os libertários prestam homenagem, é uma superfície de projeção ideal. Ele conduz os destinos do capitalismo global de uma forma altamente irracional e quase incompreensível. Com o conhecimento secreto que pode ser alcançado através do vínculo parassocial com modelos de sucesso, pode-se, dizem eles, tomar o próprio destino em suas próprias mãos.

A mesma estrutura subjaz às mensagens do novo movimento MAHA (Make America Healthy Again) nos EUA: contra o poder percebido das grandes corporações que supostamente envenenam as pessoas com aditivos alimentares, diversos influenciadores – sob o patrocínio do Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. – promovem novas dietas, o leite cru, a oposição à vacinação e, claro, suas respectivas linhas de produtos. Em vez de serem controlados pela sinistra máfia corporativa, essas dicas nutricionais prometem recuperar o controle sobre si mesmo e sobre toda a sua vida.

Esta é a mensagem publicitária central contra o desconforto e a impotência na atual situação de crise. E esse sofrimento pode ser aliviado com dicas de beleza ou uma rotina de exercícios adequada, bem como com a fantasia de ser capaz de combater as maquinações sinistras, da substituição populacional às vacinações forçadas, com a força do “verdadeiro povo”. Porque pouco importa o que é dito e o que é usado para confortar as pessoas sobre a sua suposta perda de soberania. Só o sucesso conta – e é isso que o fascismo e o algoritmo têm em comum.


Fonte: Neues Deutschland

Proteção infantil no mundo digital exige mais que tecnologia: o papel insubstituível das famílias na era das telas

Especialistas alertam que o uso de tecnologia para proteger crianças nas redes sociais não substitui o papel ativo das famílias e reforçam a necessidade de diálogo, presença e formação ética no ambiente digital

Diante do crescimento acelerado do uso de redes sociais por crianças e adolescentes, cresce também a urgência em discutir o papel da sociedade — e, em especial, das famílias — na formação digital das novas gerações. Enquanto propostas governamentais como a exigência de verificação de idade por inteligência artificial ganham espaço no debate público, especialistas alertam que soluções exclusivamente tecnológicas são insuficientes para enfrentar um problema que é, antes de tudo, humano.

Para o sociólogo Marcelo Senise, presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), confiar a proteção infantil a algoritmos e sistemas automatizados pode gerar uma perigosa sensação de controle. “Estamos diante de um desafio que exige presença, diálogo e responsabilidade compartilhada. Proteger de verdade vai além de apertar um botão”, afirma.

Senise chama atenção para os riscos associados ao uso de tecnologias como o reconhecimento facial para determinar a idade de usuários, ressaltando questões éticas, falhas técnicas e ameaças à privacidade de crianças e adolescentes. Mas seu alerta vai além das ferramentas: ele aponta para a ausência de políticas públicas robustas de educação digital e para a tendência de governos e plataformas buscarem soluções simbólicas, de fácil comunicação, mas de eficácia duvidosa.

Nesse cenário, escolas e famílias precisam atuar de forma conjunta, conscientes de que a formação ética e emocional das crianças no ambiente digital não pode ser delegada apenas à tecnologia. A experiência cotidiana revela mudanças significativas no comportamento infantil, muitas vezes moldado por conteúdos violentos, sexualizados ou distorcidos, consumidos sem mediação ou reflexão.

Para responder a esse desafio, iniciativas têm surgido em diversas comunidades escolares e espaços de formação, com o objetivo de promover encontros entre pais, educadores e especialistas. A proposta é simples, mas essencial: convidar as famílias a refletirem sobre os impactos do uso desordenado da tecnologia no cotidiano dos filhos — e sobre como retomar, com firmeza e afeto, o protagonismo na orientação digital.

Mais do que oferecer respostas prontas, esses encontros visam fortalecer laços. Afinal, como aponta Senise, não existe ferramenta mais eficaz na proteção infantil do que adultos atentos, presentes e comprometidos com a formação ética de suas crianças. A tecnologia pode ajudar, mas não substitui a presença. E esse, talvez, seja o maior desafio da nossa era.

Chefões das “big techs” abraçam Trump: gesto de força ou sinal de fraqueza?

O abraço entre as grandes empresas de tecnologia e o presidente Donald Trump vem suscitando uma série de reflexões sobre o futuro das chamadas redes sociais, já que boa parte da existência das mesmas se ancorou na premissa de que ofereciam novos espaços de sociabilidade que estariam livres do controle de governos.

Já é sabido que esa premissa era falsa, pois a relação entre grandes empresas e as diferentes administrações que governaram os EUA nas últimas décadas já estava clara. O problema é que agora está escancarado que figuras como Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg que estiveram na posse de Trump decidiram aderir à sua forma particular de hegemonismo estudanidense.  Diante disso,  cai definitivamente a máscara de neutralidade e se vê um processo de adesão a um projeto geopolítico que visa estancar a decadência da hegemonia política, econômica e militar dos EUA. 

A consequência dessa tomada de posição por parte das big techs estadunidenses que controlam as chamadas redes sociais dependerá do que irão fazer os bilhões de pessoas que acreditaram na ideia de que era possível estabelecer ambientes de interação social que dispensassem o contato direto entre as pessoas. 

Os próximos meses deveram ser importantes para se verificar o que vai acontecer em termos da migração de usuários para espaços que estejam ainda fora do controle do oligopólio de informação que foi sendo formado pela aquisição de redes e aplicativos, processo esse que deixou nas mãos de figuras como Elon Musk e Mark Zuckerberg o controle total da informação que circula de forma digital.

Por outro lado, há que se reconhecer que os chefões das redes sociais se jogaram no colo de Donald Trump por razões estratégicas para os seus negócios, em que pesem as mega fortunas que já acumularam.  A questão é que junto com a decadência da hegemonia dos EUA e o surgimento de blocos alternativos como o do BRICS, há o surgimento de uma contra-hegemonia que se ancora no extraordinário desenvolvimento das ferramentas digitais a partir da China. Essa parece ser a principal razão para que a máscara tivesse que cair. É mais um gesto de fraqueza do que de força, e com grandes riscos envolvidos já que a deserção dos usuários/consumidores poderá ser massiva.

Uma reflexão que me parece necessária é que embora tenhamos que reconhecer a  atual dominância das formas virtuais de relação social, esse giro das big techs forçará a todos nós a retomada de formas de interação que se julgava estarem ultrapassadas.  E essa parece a melhor notícia que surge nesse início de 2025.

Agarrados à tela

agarrados

Leandra Souza e Renata Buono  para a Revista piauí

Onipresentes na vida brasileira, as redes sociais causam vício e podem ser nocivas se usadas em excesso. Recentemente, a piauí publicou um artigo explicando como os smartphones sequestram nossas horas e apontando alguns caminhos para fugir dessa armadilha. Dados da consultoria Kepios, que analisa o tempo gasto por pessoas de diferentes países na internet, dão dimensão do problema. O brasileiro passa, em média, 3 horas e 37 minutos por dia nas redes – o triplo dos japoneses, por exemplo. O tempo que gastamos no WhatsApp é tão grande que consome um dia do nosso mês, em média. O =igualdades detalhou esses números.

Os quenianos são os que passam mais tempo logados nas redes sociais, seguido pelos sul-africanos e os brasileiros, de acordo com dados do relatório “Digital 2024: Global Overview Report”, publicado recentemente pela Kepios.

As mais de 3 horas que o brasileiro gasta diariamente nas redes sociais poderiam ser redistribuídas em outras atividades, como exercícios físicos ou a leitura de um livro. O tempo que o brasileiro dedica às redes sociais, somado em três dias, equivale ao tempo que seria necessário para ler as 368 páginas de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O WhatsApp é o aplicativo de troca de mensagens instantâneas mais popular no Brasil. Entre os usuários de internet com idades entre 16 e 64 anos, 93% o utilizam. 

O brasileiro, em média, está conectado a 8 redes sociais ao mesmo tempo. Estamos, portanto, acima da média mundial, de 6,7.

Depois das Filipinas e da Nigéria, o Brasil é o país onde mais usuários de internet seguem influenciadores digitais, segundo o ranking da Kepios. É um mercado enorme, cada vez mais explorado pela publicidade. Mulheres com idades entre 16 e 24 anos são o principal público desses influenciadores.

O Brasil é mais receptivo ao uso comercial da internet do que a média mundial. Oito a cada dez brasileiros procuram ou consomem produtos por meio das redes sociais, onde as ofertas são influenciadas por algoritmos.

No ranking da Kepios, o Brasil aparece como terceiro país onde mais usuários dizem que o principal motivo para usarem redes sociais é o acesso a notícias. São 53 a cada 100 brasileiros. Só Grécia e Polônia têm percentuais mais altos.


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Este texto foi originalmente publicado pela Revista piauí [Aqui!].

Estudo do Netlab da UFRJ analisa o conteúdo tóxico da Frente Parlamentar da Agropecuária nos anúncios da Meta

carossel fpaCarrossel de publicações no Instagram da FPA sobre a “Semana de Combate a Invasão de Propriedade Rural”. Fonte: Agência Pública

A emergência da pauta ambiental e da crise climática em todo o mundo tornou o monitoramento de discursos e estratégias narrativas sobre o tema uma das prioridades dos estudos de Comunicação. Nesse contexto, com o acompanhamento sistemático realizado pelo Labotatório de Estudos da Internet e Redes Sociais (Netlab) da UFRJ, foi possível identificar algumas práticas nocivas relacionadas à comunicação digital da bancada ruralista brasileira.

Para aprofundar esse entendimento, o estudo produzido pelo Netlab/UFRJ analisou a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), com foco em posts patrocinados no ecossistema da Meta, que inclui Facebook, Instagram, Audience Network e Messenger.

porta vozes

Pedro Lupion e Zequinha Barbosa são dois dos principais porta-vozes da FPA e seu papel na disseminação de conteúdo tóxico nas redes sociais

Além de identificar a frequência de narrativas calcadas em práticas de desinformação e/ou greenwashing, o estudo também analisa dados da microssegmentação aplicada aos anúncios – o que aponta para as estratégias de comunicação da FPA relacionadas ao público-alvo (ou grupos de interesse nas redes) e ao investimento pago à Meta pela veiculação dos anúncios.

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Exemplo de conteúdos utilizando “greenwashing” para melhorar imagem dos agrotóxicos que inundam a agricultura brasileira e ameaçam o meio ambiente e a saúde humana

Uma das coisas que o relatório mostra é que bancada ruralista é financiada por um grupo de 48 entidades, incluindo aí toda a indústria de agrotóxicos, que bancam da formulação de leis a posts pagos com desinformação sobre veneno e clima nas bases dos parlamentares mais ativos

Desta forma, com os dados levantados pelo Netlab da UFRJ é possível avaliar como a atuação da FPA nas redes se alinha a seus interesses econômicos, especialmente no que tange à regulação ambiental, e influencia a opinião pública a respeito de projetos legislativos em tramitação.

Quem desejar baixar o arquivo contendo o relatório produzido pelo Netlab/UFRJ, basta clicar [Aqui!].

Documentário inédito investiga os impactos do consumo excessivo das redes sociais no cérebro

O filme revela que brasileiros ficam, em média, 5 horas e 30 minutos por dia nas telas dos smartphones — mais de um terço do tempo em que estamos acordados

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Em um mundo cada vez mais acelerado, os smartphones se tornaram uma extensão de nós mesmos, proporcionando acesso instantâneo a uma infinidade de conteúdos. As redes sociais, em particular, têm um poder magnético graças aos reforços intermitentes habilmente incorporados em nossas experiências digitais. Para jogar luz sobre o tema, o documentário científico inédito “Dopamina – Os Efeitos das Redes Sociais no Cérebro”, a ser exibido com exclusividade no Curta!, parte de pesquisas e depoimentos com especialistas, e questiona com humor nossos hábitos e comportamentos relacionados aos aplicativos. A direção é de Léo Favier, com produção da ARTE France e da Les Bons Clients.

Laurent Madelain, especialista em comportamento humano, nos explica como esses reforços moldam nossas interações com os aplicativos. “Quando somos recompensados de forma imprevisível, seja com likes, mensagens ou descobertas inesperadas, nosso cérebro entra em um estado de antecipação. A incerteza dessas recompensas cria um loop vicioso, onde nos sentimos compelidos a rolar o feed em busca de mais gratificação”, explica.

Outros especialistas narram que, com o tempo, esse padrão de comportamento se transforma em hábito. A motivação inicial de receber recompensas é substituída pela rotina diária. Ao entrar no metrô ou esperar em uma fila, nosso cérebro automaticamente recorre ao telefone, sem pensar na possível recompensa. É como se a própria situação se tornasse um gatilho para o uso do smartphone.

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No entanto, esse hábito não é impulsionado apenas pelas recompensas imediatas. Mesmo que elas se tornem escassas ou inexistentes, ainda continuamos rolando o feed em busca de algo interessante. Essa busca incessante por estímulos novos e agradáveis é alimentada pela memória de experiências passadas e pela esperança de que algo valioso esteja à espreita nas próximas rolagens.

O resultado é um fenômeno crescente: passamos cada vez mais tempo em nossos smartphones, muitas vezes sem perceber a quantidade de horas que se acumulam ao longo do dia. A produção apresenta dados, revelando que na França e na Alemanha o tempo de tela já chega a 3h30 diárias, um aumento significativo em relação a alguns anos atrás. Nos Estados Unidos, esse número ultrapassa as 4 horas, superando o tempo gasto assistindo televisão. E no Brasil, atinge impressionantes 5h30, mais de um terço do tempo em que estamos acordados.

O documentário também levanta questionamentos no que se refere a essa conexão contínua com nossos dispositivos. “Estamos aproveitando ao máximo nosso tempo de forma produtiva? Ou estamos nos perdendo em um ciclo vicioso de hábitos digitais? É essencial refletirmos sobre nosso uso de smartphones e redes sociais, reconhecendo a importância de estabelecer um equilíbrio saudável entre a tecnologia e o mundo real”, questiona.

Embora as redes sociais proporcionem valiosas conexões e oportunidades, os profissionais entrevistados garantem que é crucial que sejamos mais conscientes sobre nossos comportamentos digitais. Ao estarmos cientes dos efeitos dos reforços intermitentes e dos hábitos que criamos, podemos fazer escolhas mais informadas e construtivas em nosso relacionamento com a tecnologia. Afinal, o poder de moldar nossas experiências digitais está em nossas mãos.

“Dopamina – Os Efeitos das Redes Sociais no Cérebro” pode ser assistido também no Curta!On – Clube de Documentários, disponível na Claro TV+ e em CurtaOn.com.br. Novos assinantes inscritos pelo site têm sete dias de degustação gratuita de todo o conteúdo. 

O documentário tem produção da ARTE France e Les Bons Clients. A estreia é na Sexta da Sociedade, 25 de agosto, às 23h.

Sexta da Sociedade (História Política, Sociologia e Meio Ambiente) – 25/08

23h – “Dopamina – Os Efeitos das Redes Sociais no Cérebro” (Documentário)

Facebook, WhatsApp, Instagram, Tiktok… O que acontece em nosso cérebro para que consultamos compulsivamente esses aplicativos sociais? Bem-vindo ao mundo da dopamina, uma molécula que a indústria de tecnologia sequestrou para melhor capturar nossa atenção e nos tornam cada vez mais viciados. Direção: Léo Favier. Duração: 52 min. Classificação: Livre. Horários alternativos: 26 de agosto, sábado, às 03h e às 16h30; 27 de agosto, domingo, às 22h.

Queima pelo WhatsApp e vende no Facebook: redes sociais como ferramentas preferenciais no saque da Amazônia por grileiros de terras

PF encontra suspeita de grilagem (roubo) de terra protegida na Amazônia que foi queimada no Dia do Fogo, em 2019. Reportagem encontrou mais de 150 ofertas suspeitas de áreas griladas no Facebook. Revelações dão sequência a investigação de Dom Phillips feita em parceria com a Repórter Brasil

grilagemÁrea queimada durante o Dia do Fogo na Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, no Pará, que foi anunciada no Facebook (João Laet/Repórter Brasil)

Por Karine Pfenniger e Mariana Abreu (Forbidden Stories) e Daniel Camargos (Repórter Brasil)

Um dos principais suspeitos por organizar o Dia do Fogo – quando fazendeiros do Pará combinaram por WhatsApp e incendiaram a Amazônia em 2019 – estaria envolvido em ao menos quatro tentativas de grilar (roubar) áreas protegidas da floresta queimadas na ocasião. É o que aponta investigação da Polícia Federal, obtida com exclusividade pelo “Projeto Bruno e Dom” – consórcio de jornalistas formado para investigar a pilhagem da Amazônia, e integrado pela Repórter Brasil.

Um dos terrenos queimados em 2019 foi posteriormente anunciado pelo Facebook. A revelação foi feita pela Repórter Brasil em 2020, em parceria com o jornal inglês The Guardian e o jornalista Dom Phillips. Há um ano, Phillips foi assassinado em uma emboscada no Vale do Javari, no Amazonas, durante investigação sobre a exploração da floresta. Para dar sequência ao trabalho dele, mais de 50 jornalistas de 10 países e 16 veículos de comunicação se uniram em um consórcio organizado pelo Forbidden Stories.

Seguindo o rastro de Phillips, o consórcio identificou 52 anúncios suspeitos publicados semanalmente no Facebook com a oferta de terras griladas. A rede social permite a divulgação das ofertas e, assim, tornou-se ferramenta fundamental no esquema de grilagem de terras na Amazônia.

O Dia do Fogo remete à articulação de fazendeiros e empresários do Pará para queimarem ao mesmo tempo áreas de pasto e floresta, ainda no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL). Nos dias 10 e 11 de agosto de 2019, os sistemas de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram 1.457 focos de incêndio no estado, 2.000% a mais em relação ao ano anterior.

Quase quatro anos depois e ainda sem punição aos envolvidos, o avanço das investigações leva ao presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso (PA), Agamenon Menezes. Apesar de investigado, ele continua atuando para transformar áreas protegidas, como a Floresta Nacional do Jamanxim e a Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, em fazendas para engordar bois ou plantar soja.

O esquema de grilagem tenta “legalizar” as áreas ao registrá-las no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – sistema do governo federal no qual donos de terras informam a localização de suas áreas. O simples registro não equivale ao título de propriedade, mas é suficiente para o grileiro obter um documento oficial e, assim, tentar reivindicar a posse. Por ser autodeclaratório e pela falta de controles administrativos, o cadastro facilita a grilagem.

Segundo a investigação da Polícia Federal, quatro fazendas localizadas dentro de áreas de preservação queimadas no Dia do Fogo foram registradas no CAR, por intermédio do sindicato rural de Novo Progresso, após a onda de incêndios. Quem assina os registros como responsável técnico é Wilmar Santos Melo, despachante do sindicato e genro de Agamenon. O relatório da PF foi enviado para o Ministério Público Federal, que não comenta as atividades de Melo e alega que a investigação corre em sigilo.

Desde 2015, Melo registrou no CAR 77 lotes inseridos parcial ou totalmente em unidades de conservação, onde é ilegal constituir propriedade privada, segundo cruzamento de dados realizado pelo consórcio de jornalistas. Isso significa que Melo, o sindicato e Agamenon Menezes podem estar envolvidos na tentativa de legalizar cerca de 75 mil hectares de floresta amazônica protegida nos últimos oito anos – essa área é duas vezes maior que a cidade de Belo Horizonte (MG).

“Em cada município, há talvez duas ou três pessoas que sabem tudo: quem é dono do que, quem está onde, quais são os preços. Também são essas pessoas que cadastram as propriedades no CAR e se ocupam do processo de regularização. Elas meio que controlam esse mercado”, explica a especialista em gestão fundiária do Imazon, Brenda Brito.

Funcionário do sindicato patronal de Novo Progresso fez mais de 600 registros no CAR desde 2015, sendo que ao menos 77 estão inseridos dentro de unidades de conservação na Amazônia (Guillaume Meigniez / Forbidden Stories)

Melo já foi multado por “prestar informação falsa no procedimento administrativo do CAR” de vários lotes no Pará (ele registrou mais de 600 áreas desde 2015). A multa de R$ 111,5 mil, imposta pelo Ibama em 2016, ainda não foi paga e é contestada judicialmente. A reportagem tentou entrevistar Melo por diversos meios, mas segundo seu sogro, ele não quis comentar.

Já Agamenon Menezes confirmou os registros no CAR, assim como suas ligações com Melo, de quem, além de sogro, é patrão. Ele diz que o sindicato tem parceria com o Incra para os registros no CAR e afirmou ainda ser “normal” o cadastro de áreas dentro de unidades de conservação. Sobre os quatro lotes queimados e registrados no CAR pelo sindicato, ele diz que não tem ingerência sobre as áreas e que o sindicato apenas repassa as informações recebidas dos proprietários.

Menezes é um dos investigados pelo Dia do Fogo após ter sido flagrado em um grupo de WhatsApp chamado “Sertão” combinando com outros fazendeiros e empresários a queimada da floresta. Em 2019, a PF realizou busca e apreensão em sua casa e no sindicato.

Investigado por organizar o Dia do Fogo, o presidente do sindicato dos produtores rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, é suspeito de usar a entidade para tentar legalizar terras queimadas (João Laet/Repórter Brasil)

Marketplace da grilagem

(Imagem: Anaïs Caura/ Forbidden Stories)

Uma das 77 áreas de preservação registradas por Melo no CAR se deu em favor de Nair Rodrigues Petry, que ficou conhecida em 2019 por acusar fiscais ambientais como responsáveis pelos incêndios.

Petry foi candidata a vereadora pelo PSDB em Guarantã do Norte, cidade do Mato Grosso na divisa com o Pará, em 2004 e 2016. Adotou o nome político de Nair Brizola, uma homenagem ao político gaúcho fundador do PDT. Em 2019, ela concedeu entrevistas dizendo que os responsáveis pelas queimadas eram fiscais do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). A declaração motivou o então presidente Jair Bolsonaro a determinar investigação da Polícia Federal sobre os agentes públicos, em mais um ato da agenda antiambiental do ex-presidente.

Dias depois da declaração, Petry foi multada em mais de R$ 1 milhão pela destruição da área no Dia do Fogo – são 71 hectares dentro da Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo.

Procurada pela reportagem, Nair Brizola afirmou que é proprietária da terra desde 1994, antes da criação da reserva. “Eu paguei pelo direito de estar aqui!”, ela diz. Também disse que não se lembrava de o terreno ter sido registrado no CAR, embora isso tenha sido feito por Wilmar Santos Melo em 2015.

Reprodução do anúncio feito por Nair Brizola em um grupo de Facebook para tentar vender um terreno dentro de uma área de proteção. Ao lado, cópia do auto de infração aplicado pelo ICMBio (Reprodução)

A investigação de Phillips e da Repórter Brasil em 2020 mostrou que Nair Brizola chegou a anunciar o terreno queimado no Facebook. Essa prática vem se multiplicando na maior rede social do mundo. Em um intervalo de três semanas, a investigação do Forbidden Stories identificou mais de 150 anúncios suspeitos de venda de terras griladas nos estados de Amazonas, Pará e Mato Grosso.

Um dos vendedores que oferecem terras na Amazônia a preços baixos se identifica como João. A equipe do Forbidden Stories fez contato com ele se passando como potencial cliente. Por R$ 1.200 por hectare, um preço três vezes inferior ao preço médio da terra d na região de Almeirim, no norte do Pará. João oferta fazendas que podem chegar a 8.000 hectares (ou mais de 8.000 campos de futebol).

A venda dessas terras é ilegal, por estar em área de preservação, porém está a mostra para todos. Muitas vezes, a terra colocada à venda é vasta, está parcialmente desmatada e não tem título de propriedade. Alguns anúncios oferecem terras a preços muito baixo, como R$ 450 por hectare, que equivale a 10 mil m².

João oferece também outros serviços. “Eu tenho como fazer a derrubada e queima [da mata] no meio de outubro, quando parar de chover. Queima por minha conta”, continua. “Quando chega dezembro e começa a chover novamente aqui na região, joga semente de avião, aí a fazenda está praticamente formada. O principal é derrubar”. Para limpar o terreno e semear o capim, João cobra R$ 800 por hectare.

Ele diz que já foi pedido ao Instituto de Terras do Pará (Iterpa) o título da propriedade do terreno, e envia documentos para provar que o processo está em curso e que, com um pagamento adicional de R$ 400 por hectare, a titulação fica pronta em seis meses. Sem isso, o processo pode levar até 20 anos. Procurado, o Iterpa não respondeu.

Anúncios no Facebook ofertam terrenos suspeitos de grilagem na Amazônia (Reprodução)

A equipe do Forbidden Stories conversou com oito vendedores de terra ativos no Facebook. Vários informaram que não possuíam um título de propriedade, o que é essencial para a venda de terras.

Quando a BBC revelou, em 2021, que o Facebook estava sendo usado para vender terras em Rondônia, a rede social se comprometeu a proibir a venda de terras protegidas na sua plataforma Marketplace.

Contatada pelo Forbidden Stories, a Meta informou que estava analisando os anúncios no Facebook Marketplace para “identificar aqueles que podem violar suas regras”, e reiterou que a plataforma proíbe “a venda de terras localizadas em unidades de conservação” em seus espaços comerciais. “Determinar se uma determinada área pode ser vendida envolve uma análise jurídica complexa, que compete aos tribunais locais”, acrescentou o porta-voz.

*Com pesquisa e análise de dados realizadas por Ruan Martins e Eduardo Goulart (OCCRP)


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].