O Rio de Janeiro como laboratório principal do Neoliberalismo de rapina

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Uma análise minimamente séria sobre a crise que abala o estado do Rio de Janeiro mostrará que o seu aspecto financeiro é apenas uma fachada para esconder um projeto político. Esse projeto político visa passar o patrimônio público para mãos privadas sem que seja feita qualquer consulta à população sobre a aderência a esse projeto de privatização do estado comandado pelo PMDB.

Mas algumas coisas são peculiares nesse modelo que eu considero um aprofundamento da agenda neoliberal, a começar pelo fato de que a transferência de enormes quantidades de riqueza acaba beneficiando quem está exercendo o poder. Os exemplos para isso não faltam, mas a política de generosidades fiscais é certamente uma prova de que a auto concessão de benesses está sendo feita sem sequer se esconder que quem concede é também o que recebe. Aí entram as cervejarias, as montadoras de carro, os restaurantes favoritos, a fabricante de jóias caras.

Outro aspecto desse modelo é a precarização dos serviços públicos como uma espécie de preparo para a entregue do que está sendo precarizado a grupos privados. A área da saúde é provavelmente a melhor expressão dessa precarização que beneficia aqueles que chegam para supostamente melhorar a qualidade do serviço que foi precarizado. Os vultosos valores concedidos às chamadas Organizações Sociais (OSs) estão em profundo contraste com a situação de penúria das unidades públicas de saúde.  

Poderia ir de exemplo em exemplo para comprovar a tese de que toda essa crise é parte de uma estratégia deliberada de aplicar uma agenda neoliberal de rapina, pois sequer há a preocupação de se preparar a regulação (ou sequer uma fachada disso) para passar o que é público para o privado. Apenas vai se transferindo, e ponto final.

Por essa razão é que temos de parar com respostas de varejo para um projeto que pretende modelar o saque ao Estado brasileiro que está sendo gestado pelo governo do presidente “de facto” Michel Temer e seu ministro-banqueiro Henrique Meirelles.  O principal erro que poderia ser cometido neste momento é, em minha opinião, pensar que a crise do Rio de Janeiro é simplesmente fruto da ação de um grupo de cleptocratas que se refastelam impunemente enquanto a maioria apenas assiste passivamente o ataque a tudo que é público. Ainda que existam elementos que confirmem essa face da moeda, eu diria que do outro lado há um projeto maior que é o de propiciar uma recolonização completa do Brasil, tendo o Rio de Janeiro como seu principal laboratório. E o caminho para isso é a precarização seguida de privatização que está ocorrendo a passos largos no Rio de Janeiro.

Desta forma, a reação a esse experimento tem que começar aqui e agora. Do contrário, teremos que conviver por muito tempo com as repercussões deste experimento que somente aprofundará as graves distorções sociais e econômicas que historicamente tornam o Brasil, e o Rio de Janeiro por extensão, uma das sociedades mais injustas e desiguais do planeta.

Meu nome é impeachment, mas pode me chamar de golpe ultraneoliberal

O imbróglio do impeachment de Dilma Rousseff continua gerando um número incalculável de afirmações e contra-afirmações entre apoiadores e opositores do processo comandado pelo “insuspeito” deputado Eduardo Cunha.

Mas se nos deixássemos toda essa conversa de lado para observar as práticas atuais do governo Dilma e da agenda de governo de Michel Temer (ou seria plano de (des) governo?) veríamos que está em marcha um formidável retrocesso nas chamadas agendas sociais e aberto um período de caça aos direitos dos trabalhadores.

A existência de pelo menos 55 projetos de lei no congresso nacional voltados para a diminuição de direitos trabalhistas é só a ponta de um iceberg que aos poucos vai mostrando a sua face a partir de declarações de pessoas como Armínio Fraga e Henrique Meirelles.

Entretanto, o próprio governo Dilma acena com recuos formidáveis nos direitos historicamente obtidos pelas lutas dos trabalhadores, ainda que num primeiro momento esteja concentrando seu fogo numa nova reforma da previdência social.

Em outras palavras, enquanto somos distraídos pelo debate do impeachment, ambos os lados da moeda estão dispostos a avançar sobre programas sociais e direitos trabalhistas para apaziguar os bancos internacionais e as agências de “rating” que o mundo financeiro criou para manter os Estados nacionais periféricos incapazes de formular agendas próprias de desenvolvimento.

Dentro desse caos político que agrava a crise financeira interna é importante não cair na balela deste falso “Fla x Flu”, pois quando a coisa é adotar um novo choque neoliberal no Brasil, a diferença efetiva é efetivamente apenas referente ao tamanho do ataque que será realizado aos trabalhadores e à juventude do Btasil.